questões literárias

SOBRE A ÚLTIMA ENTREVISTA DE JOHN LE CARRÉ

Moralidade e culpa nas derradeiras declarações do maior escritor de espionagem do século XX
Imagem Sobre a última entrevista de John le Carré

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No início da década de 1950, David Cornwell era um estudante de graduação na Universidade de Oxford. Bom aluno, versado nos trejeitos e maneirismos da aristocracia de seu país, escolhera letras modernas como especialização. Certo dia, seu pai, Ronald Thomas Archibald Cornwell, apareceu na faculdade de surpresa. Furioso, perguntou ao tutor que história era aquela de o filho estudar letras, e não direito, como havia lhe dito? Apesar da pressão do pai, o tutor de David na época, Vivian Green, não se comoveu. “Mostrou a porta de saída para ele”, David relembra.

Na superfície, o episódio é prosaico. O pai que aspira a ter um filho advogado é um clichê – talvez antiquado a essa altura, mas banal em sua universalidade. O que dá potência à anedota é sua ambiguidade implícita. Ronald Corn­well (“Ronnie”), o pai de David, era um estelionatário que passou a vida dando golpes financeiros. Na descrição do próprio filho, mudava de endereço com frequência, saindo na surdina e deixando contas por pagar. Entre idas e vindas, passou cerca de sete anos na prisão. Caía e depois se reerguia com novos esquemas, fiando-se em sua retórica, no seu carisma, combinando seu talento pa­ra enganar com o desejo inconsciente que muitas pessoas têm de serem enganadas. Um filho advogado, formado em Oxford, teria sido um parceiro valioso nos negócios; mas poderia, ao revés, trazer redenção, um expurgo moral retroativo. Segundo o filho, “Deus era um grande chapa dele. Se acreditava ou não em Deus era algo misterioso, mas ele tinha certeza que Deus acreditava nele”. Uma frase recorrente de Ronnie: “Quando eu for julgado, meu filho, e julgado serei, será pela forma como tratei você e seu irmão.”

Em O túnel de pombos, documentário com a última entrevista antes de sua morte em dezembro de 2020, David – mais conhecido pelo pseudônimo John le Carré, com o qual assinava seus livros – rememora essas frases do pai ora com ar irônico, ora com ar severo. Ainda assim, admite que teve uma infância divertida ao lado de Ronnie e se coloca como cúmplice dele. Abandonado aos 5 anos de idade pela mãe, Olive, foi criado pelo pai; diz que “se juntou” a ele e aprendeu como enganar os outros, encarnar personagens, fingir modos que não possuía.

Fosse outra pessoa, a admissão soaria trivial. Levando-se em conta a trajetória de Le Carré – primeiro como espião do MI5 e do MI6 (os serviços britânicos de inteligência, do­méstico e internacional, respectivamente), e depois como o maior escritor de espionagem do século XX –, as lições observacionais do pai assumem outro grau de importância. Le Carré e Graham Greene se admiravam mutuamente, e no documentário o autor cita uma frase do colega: “A infância é o saldo bancário do escritor.” Ocorre que analogias contábeis possuem um sentido assustadoramente literal na vida de Le Carré. Quando já era um autor de sucesso, com milhões de cópias vendidas, seu pai o chamou para uma conversa, apresentou os números de quanto investira em sua educação e lhe cobrou a fatura.

Dirigido por Errol Morris e baseado no livro de memórias homônimo do autor, O túnel de pombos – que terá lançamento global no dia 20 de outubro pela Apple TV e ao qual a piauí teve acesso antecipado – foi um projeto construído com esmero, montado para ser uma espécie de retrato para a posteridade. “Acho que nosso pai estava muito interessado em seu próprio legado. Queria encontrar alguém com quem pudesse se identificar e conversar de uma maneira íntima que não fosse um interrogatório”, me disse o roteirista Stephen Cornwell, um dos filhos de Le Carré, numa conversa recente que tivemos por Zoom, com a participação de seu irmão Simon. Stephen e Simon são produtores do filme e sócios da Ink Factory, uma empresa audiovisual cujo carro-chefe são adaptações dos livros do pai.

