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TIMOTHY SNYDER – UM HISTORIADOR EM TEMPOS SOMBRIOS

Como o autor de Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente se tornou um dos principais intérpretes de nosso tempo
Imagem Timothy Snyder – um historiador em tempos sombrios

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Em setembro do ano passado, sete meses depois da invasão russa do território ucraniano, o historiador Timothy Snyder, professor na Universidade Yale, fez uma viagem de trem de dezesseis horas da Polônia até a Ucrânia. Desembarcou em Kiev, cidade que ele conhece bem, já que a visita desde os anos 1990, quando ainda fazia a faculdade de história. Nessa época, a capital da Ucrânia – recém-desligada da União Soviética – era uma cidade melancólica e provinciana. Nas décadas seguintes, Kiev cresceu e ficou mais interessante, e Snyder, hoje com 53 anos, se tornou um eminente historiador do Leste Europeu.

Ao desembarcar na estação de Kiev-­Pasazhyrskyi, Snyder deparou com uma cidade transfigurada. Por causa da guerra, em todo canto havia sacos de areia, blocos de concreto e “ouriços” de aço para tentar barrar os tanques russos. Sirenes de ataque aéreo soavam nos celulares, em bolsos e bolsas. Os primeiros meses da guerra transcorreram de maneira relativamente tranquila para os ucranianos – um fato que surpreendeu muitos observadores, mas não Snyder –, e em setembro Kiev já não corria risco iminente de ocupação. A vida cotidiana, embora não estivesse normalizada, voltava pouco a pouco ao ritmo pré-guerra: dava para cortar o cabelo numa barbearia, assistir a uma comédia stand-up ou se bronzear nas praias do Rio Dnieper.

Snyder tinha ido a Kiev para a conferência anual Estratégia Europeia de Yalta (YES, na sigla em inglês), criada por um oligarca ucraniano em 2004, com o objetivo de estimular os laços do seu país com a Europa. Com o tempo, a conferência se tornou o destino ocasional da festiva elite global. Em anos anteriores, participaram do encontro o ex-presidente Bill Clinton, a ex-secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, o empresário Richard Branson e o músico Elton John. Entre os convidados de 2022, estavam o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, e um ex-presidente do Google, Eric Schmidt.

Embora não seja um sujeito naturalmente festivo, Snyder já havia comparecido antes à conferência. A primeira vez foi em 2014, quatro anos depois de publicar Terras de Sangue: A Europa entre Hitler e Stalin, um estudo provocativo e devastador sobre as atrocidades cometidas por nazistas e soviéticos. O livro foi um sucesso – não apenas entre historiadores – e estabeleceu Snyder como “talvez o mais talentoso jovem historiador da Europa moderna em atividade”, nas palavras de um crítico. Nos anos seguintes, ele passou a escrever mais sobre temas contemporâneos, como a crise climática, os serviços de saúde e a política ucraniana. Foram seus textos sobre Donald Trump e Vladimir Putin, entretanto, que fizeram de Snyder um dos mais destacados intelectuais norte-americanos da década passada.

O sucesso passou para outro nível com Sobre a Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente, um pequeno livro lançado em 2017 que se tornou best-seller e ajudou a transformar Snyder em um intelectual dileto dos leitores de centro-­esquerda do movimento anti-Trump, às vezes chamado pelos progressistas de #Resistance. O ensaio lhe garantiu convites regulares para aparecer na tevê (“Não importa se você falou ou não sobre isso com seus amigos, mas o fato é que todo mundo que você conhece anda lendo ou relendo Sobre a Tirania”, disse a apresentadora e comentarista política Rachel Maddow, da rede norte-americana MSNBC). Embora as notícias transmitidas por Snyder ao público fossem quase sempre sombrias, ele oferecia ao mesmo tempo uma estranha espécie de conforto. Dizia às suas plateias que elas estavam certas ao pensar que a situação é grave. Recomendava que confiassem num perito em barbárie política: sim, as coisas estão tão ruins quanto parecem.

Era fácil ridicularizar os alertas macabros de Snyder. Bastava dizer que não passavam de alarmismo de um liberal burguês. Entretanto, as tentativas de Trump de reverter os resultados da eleição de 2020 mostraram que o historiador havia acertado naquilo que seus críticos tomaram como simples hipérbole. Em 9 de janeiro de 2021, três dias depois de uma turba em Washington sitiar o Capitólio, Snyder publicou um ensaio no New York Times em que fez outra previsão profética. O fracassado golpe de Trump era na verdade o começo de algo, e não o fim. Como a “grande mentira” de Trump (a de que vencera a eleição) “havia se transformado agora em uma causa sagrada pela qual as pessoas tinham se sacrificado”, ela permaneceria uma força poderosa na política norte-americana, a não ser que se fizesse um esforço coletivo para impedir que isso acontecesse.

A visão de Snyder sobre Putin era ainda mais sinistra: uma autocracia corrupta que se voltou para o neofascismo com o objetivo de reconquistar a glória imperial. O historiador foi um dos poucos comentaristas anglófonos a prever, em 2014, que a Rússia invadiria a Ucrânia – um prognóstico do qual até mesmo seus amigos tiraram sarro. Também alertou, em seu livro Terra Negra: O Holocausto como História e Advertência, que “um novo colonialismo russo” ameaçava a estabilidade na Europa. Em sua opinião, a invasão iniciada em 2022 não era, como alguns pensavam, um conflito regional de pouca relevância, mas uma atrocidade de importância histórica. “O que está em jogo é a possibilidade de um futuro democrático”, escreveu ele, em artigo publicado na revista Foreign Affairs.

