Imagem A história do meu sequestro

depoimento

A HISTÓRIA DO MEU SEQUESTRO

Herdeira da rede de farmácias Droga Raia conta pela primeira vez como passou 41 dias em cativeiro em São Paulo

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“Surpresaaaaaa!!!” Tentei distinguir as vozes no bufê infantil, enquanto uma multidão de sorrisos se aproximava: eu acabara de cair na armadilha da festa surpresa.

Minha irmã e meu irmão tinham pedido que eu fosse com eles a um evento no bairro de Moema, em São Paulo. Na verdade, o convite era uma isca para me levar até a festa surpresa de minha despedida da empresa. No bufê, passei o restante daquela quinta-feira, dia 19 de março de 2009, circulando entre amigos, funcionários, colegas de trabalho e parentes, relembrando as histórias que tínhamos vivido nos últimos seis anos.

De 2003 até aquele dia, eu trabalhei no Departamento de Recursos Humanos da Droga Raia e também participei da inauguração de novas lojas, durante o plano de expansão da empresa para o interior de São Paulo e os estados do Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Inicialmente, trabalhar na empresa da minha família não fazia parte dos meus planos profissionais. Eu me formei em hotelaria e atuei na área no Brasil e na Suíça. Em 2002, abalada com a morte da minha mãe no ano anterior, decidi repensar meus próximos passos. Aquele talvez fosse o momento de eu fazer o estágio de seis meses que era parte do processo de preparação dos herdeiros para os negócios da família. Meu irmão, André, já atuava na área de logística e distribuição, minha irmã, Cristiana, na de marketing, e meus primos tinham assumido as áreas financeira, comercial e de expansão. Resolvi começar meu estágio em 2003 – e os seis meses na área de recursos humanos viraram seis anos.

Em 2009, porém, decidi mudar com meu marido, Leonardo, e minha filha Helena, então com 2 anos, para Vancouver, no Canadá. Eu estava com 32 anos e queria tirar um período sabático para me dedicar a novos estudos e passar mais tempo com minha família. A festa no bufê infantil era uma espécie de breve adeus da empresa – e do Brasil.

A comemoração em Moema acabou por volta de 21h30. Como eu tinha deixado o carro no escritório, no bairro Itaim Bibi, minha irmã me deu uma carona até lá. No estacionamento, liguei meu Toyota Fielder azul-marinho e pensei na melhor opção de caminho até a casa do meu pai, que ficava a cerca de quinze minutos de distância (sem trânsito), no bairro Jardim Europa, onde eu estava vivendo nos últimos meses depois de esvaziar meu apartamento. Eu sempre mudava de trajeto ao ir de casa para a empresa, e vice-versa, por segurança. Naquela noite, decidi pela rota mais longa, mas sem muitos semáforos: peguei a Avenida Santo Amaro, depois a Avenida Hélio Pellegrino e continuei pela Brigadeiro Faria Lima. Nesta avenida, logo depois do Museu da Casa Brasileira, virei à direita na Rua Antônio José da Silva, e entrei na área mais residencial, que estava muito deserta e tranquila.

No caminho, liguei para uma amiga para avisar que não ia mais encontrá-la, como tínhamos combinado. “Quero ir pra casa, assim, feliz e cansada, com toda a emoção da surpresa que prepararam…” Então, vi pelo retrovisor as luzes de um carro de polícia. Com medo de ser multada, joguei o celular no chão do banco do passageiro. O veículo se aproximou, eu desacelerei, ele me ultrapassou e parou alguns metros à frente, em diagonal, bloqueando a rua estreita do Jardim Europa. Não tive outra opção a não ser parar. Do veículo à frente, saltou um homem vestido de preto, que veio em minha direção:

– Polícia! Sai do carro – ele ordenou.

Abri logo a porta. Tudo aconteceu muito rápido: ele me arrancou lá de dentro com gestos fortes e me arrastou para o seu veículo. Apesar da escuridão na rua pude distinguir dois vultos enquanto era arrastada: o primeiro entrou no meu carro e se posicionou no lugar do motorista, o outro apanhou minha bolsa e meu laptop.

Fui jogada no banco de trás do carro que parecia uma viatura policial, entre dois homens. Havia outros dois na frente.

– Acho que é um engano. Não fiz nada de errado – eu disse, meio desnorteada com aquilo tudo.

– Fica tranquila. Se for engano, a gente te solta – respondeu o sujeito no banco de passageiro, que indagou a seguir:

– Pegou as coisas dela? O cara da guarita tá dominado?

Ele estava se referindo ao vigia da rua.

– Sim, tudo dominado – falou um dos homens ao meu lado. – Só o celular não tá aqui. Cadê seu telefone, dona?

– Eu joguei no chão do carro, achei que ia ser multada. Onde vocês estão me levando?

– Nós vamos para a delegacia. Se estiver tudo certo, a gente te libera.

Um dos homens ao meu lado começou a amarrar meus pulsos com uma corda.

– Não precisa me amarrar – eu disse. E só então me dei conta de que se tratava de um sequestro: os homens não usavam uniforme e o carro deles era branco, diferente dos veículos da polícia, que em geral são de cor escura.

Com os punhos amarrados, perguntei:

– Vocês querem dinheiro, não é?

O homem sentado na frente virou-se na minha direção e, com um sorriso perverso, disse:

– Sim, dinheiro. Muito dinheiro que a gente quer. Sua família tem esse tipo de dinheiro?

Antes que eu pudesse responder, colocaram um capuz na minha cabeça, encostaram um revólver na minha nuca e forçaram minha cabeça, de modo que eu ficasse abaixada entre os dois homens, invisível para quem olhasse o carro do lado de fora. Minha resposta saiu abafada de dentro do capuz:

– Eu não sei se minha família tem esse dinheiro. Mas sei que vai fazer de tudo pra me tirar daqui.

O carro seguiu em alta velocidade, o que fez com que meu corpo encolhido no banco balançasse sem parar.

– Pare de se mexer ou você vai morrer – me disse um dos homens.

“Se ao menos esses homens fossem parados por uma blitz”, pensei. Mas nada disso ocorreu naquela noite. Continuamos por um trajeto interminável, que eu não conseguia saber qual era. Com a cabeça coberta pelo capuz sufocante, meu próprio hálito me angustiava, como se exalasse o pavor que estava brotando de dentro de mim naquele momento.

Com cuidado, ajeitei a cabeça dentro do capuz na esperança de respirar, por uma fresta, um pouco de ar fresco. Ao fazer isso, vi o contorno da maçaneta da porta do carro. Pensei em abrir e saltar do veículo. Mas a porta não estaria trancada com o pino? E como eu faria para escapar dos homens ao meu lado? Não corria o risco de levar um tiro, no instante em que tentasse fugir? Minhas chances de sucesso eram poucas. Só me restava mentalizar um mantra que eu repetiria muitas e muitas vezes nos próximos dias: “Minha família me ama. Só preciso aguentar um pouco.”

