anais da guerra e da diplomacia III
Michel Gherman Out 2023 15h00
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Como quase todas as pessoas que conheço, fui pego de surpresa no dia 7 de outubro, sábado. Eu estava envolvido nesse dia com preparações de aulas e atividades de fim de semana, quando meu telefone começou a tocar. Era manhã no Brasil e tarde no Oriente Médio. Entendi depois que, justamente naquela hora, os acontecimentos em Israel estavam no auge. Familiares e conhecidos faziam contato para saber notícias do que tinha ocorrido e perguntar sobre parentes e amigos. Todos pediam ajuda para entender o que estava acontecendo em um país que eu conheço tão bem.
Depois de responder às pessoas mais próximas, muito angustiadas, dizendo que eu me informaria sobre como estavam todos na Haaretz (forma carinhosa de falar de Israel), comecei a receber outras ligações. Agora, de jornalistas. Jornais e emissoras de tevê pediam minha avaliação sobre o que estava ocorrendo, mas também sobre o que eu pensava que poderia acontecer. Não falavam mais com o Michel de Israel, mas com o professor. Enquanto procurava informações na mídia israelense, entendi que eu passara a ser, naquele momento, fonte para a análise de um evento que eu mesmo ainda custava a entender.
Dentre todas as mensagens e telefonemas, foi justamente um áudio em um grupo grande de WhatsApp que se mostrou para mim revelador do que ocorreria em Israel, na Faixa de Gaza e – o que seria minha surpresa – também no Brasil. A mensagem vinha de Israel. A voz feminina, com sotaque carioca e ritmo israelense, dizia que estava bem, que tinha se salvado, mas falava também de tiroteios e bombas em uma festa, segundo ela, “com muitos brasileiros”.
Algumas horas depois entendi que a voz era de uma sobrevivente da rave Universo Paralello, criada por um DJ brasileiro e organizada por uma produtora israelense. A festa – que ocorreu na região de Re’im, próxima da Faixa de Gaza – e um kibutz das redondezas foram atacados por terroristas do Hamas, que deixaram centenas de mortos. A maioria era jovem e, dentre eles, havia alguns brasileiros.
Ainda não descobri de quem era a voz.
As próximas horas foram terríveis. Além das notícias de muitos mortos, inclusive crianças, ficamos sabendo sobre mulheres atacadas e o sequestro de muita gente. O Hamas produzira um cenário de destruição e barbárie na região ao Sul de Israel. Tudo inesperado e incompreensível naquele momento. O quadro era tão extremo, que o próprio conceito de “ataque terrorista” não parecia suficiente para explicar os acontecimentos daquele 7 de outubro – cinquenta anos e um dia depois do início da Guerra do Yom Kippur. Era impressionante, simbolicamente, que meio século depois estivéssemos presenciando uma falha tão grave da segurança e da inteligência de Israel. Estava claro que o massacre produziria mudanças estratégicas inimagináveis na região e levaria a uma reação muito forte de Israel contra o Hamas em Gaza.
Além de tentar obter informações sobre amigos e familiares, a preocupação central das próximas horas era discutir a consequência desses ataques com colegas pesquisadores e jornalistas. Era evidente que se tratava de um evento terrível que alterava tudo que conhecíamos das relações entre palestinos e israelenses.
Foi justamente por esse motivo que uma colega e amiga me chamou para um debate na PUC-Rio, no dia 10 de outubro, terça-feira. O objetivo era tentar entender e avaliar os efeitos políticos dos ataques, no curto e no médio prazo. Por ser feriado na quinta-feira, imaginamos que não haveria muito público no encontro. Mesmo assim, era importante iniciar a discussão e criar um “observatório do conflito” para analisar seus desdobramentos e consequências.
