história pessoal
Jean-Claude Bernardet Out 2023 16h05
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Com Sabina Anzuategui
O escritor, crítico e pensador do cinema Jean-Claude Bernardet lança neste mês o livro Wet mácula: memória/rapsódia, em que toma sua própria vida como objeto de escrita e análise. Não é a primeira vez que faz isso. Em Aquele rapaz, que Bernardet classifica como “ficção autobiográfica”, ele contou a história de um adolescente imigrante em São Paulo e seus conflitos familiares e existenciais. Em A doença, uma experiência, descreveu seu enfrentamento com a Aids. Em O corpo crítico, relatou a rotina dos seus tratamentos médicos e questionou o prolongamento compulsório da vida. O título do novo livro se refere a uma degeneração macular relacionada à idade da qual ele sofre, e que pode se dar na forma seca (dry) ou úmida (wet), causando um borrão branco na visão.
Filho de pais franceses, Jean-Claude Georges René Bernardet nasceu em Charleroi, na Bélgica, em 1936. Passou a infância nos arredores de Paris, dominada pelo Exército de Hitler. Seu pai lutou na Resistência, mas, ao fim da Segunda Guerra Mundial, foi acusado pela própria mulher de ser um colaboracionista, quando, de fato, indícios apontavam que fora ela quem se envolvera com os nazistas. Todo esse passado da família, para Bernardet, é cheio de incertezas. No fim da década de 1940, o pai se mudou para São Paulo. Em seguida, vieram os dois filhos de seu primeiro casamento, Jean-Claude e Jean-Pierre, acompanhados de sua nova esposa, Olga.
Bernardet iniciou seu envolvimento com o cinema na juventude, frequentando a Cinemateca Brasileira, onde conheceu o crítico e historiador do cinema Paulo Emílio Sales Gomes. “Ele foi o primeiro adulto que acreditou em mim”, disse à piauí em setembro de 2011 (Autoficções de uma pessoa-laboratório, piauí_60).
Em 1964, Bernardet se casou com a professora de literatura Lucilla Ribeiro e, no ano seguinte, os dois se tornaram assistentes de Paulo Emílio no curso de cinema da Universidade de Brasília, da qual se desligaram no ano seguinte, com centenas de professores que se demitiram em protesto contra o regime militar. Voltou a São Paulo e em 1967 começou a dar aulas na USP. Mas em 1969 foi cassado pelo AI-5 e passou a trabalhar como crítico no semanário Opinião. Com a anistia, voltou à USP, onde deu aulas até 1998. Publicou dezenas de livros considerados essenciais à compreensão do cinema brasileiro, de suas ideologias e linguagens. Também é diretor, roteirista e ator.
Wet mácula – do qual a piauí publica trechos nesta edição – foi um projeto da editora e tradutora Heloisa Jahn, amiga de Bernardet. Os dois se reuniram várias vezes para entrevistas que serviriam de base a uma autobiografia que seria escrita com a ajuda da editora. A morte de Jahn no ano passado interrompeu o projeto idealizado, mas não a realização do livro, que Bernardet levou a cabo com a participação de outra amiga e ex-aluna, a escritora Sabina Anzuategui.
Chegando de Paris, fui ao escritório de meu pai na Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo. Tinha que lhe entregar um presente. Ele me perguntou: “Encontrou sua mãe?”
“Não.”
Eu tinha ido à França diversas vezes, ele nunca perguntou. Eu nunca a encontrei, nunca a procurei. Nem pensei em procurá-la. Minha mãe é uma ausência.
Quando papai nos separou dela, morávamos numa pequena cidade nos arredores da capital, onde tínhamos passado parte da guerra. Ele simplesmente disse: “Vamos passar o Natal em Paris.” Entrou no carro, Jean-Pierre [irmão de Bernardet] e eu atrás. O carro saiu. Nós olhamos pela janela de trás: Geneviève [mãe de Bernardet] estava parada ao lado do enorme portão metálico ainda aberto.