Ao longo do ano passado, Snyder foi um dos intérpretes mais eloquentes da guerra na Ucrânia. Ele escreve e se pronuncia com frequência sobre o conflito – falou, inclusive, no Conselho de Segurança da ONU, em meados de março deste ano. Também criou um projeto para documentar a guerra e captou mais de 1,2 milhão de dólares (cerca de 6 milhões de reais) para um sistema de defesa antidrones para a Ucrânia. No segundo semestre de 2022, uma disciplina que ministra em Yale sobre a história ucraniana teve centenas de milhares de visualizações no YouTube – e Snyder se tornou um dos mais famosos intelectuais ocidentais na própria Ucrânia. “Ele já era uma celebridade entre historiadores e intelectuais”, me disse o roqueiro ucraniano Svyatoslav Vakarchuk, amigo do historiador. “Mas hoje em dia, na Ucrânia, mesmo as pessoas comuns sabem muito sobre ele.”

Um indício do status de Snyder é o fato de que a conferência YES foi apenas o segundo evento mais importante em sua viagem a Kiev. Durante uma das três conversas que tivemos recentemente, ele me contou que a principal razão de sua visita era uma reunião privada com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Os ucranianos “me acham mais importante do que de fato sou”, diz Snyder. “Zelensky me via principalmente como alguém que tinha uma espécie de voz. Eu não me iludo, achando que…” Ele se interrompe e, em seguida, afirma: “Não, não é verdade. Zelensky disse: ‘A minha mulher e eu lemos Sobre a Tirania.’ Foi a primeira coisa que me disse quando nos encontramos.”

Sentados nas poltronas de couro verde do gabinete presidencial de Zelensky, os dois conversaram por mais de duas horas. Falaram sobre Shakespeare, o dramaturgo e político tcheco Václav Havel e o físico e dissidente soviético Andrei Sakharov. Também discutiram sobre liberdade, assunto de um livro que Snyder ainda está escrevendo. Em especial, falaram sobre a decisão de Zelensky de permanecer na Ucrânia quando a invasão começou. O presidente disse que, embora a maioria dos observadores ocidentais tenha imaginado que fugiria do seu país, ele mesmo nunca achou que tivesse de fato uma escolha a fazer. “Esse é um raciocínio que Zelensky me ajudou a formular”, diz Snyder. “O de que ser livre significa acabar em situações nas quais você sentirá que não tem muitas opções.” O fascínio de Snyder pela “opção sem opções” de Zelensky não chega a surpreender: o historiador também previu isso às vésperas da guerra. Como acadêmico e intelectual público, ele há muito acredita que “existem momentos em que as ações de um indivíduo ganham amplitude” e então “pode acontecer que as coisas estejam saindo dos trilhos e, sem grande esforço, você seja capaz de mudar o curso dos acontecimentos”. Snyder acredita que a decisão de Zelensky, assim como a da resistência ucraniana em geral, foi uma demonstração clara de que essa convicção fazia sentido.

Num comportamento incomum entre historiadores sérios, Timothy Snyder costuma traçar analogias entre passado e presente. E, mais incomum ainda, é seu hábito de fazer previsões sobre o futuro. O que ele próprio chama de seu “modo Cassandra” é diferente do trabalho do historiador, mas as coisas não estão totalmente desconectadas. “História não é a recitação chata de coisas que todos nós sabemos, mas esquecemos”, diz ele. “É uma descoberta constante e emocionante de coisas que realmente aconteceram, que não foram previstas e provavelmente foram consideradas extremamente improváveis em seu tempo. A Primeira Guerra Mundial, o Holocausto: muitas das coisas que hoje parecem ser os fundamentos do nosso tempo foram vistas na época como ridículas, absurdas, impossíveis. E, quando se sabe disso, pode-se ter a intuição de que talvez, neste momento, esteja ocorrendo algo que as pessoas não estão vendo.”

Snyder foi criado em uma família quaker no sudoeste do estado de Ohio e mantém uma fé típica do Meio-Oeste na virtude de dizer claramente aquilo que se quer dizer. Sua prosa sem adornos tem a simplicidade robusta que as pessoas associam aos móveis Shaker.[1] Ao contrário da maioria dos acadêmicos, ele se preocupa seriamente em explicar suas ideias da maneira mais direta possível. “É muito fácil se esconder atrás da noção de que ‘Ah, o que eu faço como filósofo, psicólogo ou biólogo é muito complicado’”, diz ele. “Sinceramente, não acredito que isso seja verdade.”

Snyder não tem simpatia pela tendência acadêmica de esconder julgamentos sob o manto de uma pseudo-objetividade. Ele tem um forte sentimento moral – o que sua mulher, Marci Shore, chama de “impulso de salvar o mundo” – que remonta aos seus pais. Ela me disse que a mãe de Snyder “tem um senso de clareza moral muito sereno. É mais ou menos assim: não existem decisões perfeitas no mundo, e não existe espaço para inocência. Uma vez dadas as circunstâncias, você faz a sua escolha e vai em frente”. Ela diz que Snyder é igual.

Shore, que é também historiadora e professora em Yale, ressaltou a profunda confiança que seu marido tem em suas próprias habilidades. Por e-mail, ela me contou que, durante sua gravidez, ela e Snyder fizeram uma aula de preparação para o parto. Na época, eles moravam em Viena e a parteira falava para a turma no dialeto vienense, o Wienerisch. Depois da aula, o casal concordou que só tinha entendido 60% do que ouviu. “Dá para perceber a diferença entre nós nesse detalhe pequeno, mas revelador”, disse ela. “Tim estava calmo e convencido de que os 60% que nós entendemos eram a parte importante, enquanto eu tinha certeza de que os 40% que não entendemos eram a parte crucial.”