Segundo os irmãos, Le Carré admirava o trabalho de Errol Morris, seu leitor, particularmente o documentário vencedor do Oscar de 2004, Sob a névoa da guerra, em que Robert McNamara, ex-ministro da Defesa de John F. Kennedy, narra seu envolvimento na crise dos mísseis e outros episódios cruciais da Guerra Fria. “Acho que [Sob a névoa da guerra] foi um pouco seu guia”, disse Stephen, “ainda que nosso pai não carregasse a mesma culpa de McNamara. Mas era uma oportunidade de colocar seu ponto de vista para o mundo”.

O cenário espartano de boa parte do filme – a câmera focada em Le Carré, que aparece sentado numa mesa grande de madeira num quarto vazio, de frente para o diretor – lembra um pouco um interrogatório. Mas o efeito é mais estético do que narrativo. Não há nada de hostil na abordagem de Morris, e tendo a oportunidade de uma última entrevista com um grande escritor que nem sempre aceitava entrevistas, ele faz o óbvio: quase se retira da equação. Parece entender que seu papel não é fazer grandes inovações ou avançar a forma do documentário, mas sim conduzir o rumo da entrevista nos bastidores e prover alguma atmosfera – o que faz com uma curadoria habilidosa de imagens de arquivo pessoal do autor, pôsteres de propaganda da época, spots antigos de rádio, imagens de manuscritos, entrevistas televisivas antigas, trechos de adaptações cinematográficas dos livros. Só algumas reconstituições de cenas da vida do autor com atores parecem desnecessárias, sobretudo por tirarem o foco do rosto de Le Carré, cuja expressividade hipnótica dá a impressão de uma narrativa paralela tão importante quanto as frases que saem de sua boca.

O título do documentário alude a um episódio da vida do autor. Certa vez, Ronnie o levou numa viagem a Monte Carlo, em Mônaco. Uma das diversões do pai era reunir-se com outros homens num pátio do hotel que dava para o mar; de lá atiravam em pombos que apareciam no céu. Os pássaros, no entanto, não eram alvos fortuitos. Vinham de criadouros do próprio hotel. Ali os pombos nasciam e cresciam, até serem direcionados para uma espécie de funil paralelo ao pátio (o “túnel”), de onde depois saíam voando enfileirados, prontos para o abate dos hóspedes. Os pombos que conseguiam escapar dos tiros, por instinto ou costume, voltavam aos criadouros do hotel para repetir o ciclo.

Morris explora muito essa imagem – o voo lúgubre dos pássaros aparece intermitentemente em reencenações na tela, enquanto Le Carré narra sua vida. “Não sei bem por quê, mas a imagem sempre me perseguiu”, diz o escritor, tentando dar um ar misterioso à cena. Mas ela não é particularmente difícil de decifrar. Nasce-se, vive-se e, no breve instante em que parecemos escapar para seguir um caminho livre, nos damos conta de que ele leva de volta à prisão de nossa origem.

O substrato dessa visão fatalista percorre boa parte da ficção de Le Carré. Alec Leamas, o protagonista de O espião que veio do frio, romance de 1963 que alçou o autor à fama, tem muito mais em comum com anti-heróis existencialistas do que com James Bond (a alegoria dos pombos, aliás, parece uma versão mais sombria do mito de Sísifo usado por Albert Camus em seu livro homônimo). Mas ainda que ocasionalmente afete a mesma indiferença fria de um Meursault, o personagem central de Camus em O estrangeiro, Leamas é mais dado a rompantes misantrópicos. No documentário, Morris seleciona um trecho que define bem o estado de espírito do protagonista. Extraído da famosa adaptação cinematográfica do livro, de 1965, a passagem – vociferada num diálogo do protagonista com sua parceira – soa ainda mais raivosa na voz e atuação de Richard Burton:

Que porra você acha que são os espiões? Filósofos morais medindo tudo que fazem contra a palavra de Deus ou Karl Marx? Não são! São um bando de desgraçados esquálidos como eu: homenzinhos, bebuns, bichas, maridos submissos, funcionários públicos brincando de índio e caubói para alegrar a vidinha de merda deles. Você acha que eles se sentam numa cela, como monges, contrapondo o que é certo e o que é errado?

