anais da guerra e da diplomacia II
Alessandro Candeas Out 2023 13h19
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Passados 37 dias do começo da guerra, os brasileiros que moravam na Faixa de Gaza conseguiram cruzar a fronteira com o Egito no domingo, 12 de novembro, e agora estão a caminho do Brasil.
O embaixador do Brasil junto à Autoridade Palestina, Alessandro Candeas, participou diretamente da operação que resgatou os brasileiros. Ele vive na residência oficial, em Jerusalém Oriental, cidade controlada por Israel e reivindicada como futura capital do Estado da Palestina. O escritório consular fica em Ramallah, capital administrativa da Autoridade Palestina, na Cisjordânia.
Em depoimento ao editor da piauí Luigi Mazza, Candeas contou o que viveu nos primeiros de guerra e os bastidores da operação diplomática. No momento em que o relato foi publicado, os brasileiros ainda aguardavam, apreensivos, a abertura da fronteira.
7 DE OUTUBRO, SÁBADO_São meus últimos dias de férias em Brasília. Retorno a Jerusalém na segunda-feira. Na madrugada de ontem para hoje, eu estava em casa, assistindo a um filme com minha família, quando o aplicativo Red Alert começou a disparar freneticamente alertas de mísseis. Como quase todo mundo que mora em Israel, estou habituado a receber pelo celular esses avisos, que nos dizem quanto tempo temos para arrumar um abrigo – a depender da cidade, você tem entre 15 e 90 segundos para se proteger. Percebi que algo de muito grave estava acontecendo.
Avisei minha esposa e minha filha que dormiria no sofá da sala, para que o barulho dos alertas não as incomodasse. Não preguei o olho. Passei a noite em claro. Eu já tinha vivido uma situação parecida como embaixador em maio de 2021. Na época, houve confrontos durante o Ramadã, período sagrado de cerca de um mês em que os muçulmanos se dedicam a rezar e jejuar da alvorada ao pôr do sol.
As guerras são uma constante na Terra Santa há 3 mil anos. Certa vez, um embaixador palestino me contou uma anedota: um judeu e um palestino perguntaram a Deus se algum dia haveria paz na região. Deus respondeu, com sotaque britânico: “Yes, certainly, but not in my lifetime” (sim, com certeza, mas não estarei vivo para ver).
Os conflitos na Faixa de Gaza seguem um padrão e costumam eclodir durante os feriados religiosos, quando judeus e palestinos disputam espaço na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém. Os ânimos se acirram. Achávamos, minha equipe e eu, que aconteceria algo durante o Ramadã deste ano, que coincidiu com a Páscoa judaica, mas não foi o caso. Nos últimos meses, víamos a tensão crescer: manifestações do Hamas, confrontos com forças de segurança e colonos israelenses em territórios palestinos ocupados, tudo tornava o ambiente político cada vez mais volátil. Basta uma chispa para explodir. Foi o que aconteceu. Desta vez, o Hamas atacou durante a comemoração judaica da Festa dos Tabernáculos (também conhecida como Festa das Cabanas). A data, além disso, marcou os 50 anos da Guerra do Yom Kippur, de 1973.
De madrugada, quando já passava da meia-noite em Brasília e em Israel eram seis da manhã, comecei a receber pelas redes sociais fotos e vídeos nos quais custei a acreditar. Fiquei chocado, porque não eram “apenas” mísseis. O Hamas invadiu por terra. Derrubou cercas, dinamitou muros, invadiu postos de controle, roubou carros blindados e colocou suas bandeiras em tanques de guerra israelenses. Grande afronta simbólica ao poderoso Exército israelense.
Mas a incursão foi muito além do simbólico. Os vídeos eram terríveis. Famílias israelenses no entorno da Faixa de Gaza, atônitas, filmaram dos prédios e das casas membros do Hamas em picapes dando tiros de fuzil nas ruas e raptando pessoas. Soldados encapuzados pousavam em solo israelense com parapentes. Os moradores estavam apavorados. Recebi também vídeos que mostravam integrantes do Hamas retornando a Gaza dirigindo veículos militares israelenses, sob os aplausos da população. Me lembrei da Guerra do Yom Kippur. Como Israel pôde ser pego de surpresa de novo?