À medida que sua fama aumentava, Snyder passou a atrair um número crescente de críticos. Seus julgamentos se tornaram controversos em parte porque sua própria posição política é difícil de definir. Para os nacionalistas ucranianos, ele soa como um esquerdista norte-americano. Para os esquerdistas norte-americanos, como um nacionalista ucraniano. Seus livros trazem citações elogiosas de um círculo improvável, que vai do escritor George Saunders, autor de Lincoln no Limbo, a Henry Kissinger, autor do bombardeio do Camboja. O foco de Snyder nos males do nazismo e do stalinismo, bem como sua defesa do apoio militar dos Estados Unidos à Ucrânia, são vistos pelos críticos como produto de alguém que não superou a Guerra Fria. Por outro lado, ele foi contra a Guerra do Iraque e se opõe ferozmente às reivindicações de supremacia moral por parte dos Estados Unidos. Seu livro de memórias, A Nossa Doença: Lições sobre Liberdade a Partir de um Diário Hospitalar, censura o sistema de saúde privatizado norte-americano. Ultimamente, ele tem se manifestado contra as leis patrocinadas pelos republicanos que impõem limites à discussão nas escolas sobre a história do racismo nos Estados Unidos.

Na última década, talvez a crítica mais frequente a Snyder tenha a ver com a estridência de suas discussões públicas, nas quais muitas vezes ele expõe crenças e até especulações como se fossem fatos inquestionáveis. No fim de janeiro deste ano, depois que um agente de contrainteligência do FBI foi indiciado por violar sanções impostas a um oligarca russo, Snyder escreveu: “Estamos à beira de um escândalo de espionagem de grandes consequências quanto ao modo como vemos o governo Trump, nossa segurança nacional e a nós mesmos.” Duas semanas depois, ele ridicularizou a discussão sobre uma possível escalada nuclear no conflito da Ucrânia, dizendo que era “de tal modo equivocada que chega a ser constrangedora” em termos morais e estratégicos. “Eis a coisa mais importante a se dizer sobre guerra nuclear: não vai acontecer.”

Essa autoconfiança retórica é um traço essencial do apelo que Snyder exerce sobre o público em geral: para plateias desorientadas, que enfrentam um dos períodos politicamente mais turbulentos que já viram, o tom assertivo de Snyder equivale à mão firme no leme. Por outro lado, isso dá argumentos aos críticos que acham que ele está sempre pronto a ver uma catástrofe em cada esquina. Lee Siegel, crítico de cultura, acusou Snyder de ser “a indústria do pânico de um homem só, um profeta cujos lucros dependem de que suas profecias jamais se realizem”. O cientista político Daniel Drezner, do New York Times, descreveu Sobre a Tirania como “exagerado” e potencialmente “autodestrutivo, em função de sua hipérbole”. E na revista The Nation, Sophie Pinkham descreveu Na Contramão da Liberdade: A Guinada Autoritária nas Democracias Contemporâneas, o livro que Snyder publicou em 2018 sobre Putin e Trump, como “a apoteose de um certo estilo paranoico que emergiu entre os progressistas, na esteira de Trump”.

Shore me contou que seu marido tem “um estranho tipo de calma” que lhe permite absorver as críticas sem que isso lhe cause problemas emocionais. Snyder, de sua parte, me disse não ver muito sentido em se dirigir diretamente aos críticos. Mas ele não se arrepende de falar com clareza sobre aquilo que acredita que vai acontecer. E, embora se orgulhe de ter antecipado alguns fatos, também insiste que esse tipo de previsão não é um jogo de salão para acumular pontos. Um elemento central do seu modo de compreender a história é a convicção de que os acontecimentos não são predeterminados por grandes forças estruturantes, como a economia e a tecnologia. Suas analogias pesadas e suas premonições apocalípticas não visam a deprimir ninguém, nem fazer com que as pessoas se tornem complacentes. Pelo contrário. Fazer previsões é enfatizar a imprevisibilidade do futuro, é lembrar aos leitores que eles ainda têm a liberdade de mudar a história.

Em fevereiro, estive em New Haven para ver Snyder lecionando em Yale. Na manhã ensolarada e fria do dia 14, sua aula no curso de graduação foi sobre o encarceramento em massa nos Estados Unidos e na União Soviética. Ele dividia a disciplina com o filósofo Jason Stanley, um amigo próximo que também se tornou um pilar do movimento #Resistance a Trump. A aula aconteceu numa sala com lambris de madeira escura, uma lareira de mármore negro e janelas em arcos góticos intercaladas com cenas da Bíblia. Pela janela via-se uma torre de catorze andares rebatizada em homenagem ao recém-falecido diretor de investimentos da universidade.

Embora Snyder possa, em seus escritos, parecer às vezes um autor incapaz de duvidar de si mesmo, pessoalmente ainda existe um vestígio do “aluno de graduação magro e um tanto acanhado” que ele foi, como lembra um professor de seus tempos de universitário. Snyder tem um senso de humor seco e um talento para a eloquência extemporânea, mas ninguém o confundiria com uma pessoa imperiosa. Sua fala é suave, e ele se veste com roupas em tons de cinza e marrom que no inverno poderiam muito bem servir de camuflagem num campus universitário do nordeste norte-americano. Ampliando ainda mais essa espécie de modéstia, parece que paira sobre Snyder, como se fosse uma espécie de veste penitencial, a sensação de que ele tem muitas coisas a fazer, tem muitas demandas legítimas para atender. “Não consigo dar conta de responder aos e-mails”, ele me disse a certa altura. “Sou só um professor de história. Não tenho funcionários.”

Ao chegar à sala de aula, Snyder não provocou nenhum murmúrio ou silêncio entre os alunos. Com seus ralos cabelos brancos, os olhos de um azul vivo e um jeito relaxado e reticente, ele oferecia um claro contraste com Stanley, que compareceu ao curso com roupas pretas e óculos escuros e rapidamente começou a fazer piadas em voz alta com os alunos próximos de onde estava sentado.