Dado à bebida, desencantado com a profissão, Leamas pede ao chefe para “sair do frio”, o que no jargão da espionagem equivale a deixar o serviço de inteligência. Seu chefe, porém, lhe pede uma última missão: ele deve se fingir de desertor e viajar à Alemanha Oriental para investigar a ascensão rápida de um agente alemão de inteligência, Hans-Dieter Mundt, o mesmo responsável por ter previamente matado muitos colegas de Leamas.

Escrito com impressionante velocidade (o autor terminou a primeira versão do livro em cinco semanas), O espião que veio do frio foi baseado em parte na decepção de Le Carré durante seu período como espião britânico na Alemanha. No documentário, o autor relembra sua frustração com a ubiquidade de nazistas caminhando livremente tanto pela Alemanha Ocidental como pela Alemanha Oriental (“o poder do esquecimento forçado era extraordinário”) e sua repulsa à transição fluida e conveniente de um antinazismo para um anticomunismo fanático.

Le Carré se mudara para a Alemanha sob o disfarce de um cargo diplomático, e lá presenciou a construção do Muro de Berlim – para ele “o símbolo mais obsceno da insanidade do pleito humano”. O espião que veio do frio é uma fábula que destila o impacto do evento no autor, e o fim do livro é apropriadamente trágico. Nem o protagonista e nem sua parceira podem contar com o acolhimento de qualquer instituição, nação ou valor maior – de modo que o “frio” do título pode ser lido num sentido mais atávico, como a condição incontornável de estar sozinho no mundo (no fim, ninguém consegue se aquecer).

No documentário, Le Carré por vezes não apenas confirma essa visão misantrópica de Leamas, como parece se refestelar nela. Um pouco pela convivência com o pai – que só conseguia se sentir vivo e “real” em estado de performance, derramando seu charme e persuadindo os outros num palco – o autor diz ter aprendido desde cedo que a natureza humana é volúvel, não tem solidez. “A traição era um valor de família”, diz. E também: “Não creio que seja possível conhecer um ser humano profundamente.”

Morris evoca a imagem do “quarto vazio” que às vezes aparece na ficção de Le Carré – o símbolo para a ausência de um centro crível de decisões políticas – e Le Carré reforça sua descrença numa suposta ordem regida por valores. “A história é caos.” A julgar por essas frases, o ser humano nunca é dono de si, e uma pessoa nada mais é do que um amálgama de afetações, navegando a vida por instinto e uma espécie de mimetismo frívolo. Quando Morris pergunta se o conceito do quarto vazio poderia simbolizar uma falta de interioridade no próprio indivíduo, Le Carré toma a pergunta para si: “No meu caso, sim. Por outras pessoas não posso falar.” E ao ser indagado se amava seu pai, Le Carré responde: “Eu não sei bem o que é o amor.”

Alec Leamas foi um personagem marcante de Le Carré, mas alguns elementos de O espião que veio do frio (a última missão antes de se aposentar, a paixão por uma mulher num momento inesperado) repetem motifs clássicos do gênero policial e de espionagem. Le Carré deu a resposta mais original ao estereótipo de herói do gênero com o personagem George Smiley, uma figura secundária do livro, colega de Leamas, que depois se tornaria protagonista da obra-prima de 1974, Tinker, tailor, soldier, spy. À aura máscula e fisicamente imponente de James Bond, Le Carré contrapôs Smiley: um espião de meia-idade com sobrepeso e baixinho. Bond é elegante e violento. Smiley, que não tem grande senso estético, é tímido e cerebral. Bond tem casos com muitas mulheres. Smiley é frequentemente traído pela esposa.

Esse último detalhe pode soar patético, mas é uma das características mais belas e reveladoras do personagem. O constante adultério de lady Ann Sercombe não é um ponto cego que reflete um suposto excesso de foco no trabalho ou desatenção à vida pessoal (outro ponto comum em muitos livros do gênero). No fundo, Smiley sabe que é traí­do. A origem do casamento dos dois nunca é elucidada com detalhes, mas o ponto subjacente à relação é que a traição é sempre uma construção: para alguém enganar, é preciso que haja outro disposto a ser enganado, ainda que inconscientemente. É um axioma que estelionatários conhecem bem, e com o qual Le Carré cresceu. Quando fala dos esquemas de Ronnie, o autor realça menos a esperteza ou inteligência do pai do que seu instinto quase supernatural de estar numa sala e farejar esse tipo de fraqueza, escolher a palavra ou a expressão certa para acessar essa vulnerabilidade humana.

