Imagem Simone Tebet, a loba solitária do governo Lula

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SIMONE TEBET, A LOBA SOLITÁRIA DO GOVERNO LULA

A ministra do Planejamento se equilibra entre um governo de centro-esquerda, um MDB dividido e um estado bolsonarista

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Quando Simone Tebet subiu ao palco do Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, o público não se conteve e explodiu numa trovoada de palmas e gritos: “Linda! Maravilhosa!” Com um sorriso largo, a ministra do Planejamento e Orçamento acenou para o auditório lotado de lideranças comunitárias e sindicais ligadas ao PT. Ao seu lado, estavam caciques do partido, como Márcio Macêdo, ministro-chefe da Secretaria-­Geral da Presidência e vice-presidente nacional do PT. O encontro em 13 de julho foi convocado para explicar as linhas do Plano Plurianual Participativo do governo Lula, mas foi Tebet, de 53 anos, a estrela da hora.

A reverência que parte da militância de esquerda dedicou a um político do MDB foi uma virada. Se Tebet entrasse, algum tempo atrás, em um reduto petista, certamente seria vaiada e xingada de “golpista”.

Há sete anos, o MDB foi acusado pelo PT de tramar a queda da presidente Dilma Rousseff. Tebet foi um dos parlamentares que acatou a tese do Tribunal de Contas da União (TCU) de que o governo Dilma havia incorrido em crime de responsabilidade fiscal, as famosas pedaladas. Durante os quatro meses em que o processo de impeachment foi discutido no Senado, ela teve uma atuação firme em defesa do afastamento da presidente. Sua popularidade em seu estado natal, Mato Grosso do Sul, de maioria conservadora, aumentou. Dilma insistia que estava sendo vítima de um golpe parlamentar, um argumento adotado pela esquerda. Os senadores, por seu lado, respondiam que o Parlamento e o Judiciário estavam seguindo à risca todos os ritos processuais previstos na lei.

Ao comentar sobre esse episódio traumático da vida nacional no programa Roda Viva, Tebet – que é advogada, especialista em direito administrativo – disse que houve crime fiscal e que Dilma havia perdido a capacidade de governar. “Ou era o impeachment ou o caos social.” Eis porque ela não esconde, dos assessores mais próximos, seu incômodo quando Lula e autoridades do PT chamam o Congresso de 2016 – o ano do impeachment – de “golpista”. Sente-­se como se atacassem diretamente a ela, que votou pela destituição de Dilma.

No encontro no Rio, tudo isso parecia coisa de um passado muito remoto, quase esquecido. Logo que a apresentação no Teatro Riachuelo terminou, Tebet, vestida com uma camiseta onde se lia “Na Luta por Moradia”, foi cercada por centenas de pessoas, que queriam fazer selfies ao seu lado. Várias jovens, segurando uma bandeira roxa do grupo de mulheres do PT fluminense, também se aproximaram, com gritos de euforia.

Enquanto a militância de esquerda conduz a ministra ao sétimo céu, em Mato Grosso do Sul ela vive um purgatório. O apoio político de seus conterrâneos começou a minguar a partir de 2021, quando Tebet participou da CPI  da Covid, como representante da bancada feminina do Senado. Na ocasião, bateu duro em Bolsonaro e no governo, e sua atuação foi fundamental para levantar nomes de pessoas envolvidas em um esquema de corrupção na compra de vacinas. Quanto mais sua voz crescia na CPI mais a senadora irritava os bolsonaristas de todo canto, sobretudo os de Mato Grosso do Sul (cerca de 60% dos eleitores do estado, na última eleição). E, quanto mais se projetava nacionalmente, mais irritados eles ficavam.

A CPI transformou a senadora sul-­mato-grossense em uma celebridade da política em 2021. Sem perder tempo, o presidente nacional do MDB, o deputado paulista Baleia Rossi, a lançou como candidata à Presidência, pela coligação Brasil para Todos, um agrupamento de última hora que incluiu, além do MDB, partidos de centro e de centro-direita, como o PSDB e o PPS. A ambição da frente era romper a polarização do país entre a esquerda e a extrema direita, oferecendo uma alternativa aos que não queriam nem Lula, nem Bolsonaro. Mas, no meio do caminho, a frente se esboroou e Tebet perdeu apoio até mesmo dentro do seu próprio partido. A turma ligada ao senador Renan Calheiros, do MDB de Alagoas, e a José Sarney, do Maranhão, defendeu a aliança imediata com Lula, ainda antes do primeiro turno. Já o MDB de Mato Grosso do Sul mergulhou de cabeça na campanha de Bolsonaro, atendendo o eleitor do estado.

Apesar disso, o desempenho de Tebet na campanha presidencial surpreendeu. Ela despontou como uma voz equilibrada e lúcida entre os candidatos. Ganhou o apoio das mulheres e foi dura nos ataques a Bolsonaro, acusando-o de ser uma ameaça à democracia. Ficou em terceiro lugar, com quase 5 milhões de votos, e superou Ciro Gomes, veterano competidor de eleições presidenciais. Na campanha do segundo turno, Tebet não seguiu o comportamento de Ciro, que ficou mudo. Como já havia antecipado, ainda durante o primeiro turno, Tebet declarou apoio ao candidato que, nos seus termos, “defendia a democracia”. Ficou do lado de Lula – e arrebatou o eleitorado de esquerda.

Em 1º de fevereiro deste ano, poucos dias depois de assumir o Ministério do Planejamento, ela me contou a conversa que teve com Baleia Rossi para avisar que iria anunciar seu voto no petista. “Havia risco de o campo democrático perder”, disse Tebet. Ao telefone, Baleia Rossi, preocupado com uma possível vitória de Bolsonaro, que estava pouco atrás de Lula, comentou: “Acho que vai virar.” Ela respondeu: “Eu tenho que fazer um gesto de apoio a Lula, porque três candidatos fortes ao governo de estados importantes já declararam apoio a Bolsonaro.” Ela se referia a Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, Cláudio Castro (PL), no Rio de Janeiro, e Onyx Lorenzoni (PL), no Rio Grande do Sul – o único dos três que perdeu a eleição. E então comunicou ao presidente do MDB: “Já tomei a minha decisão. Independentemente do partido, vou me posicionar.”

Depois de declarar o voto em Lula, Tebet se engajou na campanha do petista, desafiando duplamente os bolsonaristas de Mato Grosso do Sul. Nas hostes do MDB não sobram dúvidas de que essa participação foi essencial para a vitória. “Sem os votos da Simone, que representaram os votos do eleitor de centro, Lula não teria sido eleito”, me disse Baleia Rossi, numa conversa em fevereiro, em seu gabinete na Câmara dos Deputados, em Brasília. Para ele, Tebet poderia ter ganhado mais do que os 4% dos votos que obteve no primeiro turno. “Nossas contas são de que ela teria alcançado 15% dos votos, caso os seus eleitores não tivessem feito voto útil em Lula ou Bolsonaro no primeiro turno.”