O assunto da aula naquele dia era o racismo científico do fim do século XIX, mas Snyder disse que queria antes lembrar algumas ideias filosóficas relacionadas ao tema em questão. Sem anotações, ele começou uma breve palestra que abordou o Parmênides de Platão, o Gênesis, a dialética de Hegel e Marx e o tratamento da história pelo polímata franco-americano René Girard, antes de passar para o sociólogo e ativista negro W.E.B. Du Bois. Shore me disse que socializar e falar em público pode ser cansativo para Snyder, mas naquela sala de aula ficou claro que ele estava se divertindo. Falava com rapidez e fluência, gesticulando e desdobrando seus argumentos em frases prontas para transcrição.

Poucas horas depois do fim da aula, Stanley explicou o desvio que levou a Platão. Ele me contou que, antes de entrar na sala, Snyder lhe tinha enviado uma mensagem dizendo que queria fazer os alunos se lembrarem de alguns pensadores mais antigos. “Eu disse, brincando: ‘De quem você está falando, de Parmênides?’ Ele encarou como um desafio. É bem típico dele. Tim é extremamente competitivo.”

Os amigos de Snyder por vezes ficam perplexos ao ver que o filho mais velho de um veterinário de Ohio, sem ascendência na Europa Oriental, se tornou um dos principais especialistas nessa região. É possível traçar a árvore genealógica de sua família, por muitas gerações, tanto do lado paterno quanto materno, sem sair dos Estados Unidos, e Snyder cresceu não muito longe das fazendas onde seus avós cultivavam abóbora, soja e milho. Seus pais foram quakers que serviram em operações do Peace Corps – uma agência criada pelo governo norte-americano em 1961 para ajudar países em desenvolvimento – na República Dominicana e em El Salvador, antes de voltar a Centerville, um subúrbio próspero nos arredores de Dayton, em Ohio, para criar sua família.

Snyder diz que seus pais estavam “muito à esquerda, e não só para os padrões norte-americanos”, uma inclinação que os tornava exceções no meio conservador dos subúrbios e da zona rural do sudoeste de Ohio. Nesse ambiente esmagadoramente republicano, eles penduravam pôsteres nas paredes de casa celebrando as causas da esquerda latino-­americana e nas tardes de domingo se sentavam com os três filhos para escrever cartas para prisioneiros em nome da Anistia Internacional. Quando Snyder estava no nono ano do ensino fundamental, a família viajou para uma comunidade leiteira quaker na Costa Rica. “Essa era a nossa ideia de turismo”, diz ele.

Durante o ensino médio, embora fosse um aluno alienado e meio alheio a tudo, Snyder resistiu à política esquerdista dos pais flertando com o libertarismo. Ele se lembra de debater os vícios e virtudes da União Soviética com a mãe. “O ponto de partida dela seria: ‘Bom, eles estavam do lado certo no caso da Nicarágua. Eles estavam do lado certo no caso de Cuba.’ Ela não iria falar da Hungria em 1956 ou da Tchecoslováquia em 1968.” Ainda assim, havia limites para a rebeldia dele. “Eu jamais pensaria: ‘Sou a favor de Reagan.’ Mesmo com toda a minha formalidade do Meio-Oeste, eu não era dessa tribo.”

Quando entrou na Universidade Brown em 1987, Snyder achou que acabaria se tornando um advogado envolvido com o controle de armas nucleares. Mas duas disciplinas despertaram seu interesse por história. Uma delas, lecionada por Mary Gluck, era um panorama da história intelectual da Europa. A outra era sobre a história da Europa Oriental do pós-Segunda Guerra, ministrada por Thomas W. Simons Jr., que pouco depois seria nomeado embaixador dos Estados Unidos na Polônia. As aulas dessa disciplina começaram menos de duas semanas depois que o ditador romeno Nicolae Ceaușescu foi executado em Bucareste, no Natal de 1989. “Achei que ia ter uns quinze ou vinte alunos”, Simons me disse. “Apareceram 130.” Snyder conta que ficou “obcecado” com a matéria, a ponto de sugerir que Simons transformasse suas anotações de aula num livro. Simons o contratou para ajudar nessa tarefa.

Depois de se formar, Snyder foi fazer o doutorado na Universidade de Oxford com uma bolsa de estudos. O historiador britânico Timothy Garton Ash, um de seus orientadores, lembra de Snyder como “um jovem muito reservado”, que, porém, se destacava dos colegas por sua intensidade moral, clareza analítica e ousadia intelectual – o que o levava a “forçar um raciocínio até o limite, ou talvez um pouco além”.

O envolvimento de Snyder com os temas que moldariam seu trabalho posterior já pode ser vislumbrado em sua tese sobre o pensador marxista polonês Kazimierz Kelles-Krauz (publicada pela Harvard University Press) e, especialmente, em seu segundo livro, The Reconstruction of Nations: Poland, Ukraine, Lithuania, Belarus, 1569-1999, que já estava praticamente pronto quando ele foi contratado para dar aulas em Yale em 2001. O primeiro tema é a ideia de que a Europa Oriental não é uma terra de ninguém a-histórica espremida entre a Europa e a União Soviética, mas sim um lugar com vida e história próprias. O segundo é que a história pode ser moldada por decisões individuais. O terceiro versa sobre a importância das ideias como desencadeadoras de eventos históricos, em particular a instável ideia de nação.

Desde a faculdade, Snyder nutria o que ele descreve assim: “Uma ambição maior de me tornar – sei que soa muito pomposo –, mas de me tornar um intelectual, um escritor.” Terras de Sangue, publicado em 2010, marcou o primeiro grande ponto de inflexão em sua carreira. Naquela época, ele já escrevia ocasionalmente para o público não acadêmico. Mas seu relato poderoso sobre o custo humano do horror nazista e soviético pela primeira vez levou seu trabalho a um grande número de leitores de fora da universidade.