Em Tinker, tailor, soldier, spy (cujo título tacanhamente adaptado no Brasil é O espião que sabia demais), a humilhação do adultério reflete também outras humilhações: a de servir uma ex-potência decadente, cujo senso de missão e de valores se diluiu ao longo do tempo; e sobretudo a humilhação provocada pela infiltração no mais alto escalão do serviço de inteligência do país de um agente duplo trabalhando a favor dos soviéticos. Bill Haydon, o polímata formado em Oxford, primo de lady Ann Sercombe, filho puro-sangue da aristocracia inglesa, foi inspirado na figura real de Kim Philby, talvez o mais famoso traidor da pátria e agente duplo da história da Inglaterra, contemporâneo de Le Carré no mi6 durante a Guerra Fria.

O espião que veio do frio é um romance bonito e raro. A alta voltagem narrativa do livro não causa qualquer curto-circuito no conduíte moral da história: o de dramatizar a hipocrisia da Guerra Fria. Mas há, tanto na figura exasperada de Leamas como na conclusão trágica do romance, um desencantamento perigoso que, levado ao extremo, poderia resultar num sentimento antipolítico, uma complacência demagógica em que todas as corrupções se equivalem. Tinker, tailor, soldier, spy é um livro mais complexo, sua trama, mais endógena. Seus personagens não são apenas marionetes da grande geopolítica, impotentes diante da degradação do mundo. Ainda que o cenário institucional permaneça sombrio e hostil, eles têm capacidade de agir moralmente, de fazer escolhas, um campo estreito para chamar de livre-arbítrio. Entre Bill Haydon e George Smiley há uma distância moral enorme e intransponível – a mesma distância entre o que é certo e o que é errado.

Em O túnel de pombos, Le Carré define Smiley como o “pai ideal que nunca teve”. Mas a ética da humilhação de Smiley, sua autoabnegação paciente, o senso instintivo de dever moral – que parece mais e não menos atiçado pela falta de acolhimento institucional – são características que evocam o próprio Le Carré, por mais que ele afete uma descrença completa na humanidade. Magnus Pym – protagonista de Um espião perfeito (1986), o romance mais explicitamente autobiográfico do autor – tem similaridades físicas e biográficas com Le Carré, mas Smiley parece um alter ego não intencional e talvez por isso mais revelador.

No filme, as declarações severas de Le Carré sobre seu pai são sombreadas por um claro esforço do autor de não abandoná-lo completamente ao longo da vida, um senso de obrigação em relação ao progenitor. O retrato de Ronnie como um fanfarrão carismático não contempla a seriedade de alguns de seus crimes. Ele foi preso não apenas por fraudes financeiras, mas, a certa altura, esteve aparentemente envolvido com tráfico de armas na Indonésia, durante um período em que o país tentava se recuperar de uma onda de massacres políticos e um conflito civil, que culminou na Presidência do general Suharto em 1968. Ronnie estava preso em Chicago e, nessa ocasião, como em outras, Le Carré pagou uma fiança altíssima para tirá-lo da cadeia. A última vez que o pai esteve encarcerado foi em Zurique, na Suíça, acusado de fraudar donos de hotéis. Le Carré relembra a dor de ter recebido a ligação (“Não aguento mais ficar na cadeia, filho”) e a imagem mental recorrente que o atormentou por muito tempo, do desconforto físico do pai – um homem forte, robusto – numa celinha da prisão.

No decorrer do documentário, o autor não menciona a vida íntima com os filhos, ou a história de seus dois casamentos. A reticência pode ser lida como decoro ou uma seletividade conveniente, mas tanto Simon como Stephen me disseram ter conhecido o avô, mais um indício de que o rompimento entre Le Carré e o pai nunca foi total. “Nós dois fomos mantidos meio longe dele, sobretudo quando éramos bem menores”, disse Simon. “Mas chegamos a conhecê-lo sim. Eu o conheci no início da minha adolescência […] E nós chegamos a passar um tempo com ele sem qualquer supervisão. No meu caso, lembro de almoços desconfortáveis em que ambos ficávamos sem graça, porque não tínhamos nada em comum, não tínhamos assunto.”

