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LOUCOS POR BANANAS

Na América Central, tomada pela pobreza, corrupção e autoritarismo, o trabalho dos artistas é um vigoroso grito de protesto

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Para quem não conhece a história da América Central, a arte de Moisés Barrios pode parecer banal. O artista guatemalteco de 77 anos recobre tudo (objetos, figuras, fundos, chão, ambientes) com as cores da casca de banana. Essa é a sua arte. Cadeiras pintadas com o amarelo brilhante da banana e as manchas amarronzadas da fruta madura. Figuras em forma de macaco constituídas por cascas de banana. Um retrato de Max Ernst em preto e branco, na capa do catálogo da retrospectiva do pintor alemão no Museu Moderna, de Estocolmo, se dissolve numa casca de banana que invade o papel como uma praga, engolindo tudo o que encontra pela frente para conquistar o mundo. Objetos, animais, pessoas: tudo derrete, desaparece sob a casca de banana e perde a sua identidade, rendendo-se à fruta onipresente, como a um fungo.

Basta pesquisar um pouquinho sobre a América Central e você descobrirá que, tal como grande parte do trabalho artístico da região (pintura, literatura, teatro, dança etc.), a arte de Barrios é uma declaração política enraizada na própria história.

Nessa região, vibrante e plena de energia, apesar de sua perpétua luta pela sobrevivência contra forças tremendas (violência, repressão, desastres naturais, desigualdade, guerra, exílio, corrupção política, pobreza e os Estados Unidos), a vida dos artistas está de tal modo ligada ao resto da população e definida pelos eventos que marcam o cotidiano dos países, tão pungente em sua urgência, que sua produção é ao mesmo tempo um grito e um protesto, vigorosos e intensos ao expressar sua condição. Como um vulcão ativo.

Isso é evidente também na produção de pintores com forte carga de denúncia social e política, como a guatemalteca Rina Lazo (1923-2019) ou o salvadorenho Antonio Bonilla (1954-). Mas está presente até mesmo na obra de artistas que os críticos de arte consideraram mais formalistas, movidos por razões mais estéticas que morais, como o nicaraguense Armando Morales (1927-2011) ou a salvadorenha Rosa Mena Valenzuela (1913-2004). E mesmo na do muralista guatemalteco Carlos Mérida (1891-1984), que supostamente se recusou a politizar seu trabalho, mas explorou, por meio dele, um lugar para a sua ancestralidade maia – o legado dos maias, povo tão oprimido e negligenciado.

Moisés Barrios vem de uma das “repúblicas das bananas” originais. A banana foi para a América Central algo parecido ao algodão para o Sul dos Estados Unidos: um produto ligado à exploração dos trabalhadores rurais, uma marca indelével e vergonhosa. Se nas plantações da Louisiana e da Geórgia o algodão era cultivado e separado por escravos e foi o motor de um intenso tráfico (“comércio”) de africanos para os Estados Unidos, na América Central o cultivo da banana era feito por camponeses locais, na maioria indígenas, que, embora não fossem oficialmente escravos, eram submetidos a tais condições de pobreza e dependência que se viam incapazes de escapar desse círculo de semiescravidão.

Quase toda a produção de banana da América Central, concentrada durante boa parte do século xx nas mãos das firmas americanas United Fruit e Standard Fruit, era transportada de trem das plantações até os atracadouros na Costa do Caribe. Ali, era carregada em navios que circum-navegavam a Península de Yucatán até entrar no Golfo do México e finalmente atracar em Nova Orleans – por coincidência, a cidade que poucas décadas antes da febre das bananas era a capital do comércio de escravos nos Estados Unidos.

