Imagem A ruína de uma nação

tesouros da crítica I

A RUÍNA DE UMA NAÇÃO

Como um livro raro de Otto Maria Carpeaux sobre a ocupação da Áustria por Hitler, depois de fazer parte da biblioteca de um nazista, veio parar na minha estante

11 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Poucos dias depois da anexação da Áustria por Hitler, em março de 1938, o ensaísta, crítico e jornalista Otto Maria Karpfen, judeu convertido ao catolicismo, escapou para a Itália. Em seguida, atravessou a Suíça, a França e chegou à Bélgica, onde se instalou na cidade de Antuérpia. Lá o intelectual austríaco de 38 anos empregou-se no jornal Gazet van Antwerpen, próximo dos católicos, e se dedicou a escrever um livro sobre a decadência de seu país, de grande império mundial a Estado-fantoche da Alemanha nazista.

Van Habsburg tot Hitler (Dos Habsburgos a Hitler) foi publicado no mesmo ano de 1938, em holandês, pelas editoras católicas Orbis (belga) e De Gemeenschap (holandesa). Karpfen assinou o livro sob o pseudônimo dr. Leopold Wiesinger, possivelmente para se proteger de perseguições. No ano seguinte, ele e sua mulher fugiram da Europa, rumo ao Brasil. Quando o casal desembarcou no Rio de Janeiro, a Segunda Guerra Mundial já havia estourado. Logo, Karpfen trocou seu sobrenome para o afrancesado Carpeaux.

O Otto Maria Carpeaux de 1939 era um homem católico e conservador. Na Europa, como estudante de sociologia e literatura, foi aluno de alguns dos mais destacados intelectuais do século XX, como Max Weber e Benedetto Croce. Trabalhou em jornais como o Reichspost – o maior periódico católico austríaco – e foi diretor do Berichte zur Kultur- und Zeitgeschichte (Informes sobre cultura e história contemporânea), publicação quinzenal da Ação Católica – um movimento multifacetado de participação social, formado por leigos, mas sob os cuidados da Igreja Católica.

O engajamento na política o aproximou de dois chanceleres da Áustria, Engelbert Dollfuss, que governou entre 1932 e 1934, e Kurt von Schuschnigg, que assumiu em seguida e foi o último dirigente do país antes da invasão nazista, em 12 de março de 1938, episódio conhecido com Anschluss, ou Anexação. Carpeaux também obteve a estima do papado, devido à sua militância católica. Especula-se que a sua entrada no Brasil foi facilitada graças a uma intervenção pessoal de Pio XII.

Aqui, Carpeaux tratou logo de aprender português, o que fez lendo a literatura brasileira, sobretudo Machado de Assis. Passou por um processo rápido de assimilação da cultura local e iniciou sua colaboração com os jornais, para os quais escreveu inicialmente em francês, sendo traduzido depois para o português. Em abril de 1941, publicou seu primeiro ensaio em português no jornal Correio da Manhã e, pouco a pouco, se consolidou como um dos mais importantes críticos literários do país. Além de escrever sobre eminentes brasileiros – de Graciliano Ramos a Carlos Drummond, de Candido Portinari a Villa-Lobos –, foi responsável por introduzir no país uma série de autores europeus até então desconhecidos por aqui, como Franz Kafka, Robert Musil e Erich Auerbach.

A vivência do Brasil e das contradições do país foram modificando algo da personalidade do intelectual europeu e, consequentemente, da própria natureza de seu trabalho e de suas ideias, inclusive políticas. Depois de se reinventar como eminente crítico literário, ele fez de sua obra um projeto cultural para o Brasil, e sua capacidade de intervenção se mostrou bastante profícua. Além disso, o catolicismo engajado deu lugar ao agnosticismo.

Décadas depois da fuga da sanha hitlerista, ao se deparar novamente com a violação das liberdades democráticas pelo golpe de 1964, renunciou ao seu conservadorismo político e deu uma guinada à esquerda, colocando-se contra a ditadura que se instalara no Brasil. Ele morreu em 1978 sem deixar herdeiros de sua obra numerosa, constituída de centenas de ensaios de crítica literária, livros sobre música e uma titânica História da literatura ocidental, publicada originalmente em oito volumes, um monumento brasileiro.