Stephen contou uma história similar. “Me lembro dele durante a minha primeira infância na Alemanha. Depois disso, por um tempo, particularmente depois que nosso pai começou a ter mais sucesso, ele foi gradativamente excluído de nossas vidas, até nos tornarmos adolescentes, quando voltamos a ter contato outra vez.”

A certa altura da vida, Ronnie Corn­well processou seu filho romancista por uma entrevista à imprensa inglesa. A acusação era a seguinte: Le Carré não havia dito que “devia tudo que tinha ao pai”. No documentário, Le Carré parece – por sua expressão facial – entender o quão estapafúrdia a acusação soa. Ainda assim, diz: “A realidade é que, provavelmente, em muitos sentidos, eu realmente devo.” Quando Morris lhe pergunta se é verdade que pagou pelos funerais tanto da mãe como do pai, responde: “Paguei pelo funeral de todo mundo, sim, tenho dinheiro, o que isso quer dizer no fim?”

Talvez Le Carré não carregue a mesma culpa do ex-ministro americano Robert McNamara, um peso tão brutal nas costas. Certamente, sua vida não foi monástica. Vivia bem num casarão na Cornualha. Tinha residências na Suíça e em Hampstead, bairro rico de Londres. Teve uma vida amorosa agitada. (Aspectos de sua vida privada que não aparecem no documentário.) Mas a insistência na relação com o pai, bem como o ato de pagar pelo funeral de uma mãe que abandonara a família cedo, não parecem ações condizentes com o éthos de um niilista, de alguém descrente na humanidade. Da mesma forma, o uso constante de termos como “verdade” (“Da verdade não falávamos, de convicções não falávamos”; “Ronnie não gostava de verdades duras”) remete a certa correção moral. Quando Ronnie encontra o filho para cobrar a fatura do que investiu nele, não é o pedido de dinheiro ou o caráter transacional do pai que deixa Le Carré mais magoado, mas sim o fato de que o pai tenta mentir, tratando-o como uma mera vítima de seus esquemas, enrolando-o com uma história sobre seu desejo de criar gado no interior.

Por mais que se esforce em demonstrar misantropia, há em Le Carré uma noção atávica de certo e errado. Seja na relação tumultuada com o pai, ou discorrendo analiticamente sobre a personalidade do traidor da pátria Kim Philby, ele às vezes soa como um pastor narrando os perigos de cair em tentação. Exímio ilusionista e mímico, bom espião, melhor escritor, diz conhecer e entender o prazer inenarrável da duplicidade, a “volúpia” de se sentir o centro do mundo, definindo os rumos da geopolítica mundial. Imagina e descreve a exultação de Philby ao trazer segredos para os soviéticos. “Agora vocês me amam?”, pergunta Le Carré à câmera, num tom que alude a um estado de graça. Para alguém que nunca se sentiu amado, e que passou a vida aprendendo os maneirismos da aristocracia inglesa, nutrindo uma ânsia de pertencimento – primeiro num internato que odiava em Sherborne; depois em Oxford; depois dando aula em Eton antes de virar espião –, a tentação de sucumbir deve ter sido grande. Seu filho Stephen me descreveu a raiva que Le Carré sentia de Philby como “visceral”. “Desde os 12 anos, [meu pai] conseguia se apresentar como um inglês de classe alta e se mover em qualquer círculo da sociedade, mas escolheu ser leal ao establishment no início de sua carreira. E fez isso com paixão, pois buscava uma causa. […] Philby era o oposto. Ele tinha tudo. Tinha nascido numa grande família, tinha uma educação cara. [Meu pai] tinha raiva porque Philby tinha tudo isso e jogou tudo fora.”

