carta dos bálcãs
Daniel Lisboa Nov 2023 14h37
24 min de leitura
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De Sarajevo
Estradas em linha reta são pura abstração no Leste da Bósnia-Herzegovina. Essa parte do país é bastante montanhosa, e ao viajar nas estradas cheias de curvas é quase impossível não sucumbir aos enjoos. Por isso, senti um grande alívio quando o furgão estacionou por volta de dez da manhã em um posto de gasolina da cidade de Vlasenica. Era um estabelecimento modesto, mas tinha tudo que se espera encontrar em uma parada providencial: um banheiro limpo, uma lanchonete organizada e uma balconista de olhar triste.
Vlasenica, que fica numa região de maioria sérvia, está a meio caminho de Srebrenica, que era o destino da viagem que eu fazia com minha companheira, Juliana, e dois turistas – o argelino Lahouari Tahri, de 41 anos, e o chinês Chen Wang, de 55 anos, ambos simpáticos, mas de poucas palavras. Nosso guia era Adnan Čengić, bósnio muçulmano que também dirigia o furgão.
Nos primeiros dias de julho, começo do verão na Europa, a paisagem em volta do posto compunha um belo cartão-postal: as vacas gordas pastando no campo ao longe, as casas antigas da cidade penduradas nas colinas de um verde intenso, as ruas quase desertas. O cenário idílico e luminoso, entretanto, não esconde o passado sinistro.
Logo em frente ao posto de gasolina vê-se um outdoor homenageando os integrantes de uma milícia sérvia chamada Segunda Brigada Šekovići. São todos eles criminosos da Guerra da Bósnia, ocorrida entre 1992 e 1995. Não só isso: o próprio prefeito de Vlasenica, o sérvio Miroslav Kraljević, é acusado de assassinatos, detenções ilegais, abuso sexual e participação no sumiço de bósnios muçulmanos durante essa guerra. Ele comandava na época uma unidade de elite da polícia em Vlasenica. O processo se arrasta há anos, sem solução. (Kraljević também sequestrou um político rival e o manteve em cativeiro durante doze dias; foi condenado em 2013 a pagar 2 mil euros de multa e depois disso ficou livre para voltar à política.)
Cerca de 100 mil pessoas morreram na Guerra da Bósnia, desencadeada durante o processo de dissolução da Iugoslávia, uma república socialista fundada depois da Segunda Guerra Mundial. A Iugoslávia agregava seis nações diferentes: Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Sérvia. Era, naturalmente, uma república multiétnica, multilinguística e tinha três religiões: católica, cristã ortodoxa e muçulmana. Quando a Iugoslávia começou a desmoronar, a partir de 1991, as seis nações deram início às declarações de independência. Algumas ocorreram em relativa paz, como a da hoje Macedônia do Norte, outras geraram conflitos, logo resolvidos, como a Eslovênia e a Croácia. O processo de independência da Bósnia-Herzegovina, porém, despertou um conflito étnico-religioso de grande proporção, opondo bósnios muçulmanos – a maioria da população, que queria a independência – e sérvios cristãos, que residiam no país e compunham cerca de 30% dos habitantes. Os sérvios cristãos não queriam a separação da Iugoslávia, país então mantido por apenas duas das seis nações, Sérvia e Montenegro, ambas de maioria cristã.
Iniciou-se um processo de limpeza étnica da população muçulmana na Bósnia-Herzegovina, fomentado pelo então presidente da Sérvia, o ultranacionalista Slobodan Milošević, e por generais como Ratko Mladić, chamado de “o carniceiro dos Bálcãs”. Foi ele o responsável pelo massacre de 8 mil muçulmanos em Srebrenica, em 1995, o maior genocídio cometido na Europa desde o Holocausto. Em 2021, o Tribunal Penal Internacional rejeitou o recurso de apelação e manteve a condenação de Mladić à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Ele já havia sido condenado em primeira instância em 2017.
O Acordo de Dayton pôs fim ao conflito em 1995, mas dividiu a Bósnia-Herzegovina em duas regiões administrativas autônomas: a Federação da Bósnia-Herzegovina, formada por uma maioria de bósnios muçulmanos e croatas, e a República Sérvia (que não deve ser confundida com a Sérvia propriamente dita, que é um país vizinho), com uma maioria de sérvios cristãos. Vlasenica, a cidade do nosso destino, fica nessa República Sérvia. Desde que deixamos Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, são bandeiras da Sérvia vizinha ou com as suas cores nacionais (vermelho, azul e branco) que avistamos mais frequentemente. A bandeira da Bósnia-Herzegovina está hasteada apenas em edifícios públicos.
