cartas
Mai 2023 16h04
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PIAUÍ_200
Isso dos três Brics boys em cena de camaradagem é um retrato excelente da engenhosidade de Celso Amorim/Lula. Formidável a capa da revista (piauí_200, maio)! Todo o restante da mídia de que tenho notícia não percebe a sagacidade da dupla brasileira. Me faz pensar no tempo de Barack Obama na Casa Branca: Amorim bolou um acordo de paz nuclear com Teerã, a Veja e a maioria da mídia brasileira caíram em cima, menosprezando o plano, mas seu core foi o que Obama adotou.
P.S.: A piauí bateu as capas da Economist este mês, parabéns.
XIKITO AFFONSO FERREIRA_ITACIMIRIM/BA
RESPOSTA NARCISISTA DA REDAÇÃO: Esse mês, Xikito? Esse mês?! E qual é o mês em que a piauí não bate a capa da Economist?
Veio o presente, e essa capa invertida carregaria um duplo sentido, já que poderiam ser também invertidas a esquerda e a direita ali retratadas? Mas direta é a mensagem dos nazistas nos artigos em sequência de Felippe Aníbal (Eldorado do extremismo, e Valentine Faure (Os filhos do delírio), na piauí_200 (maio), explicitando os núcleos do estado mais retrógrado do país e recendências do tempo de Hitler. Malditas palavras que são criminosas em sua prática, sem direito a evocar alguma legitimidade de “liberdade de expressão” como a neodireita está querendo estabelecer de forma explícita. Repetimos a história, numa versão tragicômica e, talvez, tupiniquim. E no misto de línguas aqui faladas parece que se origina O prazer das palavras que empregamos, tal qual mostra Paula Alkmim sobre os etimólogos (piauí_200, maio). A leitura fica mais leve, ainda mais que acabei de ler Latim em Pó, de Caetano Galindo, apesar de me fazer consultar o Léxico Tupi-Português, de Hugo Di Domenico, e voltar à hemeroteca digital da Biblioteca Nacional para confirmar os descaminhos que existem nessa pesquisa da origem do vocabulário. Apenas para complementar o trabalho dos que usaram ferramentas para estabelecer a origem do brigadeiro, a revista O Cruzeiro informa que o doce adentrou a culinária em 1944, mas sem registro se é da mesma época o batismo e a impressão do nome. Ainda que sob nova direção, a consulta eletrônica no site da BN continua com problemas, um alerta para os etimólogos não confiarem na busca direta, pois os softwares falham e confundem letras impressas em sistemas antigos (cadê a inteligência artificial?), o que talvez não seja o caso do software e banco de dados Moedor, citado na matéria. Pelo menos não é mais um terraplanista que dirige a Biblioteca Nacional. Aliás, uma boa matéria investigativa seria ver como ficou aquela instituição, depois de quatro anos de terror cultural. Sobrevivemos, eu e ela, não sem sequelas.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
GRILAGEM
É estupefaciente a facilidade com que esses criminosos grileiros conseguem abocanhar as terras da União na região amazônica (O grileiro-mor, piauí_200, maio). É terra de ninguém, é só chegar e tomar posse? É inacreditável. E a questão central é constatar a lerdeza dos órgãos competentes para evitar essa invasão e a calamidade que está acontecendo nessa região que deveria estar protegida há muito tempo. Há que se perguntar se não existe justiça nesse país. Cadê o Ministério Público, Ibama, Justiça Federal e os setores competentes, não existem mais? Como é que um indivíduo como esse Altino Masson, que para espanto de ninguém, é de Santa Catarina, conseguiu se apossar de 458 mil hectares de terras públicas assim, sem mais? Esse sujeito tinha que estar atrás das grades há muito tempo. Ou será que nós só vamos acordar para esse desastre quando a Amazônia tiver se transformado num pasto sem fim?
VALÉRIA VIEIRA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
EQUILÍBRIO EDITORIAL INDISPENSÁVEL
Nesse tempo de radicalização que estamos atravessando em que discordar de posições do governo lulopetista significa receber um atestado de bolsonarista nazifascista, a revista piauí, a preferida dos “isentões” entre os quais me incluo, enfrenta dificuldades cada vez maiores para se equilibrar na linha suprapartidária em que sempre se sustentou. Faço votos que continue sendo a fonte de informação confiável cada vez mais rara e necessária no país das “narrativas”.