Descrevi a cena em meu livro Aquele rapaz:
Dia de Natal, já quase noite, o carro estava no pátio. Meu irmão e eu subimos. Algum empregado abriu o imenso portão de ferro. O carro passou. Minha mãe estava exatamente na fronteira entre o pátio e a calçada. Lágrimas lhe escorriam pela face. Quando percebi que ela chorava? Nesse exato momento? Acho que não, devíamos estar tão felizes de irmos a uma festa no carro novo. Mais tarde? Muito mais tarde? Mas o significado da situação só bem depois entendi. Pela janela traseira do carro, minha mãe afastava-se, imóvel, ereta, junto ao portão ainda aberto, na noite. Foi a última vez que vimos nossa mãe, oficialmente.
Na descrição estranho a frase: “Lágrimas lhe escorriam pela face.” Há alguma ternura nessas lágrimas citadas pelo narrador de trinta anos atrás. O texto de hoje é seco. Alteração afetiva ou questão de estilo.
Anos depois, novamente no escritório da Barão de Itapetininga. Cheguei, sentei e disse: “Geneviève faleceu. Pensei que podia te interessar.” Meu pai respondeu: “Sim. Foram muitos anos.” Perguntou como eu soube. Respondi: “Um advogado especializado em busca de herdeiros veio à América do Sul. O viúvo se lembrava de uns filhos no Brasil ou na Argentina.”
Você escolhe a opção da inverossimilhança da narrativa. Uma mãe não faria o que a narrativa descreve, já que é mãe.
O que implica a figura da mãe. As mães teriam um comportamento padrão por serem mães.
Só agora penso ser até provável que minha mãe tenha abraçado seus filhos com carinho. Disso não tenho memória. Há décadas Jean-Claude se dedica ao trabalho de expulsar a sua mãe de si. De si e do mundo. Não há nenhuma raiva nisso. Ao contrário, talvez seja um gesto de proteção contra o que ele intui que se diria dela: colaboracionista. O gesto de expulsá-la de si poderá ter começado durante a guerra. Passos rápidos atravessam o hall de entrada. Na cozinha, a cozinheira abre bruscamente a porta, ele vê sua mãe e um homem. Entram e fecham a porta. A cozinheira o empurra em direção ao buraco da fechadura e diz: “Olha sua mãe”. Teriam jogado um lenço na maçaneta, ele só vê preto. A cozinheira pergunta: “Viu?” A criança responde: “Não.” Não ver terá sido um ato de amor?
Mais tarde, acredito que ela será julgada. Entramos no carro, provavelmente o mesmo do Natal. Estou ao lado de meu pai, os avós e meu irmão atrás. Estacionamos em frente de um tribunal com grades douradas. Meu pai desce, volta e abre o porta-luvas, de onde tira um revólver. A mãe dele grita: “André, lembre-se que você tem dois filhos.” Meus avós, meu irmão e eu ficamos esperando.
Em 1948 meu pai saiu de Paris para o Brasil. Sua nova mulher, Olga, e seus filhos mudaram para Nice. Lá vivia uma tia ou tia-avó de Olga que nos hospedaria até meu pai conseguir dinheiro para as nossas passagens.
Fomos recebidos num suntuoso apartamento. A tia era condessa, na juventude foi professora de piano das filhas do presidente [alemão] Hindenburg (Olga dizia: “A corte do Kaiser”). Seus três maridos tinham falecido. Enquanto visitávamos a residência com seu salão Luís XV e outro salão à moda árabe, aproveitei para fugir. Não queria morar sem meu pai e com Olga – ela que, desde o primeiro encontro em Paris, nos obrigaram a chamar de Mamie.
Corri em direção ao mar e andei pela Promenade des Anglais. Ir aonde? Fazer o quê? Já noite encontrei o caminho de volta. Não fui castigado, imagino que por conta do susto que elas levaram. Elas exclui meu irmão, vai ver ele levou um susto ainda maior.
Uma rotina foi se instalando, vieram as festas de fim de ano. Tensões foram se acumulando. O dinheiro de meu pai não chegava nunca. Olga se irritava, a condessa a proibia de usar o título: “Se ela tem o direito, por que eu não?” A situação financeira da tia declinava. Os meninos continuavam chamando Olga de Mamie.
A tia fazia campanha para que a chamassem de Maman: a verdadeira mãe é a que cria. Bolaram uma estratégia: davam um dinheirinho às crianças e toda vez que a chamassem errado pagavam uma multa.