Não há como comprovar essa tese, mas isso não impediu que Lula e ao menos uma parte do PT reconhecessem a importância de Tebet para a vitória. Tanto assim que, na hora de lotear os ministérios, o presidente fez questão de colocá-la entre os nomes de sua cota pessoal para as pastas do governo, e não da cota do MDB, embora uma parte do partido tenha fechado com o candidato.

Outra parte do PT, porém, nunca se conformou com a escolha de Tebet para um ministério que, embora seja uma divisão mais técnica do governo e de menor visibilidade, faz parte do núcleo central da equipe econômica. Além disso, Tebet é tida como uma liberal pelos petistas que seguem a cartilha desenvolvimentista, como a deputada Gleisi Hoffmann e o atual presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. Quando Lula ouve reclamações sobre a escolha, ele não titubeia, como contou um integrante do PT, e logo avisa: “A Simone é escolha minha.”

A definição do ministério a ser ocupado por Tebet foi um dos processos mais lentos da montagem do novo governo. Quando ela foi finalmente indicada para o Planejamento e Orçamento, no fim de dezembro, alguns entenderam que a decisão era a forma que o PT encontrara para tirá-la do centro da cena política depois do seu bom desempenho na campanha presidencial.

Muitos esperavam que Tebet ocupasse o Ministério do Desenvolvimento ou das Cidades, mais alinhados com o seu programa eleitoral focado em mulheres, crianças, educação básica e saúde. E ainda hoje tem gente que não engoliu a decisão de Lula. “É típico do PT tentar minar quem lhe faça sombra”, diz um participante da campanha de Tebet. “Se o PT não se entende nem sobre os seus pares, imagina o que não faz com um estranho no ninho.”

Mas Tebet não vê as coisas assim. Em frente à enorme mesa de seu gabinete em Brasília, decorada com porta-retratos da família e presentes de eleitores, ela me contou que ficou lisonjeada com o convite para o Ministério do Planejamento. Disse que “ir contra a candidatura de Bolsonaro era uma obrigação com o país, enquanto democrata”.

Lula e ela conversaram em 20 de dezembro. Tebet conta que perguntou a ele: “Mas, presidente, o senhor vai me dar a pasta do Planejamento, que é tão importante para o seu governo?” Tebet não aceitou de imediato, porque, segundo ela, estava propensa a ficar mais perto da família – o marido, Eduardo Rocha, político no MS, e as duas filhas, Maria Eduarda e Maria Fernanda, de 22 e 25 anos, que fazem faculdade em São Paulo. Chegou a pensar em dar um tempo da política, na qual milita há mais de trinta anos. Ao falar sobre isso com Lula, ele reagiu: “Não faça isso, porque, se depois você tiver que se desdizer, é muito mais difícil. Chegamos a momentos na vida em que não conseguimos mais voltar para casa nem que a gente queira.”

Ela também tinha divergências com o PT na área econômica. “Mas veja, não era antagonismo”, apressou-se a dizer. “Era divergência. Caso contrário não teria sentido eu estar aqui, não é?” E continuou sua explicação. “Tenho total sinergia e identidade com as pautas de costumes da esquerda. Nessa parte, sou progressista. Mas, na parte da economia, sou mais liberal, não esse liberal maluco fiscalista, que acha que tem que privatizar tudo. Mas tenho compromissos com o equilíbrio fiscal, com reformas que tragam alívio para a população e permitam ao Estado investir em áreas fundamentais.” Algumas das pautas que ela apoiou quando era senadora, como as reformas da Previdência, trabalhista e o Marco do Saneamento Básico, enfrentaram a firme oposição do PT.

Um telefonema do ex-ministro do STF Ayres Britto, a quem ela admira muito, serviu como estímulo para que aceitasse o ministério. Tebet lamenta não ter gravado a fala de Britto que, para ela, foi uma das homenagens “mais bonitas que recebi na vida”. Ele disse: “Há momentos de escuridão em que surgem frestas de luz. Toda vez que você falava na CPI da Covid, minha mulher e eu íamos para a frente da tevê para te ouvir, por causa da sua honestidade intelectual, o que é raro na política. Independentemente de concordarmos ou não com você, gostávamos de lhe ouvir, porque suas convicções vinham de dentro.”

Tebet também se lembrava com frequência de um comentário de Lula que a deixou emocionada, assim que ela declarou seu apoio ao petista na campanha: “Simone, política tem dessas coisas. Em determinados momentos, eis que surge dos lugares mais improváveis, lá do interior do Brasil, uma moça nos fazendo repensar o jeito de fazer política.” Era, talvez, um sinal de que ela poderia influenciar de alguma forma o governo de centro-esquerda.

No dia de Natal, a senadora avisou à família que tinha decidido aceitar o Ministério do Planejamento. Seu marido, que nunca interfere nos planos políticos dela, disse apenas ter certeza de que Tebet estava preparada para o cargo. As filhas, de posições progressistas, também a apoiaram a atuar no governo do PT. No mesmo dia, ela comunicou a decisão a Lula.

Em 8 de janeiro, depois de assistir pela tevê à intentona golpista deflagrada em Brasília por bolsonaristas inconformados com a vitória de Lula, Tebet chegou a uma conclusão: “Eu vi que a minha missão com o Brasil, não só a minha, mas a de todo o campo democrático, ainda não acabou. Teremos que trabalhar muito para que haja uma travessia tranquila em 2026.” A preocupação com a extrema direita ainda atormenta a ministra. “Temos a fantasia de que Bolsonaro é o problema. Está errado. Bolsonaro é carta fora do baralho. O que não está fora do baralho é a ideia-Bolsonaro. E você não mata essa ideia da noite para o dia. Isso passa por um trabalho de vigilância por parte dos meios de comunicação e da classe política. Não há fascismo dentro do agronegócio. Você pode ter 1%, mas o que o agronegócio faz é uma proteção legítima do seu direito, e aí ele escolhe o lado que lhe dá maior segurança jurídica. O problema é apoiar o fascista, aí é outra história. Por outro lado, chamar o produtor rural de fascista não ajuda.” Ela se referia, discretamente, a uma declaração de Lula em maio de que uma ala do agronegócio é “fascista”.

Quando Simone Nassar Tebet nasceu em 1970, em Três Lagoas, cidade na fronteira com São Paulo, o estado de Mato Grosso ainda não havia sido desmembrado, o que ocorreu sete anos mais tarde. Seu pai, Ramez Tebet, era um respeitado advogado e professor universitário que iniciava a carreira política, filiado ao MDB. Em 1975, ele foi eleito prefeito de Três Lagoas.