O carro, então, estacionou. O motorista saiu e foi substituído. Em seguida, os homens ao meu lado saíram, e outro sujeito entrou. Enquanto dava partida no veículo, o novo motorista disse:

– Fica calma, dona. Nós não vamos te estuprar. Sua família paga e a gente te solta.

Depois de algum tempo em movimento, o carro estacionou outra vez. Ainda com o capuz, ouvi passos e o barulho de um portão sendo aberto. Parecia que estávamos entrando em alguma garagem. O novo motorista, com atitudes de líder, disse:

– Tira o capuz dela e solta as mãos. Eu falei que não precisava disso.

Quando arrancaram o capuz e pude respirar o ar fresco, senti um enorme alívio. Depois tiraram a corda.

– Levanta a cabeça, olha pra mim, no olho – disse o motorista. – Só dá para confiar em alguém olhando olho no olho. Você pode não acreditar, mas bandido tem palavra.

Ele era um homem magro, miúdo, um pouco mais alto do que eu (tenho 1,64 metro), com veias saltadas nos braços e no pescoço, o cabelo curto e escuro, a barba cerrada. Os olhos pretos dele estavam fixos nos meus. O motorista continuou:

– Vai ser assim: a gente vai sair do carro, você fica de cabeça baixa e segura na minha mão. Não olha pro lado nem pra cima. Entendeu?

Com a cabeça, respondi que sim.

Seguimos de mãos dadas por um corredor longo e estreito e entramos em uma casa. Imediatamente, fui levada para o andar de cima. Chegamos num quarto vazio, de cerca de 9 m2, com um colchão velho jogado no chão. Devia ser um quarto de crianças, pois havia brinquedos por todo canto, alguns quebrados, uma lousa pequena, restos de giz pelo chão e uma Barbie sem cabeça. Seguindo à risca as instruções, sentei no colchão e olhei mais uma vez nos olhos do motorista.

Ele falou que ia ligar para o meu pai e que, enquanto isso, outro homem, a quem eu devia chamar de Tio, iria me vigiar. Antes de sair, perguntou:

– Sua família gosta de você?

Fiz que sim com a cabeça.

– Então vai ser rápido: eles pagam, e eu te solto.

De repente, uma coragem que não sei de onde veio me levou a dizer:

– Olha, meu pai é um cara bem nervoso. Acabou de receber um trote telefônico, tem muita chance de não acreditar em você e ainda ser mal-educado.

Ele sorriu e saiu do quarto. A partir de então esse homem passou a ser, para mim, o Mensageiro, aquele que levava e trazia a esperança de eu sair sã e salva daquele sequestro.

No quarto desarrumado, os latidos de um cão na vizinhança, a respiração de Tio e meu choro quebravam o silêncio terrível. Àquela hora, eu estaria dormindo ao lado da minha filha – e era só nela que eu pensava.

Então abriram a porta: era o Mensageiro, de volta.

– Você tava certa. Seu pai desligou o telefone na minha cara e me mandou tomar no cu. Vou dar um tempo pra ele cair na real e ligo de novo. Da próxima vez, reza para ele não desligar e ter educação. Você acha que sua família tem dinheiro e vai pagar por você?

Eu nem sabia de quanto era o resgate e algo me dizia para não confirmar nada. Eu apenas falei:

– Sei que minha família vai fazer de tudo para me tirar daqui. É só disso que eu tenho certeza.

Mensageiro pediu para eu tirar o relógio e a aliança, apanhou os dois objetos e deixou o quarto novamente. Foi como se ele levasse uma parte de mim. Olhei para Tio, seus olhos castanhos bem escuros, o cabelo enrolado e curto, o rosto ovalado com um bigode ralo. Com nojo do colchão, optei por não me deitar nele: permaneci apenas sentada, encostada na parede. Meus olhos estavam bem abertos, mas era como se eu estivesse dormindo. Nada daquilo parecia real.

Já estava amanhecendo: a luz do Sol começou a penetrar pelos buraquinhos da janela de alumínio. Mensageiro entrou no quarto, bastante nervoso:

– Sabe quanto que eles disseram que têm pra te soltar? Sete mil reais. É isso que você vale pra sua família, 7 mil reais, sabia?

Eu suspeitava que minha família iria propor um valor bem abaixo do que os sequestradores pediam, mas 7 mil reais apenas? Aquilo não fazia nenhum sentido, eu sabia que meus familiares eram capazes de mais. Mensageiro, porém, não me poupou:

– Pior ainda: não foi seu pai que falou comigo. Foi seu cunhado, um tal de Eduardo. Cunhado nem é família, viu? Sua família, seu pai, não estão nem aí pra você.

Chorando, eu disse em voz baixa:

– Meu pai tem uma saúde frágil, talvez ele não tenha conseguido falar. E meu cunhado é diferente. Ele está com minha irmã faz muito tempo. Meu cunhado é família para mim.

Mensageiro continuou, implacável:

– Não é nada. Cunhado não é família. E mãe, cadê sua mãe, numa hora dessas?

– Minha mãe morreu de câncer faz tempo. Mas meu pai, meus irmãos, meus tios e meu marido farão tudo por mim.

– Dona, eu já disse: ninguém da sua família gosta de você. Sete mil reais é o que você vale pra eles.

Toda família tem uma história que vale a pena ser contada. A história da minha começa com Arturo, um engenheiro químico italiano que, depois da Segunda Guerra Mundial, chegou ao Brasil com 50 dólares no bolso. Ele havia perdido a mulher durante a guerra, não tinha mais emprego em seu país e resolveu buscar o futuro no Brasil. Para isso, precisou deixar o filho, ainda bebê, na Itália, sob os cuidados da avó.

Determinado a reconstruir sua vida, Arturo trabalhou em uma empresa metalúrgica até conhecer Ada, com quem se casou. Em 1949, os dois foram à Itália para buscar o menino, que se chamava Franco e viria a ser meu pai. Juntos, Arturo e Ada tiveram dois filhos: Rosalia e Antonio Carlos.

Ada era a filha mais velha do farmacêutico João Baptista Raia, dono de uma das primeiras redes de farmácias do país, iniciada em 1905. Pouco antes de falecer, em 1956, preocupado com a perenidade do negócio, João Raia pediu ao filho e aos dois genros que se juntassem a ele no negócio. Depois da sua morte, seguiu-se uma década de muitas dificuldades, até que em 1965 meu avô Arturo decidiu se arriscar e manter a empresa sob seu comando.

O custo da decisão foi alto: das doze lojas existentes, meu avô precisou fechar a maioria e ficou com apenas três. Nos anos seguintes, dedicou-se a sanear financeiramente a empresa. No início dos anos 1980, ele passou a gestão do negócio para os três filhos – Franco, meu pai, e seus meios-irmãos Rosalia e Antonio Carlos. A rede, então, ganhou o nome de Droga Raia. A partir dos anos 2000, apenas Antonio Carlos permaneceu na empresa, como presidente. Meu pai e Rosalia deixaram suas funções executivas para assumir cadeiras no Conselho de Administração.