A situação financeira da tia continuava a se deteriorar. Ela decidiu reorganizar sua vida. Mudamos para um apartamento modesto, ela fez planos de se casar novamente. Um candidato se apresentou como industrial, o que a encantou, pois nossa época era a da indústria. Como se não bastasse, o industrial se dizia conde. A condessa resolveu oferecer um jantar e fez questão de abrir a porta ela mesma. Viu-se diante de um homem pequeno e de elegância esforçada. A impropriedade no uso dos copos e dos talheres completou o naufrágio. Não sei se houve alguma conversa pessoal sobre o estado das fortunas, em todo caso a condessa desistiu de seu projeto.
O dinheiro não chegava, e Olga tentava convencer a tia a se mudar para o Brasil. A condessa brincava de pronunciar: “Sa-o-pa-o-lô.” Finalmente Olga a convence, a condessa paga, mas fica na França. Embarcamos em Marselha num dia quente. Eu estava com o pescoço inchado pela caxumba. Olga (agora Mamãe) receava que a polícia descobrisse e nos impedisse de viajar. Ela me cobriu com um passa-montanhas, mas receava que a polícia desconfiasse por causa do calor.
Meu pai alugou um sobrado na Vila Mariana, que mamãe grafava “Villa” para evitar que suas amigas pensassem que cometia um erro de ortografia. Meu pai não aguentou o status do bairro e nos mudamos para Socorro, perto da Represa Billings.
Olga passou de sobrinha de condessa a cozinheira e lavadeira na periferia de uma grande cidade latino-americana.
Tive uma conversa com ela tempos depois, em Socorro. “Por que fez isso?” Ela me diz: “Por amor ao teu pai.” Às vezes vejo pessoas apaixonadas e me pergunto: Você está destruindo a quem? À pessoa amada? Ou a você?
Um dia bate à porta o vigia noturno de uma obra. Reformam um imóvel ao lado da nossa nova casa, no Ibirapuera. O vigia pede para puxar uma extensão da nossa rede elétrica até o barracão onde passa a noite. Recusado.
Foi meu pai quem nos contou a cena, num almoço. Olga reagiu escandalizada: “Como você recusou? Ele não tem luz!”
Comento: “Papai faz isso para acelerar a revolução.”
Ele dá um sorrisinho: “É mais ou menos isso.”
Meu pai nunca esclareceu suas posições políticas, porém deixou claro que a Resistência francesa da qual participou não era gaullista. Tinha alto respeito pela clandestinidade.
À pergunta que repeti tanto – “Por que viemos morar no Brasil?” –, uma vez ele respondeu: “Os partidos de direita ganharam as eleições [regionais francesas] de 1948.” Ele não conseguia entender, não era possível, depois de tudo?
No Brasil, ele tinha afinidades políticas com Paul Monteil, seu amigo [dono da Livraria Francesa, em São Paulo]. Monteil às vezes nos convidava para almoçar em seu sítio. Num encontro, Olga usou a palavra pègre, algo como “ralé”. Monteil irrompeu com virulência: La pègre n’existe pas, madame. Olga ficou chocada com sua falta de educação.
Meu pai tinha uma pequena fábrica, antes da guerra. O que produzia? Sabina não lembra onde anotou. Eram relógios? Fechaduras?
Jean-Claude: Uma comissão de militares alemães chegou até ele. Meu pai deveria entregar os objetos de precisão que fabricava. Se recusasse, podia ser fuzilado. Pediu cinco dias e sumiu. Depois houve um julgamento, ele foi inocentado, mas seus bens foram embargados.
Heloisa Jahn:[1] A fábrica dele foi desapropriada, é isso?
Jean-Claude: Não sei exatamente. Meu pai não dava explicação.
Heloisa: Por que ele foi julgado?
Jean-Claude: Depois da guerra, não sei bem… Meu pai era presidente de um tribunal que julgava colaboradores. A história não é muito precisa.
Heloisa: Tem um escuro aí na sua cabeça.
Trabalhei na biblioteca da Cinemateca Brasileira. Do corredor, a sala de Paulo Emílio Sales Gomes ficava à esquerda. A relação de amizade já existia? Por timidez, eu tinha dificuldade de aceitar.
Essa relação se alterou em Salvador. Em 1960? A data deixo aos pesquisadores.
Numa sala imensa e luxuosa, Paulo fez uma conferência. Sentei no fundo, estava cheio. Paulo sempre voltava ao lado esquerdo do palco. Depois houve um coquetel com casquinha de siri. Retornamos ao hotel.
