cartas
Ago 2023 12h22
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CAPA
Sob o título Arthur, o miúdo, a competente jornalista Angélica Santa Cruz traçou a trajetória completa da família de Lira, num admirável trabalho investigativo publicado na piauí_183, em dezembro de 2021. O personagem que ilustra a capa da piauí_202, julho (uma caricatura inspirada na foto do deputado Edmundo Barreto Pinto, que lhe custou a cassação do mandato por falta de decoro), continua incólume e com poderes cada vez mais amplos, da mesma forma como no governo anterior, pois lidera com mão de ferro o poderoso Centrão, como vemos na mesma edição no artigo de Fernando de Barros e Silva (Arthur Lira, vida e obra). Mais uma novidade na extensa folha corrida do deputado Arthur Lira, porém, tudo indica que continuará incólume, devido ao seu enorme poder de fogo na presidência da Câmara dos Deputados e o generoso apoio de seus comandados, pois sempre honrou seus compromissos, conforme sempre faz questão de afirmar.
Pobre Alagoas, que antes era um estado respeitado pelo valor de seus intelectuais, como o escritor Graciliano Ramos, que escreveu um relatório prestando contas de sua admirável administração como prefeito de Palmeira dos Índios no final dos anos 1920, para tornar-se o paraíso das dinastias políticas mais nefastas de nosso país, capitaneadas pelos de Lira, Collor, Calheiros, autênticos representantes da República das Alagoas, de tão triste memória.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
POUCO CASO
Após ler a matéria sobre o Theatro Municipal de São Paulo (Infortúnios em série, piauí_202, julho) me veio à mente o Auditório Ibirapuera, que de uns quatro anos para cá virou um nada, ou melhor, um vazio. Para quem não sabe, o auditório fica no Parque Ibirapuera, é um projeto do Oscar Niemeyer, e só veio a ser o que é no início dos anos 2000 graças a uma parceria entre a Prefeitura Municipal e uma empresa de telefonia que reformou, equipou e gerenciou (não sei se esse é termo mais adequado) o auditório com muito brilhantismo, fazendo com que ele se tornasse um dos ícones da cultura paulistana, trazendo grandes artistas e dando espaço a outros talentos que começavam a se firmar no cenário nacional e até latino-americano, com preços acessíveis. Além de formar e manter a orquestra do auditório, que dava espaço a crianças e adolescentes interessados em música. Após alguns anos, essa empresa deixou o projeto e quem assumiu foi o braço cultural de um banco que manteve a mesma linha de atuação. Após a saída desse segundo patrono, o Auditório Ibirapuera sumiu do mapa. Dizem que quem “toma conta” agora é uma construtora que aluga o espaço a emissoras de tevê para realizarem programas de auditório.
Gostaria de sugerir à piauí que pautasse… ops, perdão, dizem que a maior heresia no meio jornalístico é você querer pautar jornalista. Refaço. Este seu humilde leitor gostaria de sugerir uma matéria sobre o que acontece com esse extraordinário equipamento municipal, que já vi ser elogiado por vários artistas como uma das melhores casas de espetáculo do mundo, além de ser um atrativo cultural e turístico. Cansei de ver frequentadores antes ou após o espetáculo, como no Theatro Municipal, fazendo fotos com a esplêndida escultura da Tomie Ohtake ao fundo. Infelizmente o nosso medíocre alcaide, para ser generoso, não percebe que esconder o Auditório Ibirapuera é amputar um dos ícones desta cidade que tem na cultura o seu maior potencial de turismo.
ALCIDES EDÍLIO VALENTE_SÃO PAULO/SP
É cada dia mais raro os órgãos de imprensa dedicarem espaço e pesquisa exaustiva para a elaboração de matérias sobre cultura. O que dizer, então, da dedicação a uma instituição centenária como o Theatro Municipal de São Paulo, que sobrevive, com bravura, a tanto maltrato e descaso. No sábado, 8 de julho, pouco antes do concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, na Sala São Paulo, eu acabara de ler a matéria de dez páginas publicada na piauí (Infortúnios em série). Nos intervalos entre as ótimas interpretações de Lalo e Saint-Saëns, eu me dava conta de que o “ti-ti-ti” e o “sururu” dominaram a cena da matéria e me perguntava: por que focar nos bastidores e evitar discutir o essencial, que é a política pública? Afinal, à minha frente estava um conjunto criado há quinze anos no qual nunca houve sururu. Como também não houve no Museu do Futebol e no Museu da Língua Portuguesa, na Pinacoteca, na Emesp (Escola de Música) e na Osesp, todas instituições paulistas, e nem na baiana Neojiba, voltada à educação musical. O que há de comum entre elas: todas são instituições culturais públicas geridas por organizações sociais, contratadas diretamente pelos governos estaduais para esse fim. Nelas seria quase impossível acontecer o grande desfalque mencionado na matéria, ocorrido em 2015, no Municipal de SP. Nelas, aliás, há planejamento de temporadas, programas e exposições com anos de antecedência, é possível captar recursos privados, estabelecer convênios e parcerias com instituições estrangeiras para a produção de projetos e programas de longo prazo, há planejamento e gestão orçamentária com diferentes formas de controle, para citar só alguns exemplos de como se dá sua administração. A conquista desse modelo de gestão precisa ser comemorada: ela permitiu uma transformação em nossa vida cultural, entre outros tantos feitos, porque profissionalizou e deu estabilidade aos entes culturais.