Snyder escolheu como tema o “assassinato político em massa” de 14 milhões de pessoas ocorrido entre 1933 e 1945 em uma faixa da Europa que ia “da Polônia Central até a Rússia Ocidental, passando por Ucrânia, Belarus e os Estados Bálticos”. A partir dessa fórmula simples, extraiu diversas ideias. Sugeriu, por exemplo, que os nazistas e os soviéticos trataram os países dessas “terras de sangue” – a expressão alude a um poema da escritora russa Anna Akhmátova – como colônias adjacentes a seus territórios. Ele também afirmou que grande parte das pesquisas feitas até então sobre os assassinatos enxergavam os acontecimentos pelos olhos das grandes potências. Na essência, seu livro propunha que os fatos ocorridos nesses países deviam ser considerados centrais para a história europeia do século XX.

No meio acadêmico, Terras de Sangue rendeu elogios a Snyder por seus amplos conhecimentos: ele fala cinco idiomas, lê em outras cinco línguas e pertence à primeira geração de acadêmicos ocidentais a ter amplo acesso aos arquivos europeus depois da queda do comunismo. O livro também rendeu críticas. Alguns resenhistas não aprovaram a justaposição do Holocausto aos crimes de Stálin, enquanto outros – com destaque para o historiador britânico Richard J. Evans, em um artigo particularmente veemente – acusaram Snyder de não conseguir explicar as causas dos acontecimentos que descrevia. (Em Terra Negra, a sequência muito mais controversa de Terras de Sangue, Snyder pareceu ter em mente as duas críticas: seu tema foram as causas do Holocausto.) No entanto, os esforços provocativos de Snyder acabaram injetando novo ânimo em temas históricos até então vistos quase como consensuais. “Toda essa história tinha sido contada como uma história da Rússia e da Alemanha, e é claro, do Holocausto”, me disse Garton Ash. “Terras de Sangue colocou os holofotes na Europa Central e do Leste de uma maneira que mudou a perspectiva histórica.”

Snyder acredita que fazer boa história exige levar ideias ruins a sério. Ele aplica o mesmo princípio quando escreve sobre assuntos da atualidade. “Ideias ruins têm sua importância”, diz. “Elas têm sua própria coerência e sua própria força.” Pouco depois de publicar Terras de Sangue, ele percebeu que Putin, na época primeiro-ministro, estava falando, com uma frequência preocupante, sobre a unidade essencial da Rússia com a Ucrânia. Em 2013, Putin visitou Kiev para o 1025º aniversário do batismo do príncipe Vladimir I, o Grande, e “fez um discurso maluco, afirmando que a Ucrânia e a Rússia eram uma coisa só por causa do batismo, e que ninguém podia fazer nada a esse respeito porque estava além dos domínios da política”, diz Snyder. “Era uma verdade espiritual: basicamente, aquilo era obra de Deus.”

A Primavera Ucraniana começou em novembro daquele ano. O estopim foi a decisão repentina do presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, que, pressionado pela Rússia, se recusou a assinar um acordo de associação com a União Europeia. Os protestos reuniram mais de meio milhão de pessoas, e em janeiro os manifestantes estavam num impasse mortal com o governo. Em 3 de fevereiro de 2014, Snyder publicou um artigo no New York Times com o título Don’t Let Putin Grab Ukraine (Não deixem Putin tomar a Ucrânia). Ao citar o desejo que Putin expressava cada vez mais frequentemente de rivalizar com a União Europeia, bem como as discussões de autoridades russas sobre a repartição da Ucrânia, ele alertou que Putin poderia tentar orquestrar um golpe em Kiev. Caso fracassasse, poderia considerar a “intervenção armada” como o único modo de manter as aparências.

Snyder diz que seu alerta foi “uma opinião” baseada na sua sensação de que Putin era uma força mais importante na política ucraniana do que as pessoas achavam. “Quando li aquelas coisas raivosas que ele publicou nos jornais russos sobre civilização, a raiva dele não parecia ser uma tática. Parecia vir de algum lugar profundo.” Outro fator que embasou as suspeitas de Snyder foi um aumento bastante nítido da propaganda antiucraniana, em que se afirmava que “Eles [os ucranianos] são nazistas. Eles são gays. Eles são gays nazistas”. Na tevê russa, em novembro e dezembro de 2013, “a coisa ficou absurda, e comecei a pensar que estavam tramando algo”, diz o historiador.

A preocupação de Snyder com a agressão russa não era compartilhada por muita gente. As reportagens da imprensa ocidental na época garantiam, repetidas vezes, que Putin não seria tão precipitado. (Uma semana depois de publicar o artigo de Snyder, o New York Times publicou outro texto onde se lia: “A maior parte dos especialistas […] desdenha da possibilidade do uso de força militar”.) O historiador ucraniano Serhii Plokhii, professor de Harvard, que tem uma relação amistosa com Snyder, me disse que estava convencido de que o colega tinha ido longe demais no seu artigo. No entanto, semanas depois da fuga do presidente ucraniano Viktor Yanukovych do país, a Rússia anexou a Crimeia e enviou tropas para a Ucrânia Oriental. Rindo, Plokhii conta que comentou com Snyder pouco depois: “Achei que você tinha enlouquecido.”

Snyder diz que, na época da anexação, havia uma tendência a tratar a Rússia como uma versão fracassada ou corrompida da democracia liberal ocidental. “A visão tanto dos norte-americanos quanto dos alemães estava tomada por esse fracasso russo. Diziam algo do tipo: ‘Ah, eles estão tentando fazer uma transição, mas não é fácil, pobrezinhos, e por isso eles precisam invadir a Geórgia ou a Ucrânia.’” Por outro lado, diz Snyder, “quando se diz que Putin é um cara que lê e que muda, que impõe ideias, estamos dizendo: ‘Bem, ele não é um idiota. Ele não é previsível. Ele toma medidas inesperadas’”. Esse é um dos motivos pelos quais Snyder insiste em chamar Putin de fascista. “Soa esquisito, mas dizer que ele foi influenciado pelo fascismo equivale a lhe dar algum mérito. Equivale a dizer que ele não é só uma engrenagem historicamente determinada nesse capítulo de transições. Ele vem fazendo uma coisa diferente há mais de uma década.”