Não é difícil imaginar como eram os encontros dessa família, dentro e fora da empresa: uma turma de descendentes de italianos barulhentos, em torno da mesa (de jantar, na casa dos meus avós, ou de reuniões, na sede da empresa), discutindo sem parar assuntos de trabalho. A empresa era a família e a família era a empresa.

Flashes dessa história familiar passaram pela minha cabeça, enquanto eu estava presa no quarto bagunçado, ao lado de Tio, sem relógio e celular, incapaz de medir o tempo. Só a luz que entrava pelas frestas da janela me dava algum consolo, diluindo um pouco o terror que eu acumulara durante a madrugada, enquanto um cão latia sem parar. Observei com mais atenção o quarto e os ruídos do entorno. Deduzi que estava em uma casa geminada, porque podia ouvir as vozes dos vizinhos. A rua em frente era movimentada, com o barulho incessante de carros, ônibus e buzinas. Passou um vendedor, berrando no alto-falante: “Pamonha, pamonha, pamonha.” Esse anúncio que tanto me irritava pela primeira vez soou reconfortante aos meus ouvidos. A janela parecia dar acesso a uma laje onde ficava o cachorro que latia de madrugada.

Pedi permissão para ir ao banheiro e Tio me autorizou, com a ressalva de que eu devia deixar a porta entreaberta. Ao caminhar até lá, o pânico retornou: tive medo de ser violentada. O banheiro era forrado de azulejos antigos na cor bege, com um vaso sanitário marrom. Perto do chuveiro elétrico, havia um pequeno vitrô. Estiquei o pescoço na tentativa de ver lá fora: avistei apenas um corredor vazio, entre a casa em que eu estava e a do vizinho. O chão do box do chuveiro estava cheio de cabelo. Num suporte, havia um frasco de xampu quase no fim e outro de condicionador, com o desenho de uma daquelas princesas da Disney. Ao ver essa imagem, desatei a chorar, pensando na minha filha, minha princesinha. Eu tinha feito a ela uma promessa: levá-la na sexta de manhã ao aeroporto para apanhar o pai, que vinha de uma viagem no exterior.

De volta ao quarto, passei o resto do dia com o olhar fixo em um ponto qualquer, mordiscando os biscoitos e tomando o Gatorade que os sequestradores me trouxeram. Tio permaneceu sentado no chão, em cima de um colchão estreito, bloqueando a porta do quarto. Ele estava sempre em silêncio, e eu também não tinha força nem coragem para falar o que quer que fosse. Anoiteceu outra vez, mas fui incapaz de dormir, por causa da angústia e do medo de ser estuprada.

No sábado, não tive nenhuma notícia da minha família e nenhum sinal do Mensageiro. O dia se arrastou devagar e o silêncio só foi quebrado pelo barulho de carros na rua. Com a chegada da noite, o cachorro voltou a latir.

Percebi que era domingo por causa de alguns sons característicos. Ouvi uma pessoa lavando o carro, uma mãe chamando a família para o almoço, o número mais reduzido de veículos na rua. Mensageiro chegou com uma televisão e disse que falaria com minha família outra vez na segunda-feira. Ele me prometeu que, com ou sem dinheiro, iria me soltar. Eu acreditei nisso. Precisava acreditar, mas será que ele não temia que eu o denunciasse depois, já que tinha visto seu rosto e o de Tio? Meu contato com os outros integrantes tinha sido tão rápido que eu não conseguia lembrar como eles eram. Não lembrar os rostos me dava alívio, como se, por isso, eu corresse menos risco.

Pedi licença para me levantar do colchão e pegar a lousa de brinquedo e pedaços de giz do chão. Passei o domingo desenhando, escrevendo e apagando bobagens na lousa, enquanto meus sequestradores faziam “um gato” para ligar a televisão. Pensei em meu pai, que todo domingo fazia uma sessão de cinema em casa para familiares e amigos, um ritual que ele criou depois de se aposentar.

À noite, caiu uma chuva forte, acabou a luz e nada de televisão. O cachorro da laje voltou a latir. Os sons de domingo foram sumindo pouco a pouco. Mesmo sem fome, comi a bolacha recheada que tinha sobrado.

Na segunda-feira, na hora do almoço, me trouxeram numa marmita de alumínio um prato feito de frango, arroz, feijão, beterraba ralada, batata frita e ovo frito. Comi menos que a metade e ofereci o que sobrou ao Tio, que aceitou na hora. Perguntei o nome dele, mas Tio me respondeu que não podia contar. Perguntei, então, se ele tinha família. Ele falou que sim: mulher e seis filhos. Completou dizendo que tinha vindo do Nordeste. De repente me dei conta que havia passado a maior parte das últimas 72 horas sem falar nem ouvir quase nada, exceto minha voz interior e três frases do Tio.

Com a televisão finalmente ligada, o tempo começou a passar em outra velocidade. O controle remoto ficava na mão do Tio, que escolhia noticiários sensacionalistas que não paravam de cobrir o desfecho trágico do sequestro de uma mulher na Zona Leste de São Paulo. Ao ver a imagem do corpo dela sendo desenterrado, pensei que talvez tivesse a sorte de não ter esse fim. Um pouco mais tarde, ouvi o Mensageiro reclamar da bagunça e da sujeira na casa. Começou então o que parecia ser uma faxina geral no lugar. “Estranho, fazer uma faxina assim do nada, numa situação dessas”, falei para mim mesma.

Ouvi o som de pancadas e marretadas, como se algo estivesse sendo quebrado no andar de baixo. Um pensamento mórbido me veio à cabeça: será que estão cavando minha cova no piso da casa? Tentei afastar essa imagem macabra da mente, mas a tevê não desistia de mostrar a cena da mulher sendo desenterrada. “Se meu destino é morrer, talvez seja melhor morrer tentando viver”, pensei, imaginando pela primeira vez um modo de fugir dali. Durante a tarde, tomei coragem e pedi ao Tio para mudar de canal. Para minha surpresa, ele me entregou o controle remoto. O gato que fizeram era tão bom que pegava canais de filmes por assinatura.

Passei a noite em claro, refletindo sobre qual seria a melhor rota de fuga. Comecei a elaborar um plano: abrir a janela com acesso (suposto) à laje enquanto Tio dormia, dar um chute no cachorro que latia à noite caso ele avançasse sobre mim, e pular para a rua ou para o vizinho (o que fosse mais viável).

No dia seguinte, percebi um cheiro forte na minha blusa e perguntei ao Tio se poderia tomar um banho. Ele se aproximou de mim, meio sem jeito e me entregou, em uma sacola plástica, uma calcinha limpa e um bilhete: “Que Deus te dê força e nos perdoe por te causar sofrimento.” Tio cochichou que precisava do bilhete de volta porque tinha sido escrito pela mulher dele e ninguém mais podia ver. Depois, ele me deu uma toalha e um sabonete em barra. Pela primeira vez em dias, tomei um banho. A tensão da presença de um homem vigiando do lado de fora do banheiro diminuía o prazer da água fria escorrendo pelo meu corpo depois de tanto tempo.