Foi o escritor americano O. Henry (1862-1910), do estado da Carolina do Norte, quem cunhou o termo Banana Republic. Fugindo dos tribunais do Texas – acusado de desfalcar o banco onde trabalhava –, ele viajou para a cidade de Trujillo, no litoral de Honduras, onde a United Fruit possuía um dos principais embarcadouros para os navios bananeiros. Foi lá que O. Henry, mais conhecido por seus numerosos contos, escreveu seu único romance, Repolhos e Reis. Publicado em 1904, é uma história um tanto medíocre e mal escrita sobre expatriados americanos que cruzam os caminhos do narrador em uma imaginária república da América Central chamada Anchuria, onde a fictícia Vesuvius Fruit Company defende seus interesses com a ajuda do Consulado dos Estados Unidos e do secretário particular do presidente local. A Anchuria, escreve O. Henry, é uma “pequena, marítima república das bananas” – e assim surgiu o termo.

Desde então, tem sido usado de forma genérica por estudiosos, jornalistas, políticos e escritores americanos como sinônimo de um Estado corrupto e falido. Em alguns períodos, especialmente durante os anos Trump, perguntou-se com frequência se os Estados Unidos haviam se tornado uma república das bananas.

Em junho de 2020, Robin Wright, uma colunista da revista New Yorker, escreveu: “O termo – que originalmente se referia a um país politicamente instável, governado por um ditador e seus comparsas, com uma economia dependente de um único produto – tomou vida própria. Ao longo do último século, ‘república das bananas’ passou a significar qualquer país (com ou sem bananas) que tenha um líder impiedoso, corrupto ou simplesmente insano, que conta com o apoio do Exército e destrói as instituições do país na busca egomaníaca de prolongar seu poder. Já fiz reportagens sobre muitos deles, incluindo a Uganda de Idi Amin, nos anos 1970, a Líbia de Muammar Kadafi, nos anos 1980, e a Argentina de Carlos Menem, nos anos 1990.”

No entanto, há uma omissão crucial nessa descrição (e no uso do termo por políticos que o empregaram extensamente, desde que Donald Trump e Hillary Clinton ainda estavam em campanha, tendo sido usado inclusive por estes dois e pela deputada democrata Nancy Pelosi). As repúblicas das bananas originais eram quatro países da América Central: Honduras, Guatemala, Nicarágua e Costa Rica. Além de dominar a maior parte da produção de frutas desses países, as empresas americanas (United Fruit e Standard Fruit) controlavam e instalavam no poder os “comparsas” mencionados por Robin Wright, com o apoio e a pressão do governo dos Estados Unidos. Quando um líder da América Central não aceitava as condições leoninas impostas por essas empresas, a força bruta dos Estados Unidos (militar, econômica e diplomática) resolvia o problema. Em outras palavras, uma república das bananas, para chegar a sê-lo, exige o poder corruptor e opressor de empresas americanas e dos representantes do governo local que agem em prol dessas empresas.

As repúblicas das bananas são, talvez, a forma mais próxima de uma potência colonizadora já alcançada pelos Estados Unidos – sem as exigências e responsabilidades que os colonizadores tinham em relação aos colonizados em outras partes do mundo.

Enquanto O. Henry lançava Repolhos e Reis, um de seus compatriotas, Minor Cooper Keith (1848-1929), vice-presidente da United Fruit Company, chegou à Guatemala para receber do presidente Manuel Estrada Cabrera (1857-1923) um contrato de leasing por 99 anos para uma rede ferroviária, bem como terras e isenções fiscais. Isso, por sua vez, garantiu que Estrada Cabrera, sob os auspícios da produtora de bananas, se mantivesse no poder por mais de vinte anos.

Logo depois da assinatura desse acordo na Guatemala, tropas dos Estados Unidos foram enviadas a Honduras para cuidar dos negócios da empresa, e navios da Marinha americana aportaram na vizinha Nicarágua para fundar escritórios alfandegários e controlar todas as exportações. O próximo passo foi instalar na Presidência do país Adolfo Díaz, funcionário de uma mineradora americana, La Luz and Los Angeles Mining, cujo advogado e acionista era Philander Knox, o então secretário de Estado americano. Não demorou para que diversas empresas dos Estados Unidos controlassem as ferrovias, os bananais, as minas – enfim, toda a república das bananas.