Philby no fim não foi punido. Na leitura de Le Carré, o serviço de inteligência britânico preferiu evitar o tumulto de um julgamento público, deixando-o escapar. Em 1988, durante uma conferência literária em Moscou, Le Carré soube por um escritor russo que Philby admirava seus livros e queria jantar com ele. Le Carré se negou. Como tinha acabado de jantar com o embaixador britânico na noite anterior, disse que não teria coragem de jantar com o representante da rainha num dia e com seu maior traidor no dia seguinte. Le Carré visitara as tentações para negá-las. Ele flertara com o pecado, mas não o cometera. “Houve momentos em minha vida que eu poderia ter me tornado uma pessoa má”, diz.

Uso a analogia religiosa aqui não de forma pejorativa, pois o arrebatamento de ler os romances de Le Carré vem justamente da sensação de estar na mão de um autor moralmente complexo e justo, que ao longo da vida construiu uma espécie de dignidade pessoal incorruptível. Outros titãs do noir e do gênero policialesco (Patricia Highsmith, James Ellroy, Dashiel Hammett) podem nos mostrar os recessos mais obscuros do coração humano, mas só Le Carré parece ter a pretensão de voltar desses cantos com algo para pregar.

“É talvez a questão central da carreira dele como escritor”, me disse Simon, quando lhe perguntei sobre essa contradição entre as declarações misantrópicas e o senso de dever moral do seu pai. “Acho que em algum lugar de si mesmo ele acreditava passionalmente numa ideia de certo e errado. O que não quer dizer que ele julgava tudo com um compasso moral absolutista. Eu acho que no início da carreira dele, ele era, por falta de uma expressão melhor, muito patriótico. Ele acreditava nas instituições. […] Às vezes ele não conseguia acreditar que tinha criado um personagem tão desesperançoso como Smiley, mas mesmo Smiley tem um senso claro, mesmo que implícito, da causa pela qual está lutando. […] Mais tarde na carreira, porém, sua visão de mundo evoluiu de tal maneira que para ele não existia mais um centro institucional. […] Não era só que os padrões de moralidade política estavam em decadência. Estavam praticamente ausentes dos dois lados do Atlântico.” Segundo Simon e Stephen, à medida que a carreira do pai avançou e aumentava seu ceticismo em relação a diversas instituições – religiosas, educacionais, ou governamentais –, o esteio moral dos romances ficou cada vez mais concentrado no indivíduo, em personagens que se sacrificavam em prol de algo mais indefinido, para manter um senso de dignidade. “Ele amava indivíduos”, disse Stephen.

Esse apego a mártires pode soar como uma ode ao estereótipo mais perigoso de romances de gênero: o justiceiro. Mas ninguém refuta esse estereótipo mais veementemente do que George Smiley. Ele é um herói burocrata, tanto no sentido de ser um pouco tedioso como no sentido de que suas vitórias se baseiam não em explodir ou desestruturar grandes burocracias, mas sim em preservar o que ainda há de mais valioso nelas. A grande ironia da posição de Le Carré como o maior cronista da Guerra Fria é que nenhum outro autor foi tão apto a compreender o mundo caótico e multipolar que veio depois dela. Em retrospecto, sua obra pode ser lida como uma série de avisos sobre a fragilidade das democracias anglo-americanas e suas estruturas, a ferida aberta que neopopulismos de extrema direita depois infestariam.

“A perversidade é a musa da literatura moderna”, escreveu Susan Sontag certa vez. “Hoje, a casa da literatura está cheia de amantes insanos, alegres estupradores, filhos castrados.” O ano do artigo é 1963, coincidentemente o mesmo da publicação de O espião que veio do frio. É intrigante que uma exceção à regra de Sontag venha justamente do gênero de espionagem, terreno fértil para a glorificação de falhas de caráter, arena onde o truísmo maquiavélico de que os fins justificam os meios é quase uma premissa. “Que porra você acha que são os espiões?” Leamas – via Richard Burton – vocifera. “Filósofos morais medindo tudo que fazem contra a palavra de Deus ou Karl Marx? […] Acha que se sentam numa cela, como monges, contrapondo o que é certo e o que é errado?” Pelo menos para o mais famoso deles, a descrição não estava tão longe da verdade.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_205 com o título “A luz no túnel de pombos”.


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É escritor, ensaísta e editor de literatura da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)