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AGITADOR ANTI-LAVA JATO

Um advogado paranaense contra a República de Curitiba
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Diogo Castor de Mattos, então procurador da República e integrante da força-tarefa da Lava Jato, autografava em Curitiba seu livro O amigo do direito penal em uma noite de junho de 2018 quando uma dezena de pessoas invadiu a livraria, entoando Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula. Os manifestantes, acompanhados de um saxofonista e um trombonista, desfraldaram uma faixa na qual se lia: “Inimigos da Constituição.” Sob uma chuva de papel picado – páginas rasgadas do próprio livro –, Castor de Mattos tentou ignorar o protesto. Mas admiradores do procurador avançaram contra os agitadores e os expulsaram aos pescoções.

O advogado Felipe Christoforo Mongruel, de 40 anos, estava entre os manifestantes, segurando a faixa. “A gente até que apanhou pouco pelo que fez. Mas a gente estragou a festa dos caras”, relembra Mongruel, um dos idealizadores do protesto.

A partir daquele episódio, Magal, como o advogado é conhecido, passou a organizar uma série de “ações diretas” em protesto contra a Lava Jato. Ele defende que sua cidade tem “muita gente bacana, batalhadora” que não pode ser associada ao que já se chamou de República de Curitiba, em decorrência das operações da Lava Jato. “Eles não têm o direito de se apropriar das instituições, da democracia, por sua relação com a elite econômica ou por seus títulos”, diz.

Sergio Moro, operador-mor da Lava Jato, também foi assediado pelo grupo de Magal. Em dezembro de 2021, depois de desembarcar do governo Bolsonaro e se filiar ao Podemos com a ambição de concorrer à Presidência, o ex-juiz resolveu lançar um livro em Curitiba. O ativista reuniu duas dezenas de manifestantes, todos com máscaras do rosto de Lula, que se perfilaram ao longo da avenida que dá acesso ao teatro onde a obra foi lançada.

Em outro episódio, durante uma das motociatas de Jair Bolsonaro, Magal e seus colegas abriram no canteiro de uma avenida uma enorme faixa com a frase “Curitiba cospe em fascista”. Magal diz que amigos seus de fato cuspiram no então presidente: “Ele foi levando a nossa saliva indignada.”

Magal chegou a se disfarçar de entregador para tentar entrar no prédio do Ministério Público Federal (MPF). Queria presentear os procuradores com um banner em que a ex-primeira-dama Marisa Letícia (1950-2017) aparecia ao lado de Arthur, neto de Lula que morreu enquanto o líder petista estava preso.

Depois da Vaza Jato – que revelou as tramoias entre os integrantes da força-­tarefa –, Magal passou a discursar uma vez por semana em frente ao MPF, com caixa de som, acusando a operação de cometer abusos e intimando procuradores para o debate. Não conquistou público, mas transmitiu seu recado: “Deu, no máximo, vinte pessoas. Muitas vezes fui sozinho, debaixo de chuva.”

Nascido em Ponta Grossa, Magal passou a morar em Curitiba ainda na primeira infância. Foi criado pela mãe, a dentista Lucymara Christoforo, que nas eleições presidenciais de 1989 levou o filho, então com 6 anos, a um comício de Lula. “Minha mãe disse: ‘Hoje, você vai conhecer a pessoa que mais vai amar’”, relembra Magal.

Pós-graduado em ética pela PUC do Paraná, Magal sempre se considerou um agitador. Na juventude, criou um jornal mensal, O prepúcio, em que assinava com o pseudônimo Marcelino Galeano, homenagem ao brasileiro Walmor Marcellino e ao uruguaio Eduardo Galeano, dois escritores de esquerda (o apelido Magal aglutina a primeira sílaba de cada um desses sobrenomes). Sem nunca deixar de advogar, principalmente na área cível, foi sócio de dois bares, que, cada um a seu tempo, se tornaram pontos de encontro da esquerda em Curitiba.

Filiado ao PT, Magal é visto nas ruas e bares da capital paranaense sempre com um poncho vermelho ou com um boné surrado do MST. Só usa terno em audiências. “Na Lava Jato, abandonei o terno. Vi que o Judiciário é uma estopa para manter a população longe da Justiça”, prega. Eloquente, faz o tipo boa-praça, fugindo do estereótipo do militante carrancudo. Apesar do bom humor, fala sério e costuma se entusiasmar com o próprio discurso, sempre pontuado por expressões como “convescote de burgueses” e “elite analfabeta”.

Em 7 de abril de 2018, Magal e sua mãe se dirigiram, por volta de uma da tarde, à sede da Polícia Federal em Curitiba. Dois dias antes, o juiz Sergio Moro tinha expedido um mandado de prisão contra Lula, condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá. Havia a expectativa de que o petista fosse encarcerado naquele prédio – o que, de fato, acabou ocorrendo.

Àquela altura, centenas de pessoas se aglomeravam em frente à PF. Magal passou a ajudar na montagem de barracas e na organização do espaço. Quando voltou para casa, três dias depois, sua mulher tinha empacotado suas coisas, encerrando de vez o casamento. De imediato, ele se mudou para o acampamento, que daria origem à Vigília Lula Livre.

Magal passou a ser uma das lideranças da vigília. Arranjou um emprego como advogado em um escritório particular e despachava do próprio acampamento. Aproximando-se do entourage de Lula, fez amizade com a cúpula: Gleisi Hoffmann, presidente do PT, o fotógrafo Ricardo Stuckert e Rosângela da Silva, a Janja, hoje mulher de Lula. “O Stuckert me falava: ‘Quando o presidente sair, vai ser você quem vai carregar ele’”, conta o advogado. Em 8 de novembro de 2019, assim que Lula foi solto, Magal chegou a segurar o líder petista pelas pernas para erguê-lo, mas foi detido pelo próprio Lula. “Ele disse: ‘Por favor, meu filho, não faça isso, que estou todo doído da cela.’”

Em janeiro de 2022, Magal e seus amigos tiveram a ideia de criar o Museu da Lava Jato. Enquanto a turma discutia o projeto, o colega e advogado Wilson Ramos Filho recebeu um telefonema de Lula, que se animou com a ideia. “Ele queria que a gente fizesse o museu em frente à sede da PF”, conta Magal. Lançado em 1º de agosto de 2022 – dia do aniversário de Moro –, o Museu da Lava Jato por ora não tem sede física: é um site no qual encontram-se documentos sobre a operação (com ênfase nas falhas processuais), além de uma seção dedicada à Vigília Lula Livre e textos sobre lawfare. A Lava Jato acabou, mas Magal segue discursando: “A República de Curitiba foi uma coisa horrorosa, detestável, uma passagem histórica patética. É contra isso que eu luto.”


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É jornalista radicado em Curitiba. Autor do livro Waltel Branco - O maestro oculto (Banquinho Publicações)