Estávamos no mesmo quarto. Na hora de dormir, uma frase saiu da minha boca:
“Sei pra quem você fez a palestra.” Paulo respondeu quase ofendido: “Não foi pra você!” “Eu sei. Foi para uma mulher de costas nuas.”
Até esse momento, Paulo me considerava um jovem racional sem intuições.
Cheguei à pousada de noite, uma casa de boneca, cortininhas, rendinhas, bibelôs.
Depois do café, fui andar no bairro. Na volta, um alvoroço na porta da pousada. Uma moça me diz que Coutinho[2] não quer se hospedar ali. Não se pode fumar na pousada: Coutinho ameaça retornar ao Brasil imediatamente. A organizadora da Cinemateca em Quebec me diz que em todo o Canadá não vai encontrar um lugar onde se possa fumar.
Vamos à Cinemateca com Coutinho e sua mala. Um pequeno jardim lhe permite fumar. A organizadora da Cinemateca chega, ela achou um drogado (sic = um fumante) que aluga seu apartamento. Coutinho está salvo, nós também.
A viagem até Toronto foi tranquila, comentamos a aula magna e a afinidade entre a obra de Coutinho e os fósseis narrativos. Chegamos ao aeroporto e a Air Canada anuncia que nosso voo está atrasado. Mais um tempo. Air Canada anuncia que o voo foi cancelado. Novo voo no dia seguinte às oito. Air Canada anuncia check-in às cinco. No aeroporto não se pode fumar.
Descemos, deve ser possível encontrar um pátio, um jardim, sei lá. Achamos uma porta que abre pra fora. Coutinho fuma. Dentro, umas poltronas. Pela vidraça, observo Coutinho que de vez em quando entra pra se esquentar, cheirando a fumaça fria; convenço Coutinho de que está na hora de subir e pegar a fila. Nem pensar deixar Coutinho embaixo.
Instala sua mala perto de uma parede, não é suficiente pra escondê-lo, ajeita malas de outros passageiros, deita e fuma. Donde vem essa fumaça? Agitação, dois funcionários chegam correndo com uma cadeira de rodas. Coutinho na cadeira. Feito o check-in, dançamos com a cadeira no gigantesco túnel de Richard Serra, às gargalhadas. A saga acabou. Quer ir ao duty-free, compra um perfume ou um lenço pra mulher, pro filho um brinquedo.
“Não sabia que tinha filho pequeno.”
“Não, ele tem 38 anos. Meu filho tem problemas.”
Embarcamos. Oito horas: nada; 8h15: nada; 8h25: Coutinho se revolta contra a Air Canada. Peço pra ele se acalmar, não urrar.
Por que tive esse comportamento? Por que me comportei como um cidadão bem-educado? Por que tomei as dores da companhia e dos passageiros irritados? Sempre fui do lado do Coutinho e do fumante.
No 1º de abril de 1964, em São Paulo, os que queriam agir circulavam em volta do Teatro de Arena, esperando receber informações. Durante muito tempo… No fim da tarde, cansado, resolvo ir para a casa do meu pai tomar banho. Chego lá, numa espécie de vestíbulo ele me diz: “Cecília Guarnieri[3] acaba de telefonar, você foi procurado na Cinemateca, foi procurado na Última Hora, foi procurado no Teatro de Arena e na Maria Antônia [onde ficava a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da usp].”
Meu pai, agressivo:
“E agora?”. Eu: “Não sei”. Levo uma puta bronca: “Vocês não estão preparados pra virar clandestinos. Não têm nenhuma experiência, são amadores.”
Flashback: pequeno regresso ao período antes do golpe. Na célula que eu frequentava, o representante do Partido [Comunista] diz que somos convidados a um encontro com [Luís Carlos] Prestes. Se arma o seguinte: numa determinada hora e lugar, passará um carro para me levar. O.k. Vou no horário marcado, há outra pessoa no ponto. Passa um primeiro carro. O motorista me diz: “Sobrou uma vaga, quer aproveitar?” Entro junto. Na casa, apertamos a mão de Prestes, um beija-mão, muitas pessoas etc. Aí chega um cara: “Nunca mais faça o que você fez.” Está furioso, mas civilizado. O que eu tinha feito? Ele é que me pegaria, no horário combinado. Mas fui no carro anterior. Improvisei, aproveitei a carona. Isso não se faz. Fim do flashback.
