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tesouros da crítica II

O FIM DA CANÇÃO

Otto Maria Carpeaux narra a crise na Áustria às vésperas da anexação pela Alemanha nazista

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Tradução de André Rosa

O [1] pássaro-da-peste[2] (Bombycilla garrulus) é tão grande quanto um pardal e tem uma cor marrom chamativa e desagradável. Essa ave vive no Norte da Europa e na Sibéria. Na Idade Média, as pessoas temiam a sua aparição, pois acreditavam que a sua chegada era um presságio da peste. É uma ave extremamente rara na Europa Central. Em 4 de fevereiro [de 1938], dois pássaros-da-peste foram avistados no jardim da Câmara Municipal de Viena.

Mas Viena não temia os pássaros-da-­peste. No mesmo dia 5 de fevereiro, quando foram anunciadas as novas nomeações feitas em Berlim, o chanceler Schuschnigg[3] participou da grande festa de gala do Carnaval vienense, o Baile da Ópera. Ele trajava o uniforme preto da tropa de assalto, que acabara de ser criada e cujos soldados juraram oferecer a máxima resistência a todos os perigos que ameaçavam a Áustria.

Em 6 de fevereiro, Von Papen[4] esteve com Adolf Hitler. Compartilhou com ele as experiências que teve em Viena e afirmou que era possível enfraquecer Schuschnigg por meio de negociações habilidosas e assim tirar dele o perigoso documento “R.H.”.[5] Hitler concordou em adiar por um tempo os seus planos. Papen, que acabara de se despedir de seus amigos vienenses, retornou de modo absurdamente rápido à cidade e convidou o chanceler para visitar Adolf Hitler em Obersalzberg, perto de Berchtesgaden.[6]

Não havia uma terceira pessoa na reunião entre Schuschnigg e Von Papen. Nenhum deles está em posição de falar abertamente hoje, e não se sabe com quais argumentos Papen convenceu o chanceler a aceitar o convite de Hitler. Todavia, é certo que Papen mencionou a iminente invasão da Áustria e argumentou que a única maneira de escapar desse risco era por meio de uma última tentativa de aproximação. Também é um fato que Guido Schmidt[7] insistiu para convencer o chanceler a aceitar o convite. Mas a atitude de Schmidt não foi clara nem inequívoca. O traidor estava envolvido em tantas conspirações distintas que já não conseguia mais enxergar claramente sua própria posição no centro daquela rede de intrigas, ao mesmo tempo em que tentava convencer e alertar.

Schuschnigg telefonou para Roma e recebeu uma resposta ambígua de Mussolini: “Meu caro, tenho total confiança em suas habilidades políticas”. Em vista desse retorno, Schuschnigg concluiu que não podia mais esperar nenhum apoio de Roma. Ele estava sozinho. Restava-lhe apenas negociar diretamente com o inimigo da Áustria.

Na tarde de 12 de fevereiro de 1938, outro daqueles sábados tempestuosos, espalhou-se por Viena um rumor segundo o qual Guido Schmidt havia retornado de uma visita secreta a Berchtesgaden. O governo teve de admitir que a notícia era real. Ao anoitecer, a verdade não pôde mais ser mantida em segredo: o próprio chanceler havia ido pessoalmente a Berchtesgaden.

Schuschnigg levou consigo o documento R.H. Ele queria colocá-lo sobre a mesa, mas sobre ela já havia outra coisa: um mapa da Áustria no qual estava indicada a direção da marcha das tropas alemãs. Enquanto vislumbrava aquele mapa, Hitler fez Schuschnigg esperar por 45 minutos. Ele cumprimentou o chanceler rispidamente e, contrariando todas as convenções da língua alemã, não o tratou como “excelência”, “senhor chanceler” ou “doutor Schuschnigg”, mas simplesmente como “senhor Schuschnigg”. Hitler declarou: a questão da anexação não era mais uma questão; tratava-se apenas de saber se ela ocorreria com ou sem derramamento de sangue. Quando Schuschnigg apelou para a garantia de independência da Áustria, Hitler respondeu-lhe furiosamente: “O quê? Você se atreve a me contradizer, o maior alemão de todos os tempos?”