Dois anos depois da anexação da Crimeia, Snyder percebeu que políticos russos e veículos da imprensa estatal estavam assacando contra os Estados Unidos o mesmo tipo de propaganda e desinformação que haviam difundido pouco antes contra a Ucrânia. Não é verdade que Snyder tenha sido “o primeiro a revelar a história de Trump e Putin”, como ele chegou a reivindicar recentemente no Twitter, mas é correto dizer que o historiador esteve entre os primeiros a dedicar a devida atenção à incipiente relação entre os dois políticos. Em abril de 2016, Snyder defendeu que a fraqueza e a vaidade de Trump faziam dele um alvo fácil para Putin, que já tinha começado a cultivar o norte-americano como “um futuro cliente russo”.

No segundo semestre daquele ano, ficou claro que a Rússia estava por trás da campanha de hackeamento e vazamentos que gerou semanas de manchetes contra Hillary Clinton na reta final da campanha presidencial. Citando a reabilitação que Putin fez de Ivan Ilyin (1883-1954), um ideólogo fascista cristão, Snyder afirmou que, por trás do aparente caos dos ciberataques, havia certa lógica e mesmo certa filosofia política. Em artigo no New York Times, ele escreveu: “Se os procedimentos democráticos começarem a parecer caóticos, as ideias democráticas também serão questionáveis. E desse modo os Estados Unidos ficariam mais parecidos com a Rússia, que é a ideia geral. Caso Trump vença, a Rússia vence. Mas, caso Trump seja derrotado e as pessoas duvidem do resultado, a Rússia também vence.”

Poucos dias antes da eleição, Snyder voltou ao Ohio de sua infância para pedir votos para Hillary Clinton. “Eles me mandaram literalmente para a vizinhança onde cresci”, relembra ele. “Fiquei impressionado ao ver como as pessoas não queriam conversa. Sou introvertido, mas eu era um sujeito branco de aparência inofensiva e foi muito difícil conseguir falar com as pessoas.” Quando chegou em casa, disse a Shore que Trump iria ganhar em Ohio. Mesmo assim, achava que Clinton sairia como vencedora no pleito geral. “Penso que houve uma certa ingenuidade branca”, ele diz.

“O Tim sempre acreditou mais nos Estados Unidos do que eu”, conta Shore. “Ele não está acostumado a estar errado, tipo muito errado. E realmente ele não achava que Trump fosse ganhar. Quando contei sobre a vitória para as crianças, minha filha, que estava com 4 anos na época, disse: ‘Vai ver o papai esqueceu de pedir pra alguém votar na Hillary Clinton.’”

Snyder ficou chocado com a vitória de Trump, mas isso também gerou nele, de imediato, o ímpeto para escrever Sobre a Tirania. Ao retornar de uma viagem à Suécia, começou a anotar num guardanapo do avião uma lista de lições para barrar a tirania, incluindo conselhos como “Não obedeça de antemão” e “Defenda as instituições”. Ele postou a lista no Facebook ao chegar à sua casa, e o post viralizou. O editor de Snyder disse que eles podiam publicar aquilo no formato de um pequeno livro, caso o historiador acrescentasse um pouco de contexto para cada lição. O resultado – em que as frases simples e afirmativas de Snyder estão transformadas em exortações também simples e imperativas baseadas na história do terror político na Europa – lembra mais um samizdat do que um de seus pesados volumes de história. Graças a sua urgência e brevidade, o livro se tornou um totem para os norte-americanos horrorizados com seu novo presidente. Sobre a Tirania vendeu mais de meio milhão de exemplares durante o mandato de Trump e, no total, passou quase dois anos na lista de best-­sellers do New York Times.

A exaltação de Snyder entre a centro-esquerda levou a uma reação em sentido contrário entre certos grupos da esquerda norte-americana. Pa­ra esses críticos, suas analogias assustadoras e seus alertas ameaçadores cheiravam a ingenuidade histórica e conveniência ideológica. Sugerir que Trump era um Hitler em potencial significava não apenas omitir os horrores que a política norte-americana havia praticado no passado, mas também negligenciar que um programa neoliberal bipartidário havia criado as condições que levaram à eleição do republicano. Em um artigo publicado em agosto de 2017, os historiadores Samuel Moyn (de Yale) e David Priestland (de Oxford), sem disfarçar que suas críticas se dirigiam a Snyder, afirmaram que a ideia de que “a democracia está sitiada” e “o totalitarismo está voltando” era uma manifestação de uma “tiranofobia” histérica e contraproducente. “O céu não está desabando e não há luzes vermelhas piscando”, escreveram.

Não é difícil adivinhar por que Sobre a Tirania se tornou um alvo dos esquerdistas. Eles estavam incomodados com os esforços para atraí-los para uma frente popular anti-Trump. A eleição de 2016 testemunhou o primeiro ressurgimento sério do socialismo nos Estados Unidos em mais de meio século. E muitos à esquerda não estavam interessados em ser simpáticos com os moderados que falharam em derrotar Trump nas urnas.

