questões antropológicas
Bernardo Esteves Out 2023 17h42
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A mais recente reviravolta na história da ocupação das Américas veio em 2015, quando uma análise genética apontou que três povos indígenas brasileiros têm em seu DNA sequências que hoje só são encontradas no genoma de povos nativos da Oceania e do Sudeste Asiático. Os pesquisadores ainda não sabem explicar o que significa esse sinal genético nem como foi parar no DNA dos indígenas brasileiros, mas ele está mudando a forma como a ciência descreve os primeiros americanos.
A existência da chamada população Y, como foi batizado o grupo que tinha originalmente esse sinal genético, foi revelada por cientistas americanos e brasileiros. Eles encontraram as sequências misteriosas no DNA dos paiter-suruís e dos karitianas, de Rondônia, e dos xavantes, de Mato Grosso.
Esses três povos são protagonistas involuntários da história da ocupação do continente. Em sua maioria, eles ignoram que carregam em seus genes pistas valiosas para elucidar a identidade dos primeiros americanos. O material genético usado na descoberta da população Y foi coletado no século passado e continua a ser usado em estudos científicos de várias disciplinas, embora os indígenas nunca tenham sido informados sobre os resultados dessas pesquisas.
Algumas das amostras de sangue por trás da descoberta da população Y foram coletadas em 1987 numa expedição conduzida pelo epidemiologista canadense de origem taiwanesa Francis Black, da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Desde os anos 1960, Black vinha colhendo material de povos indígenas brasileiros, a fim de entender como seus anticorpos reagem a doenças infecciosas como pólio, rubéola ou sarampo.
Naquele momento, ele e outros cientistas brasileiros e estrangeiros enxergavam nas populações indígenas isoladas janelas que davam acesso ao passado biológico da humanidade. Black veio pela primeira vez ao Brasil em 1966, com o intuito de testar uma vacina contra o sarampo entre os tiriyós, que vivem no noroeste do Pará. Em suas diversas incursões a terras indígenas, ele chegou a colher material de cerca de 2,5 mil indivíduos de vinte povos diferentes.
Os primeiros artigos científicos publicados a partir da análise do sangue dos paiter-suruís e dos karitianas saíram em 1991, mas não trouxeram muitos detalhes sobre como foi feita a coleta. No caso dos paiter-suruís, o epidemiologista colheu amostras de sangue de pelo menos 46 indivíduos de uma aldeia com 300 pessoas; já dos karitianas, foram amostras de ao menos 77 indivíduos de uma aldeia com 130 habitantes.
As amostras foram armazenadas no laboratório do geneticista de populações Kenneth Kidd, também de Yale. Ali, Judith Kidd, mulher e colaboradora do pesquisador, submeteu-as a um processo que permite imortalizar as células. O procedimento consiste em infectar os linfócitos B – um tipo de célula de defesa presente no sangue – com um vírus (no caso, o de Epstein-Barr), o que faz com que eles passem a se multiplicar indefinidamente. A técnica de imortalização fez com que o material genético dos povos originários brasileiros continuasse disponível para pesquisa ao longo de décadas, à revelia dos indígenas.
Linhagens celulares dos paiter-suruís e dos karitianas ficaram armazenadas no laboratório de Kidd, que foi fechado depois que o pesquisador se aposentou, em 2016. Faziam parte das amostras de 47 populações de todo o mundo que foram rotineiramente estudadas ali por mais de três décadas. Além disso, o geneticista cedeu linhagens celulares desses povos indígenas para o Projeto da Diversidade do Genoma Humano (PDGH) e é dali que saiu parte do material usado na análise que descobriu a população Y.
O PDGH tem o propósito de manter um banco genético representativo das diferentes populações humanas do planeta a fim de investigar sua história e diversidade. Foi idealizado nos anos 1990 pelo geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza, que havia sido o supervisor de Kenneth Kidd em seu pós-doutorado na Universidade Stanford. A iniciativa reúne linhagens celulares de 1 050 indivíduos pertencentes a 52 populações de todos os continentes – incluindo 24 linhagens dos karitianas e 21 dos paiter-suruís. As amostras ficam armazenadas no Centro de Estudo do Polimorfismo Humano da Fundação Jean Dausset, em Paris, e são enviadas a pesquisadores que as solicitarem. Já tinham sido distribuídas a mais de duzentos cientistas e gerado centenas de publicações científicas até 2023, de acordo com o site da fundação. Na prática, é como se o DNA dos paiter-suruís, dos karitianas e das demais populações representadas no banco de dados do projeto tivesse virado domínio público para os cientistas.
As linhagens celulares do PDGH estão na base de uma explosão dos estudos genéticos sobre a variabilidade humana. “Com esse painel se abriu a história da humanidade em nível genômico”, disse a geneticista Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das autoras do estudo que identificou a população Y. “Ele rendeu frutos enormes para o conhecimento da humanidade.”
Alguns povos indígenas, no entanto, viram no PDGH o risco de que seus dados genéticos pudessem ser usados contra seus próprios interesses e apelidaram a iniciativa de “Projeto Vampiro”. Para eles, a empreitada era uma nova roupagem para as práticas colonialistas com que sempre haviam sido tratados pelos não indígenas. “Não nos opomos ao progresso”, disse Rodrigo Contreras, representante do Conselho Mundial dos Povos Indígenas, numa reportagem de 1994 na revista Science. “O que nos preocupa é o comportamento de colonização.”
Os criadores do projeto alegam que só foram incluídas no banco do PDGH amostras para as quais houvesse evidências suficientes de consentimento informado por parte das populações envolvidas. Em outras palavras, os doadores precisavam ser informados sobre o destino que seria dado ao seu material biológico e sobre o que seria feito com ele, e tinham que concordar com isso de forma livre e espontânea. No entanto, o site do projeto não tem documentos que registrem o consentimento.
No caso brasileiro, cabia à Funai, denominada hoje Fundação Nacional dos Povos Indígenas, autorizar a visita de Black e a coleta de material biológico. Não se sabe ao certo o que foi dito aos indígenas e nem de que forma foi dado seu consentimento. Terão sido informados de que células do seu sangue poderiam ser imortalizadas e continuar sendo usadas em pesquisas científicas ao longo de décadas, mesmo que a pessoa de quem foram retiradas tivesse morrido?
Em fevereiro de 2023, visitei a Terra Indígena Sete de Setembro, onde vivem os paiter-suruís, em busca de pistas que ajudassem a reconstituir um dos episódios de coleta de sangue que estão na origem da descoberta da população Y. A terra indígena ocupa uma área de 248 mil hectares na divisa entre Rondônia e Mato Grosso. Seu nome não alude à Independência do Brasil, mas sim à data oficial do contato entre o povo Paiter-Suruí e representantes do governo, no ano de 1969. Já o nome do povo junta paiter, que é a forma como eles se referem a si próprios (quer dizer “gente de verdade”, “nós mesmos”), com suruí, denominação que lhes foi dada após o contato. A população dos paiter-suruís era de 1 375 indivíduos em 2014, último ano para o qual há dados da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai).
