diário do geraldo

AGORA MINHA COMPANHEIRA É LIBELU ALCKMIN

“Vocabulário é construção de classe”
Imagem Agora minha companheira é Libelu Alckmin

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1º DE JUNHO_A visita de Nicolás Maduro mexeu fundo no meu espírito revolucionário. Resultado: passei a chamar minha companheira de Libelu Alckmin.

Como participei ontem do jantar em homenagem aos 101 anos do PCB, Libelu agora só se refere a mim como “meu Partidão”. Ela é uma bola, e ficou ainda mais espirituosa depois que começou a ler Betty Friedan, Rose Marie Muraro e bell hooks.

2 DE JUNHO_Hoje realizei um sonho de criança: inaugurar uma fábrica ao lado do presidente Lula em São Bernardo é como ir à Disney acompanhado do Mickey. Como era uma linha de produção de ônibus elétricos, nóis andou de busão, truta. O presidente Lula colocou a mão no bolso para ver se tinha o dinheiro da passagem e achou moedas no valor certinho. Que homem de sorte! Animado, dei um tapinha nas costas do motorista e mandei um “voa, bruxão!”.

3 DE JUNHO_Eu e Libelu passamos o sábado vendo o canal de Jones Manoel no YouTube. O assunto era reforma agrária e anotamos tudinho. Percebi que estou mais por fora que umbigo de vedete. Não tinha atinado para o fato de que um dos estratagemas da mídia burguesa é criminalizar as ações do MST. Eles não falam em “ocupação” de terras, mas em “invasão”. “Vocabulário é construção de classe”, disse Libelu, acrescentando um ¡No pasarán!.

5 DE JUNHO_Antes de telefonar para o vice-presidente da China, Han Zheng, gravei um TikTok dançando o hino da Internacional Socialista e mandei só pra quebrar o gelo. Meus netos bolaram uma coreografia do balacobaco em que eu simulo uma foice e um martelo com as mãos. Quando liguei pro Zheng, me senti à vontade para dar uma sugestão: “Revolução Cultural se faz com Lei Rouanet.”

6 DE JUNHO_“Alô povão, agora é sério! Canta Bixiga, seguuura! Futuca! Futuca!” Foi assim que recebi o Clarício Aparecido Gonçalves, presidente da Escola de Samba Vai-Vai. Mostrei alguns passos insinuantes como mestre-sala e ainda fizemos um samba-exaltação da mais alta estirpe. Cidade que desperta meu fascínio/Recolhe mais impostos que Piracicaba/Pois és polo de reciclagem de alumínio/Tenho em mais alta gradação meu amor por ti, Pindamonhangaba.

Comprei umas cervejinhas, botei chuleta na churrasqueira e chamei o pessoal da repartição. Mas ninguém veio. Realmente não tô conseguindo me enturmar.

Pra piorar, me bateu agora: será que pode falar “Piracicaba”? Desde a minha gafe com a ministra Sonia no mês passado, Libelu vem insistindo para eu checar meu lugar de fala e não sair por aí dizendo palavras indígenas cujo significado desconheço.

7 DE JUNHO_Ando encafifado com o programa de incentivo automobilístico. Esse negócio de estimular o consumo de carro, caminhão e tal… é socialismo? Quando perguntei pra Gleisi, ela atendeu o celular e saiu andando. Flávio Dino tropeçou e foi para a enfermaria. Ninguém soube me responder.

Como compensação, fiz circular minha opinião sobre o arcabouço fiscal. Com Lula e Haddad presentes, disse que a política fiscal apresentada até aqui tem um viés neoliberal que premia o rentismo e o grande capital. O brilho dos olhos de Rui Falcão iluminou toda a sala.

Libelu checou: Piracicaba significa lugar onde o peixe para. Agora é ver se peixe parar é bom ou ruim.

8 DE JUNHO_Feriadão com a família. Dia de fazer trilha. Certifiquei-me de que todos calçavam botas adequadas, pedi para nos darmos as mãos e avançamos entoando juntos Caminhando e cantando e seguindo a canção/Somos todos iguais, braços dados ou não.

10 DE JUNHO_Com meus netinhos insurrectos, “ocupamos” o terreno do vizinho. Foi uma aventura. Iniciamos uma plantação de chuchu e pude ensiná-los a importância do campesino ser dono dos meios de produção.