Durante essa reunião, os generais Keitel e Von Reichenau[8] foram consultados várias vezes a respeito das possibilidades militares. Hitler se dirigiu duas vezes à sala ao lado, onde era esperado por Gustav von Wächter e Rudolf Weydenhammer, os responsáveis pelo assassinato do chanceler [Engelbert Dollfuss], em 25 de julho de 1934.[9] Um programa de exigências foi apresentado ao chanceler; Schuschnigg recusou-se imediatamente a recebê-­lo. Hitler ficou furioso. Schuschnigg teve a impressão – e esta observação veio de sua própria boca – de que estava lidando com um louco. Ao longo de toda a reunião, que durou várias horas, Hitler não permitiu que o chanceler fumasse, na tentativa de persuadi-lo, pois sabia que Schuschnigg era um fumante inveterado. Foi dado um ultimato para até a manhã do dia 16 de fevereiro: nesta data, o governo da Áustria deveria mudar a sua orientação para a nacional-socialista. Hitler não acompanhou o chanceler até o carro.

Em Viena, compreendeu-se imediatamente, mesmo sem um comunicado oficial claro, o que significara a reunião de Berchtesgaden. Os nacional-socialistas aguardavam ansiosos pelo que viria a seguir. No domingo, a alegria deles deu lugar à depressão. O presidente Miklas[10] e o Conselho de Ministros pareciam determinados a se opor. Os debates se prolongaram durante dias e noites. Na noite de 15 de fevereiro, Hitler saiu vitorioso. Foi anunciada a mudança de governo: o advogado Arthur Seyss-Inquart tornou-se ministro da Administração Interna e Segurança,[11] Guido Schmidt tornou-se ministro das Relações Exteriores.

Os terroristas nacional-socialistas que tinham sido detidos nas últimas semanas foram imediatamente libertados com a anistia geral. O dr. Hugo Jury,[12] um radical nacional-socialista da Baixa Áustria, passou a integrar o Conselho de Estado. No escritório da Rua Teinfalt criou-se um novo “gabinete político popular”, à frente do qual foi colocado o major [Hubert] Klausner, líder nacional do NSDAP[13] para a Áustria.

O sacrificado de 12 de fevereiro de 1938 foi o chefe do Estado-Maior austríaco: [Alfred] Jansa. Ele foi considerado um “inimigo” da Alemanha por ter optado, em uma importante transação, por uma empresa suíça cujos serviços eram mais baratos que os da alemã I.G. Farben. Jansa foi substituído pelo general Schillhawsky, que era benquisto em Berlim. A Áustria estava indefesa.

Wilhelm Wolf,[14] bastante conhecido por nós como chefe de seção da chancelaria e um “nacionalista católico”, desempenhou um papel decisivo nessa reviravolta dos acontecimentos. Desde o dia 6 de fevereiro, ele telefonava constantemente a Berlim para informar sobre tudo o que acontecia em torno do chanceler.

No dia seguinte, 16 de fevereiro, Seyss-Inquart voou para Berlim. Ele se reuniu com Hitler e, o que era alarmante, também com Heinrich Himmler, o então chefe da Gestapo. A essa altura, já estava claro que atuava como um representante dos alemães e viajava a Berlim para receber ordens e instruções.

Daquele dia em diante, a situação em Viena e nas províncias mudou completamente. Os nacional-socialistas eram os donos das ruas. As insígnias e as bandeiras com a suástica, até então proibidas, estavam por toda parte; a canção de Horst Wessel,[15] também vetada, era cantada abertamente; a saudação censurada a Hitler era feita em tom provocativo por toda parte. Uma grande multidão se reuniu em frente a uma estátua de Hitler que havia sido exposta pela administração das ferrovias alemãs em seus escritórios no Centro de Viena. O estado de delírio geral chegou ao paroxismo quando, no dia 20 de fevereiro, Hitler proferiu seu discurso excessivamente confiante e orgulhoso no Reichs­tag alemão, onde agradeceu de forma ameaçadora e irônica ao chanceler [austríaco] por ter cedido e assim evitado certas consequências terríveis. Em Viena, esperava-se que, por causa de tantas concessões, Hitler ao menos reconhecesse em seu discurso a condição de independência da Áustria. Mas o autor de Mein Kampf não foi capaz de fazer isso.