Estive na aldeia Lapetanha, que é uma das 27 que estão espalhadas pela terra indígena e fica a cerca de 50 km da cidade de Cacoal, em Rondônia. Conversei ali com dois casais que fazem parte do grupo de anciões e tinham lembranças de episódios de coleta de sangue no passado: o casal Mopiry Suruí e Mapidkin Suruí, ambos de 62 anos; e Agamenon Gamasakaka Suruí, de 58 anos, casado com Elza Goopgog Suruí, de 53 – a única dos quatro que nasceu após o contato. Seus depoimentos foram dados em tupi-mondé, língua falada pelos paiter-suruís, com interpretação consecutiva de Luan Mopib Gorten Suruí, que é filho de Agamenon.
A coleta de sangue feita por Black em 1987 não foi a única envolvendo esse povo indígena. Representantes dos paiter-suruís relataram às pesquisadoras Eliane Moreira e Gysele Amanajás ter memória de pelo menos três episódios em que pesquisadores brasileiros e estrangeiros estiveram lá para colher seu sangue. Nas conversas que tive com os casais, eles evocaram uma coleta liderada pelo ecólogo e antropólogo Carlos Coimbra Jr., da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), ligada à Fundação Oswaldo Cruz, feita numa data que não souberam determinar. Suas reminiscências não se referem ao episódio que interessa aqui, mas são representativas dos sentimentos despertados nos indígenas pela coleta de sangue por cientistas.
De acordo com esses relatos, Coimbra Jr. e sua equipe estiveram três vezes na terra indígena, a pretexto de ajudar a identificar e combater malária, tuberculose e outras doenças. Na terceira visita, os cientistas coletaram sangue e fezes de todos os indígenas, conforme o depoimento de Mopiry. Ele ficou impressionado com o volume tirado. “Não foi pouco, não, foi bastante sangue que foi coletado”, afirmou. Em retribuição pelo material recebido, os pesquisadores distribuíram miçangas e vermífugos entre os indígenas. Aquela foi a última vez que os paiter-suruís se lembram de ter ouvido falar do pesquisador. “Depois que coletou o sangue de todos os indígenas da aldeia, ele foi para o Rio de Janeiro e não voltou mais”, disse Mopiry.
Os entrevistados não lembravam detalhes sobre como deram seu consentimento para aquela ou para qualquer outra coleta de sangue. Alguns indígenas estavam com medo, mas foram convencidos a participar, sob o argumento de que era para seu próprio bem. “Os mais velhos falavam que algo de ruim podia acontecer com eles”, disse Mopiry. Agamenon contou que ele próprio não queria ter seu sangue tirado, mas se sentiu obrigado a fazê-lo. “A comunidade entendia e achava que era bom para eles”, afirmou. “Só que não voltou o resultado.”
O sumiço dos cientistas e a falta de resultados daquela coleta foram motivo de queixas que ouvi dos paiter-suruís em relação ao episódio. Agamenon disse que a história doía em sua alma. “Por que nosso sangue foi embora e não voltou nenhum resultado?”, questionou. “Fomos enganados pelos pesquisadores.”
As histórias que os indígenas contam sobre de onde vêm e como chegaram ao território que hoje habitam não costumam interessar aos cientistas ou ser citadas nos artigos acadêmicos sobre o povoamento das Américas. Mas essas narrativas poderiam trazer pistas relevantes para desvendar os processos de ocupação, como defende Paulette Steeves, uma arqueóloga de ascendência Cree e Métis, povos nativos que vivem no Canadá.
No caso dos paiter-suruís, eles sabem que não vieram da região onde vivem hoje. “Temos uma história que diz que viemos de onde nasce o Sol”, contou Mapidkin. Seria, portanto, do Leste. Os paiter-suruís relatam que viviam na região de Cuiabá, mas foram expulsos pelos homens brancos e se dirigiram para Rondônia, como escreveu a antropóloga Betty Mindlin, estudiosa desse povo indígena, no livro Nós Paiter: os Suruí de Rondônia. Ouvi deles também a história de que alguns de seus antepassados chegaram a conhecer o mar (a Terra Indígena Sete de Setembro está a 1,9 mil km do Oceano Atlântico e a 1,2 mil km do Pacífico, com a Cordilheira dos Andes no meio do caminho).
Os primeiros americanos são os paiter-suruís, de acordo com sua mitologia. Eles contam que foram criados por Pálop, que quer dizer “Nosso Pai”. Os humanos tinham sido criados uma primeira vez e devorados pelas onças, que guardaram seus ossos numa maloca, conforme conta a história que ouvi dos paiter-suruís naquela tarde e que está registrada numa coleção de mitos reunidos por Mindlin no livro Vozes da origem: estórias sem escrita, narrativas dos índios Suruí de Rondônia. Pálop recorreu à ajuda de um veado para roubar de volta os ossos humanos das onças. Soprando-os com a fumaça de um cigarro, fez renascerem primeiro os paiter-suruís, em seguida os outros povos indígenas e, por fim, os homens brancos.
“Nós somos os primeiros humanos que foram criados”, disse-me Agamenon Gamasakaka Suruí. “Eu sei que a minha ancestralidade é a primeira do continente.” Em simetria com o desinteresse dos cientistas por suas narrativas, ele próprio não dá muita bola para a explicação dos arqueólogos e geneticistas para o povoamento do continente. “As histórias que meus pais contavam já falam de onde os paiter vêm, qual é sua raça e que cultura têm.”
Mas os paiter-suruís, especialmente os mais jovens, abraçam o olhar da ciência para sua ancestralidade. Txai Suruí, a ativista socioambiental que ficou conhecida após discursar na abertura da Conferência do Clima de Glasgow em 2021, gosta de citar estudos que mostram que os paiter-suruís ocupam a Amazônia há muitos milênios. Seu irmão Oyexiener Suruí ficou curioso ao saber que ele e seus parentes carregam no DNA um sinal que pode reescrever a história dos primeiros americanos. Especulou se a população Y não poderia corresponder a um clã perdido de seu povo. (Os paiter-suruís formam uma sociedade estruturada em clãs; já houve mais de dez clãs no passado, dos quais sobraram apenas quatro após o contato.) Tanto Txai quanto Oyexiener são filhos de Almir Narayamoga Suruí, cacique-geral dos paiter-suruís. Almir é um biólogo e ambientalista interessado por inovação. Sob sua liderança, os paiter-suruís se tornaram o primeiro povo indígena do mundo a vender créditos de carbono.
Outro aspecto da cultura indígena que costuma ser ignorado pelos cientistas que colhem amostras para estudar seu DNA é o significado que cada povo dá ao sangue e à sua coleta. Se o ato de tirar sangue não é problemático para os paiter-suruís, a imortalização das suas células é bem mais complicada. Para eles, é inconcebível que esse material continue disponível depois da morte de seu doador. Isso pode ter acontecido com as amostras colhidas por Francis Black há quase quarenta anos, embora não se possa ter certeza, já que as amostras não trazem o nome dos doadores.
Os paiter-suruís têm regras rígidas a serem observadas quando morre uma pessoa. “Não podemos falar o nome ou pegar objetos dela, senão seu espírito pode se vingar”, disse Agamenon. Houve um tempo em que os pertences de uma pessoa que morria eram queimados, e hoje ainda são enterrados às vezes junto com ela, explicou Mopiry. “Imagina o sangue.” Para ele, a ideia de continuar usando para pesquisa linhagens celulares de um indivíduo morto é “inaceitável”.