Logo que amanheceu, enviei orientações à minha equipe sobre os termos do relatório urgente que precisaríamos enviar ao Itamaraty. Como meus funcionários não podiam acessar o escritório em Ramallah – a fronteira havia sido fechada –, transmitimos nossas comunicações pela embaixada brasileira em Tel Aviv, contando com a gentil colaboração do embaixador em Israel, Frederico Meyer, e sua equipe.
Além do aspecto político, havia uma preocupação imediata: como estariam os brasileiros que moram na Faixa de Gaza? Pedi que as duas funcionárias locais do setor consular, ambas gaúchas com nacionalidade palestina, ligassem para eles. Já tínhamos uma lista com os telefones de todos, porque duas vezes ao ano organizamos o que chamamos de “consulados itinerantes” na cidade de Gaza. Como as pessoas não podem ir até nós, em Ramallah, vamos até elas e oferecemos serviços consulares in loco, como a renovação de passaportes e atualização de documentos.
A população brasileira na Faixa de Gaza é formada por cerca de 40 pessoas, das quais 36 estão registradas no nosso consulado. Ligamos para todas as famílias. “Como vocês estão?”, perguntamos. “Vai vir bomba na cabeça da gente”, responderam, com muito medo. Sabíamos que a reação de Israel seria imediata. Poucas horas depois, começaram os bombardeios sobre Gaza.
Era necessário implementar ações de proteção aos cidadãos brasileiros, inclusive de evacuação. Uma ação humanitária não se improvisa. Essa é a versão concreta de uma das máximas da diplomacia brasileira: “O Itamaraty não improvisa.” Como muitas embaixadas, temos um plano de contingência para situações como essa. O plano está detalhado em uma apostila que elaboramos com os colegas de Tel Aviv, inclusive com a participação dos adidos militares, porque precisamos ter uma articulação estreita com eles em caso de confronto bélico. O capítulo final do plano trata justamente de evacuação pela Força Aérea Brasileira. Começamos hoje a planejar a operação para retirar os brasileiros da Faixa de Gaza, como previsto, pela fronteira Sul, com o Egito.
8 DE OUTUBRO, DOMINGO_O Itamaraty convocou uma reunião de emergência para hoje de manhã. Como estou em Brasília, pude participar presencialmente. A reunião foi presidida pela secretária-geral do Itamaraty, embaixadora Maria Laura da Rocha, que está atuando como ministra interina, já que o chanceler Mauro Vieira está em viagem pela Ásia. Participaram o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro; o comandante da Aeronáutica, Marcelo Damasceno; o assessor especial do presidente Lula, embaixador Celso Amorim; e diversos colegas do Itamaraty responsáveis pelo processo de repatriação dos brasileiros.
O brigadeiro Damasceno explicou como será a operação de resgate dos brasileiros em Israel. Recordei, entretanto, que há brasileiros dos dois lados do conflito. Há um número maior vivendo em Israel, e estima-se que 2 mil devem ser repatriados. Mas, embora em Gaza haja bem menos pessoas, a operação será muito mais complexa.
Em Israel, cria-se um formulário eletrônico para recolher as informações de quem deseja ser repatriado, organiza-se listas de voos e, feito isso, aviões da FAB realizam o transporte. Em Gaza será preciso se comunicar com vários interlocutores: as “autoridades de fato” da Faixa de Gaza (isto é, o Hamas) e os representantes tanto de Israel quanto do Egito, que controlam a fronteira Sul, uma das mais sensíveis e perigosas do planeta, por onde transitam o Hamas e a Irmandade Muçulmana.
Encerramos a reunião pouco antes do horário do almoço. Ainda no Itamaraty, comecei a contatar diferentes atores. O Brasil não tem nenhuma relação com o Hamas. Mas, para proteger os brasileiros e conseguir autorização para que saiam de Gaza, é necessário ter algum canal de comunicação com a autoridade local. Entrei em contato. A resposta foi imediata, e a melhor possível: “Tudo o que seus cidadãos precisarem, contem conosco.” O Brasil é um país muito querido e respeitado por todos os lados. Basta dizer que você é do Brasil que as portas – e os sorrisos – se abrem, seja em Israel, na Cisjordânia ou em Gaza. É emocionante. Dá orgulho de ser diplomata brasileiro.