Eu me perguntava: por que a reportagem não comparou as entidades-irmãs com o Municipal de SP? Era crucial explicar que a lei de criação da Fundação do Theatro diverge em pontos fundamentais daquela que previu a gestão por organizações sociais de cultura, não só no estado de São Paulo, mas em outros estados brasileiros. Apesar dos sete anos de elaboração, a lei não incluiu os acertos e sequer se inspirou nas boas práticas que já eram verificáveis nas organizações citadas acima. Quando o texto da lei foi concluído e submetido à leitura de gestores culturais de larga experiência, foram apontados os gargalos e o que ocorreria caso o texto fosse mantido como tal, mas ninguém lhes deu ouvidos.
O concerto da Filarmônica de Minas Gerais chegava ao fim, e eu concluía que as dez páginas da piauí, na verdade, serviram para denegrir o Theatro Municipal de SP, seus gestores, seus artistas, atribuindo a eles a culpa dos contratos curtos e inseguros, sem nenhuma garantia. Sim, pois apesar do tempo dedicado à feitura da matéria, parece ter escapado que o modelo exótico e pouco transparente de decisão, as diversas instâncias de poder e as competências embaralhadas são a causa e o infortúnio da instituição. Sururu e ti-ti-ti são uma forma ligeira de explicar o que lá acontece e acabam por servir tão somente para encobrir as verdadeiras razões que impedem o Municipal de se organizar, e que estão ligadas à instituição da Fundação e seu modelo de gestão. Teria sido bom ouvir a Abraosc (Associação Brasileira de Organizações Sociais de Cultura) sobre o modelo escolhido pela municipalidade para gerir sua linda casa de ópera.
CLAUDIA TONI_SÃO PAULO/SP
NOTA DE ESCLARECIMENTO DA REDAÇÃO: A carta afirma que “nunca houve sururu” nas instituições culturais paulistas que “são geridas por organizações sociais, contratadas diretamente pelos governos estaduais para esse fim”. A reportagem diz exatamente isso na página 23. A carta também pergunta por que a reportagem não comparou as entidades-irmãs com o Municipal de SP, explicando as diferenças legais entre a lei que criou a Fundação do Theatro e a que previu a gestão por organizações sociais de cultura. A reportagem fez exatamente essa comparação. Está na mesma página 23.
O MUSEU NACIONAL E O UBIRAJARA
A repatriação do dinossauro Ubirajara foi uma grande vitória para a preservação do patrimônio paleontológico brasileiro, que teve diversos avanços nos últimos anos (A volta do Ubirajara, piauí_202, julho). O sucesso dessa ação se deve a diversas pessoas, culminando no que pode ser considerado um divisor de águas: a retirada definitiva de publicação, em 2021, do trabalho que descrevia esse dinossauro. Como comprovação do efeito imediato dessa inédita despublicação de um artigo sobre um fóssil retirado ilegalmente do país, paleontólogos americanos devolveram ao Brasil uma coleção de aranhas, que incluía um holótipo que acabara de ser descrito, e pesquisadores belgas devolveram um crânio de réptil voador antes de publicarem seu estudo. Sem movimentos populares ou ações mais incisivas, mas pelo temor de terem seus trabalhos despublicados, algo que nenhum pesquisador gostaria de ter em seu currículo. Infelizmente, apesar desses avanços, no mesmo período em que o dinossauro estava sendo devolvido, foi publicado um novo trabalho, desta vez envolvendo uma planta fóssil, novamente com o material fora do país. Ao contrário do que aconteceu com o Ubirajara, essa nova publicação não resultou nas mesmas ações, talvez por envolver pesquisadores brasileiros. Como considero as revistas científicas um ponto-chave em toda essa questão, se esse novo artigo fosse retirado de publicação ou se uma errata fosse produzida com os números dos espécimes de uma instituição brasileira acompanhados de um termo de empréstimo, dificilmente outro holótipo seria depositado fora do país. A falta de ação, que difere muito do caso do dinossauro, é uma oportunidade perdida.
A matéria da piauí fez diversas referências ao Museu Nacional. Uma das falas atribuídas a mim sugere que a instituição teria sido a principal responsável pela perda do acervo, o que não é verdade. Logo depois do incêndio houve várias acusações e colocações que procuraram de forma direta ou indireta responsabilizar a instituição pelo ocorrido. Mas a tragédia foi consequência de uma série de fatores, incluindo a omissão de pessoas e instituições sobre as quais o Museu não tinha qualquer ingerência. O que ficou “muito feio” foi o país ter relegado a sua instituição museal mais antiga à própria sorte por tanto tempo. Tendo assumido a direção da instituição em 7 de fevereiro de 2018, lembro que menos de duas semanas depois já alertava em veículo de grande circulação (O Globo, 20/02/2018) sobre as dificuldades pelas quais o Museu passava, sem recursos para fazer frente às suas necessidades, nem mesmo aquelas de menor monta. Hoje estamos avançando na reconstrução, havendo, inclusive, uma solicitação ao MEC para que no orçamento da UFRJ seja incluída uma ação orçamentária que possibilite o funcionamento e a manutenção do Museu Nacional, em uma demonstração clara de que a sociedade cuidará melhor do museu e de seu acervo, evitando justificativas para a retirada ilegal de qualquer tipo de material. Não podemos perder a chance de reconstruir um Museu Nacional mais seguro e inclusivo, que pode se tornar uma inspiração para instituições similares no país e na América do Sul.