Carpeaux publicou três livros na Europa. Em 1934, Wege nach Rom: Abenteuer, Sturz und Sieg des Geistes (Caminhos para Roma: aventura, queda e vitória do espírito), uma obra católica que assinou como Otto Maria Karpfen. Em 1935, Ӧsterreichs Europäische Sendung: ein Aussenpolitischer Überblick (A missão europeia da Áustria: uma visão geral da política externa), um trabalho de cunho geopolítico, assinado com o pseudônimo Otto Maria Fidelis. O terceiro foi Van Habsburg tot Hitler, que, segundo o próprio autor, é o único desses três livros que não se tornou obsoleto e também o único não escrito em alemão. Apenas o primeiro foi traduzido no Brasil.

Van Habsburg tot Hitler teve uma única edição na Bélgica, em holandês, provavelmente de pequena tiragem. Ademais, dois anos após a publicação, o país foi ocupado pela Alemanha, o que, obviamente, comprometeu a difusão de obras antinazistas naquela região e condenou o livro ao fundo secreto das estantes.

Embora eu sempre estivesse atento aos sebos estrangeiros na internet, nunca tive muitas esperanças de encontrar um exemplar desse livro, até que, numa madrugada do mês de julho deparei com um exemplar à venda em um sebo belga, o BoekDag. Sem demora, escrevi para o livreiro, Lou Van de Vel, solicitando fotos do exemplar. Ele me respondeu logo, enviando as imagens: era de fato o livro que eu tanto procurava. O volume foi entregue em minha casa no Rio de Janeiro treze dias depois.

Van Habsburg tot Hitler contém doze capítulos, alguns de títulos dramáticos: A velha Áustria, Banho de aço e mar de sangue, O caos, Os lados direito e esquerdo, A corrida autoritária, Sangue e lágrimas, O assassinato, Experiência da nova Áustria, A segunda cidade alemã, A oposição, O começo do fim e O fim da canção, seguido de um Epílogo e de uma lista de fontes. Já no Prefácio se reconhece o inconfundível estilo de Carpeaux – o modo como suas reflexões vão se construindo por meio de imagens, paralelismos e metáforas; a utilização de recursos literários para descrever aspectos históricos e analisá-los, imprimindo uma avalanche de erudição ao ensaio; o modo como ele se coloca em primeira pessoa no texto.

Entre 1933 e 1938, a Áustria viveu duas graves situações que se retroalimentaram: a instabilidade política e a crise econômica, com milhares de desempregados. Na periferia de Viena, miseráveis injetavam petróleo em si mesmos a fim de adoecer e ter acesso ao seguro de saúde. Esse contexto estimulou a expansão da ideologia nazista no país, o ressurgimento do antissemitismo e a implosão do governo. Em 1934, o chanceler Engelbert Dollfuss foi morto durante uma tentativa de golpe de Estado por nazistas austríacos.

Antes mesmo da ocupação do país por Hitler em 1938, agentes alemães se infiltraram em cargos de confiança no governo e os bancos alemães começaram a adquirir indústrias da Áustria. Além disso, os nazistas se encarregaram de cercar o povo austríaco pela cultura. Carpeaux relata que o jornal em que trabalhava, o Reichspost, teve toda a seção de publicidade alugada por uma empresa dirigida por Franz von Papen (1879-1969), que foi chanceler da Alemanha em 1932 e vi­ce-­chanceler de Hitler entre 1933 e 1934.

Escrito no mesmo ano da ocupação nazista da Áustria, Van Habsburg tot Hitler é um livro nascido dessa hecatombe e que reflete sobre as incertezas do destino da Europa. Ao descrever o processo que culminou na ocupação de seu país, Carpeaux lançou um alerta sobre o que poderia acontecer com as demais nações europeias. Em meio às ruínas da velha Áustria, ele fecha o livro com um gesto de combatividade. No Epílogo, afirma que, apesar de terem sequestrado o território da Áustria, o espírito da nação permanecia livre – e sobreviveria. “A Áustria, que ontem pereceu como Estado, é uma ideia eterna e irá reviver como império amanhã”, escreve. Encerra o seu relato com a expectativa de que, por meio da cultura, se possa reconstruir espiritualmente o país e reavivar o humanismo aviltado pelos nazistas.