Nas ligações de ontem, perguntamos aos brasileiros quem queria ser evacuado. Dos 36 que vivem na Faixa de Gaza, 30 queriam sair. Montamos uma lista. Eles estão em quatro cidades: Gaza, Khan Younis, Beit Hanoun e Beit Lahia. Reabilitamos um grupo de WhatsApp chamado Brazilians in Gaza, criado em maio de 2021, durante os conflitos da época do Ramadã. Passamos agora a nos comunicar por ali.
Com a lista em mãos, pedi à minha secretária em Ramallah que contratasse uma empresa de ônibus para tirarmos os brasileiros de lá, levando-os ao Sul da Faixa de Gaza para atravessar a fronteira com o Egito. Serão necessários dois veículos: um para pegar os moradores de Gaza, Beit Hanoun e Beit Lahia – cidades localizadas na porção Norte da Faixa – e outro para os moradores de Khan Younis – que fica na porção Sul.
Mesmo com o começo dos bombardeios, os brasileiros optaram por permanecer em suas casas até serem resgatados.
9 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_Meu voo para Israel foi cancelado, assim como o de minha mulher e minha filha. Disse a elas que permanecessem em Brasília, já que a situação é instável. Consegui embarcar à tarde, junto com meu colega de Tel Aviv, o embaixador Frederico Meyer, em um dos voos da FAB que estava partindo para lá, com escala em Roma. Difícil dormir durante a viagem. Mais uma noite com déficit de sono.
A operação de repatriação está pronta. Os ônibus estão à nossa disposição. A viagem de Gaza a Rafah, cidade palestina na fronteira com o Egito, é curta. Mesmo com engarrafamento, a previsão é de apenas uma hora para percorrer os menos de 40 km. Todos os lados dessa história – Egito, Israel e a autoridade de Gaza – já foram informados da evacuação dos brasileiros. Passamos até mesmo fotos e as placas dos ônibus, que também serão identificados com bandeiras do Brasil.
Para atravessar a fronteira, é preciso ter autorização dos dois lados – Egito e Israel. Estamos seguindo o protocolo, tudo by the book. Conversei com nosso embaixador no Cairo, Paulino de Carvalho Neto, e passei a lista de brasileiros. Ele e sua equipe rapidamente prepararam uma nota diplomática, enviada para o Ministério das Relações Exteriores do Egito. Em paralelo, enviei a mesma lista para a embaixada em Tel Aviv.
10 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Pousei em Tel Aviv às duas da tarde, e de lá me dirigi à minha residência oficial em Jerusalém. No caminho, meu motorista árabe-cristão me informou sobre a intensificação dos bombardeios e as primeiras perdas humanas de ambos os lados.
Nessa mesma tarde, partiu o primeiro voo da FAB de repatriação dos brasileiros em Tel Aviv, com mais de duzentas pessoas. O embaixador Fred Meyer me ligou para perguntar como eu estava, e celebrou o êxito da operação. “Não me faça inveja”, respondi, sorrindo, depois de parabenizá-lo.
Ontem, a fronteira com o Egito foi bombardeada e funcionários da imigração foram feridos. Todo nosso plano de evacuação caiu por terra. Não há como atravessar a fronteira, mesmo que o governo egípcio autorize a nossa entrada. Aguardamos notícias, inquietos. Os brasileiros continuam em suas casas, cercados pelo bombardeio crescente. Começo a ficar mais preocupado, conforme eles relatam a situação em vídeos, áudios e mensagens de texto enviados em nosso grupo de WhatsApp.
Parentes e amigos me mandaram mensagens, preocupados. É natural. Mas a verdade é que estamos acostumados. Não sinto nenhum medo. Isso também se deve ao fato de eu e os demais diplomatas morarmos em Jerusalém. As bombas não chegam aqui, embora explodam a Oeste, do lado israelense, e ao Sul, sobre assentamentos israelenses em territórios palestinos ocupados. Não imagino mísseis dirigidos contra a Cidade Velha de Jerusalém, onde está a Mesquita de Al-Aqsa, terceiro lugar mais sagrado do islã, e o Domo da Rocha, ambos a 20 minutos a pé de minha residência. Às vezes acontece um atentado contra um ônibus, um trem, ou confrontos de rua entre grupos de muçulmanos e judeus. Mas os moradores de Jerusalém, como nós, já sabem o que evitar, e em que momentos e locais. Dessa forma, estamos protegidos. É como estar no centro de um furacão: vemos tudo o que acontece ao redor, mas, no centro mesmo, nada de grave acontece.
