cartas
Out 2023 19h40
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CARTA DE PAPEL
Escrevo carta à moda antiga porque a Gratidão não cabe na tecnologia.
Agradeço pelo presente que foi a edição piauí_202, julho de 2023, mais especificamente por Maiakóvski, o americano. Foi um presente que não se encontra nas lojinhas de bairro e menos ainda na Amazon.
Moro nos Estados Unidos há um ano e tem todo esse tempo que não voltava ao Brasil. Como a cabeça da gente se enche de minhoquinhas e caraminholas pela saudade e pela distância, não sabia o que encontraria quando retornasse. Encontrei tudo como sempre foi – possibilidades entrelaçadas a memórias, histórias de hoje e de ontem e de sempre.
Falo do alto de uma montanha de privilégios que não nego, mas dos quais não me gabo – quase todos, a não ser pelo fato de ser brasileira. Esse me estufa o peito e me brilha os olhos. Dito isso, tenho um carinho muito grande pela língua russa desde 2008. Gostaria de agradecer ao Astier Basílio em russo:
Здравствуйте, мистер Базилио.
Ваш перевод так возрадовал моё сердце, что я не могу выразить словами.
Я не знала Маяковского, пока не прочитала вашу статью.
И я так благодарна, что наконец встретила его.
Впечатление, которое я получаю от прочтения, на 100% состоит в том, что это могло быть написано на прошлой неделе.
Ваш выбор слов в переводе потрясающий.
(Olá sr. Basílio, sua tradução alegrou tanto o meu coração que não consigo expressar em palavras. Eu não conhecia Maiakóvski até ler o seu artigo. E sou muito grata por finalmente ter conhecido. A impressão que tenho ao ler é 100% de que isso poderia ter sido escrito na semana passada. Sua escolha de palavras na tradução é incrível.)
CAROLINE MENEGUELLI BIONDO_CATAGUASES/SP
NOTA TEMEROSA DA REDAÇÃO: A gente também publicou uma reportagem sobre a televisão russa em tempos de guerra contra a Ucrânia, Caroline. Caso você queira escrever uma carta em russo ao Putin, via piauí, por favor: não nos critique.
PIAUÍ_204
Momentos prazerosos a leitura nos proporciona.
Vamos lá: usando meus dons adivinhatórios. Acho que quase todos os leitores começaram a leitura da piauí_204, setembro, pelo texto com mais caracteres: O quebra-regras, de Tiago Coelho, o fanzoca. O novelista João Emanuel Carneiro, talentoso, é ali retratado. Porém, como todos os novelistas escreve estórias cheias de furos, tal qual uma peneira. Não se atentam à verossimilhança, característica que costuma estar presente em obras ficcionais – ou não. Pode haver realismo fantástico. Mas Emanuel Carneiro deve ter seus méritos. Suas obras são discutidas, comentadas e mais do que nunca (o que é bom para ele) assistidas.
Também o sempre competente Fernando de Barros e Silva (A era da pilhagem) nos fala sobre o usurpador, o pilhador principal. Aquele que deve ser inominado.
E risos e risos: Tucanos no divã e Manual do muambeiro mirim. E vamos rir mais com o Diário do Geraldo. Valeu a pena ver a citação de Kafka e a abertura do romance de García Márquez, O amor nos tempos do cólera. E no final, Marta e nosso sonho, por Milly Lacombe (A revolucionária do sertão), um primor de texto.
Leitura em zigue-zague. Leitura em diagonal. Como o caleidoscópio da piauí merece. Há muito mais a comentar. Muito mais a elogiar.
GERALDO MAGELA MAIA_BELO HORIZONTE/MG
Gostaria de elogiar duas matérias excelentes da piauí_204, setembro.
Maturidade inventada: texto sensível, respeitoso, extremamente verdadeiro e importante em sua abordagem.
A embaixada: primor de narrativa que nos conduz a todos os sentimentos e sensações vividas pela autora.
MARIA DE LOURDES ALBUQUERQUE SOUSA_BRASÍLIA/DF
Na matéria A era da pilhagem a análise é correta, mas tem outro lado. A corrupção no Brasil chegou em 1500 e sempre foi a mola mestra nas relações com o Estado. Bolsonaro sempre foi isso, exatamente isso; a novidade é que ele sempre viveu no subterrâneo do Congresso, saía algumas vezes, causava algum alvoroço, mas voltava.