Almir Narayamoga Suruí me disse que, caso os paiter-suruís tivessem sido informados que suas células continuariam à disposição dos cientistas, mesmo depois que os doadores tivessem morrido, eles jamais teriam consentido com a coleta. “Os suruí nunca iriam deixar que isso acontecesse”, afirmou. “Os cientistas disseram que iriam analisar com exames as doenças que os suruí tinham, por isso eles deixaram que tirassem o sangue.” O cacique-geral era adolescente em 1987 e não se lembra das coletas conduzidas por Black ou por outros cientistas.
Por todas essas reticências, os paiter-suruís prefeririam que as linhagens celulares disponíveis para pesquisa deixassem de ser usadas pelos cientistas, e que as amostras lhes fossem devolvidas. Mopiry, por sua vez, autorizaria a realização de estudos que esclarecessem a origem dos primeiros americanos. “Eu gostaria de entender de onde vem a ancestralidade dos paiter”, afirmou. “Mas, depois dos resultados, eles poderiam nos devolver os dados.”
Carlos Coimbra Jr., o pesquisador citado no relato dos paiter-suruís, de fato esteve várias vezes na Terra Indígena Sete de Setembro. A primeira delas foi em 1979, quando era estudante de graduação em biologia. Em seu doutorado em antropologia, Coimbra Jr. estudou como a adoção do cultivo de café afetou a saúde e a ecologia dos paiter-suruís. Na Escola Nacional de Saúde Pública, no Rio de Janeiro, criou em 1992 um grupo de pesquisa para investigar a saúde, epidemiologia e antropologia dos povos indígenas. Ele está aposentado, mas o grupo segue em atividade.
Desde 1990, Coimbra Jr. e outros integrantes do grupo fizeram “inúmeras viagens de campo” à Terra Indígena Sete de Setembro, de acordo com o relato de Ricardo Ventura Santos, cuja trajetória é parecida com a de seu colega e colaborador: formou-se em biologia na Universidade de Brasília e fez doutorado no fim dos anos 1980 na Universidade de Indiana, em Bloomington, nos Estados Unidos, trabalhando com os paiter-suruís e outros povos indígenas. Santos também é pesquisador da ENSP e do Museu Nacional.
Numa entrevista por e-mail, Santos disse que um estudo conduzido pelo grupo no começo dos anos 1990 permitiu identificar os casos de uma doença que estava acometendo os paiter-suruís, a paracoccidioidomicose. Como ela é pouco conhecida pelos agentes de saúde, seus casos estavam sendo diagnosticados como tuberculose. O diagnóstico da doença é feito com exame de sangue e por isso os pesquisadores coletaram amostras dos paiter-suruís. Os casos mais graves foram levados para o Rio de Janeiro, onde foram acolhidos por Coimbra Jr. e tratados num hospital da Fiocruz. O estudo “salvou vidas indígenas”, escreveu Santos.
O antropólogo afirmou que Coimbra Jr. cultivou laços de amizade e afeto com os paiter-suruís, com quem continua a interagir até hoje, e que é visto como amigo e aliado por lideranças desse povo. Deu a entender que a menção a Coimbra Jr. nas recordações dos paiter-suruís poderia ser fruto de um engano. “Não se pode descartar que pode haver, por parte dos sujeitos de pesquisa (indígenas ou não indígenas), compreensões que ‘misturam’ fatos históricos”, escreveu.
De acordo com Santos, o estudo de 1990 foi o último do grupo em que houve coleta de sangue dos paiter-suruís para exames epidemiológicos. O pesquisador não esclareceu, porém, como foi dado o consentimento, quantos indivíduos tiveram o sangue coletado e que fim tiveram as amostras após a realização dos testes.
Em julho de 1996, Santos e Coimbra Jr. denunciaram que amostras de DNA dos paiter-suruís e dos karitianas estavam à venda na internet. Participando de um congresso de bioantropologia nos Estados Unidos, os dois visitaram o estande do Coriell Cell Repositories, do Instituto Coriell de Pesquisa Médica, uma instituição científica americana sem fins lucrativos. O Coriell abriga uma coleção de milhares de amostras de DNA e linhagens celulares humanas e é patrocinado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, entre outros, com o objetivo de embasar o estudo de doenças genéticas e das variações entre as populações. Em 1996, era possível encomendar em seu site, por 85 dólares (cerca de 810 reais em valores atualizados), linhagens de células sanguíneas em cultura de origem paiter-suruí ou karitiana (se o interessado preferisse levar apenas sequências de DNA, sairia por até 55 dólares, ou cerca de 525 reais).
As amostras vinham da mesma coleta de 1987 que deu origem às linhagens do Projeto da Diversidade do Genoma Humano. No começo dos anos 1990, o geneticista Kenneth Kidd, de Yale, forneceu para a coleção abrigada pelo Coriell cinco linhagens celulares dos karitianas e outras cinco dos paiter-suruís, ampliando ainda mais o acesso dos cientistas ao DNA dos povos indígenas brasileiros. A partir dali, o Coriell passou a distribuir o material a pesquisadores interessados mediante o pagamento de uma taxa.
Santos e Coimbra revelaram a prática em 1996, no Boletim do Instituto Socioambiental, e a denúncia logo virou notícia no Jornal do Brasil e em vários outros veículos. A repercussão do caso ajudou a catalisar a criação de duas comissões parlamentares que investigaram essa denúncia e outros casos de exploração ilegal de plantas e material genético na Amazônia, caracterizados como exemplos de biopirataria.
O Coriell se manifestou em uma dessas comissões, depois de procurado pela Embaixada do Brasil em Washington. Alegou que as amostras estavam destinadas exclusivamente para pesquisa científica sem finalidade comercial e que não estavam à venda; o valor cobrado por elas cobria apenas os custos de manutenção, a embalagem e o envio do material. Afirmou ainda que suas coleções de DNA só tinham amostras colhidas obedecendo às normas do país de origem e que todas elas requeriam o consentimento informado dos doadores.
As coletas de sangue feitas no passado, trazidas à tona pela denúncia de venda de DNA indígena, deixaram lembranças traumáticas entre os karitianas, conforme registrou o antropólogo Felipe Ferreira Vander Velden. Em seu mestrado, defendido em 2004 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Velden investigou a interpretação dos karitianas para os episódios de coleta de sangue, após passar três meses na terra indígena conduzindo entrevistas sobre o caso. As lembranças da vinda de Francis Black são difusas, mas eles têm recordações mais nítidas de uma coleta feita em 1996 pelo médico e bioantropólogo Hilton Pereira da Silva – e que reverberam em vários aspectos os relatos que ouvi dos paiter-suruís. Os karitianas também se sentiram enganados e se frustraram com o sumiço dos cientistas após a coleta de sangue.