Ramez era descendente de libaneses católicos que vieram para o Brasil na década de 1920. Sua mulher, Fairte, tinha a mesma ascendência. O casal teve quatro filhos, e a primogênita Simone era a mais atrevida. “Essa menina será a herdeira política do pai”, disse um dia Fernando Corrêa da Costa, pai de Tereza Cristina, que viria a ser ministra da Agricultura e senadora também por Mato Grosso do Sul. Foi o que ocorreu. “Eu comecei a me interessar por política desde pequeninha porque queria estar perto do meu pai”, conta Tebet.

Pai rigoroso, Ramez era também um homem muito generoso, segundo Simone. “Ele demonstrava afeto no interesse que tinha por nós. Não tinha essa coisa de filho ficar em casa. Queria que fizéssemos faculdade, que estudássemos fora.” Embora estimulada a ser independente, a adolescente foi muito vigiada. Não podia usar maquiagem, nem saia curta, chegar tarde em casa, beber nas festas ou namorar. Também não podia gastar muito porque o pai era econômico. “Por ser filha de quem era, eu tinha que dar exemplo”, diz. “Ao contrário do que as pessoas imaginam, fui a última a ter carro, a usar roupa de marca.”

Depois de ocupar a Prefeitura de Três Lagoas, Ramez foi deputado estadual, vice-governador, governador, senador, ministro de Fernando Henrique Cardoso e presidente do Senado. Neste último posto, deu posse a Lula na Presidência da República, na primeira eleição do petista, em 2002. Quatro anos depois, quando Ramez morreu, vítima de um câncer, Lula compareceu ao enterro. Sempre que Tebet fala do pai, seus olhos ficam marejados.

Aos 16 anos, Simone Tebet se mudou para o Rio, para cursar direito na UFRJ, a mesma escola onde seu pai havia estudado. Dois anos antes, em 1984, viveu o que considera um dos momentos mais relevantes de sua formação política: participou do comício pelas Diretas Já, em Campo Grande (MS). Após um mestrado na PUC-SP, voltou ao seu estado para dar aula na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Por causa de sua especialização em direito administrativo, foi chamada para ser consultora da Assembleia Legislativa. Resolveu se lançar na política: concorreu a deputada estadual pelo MDB e ganhou.

Em 2004, a pedido do pai, candidatou-se à Prefeitura de Três Lagoas, num momento em que o PT se transformava em força política no estado. Ganhou novamente. Mato Grosso do Sul era comandado por Zeca do PT, o que não a impediu de acompanhar o governador numa viagem aos Estados Unidos com o objetivo de negociar a instalação de uma fábrica de celulose em sua cidade. Como as terras da região não são próprias nem para soja e nem para o pasto, hoje essa porção de Mato Grosso do Sul abriga as maiores fábricas de celulose do mundo. “Eu me orgulho de ter levado várias indústrias para a minha cidade, entre elas, a International Paper”, diz.

Na prefeitura, Tebet focou sua administração no atendimento a mulheres e crianças, instalando creches e postos de saúde de atendimento familiar. Ela lembra que, às vezes, quando visitava as escolas, as mães faziam fila com as crianças, buscando se acercar dela. “Deve ser alguma coisa maternal que eu tenho”, diz. “Mas é engraçado, porque ser mãe não era exatamente o sonho da minha vida. Eu não era aquela pessoa que ficaria desesperada se não pudesse ser mãe. Não faria tratamento para engravidar. Eu adotaria uma criança.”

Em 2009, iniciou seu segundo mandato na prefeitura, mas abandonou o posto na metade do caminho para se tornar vice-governadora na gestão de André Puccinelli, do MDB. Em 2014, concorreu ao Senado, e permaneceu lá até janeiro deste ano. No dia 1º de fevereiro, esteve na Casa para se despedir. Trajando um vestido azul-marinho acima do joelho e com os olhos delineados de preto – um traço de estilo todo dela, inspirado em um costume das mulheres árabes –, Tebet circulou pelo Senado conversando com os antigos pares e os senadores recém-eleitos, inclusive Damares Alves (Republicanos-DF), uma das mais ferrenhas bolsonaristas.

Todos a trataram de forma amistosa. “Firmar-se na política é um sacrifício monumental para as mulheres”, comenta Tebet. “Eu sofri num estado conservador. Poucas vezes o partido me deu voz. Nas mesas, a gente via a diferença com que uma mulher era ouvida. Foi tudo muito doloroso. Sofri misoginia quando fui candidata a prefeita, diziam que eu era filhinha de papai. Mas tive o apoio da população, do meu pai, do meu marido.” Apesar disso, Tebet reconhece que a situação dela é mais confortável do que a de outras mulheres que não puderam contar com o apoio de um político importante, embora seu pai tenha morrido bem antes de ela se lançar a voos mais altos.

Tebet conheceu Eduardo Rocha quando tinha 18 anos. Ele estava com 22 anos e trabalhava como assessor pessoal do pai dela, em Três Lagoas. Os dois namoraram durante sete anos e estão casados há 27. Embora seja ligado ao MDB, Rocha é chefe da Casa Civil do atual governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, do PSDB. Encontrei-me com ele em julho passado, em Campo Grande, no gabinete que ocupa no Parque dos Poderes, o centro administrativo do estado, dentro de uma reserva florestal.

Rocha, de 57 anos, é um sujeito simpático e bonachão, ao contrário da ministra, que, embora educada no trato, é sempre séria, formal e contida. Ele vestia camisa roxa e calça jeans, um jeito de vestir incomum para um político de gabinete. “Eu sou simples assim mesmo”, disse ele, sorrindo, com um forte sotaque sul-mato-grossense. “Simone e eu temos estilos diferentes de fazer política” – ele tratou logo de esclarecer. “Eu não tenho a capacidade intelectual nem a capacidade de discurso dela. Então, tenho que fazer política no chão, andar mais, estar no meio do povo. Já a Simone, se sobe num palanque e faz um comício, ganha votos. Não tem pra ninguém.”

A admiração de Rocha por Tebet beira a idolatria, segundo alguns amigos do casal. Parece verdade, como se depreende das próprias palavras do marido: “A Simone é muito firme, muito forte. Ela não fala nada que não seja produtivo. Não tem conversa fiada. E não vá debater com ela sem estar muito preparado porque vai cair do cavalo.” Ele contou que, durante a CPI da Covid, os dois tiraram um fim de semana no Guarujá, mas, em vez de se divertir e descansar, Tebet preferiu passar o tempo todo estudando dossiês. “Ela virou dia e noite até que descobriu as notas fiscais falsas para compra de vacina. É uma pessoa muito organizada.”