No fim da tarde, o Mensageiro chegou de repente e disparou:

– Amanhã, com ou sem dinheiro, vou te soltar. Não quero mais ficar contigo aqui, tá ficando perigoso.

Pronto: não precisava fugir porque seria solta. Bandido realmente tem palavra.

No outro dia, por volta das nove da noite (a programação da televisão é incrivelmente pontual e precisa), o Mensageiro retornou, com o semblante sério.

– Está tudo bem? – perguntei, como se tivesse adquirido certa intimidade.

Ele não respondeu. Apenas mandou que eu me levantasse e descesse para o térreo da casa com a cabeça baixa, sem olhar para ninguém. Fui dominada por um pavor inexplicável. Na garagem, entramos no carro, ele assumiu o lugar do motorista e outros três homens também entraram.

– Vocês vão me soltar, né? – perguntei.

– Soltar? – riu um dos homens (era o mesmo que me arrastou para fora do meu carro, reconheci pela voz). – A gente só vai te soltar quando a sua família pagar.

Minhas mãos foram amarradas e colocaram um saco preto de pano na minha cabeça. Algo havia dado errado. Como fui ingênua em acreditar no Mensageiro. Tive certeza de que estava sendo levada para a morte. Como será a dor de um tiro? Será que meu corpo vai ser jogado em um buraco, como o da moça da Zona Leste? Senti desespero e tristeza por minha família não ter pagado o resgate.

O carro parou bruscamente e houve uma troca de homens. Novas vozes. Perguntei para os novos integrantes:

– Vocês vão me matar?

– Não, a gente não vai te matar – respondeu uma voz calma e jovem. – Você está sendo transferida até sua família pagar.

Senti um misto de alívio e medo. A mesma voz disse:

– Vamos descer do carro de mãos dadas. Não abaixa a cabeça porque tem que parecer que você é minha namorada. E não olha pra ninguém porque é melhor pra você.

O lugar era escuro, com pouca iluminação de rua e pequenas casas, sem nenhum tipo de prédio ou grande construção à vista. Tentei caminhar com naturalidade sobre o chão de terra. Do lado direito havia uma quadra iluminada, com pessoas jogando futebol. Do lado esquerdo avistei apenas um matagal. Descemos por uma rua que foi ficando cada vez mais estreita e com menos construções. Por fim, chegamos a uma casa com barras grossas de ferro na porta. O homem me levou para um quarto escuro, disse para eu me sentar e me trancou.

Não sei quanto tempo fiquei ali, no escuro e em silêncio. A porta foi aberta e soou uma voz masculina que eu não conhecia, de timbre forte. O homem chegou bem perto de mim, talvez para me assustar, e pude sentir que levava uma arma na cintura. Ele disse:

– O negócio é o seguinte: sua família não quer pagar, e o pessoal que te pegou não quer mais ficar com a senhora, estão com medo. Então, a senhora foi transferida para mim e só vou te soltar quando sua família pagar.

O corpo dele estava próximo, mas a voz parecia distante e abafada.

– Se a senhora se comportar e seguir as regras, vai poder tomar banho e comer. Seguir as regras significa ficar quieta, não tentar fugir e obedecer. A senhora vai ficar na cama, com os pés e mãos amarrados. Toda vez que alguém entrar, vira para o lado da parede, fecha os olhos pra não ver e coloca essa toalha na cabeça. Não pergunta nada pra ninguém e se precisar de alguma coisa pede para me chamar. Me chama de “Ele”. Entendeu?

Sinalizei que sim. Depois de amarrar meus pés e mãos, Ele partiu.

O novo cativeiro era ainda mais assustador que o primeiro, sem janela, sem televisão, sem latido de cachorro e sem a respiração do Tio para lembrar que eu estava viva. Curiosamente, a roupa de cama parecia limpa, recém-lavada, cheirando a sabão em pó. Com medo de fazer barulho, enfiei a cabeça no travesseiro para abafar o choro.

Imaginei meus irmãos no meu lugar. Minha irmã, com habilidade para se comunicar, talvez tentasse negociar com os bandidos. Meu irmão, com seu temperamento explosivo, quem sabe não suportasse a espera e arriscasse fugir. Meu pai com sua saúde frágil, teria dificuldades para aguentar tudo aquilo sem seus remédios. Foi melhor que tivesse sido eu a escolhida pelos sequestradores – esse era um dos discursos de consolo que criei para me ajudar naquelas horas.

Uma pressão na bexiga me disse que precisava ir ao banheiro. Colocaram um balde perto da cama, mas eu não conseguia me imaginar usando aquilo para as necessidades. Com as mãos e os pés amarrados, me levantei da cama e bati duas vezes na porta. Em seguida, corri para a cama, virando de lado, como o homem tinha ordenado. Ouvi um cadeado ser destrancado.

– O que você quer? – disse o meu carcereiro.

– Preciso fazer xixi.

– Está certo, pode fazer.

– Mas como é que eu vou fazer no escuro e com as mãos amarradas?

Segundos sem resposta.

– Tá bom, vou te desamarrar, mas o escuro vai ficar. E lembra do que Ele disse sobre ficar quieta.

Antes de soltar minhas mãos, o homem colocou uma toalha sobre a minha cabeça. Para meu alívio, ele saiu do quarto. Recorri ao balde. Que situação triste e humilhante. Minutos depois, o carcereiro voltou, coloquei novamente a toalha na cabeça e ele amarrou minhas mãos. Comecei a chorar sem parar.

Alguns dias depois, Ele reapareceu. Fiquei estranhamente feliz com a sua chegada. Sentado na ponta da cama, Ele disse:

– Dona Marta, está tudo bem com a senhora? Me falaram que não tem comido nada. A senhora não pode ficar doente.

Eu respondi sem olhar na direção dele, com o corpo virado para a parede:

– Quase não tenho fome e fica difícil comer no escuro e amarrada.

– Como a senhora tem seguido as regras, eu vou deixar a luz acesa na hora da comida e vou soltar suas mãos e seus pés. Também vou liberar pra senhora tomar banho e usar o banheiro uma vez por dia. Vou providenciar escova de dente, xampu, essas coisas. A senhora vai usar essas roupas aqui, ao invés das suas. A sua roupa a gente vai lavar e te devolver quando você for embora. Esse rapaz aqui vai ficar o tempo todo do lado de fora do quarto.

Ouvi uns passos no quarto. Senti mais uma presença ao meu lado, e meus pés e mãos foram desamarrados delicadamente.

– Alguma novidade da minha família? – perguntei.

– Escreve nesse papel o telefone do seu pai. A gente vai falar com ele logo mais. A senhora continua assim, se comportando, que tudo vai dar certo.

O novo carcereiro me passou as orientações para usufruir dos privilégios recém- concedidos:

  1. Sair do quarto com a cabeça baixa, sem olhar para nada.
  2. Seguir direto para o banheiro.
  3. Fechar a porta, sem trancar.
  4. Qualquer barulho fora do normal – e o banho acaba.