Na terça-feira, a caminho da PUC, resolvi ouvir uma rádio israelense para saber das novas notícias, enquanto atravessava os engarrafamentos da Lagoa Rodrigo de Freitas. Em meio a relatos sobre os corpos encontrados e as reais proporções da barbárie, ouvi a notícia de que um conhecido meu havia sobrevivido, mas perdera toda a família. Saber disso pela rádio me deixou atordoado. Pensei em cancelar a participação no debate, mas reavaliei, e continuei meu caminho até a universidade. De tão desorientado, perdi o caminho para entrar na PUC algumas vezes e acabei me atrasando para o debate. Ao chegar, me disseram que a mesa já se iniciara, porque o clima no local “estava estranho”.
Para minha surpresa, o auditório estava cheio e parecia dividido. Alunos da PUC e certa militância judaica (ao que parecia, também de estudantes da universidade) se encontravam lado a lado, como que disputando espaços no auditório. Entre as cerca de cem pessoas na plateia, notei jovens com camisas de Israel e símbolos judaicos. Confesso que, ao vê-los, fiquei aliviado, pois estava angustiado com a necessidade de ter que afirmar para militantes de esquerda radicalizados a importância de considerar os atos do Hamas como terror e barbárie.
Falei depois de Nizar Messari, da Universidade Al Akhawayn, do Marrocos, que participou por teleconferência e tinha posições bem distintas das minhas sobre o Hamas e a questão palestina. Não demorei a entender que aqueles estudantes apinhados em um setor do auditório eram pessoas conservadoras, produto da dinâmica de colonização do judaísmo pela extrema direita nos últimos anos. Um misto de indignação, raiva e desespero marcava seus rostos, enquanto eu falava do Hamas como grupo terrorista e avaliava os atos cometidos em Israel como uma barbárie de consequências imensuráveis.
Minha percepção sobre a irritação daqueles jovens aumentou quando falei da importância de avançar na solução de dois Estados, um israelense e um palestino, e afirmei que o fracasso histórico da segurança em Israel deveria ser imputado principalmente à inépcia do governo de extrema direita de Benjamin “Bibi” Netanyahu e seus aliados, bem como ao esgarçamento social causado pela polarização no país.
Depois de minha fala, outro colega, Márcio Scalercio, da própria PUC, apresentou sua análise. Não fomos interrompidos em nossas explanações, mas a quantidade de dedos levantados durante as falas expressava bem o desejo do público – o desejo de que parássemos de falar e deixássemos que eles tomassem as rédeas do evento. Era como se o que estávamos dizendo fosse, para alguns dos presentes ali, insuportável. Mais que isso: era como se fosse algo a ser interditado, censurado, expulso daquele ambiente.
No momento das perguntas, efetivamente, uma jovem confirmou essas impressões, deixando perceber que ocorria ali um divórcio entre escuta e compreensão, entre as falas e a percepção do que era dito, entre nós e eles. Depois de receber o microfone, a jovem afirmou que alguns de nós não podíamos estar sentados à mesa. Eu, inclusive, deveria ser interditado. “Você não nos representa”, ela disse.
A ideia autoritária de “representação” absoluta produzia a percepção clara de que aqueles jovens não estavam ali para escutar um debate acadêmico, mas para afirmar suas agendas e para silenciar opositores, inclusive, um judeu sionista de esquerda. No auge dos berros e ofensas, um dos jovens me acusou de ser “apoiador do Hamas”. Justamente naquele dia, naquele momento, eu não podia escutar aquilo – e me retirei do debate.
Demorou pouco tempo para eu entender que tudo o que ocorrera não fora uma reação espontânea dos jovens ao que eu havia dito na mesa. Posts produzidos logo que deixei o evento mostraram que “o endereço estava na parede”, como diz uma expressão israelense para designar que estava tudo muito claro. Nas redes sociais, espalharam-se comentários de um médico bolsonarista tratando alguns de nós (principalmente os judeus) como antissemitas e também os de um deputado do PL que nos acusava de apoiadores do Hamas – o que permitiu estabelecer uma nítida conexão entre causa e efeito, entre a participação daqueles jovens e o ímpeto deles de nos interromper. Alguns de nós passávamos a ser vistos como “professores que apoiam o Hamas”. Dentre os que supostamente apoiavam o grupo terrorista, estava justamente eu, que havia me identificado como um judeu de esquerda e sionista.