Continuamos trocando mensagens com as famílias em Gaza. Aguardamos autorização do Egito para passar na fronteira, mas até agora nada. Silêncio.
À tarde, a situação se agravou. No grupo de WhatsApp, os brasileiros começaram a enviar vídeos desesperados. “Estamos apavorados, vamos morrer. Nos ajudem a sair daqui.” O contra-ataque israelense está se ampliando. Uma família brasileira – um casal e uma criança de colo – nos pediu socorro: teve a casa destruída por uma bomba e agora busca um abrigo. O vídeo em que o pai aparece junto com a criança, dentro de um carro percorrendo a cidade de Gaza, me abalou.
Os brasileiros preferiram continuar em suas casas, no primeiro momento. Mas agora a situação mudou. Os bairros onde moram passaram a ser bombardeados. Passamos então para outra etapa do protocolo: proteger os brasileiros de hostilidades e levá-los a um local seguro.
Pedi às funcionárias da embaixada que ligassem para uma igreja católica que sedia nossos encontros do “consulado itinerante”, na cidade de Gaza. Perguntamos se aceitariam abrigar os brasileiros temporariamente. A igreja se chama Sagrada Família. Me dei conta de que, 2 mil anos atrás, um jovem casal passou por Gaza enquanto se dirigia ao Egito, fugindo de um rei insano que estava cometendo um genocídio de crianças em Belém. A jovem mãe levava um bebê recém-nascido. Era Jesus – um refugiado, como tantos outros que percorreram essa mesma rota.
A igreja comporta uma escola, a melhor de Gaza. Ali, filhos dos integrantes do Hamas estudam e jogam bola com crianças de famílias cristãs. Como os padres já conhecem os brasileiros da cidade, pensei que seria nossa melhor opção de abrigo. Minha secretária conversou por telefone com o padre, que concordou em dar refúgio aos brasileiros. Pouco depois, no entanto, ela recebeu uma mensagem dele: o Exército israelense acabara de avisar que iria bombardear o prédio ao lado. A igreja estava sendo evacuada. Corremos rapidamente atrás de um plano B.
Sou da área de humanas, não sei nada de medicina, mas me lembrei de um curso de primeiros socorros da Cruz Vermelha que fiz, durante seis meses, na Universidade de Brasília. A primeira coisa que aprendi é que, em situações de catástrofe, devemos manter a calma, o controle, a visão de conjunto e não tomar decisões por impulso. Tudo precisa ser feito com total segurança. Eu me lembro de o instrutor dizer em uma das aulas sobre acidentes de carro: “Se você ouvir uma criança chorando, está tudo bem: isso significa que ela está viva, os pulmões estão funcionando e o sangue está circulando. Não se desespere.” É o contrário do que alguém sem treinamento pensaria. O silêncio é o que mais preocupa o socorrista, porque pode indicar colapso. Tento agir dessa maneira na atual situação: manter a calma, o equilíbrio, abrir a mente para opções e não deixar que o desespero dos brasileiros me leve a tomar decisões precipitadas que coloquem em risco a segurança deles.
Correndo contra o tempo, uma de minhas funcionárias conseguiu garantir abrigo para o dia seguinte em outra escola católica de Gaza, a Escola das Irmãs do Rosário, que muito gentilmente aceitou acolher os brasileiros. Já era noite, os bombardeios continuavam, mas agora o nosso grupo poderia esperar em segurança a abertura da fronteira.
11 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_As famílias chegaram à escola logo de manhã. Depois da aflição de ontem, foi um momento bonito. Uma das crianças, um menino de 11 anos chamado Bader, gravou vídeos agradecendo ao Brasil por tê-lo protegido. “Senti muita segurança, porque aqui a gente não pode morrer. Aqui é limpo, que beleza. Obrigado, Brasil”, ele disse. O local é uma escola, não uma casa. Mas, dada a situação que estão vivendo, já foi um alívio. Por meio da embaixada em Tel Aviv, informamos a Israel que havia brasileiros na escola e pedimos que ela fosse poupada das bombas.
Uma jovem psicóloga que já conhecíamos se colocou à disposição dos brasileiros para orientá-los nessa situação traumática. Como ela mora em Ramallah, não pôde se encontrar com eles presencialmente, mas passou a mandar mensagens no nosso grupo de WhatsApp. Deu dicas de respiração que acalmam, recomendou que os pais contem histórias para as crianças, recordem dos bons momentos no passado, cantem músicas, estejam unidos em grupo, abracem seus corpos e travesseiros e tentem se imaginar num lugar calmo e seguro.