Tebet também é cheia de elogios ao marido. “Ele é o meu principal incentivador. É impressionante o companheirismo. Não tem um pingo de inveja, de concorrência, nada.” Os dois, porém, se veem poucas vezes, por causa das agendas políticas diferentes. Em geral, os encontros se dão a cada quinze dias. Tebet e Rocha não se intrometem na vida política um do outro. Quando ele disputou a eleição pela primeira vez para deputado estadual, pelo MDB, ela foi candidata a vice-governadora, pelo mesmo partido, mas não fizeram a campanha juntos. “Eu acho que eu atrapalho, porque dá ciumeira nos outros candidatos”, disse ele. “Eu toco o barco sozinho, porque eu toco diferente.” Eles tomam tanta distância que, durante a campanha de Tebet para a Presidência, o marido praticamente não colocou o pé fora de Mato Grosso do Sul, onde tanto o MDB quanto o PSDB apoiaram Bolsonaro – a quem Rocha não apoiou.

Nas eleições presidenciais de 2022, Mato Grosso do Sul viveu uma situação inusitada. A senadora Tereza Cristina, do PP, ligada a Bolsonaro, decidiu se aliar ao PSDB na corrida para o governo do estado e apoiou Eduardo Riedel. Porém, durante um debate presidencial, Bolsonaro surpreendeu ao dizer que seu candidato do coração em Mato Grosso do Sul era o capitão Renan Barbosa Contar, do PRTB, ex-militar e radical como ele. Com isso, rifou Riedel, com quem o partido de Bolsonaro estava coligado. A declaração rendeu uma avalanche de votos para Contar, que conseguiu desbancar André Puccinelli, do MDB, e subiu para o segundo lugar nas pesquisas. Para impedir a vitória do candidato da extrema direita, o PT decidiu se aliar ao PSDB, seu antigo rival no estado, e apoiou Riedel, que afinal venceu as eleições para governador. Ao assumir, ele chamou Rocha e integrantes do PT  para comporem seu gabinete.

O deputado estadual Oswaldo Mochi Junior, mais conhecido como Junior Mochi, é presidente do MDB em Mato Grosso do Sul. Em julho, no diretório do partido em Campo Grande, ele explicou por que o MDB estadual não apoiou Tebet e se bandeou para o lado de Bolsonaro. Disse que o movimento aconteceu porque o partido achou que a campanha de Tebet atrapalharia a de Bolsonaro, tirando dele votos conservadores.

“É preciso contextualizar que Mato Grosso do Sul, por causa de sua economia baseada no agronegócio, é um estado bastante conservador. Foi, majoritariamente, uma base de direita conservadora que apoiou Bolsonaro”, afirmou Junior Mochi. Falando de forma pausada, ele continuou. “Na época, a gente ficava na dúvida se ela deveria ter se candidatado, porque não era bom para ela e para o partido aqui. Mas, entendemos que, do ponto de vista político, principalmente para ela, foi uma decisão acertada.” E por quê? “Em primeiro lugar, ela não tinha a menor chance de se reeleger senadora, já que Tereza Cristina era a preferida para a vaga. Em segundo, porque, no fim das contas, em função da candidatura dela, o MDB  manteve sua musculatura, embora nem ela nem o partido tenham tido um bom desempenho no estado.” Mochi acha que Tebet foi corajosa ao apoiar Lu­la. “Ela sabia que seria rejeitada aqui, na base dela, ao não apoiar Bolsonaro. E foi uma peça importante na vitória do Lula, que não conta com a simpatia do eleitor local.”

Por causa da decisão que tomou, Tebet virou persona non grata para muitos em seu estado natal. No prédio onde mora, os vizinhos pararam de falar com ela e seus familiares. Sua mãe, que está com 76 anos, até hoje tem que suportar uma série de críticas à decisão da filha. Tebet já admitiu que, em Mato Grosso do Sul, não se elegeria nem para síndica do seu prédio. Quando esteve em Campo Grande, em julho, era possível perceber a rejeição. Ao pronunciar seu nome para alguns produtores, pequenos empresários, donos de restaurantes, motoristas de Uber, a resposta era uma só: “Traidora.”

Não deixa de ser curiosa essa inclinação de Mato Grosso do Sul à extrema direita. Até pouco tempo, o estado seguiu firmemente o ideário democrático, com os eleitores alternando seus votos entre a direita, a social-democracia e a esquerda. Quando Mato Grosso do Sul foi criado, em 1979, depois da divisão de Mato Grosso, muitas das lideranças eram do MDB, entre elas, Ramez Tebet. Em 1982, ano em que houve eleições diretas para o Executivo estadual ainda sob a ditadura, o primeiro governador foi Wilson Barbosa Martins, também do MDB, que havia sido cassado pelos militares anos antes. Entre 1999 e 2003, o estado foi governado por José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, ex-presidente do sindicato dos bancários. Então, em 2018, começou a onda bolsonarista e o comportamento mudou. Mato Grosso do Sul é um estado pequeno em termos populacionais. São 2,8 milhões de habitantes. No entanto, faz um barulhão em torno da defesa do agro. Certamente, é o estado do Centro-Oeste com maior influência política, resultado da organização do setor.

Em Campo Grande, uma irada pecuarista me disse: “A Simone tem que arrumar algo fora daqui, tem que ir para São Paulo. Aqui era a base dela, mas ela se queimou. Ela está tentando se salvar com o PT, mas o PT vai jogá-la fora. Você acha que a Gleisi Hoffmann vai deixar ela se firmar?” A mulher não quis se identificar por medo de represália do governo. Ela expôs algumas razões para o ódio que uma parte do agronegócio estadual nutre pelo PT. “O primeiro mandato do Lula, até que foi bom para a gente, porque ele herdou do Fernando Henrique uma casa arrumada. Os juros estavam baixos, o que nos ajudou com o financiamento da safra”, disse. “Aí começou aquele apoio à JBS, e esses caras agora mandam no preço do boi. São monopolistas. Depois veio aquela roubalheira. A economia desabando. Porque tudo no PT é fictício.”

Depois, a mulher entrou na questão fulcral dos produtores: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. “Esse MST, invasor de terra, deixou de existir na época do Bolsonaro. Porque Bolsonaro entende o pensamento da direita, que é o direito à propriedade e de a gente se armar para protegê-la. Quer dizer que temos que deixar essa gente invadir nossa terra, terra que herdamos dos nossos avós, dos nossos pais, sem fazermos nada?”

