diário do alckmin
Mai 2023 16h22
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1º DE MAIO_“Proletários de todos os países, uni-vos! Vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões.” Foi assim que a Lu me acordou nesse dia tão importante para os trabalhadores. Abraçados, cantamos: “De pé, vítimas da fome. De pé, famélicos da terra.”
Confesso que ainda não entendi muito bem o que faz um vice-presidente e o que faz um sindicalista, mas eu e Lu estamos empenhados em aprender. Tenho me sentido um pouco isolado, preciso me enturmar com o pessoal da repartição. Uma vantagem em relação à turma do Fernando Henrique é que aqui eu não preciso fingir que entendo de vinho.
2 DE MAIO_Alguns colegas maldosos me consideram um cubo: de qualquer ângulo que se olhe, dizem, eu sou quadrado. Macacos me mordam! A verdade é que sou um pintalegrete irreverente que adora refletir sua ousadia na escolha do par de meias.
Hoje, ao receber o embaixador do Marrocos no Brasil, todos esperavam meias vermelhas. Qual o quê! Meu espírito moleque falou mais alto e fui de azul-claro com losangos brancos. #vidaloka
Dia cheio, cheguei exausto em casa. Pedi um copo d’água pra Lu. Ela respondeu que eu mais parecia um instrumento do patriarcado. Gosto de ver a Lu empenhada em nos educar.
3 DE MAIO_Pude demonstrar meu humor inteligente para o presidente Lula. Numa reunião no Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), disse que o Lula do ABC passa a ser também o Lula do CBA. Não é todo mundo que tem essa presença de espírito. Ponto para mim.
De tarde, Simone Tebet me contou um segredo de Estado: “Geraldo, todos os ministros estão num grupo de WhatsApp chamado ‘Comintern’. Todos menos a gente.” Engoli em seco. Preciso acelerar meu projeto de socialização.
5 DE MAIO_Lula viajou para a coroação do rei Charles e quem vai ficar no trono do Brasil é o Geraldo I aqui. Tô com tudo e tô prosa! Estou lustroso de felicidade! Isso merece uma comemoração em grande estilo. Abri minha gaveta da sorte e desembrulhei com gosto meu bombom Caribe. Ainda bem que a validade ia até amanhã. Enquanto mastigava, pus Stayin’ Alive pra tocar no celular. Ouvi com meus fones de ouvido, fazendo os gestos daquele filme. Sou de morte!
Não me contive. Botei a faixa presidencial e fiz um vídeo Zap com a Lu: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digo ao povo que fico”, declarei, com a câmera apenas no meu rosto. E depois de uma pausa cômica, abri o enquadramento e completei: “Geraldão de faixa presidencial exala libido!” O olhinho dela brilhou, mas me disse que achou a brincadeira “um pouco heteronormativa demais”.
Pra deixar claro que não vim pra ser apenas paisagem, retuitei com gosto minha primeira medida como Geraldão I: “Caiu em 56% o valor da taxa obrigatória cobrada para a fiscalização do Inmetro de cronotacógrafos.”
6 DE MAIO_Deixei vazar o boato de que criaria um Politburo. Agora quero ver o pessoal não me chamar para aquele grupo de WhatsApp. Um dia de Matilde, outro de Clotilde.
7 DE MAIO_Domingão livre com a patroa. Dia perfeito para participar da live “Teatro húngaro e o decolonialismo pós-cênico no Brasil: nexos, elipses e amálgamas”. Recomendação do Boulos.
8 DE MAIO_Tenho me empenhado pessoalmente na política econômica do governo. A verdade é que poucas expressões me trazem mais paz de espírito do que “arcabouço fiscal”. Toda vez que ouço, meus chacras se realinham.
Tenho visto vídeos do Flávio Dino diariamente. São aulas de oratória num invejável encadeamento de ideias esquerdizantes.
9 DE MAIO_Resolvi testar o método Flávio Dino e as ideias esquerdizantes no canal que julguei mais adequado. Recebi a equipe da TV Aparecida para gravar minha participação no Aparecida Debate. Lu disse que ainda tenho o que melhorar, observou que eu sentei um pouco troncho na cadeira e que isso pode ter retraído meus gestos. Mas disse que encaixei muito bem a palavra “mais-valia” numa das respostas.