Hordas agitadas e barulhentas percorriam as ruas de Viena. As tímidas contramanifestações da Frente Patriótica[16] não emplacavam. Rapazotes imaturos eram os donos da cidade. A polícia – que recebia instruções contraditórias vindas do chanceler Schuschnigg e de Seyss-Inquart, então ministro do Interior – não conseguia intervir. Dizia-se que o chefe da polícia, [Michael] Skubl, que até então era visto por todos como confiável, admitia abertamente o nacional-socialismo.

Quatro dias depois, Viena ganhou outros contornos. Em 22 de fevereiro, Schuschnigg recebeu a visita de [Francesco] Salata, o ex-embaixador italiano em Viena, que era tido como homem de confiança especial de Mussolini. Salata havia apoiado Schuschnigg de forma não oficial e sem compromisso. Aparentemente, Mussolini não tinha ideia de como a aventura iria se suceder e apostou em dois cavalos. Assim encorajado, Schuschnigg, no dia 24 de fevereiro, proferiu um discurso corajoso diante das instituições legislativas, que atingiu o seu clímax com as palavras: “A Áustria só cederá até aqui, e nada mais.”

Os nacional-socialistas interpretaram esse discurso como prova de que Mussolini ou as potências ocidentais haviam prometido apoio ao chanceler. Essa vaga suspeita foi o suficiente para mudar completamente o clima. As hordas desapareceram imediatamente das ruas. Ficou claro que a força que parecia ostentar estava apenas em sua gritaria. A população, que permaneceu leal à sua pátria, era definitivamente a maioria. O chanceler Schuschnigg recebeu entusiasmadas expressões de simpatia de todas as classes e, em 26 de fevereiro, o cardeal [Theodor] Innitzer, de Viena, ofereceu orações solenes pela liberdade e independência da Áustria em todas as igrejas da sua arquidiocese.

A situação era diferente nas províncias, sobretudo na Estíria, onde os nacional-socialistas se sentiam mais fortes. No dia 1º de março, eclodiu uma verdadeira arruaça em Graz. Durante dois dias, os nacional-socialistas ocuparam o Centro da cidade e promoveram uma série de ataques terríveis. Foi somente no dia 3 de março que Seyss-­Inquart decidiu viajar até Graz para chamar os membros do seu partido de volta à ordem.

Aparentemente, o plano era minar a autoridade do Estado por meio de ações revolucionárias e assim provocar a entrada das tropas alemãs. O governo precisava buscar aliados. No mesmo 3 de março, ocorreu a primeira reunião entre Schuschnigg e os líderes dos trabalhadores socialistas.

Também em Linz, a capital da região onde nasceu Hitler, a situação ficou caótica durante alguns dias. Em 5 de março, Seyss-Inquart discursou na cidade e disse: “A independência da Áustria necessita da garantia de Adolf Hitler.” Não é possível saber com certeza se Seyss-Inquart realmente acreditava numa Áustria ao mesmo tempo independente e nacional-socialista sob a sua liderança, ou se estava mentindo.

Em todas as ocasiões, as ações de Seyss-Inquart foram diferentes de suas palavras. Embora tivesse que admitir claramente que os nacional-socialistas estavam se preparando para uma insurreição e embora, como católico devoto, também tivesse que se sentir comprometido por seu juramento, ele proibiu a polícia de agir contra os manifestantes nacional-socialistas e, ao fazê-lo, levou em conta a ordem expressa de seu chefe supremo. A polícia não sabia mais o que fazer. Em alguns bairros de Viena, eles dispersaram os manifestantes com cassetetes; em outros, foram saudados com Heil, Hitler. A fim de zelar por aquela orientação instável e caótica, o Conselho de Estado nomeou Jury, que manteve discursos incitadores na rádio vienense.