A pecuarista não parou aí. “O Lu­la agora vem chamar a gente de fascista. Chamou os produtores de fascistas. O que é isso? E a Simone ainda apoia ele. Ela vinha como independente e depois pulou pro lado dele. Ela é uma sonsa.” Mantendo o tom indignado, fez uma crítica final, expondo como a elite do estado se sente traída por Tebet. “A Simone se vestia bem, era arrumada. Agora anda de calça jeans e camisetinha branca para parecer que é do povo. Do produtor aqui de Mato Grosso do Sul ela não ganha mais voto.”

Quando citei esses comentários a Tebet, ela se espantou. “Meu Deus, até isso? Eu sempre usei calça jeans, agora é que estou me arrumando mais.” Sem alterar o tom de voz, a ministra disse: “Eu nunca fui do movimento do agronegócio. Se você me perguntar qual o tamanho da nossa propriedade eu não sei dizer, porque vou lá uma, duas vezes por ano.” A ministra contou que sempre foi assim. “Eu ganhei o meu dinheiro como professora e advogada. Não tem foto minha em leilão de gado, em sindicato de produtor, a não ser que fosse para dar palestra política. Eu não conheço as mulheres e homens do agronegócio. Não tenho vida social com eles. Talvez venha daí certo ressentimento, porque, quando eu assumi a vida pública, não foi para defender uma classe, uma categoria.” Em 2014, contudo, a JBS doou 1,7 milhão à campanha dela ao Senado. A empresa foi a maior doadora individual de Tebet.

Embora não se identifique com o agronegócio (e nem seja associada ao setor no estado), Tebet e seus irmãos herdaram três fazendas do pai em Mato Grosso do Sul: em Três Lagoas – para onde Rocha costuma ir quando a mulher não está em Campo Grande –, em Fátima do Sul e em Caarapó, esta chamada Santo Antônio da Matinha e com 860 hectares. Todas servem à criação de gado.

Sobrinho do poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014), o pecuarista e sojicultor Leonardo Barros, morador de Campo Grande, acha que existe “um vácuo histórico” sobre o que é o agronegócio. “O mundo urbano sabe muito pouco do que aconteceu no Centro-Oeste nesses últimos vinte anos”, disse. “Não acho que este estado seja Lula ou Bolsonaro. O produtor rural é pragmático. Ele vai gostar de quem tratar bem o agronegócio.” Ele também discorda que Tebet tenha perdido a respeitabilidade no estado. “Isso não é verdade. A Simone é um produto do Centro-Oeste. Ela vem de uma família política. Ela tem trâmite. Ela é ouvida. Ela tem a cor do Centro-Oeste.”

Para Leonardo Barros, Tebet não formará fileiras com o PT, mesmo estando no governo. “Eu a enxergo como uma pessoa do Centro-Oeste que pode levar a nossa voz para dentro do governo. Porque ela entende o nosso jeito de ser.” Os eleitores de Mato Grosso do Sul podem até dizer que ela “é odiável”, que negou o Centro-Oeste, que não os representa. “Mas isso é transitório.” Ainda assim, na visão dele, o agronegócio terá mais dificuldade em apoiar um partido de esquerda, “porque a questão do PT está ligada à desonestidade”.

Ele considera Tebet uma pessoa sensata, que se aliou ao PT contra Bolsonaro porque achou que o país corria o risco de virar uma autocracia. “Nós, da mesma forma, olhamos para ela e perguntamos: ‘Mas, vem cá, quer dizer que agora Lula é a solução para esse país? Depois de tudo o que fez, apesar de ter sido inocentado pelo STF?’ Nós não aceitamos isso.” Por outro lado, Barros considera “malucos” os bolsonaristas que dizem que o STF quer rasgar a Constituição. “E nós ficamos no meio disso tudo, sendo estigmatizados pela esquerda, porque olham para a gente como se fôssemos personagens da novela Pantanal. A Rede Globo transformou a cultura do campo numa coisa só: um bando de coronel atrasado”, diz. “É verdade que somos conservadores do ponto de vista da família, mas somos gente que gosta de acordar às quatro da manhã e trabalhar até o pôr do sol. Temos orgulho do que somos e do que fazemos.”

Francisco Maia, ou Chico Maia, como é conhecido em Campo Grande, é outro produtor que faz críticas aos extremos políticos. Considera uma insanidade a tese de que, com Lula, o Brasil vai virar “comunista” e se disse muito satisfeito com o Plano Safra do governo do PT, que liberou financiamento de mais de 300 bilhões de reais para o campo. Mas tem suas objeções. “Lula quis capitalizar em cima disso. Só que errou ao anunciar o plano ao lado do João Pedro Stédile e do José Rainha, ambos do MST. Aí não dá. Ou ele vai ficar com o Zé Rainha ou vai ficar com o produtor. Com os dois é impossível. O produtor, se­ja pequeno, médio ou grande, tem horror ao MST.” Maia, porém, acha que tanto Tebet quanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, estão descolados da pauta radical do PT. “A Simone e o Had­dad podem fazer um trabalho muito bom se o governo deixar.”

No governo de Mato Grosso do Sul, tem havido uma tentativa de conciliação. Hoje, algumas secretarias são ocupadas por pessoas ligadas à centro-esquerda e à centro-direita. A Secretaria Executiva de Agricultura Familiar, de Povos Originários e Comunidades Tradicionais por exemplo, é chefiada por um quadro do PT, Humberto de Mello Pereira, e está sob o guarda-chuva da Secretaria do Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, comandada por um produtor rural. O diálogo tem funcionado. Mello Pereira disse que o objetivo da secretaria é construir políticas públicas para a agricultura familiar, os povos originários e as comunidades tradicionais do estado, que somam cerca de 100 mil famílias. “Esse segmento precisa ser acolhido”, afirmou. Segundo ele, Tebet tem uma relação histórica com a agricultura familiar, tanto que é respeitada por esse grupo. “Eu acho que ela procura ouvir todas as partes. É uma democrata.”

Outra questão que inflama o estado é a demarcação das terras indígenas. Mato Grosso do Sul possui a terceira maior população indígena do Brasil. São 78 aldeias em 22 áreas. O maior temor do agronegócio, grande ou pequeno, é que parte das terras hoje ocupadas por fazendeiros seja devolvida aos indígenas. Uma das áreas em disputa é a região do povo Guarani-Kaiowá. Mello Pereira contou que o governo local tem buscado pacificar a situação, levantando recursos para indenizar os fazendeiros que têm títulos de propriedade dados pelo estado. “São pessoas que têm a propriedade há mais de cem anos. Pagaram tudo, foi tudo legalizado. Não é possível tirá-los de lá sem uma compensação.”