Depois que informamos Israel sobre a escola, escrevi uma mensagem para os brasileiros: “Vocês estão num oásis de segurança.” Tudo ao redor estava sendo bombardeado, mas a escola era segura. Mencionei o Salmo 91: Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido. Queria que se sentissem protegidos.
12 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Como todos os brasileiros estavam em segurança, ainda que provisória, consegui dormir na noite passada, pela primeira vez em dias. Hoje foi um dia um pouco mais tranquilo. À noite, contudo, começaram bombardeios intensos em Gaza. Uma jovem brasileira de 18 anos, Shahed al-Banna, permanecia em casa com sua irmã e sua avó. Elas optaram por não ir para o abrigo. Mas a situação piorou, e Shahed gravou vídeos chorando, desesperada. À noite, todas elas se mudaram para a escola onde estão os brasileiros.
A autorização do Egito ainda não chegou. Conversei com chefes das áreas do Itamaraty e recomendei que aumentassem o nível de interlocução com os egípcios, para que nossos brasileiros sejam autorizados a sair antes que a situação piore.
A imprensa tem nos procurado cada vez mais. Dou entrevistas e mantenho um constante fluxo de informações com vários veículos. É importante que os meios de comunicação conheçam os dois lados do conflito e mostrem o sofrimento dos brasileiro-palestinos de Gaza. Todos estão ansiosos pela notícia da saída dos brasileiros rumo ao Egito, mas a realidade teima em negar a manchete.
Minha equipe (que chamo de dream team) está dividida em dois grupos, devido às dificuldades de acesso a Ramallah. Diplomatas e oficiais de chancelaria trabalham em Jerusalém, cuidando dos aspectos estratégicos e de segurança. Os contratados locais, responsáveis pela parte operacional, atuam em nosso escritório em Ramallah.
13 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Ao acordar, fui surpreendido pelo ultimato de Israel: todos os habitantes do Norte da Faixa de Gaza deveriam migrar para o Sul.
Liguei imediatamente para a diretora da escola onde estavam os brasileiros, para saber o que fariam. Ela disse: “Recebemos a instrução de permanecer aqui.” Consultei, em seguida, o núncio apostólico, representante diplomático da Santa Sé. “Israel mandou irmos para o Sul, mas, se formos nessas condições, será a marcha da morte”, ele me disse. “Não há onde ficar.” A ordem era manter tudo como estava. Depois liguei para o assessor internacional do patriarca latino de Jerusalém, dignitário da Igreja Católica na Terra Santa e responsável pelos imóveis da igreja naquela região. Mesma resposta.
O ultimato tinha duração de 24 horas. Telefonei para representantes das Nações Unidas em busca de um abrigo para as famílias, mas todos os bunkers estavam lotados. Os hotéis também. Ficamos aflitos. Mesmo que a escola seja segura, o bairro já não é mais. Nosso oásis estava em perigo. Os brasileiros nos escrevem e mandam vídeos dos bombardeios próximos. Estão desesperados para sair de lá. As crianças choram de medo.
Tomamos uma decisão: como não temos abrigo no Sul, pedimos aos brasileiros de Khan Younis para abrigar em suas casas, provisoriamente, os brasileiros do Norte. Quando a fronteira com o Egito for aberta, todos sairão juntos. Eles aceitaram. A hospitalidade é um traço forte da cultura árabe.
Pedi à minha secretária que comunicasse a decisão à empresa de ônibus que tínhamos contratado. Eles deveriam ir até a escola, embarcar os brasileiros e levá-los a Khan Younis. São pouco mais de 20 km de distância. A empresa disse que tudo bem, mas o ônibus não chegava. Perdemos contato por telefone e internet com o motorista. Para piorar, recebemos a notícia de que a estrada tinha sido bombardeada e que setenta pessoas tinham morrido. Pensávamos, angustiados: “Será que bombardearam nosso ônibus?”
No fim da tarde, graças a Deus, soube que o ônibus tinha chegado à escola para apanhar os brasileiros, que estavam todos bem. Mas, como já era quase noite quando o veículo chegou, achamos melhor não seguir viagem. Não era seguro naquele horário, poderia haver ataques. Israel estava empurrando as pessoas para o Sul, mas jogava bombas no caminho.