Ficou nítido para todos que as coisas não poderiam continuar assim e que os acontecimentos estavam caminhando para um rápido fim. Naquele perigoso momento, Schuschnigg superou a sua tendência inata para as incertezas en clair-obscur e decidiu acertar as coisas. No dia 9 de março, em Innsbruck, ele subiu ao púlpito diante de uma multidão imensa de agricultores tiroleses armados.

Apenas os mais bem informados sabiam de sua decisão, mas ela já havia sido revelada em Berlim e em Roma. Precisamente no momento que Schuschnigg estava prestes a começar a sua fala, o cônsul-geral italiano, que exercia seu cargo em Innsbruck, foi até o púlpito e informou-lhe que Mussolini formalmente proibia o discurso anunciado.[17] Mas Schuschnigg não podia mais ser detido.

O chanceler lembrou ao povo do assassinato de Engelbert Dollfuss e exclamou: “Nunca se esqueçam!” E se dirigiu aos seus compatriotas tiroleses no antigo estilo combatente de sua região natal: “Homens, a hora é agora!” Depois anunciou que no domingo, 13 de março, o povo austríaco poderia decidir livremente o seu destino por meio de um referendo.

Houve um intenso debate na imprensa mundial sobre como iria acontecer essa votação. Antes de falar sobre esse ponto, é importante observar que o regime de Schuschnigg oferecia uma contagem dos votos mais justa e melhores garantias para a liberdade de voto do que o regime de Hitler.

Não é o autor deste livro que afirma isso; qualquer observador estrangeiro e imparcial da Áustria que estava no país à época confirmaria essa mesma impressão relatada por testemunhas locais, ou seja, que Schuschnigg teria obtido uma maioria de 60% a 70% na votação. A melhor evidência disso foi a atitude desesperada dos nacional-socialistas naquele momento; eles sabiam muito bem que não poderiam obter a maioria de votos, então decidiram se abster. Mas a principal prova da precisão desse cálculo era o próprio Adolf Hitler, que preferiu arriscar uma guerra mundial a permitir que a votação acontecesse.

Em 10 de março de 1938, a liberdade austríaca chegou ao fim. Todo o país havia participado de entusiasmadas manifestações em apoio ao chanceler. O governador [Josef] Reither, da Baixa Áustria, líder dos agricultores austríacos, havia decidido que, em uma situação de risco, ocuparia Viena com 100 mil camponeses. O chanceler encontrou aliados que jamais esperaria. A comunidade judaica de Viena e a aliança de nobres católicos, duas entidades que até então nunca haviam estado numa frente comum, doaram grandes quantias pa­ra garantir a realização do referendo. O chanceler recebeu uma delegação dos metalúrgicos socialistas; eles o lembraram de que a sangrenta repressão aos trabalhadores austríacos e o infeliz encontro em Berchtesgaden haviam ocorrido, ambos, em 12 de fevereiro. O chanceler compreendeu as palavras deles e prometeu que o movimento político dos trabalhadores seria imediatamente restabelecido. O prefeito [Richard] Schmitz, de Viena, o mais feroz de todos os antimarxistas, chegou a um acordo com os líderes dos operários e considerou a formação de brigadas armadas de trabalhadores. No entanto, deve ser esclarecido enfaticamente que essas decisões não foram levadas adiante e que todas as notícias sobre uma insurreição armada dos trabalhadores eram falsas. Houve, de fato, uma grande agitação nos bairros proletários de Viena. No entanto, eles não fizeram nada além de levantar o punho cerrado em saudação socialista e gritar Heil, Schuschnigg.

De qualquer maneira, o povo austríaco nitidamente estava ciente da situação e unido em suas opiniões. Não obstante, o ministro Seyss-Inquart é que não parecia estar de acordo consigo mesmo. Ele comunicou ao líder da Frente Patriótica, o ministro [Guido] Zernatto, o seu pleno acordo com o referendo e, ao mesmo tempo, disse a outras pessoas que pretendia renunciar. Em Berlim, também não se sabia bem o que fazer, sobretudo porque lorde Halifax[18] comunicou a Ribbentrop,[19] ministro das Relações Exteriores da Alemanha que então se encontrava em Londres, que o governo britânico concordava com o referendo de Schuschnigg. Contudo, Ribbentrop conseguiu telefonar para Berlim e informou que a Inglaterra não interviria militarmente. Não havia a necessidade de dar atenção ao protesto furioso na Câmara francesa, especialmente porque a França não tinha um governo capaz de agir naquele momento. E o paladino da segurança coletiva, Anthony Eden,[20] havia sido destituído algumas semanas antes. O Conselho de Ministros em Berlim se reuniu durante toda a noite. Pela manhã, a decisão foi tomada.