Os traumas do passado não foram totalmente superados no país. Principalmente porque os sérvios seguem nutrindo sentimentos nacionalistas e separatistas. Muitos deles não veem a perseguição e o genocídio dos bósnios ocorridos durante a guerra como um erro – e prosseguem alimentando o ódio. Ao passarmos em Sarajevo do Leste, uma pequena cidade de maioria sérvia, vimos um muro que ostentava um grafite saudando Ratko Mladić. Ao lado do retrato do carniceiro, estava escrita a seguinte frase: “Além do Rio Drina, nós mataríamos por você mais uma vez.” O Drina é a fronteira natural entre os países Sérvia e Bósnia-Herzegovina.
Nossa viagem começou em 29 de junho em Sarajevo, a capital bósnia. O apartamento que alugamos ficava bem próximo ao Centro da cidade. Na primeira manhã, tomamos café em um restaurante, na frente do qual havia um edifício com marcas de bala na fachada. Logo descobri que essas cicatrizes estão espalhadas por toda a capital, que enfrentou o mais longo cerco a uma cidade europeia na história moderna. As forças sérvias dominaram as montanhas em torno de Sarajevo por pouco mais de 1,4 mil dias – período maior que o do famoso cerco nazista a Leningrado (hoje São Petersburgo), que durou novecentos dias. Cerca de 11,5 mil civis morreram durante o cerco.
Não demorou muito para descobrirmos que o prédio onde estávamos hospedados fora alvejado também. Numa pacata rua residencial, encontramos um pequeno memorial, com uma placa informando que, ali, crianças haviam sido mortas em um ataque durante a guerra.
Apesar dessas marcas pavorosas do conflito, Sarajevo não tem hoje um clima pesado ou hostil. Com 275 mil habitantes, é uma cidade arborizada, cosmopolita, cheia de vivacidade, principalmente no verão. Mesmo que os muçulmanos sejam agora maioria na capital (cerca de 80% da população), nas ruas não se vê apenas mulheres de burca, mas também mulheres jovens de top e rapazes com tatuagens e piercings. No Centro da cidade, o burburinho dos turistas é interrompido pela chamada dos alto-falantes das mesquitas para a oração. Pessoas tomam cerveja nos bares enquanto homens muçulmanos se ajoelham para rezar logo ao lado.
Os prédios e monumentos históricos expõem o passado político, étnico e religioso da região. Lá estão as mesquitas e outras construções da época do domínio otomano. Uma das principais mesquitas fica a pouca distância de uma igreja cristã ortodoxa sérvia. Os elegantes edifícios do período do Império Austro-Húngaro convivem com os blocos de prédios austeros da época da Iugoslávia socialista. Decorando todos os tipos de arquitetura estão as marcas de balas.
Na entrada do centro histórico, um monumento agradece a muçulmanos, sérvios e croatas por terem lutado juntos para libertar Sarajevo dos nazistas. O prédio da prefeitura da cidade, uma extravagante e colorida construção em estilo neomourisco, abrigou há algumas décadas a Biblioteca Nacional, com 2 milhões de livros, revistas e manuscritos. Quase tudo se perdeu depois de um ataque de artilharia na noite de 25 de agosto de 1992. Reconstruído, hoje o prédio tem uma placa na entrada que diz, sem meias palavras, que os responsáveis por tamanho atentado à cultura do país foram os “criminosos sérvios”.
Nosso guia em Sarajevo foi o bósnio muçulmano Mak Muranović. Ele nos mostrou os prédios ainda deteriorados da via que ficava de frente para as posições sérvias, conhecida como a “avenida dos franco-atiradores”. Subimos as colinas que cercam Sarajevo para conhecer alguns dos pontos estratégicos usados pelos sérvios para atacar a cidade. Conhecemos o Túnel da Esperança, de 800 metros, escavado durante o longo cerco para que os bósnios pudessem chegar até uma área dominada por seus iguais e trazer de lá armas, comidas e outros itens de sobrevivência. O túnel, que ficava no quintal de uma casa comum, escondido sob uma cobertura discreta, também serviu para a fuga de milhares de pessoas. A residência se transformou depois em museu, e é hoje uma das principais atrações turísticas do país.