A demarcação das terras indígenas é um grande imbróglio no Brasil em geral, sempre empurrado com a barriga pelos governos de diversos matizes ideológicos e pela anomia do Judiciário. O STF acabou de decidir, por 9 votos contra 2, que os indígenas não precisam comprovar que ocupavam as terras que reivindicam na data da promulgação da atual Constituição, ou seja, em 5 de outubro de 1988. A próxima discussão será se o direito à indenização afetará apenas as benfeitorias ou também a terra nua, como reivindicam os produtores, a bancada ruralista e também políticos da direita e da esquerda em Mato Grosso do Sul.

O procurador da República Marco Antônio de Almeida, baseado em Dourados – região de Mato Grosso do Sul onde existem muitos conflitos –, recorda que os indígenas foram expulsos de suas terras e, portanto, não têm co­mo provar que estavam nelas em 1988. O erro, diz ele, vem lá de trás. Em 1973, o Estatuto do Índio estabeleceu que todas as terras identificadas como indígenas teriam que ser demarcadas em até cinco anos. “Óbvio que isso não aconteceu, e hoje está essa confusão. De um lado os índios reivindicam a terra e, de outro, os proprietários comprovam que têm o título comprado regularmente. A responsabilidade de resolver o problema é do Estado brasileiro.”

Sobre essa questão tão complexa, Tebet diz que, se os estudos comprovarem que determinadas terras pertencem aos indígenas, elas têm que ser demarcadas para eles. Mas a ministra defende que os proprietários que terão suas áreas desapropriadas sejam indenizados. “Muitas famílias estão nas terras há mais de duzentos anos, com titularidade comprovada. Não é justo serem retiradas sem serem ressarcidas.” Quando ainda era senadora, ela propôs uma emenda constitucional estabelecendo a compra dessas terras pela União para serem demarcadas, com indenização dos proprietários que tenham a titularidade, não apenas pelas benfeitorias, mas pela terra nua. A PEC foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça, mas até hoje não foi à votação.

A ministra avalia que a questão da terra será o maior problema para o futuro eleitoral do governo Lula. “Eu temo que, se essas pessoas não forem indenizadas, haverá um grande conflito. E esse conflito pode jogar o agronegócio brasileiro novamente nas mãos de um outro radical de ultradireita. Porque o agronegócio não é pequeno: é toda uma cadeia produtiva, que envolve o pequeno e o grande produtor, o trabalhador da zona rural, o microcomerciante, o empresário, o prestador de serviço, o técnico, o vendedor de semente e por aí vai.” Para ela, uma forma de acabar com o conflito no campo é dar segurança jurídica aos proprietários. “Se nós resolvermos o problema da indenização das terras indígenas e deixarmos muito claro, em um próximo lançamento da reforma agrária, que não atingirá terras produtivas, faremos uma pacificação e reduziremos a rejeição à esquerda no campo.”

Tebet tem sua explicação para a rejeição que o PT sofre da parte do agronegócio e dos conservadores. “O PT se equivocou ao não compreender que há muitos Brasis dentro de um mesmo Brasil”, disse. “Isso ocorre com parte da mídia também. A gente tem que entender o que acontece e saber dialogar. Com relação à pauta de costumes, por exemplo, temos que compreender que boa parte da população brasileira é conservadora. Quarenta por cento é evangélica. E tem também a ala mais radical do catolicismo. Então, não podemos impor nossas pautas. É preciso ouvir essas pessoas.”

A ministra critica a esquerda de ter se “assenhorado” das pautas sociais, como se todos os partidos, do centro à direita, fossem desumanos. “Não se pode esquecer, por exemplo, que o SUS foi criado na Constituinte de 1988, que era presidida por Ulisses Guimarães, do MDB.” Ela também não acha justo que a esquerda acredite que só ela está preocupada com a preservação ambiental. “É preciso que a população urbana e a esquerda compreendam que grande parte do agronegócio é preservacionista. Estas pessoas sabem que, se não cuidarem dos mananciais, perderão sua produção.”

No começo de fevereiro, Simone Tebet estava às voltas com a integração da equipe do Planejamento, que fora desmontada por Paulo Guedes, com a criação do Ministério da Economia. Ela fez uma reunião com todo o pessoal no auditório do ministério. A equipe inclui mulheres em postos-chave, como as economistas Leany Lemos, na Secretaria de Planejamento, Luciana Servo, na presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e Renata Amaral, na Secretaria de Assuntos Internacionais e Desenvolvimento, encarregada de negociar empréstimos para estados e municípios com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). O objetivo do encontro era que todos se conhecessem e começassem a trabalhar para identificar gargalos do país onde a presença do Planejamento será fundamental.

Pouco tempo depois, Tebet se reuniu com os 27 diretores regionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para viabilizar a realização do Censo, que tinha sido praticamente paralisado pelo governo Bolsonaro. Na visão de especialistas, o processo foi conduzido com extrema eficiência pelo então presidente interino do IBGE Cimar Azeredo Pereira, apesar da série de problemas. A ministra foi elogiada por manter o técnico no posto, o que permitiu que o Censo fosse agilizado.

Ocorreu o mesmo com Luciana Servo, economista especializada em políticas de saúde e funcionária de carreira do Ipea. Cervo me disse que se surpreendeu por ter sido indicada, pois não conhecia a ministra. “Foi uma indicação técnica, que sinalizou a intenção de valorizar os funcionários”, disse. Ela elogiou a capacidade de Tebet de ouvir os técnicos, respeitá-los e apoiar as pesquisas fundamentais para o desenvolvimento de políticas públicas. O Ipea, agora, tem sido demandado para fazer estudos de viabilidade de projetos para todos os ministérios.

Apesar do clima de camaradagem no Ministério do Planejamento, em agosto estourou a polêmica que ameaçou abalar a imagem de Tebet. Para comandar o IBGE, Lula indicou o economista Marcio Pochmann, ex-presidente do Instituto Lula. Na época, a imprensa noticiou que a escolha se deu sem a participação da ministra. Pior: o nome de Pochmann foi anunciado pelo secretário de Comunicação Social da Presidência da República, Paulo Pimenta, sem que Tebet tivesse sido avisada previamente. Lula foi acusado de atropelar a ministra e de querer politizar o IBGE. E houve quem sugerisse que Tebet renunciasse.

O caso ganhou tons espetaculosos depois que o economista Edmar Bacha, um dos coordenadores econômicos da campanha presidencial de Tebet, fez pesadas críticas à indicação de Pochmann, acusando-o de desonestidade intelectual e de ter tentado desmontar o Ipea quando dirigiu o instituto, no primeiro mandato de Lula, perseguindo economistas que não fossem ligados ao PT e comandando a entidade com viés ideológico. Em uma entrevista publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Bacha chegou a pregar que os “ibegeanos” se rebelassem contra a indicação do protegido de Lula.