Com sua ascensão à posição de destaque máximo, ele não mudou; e atingiu essa posição com um discurso que promove atitudes reprováveis, foi um libertador; seus seguidores foram libertos de vergonha e constrangimentos. Isso já existia, mas estava contido numa cerca de hipocrisia. Descobrimos isso, ainda não digerimos, ainda nos surpreendemos. Quando aceitarmos essa realidade, podemos optar por fazer um país melhor, pois essa sempre foi nossa realidade.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
Obrigado pela piauí_204, setembro; passei a andar com o Manual do muambeiro mirim e a cumprimentar as pessoas com “Sempre alerta!”. Mas quero destacar três coisas: primeiro, não encontrei a seção de poesia. Segundo, ainda não entendi o que o sr. Luis, colega leitor, quis dizer em sua cartinha sobre o Caso Evandro quando afirmou que, embora não defendesse tortura, “o erro todo esteve na confissão dos ‘envolvidos’”; talvez ele estivesse tentando enviar uma mensagem cifrada para convencer (em vão) algum “brilhante” suspeito a não firmar uma delação premiada implicando seu ex-chefe, “talkey”?
Terceiro, o relato de Denise Mota sobre a seca no Uruguai (Nunca acontece, até que acontece) me assustou bastante; fiquei surpreso que chegaram a ponto de uma crise no abastecimento de água mineral – e a capacidade do governo de responder ao desastre ficou muito aquém do esperado. Temo que, num futuro não muito distante, passaremos por algo análogo no Brasil.
Embora tenha esperança quanto a políticas públicas, não é raro que tomadores de decisão ignorem ou subestimem a probabilidade e o impacto de eventos extremos; a pandemia foi um exemplo, escancarando a falta de conhecimento sobre epidemiologia e biossegurança no então governo (como enfatizou João Moreira no aterrorizante O elefante negro, piauí_169, outubro de 2020). Porém, acredito que em condições mais favoráveis, com alguma colaboração entre pesquisadores, ativistas e imprensa, pode-se ter um impacto positivo.
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
TORTURA
Gostaria de esclarecer que não defendo a tortura de espécie alguma, fico grato pela dica de não usar “mas, porém, contudo, entretanto, todavia”, depois da palavra tortura (Cartas, piauí_204, setembro).
Queria frisar que o e-mail tinha como intuito focar na parte da confissão, lembrando que a tortura aconteceu, foi um fato. Meu argumento foi o de que, num crime estarrecedor como esse, jamais se confessa se você não o praticou. Morra atirando. O ideal é que esse crime jamais tivesse ocorrido, nem ele e nem a tortura. O que eu descobri nessa minha trajetória de vida é que o ideal está sempre na nossa cabeça, o mundo real é muito mais complexo, lidar com ele requer muita sabedoria, conhecimento e muito jogo de cintura.
LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP
O FIEL DA BALANÇA
O cientista político Marcos Nobre (Pega, mata e come, piauí_204, setembro) é filho de Freitas Nobre, deputado federal por quatro mandatos consecutivos desde 1970 pelo MDB, que em 1980 transformou-se no PMDB. O deputado foi um dos líderes mais combativos contra a ditadura e um dos articuladores da candidatura de Tancredo Neves, cuja vitória contra Maluf pôs fim ao governo militar. Marcos, portanto, tornou-se um profundo conhecedor da legenda paterna, pois vivenciou todos aqueles conturbados momentos. Daí sua autoridade ao analisar o peemedebismo.
A gênese da mediocridade de nossa representação parlamentar, mais preocupada com a manutenção de seus privilégios e pouco focada nos reais problemas do país, com algumas exceções, foi o golpe militar de 1964. O AI-2 de 1965 decretou o fim dos partidos políticos de então, mesmo após a cassação das principais lideranças opositoras. Criou uma camisa de força ao estabelecer a existência de somente dois partidos: a Arena, governista, e o MDB, de oposição, totalmente emasculado. Se até então nosso Parlamento era vibrante, com discussões de alto nível, sendo os principais atores o PTB, a UDN e o PSD, representando a esquerda, a direita e o centro, passou a ser um mero homologador dos atos do Executivo.