Acusar um judeu sionista de apoiar o Hamas fortalece a perspectiva de que existe um complô de professores que apoiam o terror. Porque, se eu supostamente sou um apoiador do Hamas, todos os professores na universidade também são. O grupo Hamas surge assim como mais um elemento de uma dinâmica que a antropóloga social Isabel Kalil chamou de “pânico moral”.
Ali, no debate na PUC, era essa a campanha. A partir do debate deveria surgir uma nova etapa de perseguição a “professores esquerdistas e doutrinadores”. Os pais deveriam se preocupar com a doutrinação esquerdista de seus filhos universitários e, mais do que isso, deveriam aderir à campanha “Denunciem seus professores apoiadores do Hamas”.
O debate era apenas mais uma etapa desse processo todo. Lula, o PT e a esquerda já tinham sido acusados nas redes sociais de “apoiar o Hamas” por deputados e grupos da extrema direita. Para essas pessoas, defender a causa palestina é equivalente a apoiar grupos terroristas. Assim se constitui o sistema de ameaça e pânico.
Nesse sentido, o encontro na PUC se tornou mais um palco para a campanha da extrema direita pós-Bolsonaro. Imbuídos do propósito de denunciar inimigos, os jovens que estavam no debate com bandeiras e camisetas de Israel precisavam calar os de dentro – os próprios judeus –, antes de atacar os de fora. Colonizados por uma sanha de delação, esses jovens colocaram o Hamas definitivamente na campanha política da extrema direita brasileira.
Eu era parecido com esses jovens: falo hebraico, sou sionista e também chorei as mortes que tivemos. Por isso mesmo, minha interdição era urgente para evitar que, afetado por emoções parecidas, eu não pudesse “representar” os judeus brasileiros em geral. A esquerda sionista era, naquele momento, a inimiga: precisava ser calada. Os jovens faziam esse trabalho, mas o endereço final de suas provocações tem a ver com objetivos mais ousados.
O debate na PUC me trouxe à memória outra palestra, a de Jair Bolsonaro na Sociedade Cultural, Esportiva e Recreativa Hebraica do Rio de Janeiro, em 2017. Para o então deputado federal, era preciso indicar aos aliados judeus e não judeus de extrema direita que os que se encontravam fora do clube não representavam o “judaísmo verdadeiro”. Foi o que também ocorreu naquele debate. Para os jovens judeus na puc, eu não era um representante legítimo. Era apenas um “esquerdista”, um “apoiador do Hamas”. Era um judeu não judeu, um “antissemita”, apesar de tudo o que eu havia dito no debate.
Em uma descrição do extremismo político, o filósofo israelense Yeshayahu Leibowitz utilizou a parábola de um avião com dois grupos de pessoas. Os extremistas seriam aqueles que trazem o maior número de pessoas para seu lado, inclinando o avião para a direita. Eles são incapazes de avaliar o risco que correm e de ver os que se seguram nas paredes, no outro canto da aeronave. Só percebem os que se aproximam para tentar convencê-los de que entortar o avião não é uma boa ideia. Em vez de escutá-los, os extremistas decidem acusar de traidoras as pessoas que tentam conversar com eles, enquanto ignoram os que permanecem tentando salvar sua pele do outro lado do avião.
O trágico, lembra o filósofo, é que o avião que voa torto não vai muito longe. O destino de todos é morrer, tanto os extremistas que decidiram inclinar o avião para a direita, como os que tentaram convencê-los a manter o avião num plano reto, e ainda os que permaneceram se segurando no outro canto. Trágico é que, antes do acidente fatal, mesmo os que tentam dialogar são tratados como inimigos.
Essa perspectiva pode nos ajudar a entender os processos de construção da extrema direita no Brasil. Principalmente com suas dinâmicas de “sequestro” de grupos sociais, étnicos e religiosos específicos. Nesse contexto, vale lembrar as relações estabelecidas por Olavo de Carvalho com setores da comunidade judaica brasileira.