Silva foi à terra indígena acompanhando uma equipe de cinegrafistas britânicos. Tinham autorização da Funai para fazer um documentário, mas não para tirar sangue dos indígenas. Ele conta que, quando os karitianas souberam que ele era médico, lhe pediram ajuda, já que há mais de seis meses não recebiam qualquer assistência. Diante da precariedade do estado de saúde dos indígenas, decidiu tirar sangue de dezenas deles e levar para Belém para diagnosticar doenças num laboratório (nunca chegou a fazer os exames, porque as amostras não foram armazenadas em condições adequadas). Entendeu que, por se tratar de um atendimento médico emergencial, não precisava pedir autorização. Os karitianas não ouviram mais falar do pesquisador ou do seu sangue.
Esse episódio aconteceu pouco antes da denúncia de que o Coriell estava comercializando sangue de povos indígenas brasileiros. Com a repercussão do caso, o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública na Justiça contra Silva em nome dos karitianas. O pesquisador não tinha a ver com o sangue que estava à venda na internet, mas a Justiça entendeu que ele precisava de autorização para fazer a coleta, e condenou-o a pagar 50 mil reais de indenização aos indígenas – a sentença definitiva foi dada em 2022 pelo Superior Tribunal de Justiça, e não cabe mais recurso.
As coletas de sangue feitas por Black, morto em 2007, não deixaram registros conhecidos nas instituições do governo brasileiro. Numa reportagem de 2007 do jornal The New York Times sobre o caso dos karitianas, um representante da Funai disse que não havia na fundação registro de qualquer pedido de permissão para a realização da pesquisa e para a coleta de amostras. Em sua pesquisa, Velden também buscou documentos relativos a esse episódio, sem sucesso.
Isso não quer dizer que a coleta tenha sido feita de forma ilegal – pode ser que os documentos em questão tenham se perdido. Black e sua equipe dificilmente visitariam as terras indígenas brasileiras para a coleta de sangue sem o conhecimento das autoridades. O consentimento informado provavelmente foi obtido oralmente, na forma de uma autorização coletiva dada pelo cacique ou por alguma outra liderança.
Hoje cientistas interessados em coletar material biológico dos povos indígenas brasileiros precisam cumprir uma série de formalidades, graças a um marco legal estabelecido a partir de 1996, após a denúncia da venda do DNA paiter-suruí e karitiana. A constituição de bancos de DNA e linhagens celulares de origem indígena está condicionada à “expressa concordância da comunidade envolvida”, conforme uma resolução de 2000, que regulamenta as pesquisas com povos indígenas, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Mas a norma nada diz sobre as linhagens formadas com amostras colhidas antes da existência da resolução, como é o caso daquelas mantidas no laboratório de Kidd, no PDGH e no Instituto Coriell.
Os yanomamis abriram um precedente para a repatriação de material biológico coletado de forma questionável. Em 2015, eles conseguiram negociar o retorno de amostras de sangue que tinham sido coletadas nos anos 1960 e estavam armazenadas em instituições de pesquisa americanas. As amostras tinham sido colhidas por uma equipe liderada por dois cientistas americanos, o geneticista James Neel e o antropólogo Napoleon Chagnon. Relatos da imprensa falavam em até 12 mil amostras armazenadas na Universidade Estadual da Pensilvânia, nas universidades de Michigan e Emory, além do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland, ligado aos NIH.
Com o sangue coletado, os cientistas pretendiam investigar se haveria uma base genética para o comportamento violento dos yanomamis. Em seus estudos, Chagnon caracterizou esses indígenas pelo viés da violência e estigmatizou-os como um “povo feroz” – expressão que usou no título de um livro que escreveu sobre os yanomamis que não foi lançado no Brasil (Yanomamö: the fierce people), um best-seller antropológico que esteve na origem de uma das mais acirradas controvérsias da antropologia nos Estados Unidos.
Os argumentos e métodos de Chagnon foram criticados no livro Trevas no Eldorado: como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia, lançado pelo jornalista Patrick Tierney em 2000. Tierney alegou que Chagnon e Neel tinham testado uma vacina sem consentimento e espalhado uma epidemia de sarampo entre os yanomamis, dentre outras acusações graves de má conduta científica. A maior parte das acusações acabou se mostrando exagerada ou infundada, mas outras investigações revelaram uma série de práticas antiéticas e condenáveis.
O livro teve um efeito colateral não planejado: foi por meio dele que os yanomamis souberam que havia sangue de seus parentes guardado em outro hemisfério, e decidiram reivindicá-lo de volta, por meio do Ministério Público Federal. Os trâmites burocráticos se arrastaram por mais de uma década, e só em 2015 os yanomamis recuperaram mais de 3 mil amostras de sangue que estavam em duas instituições diferentes.
Assim como era o caso com os paiter-suruís e os karitianas, também para os yanomamis a existência de sangue insepulto de pessoas mortas estocado em algum laboratório é um fato perturbador e representa uma violação grave de princípios cosmológicos. “Para que um yanomami possa morrer, é preciso que todas as partes que compõem a pessoa sejam destruídas”, escreveu a antropóloga Hanna Limulja na revista Sumaúma. O escritor Davi Kopenawa explicou a aflição do seu povo numa carta que mandou ao Ministério Público cobrando a devolução do sangue de seus parentes armazenados nas geladeiras americanas: “Nosso costume é chorar os mortos, queimar corpos e destruir tudo que usaram e plantaram. Não pode sobrar nada, senão o povo fica com raiva e o pensamento não fica tranquilo.”
Kopenawa foi ele próprio um dos yanomamis que tiveram o sangue coletado pelos americanos quando tinha cerca de 10 anos, muito antes de se tornar uma das mais importantes lideranças de seu povo. Após articular a devolução do sangue, Kopenawa participou do ritual de sepultamento das amostras devolvidas quase meio século após a coleta, em 2015.
No caso dos yanomamis, foi possível chegar às amostras originais com o material colhido nos anos 1960. Já para os paiter-suruís e para os karitianas, o que existe são linhagens celulares imortalizadas a partir das amostras. Não são mais as mesmas células coletadas nos anos 1980, o que não impede que tenham um significado cultural importante para os indígenas.
Para o sociólogo da ciência Mark Munsterhjelm, da Universidade de Windsor, no Canadá, o uso das linhagens celulares imortalizadas é uma forma de objetificação dos povos indígenas. As linhagens imortais podem ser trocadas ou vendidas, como commodities, conforme notou Munsterhjelm, que estudou o caso dos karitianas. Para ele, o uso continuado dessas amostras para pesquisa é um caso de “violência ontológica e epistemológica” por parte dos cientistas.
Reconstituir a chegada dos humanos às Américas é contar a história dos ancestrais dos povos indígenas contemporâneos. Apesar disso, os povos originários costumam ser deixados à margem desse debate, do qual têm participado principalmente como fornecedores de material biológico para estudo dos cientistas, que não se interessam por ouvir sua perspectiva sobre a própria origem.
Se quisermos contar a história da ocupação das Américas de forma a incluir a perspectiva dos povos indígenas, é fundamental romper com práticas de pesquisa que os objetificam e começar a considerar seus interesses na forma como as pesquisas são concebidas e executadas.