ALEXANDER KELLNER, DEPARTAMENTO DE GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA, MUSEU NACIONAL, UFRJ_RIO DE JANEIRO/RJ
POLITICAMENTE CORRETO
Os redatores desta revista são simplesmente irritantes. Confesso que mensalmente me debruço sobre cada edição da piauí com o puro intuito de encontrar um artigo sobre o qual eu possa despejar toda minha malcriação numa carta de leitor, mas os senhores não falham nunca; sempre frustram meu não tão nobre propósito.
Não foi diferente na edição piauí_201, junho, quando vasculhava os artigos e me deparei com a Ana Maria Machado da minha infância escrevendo sobre adultos infantilizados (Sensatez e sensibilidade). Uma epifania!
WLADEMIR TAVARES_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA ALTIVAMENTE IRRITADIÇA DA REDAÇÃO: É imperioso que os demais leitores sigam o exemplo de Valdemir, quer dizer Waldemar, ou melhor Wlademir: vasculhem cada edição atrás de um texto espinafrante e jamais encontrem.
Gostei bastante do artigo da Ana Maria Machado (Sensatez e sensibilidade, piauí_201, junho) sobre a questão das edições e modificações de passagens de obras “clássicas” para os ditos leitores sensíveis. Aliás, o texto na íntegra possui uma tônica bem diferente daquela em que percebi quando vi a divulgação nas redes sociais. Pelas redes, me deu a impressão de que a autora estava meio ressentida por estar ficando “fora de moda”, mas o texto dela é o avesso de uma egotrip. Enfim, acho que a linguagem das redes acaba demandando algo meio sensacionalista, infelizmente.
Eu acompanhei meio de perto a cobertura da imprensa britânica sobre as obras de Roald Dahl (citado no texto), pois além de gostar muito do assunto, estava morando por lá até o mês passado, e vi alguns artigos interessantes que trazem um ponto de vista bem mais deprimente e menos juicy no que tange discutir valores culturais e ideologias. É meramente uma questão de grana. Um repórter da revista Big Issue aborda exatamente essa questão: “Eles não estão fazendo isso pelos adultos – os adultos não se importam. Eles entendem o contexto. E eles também não estão fazendo isso pelo bem das crianças. É para manter a venda dos livros.”
Também suspeito dessas comissões de educação que selecionam livros para escolas. Para mim, os profissionais que “implicam” demasiado com obras o fazem muito mais como um artifício para “mostrar serviço” do que qualquer outra coisa. Tem uma crise de relevância de profissionais no mercado de trabalho camuflada atrás dessas censuras todas por aí. Uma coisa meio Bullshit Jobs, do David Graeber. O que leva novamente à questão da grana. É como contratar um revisor que não acha nenhum erro no texto. De qualquer maneira, se esses vetos fossem realmente feitos por pessoas “sérias” e “bem-intencionadas” que se preocupam com o bem-estar das novas gerações, a Bíblia seria a primeira obra da lista a ser banida.
MARIA LUIZA PORTO_RIO DE JANEIRO/RJ
QUADRINHOS
Sou leitor da piauí desde o número zero e gostaria de registrar o meu protesto pela eliminação arbitrária da seção de quadrinhos. A escassez de publicações, que já vinha se estendendo por lacunas cada vez maiores entre as edições, lamentavelmente parece definitiva neste ano. Não entendo este deliberado desprezo pela arte sequencial. O cartum de Andrício de Souza, na última página da piauí_200, maio, é sintomático, mas a premissa é falsa. Eu leio. Creio que temos bons autores de sobra aqui no país, mas caso achem trabalhoso demais buscá-los, por mim poderiam apelar até para o velho Gotlib.
GUIDO ANDRÉ ARAUJO_SALVADOR/BA
NOTA OBEDIENTE DA REDAÇÃO: Viu a edição deste mês, Guido? Deu uma olhadinha na página 42? Hein? Aqui o cliente terá sempre a razão (ou meia razão, porque Gotlib já é um pouco demais…)
ERRATA
Ao contrário do que foi publicado no texto Meu corpo era pólvora com pavio (piauí_202, julho), o hematologista Vanderson Rocha e o programa CAR-T Cell desenvolvido pela USP não têm nenhuma relação com o laboratório Novartis, que produz o produto CAR-T Cell comercial, disponível para pacientes na medicina privada. A correção foi incluída na versão digital do texto.