despedida
Felipe Botelho Corrêa Out 2023 18h49
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Conheci Maricela Ayala Falcón quando ela acabava de se mudar para Cancún, território historicamente maia, após uma longa carreira como professora e pesquisadora da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). A conversa me marcou, pois foi um tanto quanto desconcertante: eu era um estudante de doutorado; ela, um dos baluartes da história da civilização maia. Vestida com um tradicional huipil e com um tom professoral que mantinha mesmo em ambiente fora da universidade, quis logo saber sobre a minha pesquisa. “E você sabe por que os seres humanos inventaram a escrita?” Ainda que eu estivesse pesquisando a obra de um escritor, nunca tinha parado para pensar nisso. E a pergunta, com a voz de Maricela, ficou na minha cabeça.
Considerada a primeira epigrafista[1] do México, Maricela é figura central nos estudos da escrita maia, cujo processo de decifração inquietou pesquisadores por séculos. Em 1549, durante a Inquisição, o missionário espanhol Diego de Landa Calderón foi enviado a Yucatán, no atual sudeste mexicano. Lá, mandou queimar, num auto de fé, milhares de imagens e um número indeterminado de códices maias (Landa admite 27, embora outras fontes estimem um número maior). Acusado de conduzir uma Inquisição para além dos limites “adequados”, Landa retornou a seu país, mas acabou absolvido e voltou a Yucatán para virar bispo. Poucos registros impressos sobraram das atrocidades: quatro códices maias (Dresden, Madri, Paris e México)[2] e um manuscrito que o próprio Landa escreveu em 1566 para ajudar futuros missionários – Relación de las cosas de Yucatán. O ato de Landa criou uma desconexão entre a escrita antiga (e a história que registrava) e as línguas maias faladas até hoje na Mesoamérica, que engloba regiões do México, Guatemala, Honduras, Belize, El Salvador e Nicarágua.[3]
A busca por esse elo perdido só terminou na segunda metade do século XX, justamente quando Maricela começava seus estudos. Quando entrou na graduação de história na Unam, no início dos anos 1960, seu objetivo era estudar a Revolução Mexicana (1910-17). Ela vinha de uma família de classe média da Cidade do México – o pai era mecânico; a mãe, arquivista – e foi a única entre os quatro irmãos a se inclinar para a vida universitária. Em 1965, um professor, o arqueólogo Alberto Ruz Lhuillier, a convidou para integrar, como epigrafista, a Comissão para o Estudo da Escrita Maia, cujo objetivo era decifrar essa escrita com o apoio de computadores da época.
Ruz fora responsável por uma das maiores descobertas da arqueologia mesoamericana, em 1952: a tumba de Pakal, o clássico rei maia de Palenque, dentro da principal pirâmide daquele sítio arqueológico. Mas apesar das descobertas e escavações, muitos estudiosos haviam tentado decifrar a escrita maia sem sucesso – os únicos elementos que conseguiam ser lidos eram os números, que indicavam um vasto conhecimento astronômico, um calendário preciso e a utilização do zero (conceito que só chegou ao Ocidente por volta do século XIII. O “alfabeto” descrito por Landa, contudo, não fazia sentido, e, por séculos, os hieroglifos foram considerados representações pictóricas, e não um sistema de escrita.[4]
Foi em 1952 que a história começou a mudar: enquanto Ruz descobria a tumba de Pakal, o linguista Yuri Knórosov, em Leningrado (hoje São Petersburgo), teve contato com uma reprodução dos códices maias que segundo ele fora resgatada de um incêndio na Biblioteca Nacional alemã, em Berlim, durante a Segunda Guerra Mundial. Ele, que nunca visitara a região mesoamericana, sugeriu em A escrita dos indígenas maias (1963) que o sistema de escrita era fonético, e que os hieroglifos eram sílabas (e não um alfabeto, como Landa sugerira).[5]
Tatiana Proskouriakoff deu outro passo fundamental em 1960. A arqueóloga russa radicada nos Estados Unidos desenvolvia métodos de datação de monumentos com base em peculiaridades arquitetônicas. Notando um padrão no sítio arqueológico de Piedras Negras, no território atual da Guatemala, descobriu que as figuras na primeira estela em frente a cada templo não eram divindades, como se acreditava até então, mas governantes; e as diferentes inscrições retratavam suas vidas. Os glifos maias, portanto, não eram imagens, mas registros históricos.
