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capítulos do nazismo I

SANTA CATARINA E A MULTIPLICAÇÃO DE CÉLULAS NEONAZISTAS

Extremistas no estado representam mais de um quatro dos 1 117 grupos catalogados no Brasil

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À medida que o comboio de cinco viaturas da Polícia Civil avançava pelas estradas de terra, molhadas pela garoa fina que caía no fim da madrugada de 14 de novembro passado, o delegado Arthur de Oliveira Lopes sentia-se mais ansioso. Aquela era até então a operação mais importante da Delegacia de Repressão ao Racismo e Delitos de Intolerância (DRRDI), unidade criada oito meses antes para conter o avanço de células neonazistas em Santa Catarina. Nos dias anteriores, as investigações descobriram que integrantes de um desses grupos promoveriam um encontro secreto naquele fim de semana, em um sítio na bucólica São Pedro de Alcântara, na Região Metropolitana de Florianópolis. O objetivo da ação era algo raro de se conseguir em uma operação policial: surpreender os suspei­tos em flagrante.

Ao amanhecer, os carros foram discretamente estacionados a cerca de 200 metros da entrada do sítio. Oliveira Lopes dividiu os dezesseis policiais em dois grupos e, por lados opostos, eles contornaram o sobrado, no centro da propriedade. Ao comando do delegado, um agente arrombou a porta principal, e os policiais invadiram a residência para cumprir o mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça. Oito homens que dormiam na casa – cinco em cômodos inferiores e três na parte de cima – foram acordados pela ação dos agentes. Ninguém reagiu. Foram colocados na varanda, de joelhos, e algemados com as mãos para trás. O delegado relaxou, mas ainda teria surpresas pelo caminho.

Nas buscas no sítio, o material apreendido chamou a atenção. Entre os itens de apologia ao nazismo, constavam trinta camisetas, cinco jaquetas, duas blusas de moletom, duas bandeiras e treze adesivos, todos fazendo alusão a facções neonazistas, supremacistas brancas e racistas. Havia também 36 livros, entre os quais, O Pensamento de Adolf Hitler e The Turner Diaries – uma distopia neonazista, ambientada nos Estados Unidos, que conta sobre um golpe de Estado liderado por brancos que se voltam contra negros e judeus. Por fim, além de duas facas e um canivete, havia um cartucho calibre .38 e quatro estojos de projéteis já deflagrados.

Quase todos os detidos tinham inúmeras tatuagens, algumas explicitamente ligadas ao neonazismo, como a Totenkopf (a caveira símbolo da SS, braço armado do Partido Nazista), o “sol negro” (comum entre grupos neonazistas), a cruz celta (insígnia usada por supremacistas brancos e neonazistas) e a inscrição White Power (também ligada a supremacistas). “Eles parecem gibis do neonazismo”, diz o delegado Oliveira Lopes. “São muitas tatuagens emblemáticas, inclusive em locais visíveis. É como se tivessem orgulho de ser neonazistas. Até ali, tudo já indicava que estávamos diante de algo grande.”

Porém havia mais. Em conversa preliminar com os detidos, o delegado percebeu que o grupo era mais relevante do que imaginara. Um deles revelou que respondia por um duplo homicídio. Era o personal trainer João Guilherme Correa, de 32 anos, acusado de participação no assassinato a tiros de um casal que voltava de uma festa em comemoração aos 120 anos de Hitler, realizada em 2009, na Região Metropolitana de Curitiba. Segundo a polícia, o crime tinha sido motivado por uma disputa entre grupos extremistas. Uma das vítimas, Bernardo Dayrell Pedroso, de 24 anos, era o fundador da revista online O Martelo, de temática neonazista.

Outro detido, Laureano Vieira Toscani, de 37 anos, usava uma tornozeleira eletrônica. Já tinha sido condenado a treze anos de prisão por tentativa de homicídio no ataque a três jovens judeus, em Porto Alegre, em 2005. Segundo a polícia, Toscani integrou o grupo skinhead Carecas do Brasil e tem uma extensa ficha criminal, que inclui o espancamento de um jovem negro, a tentativa de homicídio de um agente de segurança – também negro – e tráfico internacional de armas. Outros dois presos também tinham passagem pela polícia, inclusive por crime de preconceito religioso.