A manhã de 11 de março de 1938 havia chegado. Os jornais alemães falavam de uma insurreição comunista na Áustria e faziam parecer que uma intervenção da Alemanha era inevitável. A rádio alemã também declarou ao amanhecer que a conduta de Schuschnigg levaria o país a uma séria catástrofe. Aparentemente, para evitar essa catástrofe, o alto-comando do Exército alemão ordenou grandes deslocamentos de tropas ao longo da fronteira austríaca. Quando um enviado inglês, Henderson,[21] pediu mais informações a esse respeito no Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, responderam-lhe friamente dizendo que não havia qualquer movimentação de tropas.

Os nacional-socialistas austríacos ainda não estavam completamente seguros de que a Alemanha interviria e continuaram com a tática dos últimos dias. Em Graz, eles tentaram fazer uma revolução, que foi reprimida violentamente pelo Exército. Jury, o conselheiro juramentado do Estado austríaco, distribuiu milhares de panfletos pedindo ao povo que boicotasse o referendo.

Na véspera, Keppler,[22] o “encarregado de negócios do Führer”, tinha chegado a Viena fingindo preparar uma melhoria nas relações econômicas entre a Áustria e o Reich alemão. Keppler, um economista, era um dos conselheiros mais íntimos do Führer. Pela manhã, ele teve uma longa conversa com Seyss-Inquart. Às onze da manhã de 11 de março de 1938, os ministros Seyss-Inquart e Glaise-­Horstenau[23] compareceram perante o chanceler e exigiram dele, de seu próprio chefe de governo, que a votação fosse adiada, do contrário haveria o risco de invasão do país pelas tropas alemãs. Foi o primeiro ultimato. Só Deus sabe por que Schuschnigg não levou imediatamente os dois homens a julgamento.

Mas Schuschnigg decidiu revidar. Ao meio-dia, suas negociações com os líderes trabalhistas haviam terminado e ele tinha recebido a garantia deles de que os trabalhadores agora estavam unidos em apoio ao governo. A Heimwehr,[24] que havia sido dissolvida há muito tempo, foi reestruturada, e o major Fey[25] prometeu ao chanceler que mobilizaria 100 mil homens. Mas, ao mesmo tempo, também se soube que o conde Re­vertera,[26] diretor de Segurança da Alta Áustria, que vinha das fileiras da Heim­wehr e até então tinha sido um inimigo implacável e perseguidor do nacional-­socialismo, ascendeu subitamente como um líder ss da Alta Áustria. Os nacional-socialistas mobilizaram os seus apoiadores. Em longas colunas, eles marcharam em direção ao Centro de Viena, onde, no entanto, encontraram todos os pontos importantes ocupados por soldados e policiais. Não foram realizadas mais manifestações. As ruas estavam silenciosas, mas tinham a aparência de um acampamento militar.

Às 13 horas, Franz von Papen chegou à chancelaria federal e entregou um ultimato do Reich alemão. Era o segundo ultimato daquele dia. Eles exigiam que a votação fosse adiada por tempo indeterminado e que o governo fosse alterado. O último parágrafo mencionava a Reichswehr [defesa do Reich] alemã. O ultimato tinha um prazo de três horas. Após uma hora de reflexão, Schuschnigg recusou a oferta. Às 14 horas, ele anunciou a sua renúncia, que não foi aceita. Schuschnigg ordenou a mobilização de duas divisões. Guido Schmidt conversou por várias horas ao telefone com Berlim.