LUIS ROBERTO BEOLCHI_SANTOS/SP
QUESTÕES VULTOSAS
O artigo do jornalista Fernando de Barros e Silva (Abril despedaçado, piauí_200, maio) é preciso na sua conclusão, pois realmente o alvo principal do atual mandato presidencial seria a preservação da democracia, o retorno da normalidade, tão subvertida no governo passado, com seu modus operandi de permanente enfrentamento das instituições, bem ao gosto dos autocratas. É a grande oportunidade de frustrar totalmente os planos da extrema direita, fazendo uma devassa completa, sem complacência com os militares que foram cúmplices da tentativa de golpe em 8 de janeiro – contrariando o ministro da Defesa, um conservador pusilânime, como bem definiu o articulista, que deu munição ao adversário, o qual utilizará a CPMI para repercutir suas falsas narrativas.
O autor cita o cientista social Marcos Nobre, que declarou à Folha de S.Paulo que foi desperdiçada a chance histórica de isolar politicamente a extrema direita. Lula parece se esquecer de que não venceu sozinho a eleição. A rejeição ao bolsonarismo permitiu a união nacional contra o arbítrio e o perigo do retorno dos militares ao poder. Trata-se de grande equívoco que pode custar caro, pois o inimigo está na tocaia. É só lembrar o que ocorreu recentemente no Chile, onde a esquerda esticou demais a corda e ficou em minoria no Congresso que elaborará a proposta de nova Constituição.
Não podia deixar de elogiar o artista gráfico Caio Borges pela capa primorosa da edição do número 200, um trabalho realmente fantástico.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
ARTIGO DE PRIMEIRA NECESSIDADE
Sou assinante da piauí há bastante tempo e ela se tornou uma revista de importância fundamental na minha vida acadêmica e pessoal. Em todos os seus números sempre há muitas informações que aproveito em meus trabalhos. Vocês formam uma equipe impecável e isso não é pouca coisa em um momento em que passamos a desconfiar tanto dos meios de comunicação, ou por usarem fake news, ou por omitirem fatos fundamentais para o nosso esclarecimento e possíveis tomadas de decisão no caminho correto. Sim, vocês são de fato imprescindíveis e na edição piauí_199, abril, vocês superaram todas as minhas expectativas. Alguns artigos deveriam se transformar em livros com o devido aprofundamento das ideias-chaves que vocês tão bem souberam desenvolver. Cito aqui apenas três como exemplos desse primor de redação:
1_ A Internacional da ultradireita, de João Gabriel de Lima. Foi um mergulho muito esclarecedor e preencheu várias lacunas que eu tinha sobre essa questão que pode se tornar tão devastadora para o Brasil quanto para o resto do mundo com o avanço da ultradireita. E pensar que muitos de nós já tínhamos como mortas e enterradas as ideologias nazifascistas. E devemos ter claro que não é uma simples disputa entre esquerda e direita. O fascismo é um grito de desespero de um capitalismo agonizante, e não é uma ideologia bem absorvida por muitos partidos de direita em todo o mundo. Significa um rolo compressor passando por cima da democracia e dos direitos humanos, ou seja, não é uma simples opção livre e pessoal, mas um instrumento criminoso que desrespeita a vida (em todos os seus aspectos) em nosso planeta. A Justiça é o único caminho possível para afastar esse pesadelo de nós. Parabéns pela lucidez.
2_ As formas intermediárias, de Olavo Amaral. O ChatGPT é hoje o nó górdio visível dessa ampla discussão internacional sobre o futuro da inteligência artificial e por consequência do nosso futuro também. A partir do artigo eu tive curiosidade e entrei no site, e realmente é muito assustador de se ver a competência da formulação textual desse chat. Com relação a esse delicado tema eu fico um pouco na esfera da imagem célebre do Michelangelo na Capela Sistina: nas mãos que quase se tocam, quem criou quem exatamente? Deus ou o homem? Assim estamos vivendo nessa borderline, e até que ponto seremos criador ou criatura? Lógico que também estou assustado com toda essa questão, mas permanece forte em nossa consciência o sonho de que seres humanos (e não humanos também) possam viver juntos em um mundo melhor para todos e todas, muito embora a experiência que temos nas obras de ficção não nos indique um happy end – basta pensar em filmes como Blade Runner ou Robocop para sentirmos a dificuldade no relacionamento entre humanos e máquinas. Esse é um tema em que eu senti necessidade de me aprofundar mais, muito embora já tenha lido alguns livros bem instigantes sobre o assunto. Superparabéns por essa excelente matéria.