Ainda no sítio, os policiais acessaram os celulares dos acusados e encontraram elementos sobre as conexões da célula neonazista. Todos faziam parte do grupo Support 38, criado por Correa, no Telegram, e administrado pelo empresário moçambicano Miguel Ângelo Gaspar Pacheco, de 48 anos, também detido na operação. O Support 38 é um grupo de apoio aos Hammerskins, célula de supremacistas brancos criada em Dallas, nos Estados Unidos, na década de 1980. (A codificação dessas organizações é toda uma elaboração: o número 38, que sempre aparece, é uma referência à terceira letra do alfabeto – C – e à oitava – H –, sendo que CH vem a ser a sigla de crossed hammers, ou martelos cruzados, o símbolo dos Hammerskins.)

O arquivo dos celulares mostrou as relações do grupo fora do Brasil, principalmente com neonazistas na Europa e nos Estados Unidos. Em uma foto localizada em seu aparelho, Correa aparece ao lado de quatro homens em frente à Torre Eiffel, em Paris, ostentando uma bandeira com a cruz suástica. Há imagens dele em outros países, como Portugal, França e Rússia. Na delegacia, Correa foi o único a admitir que há seis anos o grupo todo integra uma rede internacional. E mais: sua célula acabou de subir um degrau na hierarquia dos Hammerskins, tornando-se um “capítulo” – uma espécie de franquia, com autonomia para usar os símbolos da rede na América do Sul. Foram chamados de Southlands Hammerskins – e já tinham até camisetas estampadas com o nome da facção.

“Prender esses grupos em flagrante é uma coisa muito rara, difícil de acontecer. Mas quando o João Guilherme [Correa] se identificou, eu pensei: ‘Meu Deus! Pegamos um dos responsáveis pelo caso mais emblemático de disputa entre grupos neonazistas’”, disse o delegado, referindo-se ao duplo assassinato cometido após a festa hitlerista. “Ele era um dos mais altos na hierarquia do grupo. Os outros perguntavam a ele que símbolos poderiam ser usados. O Laureano [Toscani] também é uma referência, inclusive mencionado em jornais neonazistas que circulam na Alemanha”, completou Oliveira Lopes. “Naquele dia, saí da delegacia quase à meia-noite. Mas fui dormir tranquilo, com a sensação de dever cumprido. Era um grupo a menos.” Posteriormente, no fim de março, outros dois homens que participaram do encontro neonazista também foram presos. Todos os dez permanecem detidos aguardando julgamento por associação criminosa, apologia ao nazismo e racismo.

Com apenas 3% da população brasileira, Santa Catarina lidera o avanço do neonazismo no Brasil. Em um ano – de 2021 para 2022 –, o número de grupos neonazistas identificados em terras catarinenses mais do que dobrou: são 320 células ativas, o que representa mais de um quarto dos 1 117 grupos catalogados no país. Apenas em Blumenau, cidade de 365 mil habitantes, são 63. Só perde para São Paulo, a capital com 12 milhões de habitantes e 96 células neonazistas. Os dados não são oficiais. Fazem parte do monitoramento realizado pela antropóloga Adriana Dias, uma referência no estudo de grupos extremistas, que faleceu de câncer em janeiro deste ano. O mapeamento vinha sendo feito a partir de aplicativos, grupos e fóruns na internet e, principalmente, na deep web – a zona mais sombria da internet.

A explicação para essa proliferação de células totalitárias tem raízes na história. São Pedro de Alcântara, escolhida como sede do encontro dos oito neonazistas presos, tem apenas 6 mil habitantes, é crivada de construções de arquitetura germânica e detém um pioneirismo: é a primeira colônia alemã de Santa Catarina, fundada em 1829. Na praça em frente à prefeitura, uma estátua celebra os colonos, mostrando uma família de imigrantes – o casal, três crianças e um cachorro. Principalmente nas comunidades rurais, ainda se falam três dialetos, sobretudo o Hunsrückisch, originário do sudoeste da Alemanha, de onde vieram os pioneiros. Nos anos seguintes, outras colônias alemãs se formaram e deram origem a cidades como Blumenau, Joinville e Pomerode – esta, com 35 mil habitantes, conhecida como “a cidade mais alemã do Brasil”.