Pela primeira vez em dias fiz uma refeição com a luz acesa. Movimentar meu corpo livremente em cinco passos curtos até o banheiro foi um misto de prazer e conquista. No banheiro minúsculo, com azulejos e louças claras, fiquei radiante com o chuveiro elétrico, a cortina de plástico fosco, a privada limpa, uma pequena pia. Levei um susto ao ver meu reflexo no espelho: olheiras fundas, as sobrancelhas sem fazer, o cabelo oleoso. No chuveiro, a água morna era como um carinho que eu estivesse recebendo. O toque da toalha fofa e a sensação de vestir uma roupa limpa me trouxeram um grande conforto. O banho diário seria para mim, a partir de então, um ritual essencial.

Com os novos privilégios, as coisas pareceram menos aterrorizantes. O som da televisão no cômodo ao lado ajudava a me guiar entre as horas do dia. O café da manhã era servido logo após o Bom Dia Brasil, o almoço depois do Globo Esporte e o jantar antes da novela das oito. Uma noite, depois da novela, o carcereiro entrou no quarto, se acomodou ao pé da cama e começou a bater papo. Ele explicou que não tinha nascido bandido, era barman de um hotel e, um dia, pela adrenalina, roubou um carro com amigos. E, de um roubo a outro, se viu envolvido com crimes mais perigosos – até que roubou um banco e foi preso.

– Depois de ser preso, dona Marta, não dá mais para largar o crime. Ninguém dá trabalho pra quem saiu da cadeia. Ser bandido vira a única opção.

Um dia, ele me perguntou como eu havia sido sequestrada. Depois de ouvir minha história, aconselhou:

– Você nunca pode parar o carro e sair. Tem que passar por cima, seja bandido, seja polícia, tanto faz. Ainda mais se tiver um carrão blindado.

Acho que o carcereiro precisava conversar para passar o tempo, como eu. Eu dormia mais durante o dia do que de madrugada. O silêncio era terrivelmente perturbador durante a noite. Às vezes, ouvia passos pesados, vindo de cima, umas pancadas na porta, um som assustador.

– É a PM, dona, eles vivem por aí procurando bandido. Se um dia a PM invadir a casa, eu vou me enfiar na sua cama para fingir que sou seu marido. Porque a PM não tem dó não, eles entram mandando bala em todo mundo, até em você, sem perguntar. A PM é ruim mesmo, mais bandido do que a gente.

Fiquei gelada só de me imaginar na cama com um estranho, alguém que era só um corpo sem rosto, uma voz. Ao mesmo tempo, eu me sentia em débito com ele, grata pela forma como me tratava.

– A senhora come camarão e champanhe todo dia, né? Arroz e feijão, que nem a gente, a senhora nem come?

– Claro que como. Camarão e champanhe só em ocasiões especiais. Quando saio com minhas amigas, por exemplo, tomo cerveja.

– Ah, a senhora toma cerveja? Fala sério? Se eu trouxer uma cerveja aqui, a senhora vai tomar?

– Acho que sim. Mas vai ser estranho.

– Então no dia que a senhora for solta eu vou trazer uma cerveja para a gente tomar junto e comemorar.

Resolvi arriscar e perguntei o nome dele.

– Meu nome é Alan.

É muito mais fácil confiar em alguém com um nome.

Um dia, Alan disse que, como eu estava seguindo as regras, iria deixar a luz acesa durante todo o dia. Correndo o risco de abusar da sorte, pedi uma revista, um livro, qualquer coisa para me entreter. Com a luz acesa por muito mais tempo, reparei nos detalhes do quarto, menor que o anterior, sem janela e com uma cômoda onde havia produtos de perfumaria empoeirados. Um armário alto trancado encobria toda a parede rebocada. Sobrava pouco espaço entre o pé da cama e a parede do fundo, mas era o suficiente para eu fazer alongamento.

Ele passou a vir todo dia, sempre educado. Pedia um telefone de contato da minha família, eu escrevia alguns números em um pedaço de papel. Passei a incluir o telefone dos meus tios, de meus padrinhos, meu sogro e minha sogra. Na minha fantasia, se todas as pessoas que me amavam fizessem uma vaquinha, eu sairia dali.

Foi Ele quem me trouxe as revistas. Eram dois exemplares da Caras. Depois de entregá-las, perguntou se eu precisava de mais alguma coisa. Pedi um caderno, uma caneta e um livro, sobre qualquer assunto. E também absorventes.

– Vou ver o que posso fazer. Não estou conseguindo falar com a sua família. Mas decidi que até a Páscoa eu te solto. Você vai passar a Páscoa com a sua filha.

Seria verdade? Eu precisava acreditar que sim. Afinal, Ele cumpria tudo que dizia. Era um bandido de palavra.

A perspectiva de passar a Páscoa em casa me trouxe uma dose de ânimo que eu nem sabia que ainda tinha. No caderno, desenhei um calendário para ajudar a reestabelecer a minha noção do tempo e fazer uma contagem regressiva até a Páscoa. Pelas minhas contas, eu tinha ficado uma semana no primeiro cativeiro e já estava há dez dias no segundo, num total de dezessete dias de sequestro. Até a Pascoa seriam mais nove dias.

Desde pequena eu tinha o hábito, em situações de ansiedade ou estresse, de arrancar com os dentes a pele dos dedos da mão. Era um ritual de autoflagelação que precisava ser estudado, como dizia minha mãe. Durante o sequestro angustiante, eu mordia meus dedos no escuro sem parar. Me machucava tanto que lotava o lixo com papel higiênico sujo de sangue. A notícia chegou a Ele, que ficou indignado com meu ritual masoquista. À medida que se aproximava o dia de eu ser solta, prometi a mim mesma que nunca mais iria “comer” os dedos. Nunca mais.

No último domingo antes da Páscoa, segundo meu calendário, Alan entrou no quarto e perguntou se eu gostava de pizza.

– Adoro pizza, Alan.

– Qual tipo?

– Ah, qualquer uma, muçarela está ótimo.

– Ah, vai dona, chique desse jeito a senhora gosta de muçarela? Fala outra.

– Portuguesa, adoro portuguesa.

Alan deixou o quarto e o ouvi comemorando:

– Ela gosta de portuguesa, a minha favorita!

A pizza chegou quente e cheia de azeitonas grandes. Lembrei do meu irmão e das nossas disputas pelas azeitonas da pizza.

Depois, Alan trouxe mais uma boa notícia:

– Falei com Ele que a senhora já está muito tempo nessa cama. Ele liberou para andar pelo quarto. Quando ouvir alguém abrindo a porta, a senhora corre de volta pra cama e coloca o pano na cabeça. Tá entendido?

Por volta das quatro da tarde (de acordo com a tevê), ouvi Ele se aproximar do quarto. Meu ouvido estava treinado para distinguir nuances no som. Como sempre, a luz foi apagada e eu me virei de costas, com a toalha sobre a cabeça.