Muranović, um homem esguio de pele clara e olhos muito expressivos, tem 33 anos e estudou relações exteriores na Universidade Internacional de Sarajevo. Como é difícil encontrar um emprego em sua área (e em muitas outras) na Bósnia-Herzegovina, ele trabalha como guia há oito anos. A história de sua família está ligada à da guerra. Ele e parte dos familiares conseguiram escapar de Sarajevo ainda no início do cerco, mas seu pai permaneceu na cidade para lutar. “Eu tinha 2 anos, meu irmão tinha 11 e meus pais tinham 39 anos de idade quando a guerra começou. De início, eles não acreditavam que de fato haveria guerra e um cerco tão longo”, diz ele.
Após dois meses de cerco, a realidade se impôs, e a família decidiu escapar. Era uma tarefa bastante difícil. Um tio, um importante engenheiro da Iugoslávia socialista, usou sua influência para embarcar Muranović, seu irmão Adi e sua mãe, Amela, em um ônibus rumo à Croácia. A viagem de cerca de 250 km levou três dias, porque precisou atravessar barreiras e esperar a movimentação de tropas para seguir em segurança. “Primeiro, para chegar até o ônibus, tivemos que atravessar Sarajevo de Sul a Norte, o que quase não conseguimos porque os sérvios atiravam de todas as direções”, diz Muranović. “Durante a viagem, em dado momento, o ônibus foi parado por tropas sérvias. Fizeram todo mundo descer e fomos levados a uma quadra de basquete onde fomos pilhados de qualquer pertence valioso que a gente levava.” Como era muito novo na época, Muranović rememora essa fuga baseado no que sua mãe e seu irmão lhe contaram. “Eu sei que os sérvios arrancaram o dedo de uma mulher porque queriam seu anel.”
Depois de passarem um mês no campo de refugiados de Kaštel Gomilica, na Croácia, Muranović e sua família foram para a Suíça, com a ajuda de primos que moravam lá. Conseguiram o status de refugiados e moraram seis anos em Neuchâtel. “Quando voltei à Bósnia, em 1998, fomos morar em um bairro de Sarajevo em que todos os edifícios tinham milhares de buracos de bala. A primeira coisa que perguntei para a minha mãe foi por que os prédios pareciam aqueles queijos cheios de buracos da Suíça”, lembra Muranović. “Minha mãe quis voltar para a Bósnia porque era nostálgica da antiga Iugoslávia. Mas, quando voltou, viu que tudo havia mudado. Até morrer, sempre disse que seu maior erro foi ter deixado a Suíça.”
Se a mãe de Muranović teve que conviver com esse arrependimento, seu pai, Tarik, enfrentou sequelas psiquiátricas pelo resto da vida, depois de lutar na guerra. Desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático e morreu em 2008. “Quando eu tentava falar sobre a guerra, as mãos de meu pai começavam a tremer imediatamente.” De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 400 mil pessoas sofrem de transtorno de estresse pós-traumático na Bósnia. Para uma população de cerca de 3 milhões de habitantes, trata-se de um número muito alto. Muranović diz que mesmo seu irmão, que hoje vive nos Estados Unidos e chegou a jogar basquete pela seleção bósnia, tem dificuldades em encarar o passado. “Embora meu pai não tenha morrido em alguma batalha, eu considero que o perdi para a guerra.”
Tarik Muranović, o pai de nosso guia, era um intelectual, professor de piano na Academia de Música de Sarajevo e escreveu vários estudos sobre a relação da música com a filosofia. “São livros complexos. Tentei ler, mas foi difícil entender”, diz Muranović. “Uma das coisas que lamento foi não ter tido a oportunidade de perguntar a ele a respeito de suas obras.”
Depois da parada no posto em Vlasenica, o nosso guia na viagem pelo interior do país, Adnan Čengić, nos leva a Srebrenica, na República Sérvia, a região autônoma na Bósnia-Herzegovina. É uma pequena cidade de 15 mil habitantes incrustada no meio das montanhas, com casas baixas e alguns poucos edifícios de dois andares ou mais. Ainda há um outro edifício destruído ou com marcas da guerra, mas de forma geral as construções estão bem conservadas. Não fosse por seu passado sombrio, Srebrenica passaria por apenas mais um aprazível vilarejo europeu, esquecido entre colinas. Apesar do declínio de sua população muçulmana, que era a grande maioria antes da guerra, algumas mesquitas ainda permanecem lá. Seus minaretes imponentes pontuam a paisagem, como braços em riste de um povo que diz: “Nós ainda estamos aqui.”