Quase ao mesmo tempo em que os primeiros alemães chegaram, Santa Catarina passou a receber levas de imigrantes da Itália, vindos principalmente do Norte do país. As colônias italianas também viraram municípios, como Nova Trento, Nova Veneza e Urussanga. Os alemães e italianos que aportaram no Brasil no curso do século XIX estavam fugindo de crises econômicas e vinham em busca de uma vida melhor. Chegaram por aqui muito antes do surgimento do nazismo na Alemanha ou do fascismo na Itália.

As coisas mudaram no início do século XX, quando Santa Catarina continuou a receber correntes migratórias da Itália e da Alemanha, mas agora como parte de um projeto do Estado brasileiro para “embranquecer” a população do país. “O branqueamento é explícito no projeto de colonização do Brasil”, observa o historiador René Gertz, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-doutor pela Universidade Livre de Berlim e autor de O Fascismo no Sul do Brasil. Esses novos imigrantes chegaram ao Brasil carregando na bagagem o nacionalismo fervoroso que se espalhava pela Itália e a Alemanha.

Em 1928, cinco anos antes da ascensão de Hitler, o nazismo aportou oficialmente nas terras catarinenses. Foi então que Santa Catarina tornou-se o primeiro estado a ter uma seção do Partido Nazista no Brasil, fundada em Benedito Timbó, então um distrito de Blumenau. A seção também foi a primeira fora da Alemanha a ser reconhecida pelo NSDAP, o partido de Hitler. Funcionava, na prática, como uma sucursal do NSDAP. Não era inscrita na Justiça Eleitoral e não participava de eleições. A filiação era mais uma forma de manter vínculo com o país de origem e aproximar pessoas com a mesma identidade política.

Nos anos seguintes, a seção brasileira do Partido Nazista expandiu sua influência para outras cidades catarinenses e outros estados, como Rio de Janeiro e Espírito Santo. Chegou a ter 2 903 filiados – o que correspondia a cerca de 3% do total de imigrantes alemães residentes no Brasil na época. Era pouca gente, mas as células tinham boa organização. O movimento chegou a contar com jornais – os mais conhecidos foram o Deutscher Morgen (Aurora alemã) e o Blumenauer Zeitung (Jornal de Blumenau) e há inúmeras fotos em preto e branco mostrando desfiles com os integrantes do partido, todos paramentados com símbolos nazistas, nas cidades catarinenses de Blumenau e Ibirama.

Até então, o controle político de Santa Catarina era disputado por duas oligarquias: a família Konder, cujo reduto ficava na região do Vale do Itajaí, onde se concentravam as colônias alemãs e italianas, e a família Ramos, apoiada sobretudo pelo setor industrial. Na década de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas – apoiado pelos Ramos –, passou a haver uma perseguição violenta aos Konder e às regiões onde os colonos se estabeleceram. No meio da disputa entre as duas oligarquias, essas colônias encontraram uma alternativa política num grupo que ganhava adesão crescente no estado: a Ação Integralista Brasileira (AIB), a legenda do fascismo à brasileira, criada em 1932.

O integralismo uniu as colônias alemãs e italianas e lhes proporcionou uma projeção no campo político, coisa que, por exemplo, não aconteceu no Rio Grande do Sul, apesar de também ali a imigração alemã e italiana ser tão relevante. O historiador René Gertz colheu dados concretos. Na eleição de novembro de 1935, por exemplo, as colônias alemãs em terras gaúchas elegeram apenas quatro vereadores integralistas. Em Santa Catarina, na disputa de março de 1936, foram 8 prefeitos e 72 vereadores. Com o fim do Estado Novo, em 1945, os catarinenses continuaram na mesma toada e elegeram sete deputados estaduais integralistas. A novidade atraiu muitos jovens – entre 25 e 35 anos –, com aspirações de ascensão social.

“A integração política dos alemães em Santa Catarina foi muito mais profunda”, diz Gertz. “O Rio Grande do Sul até hoje não teve nenhum governador titular de sobrenome alemão, apesar de toda importância socioeconômica da colônia para o estado. Em Santa Catarina, desde a Proclamação da República, tivemos onze governadores titulares de sobrenome alemão.” Ele prossegue: “Os integralistas catarinenses não eram colonos de ‘picada’, que não falavam português. Isso é asneira. Eram jovens comerciantes ou que tinham uma fabriqueta e queriam ascender. Era um fenômeno essencialmente urbano.”