Um número cada vez maior de estudiosos tem questionado a forma como essa história vem sendo contada e reivindica o protagonismo indígena na investigação da origem de seus antepassados, como uma forma de descolonizar a arqueologia e as outras disciplinas envolvidas no estudo da ocupação das Américas. É o caso de Paulette Steeves, pesquisadora da Universidade Algoma, no Canadá, e autora do primeiro livro dedicado à questão, escrito a partir da perspectiva dos povos originários, The indigenous Paleolithic of the Western Hemisphere (O Paleolítico indígena do Hemisfério Ocidental).
Para Steeves, a arqueologia foi marcada pelo apagamento das narrativas indígenas sobre o próprio passado. Uma manifestação desse silenciamento é a rejeição das ocupações mais antigas das Américas, que negam a possibilidade de uma história indígena profunda no continente. “Não se trata apenas de uma disputa sobre sítios arqueológicos, mas de uma batalha pelos vínculos dos indígenas com um passado antigo numa terra colonizada”, escreveu Steeves em 2015.
Almir Narayamoga Suruí me disse que, quando a venda do sangue de seu povo pela internet veio à tona, por ocasião da Comissão da Biopirataria na Amazônia instituída na Câmara dos Deputados em 1997, ele acionou o Ministério Público Federal a fim de solicitar a devolução do material. No entanto, a iniciativa não deu em nada e ele não teve mais notícia dos desdobramentos do caso. Quando soube, em 2023, que o material continuava à disposição dos cientistas, ele disse que gostaria de solicitar ajuda para recuperar as amostras tanto ao MPF quanto ao recém-criado Ministério dos Povos Indígenas.
Tanto os paiter-suruís quanto os karitianas já manifestaram sua contrariedade com essa situação em mais de uma circunstância. “Na comunidade científica se sabe – ou se está negando saber – que esses povos indígenas não querem que suas células imortalizadas continuem a ser usadas para pesquisas”, disse-me a historiadora da ciência americana Rosanna Dent, que é professora da Universidade Rutgers e investiga os estudos genéticos feitos com povos indígenas brasileiros.
Dent ressaltou que as ferramentas disponíveis para os biólogos naquela época eram muito diferentes das análises de DNA contemporâneas. “Você pode ter tido o consentimento informado das populações estudadas, mas não havia tecnologia para fazer o que eles estão fazendo agora”, afirmou. Para ela, a atitude mais ética a se tomar seria voltar a consultar as comunidades sobre o material. “É preciso fazer um processo de atualização do consentimento informado para uso daquelas amostras.”
As linhagens celulares imortalizadas derivadas do sangue dos paiter-suruís e dos karitianas que foram estabelecidas no laboratório de Kenneth Kidd ainda estão na Universidade Yale. “Até onde eu saiba, elas continuam armazenadas, mas não estão mais sendo usadas”, disse-me o geneticista numa entrevista em julho de 2023, quando ele estava com 81 anos. Kidd não soube informar, porém, o paradeiro atual das amostras ou quem é o responsável por elas. Ele disse que não sabia, até aquela entrevista, que os indígenas brasileiros estavam contrariados com o fato de que células de parentes seus continuavam guardadas num laboratório americano. O geneticista afirmou ainda que o consentimento informado indicava que as amostras seriam replicadas – uma alegação que carece de confirmação documental. “Não creio que tenhamos usado o termo ‘linhagem celular’, porque o termo não teria significado na língua deles, mas tudo isso estava no consentimento informado e os povos originários envolvidos não fizeram qualquer objeção”, afirmou Kidd. “Nenhum mal foi feito a esses povos e nunca houve dinheiro envolvido no uso das linhagens”, acrescentou.
O material gerado no laboratório de Kidd segue à disposição de pesquisadores do mundo todo no PDGH. Numa entrevista concedida por e-mail, a bióloga Hélène Blanché-Koch, responsável pela gestão do banco de linhagens celulares do PDGH, em Paris, disse compreender que os paiter-suruís e os karitianas estejam contrariados com a existência das linhagens celulares de seus parentes. “Como não temos informações que permitam estabelecer um vínculo entre uma pessoa e uma linhagem celular estabelecida, não podemos dar seguimento a demandas individuais de retirada do consentimento”, escreveu Blanché-Koch. “No entanto, poderíamos destruir as linhagens celulares se recebermos um pedido oficial do governo brasileiro ou de um representante oficial dessas populações.”
Até o fim de março de 2023, uma página do site do Instituto Coriell de Pesquisa Médica oferecia um conjunto com amostras genéticas de 24 indivíduos de doze populações diferentes, incluindo os dois povos indígenas de Rondônia, mediante uma taxa de 129 dólares (cerca de 610 reais) para propósitos acadêmicos ou de 217 dólares (cerca de 1 mil reais) para fins comerciais. Falando em nome do Coriell, a diretora de relações públicas do instituto escreveu que as amostras dos paiter-suruís e dos karitianas foram tiradas de seu catálogo “quando surgiram preocupações”. Segundo ela, isso teria acontecido só em 2015. No entanto, a denúncia de que o material biológico dos indígenas brasileiros estava à venda foi feita nos anos 1990. O Coriell estava ciente das “preocupações” desde essa época, tanto que enviou um representante para depor na comissão parlamentar que investigou a denúncia. Questionada sobre a página do site que oferecia em 2023 DNA dos dois povos de Rondônia, inclusive para fins comerciais, algo que o Coriell sempre negou, a diretora de relações públicas afirmou que a página tinha ficado no ar por engano e que a partir dessa página não teria sido possível encomendar as amostras, já que elas não estavam mais no catálogo desde 2015.
A existência da população Y foi revelada num artigo publicado em julho de 2015 na revista Nature. Sua assinatura genética foi descoberta após a análise de trechos do genoma de 63 indivíduos de 21 povos indígenas americanos. Ele apareceu apenas nas amostras dos paiter-suruís, dos karitianas e dos xavantes, e corresponde a uma pequena fração de seu genoma, de até 3%. Ainda assim, era o suficiente para colocar em xeque os modelos que explicavam o povoamento do continente. Até então, os estudos genéticos apontavam que os indígenas americanos contemporâneos eram todos descendentes de uma única população vinda da Sibéria.
O estudo de 2015 mostrou que os três povos brasileiros tinham em seu genoma sequências que, hoje, só aparecem no DNA de populações nativas da Austrália e da Nova Guiné, na Oceania, e das Ilhas Andaman, no Sudeste Asiático. Isso não significa que a população Y tenha vindo da Oceania atravessando o Pacífico. O mais provável é que se trate de um grupo que viveu na Ásia e que deu origem tanto a povos que seguiram para a Oceania quanto a outros que viriam a ocupar as Américas a partir da Sibéria. A identidade exata dessa população ainda é um mistério para os geneticistas, mas a descoberta deixou claro que a ancestralidade dos indígenas americanos não podia ser explicada por uma única população fundadora.
O estudo foi liderado pelo geneticista David Reich, da Universidade Harvard, e teve como coautores pesquisadores da USP, da UFRGS e da UFPR. Num primeiro momento, Reich encontrou o sinal genético misterioso nas amostras de DNA dos paiter-suruís e dos karitianas disponíveis na coleção do Projeto da Diversidade do Genoma Humano, que tinham sido derivadas do sangue coletado por Francis Black em 1987. O geneticista foi então atrás dos colaboradores brasileiros em busca de ampliar a quantidade de amostras testadas para confirmar o resultado contraintuitivo e tentar entender sua origem.