No final da tarde, Bürckel[27] chegou a Viena de avião. Ele trouxe um terceiro ultimato, que foi entregue pessoalmente ao presidente Miklas por Keppler e a [Wolfgang] Muff, adido militar alemão, às 19 horas. O ultimato exigia o seguinte: o adiamento do referendo por tempo indeterminado, a renúncia de Schuschnigg, a nomeação de Seyss-­Inquart como chanceler e a convocação da Legião Austríaca. O ultimato expirava às 21 horas e parecia indicar que, em caso de rejeição, a Reichswehr alemã invadiria imediatamente o país. O presidente Miklas recusou-se a aceitar o ultimato.

Hoje, não faz muito sentido se perguntar o que teria acontecido se… Schuschnigg tivesse resistido com armas; uma guerra mundial teria sido inevitável, e a Áustria teria sido salva à custa de inúmeras vidas humanas. Ao não aproveitar essa possibilidade, Schuschnigg traiu sua pátria enquanto estadista e cumpriu seu dever como ser humano.

Às 19h47, o chanceler Kurt von Schuschnigg falou ao microfone da rádio de Viena para comunicar o seguinte: “O dia de hoje nos trouxe a uma situação séria e decisiva. Recebi a ordem de informar ao povo austríaco sobre os eventos do dia. O governo alemão enviou ao presidente um ultimato exigindo que o candidato apresentado pelo Reich alemão seja nomeado como chanceler e, de acordo com as propostas do Reich alemão, forme um novo gabinete; caso contrário, as tropas alemãs entrarão na Áustria assim que o prazo do ultimato chegue ao fim. Quero deixar claro para o mundo inteiro que as notícias espalhadas na Áustria de que distúrbios teriam eclodido entre os trabalhadores, que rios de sangue teriam sido derramados, que o governo não mais controlaria a situação e não seria capaz de manter a ordem por meios próprios são completamente inventadas. O presidente me encarregou de comunicar ao povo austríaco que só iremos ceder diante da violência. Co­mo em nenhuma circunstância, nem mesmo neste momento grave, queremos derramar sangue alemão, demos ordens ao nosso Exército para se retirar sem resistência no caso de tropas alemãs cruzarem nossas fronteiras e esperar as decisões das próximas horas. Despeço-me do povo austríaco com uma palavra alemã e com um desejo sincero que vem do coração: que Deus proteja a Áustria!”

Às 19h47, o último discurso do último chanceler austríaco começou, e às 19h50 já havia terminado. O chanceler foi agarrado pelo braço por Seyss-Inquart e afastado do microfone. Pouco tempo depois, ele foi levado sob custódia.

Seguiu-se um longo período de silêncio. Às 20h18, o próprio Seyss-­Inquart se dirigiu ao microfone. Ele declarou que ainda se considerava ministro do Interior e que manteria a ordem. Instou as Forças Armadas a não oferecer resistência às tropas alemãs que estavam entrando no país. Às 21h05, as primeiras tropas alemãs cruzaram a fronteira austríaca. Todavia, Seyss-Inquart possivelmente enviou o telegrama apócrifo convidando o Exército alemão a fazer uma visita amigável à Áustria.

À uma da madrugada, a composição do novo governo foi anunciada. Seyss-­Inquart, é claro, tornou-se o chanceler, e Wilhelm Wolf, o ministro das Relações Exteriores.

Durante a noite de 11 para 12 de março, os bombardeiros alemães em rota para Viena sobrevoaram a cidade. Na manhã seguinte, cerca de 250 aviões alemães estavam reunidos em Viena. Ao longo de toda a noite, armas foram distribuídas continuamente a meninos de 12 a 16 anos, que seriam encarregados da ordem pública. A polícia foi equipada com braçadeiras de suásticas. Às quatro da manhã, toda a imprensa foi colocada sob controle. Às 5 horas, o prefeito Schmitz foi detido. Por volta do mesmo horário, Heinrich Himmler, chefe da Gestapo, chegou a Viena e ordenou cerca de mil prisões. A agência de notícias alemã informou que as tropas haviam entrado na Áustria.