A proliferação atual de células neonazistas em Santa Catarina, no entanto, não é por causa dos imigrantes alemães. Existe uma mística do passado catarinense – com suas colônias, a tradição, a arquitetura e mesmo a história política, desde a seção pioneira do Partido Nazista até a força dos integralistas locais – que fascina os neonazistas de todo o Brasil. (Outra mística está relacionada à velha lorota histórica de que Hitler não se suicidou no bunker em Berlim, mas fugiu para o Brasil e está enterrado em algum canto em Santa Catarina.) Para os neonazistas brasileiros, Santa Catarina é o eldorado. Entre os oito presos na operação em São Pedro de Alcântara, só um era catarinense. Além do moçambicano, havia quatro gaúchos, um paranaense e um mineiro.

“Tem casos de presos fazendo associações absurdas, colocando Santa Catarina como habitat de uma raça superior, por ter tido migração alemã e italiana. Essa mística é inerente a esses grupos”, diz o delegado Oliveira Lopes. Ele se lembra de um caso pitoresco: “Tivemos um preso que é pardo e pregava o neonazismo. Virava chacota inclusive no próprio grupo.” Para o professor Gertz, “a falha educacional dessas pessoas parece ser o ponto principal”.  Ele também alerta que fazer uma associação direta entre a existência das colônias e os grupos neonazistas é “um erro grotesco”.

Santa Catarina virou o epicentro neonazista pela confluência desse equívoco histórico com uma realidade brasileiríssima – a impunidade. Pouco antes de morrer, a antropóloga Adriana Dias, que monitorava o movimento no Brasil, deu entrevistas estabelecendo uma relação direta entre a disseminação desses grupos totalitários e a leniência legal com que são tratados. Ela mencionou o fato de que João Guilherme Correa, um dos oito presos em São Pedro de Alcântara, respondia em liberdade pelo duplo homicídio do qual é acusado há quase catorze anos.

“As células no Sul do país começam em cidades pequenas, com a negação do Holocausto. Aí, vão se transformando em células hitleristas, da Ku Klux Klan ou outros tipos”, disse a antropóloga, ao canal DCM TV, no YouTube. “Se você não pune os líderes, obviamente elas vão crescer mais.” Em Santa Catarina, além da criação da DRRDI, a delegacia de repressão, em março de 2022, o Ministério Público Estadual também optou pela especialização. Em outubro do ano passado, designou a 40ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital para combater crimes de intolerância e racismo. “A intenção é aplicar a lei com agilidade para que tenha caráter educativo e punitivo”, disse o promotor Rodrigo Millen Carlin, responsável pela 40ª Promotoria.

A estrutura, porém, é ainda precária. A DRRDI tem um delegado, três investigadores e uma escrivã. A pequena equipe trabalha com computadores emprestados pela Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic), cuja capacidade de processamento não é adequada para rodar dispositivos de extração de dados, tão importantes para agilizar as investigações. Os laudos do Instituto de Criminalística demoram. A perícia dos dez celulares, dois HDs, um pen drive e um cartão de memória apreendidos na operação em São Pedro de Alcântara chegaram apenas na segunda semana de março, quatro meses depois da operação.

Como acontece em todas as esferas do crime no Brasil, os criminosos são mais ágeis que os policiais. E o combate à ascensão de neonazistas não é exceção. “É uma realidade das polícias em todo o país”, lamenta o delegado Oliveira Lopes. “Infelizmente, esses grupos estão se organizando por aí. Tem muitas células em São Paulo, no Paraná… O Rio Grande do Sul tem um movimento skinhead muito forte. E aqui em Santa Catarina a atividade dessas células é histórica.” O pior é quando a impunidade resulta em condescendência.

O historiador Michel Ehrlich, coordenador de história do Museu do Holocausto, em Curitiba, também se incomoda com a tolerância excessiva a esses crimes. “O neonazismo está profundamente relacionado ao racismo contra negros e indígenas, na radicalização contra nordestinos, no ódio contra as mulheres e homossexuais. Isso vai escalando. O Holocausto não começou com aquelas imagens horrorosas dos campos de concentração. Começou com a tolerância ao ódio.”