3_ Tesão doido, de João Batista Jr. O mundo das drogas passa por inúmeros atalhos, o que mostra muito bem que não temos apenas uma estrada limpa e clara para explicar o domínio do tráfico em nosso país. Esse mix de droga e sexualidade é muito espantoso mesmo, e o artigo faz algumas revelações que mexem com todas as nossas possíveis firmes estruturas sobre esse assunto. Acabei concluindo que eu sei muito pouco e que o João Batista me colocou no olho de um furacão que necessita de um cuidado todo especial, para que ninguém caia em armadilhas de retomada de preconceitos que são sempre desnecessários e não ajudam a solucionar os graves problemas que afligem as camadas mais vulneráveis da nossa população. Também fiquei instigado em querer saber ainda mais. Aplausos inconclusivos.
Também não posso deixar de citar os dois dossiês sobre a enchente em São Sebastião (Depois da chuva e Antes da chuva). As reportagens ficaram perfeitas ao descarnar a desigualdade social como a principal responsável por essa e outras tragédias (como na Região Serrana do Rio de Janeiro). As políticas públicas têm que ser levadas mais a sério e trabalhar muito mais no campo da prevenção do que na tentativa de salvar as pessoas depois do desastre já acontecido. Parabéns ao Gustavo Fioratti e ao Bernardo Esteves.
AUREO GUILHERME MENDONÇA_RIO DAS OSTRAS/RJ
RESPOSTA EM FORMA DE MERCHAN DA REDAÇÃO: Aureo, você falou que nossas matérias poderiam resultar em livros. Mas não seria o caso de explorar as matérias que já resultaram em livros? Estamos falando de obras definitivas como O Ovo da Serpente, de Consuelo Dieguez. E comprando agora você ainda leva Bilhões e Lágrimas, também de Consuelo Dieguez. E na promoção de hoje ganha totalmente grátis um exemplar de Tempos Instáveis, que conta com textos de diversos autores – entre eles, Consuelo Dieguez. Sim, é isso mesmo que você está percebendo. Não existe a teoria de que Shakespeare era na verdade um nome usado por várias pessoas? O mesmo se dá aqui na piauí. Consuelo Dieguez não é uma jornalista, é uma ideia.
BURNOUT
Muito importante a reflexão de Camille Lichotti em seu artigo sobre o mundo do trabalho e a síndrome de burnout (A nova neurastenia, piauí_198, março).
Nas relações de trabalho regidas pela ordem capitalista, o trabalhador se torna mercadoria descartável, tendo sua força de trabalho sugada até a última hora antes de adoecer e virar um estorvo para o empregador. Em sua fase neoliberal, estimula ao máximo a competição nociva e coloca a todo instante o trabalhador contra a parede, com cobranças irreais, prazos draconianos e ameaças constantes, terminando por adoecê-lo.
Faz-se, portanto, fundamental debater o assunto da saúde mental da classe trabalhadora, mas é igualmente necessário construir relações de trabalho que fujam à lógica abusiva do capitalismo e que garantam ao empregado as condições de que precisa para realizar o seu trabalho sem entrar para as tristes estatísticas de esgotamento mental.
CLEBER GORDIANO DOS SANTOS_CAMPINA GRANDE/PB
CORREÇÃO
A reportagem A Internacional da ultradireita (piauí_199, abril) menciona que o político Ricardo Regalla usa bigodes à chomberga, “no estilo inventado pelo militar alemão que ajudou a livrar Portugal do domínio espanhol no século XVIII”. Na verdade Friedrich Hermann von Schönberg atuou em Portugal no século XVII, tendo desempenhado um papel importante na vitória portuguesa sobre os espanhóis na Batalha de Montes Claros, em 1665.
BRUNO SCOMPARIN_BELO HORIZONTE/MG
RESPOSTA CHOMBERGUIANA DA REDAÇÃO: Importante frisar que o bigode era à Friedrich Hermann von Schönberg, e não à Arnold Schönberg, o compositor dodecafônico, ou à Mário Schenberg, o físico brasileiro, já que ambos nem sequer tinham bigodes.
PELÉ
Quanto ao texto O rei que o Brasil não soube venerar (piauí_197, fevereiro), tomo a liberdade de imaginar, já que não sou jornalista, a ansiedade e preocupação que o autor teve ao escrever este texto. Mas serve de consolo a ele. Não se preocupe com isso. Pois, creio eu ouvi ou li em algum lugar: “Quem morreu foi o Edson Arantes do Nascimento. Pelé é imortal.”
EDUARDO AMAT SILVA_BELO HORIZONTE/MG