Na manhã de 12 de março de 1938, às 8 horas, Seyss-Inquart, que havia recebido ordens diretas de Hitler, forçou a renúncia do presidente enviando uma unidade de infantaria ao gabinete do chefe de Estado. A Frente Patriótica foi dissolvida. Como numa avalanche, em um período de poucas horas houve uma mudança total em todos os postos de liderança. O número de presos subiu para 8 mil: sob a vigilância da SA, foram levados em grandes caminhões nos quais se amontoavam pálidos e trêmulos. As primeiras tropas motorizadas apareceram à tarde. A cidade inteira ecoou com os gritos e a agitação dos jovens que bradavam incessantemente Sieg Heil! e Um povo, um império, um líder!

Às 13 horas, um protesto franco­-inglês em Berlim foi severamente rejeitado pelo governo alemão. O primeiro-ministro inglês não conseguiu obter uma resposta clara do governo italiano. Às 16h15, Adolf Hitler chegou a Linz.

O que se seguiu pode ser narrado rapidamente. Em 13 de março, o governo Seyss-Inquart – cujos membros estavam em Linz – promulgou uma lei que selou a anexação da Áustria ao Reich alemão. Em 15 de março, Adolf Hitler esteve em Viena, de onde partiu dois dias depois. Josef Bürckel foi nomeado líder regional e ficou encarregado de organizar um referendo. A votação ocorreu em 10 de abril e 99,25% dos eleitores se manifestaram a favor da Anschluss. Esse percentual não deve ser entendido com base na psicologia das massas, mas sim pela técnica policialesca que foi aplicada. A Áustria já não existia mais. Os Estados federados individuais foram incorporados ao Reich alemão como províncias; o governo estadual austríaco, presidido por Seyss-Inquart, estava encarregado apenas da regulamentação dos assuntos. A Baixa Áustria e a Alta Áustria tiveram que mudar seus nomes para Baixo Danúbio e Alto Danúbio.

Até o nome milenar da Áustria tinha desaparecido.


Capítulo extraído do livro Van Habsburg tot Hitler.

[1] Pseudônimo de Otto Maria Carpeaux. O título deste texto é o mesmo do capítulo do livro de onde foi extraído, Von Habsburg tot Hitler (Dos Habsburgos a Hitler). (Todas as notas são da redação, exceto as assinaladas com N. T., nota do tradutor, André Rosa.)

[2] Normalmente, o nome dessa ave, em português, é traduzido como tagarela-europeia, designação bem mais simpática se comparada ao seu nome em holandês: Pestvogel (pássaro-peste). Em função da fluidez e da clareza do texto, optei por traduzir como pássaro-da-peste. (N. T.)

[3] Kurt von Schuschnigg (1897-1977) foi o último chanceler da Áustria antes da anexação pela Alemanha. Governou o país entre 1934 e 1938.

[4] Franz von Papen (1879-1969) foi chanceler da Alemanha em 1932 e vice-chanceler de Hitler entre 1933 e 1934. Foi embaixador da Alemanha na Áustria (deixou o cargo em 4 de fevereiro de 1938).

[5] Em janeiro de 1938, quando ocorreu a prisão de Josef Tavs, então secretário de uma organização clandestina nazista chamada Comitê dos Sete, na Áustria, foram encontrados em seu apartamento alguns documentos com instruções para organizar um levante generalizado, entre os quais alguns papéis assinados por r. h. (iniciais de Rudolf Hess), que ordenavam a criação de tumultos na Áustria nas primeiras semanas de abril (como conta Herbert V. Wright no texto The legality of the annexation of Austria by Germany, publicado em The American Journal of International Law, vol. 38, nº. 4, de 1944, na p. 626). (N. T.)

[6] Obersalzberg, no Sul da Alemanha, é uma região montanhosa no município de Berchtesgaden, situado a cerca de 30 km da cidade de Salzburgo, na Áustria. Foi em Obersalzberg que Hitler mandou erguer sua segunda principal residência, Berghof.

[7] Guido Schmidt (1901-57), diplomata austríaco, era secretário de Relações Exteriores. Em 12 de fevereiro de 1938, por pressão de Hitler, foi elevado ao posto de ministro das Relações Exteriores.