Em 2014, tornou-se público o caso do professor de história Wandercy Antônio Pugliesi, de Pomerode. Em sua casa, o fundo da piscina exibia o imenso desenho de uma suástica, uma evidente apologia ao nazismo. Sete anos mais tarde, o caso foi arquivado, após Pugliesi descaracterizar o símbolo. Mas o processo foi reaberto depois que o professor fez uma nova obra e decorou o fundo da piscina com o número 88, considerado um código neonazista: a repetição da oitava letra do alfabeto (HH) é uma referência à saudação Heil, Hitler. Nas últimas eleições, Pugliesi candidatou-se a vereador pelo PL, mas acabou retirando a candidatura.

Em outubro de 2020, Daniela Reinehr assumiu interinamente o governo de Santa Catarina, quando o titular, Carlos Moisés, foi afastado do cargo para responder a um processo de impeachment. Na entrevista depois da posse, saiu-se com uma evasiva quando perguntaram a ela se concordava com as posições de seu pai, o professor de história Altair Reinehr, um notório negacionista do Holocausto. Foi preciso uma forte repercussão negativa, de âmbito nacional, para que a nova governadora voltasse a público para dizer, dessa vez de forma clara, que não compactuava com o nazismo.

Em novembro, noticiou-se o caso da universitária M.E., que, ao cruzar o portão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi abordada por um rapaz que usava um bóton com a insígnia da SS: “Sua suja! Volte para o Nordeste.” A moça não denunciou à polícia e nada aconteceu ao rapaz. Na semana anterior, circulara no campus uma carta com uma coleção de intolerâncias: “Nós iremos destruir todos vocês. Gays, negros, mulheres feministas, gordas, amarelos. Iremos limpar a universidade e fazer um mundo melhor para nossos filhos e netos.” O texto vinha assinado por “SS”. Os criminosos nem sequer foram identificados.

No mês seguinte, em Itajaí, também no litoral catarinense, começou a circular um e-mail que exigia o cancelamento da Primeira Mostra Haiti de Cultura, organizada pelo município. Assinado por “Sieg Heil 14/88”, o texto pressionava pela expulsão de todos os haitianos dos estados da região Sul e ameaçava: “Cancelem a Mostra Haiti ou faremos uma chacina. […] Será o primeiro ato para a purificação racial do Reich Catarinense. […] Santa Catarina é terra DE BRANCOS E PARA BRANCOS.” Como a mostra foi mantida e transcorreu sem violência, os autores do e-mail não foram identificados.

Na noite de 12 de abril do ano passado, os policiais de São Miguel do Oeste, cidade de pouco mais de 40 mil habitantes, suspeitaram da movimentação de um carro com dois ocupantes. Na revista do carro, encontraram uma balança de precisão e dinheiro – sugerindo tráfico de drogas. Na casa de um deles, Douglas Alexandre Einsweiler da Conceição, encontram maconha e sementes de planta, mas também uma bandeira vermelha com a suástica, peças para a fabricação de uma arma de fogo feitas em impressora 3D e um manual para montagem do artefato.

Assim que recebeu os laudos periciais dos celulares, notebooks, pen drives e cartões de memória apreendidos, a DRRDI encontrou indícios – fotos, vídeos, mensagens – indicando que Conceição integrava uma célula neonazista, com integrantes espalhados pelo estado. A polícia identificou outros cinco. Numa operação deflagrada em 20 de outubro, seis meses depois da batida policial no carro, os cinco foram detidos, juntando-se a Conceição e seu comparsa. Presos preventivamente, os seis respondem pelos crimes de racismo e disseminação de ódio com arma de fogo. Quatro dos réus eram alunos da UFSC.

As investigações revelaram que a célula se reunia com frequência desde pelo menos 2020. Nos encontros, registrados em fotos e vídeos, discutiam a disseminação de ideias nazistas e pregavam o ódio contra judeus, negros, nordestinos, mulheres e homossexuais. Um vídeo mostra um integrante tendo a cabeça raspada, no que parece ser um ritual de iniciação. Outro exibe uma bomba explodindo uma televisão em cuja tela havia a caricatura de um judeu. Em outro, ainda, vários integrantes disparam armas de fogo e gritam lemas em alemão.