O capítulo O fim da canção, que a piauí publica nas páginas seguintes, descreve os dois meses que antecederam a queda do chanceler Kurt von Schuschnigg e a ocupação da Áustria pelos nazistas. Testemunha ocular dos acontecimentos em Viena e dos bastidores do governo, Carpeaux descreve os métodos de coação empregados pelos alemães e a tomada das ruas pelas hordas da juventude hitlerista.

Diante da fraqueza das forças democráticas e da inação do governo, grupos radicais ampliam seus tentáculos. A suástica e as canções hitleristas, até então proibidas, se espalharam por todo canto. A polícia, que antes reprimia os arruaceiros, começou a aderir ao discurso do inimigo. O governo e as forças antinazistas ensaiam uma resposta às investidas alemãs; comunistas e anticomunistas se unem; grupos católicos e organizações judaicas se aliam para apoiar as iniciativas legalistas do chanceler; um líder político promete colocar 100 mil camponeses armados nas ruas de Viena caso a situação se radicalize.

O que parecia a gestação de uma frente ampla antinazista se revela uma enorme bravata – e o Reich alemão toma a Áustria sem qualquer resistência. Narrado em um tom progressivamente aflitivo, com os eventos acelerando à medida que se aproxima o tenebroso clímax, Carpeaux presta testemunho dos últimos momentos de um país em vias de desmoronamento. Ao fim de tudo, “até o milenar nome da Áustria tinha desaparecido”.

Nos estudos literários, há circunstâncias que nos levam a interrogar o livro como objeto, e não apenas como conteúdo, quando a história material do exemplar tem algo a acrescentar à obra em si ou à biografia do autor ou do proprietário do volume. O próprio Carpeaux tem algo a contar a respeito, com o raríssimo exemplar da primeira edição de O processo, de Kafka, que ele trouxe na bagagem para o Brasil. O livro lhe foi dado como parte de um pagamento de uma editora, e por pouco não foi confiscado por nazistas em Viena. Hoje, o exemplar repousa no acervo da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

O meu exemplar de Van Habsburg tot Hitler também tem sua história. Alguns poucos dias depois da chegada do exemplar em minha casa, recebi um e-mail do livreiro belga. Ele dizia na mensagem em inglês: “Talvez seja de seu interesse: eu comprei este livro junto com uma biblioteca inteira, em 1998, de um dos descendentes de August Borms. Ele foi um conhecidíssimo membro do Partido Nacional Socialista e um colaboracionista. Mas não era um nazista ou racista, ele defendeu e ajudou judeus e viveu na Antuérpia no mesmo período em que Leopold Wiesinger [o pseudônimo de Carpeaux] esteve por aqui. Talvez seja interessante para você. Abraços.”

Eu nunca tinha ouvido falar do político belga August Borms (1878-1946). E achei estranha a ressalva feita por meu interlocutor. Um nazista que salva judeus? Busquei na internet pela biografia do antigo dono do meu exemplar e, de imediato, me espantei com a foto que ilustrava a sua página na Wikipédia: um homem de braço em riste e a palma da mão aberta, na conhecida saudação nazista.

Borms era da comunidade flamenga da Bélgica (que fala holandês) e defendia que sua região se separasse da Bélgica de língua francesa. Durante a Primeira Guerra Mundial, colaborou com as autoridades alemãs que ocuparam seu país, imaginando que pudessem levar a uma separação das regiões – e parece que se cogitou transformá-lo em governante da região flamenga, caso a divisão ocorresse. Contudo, com os invasores alemães derrotados ao fim da guerra, Borms foi condenado à morte como traidor da pátria. A pena capital acabou sendo mudada para prisão perpétua, da qual ele também se livrou, voltando à agitação política. Durante a Segunda Guerra, mais uma vez Borms tornou-se colaborador dos alemães, que ele recebeu de braços abertos durante a ocupação da Bélgica em 1940. Com a derrota dos nazistas, foi novamente condenado à morte. Dessa vez, contudo, não conseguiu escapar: acabou fuzilado em 1946.