[8] Wilhelm Keitel (1882-1946) foi marechal de campo do Supremo Comando das Forças Armadas alemãs, de 1938 a 1945. Foi condenado à morte no julgamento dos nazistas em Nuremberg e executado em 16 de outubro de 1946. Walter von Reichenau (1884-1942) foi o general que comandou o 6º Exército alemão na invasão da Bélgica, da França e da Rússia.

[9] Otto Gustav von Wächter (1901-49) era um membro do alto-comando da SS. De origem austríaca, foi um dos mentores do golpe fracassado contra o chanceler Dollfuss. Como governador da Cracóvia, na Polônia, fez com que 15 mil judeus fossem transferidos para o Gueto de Varsóvia. Morreu de icterícia em Roma, onde se refugiou depois da guerra, com uma falsa identidade. O alemão Rudolf Weydenhammer (1890-1972) foi um militar e político nazista.

[10] Wilhelm Miklas (1872-1956) foi presidente da Áustria de 1928 a 1938.

[11] Cargo equivalente a ministro do Interior. O austríaco Arthur Seyss-Inquart (1892-1946) foi nomeado chanceler da Áustria logo após a anexação. Pouco tempo depois, os nazistas transformaram a Áustria em mera província da Alemanha, com o nome de Ostmark. Ele foi condenado à morte em Nuremberg e enforcado.

[12] Hugo Jury (1887-1945), médico e político austríaco, foi chefe adjunto do Partido Nazista na Áustria entre 1936 e 1938. Depois, exerceu diversas funções a serviço de Hitler. Suicidou-se no dia da capitulação da Alemanha.

[13] Sigla em alemão do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista, fundado em 1920.

[14] Wilhelm Wolf (1897-1939) foi o último ministro das Relações Exteriores da Áustria antes da anexação.

[15] Horst Wessel (1907-30) foi um militante da SA, organização paramilitar nazista. Foi morto por um comunista e transformado em mártir pelos seguidores de Hitler. Uma canção cuja letra ele havia escrito virou o hino nazista e, mais tarde, uma espécie de segundo hino nacional da Alemanha, sob o regime hitlerista.

[16] Organização criada em 1933 pelo chanceler Dollfuss, de viés fascista, mas que pregava a independência da Áustria em relação à Alemanha nazista e a identidade católica do país. Em 1934, tornou-se o único partido do país.

[17] O texto não esclarece por que Mussolini julgava-se na posição de dar ordens ao chanceler austríaco.

[18]  Edward Frederick Lindley Wood (1881-1959), político conservador inglês.

[19] Joachim von Ribbentrop (1893-1946) permaneceu ministro das Relações Exteriores da Alemanha nazista de 1938 até o fim da guerra. O Tribunal de Nuremberg o condenou à morte por enforcamento.

[20] Anthony Eden (1897-1977) foi ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido entre 1935 e 1938. Também foi primeiro-ministro do país de 1955 a 1957.

[21] Sir Nevile Henderson (1882-1942) foi embaixador do Reino Unido na Alemanha entre 1937 e 1939.

[22] Wilhelm Keppler (1882-1960) era empresário, conselheiro econômico de Hitler. Em Nuremberg, foi condenado a dez anos de prisão.

[23] Edmund Glaise-Horstenau (1882-1946), militar austríaco, foi ministro do Interior durante o mandato de Schuschnigg. Depois, atuou nas Forças Armadas nazistas.

[24] Heimwehr era uma força paramilitar austríaca de extrema direita, nacionalista e avessa à democracia parlamentar, porém antinazista.

[25] Emil Fey (1886-1938), militar, comandou a Heim­wehr e foi vice-chanceler da Áustria de 1933 a 1934. Logo após a anexação do país, matou sua família e se suicidou.

[26] Peter Revertera-Salandra (1893-1966), nobre austríaco de inclinação fascista.

[27] Josef Bürckel (1895-1944), político alemão nazista que exerceu postos de comando na Áustria depois da anexação.


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É o pseudônimo do jornalista, ensaísta e crítico Otto Maria Carpeaux (1900-78), autor de História da literatura ocidental (Leya)