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BIENAL DO MUNDO NOVO

Os primeiros curadores negros da mostra de arte em São Paulo
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A baiana Diane Lima chegou sorridente à sala de reuniões no terceiro andar do Pavilhão Ciccillo Matarazzo – seu local de trabalho regular pelos próximos meses –, no Parque Ibirapuera. Seus cabelos crespos, na altura dos ombros, balançavam com delicadeza. Ela tinha acabado de participar naquela quarta-feira, dia 26 de abril, de uma bateria de entrevistas com a imprensa sobre a lista parcial de artistas da 35ª Bienal de São Paulo. Ao lado do antropólogo Hélio Menezes – também baiano –, da artista e escritora portuguesa Grada Kilomba e do historiador de arte espanhol Manuel Borja-Villel, ela integra o quarteto responsável pela curadoria do mais importante evento de arte do país, que será aberto em setembro.

Nas entrevistas, alguns temas dominaram a atenção dos jornalistas. A composição étnica do quarteto de curadores foi o principal, por seu ineditismo. Borja-­Villel é o único branco no time. Desde que foi criada a posição de curador-chefe da Bienal, na 16ª edição, em 1981, nunca houve uma pessoa negra no cargo.

Outro assunto relevante foi que a Bienal será comandada por um coletivo, na tentativa de dissolver, justamente, a figura todo-poderosa desse curador-geral. Falando pelo quarteto, Menezes ressaltou que entre os curadores haverá uma “lógica horizontal na tomada de decisões, sem divisões, sem hierarquias”.

Em poucas frases, Diane Lima reconstitui grande parte de sua genealogia: “Minha tataravó era parteira. Sou neta de Dagmar, filha de Danusia, sobrinha de Darlucia, bisneta de dona Catarina. Meu bisavô tocava tuba, meu tio, trompete. Meu avô foi baterista.” Seu pai não esteve presente em sua formação, mas o avô e um tio foram figuras marcantes. Ainda assim, a presença feminina se impôs na casa: “Não falávamos sobre feminismo, mas vivíamos a partir desse olhar.”

A curadora nasceu há 36 anos, em Mundo Novo, cidade do interior da Ba­hia, a cerca de 300 km de Salvador. “Eu brinco sempre que vir de uma cidade com esse nome não me poderia trazer outro destino senão imaginar um mundo que não está disponível historicamente para nós”, diz.

Foi a moda que primeiro fisgou Lima. Radicada em Salvador desde os 7 anos, aos 16 ela fez um curso técnico de estilismo no Senac. Depois, entrou no curso de design da Faculdade da Cidade do Salvador. Após terminar o curso superior, criou na internet a NoBrasil, que ela descreve como “uma plataforma de conteúdo, pesquisa e experimentos curatoriais” com um olhar sobre a diversidade.

Em 2014, mudou-se para São Paulo, onde fez mestrado em comunicação e semiótica na PUC. Durante a pós-graduação, colocou na rua a primeira edição do projeto AfroTranscendence, uma re­sidência artística que promovia a cultura afro-brasileira em parceria com o centro cultural Red Bull Station. “Naquela época, as pessoas não falavam tanto sobre a questão racial. Isso chamou a atenção para o projeto”, lembra o artista uruguaio Fernando Velázquez, ex-diretor artístico da Red Bull Station.

O nome de Diane Lima se projetou no circuito das artes paulistas. “Ela desperta o que há de melhor na interseccionalidade”, afirma Juliana Braga, gerente de artes visuais e tecnologia do Sesc São Paulo, que convidou a baiana a integrar a equipe curatorial do Valongo Festival Internacional da Imagem, em Santos (SP), nas edições de 2018 e 2019. Braga gostou de ver Lima em ação. “Ela tem uma diplomacia e uma insistência, no sentido positivo, ao provocar as instituições com as quais trabalha para que estendam a diversidade às equipes de bastidores e de articulação institucional”, diz.

Coreografias do Impossível é o título escolhido para a 35ª Bienal de São Paulo. Lima diz que “o pensamento feminista negro, as cosmologias indígenas e os modos de pensar a coletividade” estão entre os eixos orientadores da mostra, que também se preocupa com o impacto da arte “na dimensão do cotidiano”. Lima acredita que a prática artística pode contribuir tanto para “o fim de um mundo” quanto para criar “perspectivas de outros mundos”.

É uma tarefa ambiciosa, mas o grupo de curadores se mostra unânime em esclarecer que ninguém ali pretende “salvar o mundo” – o que extrapola as possibilidades da arte. Já é bastante trabalho reunir no Brasil as obras de artistas e coletivos de vários países. A representação brasileira terá nomes da nova cena artística, como Aline Motta e Daniel Lie, ao lado de veteranos, como Rosana Paulino e Ayrson Heráclito.

Lima está bem acompanhada na curadoria. Baiano radicado na capital paulista, Hélio Menezes foi curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo até 2021 e integrou as equipes curatoriais responsáveis pelas exposições Histórias Afro-Atlânticas, no Masp e no Instituto Tomie Ohtake, em 2018, e Carolina Maria de Jesus: Um Brasil Para os Brasileiros, em 2021-22, no Instituto Moreira Salles.

Autora do elogiado Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano, Grada Kilomba mora em Berlim e tem bastante trânsito na cena cultural internacional. Em 2019, a Pinacoteca de São Paulo apresentou uma exposição com suas instalações e vídeos. O espanhol Manuel Borja-Villel dirigiu por quinze anos o Museu Reina Sofia, de Madri. Lá, um de seus feitos foi a reformulação da mostra que apresenta obras do acervo da instituição, tendo como norte a famosa Guernica, de Pablo Picasso. Kilomba e Borja-Villel vivem na Europa, mas devem se instalar no Brasil nos próximos meses, para os trabalhos da bienal.

Lima carrega na memória um baú de frases proferidas por mulheres de sua família. São ditados que orientam sua vida pessoal e sua atividade profissional. “O melhor da viagem é a demora”, dizia uma tia, relativizando a expectativa da chegada. A avó alertava para os tropeços do caminho: “É preciso ter coragem para enfrentar as coisas da vida.” Da mãe, guardou este ensinamento: “Se a menina quer deixar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo.”


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.