Quando Reich procurou Maria Cátira Bortolini, a geneticista gaúcha sugeriu que fossem investigados também povos indígenas que falam idiomas pertencentes a outro tronco linguístico – afinal, tanto os paiter-suruís quanto os karitianas falam línguas do tronco tupi, o que pode ser um indicativo de parentesco genético. “Se aquele fosse um sinal antigo, provavelmente não estaria restrito ao tronco tupi”, ela pensou.
Bortolini teve a ideia de buscar o sinal na coleção de amostras biológicas que o geneticista gaúcho Francisco Salzano coletou ao longo de sua carreira, entre as décadas de 1950 e 1990. Armazenada na UFRGS, onde Salzano trabalhava, a coleção tem amostras de sangue, saliva e outros materiais colhidos junto a cerca de 120 comunidades espalhadas pelo território brasileiro. “Trata-se de um banco histórico com um valor inestimável, que abrange muitas populações que não existem mais”, disse a geneticista da USP Tábita Hünemeier, que também foi coautora do estudo.
Salzano consentiu em participar do estudo e ceder material da sua coleção para análise. Bortolini selecionou as amostras e Hünemeier – que fazia então pós-doutorado na UFGRS – cuidou de prepará-las para que fossem analisadas no laboratório de Reich em Harvard. O estudo analisou o material genético de 48 indivíduos pertencentes a nove povos indígenas, obtido a partir da coleção de Salzano: os araras e os aparais, do Pará; os guaranis e os guaranis-kaiowás, de Mato Grosso do Sul; os zorós, os karitianas e os paiter-suruís, de Rondônia; os ka’apores, do Maranhão; e os xavantes, de Mato Grosso.
A análise confirmou a presença do sinal Y no genoma dos karitianas e paiter-suruís, agora testados com amostras diferentes. A surpresa é que ele foi identificado também de forma nítida no DNA dos xavantes, que vivem num bioma diferente – o Cerrado – e, além disso, falam um idioma do tronco macro-jê.
Há pouco mais de 22 mil xavantes no Brasil, de acordo com dados de 2020 do Instituto Socioambiental. Eles estão espalhados por nove terras indígenas demarcadas a partir dos anos 1970. Vivem na região da Serra do Roncador, no Leste de Mato Grosso, uma área muito afetada desde os anos 1980 pelo avanço da fronteira da soja. Seu expoente mais conhecido é Mário Juruna, o primeiro indígena do Brasil a ser eleito deputado federal, em 1982.
Na primeira metade do século XX, os xavantes eram retratados na imprensa como um povo agressivo e refratário a tentativas de contato. A reputação foi alimentada por episódios em que eles mataram missionários salesianos e funcionários do Serviço de Proteção aos Índios – órgão do governo federal substituído pela Funai no fim dos anos 1960 – que haviam tentado fazer contato. Em 1946, no entanto, um grupo de xavantes decidiu estabelecer relações diplomáticas com representantes do governo, o que foi noticiado por jornais e revistas como um êxito na tentativa de “pacificar” os povos indígenas, no âmbito da Marcha para o Oeste, criada pelo Estado Novo.
Em 1962, dezesseis anos após o contato, o geneticista Francisco Salzano foi à Terra Indígena Wedezé com a equipe liderada por seu colega americano James Neel, professor da Universidade de Michigan. Os dois cientistas vinham conduzindo estudos genéticos com povos indígenas do Brasil, que constituíram a base de uma metodologia para estudos genéticos humanos elaborada pela Organização Mundial da Saúde, com a qual Neel vinha trabalhando desde 1959.
A Terra Indígena Wedezé ocupa uma área de 146 mil hectares no município de Cocalinho, no Leste de Mato Grosso, não muito distante do Rio Araguaia, que marca a fronteira com Goiás. Neel afirmou ter escolhido essa terra indígena por seu caráter intocado, mas a facilidade de acesso foi um fator determinante – ela ficava na ponta de uma pista de pouso, conforme apontou a americana Rosanna Dent em sua tese de doutorado em história e sociologia da ciência na Universidade da Pensilvânia.
Dent conta que, no dia em que chegaram à terra indígena, os cientistas foram encontrar o cacique Apöwẽ e o resto da comunidade, para lhes apresentar o estudo que pretendiam fazer e oferecer presentes. Explicaram o propósito de suas pesquisas ao conselho de homens daquela aldeia, que consentiu com o projeto. O voluntário número 1 foi Apöwẽ, um líder carismático de extensa prole cujos genes despertavam particular interesse dos cientistas.
Ao longo de uma temporada de dez dias entre os xavantes, os pesquisadores colheram sangue e saliva dos indígenas, fizeram exames físicos e tiraram medidas antropométricas, além de conduzir entrevistas para reconstituir a genealogia e a história demográfica daquele povo. Depois dos xavantes, Salzano foi estudar os kayapós e os terenas. Junto com Neel, o gaúcho visitaria nas décadas seguintes dezenas de comunidades indígenas na Amazônia.
O artigo de 2015 que relatou a descoberta do sinal Y em amostras colhidas por Salzano informa que o material foi coletado com aprovação da Conep, por meio da Resolução nº 123/98. A resolução em questão não está disponível em seu site (a um pedido feito via Lei de Acesso à Informação, a comissão respondeu que não possui o documento solicitado). Bortolini disse numa entrevista que essa resolução é um parecer elaborado em termos genéricos que autoriza a realização de “estudos em nível de DNA” e “antropológicos” do material coletado, e que o documento não menciona os povos que participaram da coleta. (A pesquisadora se recusou a me enviar uma cópia da resolução, seguindo orientação de advogados.)
Nas coletas feitas por Salzano, teria havido consentimento por parte dos grupos envolvidos, ainda que fosse manifestado de forma oral. Mas, assim como aconteceu com as amostras colhidas por Black, também no caso do material coletado pelo geneticista gaúcho, não se sabe quais foram os termos desse consentimento, e nem se ele autoriza as análises genômicas que hoje são feitas com esse material e que não existiam no século passado. Da mesma forma, não se sabe se Salzano levou em conta as preocupações como a dos paiter-suruís e dos yanomamis, para quem os remanescentes de seus parentes devem ser destruídos depois que eles morrem.
Também nesse caso, Dent defende que os povos indígenas sejam novamente consultados pelos cientistas, caso estes queiram continuar usando as amostras em suas pesquisas. “Salzano sempre teve aprovação formal para seus estudos e fez tudo de forma legal”, disse. “Mas sabemos que o que foi legal naquele momento talvez não seja ético dentro do nosso sistema agora, e talvez nunca tenha sido ético no sistema dos povos indígenas.” Dent considera problemático o uso em pesquisas atuais das amostras coletadas décadas atrás, por mais que tenham interesse histórico. “O valor histórico só pode ser realizado de maneira ética, levando em conta o presente e o futuro daqueles povos.”