Em meu último livro, O não judeu judeu, a tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo (Fósforo, 2022), trabalho com as sinalizações iniciais de Carvalho a setores da comunidade judaica. Uma das primeiras foi em sua coluna do jornal O Globo, em março de 2004, com uma defesa do filme A paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson e acusado de ser um libelo antissemita. Carvalho escreveu:
Meu recado aos judeus é simples: nenhum mal lhes virá pelo lado cristão. Os inimigos de Israel são hoje os inimigos da cristandade. Se vocês querem mesmo saber de onde vem o perigo, leiam o livro do rabino Marvin S. Antelman, To eliminate the opiate (Jerusalém, The Zionist Book Club, 2 vols.). Não precisam endossar o diagnóstico em detalhes. Mas verão que em linhas gerais, ele está na pista certa – e essa pista passa a muitas léguas de Mel Gibson.
Apesar da polêmica sobre A paixão de Cristo, Carvalho decidiu, a partir do filme, abrir um diálogo com os judeus, afirmando que não se tratava de uma produção antissemita. Ele disse mais: que os judeus e os cristão têm os mesmos inimigos. E indicou ainda uma leitura específica para que se entendesse do que estava falando: um livro de Marvin Antelman, um autor conspiracionista de extrema direita que acusa setores da população judaica de serem as maiores ameaças ao povo judeu.
Apesar de ter defendido um filme considerado por judeus do mundo inteiro como antissemita, cerca de dois meses depois Carvalho foi convidado para dar uma palestra no clube A Hebraica de São Paulo. (Convenhamos, poucas honras desse tipo foram cedidas a defensores de diretores acusados de antissemitismo.)
Na palestra na Hebraica, em maio de 2004, ele decidiu aprofundar o que dissera em sua coluna em O Globo:
Na hora que você aceita que existem judeus ortodoxos e não ortodoxos, significa que você meteu na sua cabeça que existe uma identidade judaica alheia à tradição judaica. E essa identidade simplesmente não existe. […] Ou existe o vínculo com alguma tradição e existe alguma lealdade que é necessário ter, para com as origens da comunidade, ou então ela não existe mais. […] Eu queria indicar outro livro pra vocês. Nós falamos sobre os “judeus antijudeus”. Esse livro é absolutamente indispensável. Se chama To eliminate the opiate, escrito pelo rabino Marvin Antelman, e é a história da progressiva ruptura que vai acontecendo dentro da comunidade judaica a partir do surgimento de seitas gnósticas no século xvii, que vão ser antepassados dos movimentos revolucionários de massa dos séculos xix e xx. […] Você vê um sujeito como o Noam Chomsky. Eu garanto que grande parte da comunidade judaica de Nova York ainda recebe ele, “ah, ele é um dos nossos, trata ele bem, carrega ele no colo. Senta aqui, ele só quer que Israel acabe, mate todo mundo lá, que ponha todo mundo pra fora. Mas, tirando isso, é boa gente”. Essa história de carregar o próprio traidor no colo é coisa de… são dois povos que fazem isso muito bem, os americanos e os judeus, mas isso é alimentar seu próprio assassino, seu próprio inimigo.
A fala de Olavo de Carvalho sobre quem deve estar fora ou quem deve estar dentro da “comunidade judaica” é chocante. Porém, mais chocante ainda foi a reação da plateia. No vídeo completo da palestra na Hebraica, não se nota nenhum tipo de desconforto da parte do público ao escutar um não judeu tratando, de maneira conspiracionista – por que não dizer, antissemita? – da necessidade de higienização do judaísmo brasileiro, e colocando limites ideológicos e políticos para uma comunidade historicamente constituída por referências étnicas e culturais. Ao final, Carvalho foi bastante aplaudido.