Em 1973, a epigrafista americana Linda Schele e seu marido partiram dessas descobertas para tentar ler o mural dos 96 Glifos, em Palenque, traduzindo a maior parte daquela história dinástica. Schele apresentou sua descoberta numa conferência em 1974, para uma plateia que incluía Maricela. Àquela altura, a comissão da qual Maricela participava já era considerada a principal instituição de estudos da civilização maia no México. Apesar do ceticismo da plateia no dia, anos depois Schele e Maricela se aproximaram – a americana tinha se tornado figura central na discussão internacional sobre epigrafia maia e Maricela foi fazer seu doutorado com ela na Universidade do Texas, em Austin.
O trabalho de epigrafistas como Maricela era dar sentido àquilo que era encontrado nas escavações, resgatando a história dos conquistados. Ela surgiu como pioneira nessa etapa, propondo inovadoras leituras históricas de sítios como Tikal e Toniná, rejeitando a perspectiva europeia do “bom selvagem”.[6] Por meio de estudos de guerras, calendários, escritas, rituais e representações, Maricela obteve uma conquista singular: em dezenas de publicações, mostrou ao mundo que os maias formavam uma civilização complexa – e, em muitos aspectos, pioneira em relação aos europeus.
Estar com ela num sítio arqueológico maia, como estive em Tulum, no México, era como entrar em outra dimensão temporal. Era impressionante notar a deferência dos funcionários ao vê-la lendo os hieroglifos e explicando seus significados. Modestamente, contudo, ela parecia se orgulhar mais por ter formado várias gerações de epigrafistas que ajudaram a revelar o passado pré-colonial mesoamericano. Numa entrevista de 2013 ao Excelsior, veículo da imprensa mexicana, disse: “Meu ideal era criar uma escola mexicana de epigrafia, para que eu não estivesse sozinha, mas cercada de pessoas comprometidas e sérias, e eu consegui.” O processo teria sido impossível sem a participação de falantes maias contemporâneos, que ensinaram aos acadêmicos a lógica das línguas maias modernas, reapropriando o sistema de escrita ancestral no século XXI – o que o acadêmico maia Genner Llanes-Ortiz espirituosamente chama de presença “cos-maia-politana”.
No dia 14 de agosto passado, mandamos – meu filho, minha mulher e eu – uma mensagem de voz a Maricela felicitando-a por seus 79 anos, e suas mais de cinco décadas de pesquisa e docência. Mal sabíamos que no dia seguinte ela já estaria com os maias em outro âmbito. Segui um pedido seu e fui escutar a canção Cerró sus ojitos Cleto, do compositor Chava Flores, em que um velório se torna uma festa de celebração da vida. Ao escutar a canção, pensei em escrever esse texto, pois hoje sei que a escrita é também uma maneira de dizer adeus.
[1] Disciplina que estuda escritas antigas gravadas em superfícies duras, como pedra ou metal.
[2] Os códices – impressos dobráveis, contendo escrita hieroglífica maia, produzidos por escribas profissionais – foram nomeados em referência às cidades ou países onde estão atualmente resguardados.
[3] As primeiras cidades maias se desenvolveram por volta de 750 a.C. Em torno de 500 a.C., muitas cidades já possuíam grandes e complexas edificações. A escrita hieroglífica já era usada entre os maias pelo menos desde o século III a.C.
[4] No livro de Landa, ao perguntar qual era o nome da terra em que vivia, o informante maia responde: “uic athan”, que em maia significa “eu não entendo o que você diz”. Landa passa, então, a chamar a região de Yucatán.
[5] Em 1981, um jovem americano prodígio de 15 anos, David Stuart, concluiu o deciframento fonético de Knórosov, mostrando que palavras maias individuais eram escritas de várias maneiras (uma analogia em português seria: 14, quatorze, catorze), passo determinante para que as novas chaves de leitura fossem aceitas.
[6] Conceito eurocêntrico nascido na época das conquistas das Américas, e depois popularizado por pensadores iluministas, que se refere às populações indígenas como seres humanos em “estado de natureza”, sem contato com o processo civilizatório.