Depois que Salzano morreu, em 2018, a UFRGS submeteu à Conep um projeto que transforma o acervo coletado pelo gaúcho num biobanco formalmente constituído e aguarda sua aprovação. Enquanto não sai uma definição institucional sobre o status das amostras, seu uso em pesquisas científicas deve ficar suspenso, conforme me disse Bortolini, que atua como guardiã informal da coleção enquanto ela não tem seu status institucional regularizado. Apesar disso, as amostras foram usadas num estudo de 2021 no qual o sinal Y foi encontrado em vários povos indígenas sul-americanos.
Um mistério que os cientistas ainda não sabem explicar é a ausência do sinal Y na América do Norte. Mas um fator pode ter contribuído para isso. Há muito poucas amostras disponíveis de DNA indígena de povos da América do Norte. Isso porque eles são extremamente resistentes a ceder material biológico para estudos científicos. Nenhum povo indígena dos Estados Unidos ou do Canadá, por exemplo, contribuiu com o Projeto da Diversidade do Genoma Humano. Essa desconfiança foi motivada pela conduta inescrupulosa de alguns cientistas, graças a episódios como o que aconteceu com os havasupais, que vivem junto ao Grand Canyon, no sudoeste dos Estados Unidos.
Em 2010, a Justiça americana determinou que os havasupais recebessem uma compensação financeira pelo uso indevido de amostras de sangue de 151 indivíduos. O material tinha sido coletado em 1989 por cientistas da Universidade Estadual do Arizona que pretendiam investigar se havia uma explicação genética para a alta prevalência de diabete entre aquele povo. Os cientistas não encontraram uma resposta satisfatória para a pergunta, mas acharam por bem ceder as amostras para colegas que investigavam outras questões não contempladas na autorização original de uso do material biológico.
Carletta Tilousi, integrante dos havasupais, ficou sabendo disso quando assistiu à defesa de uma tese de doutorado que tinha investigado o genoma de seu povo. Ela se chocou ao ver o pesquisador falar de como o DNA dos parentes dela trazia rastros da sua migração desde a Ásia – uma alegação que contrariava a história de origem dos havasupais, segundo a qual eles foram criados no Grand Canyon. “Como esse cara ousa contestar a nossa identidade usando o nosso próprio sangue, o nosso DNA?”, questionou Tilousi em entrevista ao Phoenix New Times em 2004.
Como não tinham dado autorização para aquela pesquisa, os havasupais levaram o caso à Justiça – e ganharam. O órgão responsável pela gestão da universidade foi obrigado a pagar uma indenização de 700 mil dólares (cerca de 4,8 milhões de reais no câmbio atual) aos indígenas e a lhes devolver as amostras de material coletado, que foram recebidas numa cerimônia ritual.
O caso alimentou a desconfiança que os cientistas despertavam nos indígenas dos Estados Unidos. A beligerância que se criou de parte a parte foi parar na Justiça em outra batalha judicial que opôs os povos indígenas aos cientistas. O caso envolveu um esqueleto com cerca de 8,5 mil anos encontrado em 1996 às margens do Rio Colúmbia, na cidade de Kennewick, no noroeste dos Estados Unidos. O indivíduo ficou conhecido na imprensa como o “Homem de Kennewick”, mas os umatillas – que vivem no Oregon e alegavam que aquele homem era seu ancestral – chamaram-no de Oid-p’ma Natitayt, ou “O Ancião”.
Os povos nativos reivindicaram os remanescentes do Ancião para que pudessem sepultá-lo novamente. Estavam amparados numa lei promulgada em 1990 que ficou conhecida pela sigla em inglês Nagpra (Native American Graves Protection and Repatriation Act, ou Lei de proteção e repatriação de túmulos indígenas americanos). Essa lei obrigou museus, universidades e outras instituições federais a consultar os povos originários sobre os artefatos e remanescentes humanos mantidos em suas coleções – e a devolver esse material caso os indígenas assim o desejassem.
Mas um grupo de cientistas tentou impedi-los na Justiça, alegando que o crânio tinha traços que não indicavam parentesco com os indígenas atuais. Um juiz deu ganho de causa aos pesquisadores, proibiu o sepultamento e autorizou-os a estudar o material, à revelia dos indígenas. Embora não tenham conseguido extrair o DNA da amostra naquele momento, os cientistas publicaram um volume de 670 páginas com os resultados da análise do esqueleto.
Anos depois, o grupo do geneticista dinamarquês Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, foi autorizado a tentar novamente retirar material genético daquele esqueleto – e dessa vez conseguiu, graças aos avanços nas técnicas de recuperação do DNA antigo. Os resultados, publicados em 2015, deram razão aos povos originários: embora a morfologia craniana sugerisse o contrário, o Ancião é, sim, aparentado com os indígenas contemporâneos afinal. E ele de fato é um ancestral das Tribos Confederadas da Reserva Colville, um dos cinco grupos indígenas que reivindicavam o esqueleto do Ancião – e o único que consentiu em ceder amostras de saliva para o sequenciamento do seu genoma pela equipe de Willerslev. Com base nos resultados, os grupos que afirmavam ser descendentes do Ancião ganharam o direito de reaver e sepultar seus remanescentes, o que só aconteceu mais de vinte anos após a descoberta do esqueleto.
O episódio é sintomático da profunda desconfiança dos povos indígenas americanos em relação aos pesquisadores. “A ciência não tem sido boa para nós”, declarou James Boyd, líder das Tribos Colville, ao New York Times em 2015.
Já no Brasil, não se vê a mesma beligerância entre indígenas e cientistas, por mais que as coletas de sangue do passado tenham provocado trauma e rancor em povos como os yanomamis, os paiter-suruís e os karitianas. Uma hipótese que poderia explicar isso é o fato de que os indígenas brasileiros precisam lutar por direitos básicos que seus pares dos Estados Unidos já conquistaram. As pautas urgentes são a demarcação de terras ou a expulsão de grileiros e do garimpo ilegal. “O controle do passado é uma baixa prioridade nesse momento para os indígenas brasileiros”, avalia o bioantropólogo Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio.
Outro fator a se levar em conta é que, no Brasil, houve um alinhamento entre indígenas e pesquisadores sem paralelo na América do Norte. Muitas vezes, estudos feitos por antropólogos fundamentaram pedidos para a demarcação de terras indígenas, que começou a ser feita durante a ditadura militar. “Pesquisadores como Manuela Carneiro da Cunha ou Eduardo Viveiros de Castro nunca abriram mão de ter uma produção científica de alto nível e ao mesmo tempo exercer uma militância política muito forte”, disse-me numa entrevista o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da USP. “Por muito tempo os pesquisadores foram porta-vozes dos indígenas, mas não são mais, pois os próprios indígenas estão tomando esse lugar. É importante que tenham sido, porque isso criou uma aliança.”
O caso do Ancião foi um marco importante para a arqueologia das Américas, ao sinalizar que as pesquisas com remanescentes humanos não podem mais ser feitas de forma divorciada dos interesses dos povos indígenas, como foi o caso por muito tempo. Para Eske Willerslev, a ficha caiu em 2011, quando sua equipe publicou na Science o sequenciamento do genoma de um aborígene australiano. O DNA foi extraído de um tufo de cabelo do começo do século XX que era parte do acervo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. A análise concluiu que os aborígenes atuais são descendentes dos primeiros grupos que ocuparam a Austrália, e que essa é uma das populações contínuas mais antigas que existem fora da África.