– Eu sei que tinha prometido te soltar antes da Páscoa, mas sua família realmente não está nem aí com você. Seu pai mudou de casa, acredita? A gente não consegue mais falar com ninguém. Os telefones que você me deu, foram todos mudados. Sua família sumiu.

– Como assim, se mudou?

– Mudou, não tem ninguém naquele endereço que você escreveu.

– Mas você falou que me soltaria mesmo assim, lembra?

– Mas eu não estou sozinho. E meus colegas não querem te liberar. Eles sabem que sua família tem dinheiro e é dinheiro que eles querem.

Algo me disse para não falar em valores, mas, ao mesmo tempo, mentir também não parecia recomendável. Pouco importava, porque eu não conseguia falar nada naquele momento. Fiquei terrivelmente muda.

– Dona Marta, é o seguinte: vamos dar um gelo na sua família. Só vamos retomar a comunicação com eles depois do feriado. Na terça-feira depois da Páscoa, você vai gravar um vídeo que precisa convencer sua família que você tá sofrendo aqui. Vou mostrar o vídeo pros meus colegas e, se eles acharem que funciona, ótimo. Se não, eles vão querer te transferir daqui e te machucar de verdade. E aí eu não vou ter mais como garantir sua segurança. Então, pensa bem antes de fazer o vídeo.

Toda a minha esperança de ser libertada desapareceu. Um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim: a frustração de não ter sido solta, a tristeza de não passar a Páscoa com a minha filha, a dúvida sobre a conduta da minha família, a angústia de me preparar para o vídeo, o pavor de ser transferida dali. Comecei a chorar o tempo todo, inclusive na hora de comer. Fiquei apavorada com o pensamento de não ser amada, de não valer o resgate.

Alguns dias depois, Alan entrou no quarto com uma pizza portuguesa e um pedaço de ovo de chocolate. Era Domingo de Páscoa.

No dia da gravação do vídeo, Ele chegou ao quarto e, educado como sempre, foi dando as orientações:

– Vai ser assim, dona, você precisa falar três coisas. A primeira é que a senhora já disse pra nós que a sua família tem o dinheiro que pedimos. A segunda é que a gente está te machucando. A terceira é que, se eles não pagarem, a gente vai te matar. O resto pode falar o que quiser, claro que sem dar detalhe de algo que tenha visto. Pode também falar o tempo que quiser. E pode se preparar um pouco, pensar no que quer falar. Eu te dou meia hora e volto pra filmar. Entendeu?

Assenti com a cabeça. Meia hora depois, Ele estava de volta com mais orientações:

– Vamos filmar com a luz acesa. Não olha pra gente, olha pra câmera. E lembra que você tem que tocar o coração deles. Você tem que parecer desesperada.

Enquanto eles montavam a câmera, fiquei virada para a parede, repetindo para mim mesma tudo que iria falar, palavra por palavra. Quando finalmente me virei para começar, fiquei tão assustada com tudo aquilo, que congelei. Havia quatro homens encapuzados dentro do quarto minúsculo, vestidos de calça jeans e camisetas longas. Parecia uma cena de filme. Perdi totalmente a concentração, parei de respirar e esqueci as frases que tinha elaborado. Estava tão nervosa e com medo que não conseguia nem chorar. E era preciso chorar para convencer os bandidos e minha família do meu desespero.

Quando terminou a gravação, entrei em pânico, pois achava que não tinha passado a mensagem no vídeo. Tinha falado as três coisas que Ele havia exigido, mas me pareceu que não fui dramática o suficiente. Ele me disse que em algumas horas voltaria para me transferir de local ou me manter lá, e esperar a manifestação da minha família.

Meu estado de desespero com o que poderia acontecer era tanto que fiquei paralisada na cama e, finalmente, chorei como não tinha chorado diante da câmera. Ele voltou em poucas horas com a notícia de que eu não seria transferida. A gravação tinha agradado seus colegas. Poucas vezes senti tanto alívio como naquele instante.

Pelo meu calendário, cheguei ao 25º dia do sequestro. Como manter minha mente ocupada e fazer o tempo passar? Chorar e rezar não eram mais atitudes suficientes para me manter viva. Cheguei à conclusão de que o primeiro passo seria estabelecer uma rotina e programei minha mente para que o áudio da televisão funcionasse como um relógio de verdade.

Desenhei então no caderno uma tabela com as atividades e horários, conforme a programação da Rede Globo, a única referência de ordenação do dia que eu tinha: oração (no horário do Bom Dia SP), café da manhã (Bom Dia Brasil), alongamento (Mais Você), caminhada (TV Globinho), palavras cruzadas (SPTV), almoço (Globo Esporte e Jornal Hoje), oração e soneca (Vídeo Show), alongamento e caminhada (Vale a Pena Ver de Novo), tradução de textos em inglês (Sessão da Tarde), caminhada (Malhação e Brasil Urgente, o programa do Datena), jantar (novela das seis), banho (SPTV), escrita livre e planejamento (novela das sete), lanche e revisão do dia (Jornal Nacional e novela das oito), oração (Big Brother Brasil). O único momento em que os sequestradores mudavam de canal era para ver o programa do Datena.

Nas caminhadas no espaço exíguo daquele quarto, comecei com cem passos por dia. Ao final de uma semana, já alcançava a marca de 5 mil passos. Para o treinamento cerebral, além das palavras cruzadas, fazia traduções para o inglês de músicas que eu lembrava e das revistas brasileiras que os sequestradores me davam. Traduzi todas as páginas e deixei por último as receitas. Uma delas trazia a receita de um bolo da chef inglesa Nigella Lawson. Pensei nos poucos bolos que havia feito com minha filha. Isso me levou a mais uma promessa: fazer o bolo da Nigella caso eu saísse daquele cativeiro.

Estabelecer uma rotina e segui-la à risca foi uma forma de manter minha sanidade. Mais do que isso, foi um jeito de me aproximar mais de mim mesma, de dizer que eu era uma pessoa normal em uma situação anormal. Eu não podia deixar o medo e o caos se apoderarem de mim.

Segui essa rotina até 25 de abril, o 38º dia de cativeiro, quando Alan entrou no quarto com uma voz diferente. Tirando um papel amassado do bolso, disparou perguntas:

– Qual o apelido da sua avó materna? Pensa direito, dona Marta, não pode errar nas respostas.

– Vó Motoquinha ou Vó Toquinha – respondi, sem hesitar.

– Qual a música que você fez com seu pai?

– Como assim?

– A música do seu pai.

– Você quer dizer a música preferida do meu pai? Ou a música que eu fiz para ele?

– Não sei, dona – ele disse, nervoso. – Aqui está dizendo: qual a música do seu pai?

“Difícil”, pensei. Meu pai é um sujeito culto, cujo hobby é ouvir música. De todo o repertório possível, filtrei as opções e cheguei a duas alternativas: uma paródia de Luar do Sertão que anos antes eu havia feito para ele no Dia dos Pais e a música com a qual ele me levou ao altar, no dia de meu casamento, Andança.

Alan saiu voando do quarto, me deixando atordoada. Algumas horas depois, reapareceu.