Com o retorno da normalidade democrática e a criação de diversas legendas, houve, também, a perda de qualidade na representação parlamentar, aumentada a cada legislatura. A luta pela ocupação de cargos e privilégios, o fisiologismo, passou a predominar. Com a desmoralização dos militares e da direita que os apoiavam, o então PMDB passou a ser o partido dominante, uma federação com caciques pelos quatro cantos do país. O toma lá dá cá passou a prevalecer, tal qual o modus operandi do atual Centrão, que se alia a quem detém o poder. No entanto, parece que ambiciona algo mais. Cansou de ser coadjuvante, embora fazendo prevalecer seus interesses com os governos sem base de apoio sólida, característica do presidencialismo de coalizão, com as dezenas de partidos existentes. Mira agora assumir o poder, independentemente se o candidato favorito é de esquerda ou direita. É o carcará aguardando para dar o bote.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
OPERAÇÃO LAVA JATO
Na piauí_204, setembro, a reportagem sobre o grampo encontrado na cela de Youssef (O grampo) foi a pá de cal na Operação Lava Jato, no que diz respeito à credibilidade da lisura de seus procedimentos. Anteriormente, já haviam sido publicadas centenas de artigos e reportagens indicando irregularidades nos processos conduzidos pelos procuradores da força-tarefa e do então juiz da 13ª Vara Federal. Quanto a isso não resta mais nenhuma dúvida; agora seria também esclarecedor que a nossa diligente imprensa buscasse rememorar os casos de corrupção e malversação de recursos públicos envolvendo altas autoridades da República naquele período, pois com toda a onda de descrédito que a Operação Lava Jato criou (até surgiu o neologismo “lavajatismo”), parece que caíram no esquecimento e, em muitos casos, na impunidade.
LUIS ROBERTO BEOLCHI_SANTOS/SP
MUDAR LIVROS DE LUGAR
É comum as matérias da piauí causarem uma ampliação de minha biblioteca. Há sempre um trecho inédito de livro, como o de Jorge Baron Biza (A outra face, piauí_204, setembro), que me induz a ir atrás da obra completa, ou uma citação de peso, como a de PT, uma história, de Celso Rocha de Barros (em Pega, mata e come, piauí_204, setembro, de Marcos Nobre), livro já habitué da revista. A edição de setembro, porém, está me fazendo mudar livros de lugar também, dada outra classificação que eles passam a ter. O grampo, piauí_204, setembro, de Felippe Aníbal, dá os detalhes do início da chamada Operação Lava Jato, que, sem a devida preposição, passou a significar o conluio entre os famosos ex-juiz e ex-promotor. Felippe mostra o envolvimento de policiais federais naquele misto de farsa e forçação de barra, o que, anos depois, resultou no caso Odebrecht, o de maior visibilidade, além da prisão de Lula. Assim, junto a tudo o que sabemos da Vaza Jato, nada mais me resta a não ser mudar o livro A organização, de Malu Gaspar, da seção “história pesada” para “ficção latente”. Indo para outro lado da biblioteca, Samir Machado de Machado, em O entretenimento é um projeto de país (piauí_204, setembro), deixou-me na dúvida sobre o que fazer com Incidente em Antares, de Erico Verissimo. Na curiosa história que Samir nos conta sobre a literatura de horror no Brasil, ele restringe a duas ou três obras de todo o século XX, como se o trabalho dele fosse o único, em 2007, a restaurar esse tipo de literatura. Menos, Samir, menos. Uma rápida busca pela memória e pela internet nos revela um profícuo século de literatura de horror – e creio que a literatura fantástica está associada a ela –, não havendo um gap do século XIX para o XXI como dá a entender o artigo. Sugiro ver, por exemplo, a tese de doutorado de Oscar Andrade Lourenção Nestarez, Uma história da literatura de horror no Brasil: fundamentos e autorias, defendida na USP em 2022. Bem, esse é mais um exemplo de aquisição induzida, mas como está em PDF não ocupa lugar na estante.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA MELANCÓLICA DA REDAÇÃO: Muito nos honra que a piauí amplie sua biblioteca, Adilson. Mas muito nos entristece que, dentre tantos livros citados, você não tenha mencionado Xarab fica. Ou A porta de Mogar. Ou Quatro 3. De certo foram os três livros mais citados nas páginas desta revista. Procure saber.
FALTA DE ASSUNTO?
Senhores, na piauí_202, julho, vocês publicaram duas matérias que me chamaram a atenção: A viúva e As várias mortes de Sophia. Na piauí_203, agosto, publicaram “Ela chegou, ela está viva” e O labirinto. Na minha humilde opinião, são matérias para esses programas sensacionalistas das tevês, tipo Datena e Cia.
O que está acontecendo? A piauí quer relembrar a imprensa dos anos 1960, 70, jornais que você não podia amassar nem rasgar sob o risco de escorrer sangue?
Abraços saudosos de ler matérias interessantes e relevantes.
ELIAS STEIN_SANTO ANDRÉ/SP
NOTA SENSACIONALISTA DA REDAÇÃO: Comandante Hamilton! Helicóptero Águia! Cadê? Eu quero imagens desse senhor que está nos criticando! Foca nele! Focou? Tá mostrando a cara do elemento? Então eu tenho um recado pra ele: “Elias, pode criticar mais! A gente gosta! Abraços!”