10 DE MAIO_Reunião com Alexandre Padilha e Gleisi. Cheguei cantarolando Volver a los 17, da Mercedes Sosa. Olhei de soslaio para a Gleisi e notei seus olhos marejados. Ponto pra mim. No final da reunião, ela me chamou num canto e perguntou como seria o Politburo que eu estava pensando.
Cheguei em casa eufórico. Lu e eu brindamos com uma chicha boliviana.
11 DE MAIO_Resolvi tirar o final do dia para me reconectar. Comecei relendo a bula do Bálsamo Bengué. Sempre me acalma. Depois, debati o impacto dos emolumentos no novo marco fiscal. Terminei o dia em Ribeirão Preto no encontro do Congresso Estadual de Municípios. Estou renovado.
13 DE MAIO_Outra data importante que eu não poderia deixar passar. Vim à Feira Nacional da Reforma Agrária, do MST, e fui recebido pelos campesinos aos gritos de “Alckmin, guerreiro do povo brasileiro”. Muito me honrou o convite do João Pedro Stédile para ser garoto-propaganda de uma marca de chuchu orgânico.
16 DE MAIO_Como agente apaziguador da luta de classes, bati uma bela chuleta com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Caramba, cassaram o Deltan. Vão atrás do Moro. Collor tá em apuros e o PSDB hoje tá mais desimportante que a programação da Rede TV. Ainda bem que dei ouvidos àquela cartomante guatemalteca que me orientou a ler o Manifesto Comunista.
17 DE MAIO_Gleisi entrou na minha sala esbaforida: o presidente do Equador dissolveu o Congresso! Avisou que o Foro de São Paulo ia fazer uma videoconferência em vinte minutos para ver se emplacava um camarada de esquerda para substituir aquele “lacaio do capitalismo Guillermo Lasso”. Com o Lula voando para o Japão, quem iria participar era euzinho aqui. Gleisi então me deu uma boina vermelha, um charuto, um casaco de general e uma barba postiça, segundo ela, para o meu visual “não causar ruído”.
Em vinte minutos, estava prontinho da silva. Era, finalmente, minha chance de entrar no clube. Liguei a câmera, acendi o charuto. Para minha surpresa, do outro lado estavam Gleisi, Mercadante, Flávio Dino e Rui Costa. Caíram na gargalhada assim que me viram. Era uma pegadinha! Deu para ver o Mercadante fazendo print da minha imagem. Meu Deus, esse pessoal não tem mais o que fazer?
19 DE MAIO_Reunião com Marina para falar da decisão do Ibama. Antes de recebê-la, assisti a uns vídeos da Greta para entrar no clima. “Sextas-Feiras pelo Futuro!”, anunciei, quando Marina entrou. Ficou um silêncio. “É que hoje é sexta”, expliquei. “Ah”, ela disse.
Lu acha que com o tempo eu vou conseguir me entrosar. Concordamos que Marina estava muito elegante com sua blusa ocre. Eu, se visto ocre, fico parecendo uma cenoura.
20 DE MAIO_Entrei no elevador junto com a Sonia Guajajara. Ficou aquela falta de assunto, então lancei: “Minha rodovia preferida é a Anhanguera.” Ela sorriu. Acho que fui bem.
21 DE MAIO_Lu, que é muito aplicada, consultou uns livros e me disse que Anhanguera significa “diabo velho”. “Você precisa ter mais cuidado antes de empregar essas palavras indígenas”, me alertou, “cheque o seu privilégio.” Como tudo isso é difícil, meu Deus.
22 DE MAIO_Diacho. Me dei conta que Pindamonhangaba também é uma palavra tupi. Lu não tem dúvida: “É apropriação!” Será que a Sonia sabe que fui prefeito de lá? Preciso me desculpar? Dona Ruth me orientaria sobre o que fazer. Dos tucanos, ela era a única que conversava comigo.
25 DE MAIO_Brilhei na tevê anunciando os subsídios de carro popular. Vou sugerir um próximo passo aqui pra me enturmar: produzir a nova linha do Trabant.
(Continua na próxima edição da piauí)
Por Renato Terra