Um integrante da célula, Thaylor Henrique Lambrecht Caldas, aparece nas imagens com colete balístico, uniforme militar e, aparentemente, um fuzil. No cotovelo esquerdo, ele tem a tatuagem do “sol negro”, um dos símbolos dos grupos neonazistas. O curioso é que, em 2015, a mãe de Caldas registrou um boletim de ocorrência, alegando que seu filho estaria sendo vítima de “ameaças e calúnias” na escola, ao ser chamado pelos colegas de nazista.

Mas o que deixou a polícia mais preocupada é que, no meio do material apreendido, havia mensagens entre os integrantes com ameaças a grupos diversos, e vasto conteúdo relacionado à fabricação de armas em impressoras 3D. As trocas de mensagens sugerem que eles preparavam um atentado terrorista. “Ao que tudo indica, trata-se de um grupo armado, paramilitar, com claras intenções ideológicas de cunho neonazista, associados e reunidos com o mesmo fito, o de promover a divulgação na rede mundial de computadores, da existência em Santa Catarina de uma célula da temida SS (Schutzstaffel), pronta para agir a qualquer momento”, diz a denúncia aceita pela Justiça.

Duas semanas depois da operação de 23 de outubro, o espectro do neonazismo reapareceu em São Miguel do Oeste. Em 2 de novembro, três dias depois da vitória eleitoral do presidente Lula, uma multidão de bolsonaristas inconformados com a derrota de seu candidato não arredava pé da frente do 14º Regimento de Cavalaria Mecanizado, a base do Exército no município. No fim da manhã, os manifestantes – a maioria de verde-amarelo e portando bandeiras do Brasil – cantaram a plenos pulmões o Hino Nacional. O detalhe: todos com o braço direito estendido, à maneira da saudação nazista.

Um vídeo da manifestação viralizou em escala nacional. A Confederação Israelita do Brasil repudiou o ato dos bolsonaristas, o que também foi feito pelo Museu do Holocausto e pelas embaixadas de Israel e da Alemanha. O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público abriu uma investigação. A vereadora Maria Tereza Capra (PT), que estava recolhida com uma virose, recebeu o vídeo e indignou-se. Gravou uma resposta de 2 minutos e 49 segundos. Postou no Instagram, mas retirou do ar uma hora depois: recebera uma avalanche de ameaças violentas.

Capra foi alvo de uma moção de repúdio, aprovada pela Câmara de Vereadores, numa sessão tumultuada pela presença de bolsonaristas inflamados no auditório. (O então presidente da Câmara, Vanirto Conrad, do PDT, foi apontado pela polícia como um dos organizadores da manifestação bolsonarista.) “Seguiram à risca o Malleus Maleficarum [O Martelo das Bruxas, um manual do século XV usado pela Inquisição]”, disse Capra. “Foi um horror o que fizeram comigo. Lotaram a Câmara, violentos, gritando absurdos contra mim, com a conivência dos meus colegas. Só faltou levarem as tochas.”

Como as ameaças não recuaram, Capra deixou a cidade, levando consigo o pai, a filha, o filho e uma sobrinha de 8 anos. Refugiou-se no Rio Grande do Sul, de onde só voltou no dia 3 de fevereiro, a tempo de participar da sessão que cassou seu mandato – placar de 10 a 1. O voto contra foi o dela própria. Em seguida, tornou a sair da cidade. Quatro vereadoras catarinenses que apoiaram Capra também receberam ameaças de morte e uma enxurrada de agressões. Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra de Joinville, foi alvo de xingamentos racistas. A vereadora Giovana Mondardo (PCdoB), de Criciúma, recebeu ofensas sexistas. “Eles combinaram de nos matar”, disse ela. “Mas nós combinamos de não morrer.” Mondardo vendeu seu carro e adotou medidas de segurança pessoal.