Nossos colegas da embaixada em Tel Aviv comunicaram ao governo israelense que haveria um ônibus brasileiro em deslocamento. Enviamos fotos do ônibus, informamos a placa e a lista de passageiros – o procedimento-padrão. Mandei uma mensagem para as famílias brasileiras: “Jantem e durmam bem que amanhã a gente tira vocês daí.”
14 DE OUTUBRO, SÁBADO_Um dos dias mais difíceis da minha vida começou com uma boa notícia: ficamos sabendo que, do meio-dia às cinco da tarde, seria aberto um corredor humanitário para que as pessoas pudessem deixar a Faixa de Gaza rumo ao Egito. Um comboio internacional teria caminho livre para escapar da guerra. Foi uma festa. Os brasileiros estavam ansiosos para sair. Confirmamos a informação com autoridades de Israel. “O corredor vai ser aberto ao meio-dia. Não saiam antes disso”, eles disseram.
A alegria durou pouco. Às 11h38, recebemos uma mensagem das autoridades israelenses: “A fronteira será fechada novamente. Recomendamos a todos que permaneçam onde estão.” Ficamos no limbo, entre duas informações contraditórias: primeiro disseram para todo mundo deixar o Norte de Gaza, depois disseram para ninguém sair. Vão continuar bombardeando e não permitem que as pessoas se desloquem?
Dei a notícia para as famílias na escola em Gaza. Consternação geral. Busquei informações com meus contatos em Gaza, que reforçaram: “Não se movam.” Mas os brasileiros não estavam aguentando mais a espera. Sabiam que os bombardeios iam piorar.
Tínhamos poucos minutos para tomar uma decisão arriscada. Manter todo mundo em Gaza, conforme nos recomendavam, ou atender ao clamor do grupo, que estava desesperado para sair? Após consultar algumas pessoas, apresentei a Brasília as duas opções. Sugeri que tirássemos os brasileiros da escola e pedi instruções.
A decisão cabia a mim, e eu sabia que, se errasse, nunca conseguiria me perdoar. Em 36 anos de diplomacia, nunca vivi algo assim. Entre 2011 e 2012, quando trabalhava na embaixada brasileira em Bogotá, participei das operações sigilosas de resgate dos reféns das mãos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Era o começo do processo de paz entre o governo e a guerrilha, e os dois lados só confiavam no Brasil para fazer o resgate. Nosso governo enviou helicópteros e executou uma complexa operação na selva colombiana. Foi uma costura política e institucional muito tensa. Mas nada disso chega perto do que estou vivendo nessa guerra. A responsabilidade agora era toda minha. Tive que resolver, em poucos minutos, o que fazer com a vida de mais de dez brasileiros, metade deles crianças.
Recebida a orientação do Itamaraty, tomei a decisão: “Vamos tirá-los de lá.” Novamente, avisamos às autoridades israelenses que haveria um ônibus brasileiro na estrada, para que não fosse bombardeado. Só faltava combinar com o motorista do ônibus, que é palestino e estava muito receoso. Conversamos com ele e explicamos que o Exército israelense havia sido avisado sobre o ônibus. Ele cedeu, mas disse: “Se é pra sair, vamos agora, porque é um bom horário.” Eram 13 horas.
Avisei a todos da escola: “Entrem agora no ônibus. Vocês vão para Khan Younis.” Eles juntaram os pertences rapidamente e embarcaram. Prevendo fiscalização e engarrafamento nas estradas, o motorista estimou o tempo de viagem em duas horas. No fim, durou 45 minutos. Foi um milagre. Eu estava respondendo mensagens do trabalho quando recebi uma ligação de minha secretária. “Eles já chegaram a Khan Younis”, ela disse. Agradeci a Deus. Que notícia maravilhosa! Tínhamos cumprido a primeira e mais importante parte do trabalho: tirar os cidadãos brasileiros da zona de conflito.
Em Khan Younis, o plano era que eles se dividissem entre as casas dos brasileiros que vivem lá. Mas, como chegaram cedo, tiveram tempo de procurar outros imóveis. Acabaram encontrando uma casa em Rafah, localizada a 1 km do posto de imigração. Dava para ir andando até a fronteira com o Egito. Eles nos passaram os detalhes da casa, minha secretária ligou para o proprietário e alugou.