Em 1954, Allen Dulles, chefe da CIA, e seu irmão, John Foster Dulles, o secretário de Estado, tramaram um golpe de Estado na Guatemala para proteger os interesses da United Fruit contra a reforma agrária e uma lei de proteção dos direitos dos trabalhadores promovida pelo presidente Jacobo Árbenz Gusmán (1913-71). Os irmãos Dulles instalaram na Presidência da Guatemala o coronel Carlos Castillo Armas (1914-57). Teve início um regime militar repressivo que durou décadas. (Milhares de intelectuais, políticos e artistas deixaram a Guatemala após o golpe. Um deles foi um médico argentino, Ernesto Guevara, que fugiu para o México, onde conheceu um carismático exilado cubano chamado Fidel Castro.)

O golpe, o primeiro atribuído à CIA – criada havia pouco, em 1947 –, marcou o início da Guerra Fria e o curso da política dos Estados Unidos na região. Seu impacto foi sentido em toda a América Latina.

Uma grande tela de Diego Rivera, com dimensões de um mural, intitulada Gloriosa Victoria, talvez seja o trabalho em que o renomado artista mexicano mais se aproximou de pintar um slogan. Encontrada no Museu Púchkin em 2000, depois de permanecer mais de quatro décadas nas sombras, a tela é um painel barroco com muitos personagens reunidos em torno do aperto de mãos de dois homens, no centro: John Foster Dulles, que tem sua outra mão pousada sobre uma bomba com o rosto do presidente Dwight Eisenhower (1890-1969), e o coronel Castillo Armas, com um revólver na cintura e um maço de dólares no bolso do casaco. Atrás de Dulles está seu irmão, Allen Dulles, o diretor da CIA, com a mão em uma cadeira onde está depositada uma grande penca de bananas e uma bolsa de couro no ombro cheia de dólares. Ao redor, militares guatemaltecos sorriem, segurando mais dólares. Aos pés deles, jazem crianças indígenas massacradas. O plano de fundo é dividido em dois. Do lado esquerdo da pintura, camponeses pobres carregam bananas nas costas para um barco com a bandeira dos Estados Unidos. Do lado direito, Rivera pintou sua utopia: a resistência, o levante, a revolução. Camponeses e trabalhadores com olhares desafiadores brandem armas e facões. Entre eles, vê-se a pintora guatemalteca Rina Lazo – que ajudou Rivera a pintar a tela – empunhando uma metralhadora contra os invasores.

Uma famosa frase do crítico de arte australiano Robert Hughes diz que os Estados Unidos são viciados em progresso. A pintura de Rivera grita o contrário: os Estados Unidos são um poder brutal e criminoso que explora as terras e populações da América Central. Ambas as facetas, paradoxalmente, permaneceram verdadeiras até o final do século XX.

A tela Gloriosa Victoria foi pintada em 1954, apenas algumas semanas depois do golpe contra Árbenz Gusmán apoiado pela CIA – um golpe que também impactou a comunidade artística guatemalteca, que havia se revitalizado nos anos anteriores, durante os governos progressistas. Não surpreende que uma das primeiras medidas tomadas pelo regime de Castillo Armas foi fechar a gráfica da Escola Nacional de Belas-Artes. A Guatemala se tornara, mais uma vez, uma república das bananas, cinquenta anos depois que Minor Cooper Keith assinou o leasing com Estrada Cabrera.

Meio século depois do lançamento de Repolhos e Reis e no mesmo ano que Rivera pintou Gloriosa Victoria, o escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1899-1974) publicou O Papa Verde, o segundo livro de sua trilogia sobre as bananas. Comparar o livro de O. Henry com o de Asturias seria tão injusto como pendurar uma paisagem medíocre do século XIX ao lado das Ninfeias de Claude Monet. Todas as possibilidades do romance de meados do século XX brotam da pena de Asturias para criar o realismo mágico e fazer com que tudo que o antecede pareça obsoleto e superficial, com exceção, entre seus contemporâneos do mesmo idioma, do mexicano Juan Rulfo (1917-86) e do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).

Asturias, que viria a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1967, realiza um dos prodígios literários da América Central: a capacidade infinita de transformar a língua espanhola, de expandi-la como fez o nicaraguense Rubén Darío (1867-1916) antes dele e como fizeram depois os também nicaraguenses Ernesto Cardenal (1925-2020) e Claribel Alegría (1924-2018), e o poeta revolucionário salvadorenho Roque Dalton (1935-75).