Mas Snyder nunca foi um triunfalista neoliberal. Nem foi complacente com as falhas dos Estados Unidos. “Eu francamente acho que isso é só uma coisa que as pessoas querem que seja verdade, porque seria reconfortante se fosse assim”, diz ele. Em escritos anteriores, denunciou o fundamentalismo do livre mercado e, no epílogo de Sobre a Tirania, escreveu que o perigo representado por Trump era que os Estados Unidos passassem de “uma espécie ingênua e imperfeita de república democrática para uma espécie confusa e cínica de oligarquia fascista”. Snyder torcia por algo que não tinha a ver com essas duas opções: uma “renovação” – como ele definiria em seu livro seguinte, O Caminho para o Fim da Liberdade: Rússia, Europa, América – “que ninguém pode prever como será”.

Snyder admite que quando escreveu Sobre a Tirania não enfatizou o suficiente os aspectos que faziam de Trump um tipo conhecido na história norte-americana. “Minha visão era de que isso era algo novo e perigoso. Provavelmente eu estava um pouco errado no que concerne ao ‘novo’.” Mas ele diz que estava certo quanto à tendência dos norte-americanos de dizer a si mesmos coisas como “os Estados Unidos são excepcionais e nada de mau pode acontecer aqui”. Ao longo do governo de Trump, ele continuou a alertar que o presidente tentaria se agarrar ao poder de maneira ilegal. E, no ensaio que publicou poucos dias depois da invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, ele não perdeu a chance de se autocongratular. “Estava claro para mim, em outubro [de 2020], que o comportamento de Trump pressagiava um golpe”, escreveu, e completou: “E publiquei isso.” Mesmo Samuel Moyn, que chama seu colega de “um ser humano com dotes extraordinários”, não contesta o direito de Snyder de afirmar que antecipou os fatos. Em um artigo publicado em 2017, Moyn e David Priestland afirmaram que não existiam indícios de que Trump desejasse “se apoderar ilicitamente do poder” e não havia razão “para acreditar que ele possa ser bem-sucedido nisso”. Moyn diz que ainda pensa assim, mesmo depois do cerco ao Capitólio. “Não acredito que a democracia tenha chegado a correr riscos”, afirma. Mas ele reconhece: “Mesmo que eu diga que o cerco não deu razão para quem pensava o oposto de mim, todo mundo acha que deu.” Ele admite que, na visão das pessoas em geral, Snyder “venceu o debate sobre Trump”.

Até o primeiro ataque ser efetivamente disparado, Snyder ainda não tinha certeza se haveria outra invasão russa da Ucrânia. “Não havia tanta propaganda quanto em 2014”, explica ele. “Minhas intuições normalmente vêm da propaganda russa, mas dessa vez a coisa estava escassa.” Em fins de fevereiro, ele estava em New Haven, ministrando duas disciplinas em Yale, além de uma terceira, sobre liberdade, numa prisão em Connecticut. Depois do início da guerra, em 24 de fevereiro, ele e Shore cancelaram uma viagem em família que vinham planejando. “Não parecia moralmente certo”, diz.

Jason Stanley me contou que, para Snyder, a guerra “não era algo abstrato”. “Há que se lembrar sempre disso. Aquelas pessoas são amigas dele. Tim leva a amizade extremamente a sério. Aquelas pessoas são amigas dele há décadas.” No entanto, também é verdade que a guerra ilustra de modo gritante os temas que moldaram o trabalho de Snyder ao longo das últimas três décadas. Os esforços defensivos da Ucrânia, que têm sido surpreendentemente bem-sucedidos até aqui, são um exemplo do tipo de ação geopolítica que Snyder tentou, em sua obra, devolver à historiografia do Leste da Europa.

A guerra de Putin também levantou questões cruciais sobre a nacionalidade ucraniana e o Estado ucraniano, o que Snyder vem investigando durante toda sua carreira. E, embora tenha previsto que o resultado será decidido por fatores materiais – apoio humanitário, perdão de dívidas, entrega de armamentos –, ele também encara a guerra como uma disputa de ideias. Para Snyder, as repetidas alegações de Putin sobre a unidade espiritual entre as nações russa e ucraniana não são mera propaganda destinada a obscurecer a frieza dos cálculos estratégicos. São parte de uma visão neoimperial profundamente arraigada que Putin criou a partir de três elementos: sua leitura de Ivan Ilyin, da história soviética e de uma certa ideia de grandeza russa.

Essa ênfase nas ideias levou Snyder a ser criticado por alguns na escola realista de relações internacionais. Emma Ashford, integrante sênior do Stimson Center, um think tank, se inclui entre as admiradoras do trabalho de Snyder, mas diz que a “compreensão dele dos assuntos internacionais é quase sempre moldada pelas ideias que acredita serem grandes e importantes, ao passo que eu diria que a invasão da Ucrânia foi igualmente motivada pela tentativa da Rússia de ampliar a sua frágil segurança na região”. A disputa não é acadêmica. Para quem acredita, como Ashford, que a Rússia é motivada por medos estratégicos, quanto mais o Ocidente se envolve na guerra, é maior o risco de ampliar suas causas originais. Por outro lado, para quem acredita, como Snyder, que as raízes da guerra estão na visão de mundo fascista de Putin, a vitória no campo de batalha se torna um imperativo. “Muitas pessoas inteligentes disseram isso antes de mim. O fascismo jamais pôde ser desacreditado. Ele só foi derrotado”, diz o historiador. “É preciso derrotar os russos, assim como os alemães foram derrotados [na Segunda Guerra].”

Em 2004, quando os protestos contra a corrupção e a fraude eleitoral se ampliaram entre os ucranianos, no que ficaria conhecido como Revolução Laranja, Snyder escreveu que “a Ucrânia é hoje o teste para a Europa”. Quase duas décadas depois, parece claro que, para ele, a guerra na Ucrânia é um teste não apenas para a Europa e para os Estados Unidos, mas também para si mesmo. Depois de voltar de Kiev no ano passado, Snyder foi convidado para ser “embaixador” da United24, uma plataforma para arrecadar dinheiro, lançada por Zelensky nos primeiros dias da guerra. Os organizadores da United24 sugeriram que Snyder poderia levantar recursos para reconstruir uma biblioteca em Chernihiv, destruída por bombardeios russos no início do conflito.