É uma casa simples, mas espaçosa, com vários cômodos, um lugar acolhedor. Mandamos dinheiro para que eles comprassem comida e água. À noite, nos enviaram uma foto do jantar que prepararam. Todos estavam sentados no chão, desfrutando de pratos compartilhados, à moda árabe, com homus e pita. Quando vi a foto, fiquei muito feliz. O motorista do ônibus, que os levou até Rafah, dormiu na casa com eles.
15 A 19 DE OUTUBRO_Temos agora dezesseis brasileiros em Khan Younis e dez em Rafah aguardando, impacientes, a abertura da fronteira. Felizmente, todos estão abrigados e bem alimentados. Nossa lista, que inicialmente tinha trinta pessoas, varia de dia para dia, já que algumas famílias desistem da repatriação, e depois voltam atrás. No dia 16, começaram a ocorrer bombardeios nas duas cidades. Como de praxe, informamos a Israel sobre a localização dos brasileiros, para que suas casas sejam poupadas. Mas não é um grande consolo: mesmo sabendo que a casa está protegida, vemos vídeos, enviados pelos brasileiros, mostrando bombardeios perto dali. Bairros próximos estão sendo destruídos.
Os brasileiros nos pediram ajuda: estava começando a faltar água, comida, gás e remédio. Mandamos mais dinheiro, e eles puderam fazer feira. Novamente nos enviaram fotos e vídeos, contentes. Uma criança estava doente, e a mãe pôde comprar remédios e fralda. Essas pequenas coisas nos deixam tremendamente felizes.
Iniciamos assim a segunda etapa de proteção aos brasileiros: após a retirada da zona de conflagração principal, agora atendíamos às demandas humanitárias, para resguardá-los da crise que assola quase 2 milhões de pessoas em Gaza.
Rafah conviveu, durante dez anos, com tropas brasileiras. A primeira missão de paz que o Brasil assumiu junto à ONU teve início em 1957, após a Guerra de Suez, em que Israel, França e Reino Unido lutaram contra o Egito. Os soldados brasileiros ficaram instalados em Rafah e ajudavam a proteger os habitantes da Faixa de Gaza. Isso marcou as pessoas da região. O local onde ficava o batalhão brasileiro hoje é um bairro chamado Al Brasil, que conta inclusive com um campinho de futebol. Os palestinos mais velhos, que eram crianças naquela época, se lembram dos brasileiros com muito carinho.
Tive a chance de visitar Rafah durante a Copa do Mundo, em novembro do ano passado. Assisti ao jogo do Brasil contra a Suíça com os moradores de lá. Foi uma festa de confraternização, noticiada na tevê local. A convite das lideranças comunitárias, plantei uma oliveira, que, espero, ainda esteja de pé. Quero visitá-la e rever as pessoas que conheci, que, também espero, estejam vivas.
Agora nos resta aguardar. No dia 14, o presidente Lula conversou com o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sissi, a respeito da urgência de abrirem as fronteiras. Nossa operação está toda pronta. No dia 18, o avião presidencial da FAB reservado para os brasileiros na Palestina voou de Roma para o Cairo. Assim que a fronteira for aberta, vamos embarcá-los num ônibus até a capital do Egito. Serão 400 km de uma viagem exaustiva pelo Deserto do Sinai. Chegando lá, eles poderão finalmente voar para o Brasil.
20 A 26 DE OUTUBRO_Nada mudou. Inércia angustiante diante de uma situação humanitária que se agrava e pode afetar os brasileiros, até agora protegidos. Esperávamos que, depois da visita do presidente Joe Biden a Israel, no dia 18, a fronteira fosse aberta, mas isso não aconteceu. No dia 21, sábado, foi autorizada a entrada na Faixa de Gaza de vinte caminhões levando água, comida, remédios. O mesmo se repetiu no domingo e na segunda-feira. Diante das necessidades da população, isso não é nada. Estima-se que, antes da guerra, entre 200 e 400 caminhões passavam todos os dias pela fronteira de Rafah.
Os poucos mantimentos foram enviados para os abrigos da ONU e do Crescente Vermelho. Não beneficiaram os brasileiros, que não estão nesses locais. É melhor que não estejam: instalações da ONU têm sido bombardeadas por Israel. Por enquanto, temos enviado dinheiro para que os brasileiros façam compras por conta própria em Rafah e Khan Younis. Estão seguros em suas casas, por enquanto.