É importante notar que em 2004 estávamos no auge da Segunda Intifada. Explosões de ônibus feitos por terroristas palestinos eram assunto constante na mídia, como também as reações do Exército de Israel. Debates sobre a construção do muro de segurança e o isolamento imposto a Yasser Arafat pelas forças de segurança de Israel eram temas que colocavam setores da comunidade judaica em uma posição defensiva, enquanto o debate sobre “a questão palestina” era visto com mais e mais simpatia por setores da esquerda e da sociedade brasileira como um todo.
Nesse contexto, alguém que dizia que os inimigos dos judeus são os mesmos da cristandade passava a ser visto com simpatia, apesar de suas posições sobre o antissemitismo. Carvalho considerava a “cristandade” como formada por cristãos fundamentalistas e reacionários, para os quais o judaísmo é apenas uma etapa da civilização judaico-cristã como um todo. Ele apoiava Israel e convidava a comunidade judaica a aderir a um setor da política que poderia se fortalecer nos próximos anos, em oposição aos governos do PT e à esquerda em geral, com suas frequentes críticas a Israel. O polemista oferecia a chave de entrada para posições ao mesmo tempo filossemitas e não judaicas. Parecia um sonho: “Alguém de fora que nos apoia aqui dentro.”
Carvalho, é claro, trazia algumas demandas. Ele exigia uma limpeza interna. Exigia que os judeus de esquerda fossem tratados como inimigos, pedia que o judaísmo secular fosse desconsiderado. Apontava sinais e classificava inimigos. Mostrava quem eram os judeus “falsos”, pretendendo proteger os judeus “verdadeiros”. Criava as fronteiras que separavam um judaísmo do bem. Um judaísmo imaginário, que deveria se estabelecer como uma comunidade religiosa, política e ideologicamente definida.
O judeu imaginário era aliado do Ocidente, anticomunista, ultracapitalista, estava armado contra os inimigos, constituía um muro que impedia a expansão do Oriente. E era também (um pequeno detalhe que podia incomodar) cristão. Ou melhor dizendo, fazia parte da comunidade judaico-cristã.
Os judeus reais que não se encaixavam nessa definição eram aliados dos inimigos, deveriam ser higienizados e afastados da comunidade e das estruturas comunitárias. Para assegurar isso, Carvalho recorreu ao livro de Antelman, um judeu de extrema direita e, portanto, confiável, na sua concepção.
Carvalho não desapareceu – e o processo de colonização do judaísmo brasileiro não parou, com o crescente antissemitismo na esquerda e o surgimento da extrema direita no país. Sinal disso foi a palestra de Bolsonaro na Hebraica do Rio de Janeiro, em 2017. Sem a pretensa erudição de Carvalho, o então deputado federal também fez exigências de limpeza comunitária diante de uma plateia de judeus. As manifestações contra a presença dele na Hebraica, promovidas por outros judeus à porta do clube, fortaleceram sua hipótese.
Há, porém, mais um detalhe nessa história, em um interessante processo de “rediasporização” e de metainfluências: o atual governo de Israel promove conflitos semelhantes no interior do Estado judeu. Dentro e fora, inimigos e aliados, religiosos e seculares, asquenazitas e sefarditas, pró-palestinos e pró-Israel: essa é a gramática de Bibi Netanyahu, que também coloca o judaísmo imaginário como referência. A extrema direita israelense utiliza os mesmos métodos para desenhar as novas fronteiras do “verdadeiro” e do “falso” judeu. Manifestações ocorridas antes da guerra e a polarização dos discursos são prova disso.
Nesse contexto, depois da fala de Carvalho e de Bolsonaro em clubes judeus, o acontecimento na PUC seria mais um chamado à limpeza comunitária que vem ocorrendo nos últimos vinte anos – e uma adequação local aos ditames de Netanyahu em Israel.
A extrema direita brasileira usa o Hamas para promover o pânico moral entre pais de alunos, levando-os a considerar os professores como apoiadores do terror e uma nova ameaça. Enquanto isso, membros da comunidade dos judeus imaginários se preparam para apresentar seus Chomskys locais. Ou seriam os Spinozas contemporâneos?
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_206 com o título “O judeu imaginário”.