– Dona Marta, não vai ser hoje que vão te soltar. Deu algum problema lá. Mas vai acontecer. Finalmente a gente conseguiu falar com a sua irmã e ela decidiu pagar. A senhora vai embora logo, logo.

As perguntas devem ter sido algum tipo de prova de vida, uma exigência da minha família.

Não sei bem quanto tempo passou, e Alan apareceu com novas perguntas:

– Qual o nome do primeiro cachorro que vocês tiveram?

– Cascão.

– Me fala alguma coisa do seu marido que é só dele?

– Como assim? O jeito dele?

– Não, dona, alguma coisa que ele tenha que dê pra saber que ele é ele.

– Ah, tá. Bom, ele é careca, magro e tem uma tatuagem na perna.

– Tatuagem? Qual tatuagem? Que parte da perna?

– Um dragão verde na batata da perna.

Ele saiu do quarto, mas antes deixou uma muda de roupa nos pés da cama. E, para minha grande surpresa e felicidade, era minha própria roupa. Limpa e cheirosa.

Passei as horas seguintes com muita ansiedade. Não havia nada no mundo que eu quisesse mais do que sair dali, mas, ao mesmo tempo, sair dali me apavorava. Tinha surgido em mim uma sensação reconfortante de segurança no cativeiro, garantida pelo status de ser uma prisioneira com bandidos bonzinhos.

Por volta das dez horas da noite, Ele veio ao quarto, sentou-se na ponta da cama e disse:

– Dona Marta, vou te soltar.

– De verdade? – respondi com os olhos cheios de lágrimas, debaixo da toalha que me cobria a cabeça. – Quando?

– Agora, agora. E sou eu mesmo que vou te soltar, para garantir que a senhora vai ficar bem.

– Você não vai me largar no meio de um matagal, né? Pelo amor de Deus, me deixa em algum lugar seguro.

– Claro. Agora que a sua família pagou, se alguma coisa acontecer com a senhora a polícia vai achar que foi a gente e vai vir com tudo, matando todo mundo. E já te falei, dona: bandido tem honra.

Mais uma vez, acreditei em todas as palavras dele.

– Vou pedir uma coisa, se a senhora puder fazer esse favor, vou ser grato. Vou te deixar bem perto de uma estação de metrô. Na frente da estação, tem um ponto de táxi. A senhora pode pegar um táxi e ir pra sua casa. Ou pode entrar na estação e pegar o metrô. De metrô, deixa mais tempo pra gente fugir.

– Vou te fazer esse favor. Como você cumpriu sua palavra, pode confiar na minha – respondi. – Mas eu não tenho dinheiro para pegar metrô.

– Vou te dar, não se preocupe. E a senhora vai pra casa da sua irmã, lá na Lapa, ela está lá. E mais uma coisa: na hora de sair da casa, vou pegar na sua mão, a senhora olha pra baixo que eu te guio, não olha pra ninguém.

E, finalmente, ele disse a frase libertadora:

– Pode colocar sua roupa que nós já vamos sair.

Depois de tantos dias, já havia esquecido como era vestir minha própria roupa: uma calça bege, com camisa azul-marinho e sapato rosa. Ao colocar a calça, percebi que tinha emagrecido muito. Antes de sair, Ele confiscou todos os meus “bens”, aquelas coisas que acompanharam minha solidão e minha luta contra o desespero: as revistas, o caderno, a caneta.

De cabeça baixa, peguei na mão de Ele e seguimos para fora da casa. Era noite e estava tudo muito escuro. No final da subida, um carro nos esperava. Ele abriu a porta de trás e eu entrei, sempre com a cabeça baixa, já esperando pelo capuz. Ele se posicionou ao lado do motorista, de onde soou uma voz familiar:

– Oi, dona Marta, lembra de mim?

Era o Mensageiro, o mesmo homem que tinha prometido que ia me soltar, tivessem pagado ou não o meu resgate, mas acabou me entregando para outros bandidos.

– Não falei que ia te soltar? Não falei que ia estar no carro? Então, vim aqui para cumprir minha palavra.

Mais uma vez, o percurso pareceu interminável. Mas, daquela vez, não colocaram capuz na minha cabeça e não havia nenhum homem com revólver encostado na minha nuca. Mesmo assim, fiquei deitada de lado no banco, com a cabeça para baixo. Ele e o Mensageiro passaram todo o trajeto falando da minha família. Disseram que eu só podia confiar no meu marido e na minha irmã, que só eles eram “gente fina”.

Mensageiro disse:

– Dona Marta, pode levantar a cabeça. A gente não vai te matar, não. Olha pela janela que a senhora vai ver os trilhos do metrô. Vai ver que a gente não está em nenhum matagal.

Levantei a cabeça devagar, virando para o lado com cuidado, para não encarar os dois. Abri os olhos e avistei os trilhos do metrô. Senti um aperto no coração.

O carro estacionou numa rua calma e escura. Ele virou para trás, mostrando parte de seu perfil, que eu vi de relance, e me entregou uma nota de 20 reais. Depois, abriu a porta pelo lado de fora, eu saí de cabeça baixa, caminhei dois passos de olhos fechados. Pela última vez, ouvi a voz dele:

– Anda até a esquina e vira à direita. A senhora vai ver o metrô. Lembra do meu pedido e vai com Deus.

– Obrigada – respondi.

Caminhei sem olhar para trás, mas tive a certeza de que Ele me observava dobrar a esquina. Desci a rua e passei pelo ponto de táxi. A tentação de pegar um era imensa, mas resolvi cumprir a promessa feita a Ele.

Comprei o bilhete de metrô e segui para a plataforma. Eu estava totalmente anestesiada, era como se estivesse em um filme em câmera lenta. Tinha desacostumado de ver gente, ouvir os barulhos comuns da cidade, de fazer coisas simples, como subir e descer escadas. Era perto das onze da noite, havia poucas pessoas no vagão. Estar perto de outras pessoas era estranho, quase irreal. Quando um homem sentou do meu lado, apesar de haver lugares vazios, saí do meu estado catatônico. “Ser vítima de novo, não”, pensei – e mudei de lugar.

Eu tinha tomado o metrô na estação Conceição, precisava fazer baldeação na Sé e depois seguir para a Barra Funda. Quando cheguei era quase meia-­noite. Comecei a procurar placas de táxi e esbarrei em dois policiais.

– Com licença, onde tem um ponto de táxi? – perguntei a eles, tentando aparentar calma.

– Ali embaixo, à direita. Ainda tem dois lá, corre que a senhora pega.

Desci correndo, entrei no táxi e dei o endereço da minha irmã. Quando o carro parou em frente ao prédio, percebi que os 17 reais que haviam sobrado depois de eu comprar a passagem do metrô não eram suficientes para pagar a corrida. Pedi, então, ao motorista que ele aguardasse, porque alguém desceria do prédio com o restante do dinheiro.

