diário do geraldo

HAY QUE ENDURECERSE, PERO SIN PERDER LA TERNURA POR EL CENTRÓN

“Impressionante como esse homem [Haddad] tem o perfume da revolução”
Imagem <i>Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura por el Centrón</i>

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1º DE JULHO_Preciso tornar mais visível meu processo de socialização. Pensei em tatuar o Luís Carlos Prestes na coluna, mas o problema é que ando de terno pra lá e pra cá e ninguém ia reparar. Aí veio um estalo: e se eu tatuasse na careca uma marca de nascença à moda Gorbachev?

3 DE JULHO_Pedi um cafezinho. Veio uma xícara vazia com um bilhetinho:

Café simples – 1 cargo comissionado na Anvisa.

Café com açúcar – 1 diretoria na Petrobras.

Café com açúcar e biscoitinho – Ministério da Saúde.

Parece que o Centrão embarcou de vez no governo.

4 DE JULHO_Recebi o deputado Baleia Rossi. Pra descontrair, no meio da reunião saquei um ukulele e puxei: O Ba­leia/o Baleia/é amigo/da sereia. Foi uma catarse. Antes de ir embora, alguém deixou um bilhetinho no meu bolso: “Eu aceito o Ministério da Pesca.” Macacos me mordam! Esse pessoal é profissional mesmo!

Libelu Alckmin foi firme: a tatuagem não seria uma boa ideia. Ela consultou uns amigos da USP e eles disseram que o Gorbachev não é muito benquisto pelos comunistas raiz. É de cair os butiá do bolso mesmo. Pelas barbas do profeta, será que não dou uma dentro?

5 DE JULHO_Não vou ceder às pressões do Centrão. Serei Resistência! Mandei comprar uma cafeteira produzida por uma cooperativa das mães da Praça de Maio e fechei uma compra de grãos iurauá-ueté produzidos em sistema agroflorestal. Além de demonstrar independência, vou ter como puxar assuntos socializantes com quem vier aqui tomar cafezinho.

8 DE JULHO_Quando cheguei em casa, Libelu me perguntou alarmada: “Já recebeu o convite do Raoni?” Hein? Com os olhos marejados, ela me entregou o celular: o Leonardo DiCaprio anunciando no Insta que o grande cacique convidou mais de oitocentas pessoas para um encontro na aldeia dele no final do mês. Oitocentas pessoas! A repartição inteira vai se mudar pro Alto Xingu e eu fiquei de fora. Libelu sugeriu que eu mudasse meu nome para Ubiratã Alckmin. “Talvez chame a atenção”, disse, meio sem esperança.

10 DE JULHO_Anotei no meu planner: dia 17 tem reunião com o Haddad. Preciso aprender a tocar Blackbird no ukulele até lá.

11 DE JULHO_Terceira vez que ligo pra ministra Sonia atrás de um convite para o Compromisso em Defesa da Terra, do Raoni. Nada. Ela está sempre fora, ou em audiência, ou no almoço. “Mas almoço às quatro da tarde?”, comentou Libelu. Sei lá, culturas diferentes têm hábitos diferentes. Os tucanos, por exemplo, tinham aquela mania de servir um sorvetinho entre a entrada e o prato principal “pra limpar o paladar”.

12 DE JULHO_Aniversário de Libelu merece uma comemoração especial. Preparei uma surpresa: pedi para a artista plástica guatemalteca Wagathyta Chiuingaapunã pintar um retrato de Libelu usando saliva de lhama como matéria-prima. O resultado foi catártico.

14 DE JULHO_Minha cafeteira sumiu. A ministra Sonia também.

16 DE JULHO_Amanhã tem apresentação do Programa Desenrola Brasil com o President’Lula. Ensaiei com meus filhos um passinho em que cantamos e dançamos Desenrola, Bate, Joga de Ladinho, enquanto Libelu faz o beatbox. Foi chuchu-beleza!

17 DE JULHO_A reunião com Haddad não poderia começar sem uma preparação especial. Pedi para trazerem umas coxinhas, azeitonas e salaminho fatiado. Deixei o ukulele ao alcance do braço e a introdução de Blackbird ensaiadíssima. Mas quando ele começou a falar, fiquei mesmerizado. Impressionante como esse homem tem o perfume da revolução, a dicção da justiça social e um olhar que penetra na nossa alma como uma utopia possível. E tudo é tão natural… Fiquei prestando atenção em cada detalhe.