O Papa Verde é um romance complexo, construído em torno de um personagem chamado Geo Maker Thompson, vagamente baseado em Minor Keith, o barão americano das bananas. Mas Asturias faz o que O. Henry e tantos escritores e acadêmicos estrangeiros não conseguiram fazer: reconhecer que a América Central é habitada por uma maravilhosa diversidade de seres humanos, cada um com suas próprias aspirações e seus sofrimentos – e não apenas pícaros e selvagens maravilhados pela tecnologia e pelo poder daqueles que vieram explorar seus recursos.

Diplomatas e políticos, tanto da América Central quanto dos Estados Unidos, costumam dizer que a região e o país têm um relacionamento intenso – e que tem sido assim há dois séculos. Essa relação, porém, sempre foi e ainda é tão desigual que a maioria das pessoas nos Estados Unidos nem sequer está ciente do que acontece na América Central, enquanto qualquer pequena decisão tomada em Washington pode mudar a vida dos centro-americanos. Como escreveu Roque Dalton: “O presidente dos Estados Unidos é mais presidente do meu país do que o presidente do meu país.”

Nos anos 1980, a região ardeu em chamas. Padres, camponeses, indígenas maias, crianças, estudantes, intelectuais e artistas foram mortos, presos ou perseguidos em nome de uma guerra global contra o comunismo. O presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, dizia na tevê que a causa da liberdade estava vencendo, enquanto porta-vozes militares do país e da América Central, assim como rádios revolucionárias clandestinas apresentavam a contagem dos mortos. Na Guatemala, em El Salvador e em Honduras, corpos eram encontrados todos os dias à beira das estradas ou nas margens dos rios. Vilarejos inteiros foram arrasados, com seus habitantes.

As pinturas desses anos são facilmente reconhecíveis: escuras, lúgubres, cheias de dor – são dolorosas.

Em 1981, a salvadorenha Julia Díaz (1917-99), já uma artista de destaque na América Central, pintou Maternidade. Uma mãe, vestida de preto, segura um bebê envolvido em um manto branco. Só podemos ver um dos olhos da mãe: negro, escuro, escondido nas sombras. O bebê foi pintado em cinza, sem expressão: parece mais morto que vivo. Não há esperança. Apenas morte. A pintura nos transmite a sensação que se tinha em toda parte.

Maternidade foi pintada entre dois massacres. Em maio de 1980, mais de trezentos camponeses – crianças, mulheres, homens, idosos – foram assassinados por soldados salvadorenhos, que dispararam quando o grupo tentava cruzar o Rio Sumpul, na fronteira com Honduras. Do outro lado do rio, soldados hondurenhos também atiraram, para evitar que aquelas pessoas alcançassem a margem. Alguns relatórios falam que cerca de seiscentas pessoas foram mortas. Não conhecemos sequer o número exato de vítimas.

O ministro da Defesa de El Salvador negou o massacre. A Embaixada dos Estados Unidos em Tegucigalpa, a capital de Honduras, também negou. O presidente salvadorenho José Napoleón Duarte admitiu que umas trezentas pessoas haviam sido mortas numa operação militar. Mas que todas eram comunistas, disse ele.

O pintor salvadorenho Carlos Cañas (1924-2013) registrou o massacre em uma pintura a óleo em grande formato – Sumpul, de 1984 –, que levou quatro anos para ser feita. Um amontoado de corpos com buracos de bala, de onde o sangue ainda escorre; braços com cortes de facão, limpos pelas águas do rio. A única coisa viva naquela montanha da morte é um cachorrinho que espreita por entre os corpos, de olhos bem abertos. Acima, um céu fechado e escuro. Naquele tempo, o Sol não brilhava.

Sumpul é minha Guernica”, disse Cañas em uma entrevista. É certamente a obra mais representativa da pintura salvadorenha naquela década terrível. A representação pictórica do indizível.

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É jornalista salvadorenho e cofundador do site El Faro