Depois da bronca meu pai se acalma: “Vou te esconder.” Já quase noite. Meu irmão era recém-casado, então meu pai planeja: “A polícia não deve ter esse endereço. Te levo ao apartamento dele, você passa a noite lá, e amanhã às cinco da manhã vou te buscar.” “Tá bom.” Chego à casa do meu irmão, lá está ele com Alexandra, minha cunhada, e mais os pais e a avó dela. Todos russos. Russos brancos (o pai é príncipe, ela é princesa etc.). É uma festa, estão celebrando a queda do comunismo no Brasil. Festejando o golpe. Oferecem uma taça ao recém-chegado. Então o filho (eu), em silêncio, ergue uma taça de champanhe em brinde ao golpe.
Às cinco, meu pai estava lá.
Fiquei escondido num sítio.
Lembro da cozinha. Uma escada de dois degraus levava a um quintal arborizado. A mãe pôs uma mesa ali, da cozinha podia ver as filhas e eu brincando de aritmética.
As meninas já eram alfabetizadas. Escrevíamos histórias: “Eu invento a primeira frase, você a segunda, sua irmã a terceira.” O pai, ou o avô, tinha fugido da Espanha por motivos políticos. Não sei como meu pai conhecia o operário espanhol.
Uma vez Rudá[4] me visitou, acompanhado de Lucilla.[5] Depois veio só Lucilla. Meu pai passou para saber como eu estava, fiz um relatório. Quando mencionei Lucilla, ele me acusou: “Você, claro, a acompanhou até a rodoviária.” Outra incompetência para a clandestinidade.
Rudá me buscou no sítio para um teste.
O carro chega à Rua Sete de Abril, no Centro de São Paulo, e para na porta dos Diários Associados. Os elevadores ainda funcionam. Desligaram. Saí do carro escoltado e me precipitei no único elevador ainda ligado. Quando a porta se abriu, fotógrafos dispararam seus flashes. Rudá tinha avisado os jornais e solicitado que espalhassem minha cara. Fui ao palco e iniciei uma palestra sobre [o cineasta Sergei] Eisenstein. Estava tremendo. Meu sotaque, já forte, se acentuou e dificultou a compreensão do que eu dizia. Assim que acabei, me escoltaram até outro elevador, em outra ala do prédio. A projeção de Alexandre Nevski começou; eu já não estava lá. Escoltado, subi no carro. Voltamos ao sítio.
Essa provocação foi armada e executada por Rudá.
Deixamos passar uns dias. A polícia não reagiu. Lentamente voltei à tona.
A volta lenta incluía não pôr os pés na Cinemateca, recomendação de Rudá.
François Truffaut veio a São Paulo nos anos 60. Rudá ofereceu um coquetel. Conversamos. Truffaut ficou impaciente. Falei da ditadura militar. Ele cheirou algo de esquerda em mim. Ambos levantamos a voz. Meia-volta e se perdeu no meio dos convidados.
Há alguns anos dei uma longa entrevista a uma revista de ensaios marxistas. Contei a eles do único encontro que tive com Carlos Marighella, quando se organizava a guerrilha. Me levaram até um apartamento nos Jardins. À entrada, alguém me disse: “Ele está na porta do fundo. Siga e abra.” Marighella me observou: “Com seu sotaque, esses olhos, esse cabelo loiro, você irá para Curitiba no setor de logística.” Respondi que precisava pensar.
Não contei a Lucilla, ficaria preocupada.
E eu, estava convencido? E o medo?
À revista de ensaios marxistas, ocultei o nome da pessoa que me levou, mesmo lembrando muito bem quem era. Tempos depois visitei essa pessoa, já muito idosa. Falei da entrevista, deixando claro que não revelei seu nome. “Fez muito bem”, ela respondeu.
Um amigo veio nos ver, perguntou se Iara Iavelberg[6] podia passar a noite em casa. O jantar foi animado, Iara riu bastante. Ela saiu de madrugada, não a ouvimos. Esqueceu uma meia-calça preta. Não servia em Lucilla.
Mais tarde, juntando os pedaços, pensamos que pode ter sido a última noite da Iara em São Paulo.