Eles se saíram tão bem que mereceram um presente. Assim que conseguimos hackear o wi-fi do vizinho, entramos na RevoluStore. Comprei o “kit adesivos revolucionários”. Tem Marx e Engels se olhando com um coraçãozinho no meio, Stálin vestido de coelhinho rosa e Kim Jong-un brincando com um míssil Hwasong-18. Mas tenho uma crítica à RevoluStore. Poxa, a loja tem bordados, ímãs, camisetas, adesivos, pôsteres, ecobags e até toucas, mas nada de meias revolucionárias.

11 DE JUNHO_Descobri que o Zanin é de Piracicaba. Menos mal. Ele que se entenda com a ministra Sonia.

12 DE JUNHO_Passei o dia com o presidente Lula. Primeiro, fomos no lançamento do compromisso nacional pela alfabetização. E não é que o Lula encontrou uma carta de Pokémon lendária atrás da cadeira? Nunca vi homem para ter tanta sorte.

Depois, reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Como o Lula é dado à galhofa, nas internas passei a chamar a moça de Ursula Wanderléa e disse que essa era uma “prova de fogo”. Lula deu uma risada. Ponto pra mim.

É fato: estou cada vez mais soltinho. Libelu chegou a cantar Menino do Rio pra mim, trocando “Rio” por “Pindamonhangaba”. E pensar no tempo que perdi com aqueles janotinhas do PSDB. Era Chateau Lafite pra cá, Durkheim pra lá. A partir de agora esse diário se chamará Diário do Geraldo. Alckmin é para os engravatados.

13 DE JUNHO_Gente, nem lembrava que eu era também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. É tanta informação nova na cabeça. Tenho que preparar alguma coisa pra reunião ministerial daqui a dois dias.

Tem horas em que a gente vê pouco resultado do tanto de esforço que faz. Hoje não foi assim: dei um passo verdadeiramente importante para a pacificação da sociedade: anunciei a reativação do Conselho Nacional de Fertilizantes, o Confert.

14 DE JUNHO_Acorda, Maria Bonita, que hoje é dia de reunião com os bambambãs do varejo. Sugeri que se convidasse o CEO da RevoluStore para eu poder cobrar o comércio de meias revolucionárias, mas não tive o pleito atendido.

Depois da reunião, critiquei duramente a manutenção dos juros num patamar que impede a luta de classes no Brasil.

15 DE JUNHO_Dia da reunião ministerial. Encarei o momento como um marco socializante com o pessoal da repartição. Comecei salientando o caráter imperialista da marca “Lojas Americanas”, e sugeri que a rede destitua seus acionistas de referência e passe a ser administrada por uma cooperativa de tecelãs quilombolas do Vale do Inhatá em parceria com cesteiras quíchuas dos altiplanos da Bolívia. A gigante do varejo seria batizada de “Lojas Sul-Americanas” e venderia Inca Cola, roupas da moda cholita boliviana, arepas, flautas de Pã andina, LPs de Violeta Parra e Mercedes Sosa, além de todo o acervo da RevoluStore – agora com meias.

16 DE JUNHO_Sextou! E não há lugar melhor pra uma sexta-feira do que Pindamonhangaba. Precisava desanuviar e marquei um dia pra ficar como Geraldinho gosta: visita a uma escola técnica pela manhã, depois rumei pro Terminal Intermodal de Cargas Coruputuba e, extasiado, terminei o dia renovado ensinando a juventude pindamonhangabense a jogar pif-paf.

19 DE JUNHO_Presidente Lula foi pra Itália ver o Papa e o Brasil ficou sob as bênçãos de dom Geraldão. Não aguentei e benzi o Manifesto Comunista. Quando terminar o mês, terei ficado 31 dias no poder. Se me derem outros 30, acabo com o latifúndio.

Mandei chamar o Zanin aqui na sala e o submeti a uma sabatina. Como ele faz para ter aquela pele? Esse homem exala colágeno e vai destoar no STF. Queria pegar algumas dicas.

20 DE JUNHO_Acordei Libelu todo presidentão com uma cesta de café da manhã. Qual o quê! “Tem chá de barbatimão in natura?”, ela perguntou. Fiquei estupefato. Pelo menos, comeu a manga que cortei em cubinhos.

22 DE JUNHO_Estou cada vez mais Marighella. Chocado com a ata do Copom, não me contive: convoquei a imprensa e soltei os cães, declarando que o patamar dos juros está “desnecessariamente elevado”.


Por Renato Terra


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