Tebet me disse que aquilo tudo era “espuma”. Ela conta que avisou a Lula que não tinha um nome para o IBGE e só iria pensar no assunto depois da finalização do Censo. Lula, então, sugeriu Pochmann, que ela não conhecia. A ministra achou que seria correto atender ao pedido do presidente. “Foi tudo discutido. Os nomes que me haviam sido sugeridos certamente não aceitariam deixar seus cargos na iniciativa privada para ir para o serviço público.” O problema, ela admitiu, “foi o secretário de Comunicação do Planalto ter anunciado o nome antes de eu saber que ele faria isso”.

Ex-colaboradores da campanha de Tebet dizem, no entanto, que ela tinha, sim, nomes para sugerir. “Havia uma lista de currículos. E o próprio Cimar Azeredo, do IBGE , era uma boa opção. O que não dá é indicar para o órgão responsável pelo cálculo da inflação e do PIB um economista que já foi acusado de tentar desvirtuar números como fazia no Ipea”, acusou um ex-integrante da campanha de Tebet, que não quis se identificar por não querer se indispor com a ministra.

Para técnicos que trabalhavam no Ipea na época de Pochmann, houve uma reação exagerada à escolha do nome dele. “Acho que o problema maior se deu no Ipea do Rio, porque o Pochmann quis acabar com o instituto lá e trazer todo mundo para Brasília”, disse um técnico do órgão em Brasília. “Talvez porque muitos economistas lá divirjam do pensamento desenvolvimentista dele e o considerem despreparado para o posto.” Segundo esse técnico, no concurso que Pochmann abriu para o Ipea, quando presidia o instituto, entraram pessoas com diferentes posições ideológicas. “Não me lembro de, aqui em Brasília, termos sido pressionados.”

Com a decisão da ministra de aceitar a indicação de Pochmann sem conflito, muitos economistas que apoiaram sua campanha se afastaram dela. “Foi uma decepção”, me disse um deles. “Se sujeitar a entregar um posto tão importante para um economista tão ideológico como o Pochmann é imperdoável.”

O encantamento de mulheres jovens pela ministra impressiona. No ministério, sua assessoria guarda em arquivos centenas de cartas, pinturas e desenhos que elas lhe enviam, demonstrando admiração. Muitas agradecem a mudança que Tebet provocou na vida delas, por fazê-las entender que podem ambicionar uma posição melhor. “Nunca se sinta só. Com você estão milhares de mulheres que te admiram. Siga conosco em busca de um país múltiplo, em defesa das minorias. Quando se sentir triste, vem pro Twitter interagir. Te adoro”, diz uma carta, escrita à mão. Outra afirma: “Você é uma mulher incrível. Uma inspiração para mim.” A ministra conta até com um grupo de apoio de mulheres homossexuais no Instagram.

Durante os meses de junho e julho, Tebet rodou o Brasil a fim de divulgar para as lideranças dos estados o orçamento participativo, que tem por objetivo recolher os pleitos dos movimentos sociais e aplicar recursos federais nas áreas mais necessitadas. “Acho que essa foi uma das poucas oportunidades que ela teve de aparecer”, disse um apoiador da campanha de Tebet. “Daqui para a frente, acho que ficará invisível.”

A caravana pelo país funcionou. Em Mato Grosso do Sul, ela foi saudada pelas lideranças sociais e fez um discurso entusiasmado em defesa da democracia. Foi a primeira vez que Tebet discursou no estado após as eleições. “Parecia até o Lula falando”, comparou, em tom jocoso, a deputada Camila Jara (PT-MS). Aos 28 anos, Jara foi a única mulher do partido a se eleger no estado para a Câmara. Sua família se estabeleceu, em Mato Grosso do Sul, em assentamentos de reforma agrária. Embora esteja do outro lado do campo ideológico, Jara é uma admiradora de Tebet. “Eu sou de um estado de poucas referências políticas de mulheres e, ela, embora seja considerada mais à direita, mesmo não sendo do agronegócio, é preocupada com a causa das mulheres.”

Quando se elegeu vereadora, em 2020, Jara era a única mulher entre os 29 membros da Câmara Municipal de Campo Grande. Certo dia, apresentou um projeto de ciclovia. “Eu estava muito nervosa e com muito medo. A Simone, que era senadora, e estava lá, acompanhando a sessão, me olhou de longe e, com o olhar, me disse: ‘Vai, pode falar, você não está sozinha aqui.’ Isso me encorajou. Nunca vou esquecer.”

A deputada já havia tido outras experiências positivas com Tebet. Nas eleições de 2014 para a Presidência da República, Jara fazia campanha para Dilma Rousseff. E Tebet, do então PMDB, apoiava a candidatura da petista, cujo vice era Michel Temer, e não a de Aécio Neves, do PSDB. Certo dia, o comitê de campanha de Dilma queria espalhar adesivos da candidata, mas não dispunha de carros para isso. “A Simone entrou no comitê e ofereceu ajuda. Emprestou todos os carros da campanha dela para que a gente adesivasse.” Jara ri ao se lembrar da história. “Chegou aquele monte de carro da campanha da Simone, e a gente teve que correr para conseguir adesivar todos eles com fotos da Dilma.” Depois, veio a decepção. “E aí Simone apoiou o golpe contra Dilma.” A opinião da deputada e sua família sobre Tebet voltou a melhorar durante a CPI da Covid. “Lembro do meu pai, eleitor de esquerda, dizendo: ‘Nunca pensei que fosse ficar com vontade de aplaudir uma fala da Simone Tebet.’”

A ministra está tentando se equilibrar entre esses polos, mas isso não garante que conseguirá aumentar seu espaço. Embora tenha se transformado em uma peça importante do jogo político, ela segue sozinha o seu caminho – mais ou menos como sempre aconteceu. “Ela não é um quadro petista e nunca vai se identificar como de esquerda, de cujo governo participa”, avalia um importante assessor do MDB de São Paulo. “Tampouco se aliará à extrema direita, da qual é crítica feroz.” Tebet se afastou do MDB de Mato Grosso do Sul, diz o político, e não se afina com parte do MDB nordestino, comandado por Renan Calheiros, de Alagoas.

Em 2019, ela disputou com Calheiros, dentro do MDB, a candidatura para a presidência do Senado, mas ele virou os votos, inclusive do senador Jarbas Vasconcelos (MDB-PE), grande amigo de Ramez Tebet, que tinha prometido apoiá-la. Calheiros acabou perdendo a presidência da Casa para o senador Davi Alcolumbre, do União Brasil, que Tebet apoiou – e também Bolsonaro. Ela se candidatou novamente em 2021 e perdeu. “Simone torce o nariz para o Renan porque o acha corrupto, mas ela vai e faz aliança com Lula. Isso é uma contradição”, me disse o assessor parlamentar que, por tudo isso, acha que o futuro político de Tebet é incerto. “Dentro do MDB, há várias jovens lideranças que vão querer disputar as eleições de 2026, como Helder Barbalho, governador do Pará. Ela é uma loba solitária.”

