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poesia

TUDO PELA FARSA, ATÉ A NOSSA MORTE

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POEMA 2

primeiro o aviso dos cães

depois o vão da morte

em caso de acertarem as juras

poupe latidos vãos nessa língua

era o tal conselho de velhos

amordaçado às avessas

é inútil quando se tem fome

ouvir no chão só farelos

de navios sem numeração

por isso a matilha sem rumo

o desritmo do peito

a esperança nos dentes

DE UM QUASE RASTRO

avesso à palavra

ele escapa

quando tento aprisioná-lo

talvez a mata se rasgando

ou algum outro instante

entre o azul quase chuva

e os cães na ânsia dos grilos

ele vem de uma vez

mas também se divide

em compasso sem dono

sob a luz amarela do poste

e a sombra da mão que a concebe

a chance como quem não se diz

“todo rumor é sussurro aquático”

eu diria tímpanos

tambores

tímpanos

tambores

tímpanos

tambores

POEMA 1

                                      Giravas entre nós com um zumbido de abelhas

Conceição Lima

éramos nós antes da brasa

feito cinza em simetria

embrulhando à nossa volta

sereno e fim na noite prima

sem moeda que agourasse

o endereço de ninguém

desdizendo ao alvorado

na língua do sim: escurecido

sem levar consentimento

roubamos tudo que somava

facas paisagem riso antigo

restava sempre a incerteza

NESTA RELVA NÃO CAMINHO (PARTE 10)

danço esse véu na luz do meio-dia

ainda que não recomendem

todas as palavras monte adormecido

e o que mais aqui for concentrado

ardor prometido antes do sal

lava anunciada madrepérola aparente

coração ocupando a redoma da boca

devoraria a ponte devoraria o rio

num único lance se esse acorde

aberto fosse tenso com os dedos distantes

CINEMA ALAGOANO

no papel seria um plano aberto

nuvens imóveis apesar do combinado

a vida em cada sombra da figuração

no ensaio a câmera chegou mais

cortando o reflexo dos maquinários

tudo pela farsa, até a nossa morte

no set já não tinha mais cidade

nem olhar que salvasse o close-up

tudo sumiu com os engole-mundo

na montagem recriamos vida

das ruínas assíncronas à raiz salobra

tudo pela forma, até a nossa morte


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Escritor e diretor de cinema, é autor dos livros Os Meninos Iam Pretos Porque Iam (Iogram), TXOW (EdiPUCRS) e PRETOVÍRGULA (Círculo de poemas). Realizou o curta-metragem círculos (2020).