A descoberta era muito relevante para entender a história da dispersão do Homo sapiens pelo planeta. Mas teria sido feita de forma ética? O primeiro autor do estudo, o geneticista dinamarquês Morten Rasmussen, da Universidade de Copenhague, alegou que era um erro não ter pedido aos aborígenes contemporâneos autorização antes de estudar a amostra e ameaçou abandonar o estudo. Após ouvir o colega, Willerslev foi à Austrália consultar-se com o conselho que representa os aborígenes da região de onde vinha o tufo de cabelo e pedir a eles a permissão para publicar seus resultados.
O episódio mudou de vez o entendimento de Willerslev sobre o que pode ou não ser pesquisado. “Meu ponto de vista era que a história humana pertence a todos nós, porque estamos todos conectados, e que nenhum povo tem o direito de interromper nosso entendimento da história humana”, disse o dinamarquês ao New York Times em 2016. Mas as histórias de violência colonialista que Willerslev ouviu dos aborígenes o convenceram de que seria legítimo abrir mão de estudar a amostra se esse fosse o desejo daquele povo. “Algo que é correto do ponto de vista legal não é necessariamente correto do ponto de vista ético”, afirmou.
Se as amostras coletadas por Salzano e Black tivessem sido devolvidas a seus donos, provavelmente não conheceríamos a população Y. Mas o conhecimento científico justifica que sejam atropelados os interesses de um povo? Para Willerslev, a resposta ficou clara depois que ele começou a visitar as comunidades cujo genoma estava estudando. “Ou você faz [o estudo] com a concordância deles, ou não faz”, disse o geneticista em 2020 ao podcast Tides of history (Marés da história).
A postura de Willerslev marca uma ruptura em relação a gerações anteriores de geneticistas, que agiam como se o avanço da ciência justificasse passar por cima dos interesses das populações envolvidas. Num texto de 2003, Salzano manifestou a preocupação de que as demandas burocráticas dos comitês normativos acabassem por dificultar ou mesmo inviabilizar as pesquisas genéticas dos povos indígenas. “Todo um novo conjunto de possibilidades está se abrindo para a ciência, mas seria uma pena se elas não pudessem ser testadas usando as amostras biológicas atuais”, escreveu o geneticista.
Em 2010, geneticistas liderados pelo mineiro Fabrício Rodrigues dos Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), voltaram a visitar os xavantes para coletar material biológico, só que em condições diferentes das expedições científicas do século passado às terras indígenas. Santos foi o coordenador na América do Sul do Projeto Genográfico, uma iniciativa promovida pela National Geographic Society, pela IBM e pela Fundação Waitt com a finalidade de investigar as origens da humanidade a partir do exame do DNA de populações do mundo inteiro.
As coletas dos xavantes para o Projeto Genográfico aconteceram na Terra Indígena Pimentel Barbosa, também em Mato Grosso. Antes que fossem iniciadas, Santos e seus colegas encontraram lideranças de várias esferas para explicar a finalidade do projeto e obter o consentimento informado – que, dessa vez, foi dado individualmente e por escrito. “Fomos aos xavantes quatro vezes até fazer a primeira amostragem”, disse-me Santos. “Teve muita conversa antes.” Os cientistas se comprometeram a usar o material apenas em pesquisas históricas e genealógicas, abrindo mão expressamente de fazer qualquer estudo biomédico com o DNA indígena.
Não foi colhido sangue nesse projeto: o DNA era extraído de células do interior da bochecha, por meio de um raspador de papel. No Brasil, Santos e seu grupo tiraram amostras de 110 indivíduos de mais de vinte povos indígenas. Tinham autorização do Conep para sequenciar apenas o cromossomo Y e o DNA mitocondrial. Mas o grupo coletou amostras de povos indígenas de outros países sul-americanos, e nesse caso pôde sequenciar o genoma completo dos participantes. O Projeto Genográfico foi formalmente encerrado em 2019 e deu origem a muitos artigos científicos, mas ainda há dados por serem publicados.
Outro diferencial desse projeto em relação às coletas do século XX foi o retorno dos pesquisadores às terras indígenas para apresentar e discutir os resultados – ou “fazer a devolutiva”, conforme o jargão dos cientistas. Num encontro com um povo do Peru, o grupo chegou a um argumento que Santos gosta de repetir nas conversas com os povos indígenas para justificar a importância dos estudos de ancestralidade: “Muito da história indígena foi apagada, mas a história que está no DNA não tem como apagar.”
No caso do estudo que descobriu a população Y, porém, os resultados não foram compartilhados com os indígenas. Tábita Hünemeier, uma das autoras da pesquisa, alega que, nesse caso, não houve devolutiva porque ela não havia sido prevista no ato da coleta, feita várias décadas antes. Como os cientistas tampouco tomaram a iniciativa de comunicar aquele achado aos donos das amostras, os indígenas brasileiros seguem alheios ao seu papel na história do povoamento do continente.
Santos não está totalmente correto ao dizer que a história contada pelo DNA não pode ser apagada. O DNA não conta toda a história dos indígenas nas Américas porque a maior parte da população nativa do continente não sobreviveu ao genocídio promovido pelos europeus depois que invadiram e colonizaram o continente americano a partir do final do século XV. E, com os indígenas, foi-se também boa parte de seu patrimônio genético.
Um estudo de 2019 conduzido pelo climatologista Alexander Koch, do University College London, no Reino Unido, estimou que a população indígena em 1492, quando chegaram os primeiros europeus, era de cerca de 60,5 milhões de indivíduos. A invasão levou essa população ao colapso: 55 milhões deles – ou 90% do contingente pré-contato – foram dizimados em pouco mais de cem anos, em decorrência de doenças com as quais os indígenas nunca tinham tido contato até então, guerras ou fome. (De acordo com esse mesmo estudo, a escala da matança foi tão grande que afetou até o clima global: as roças abandonadas pelos indígenas mortos foram tomadas por vegetação secundária, a ponto de aumentar a captura de gás carbônico da atmosfera e contribuir para a diminuição da temperatura global média em 0,15ºC entre 1577 e 1694.)
A consequência do extermínio em escala continental para o estudo da ocupação das Américas é que a população originária que sobreviveu ao massacre provavelmente não é representativa da diversidade genética dos povos nativos que estavam nas Américas em 1492, o que limita o alcance das conclusões a que se pode chegar estudando o genoma dos indígenas contemporâneos. “Se quisermos contar a história da ocupação do continente usando genomas modernos, o massacre dessas populações tem que ser incluído nas análises, e nem sempre a gente faz isso”, disse o geneticista Thomaz Pinotti, que estudou o DNA dos primeiros sul-americanos em seu doutorado.
Com a matança de 9 em cada 10 indígenas que habitavam o continente, perderam-se pistas valiosas que poderiam explicar quem era a população Y. Some-se a isso o número limitado de esqueletos antigos disponíveis para o estudo do DNA e teremos a medida da limitação do nosso conhecimento sobre os primeiros americanos.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_205 com o título “Sangue ancestral”.
Trecho adaptado do livro Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.