“Pensei nisso”, diz Snyder. “Conheço a biblioteca, conheci Chernihiv. Estive lá em setembro e vi as ruínas. Fazer isso teria sido perfeitamente natural para mim, como historiador. Ninguém ia dizer: ‘Ah, arrecadar dinheiro para a biblioteca é errado.’” Mas Snyder não quis tomar a decisão com base no que fosse “politicamente correto” ou no que fosse mais fácil para ele, pessoalmente. Em vez disso, perguntou a amigos ucranianos o que poderia ser mais útil. “Todos disseram: drones. Os historiadores disseram: drones. Os humanistas disseram: drones. Os ativistas da paz disseram: drones.”

Perguntei a Snyder se ele faria o mesmo se os seus amigos dissessem que precisavam não de drones, mas de uma arma ofensiva, como um tanque. “Não”, respondeu Snyder. “Nessa você me pegou.” O sistema antidrones era uma arma, admitiu ele. “Mas é uma arma destinada a salvar vidas de civis, quando a Rússia ameaçava abertamente destruir a infraestrutura, tentando matar de fome e frio a maior quantidade possível de pessoas. Não tem como impedir isso reconstruindo uma biblioteca. Não tem como parar um drone usando o politicamente correto. Mas, se eles tivessem dito: ‘Ajuda a gente a financiar um tanque?’, eu diria ‘Não’. Acho que isso provavelmente mostra o limite da minha disposição para apanhar. Talvez seja o.k. arrecadar dinheiro para um tanque.”

Snyder diz que, mesmo com o dispositivo antidrones, “tinha 100% de certeza que ia ter gente dizendo: ‘Olha, ele é um ativista, está recolhendo dinheiro para um governo’”. O historiador pensava particularmente em seus críticos na Alemanha, “cuja ideia de intelectual público é criticar outras pessoas por serem intelectuais públicos”. Snyder arrecadou mais de 1,2 milhão de dólares para o sistema antidrones em menos de três meses. Como se esperava, as críticas vieram logo, o que pa­ra ele foi apenas a confirmação de que tinha tomado a decisão certa.

O historiador britânico Tony Judt disse em Pensando o Século XX que os intelectuais públicos se veem divididos entre escrever de maneira séria para um grupo pequeno de leitores ou se tornar o que ele chamou de “intelectuais de mídia”. No livro, que Snyder ajudou Judt a escrever antes de sua morte em 2010, ele explica: “Isso significa direcionar seus interesses e suas análises para debates de tevê, blogs, tuítes e coisas do gênero, onde a atenção das pessoas é cada vez mais efêmera.” Eram duas alternativas, não coisas complementares, Judt insistiu. “Não consigo imaginar que se possa fazer as duas coisas sem prejudicar a qualidade do trabalho.”

Nem todo mundo concordaria que Snyder conseguiu escapar do dilema colocado por Judt, mas até o momento ele tem administrado bem aquilo que chama de “higiene profissional”, evitando que uma coisa contamine a outra em excesso. A disciplina sobre a Ucrânia que ele ministrou em Yale e no YouTube poderia ser classificada como pró-ucraniana, na medida que rebatia integralmente a afirmação de Putin segundo a qual a “Ucrânia não é um país de verdade”. Mas a história que Snyder contava, percorrendo um milênio, era complexa e surpreendente, e nem de longe lembrava o que ele vinha escrevendo na internet, na plataforma Substack, onde alinhava declarações concisas e apelos quase tão persuasivos quanto uma propaganda.

Snyder diz não sentir qualquer tensão filosófica entre seu trabalho de historiador e seu ativismo. Também tende a não se importar com os efeitos que a guerra possa ter sobre sua reputação. Ainda assim, ao se ligar de maneira umbilical aos esforços defensivos da Ucrânia, Snyder assumiu riscos que um intelectual público de sua estatura raramente assume. Guerras são sempre complexas, mesmo as que oferecem aquilo que Snyder define como “uma magnitude incomum de clareza moral”. E as questões que a Ucrânia em breve precisará enfrentar – como encerrar a guerra? como reconstruir o país? – provavelmente precisarão de respostas que não chegarão por meio de apelos descomplicados aos valores mais básicos.

Vakarchuk, o roqueiro, disse o seguinte sobre seu amigo Snyder: “Tem gente que acha que ele é um romântico. Eu diria que não é um romântico, mas um idealista.” A distinção parece válida. Snyder não é o jornalista britânico Christopher Hitchens (1949-2011): não tem desejo de sentir aquele frêmito existencial causado pelo zumbido de balas passando por cima de sua cabeça. “Eu certamente não acho que a guerra na Ucrânia é a realização do meu destino, nem nada desse gênero”, me disse ele. Mas sua fé no poder das ideias tem um corolário importante: uma ideia que não custou nada para você vale exatamente o preço que você pagou por ela. Nas palavras dele, durante nossa última conversa em New Haven: boas ideias “não são reais a não ser que você esteja disposto a fazer alguma coisa, mesmo que pequena, para colocá-las em prática”.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_202 com o título “Um historiador em tempos sombrios”.


[1] A Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo, ou Shaker, foi fundada em 1747, na Inglaterra, depois de uma cisão da comunidade quaker. Imigrantes levaram essa seita protestante para os Estados Unidos na segunda metade do século XVIII. De hábitos austeros, os shakers dedicavam-se com afinco à arquitetura e ao mobiliário, sempre de linhas simples, fortes e criativas, sem ornamentações.


Artigo originalmente publicado no jornal The Guardian


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Escritor e editor independente, é colaborador de veículos como The New Yorker, The New York Times e London Review of Books