É no mínimo irônico que um livro antinazista, que denuncia a ocupação da Áustria por Hitler, tenha sobrevivido justamente na biblioteca de um colaboracionista. E talvez por isso mesmo o seu exemplar de Van Habsburg tot Hitler tenha sido preservado: afinal, em um país dominado por Hitler, quem se preocuparia em vasculhar a biblioteca de um agente do regime nazista? Quanto à suposição de que Borms teria ajudado judeus, como acredita o livreiro, isso é história que nunca foi confirmada.

Algumas páginas do exemplar que me chegou da Bélgica tinham marcas feitas a lápis: certos trechos estão sublinhados; outros têm um X marcado ao lado. Como o exemplar vem da biblioteca de Borms e seus herdeiros, é bastante possível que as marcações sejam dele ou talvez de algum de seus filhos ou netos.

Que tipo de anotações um colaborador do nazismo faz em um livro ostensivamente antinazista? Por que os trechos destacados chamaram a atenção desse leitor tão suspeito? São pontos que renderiam uma longa análise. De imediato, duas páginas marcadas com lápis saltam aos olhos do leitor. Uma delas descreve o assassinato do chanceler Dollfuss, que aparece baleado numa poça de sangue; a outra conta sobre a conversão ao nacional-socialismo do cardeal Theodor Innitzer, que era, até então, um ferrenho opositor de Hitler.

Na contracapa, uma anotação numérica parece fazer referência a duas sequências de páginas no livro: 31-35, 64-71. As páginas da primeira sequência descrevem a ascensão da esquerda austríaca e a formação da chamada “Viena Vermelha” – à qual Carpeaux também se refere como “Viena Soviética” –, depois da Primeira Guerra e da dissolução do Império Austro-Húngaro. As da segunda sequência falam sobre a preparação de um atentado terrorista a bomba feito pelos nazistas, em uma primeira tentativa de golpe contra Dollfuss, em 1933.

O meu primeiro encontro com a obra de Carpeaux se deu em 2012, aos 16 anos de idade. Uma sugestão do historiador Ivan Alves Filho me levou ao livro A cinza do purgatório. Daí, segui pouco a pouco por toda a imensa obra do ensaísta, formada por mais de mil ensaios de crítica literária e musical, sem falar da História da literatura ocidental. Veio então a universidade, e meus anos de dedicação independente ganharam tons de especialização: na graduação em letras russas da Universidade Federal do Rio de Janeiro escrevi uma monografia sobre o papel de Carpeaux na recepção da literatura russa no Brasil, sobretudo a soviética. No mestrado, investiguei os seus ensaios dedicados à literatura brasileira.

No entanto, foi na elaboração do projeto para doutorado que me vi diante de um trabalho algo policialesco, uma investigação de detetive. Um pouco como no romance 2666, do chileno Roberto Bolaño, cujos personagens mergulham em pesquisas a respeito do misterioso Benno von Archimboldi, desvelando camadas cada vez mais obscuras e intrigantes – a ponto de se tornarem os “detetives selvagens” de suas universidades.

Acabei por esbarrar em alguns textos inéditos de Carpeaux em livro, como o Movimento literário em Goiás (publicado em O Jornal, de 7 de dezembro de 1947), em que ele faz uma leitura panorâmica da vida intelectual nesse estado do Centro-Oeste. Por um lapso de paginação, a coluna saiu sem a sua assinatura. Na edição da semana seguinte, o diário fez uma nota informando sobre o erro.

Os anos que dedico a refazer os passos de Carpeaux têm me levado por caminhos fascinantes, como agora o desse exemplar de Van Habsburg tot Hitler, que, da velha biblioteca de um colaborador nazista, veio parar na minha estante. Graças a isso fica cada vez mais nítido para mim como esse intelectual austríaco, parecido ora com um homem renascentista, ora com um personagem de Thomas Mann, pôde se entranhar de maneira tão visceral na história cultural brasileira no século XX.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É crítico literário e mestre em literatura comparada pela UFRJ