No dia 23, eles me disseram que seu estoque de comida e água era suficiente para durar cinco dias. Não sei se vamos conseguir resgatá-los em cinco dias, então disse a eles: “Comprem o máximo de alimentos e água que puderem, façam estoque.” Não é mais possível conseguir pão na região, então eles têm comprado farinha de trigo para fazer o pão em casa. Há um lado bom nisso: assim, eles põem a mão na massa, literalmente, e esquecem um pouco do que está acontecendo ao seu redor. Os grandes galões d’água, cada vez mais raros, são transportados em carroças puxadas por jumentos. Lembro-me do interior do meu Nordeste.
Os bombardeios continuam acontecendo, sempre à noite. Para as crianças, é traumático. Não é só o barulho das bombas que assusta, mas também do voo rasante dos aviões F-16. A psicóloga ainda envia orientações no nosso grupo de WhatsApp. Uma das mães brasileiras respondeu a ela: “Só vou poder seguir suas dicas quando estiver de volta ao Brasil. Aqui não dá. É impossível dormir com esses bombardeios.” Mesmo o apoio psicológico tem limite em situações assim.
Recebi de uma das brasileiras a seguinte mensagem: “A gente vai morrer e o mundo inteiro vai assistir.” Leio relatos como esse enquanto assisto à reunião do Conselho de Segurança da ONU. Fico pensando: seria melhor se essa reunião acontecesse não no elegante salão da Primeira Avenida, em Nova York, mas em um clube comunitário de Rafah. Os representantes diplomáticos teriam mais sensibilidade e pressa para resolver a situação.
Não são apenas os brasileiros que aguardam resgate: há milhares de americanos, turcos, marroquinos, europeus de diferentes nacionalidades. Mas a fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza é sensível. Qualquer ação ali depende da coordenação do Egito com Israel e com as autoridades do Hamas. Os israelenses temem que, com a abertura da fronteira, terroristas fujam para o Egito. E os egípcios, por sua vez, querem evitar um fluxo descontrolado de milhares de refugiados na Península do Sinai.
No domingo, dia 22, fui a Ramallah pela primeira vez desde o início do conflito. Compareci a um encontro com o primeiro-ministro da Palestina, Mohammad Shtayyeh. Desde então, passei a me deslocar diariamente até nosso escritório. Troco informações constantemente com colegas do Itamaraty e com a imprensa. Considero fundamental o contato com jornalistas: vendo as notícias, os brasileiros da Faixa de Gaza sabem que não estão sós, que o Brasil todo está torcendo por eles.
Participei, no dia 26, de uma videoconferência do presidente Lula com as famílias que estão em Khan Younis. Não foi possível falar com os brasileiros de Rafah, que estavam com a internet instável. “Coragem, mantenham a esperança, tudo vai dar certo”, disse o presidente. “Vocês vão sair daí e voltar ao Brasil. Como vocês dizem, Salaam Aleikum (que a paz esteja convosco)!” Logo depois pude perceber, em nosso grupo de WhatsApp, que a conversa deu ânimo aos brasileiros.
27 DE OUTUBRO_Os bombardeios se intensificaram tanto em Khan Younis quanto em Rafah. Ontem à noite, tropas israelenses fizeram uma pequena incursão por terra ao Norte de Gaza. Isso vinha sendo anunciado havia dias. Hoje, a invasão começou a ser feita em maior escala, com tanques e artilharia. Por causa das bombas, a empresa Jawal acaba de interromper os serviços de internet e telefonia na Faixa de Gaza. Perdemos a comunicação com praticamente todos os brasileiros, exceto uma família que está em Rafah. Esperamos que, por meio dela, nós possamos fazer contato com os demais brasileiros.
Todos os dias, vou ao Santo Sepulcro, na Cidade Velha de Jerusalém, e rezo. Peço a Deus que tenha misericórdia das famílias que estão sofrendo. Recebo vídeos dos bombardeios, de crianças chorando, de corpos dilacerados. Antes de perdermos contato por WhatsApp, eu dizia aos brasileiros: “Não abandonaremos vocês.” Evito fazer qualquer previsão de quando serão resgatados. Nossa missão está 90% cumprida. Agora falta só 1 km.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_206 com o título “Angústia na fronteira”.