No final da tarde, meio catatônico, recebi a Esther Dweck, ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Não lembrava que existia esse ministério. Fiquei na dúvida. Será que caí no golpe do Centrão? Estão inventando ministérios do nada agora?

18 DE JULHO_Chegou o momento mais aguardado do mês. Me sinto alegre como uma criança que recebe seu primeiro escapulário. Tudo isso porque hoje é a abertura do Seminário sobre Semicondutores.

Para celebrar esse dia feliz, eu e Libelu fizemos um jantar de boas-vindas para a companheira Marcia Tiburi. Fiquei comovido com o texto de Hildegard Angel sobre o outro convescote que revelou ao mundo os dotes artísticos de Marcia! “Nos quadros, imensos e de forte impacto visual, se destacam o ouro, tons terrosos e o vermelho, inspirando sudários de sofrimento, torturas, dor. Marcia é uma revelação! Performática, ela estende os trabalhos no chão, exibe neles as marcas de suas pegadas, a vida impressa na abstração. Marcia corre pela sala, escolhendo as paredes onde os quadros serão exibidos. Sobe no sofá, a tela derruba um copo de vinho, os empregados correm para limpar e secar, uma performance e tanto!” Por aqui, ela não trouxe a tela. Mas derrubamos vinho no sofá só para admirar a performance dos empregados.

19 DE JULHO_Como President’Lula anda pipocando pra lá e pra cá em busca de eleições democráticas na Venezuela, uma resolução pra guerra na Ucrânia e um desfecho pra questão palestina, tenho me alongado no cargo. Amo quando o cerimonial bota o papelzinho “Geraldo Alckmin – presidente em exercício”. Até levei um desses cartõezinhos pra casa. Espero que o Alexandre de Moraes nunca descubra.

De noite, Libelu chegou toda montada de rosa. Perguntei se era uma ode à Penélope Charmosa. Qual o quê! Minha esposa se enfureceu. Disse que eu estava por fora do hype progressista em torno da Barbie. “Uma boneca que já foi símbolo da violência patriarcal e que agora lidera uma primavera feminista.” E finalizou: “Não se nasce Barbie, torna-se uma.” Fiquei com os olhos embaçados. Libelu teve a sensibilidade de identificar na Barbie a mesma virada de chave que ela mesma experimentou. Ah, esse Zeitgeist nos prega cada uma…

20 DE JULHO_Dia de celebrar os 150 anos de Santos Dumont ao lado do President’Lula. Libelu vestia um amarelo-ovo deslumbrante. Menino galante que sou, pedi pra Esquadrilha da Fumaça desenhar um coração no ar. Fizemos as pazes.

De improviso, soltei uma troça: “Presidente, se o Santos Dumont inventou o 14-Bis, o senhor inventou o 13-Bis.” Sinceramente, achei genial. Sou ou não uma bola?

21 DE JULHO_A Esther Dweck também foi convidada para a festa do Raoni! Cauã Alckmin? Abaeté Alckmin? Kaluanã Alckmin?

Sinceramente, estava quase jogando a toalha com meu processo de socialização. Não entrei pro Politburo, o grupo de WhatsApp da Gleisi. Não fui convidado pro Raoni. Ninguém na repartição dava sinais de que percebia meus esforços revolucionários. Eis que, de repente, Flávio Dino, num discurso, me compara a… Fidel Castro!!! E me chama de CAMARADA ALCKMIN. E eu estava sentado ao lado do President’Lula. Senti-me esfuziante por dentro! Fui aprovado! E digo mais: nasceu ali um novo Geraldo. Um Geraldo renovado. Me senti com a energia de um calouro na Fefeleche. Estou pronto para subir a Sierra Maestra! Ou a Serra da Mantiqueira! “Pátria ou morte, venceremos!”

22 DE JULHO_Inflação em queda. Câmbio competitivo. Aprovação do arcabouço fiscal e da reforma tributária. Até mesmo o Botafogo em alta. Se alguém me dissesse antes que o comunismo era assim, eu mesmo teria votado no Lula em 2006.


Por Renato Terra


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