Segui em direção ao lobby para chamar o elevador e comecei a ouvir gritos de euforia e emoção. Quando a porta se abriu, minha irmã, meu marido e meu cunhado surgiram, como uma miragem. Vieram todos na minha direção, para me dar um abraço. Meu cunhado correu para pagar o táxi e subimos para o apartamento, grudados uns nos outros, gritando e chorando.

A sala tão familiar me pareceu nova e estranha. Minha irmã, meu marido e meu cunhado estavam meio atordoados, sem saber se me abraçavam, se me deixavam respirar ou se me ofereciam algo para comer. Começaram a me examinar, olhando firme nos meus olhos, querendo ter certeza de que eu estava bem.

– Eles te machucaram? – perguntou meu marido.

– Não, pelo contrário, foram gentis e educados – respondi, como se tivesse esquecido de todo o terror.

Meu pai, meus tios e meu irmão estavam em suas casas porque não sabiam ao certo para onde eu iria depois que me soltaram. Minha filha estava na casa dos primos porque meus familiares temiam que ela se assustasse com o meu estado ao retornar. Pelo telefone, a notícia foi se espalhando: “Ela chegou, está aqui com a gente. Está viva.”

Eu sentia alívio, cansaço, felicidade, segurança, fome – tudo ao mesmo tempo. Minutos depois, chegaram meu pai e meus tios. Abracei meu pai com toda força. Ficamos quietos, num silêncio terno. Depois, abracei meus tios. Eu me sentia de novo aquela garotinha dos almoços de domingo na casa dos meus avós. Quando chegaram meu irmão e sua esposa, outro abraço forte. Ele me balançou suavemente de um lado para o outro, sem dizer nada, como se eu fosse um bebê. Depois, todos sentaram na sala, posicionados para ouvir a minha história.

Levei bastante tempo para entender por que a minha libertação, no dia 28 de abril, demorou tanto. Havia uma lógica na negociação. A orientação da Divisão Antissequestro (DAS) é clara: no momento que os sequestradores ligam, a família deve informar a quantia que tem efetivamente no bolso. Caso eles aceitem essa quantia, o resgate deve acontecer logo. Sete mil reais era quanto a minha família tinha disponível quando ligaram pela primeira vez.

Porém, quanto mais rápido se paga o resgate, maior é a chance de o sequestro não terminar logo. O sequestrador pensa que, se foi possível conseguir de imediato 7 mil reais, talvez não seja difícil obter o dobro se o sequestro durar mais alguns dias. Aquela negociação lenta ampliava o terror que eu sentia no cativeiro, mas para minha família significava uma chance maior de eu voltar viva.

Meu cunhado Eduardo, uma das pessoas mais sensatas e tranquilas da família, foi escolhido para ser o negociador. Com o passar dos dias e a insistência dos sequestradores em falar com alguém que tivesse laço de sangue comigo, minha irmã assumiu a negociação.

Outro ponto angustiante do sequestro foi a transferência de cativeiro. Juntando as informações, deduzimos que a transferência provavelmente aconteceu quando minha família aceitou aumentar o valor do resgate, contrariando a orientação da polícia. Os sequestradores, ao perceberem que poderiam conseguir mais, me mudaram para um lugar mais seguro, dominado por Ele, um bandido “profissional”. O “sumiço” de meus familiares, a história de que tinham se mudado e a frequência com que os sequestradores me pediam os números de celulares eram mais modos de me iludir com a ideia de que estavam se recusando a pagar.

Minha família explicou que as ligações eram na verdade frequentes, quase diárias e sempre intensas. Todos ficaram em alerta 24 horas por dia, durante 41 dias, para atender aos telefonemas. Os bandidos eram educados comigo, mas cruéis ao telefone. Xingavam meus parentes de todos os nomes possíveis e ameaçavam me entregar em pedaços. A expertise e experiência da equipe do das na condução de todo o processo foi fundamental para que conseguissem negociar e me trazer de volta.

Compreendi também que o momento da entrega do dinheiro do resgate é um dos mais perigosos do processo. Primeiro, há o risco de o entregador ser sequestrado – e o sequestro continuar com outra vítima da mesma família. Segundo, porque, uma vez entregue o dinheiro, é preciso acreditar que os sequestradores vão cumprir a palavra e soltar a pessoa.

Foi meu marido, Leonardo, que entregou o resgate, depois de rodar das 15 às 21 horas por São Paulo, de Norte a Sul, sozinho, em um carro comum, com os vidros abertos e o dinheiro numa sacola. Durante todo esse percurso, ele conversou por celular com um dos sequestradores, que passava as orientações. Seguindo as ordens, meu marido parou o carro à noite em um acostamento da Rodovia dos Imigrantes, na altura do km 18. Imediatamente, um homem emergiu de um matagal, sacou uma arma e colocou a cabeça dentro do carro, perguntando sobre o dinheiro. Leonardo pegou a sacola e disse: “Devolve minha mulher, por favor. Tá tudo aqui.” Na escuridão do acostamento, o bandido respondeu: “Fica tranquilo, se estiver tudo aqui, daqui a pouco sua mulher está em casa.” E, num piscar de olhos, desapareceu no matagal. Meu pai, meu tio e minha tia dividiram o valor do resgate de forma igual. Foi uma das muitas provas de amor que me deram ao longo da minha vida.

Catorze anos depois do meu sequestro, eu ainda não durmo no escuro, não dirijo à noite sozinha, nem caminho sozinha mais de um quarteirão. Faz pouco tempo que voltei a comer beterraba ralada, que era sempre servida nos pratos feitos do cativeiro. Faço terapia e tomo remédio para ansiedade. Minhas paranoias persecutórias são menos intensas, mas ainda ocorrem. Não frequento lugares muito cheios tampouco os muito vazios. Se estou sozinha em estacionamentos subterrâneos, tenho ataque de pânico. Nunca estaciono na rua. Sou incapaz de pegar metrô ou táxi, fico angustiada. Minha relação com a finitude mudou e é difícil eu me privar de alguma coisa. Vivo em constante estado de alerta, como se algo ruim fosse acontecer comigo ou, pior, com a minha família.

Mas nem tudo são sombras. Entre amigos, costumo me referir ao período em que estive no cativeiro como um “retiro espiritual”, que é um jeito brando de falar do assunto, mas em parte traduz o que vivi. Ficar enjaulada como um animal, com a possibilidade de ser abatida a qualquer instante, me fez entender o que importa de verdade. Como se visse um filme, durante todos aqueles dias eu assisti mentalmente à vida que queria levar e poderia ter.

Comprei o livro da chef Nigella e fiz o bolo. Machuco bem menos os meus dedos, entrei para a faculdade de letras com 40 anos e, aos 46, estou fazendo mestrado. Vivo com menos culpa e mais vontade. O sequestro, é claro, me deixou marcas e lembranças muito fortes. Nem todas eu sou capaz de contar. É como canta Marisa Monte: A dor é minha/a dor é de quem tem […] é minha só, não é de mais ninguém. 

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “Ela chegou, ela está viva”.


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Tradutora, escritora e fundadora do @Literat_br, é mestranda em escrita criativa na Universidade Columbia, em Nova York