Depois que fui cassado pelo AI-5, Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso me deram uma bolsa. O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, já estava fundado, mas eu não tinha requisitos para entrar. Bolsa de duração determinada, só para sair do buraco. Fiz então uma pesquisa sobre chanchada, que [a socióloga] Fátima Jordão me disse não ser uma pesquisa porque eu não tinha hipótese.
Fui ao festival de Viña del Mar. Em Santiago encontro Fernando Perrone, deputado exilado no Chile. Converso com ele sobre a possibilidade de obter um emprego universitário ali perto. Ele acha possível e pede que eu lhe mande minha documentação para a Universidade de Concepción.
Em São Paulo, conto os planos a Lucilla. Ela me responde categórica: “Não irei ao Chile. Vai acontecer o mesmo que aconteceu no Brasil.”
Estamos em 1969.
Quando era adolescente, eu me perguntava: “O que será da minha vida?” Tinha certeza de que acabaria maltrapilho numa calçada.
Há poucos dias, um sujeito me para aqui no Copan. Diz que mora no bloco B e me pergunta se sou fulano de tal. Digo que sim:
“Como o senhor sabe?” Ele: “Você deu uma entrevista pro Goulart de Andrade, ele abria a porta do seu apartamento dizendo: ‘Agora vocês vão conhecer um intelectual de verdade.’” Me espanto com a lembrança do sujeito. A entrevista já tem uns vinte anos. Ele me explica: “Sou químico, tenho boa memória.” Na internet, encontramos o vídeo. A frase está lá, num programa da TV Gazeta. Goulart de Andrade para a câmera: “Vocês vão conhecer um intelectual maciço.”
Sou uma construção social. Valorizado, homenageado. A sociedade precisa construir referências culturais. E uma das referências que a sociedade construiu fui eu. Meu amigo Calil[7] diz: “Estamos sendo tombados.” Nós aqui falando, você está gravando, vai mandar isso para a editora, a editora vai pagar todo esse trabalho, sem saber o que de fato vai sair. Hoje dei um passo notável: o Canal Brasil telefonou e disse que gostaria de festejar o meu aniversário na televisão. Pessoas e instituições me inventam.
Às vezes sou sincero, realmente me pergunto por quê.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_206 com o título “”Sou uma construção social””.
Trechos extraídos de Wet mácula: memória/rapsódia, que será lançado neste mês pela Companhia das Letras.
[1] Heloisa Jahn (1947-2022), tradutora e editora, trabalhou na Brasiliense, Companhia das Letras e Cosac Naify. Traduziu, entre outros, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Charles Dickens. Interrogada duas vezes durante a ditadura militar, autoexilou-se na França e em outros países, entre 1970 e 1977. Foi dela o projeto de memórias de Jean-Claude Bernardet. (N. R.)
[2] Eduardo Coutinho (1933-2014) é um dos principais documentaristas do cinema brasileiro. Dirigiu, entre outros, Cabra marcado para morrer (1984), Edifício Master (2002) e Jogo de cena (2007). (N. R.)
[3] Cecília Thompson (1936-2019) foi jornalista, tradutora, atriz e mulher do dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri. (N. R.)
[4] Rudá de Andrade (1930-2009) foi diretor de cinema e um dos criadores do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP, onde deu aulas. Com Paulo Emílio Sales Gomes, participou da criação da Cinemateca Brasileira, da qual foi conservador e conselheiro. Era filho de Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, a Pagu. (N. R.)
[5] Lucilla Ribeiro (1935-93) foi professora de cinema e literatura, tradutora e ensaísta. Atuou na Cinemateca Brasileira de 1966 a 1975, um período de grave fragilidade institucional. Foi casada com Jean-Claude Bernardet. (N. R.)
[6] Iara Iavelberg (1944-71) foi psicóloga e militante da extrema esquerda, companheira de Carlos Lamarca. Morreu durante um cerco policial em Salvador, na Bahia. (N. R.)
[7] Carlos Augusto Calil (1951-) é ensaísta, pesquisador e professor de cinema na USP. Foi presidente da Embrafilme, secretário municipal da Cultura de São Paulo e diretor da Cinemateca Brasileira. Atualmente, é presidente do Conselho de Administração da Sociedade Amigos da Cinemateca. (N. R.)