Baleia Rossi discorda. “Ela é hoje a cara de um MDB renovado. O partido cresceu, e a Simone virou uma ótima liderança para 2026. Ela teve 5 milhões de votos, e o MDB saiu das eleições muito grande, com 43 deputados, afora os novecentos prefeitos que têm no Brasil.” Tanto que, na convenção do partido, no dia 5 de outubro, em Brasília, Tebet foi indicada para ser membro da Comissão Executiva Nacional o que, segundo me disse um outro assessor do MDB, é a prova de que ela tem muito apoio na legenda.

Essa é também é avaliação de Junior Mochi, presidente do MDB de Mato Grosso do Sul. “Na minha modesta avaliação, não se discutirá o processo sucessório de 2026 sem pensar na Simone. Ela hoje é a joia da coroa do MDB. É a estrela do partido”, disse. “Ela manteve os princípios que a norteiam. Do ponto de vista político dela, aqui no estado, foi ruim, porque é um estado conservador. Mas ela não é mais uma política do estado. É nacional. E nós continuamos aqui, cuidando da nossa paróquia.”

O cientista político Jairo Nicolau considera Tebet “a figura mais interessante que surgiu no cenário político brasileiro recente.” Mas acha que existe um desafio para essa força política de centro tradicional que, desde 2018, com “o arrastão bolsonarista, viu as bancadas do MDB e principalmente do PSDB se esvaziarem”. Essa força, diz Nicolau, tem um tempo curto para se reorganizar. Ele avalia que a direita mais moderada dispõe de candidatos fortes, como o governador Tarcísio de Freitas, enquanto a esquerda, representada pelo PT, não vai abrir mão de lançar candidato próprio. “Nesse cenário a situação da Simone para uma disputa presidencial em 2026 ficou muito difícil”, diz ele.

Hoje deputado estadual, Zeca do PT, o ex-governador, continua sendo um quadro importante no PT nacional. Em seu escritório, num prédio baixo em Campo Grande, ele montou uma espécie de pequeno museu onde guarda desde uma foto de Che Guevara ainda estudante de medicina até uma chuteira de Mané Garrincha da época do Botafogo, time do qual é torcedor. Ele me disse que, embora seja opositor do emedebista André Puccinelli, que considera um político autoritário, sua relação com Tebet é boa. Zeca do PT tem grande admiração por Ramez Tebet. “Eu amava o pai da Simone. Foi um excelente presidente do Congresso, um democrata, ela soube dimensionar isso.” Ele estende a admiração à filha: “A Simone teve um papel extraordinário na eleição de Lula e se credencia para voos muito maiores. Ainda é cedo para falar nisso, mas acho que ela faria uma dupla perfeita com o Haddad nas eleições de 2026.”

A cúpula do PT não parece disposta a tanto. Em 11 de agosto, o presidente Lula lançou, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com 1,7 trilhão de reais a serem aplicados nos próximos três anos (meta, aliás, que muitos economistas consideram inviável). No palco, embora o telão mostrasse a todo o tempo mulheres, indígenas e negros como as prioridades do plano de governo, na plateia a situação era diferente. Na primeira fileira do teatro, ao lado de Lula, só havia homens brancos, com a exceção de Dilma Rousseff e de Lu Alckmin, mulher do vice-presidente, Geraldo Alckmin. As ministras mulheres foram para a segunda fileira, entre elas, Marina Silva, Sonia Guajajara e Simone Tebet, que, tendo trabalhado no programa, não teve seu nome citado uma vez sequer pelos petistas. Do governo, só homens discursaram.

Aloizio Mercadante era um dos mais eufóricos, como se fosse chover dinheiro no BNDES, que ele preside. Depois, puxou o coro, seguido pela militância acomodada nas galerias: “Dilma, guerreira do povo brasileiro.” O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), também não conteve o entusiasmo ao citar a futura construção de navios e plataformas para a Petrobras. Chegou a lançar a candidatura de Lula para 2026. Para Tebet, foi um evento bem diferente daquele de julho, no Teatro Riachuelo, quando a militância parecia querer consagrá-la como estrela. No Theatro Municipal, ela foi mera coadjuvante.

Perguntei à ministra se ela via alguma chance de fazer parte de uma chapa com Haddad em 2026, como sugeriu Zeca do PT. “Não sei nem o que vai me acontecer amanhã, que dirá em 2026. Acho que tem muita água para rolar. Isso é uma decisão do meu partido, e eu sou uma pessoa de partido”, disse. “Agora, tenho que tratar do meu trabalho no ministério. Temos muitas coisas a fazer até dezembro de 2025, caso o presidente Lula me mantenha aqui. Afinal, o único eleito foi ele.”

A ministra está otimista sobre sua situação política em Mato Grosso do Sul. Acha que, depois da tempestade, as coisas estão melhorando. “As pessoas que viraram mais bolsonaristas estão caindo na real. A economia está dando certo, elas estão vendo que não tem nenhum bicho-papão, o Brasil não vai se transformar numa Venezuela, o dólar caiu, a Bolsa subiu, a inflação está caindo, o preço dos alimentos também. Acho que o medo do governo no meu estado vai diminuir.”

Suas relações dentro do governo também estão serenas, segundo ela. “As diferenças ideológicas, sejam na área econômica ou na partidária, ficam em segundo plano. Nós temos consciência, tanto a equipe econômica quanto o presidente Lula, do risco democrático por que passamos”, afirmou. “Ao contrário do que imaginava, hoje eu vejo a equipe econômica com uma visão de governo de frente ampla mais do que partidária. O governo, o ministro Haddad, têm metas fiscais muito mais audaciosas do que se imaginaria em um governo petista. A projeção é de se zerar o déficit público no ano que vem.”

Lembrando o que disse o assessor parlamentar do MDB paulista, perguntei se ela se sentia uma loba solitária. “Olha, no governo, não. Mas na política, sempre fui”, disse, explicando que vem de um estado conservador, em que a mulher tem que brigar muito para ser ouvida, inclusive dentro do próprio partido. “Se a mulher fala alto, ela é professora de Deus. Se fala baixo ou fica calada, é fraca. Nunca está bom, não pode ter opinião própria. Eu sou uma pessoa fácil de ceder nas ações, mas não nas minhas convicções”, disse. “Loba solitária eu me sinto até hoje. Sou uma pessoa politicamente muito só. Mas sou assim. Já me acostumei.”

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_205 com o título “A loba solitária”.


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)