Por fim, o Gaeco, numa investigação rápida, concluiu que a saudação nazista não era uma saudação nazista. O gesto aconteceu, segundo os investigadores, depois que os presentes foram “conclamados pelo locutor do evento, empresário local, a estenderem a mão sobre o ombro da pessoa à sua frente ou, se não houvesse, para que estendessem o braço, a fim de ‘emanar energias positivas’”. Ehrlich, do Museu do Holocausto, não entra no mérito da investigação, mas afirma: “Nunca saberemos as intenções de quem puxou esse gesto. Mas o que temos, de fato, é que esse gesto comunica a mensagem de uma saudação nazista. As pessoas, no mínimo, não se importaram de parecer nazistas, o que, por si só, já é um problema. Preocupa pela mensagem que isso passa para as células neonazistas. Normaliza. Mostra que é possível fazer uma saudação nazista e sair impune.”

A multiplicação de grupos neonazistas em Santa Catarina e em outros estados do Brasil é parte indissociável da ascensão de ideias reacionárias nas democracias ocidentais. Em alguns países, como Hungria e Polônia, os autocratas chegaram ao poder. Em outros, como Alemanha e França, os movimentos extremistas de direita ganham cada vez mais expressão eleitoral. No Brasil, os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro impulsionaram a extrema direita – e, no seu rastro, vieram à tona todos os lixos do preconceito e da intolerância.

Em Santa Catarina, o bolsonarismo caiu no gosto da maioria. Em 2018, Jair Bolsonaro teve uma votação consagradora no estado: 75,92%. Quatro anos depois, perdeu a eleição no país, mas fez 69,27% dos votos no eleitorado catarinense. E Bolsonaro já era o que é muito antes dos dois pleitos. Em 1998, duas décadas antes de chegar a presidente, ele colecionava episódios de flerte com ideias nazistas. Em discurso, defendeu alunos de uma escola gaúcha que elegeram Hitler como “personagem histórico mais admirado”. Deixou-se fotografar com um programador de computadores chamado Marco Antônio Santos, que vestia farda com adereços nazistas, cabelo e bigode no estilo hitlerista. Em 2011, depois de dar declarações homofóbicas ao extinto programa CQC, da Band, Bolsonaro recebeu – e não recusou – manifestação de apoio convocada por um grupo nazista paulistano. Sete anos antes, em carta enviada a um grupo nazista, havia afirmado: “Vocês são a razão da existência do meu mandato.” A carta foi publicada no The Intercept Brasil.

No Palácio do Planalto, Bolsonaro recebeu Beatrix von Storch, neta de um ministro de Hitler e uma das lideranças da extrema direita alemã. Numa foto, aparece sorridente ao lado dela. Em visita a Israel, ainda como presidente, visitou o Memorial do Holocausto e recorreu a uma falsificação histórica ao associar o nazismo à esquerda – no que foi corrigido pelo próprio museu. Nunca se constrangeu de cercar-se de uma estética fascista – seja usando o slogan desse movimento (“Deus, pátria e família”), bradando o bordão “Brasil acima de tudo” (que remete ao Deutschland über alles, adotado pelo nazismo), fazendo motociatas à Mussolini ou bebendo, numa live, um copo de leite, o código usado pelos supremacistas brancos.

A extrema direita bolsonarista nunca se apresentou como força de caráter neofascista ou neonazista, mas também nunca se preocupou em desestimular seu avanço. “O saldo é preocupante”, avalia Ehrlich, do Museu do Holocausto. “Vemos uma extrema direita se articulando dentro das instituições, principalmente em cargos eletivos. Ao mesmo tempo, existe uma direita neonazista à margem da lei ou do que é aceito socialmente. Mesmo que não haja uma explicitação de vínculos entre essas duas esferas, esses polos se fortalecem mutuamente. O discurso extremista ganha força.”

Em meados de março, um acontecimento trivial veio comprovar essa contaminação e a necessidade de combater as ideias neonazistas. Em Porto Belo, no litoral catarinense, a equipe do delegado Arthur de Oliveira Lopes prendeu um jovem de 19 anos, que fazia apologia ao nazismo e disseminava ódio aos negros e judeus nas redes sociais. Seu histórico já era complicado. Ele promoveu um episódio de violência na escola – em que agrediu fisicamente uma professora – e não admitia ser ensinado por um professor negro. O rapaz, cuja identidade não foi divulgada, estava envolvido com grupos neonazistas. Quando tinha 13 anos, foi recrutado enquanto jogava videogame. Os jogadores conversavam por meio de chats enquanto jogavam e, de conversa em conversa, criou-se um neonazista.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_200 com o título “Eldorado do extremismo”.


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É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)