Durante a guerra, Srebrenica e arredores foram um dos enclaves bósnios que ficaram sob proteção especial de soldados holandeses da Força de Proteção da ONU (Unprofor). Declarada “segura”, a região recebeu um grande fluxo de refugiados. De acordo com a Human Rights Watch, quase 30 mil pessoas passaram a viver em uma área que, antes da guerra, tinha uma população de 4 mil habitantes. Mas, em julho de 1995, o general Ratko Mladić avançou sobre Srebrenica e disse, em uma frase que está registrada em vídeo, que finalmente daria um jeito naqueles “turcos”, referindo-se aos muçulmanos. Os sérvios fizeram reféns trinta soldados da Unprofor e seguiram até o quartel-general da ONU em Potočari, um distrito da cidade, onde estavam abrigados milhares de muçulmanos, que achavam estar protegidos ali.
Aviões da Otan chegaram a fazer ataques aéreos contra as posições sérvias. Mas isso não impediu que Mladić ocupasse o quartel-general de Potočari praticamente sem resistência. O general ofereceu às forças da ONU e aos representantes dos muçulmanos a opção de serem levados de Srebrenica para Tuzla, a cidade mais próxima sob controle do Exército bósnio. Era um estratagema do general.
As forças de Mladić separaram as mulheres, idosos e crianças dos adolescentes e homens adultos, dizendo que estes passariam por uma “triagem” antes de serem deportados. Na verdade, acabaram levados para diversos locais da região e fuzilados. Muitos outros muçulmanos que fugiram a pé para tentar chegar à Tuzla também foram mortos no caminho. O número total de vítimas foi estimado em cerca de 8 mil, e o assassínio coletivo foi formalmente reconhecido como genocídio pelo Tribunal Penal Internacional.
Em 2014, foi a vez de a Holanda ser condenada pelo Tribunal de Haia pela morte de 300 bósnios muçulmanos em Srebrenica. Eles estavam sob a guarda das forças holandeses quando foram entregues aos sérvios e até hoje a organização Mães de Srebrenica luta na Justiça para que o governo holandês pague indenizações. Em 2019, a Suprema Corte do país determinou que o Estado holandês tinha apenas “10% de culpa” pelas mortes.
O objetivo da nossa viagem à cidade era visitar o Srebrenica Memorial Center, ou o Memorial do Genocídio, onde estão enterrados em torno de 6,7 mil muçulmanos. Inaugurado em 2003, o local funciona justamente no antigo quartel-general da ONU em Potočari, a cerca de 7 km do Centro de Srebrenica. De um lado da rodovia está o cemitério, um mar de lápides em forma de totens espetados em um vasto terreno gramado. Do outro lado, está o complexo onde funcionou o quartel-general e que agora abriga as exposições permanentes sobre o massacre. Na entrada do complexo, dois grandes blocos conservam até hoje a sigla da Organização das Nações Unidas. Na fachada do prédio, uma placa avisa que tudo aquilo que o visitante está prestes a ver é um símbolo do fracasso da comunidade internacional.
Havia poucos visitantes no memorial no dia que estivemos lá. O prédio abriga 26 salas com fotos, vídeos e textos que explicam em detalhes o passo a passo da matança. A Sala Memorial foca nas histórias pessoais de vítimas do genocídio com base em seus pertences pessoais encontrados nas covas coletivas. Já a exposição O fracasso da comunidade internacional descreve como as tropas da ONU e da Otan falharam em evitar o massacre. A exposição Memento também traz itens pessoais das vítimas doados por seus parentes e sobreviventes. Suas histórias são contadas por meio de fotografias e relatos orais concedidos por aqueles que as conheceram. Há ainda uma exposição multimídia que explica a história do genocídio e as exibições temporárias. Em uma das salas com itens e fotografias que reconstroem o dia a dia das tropas holandesas no local, há um grafite que diz, em inglês: “Sem dentes? Com bigode? Cheira à merda? Mulher bósnia!”
“Eu não conseguiria dormir se atropelasse um cachorro. Não entendo como o ser humano é capaz de uma coisa dessas”, diz Lahouari Tahri, o argelino que viajava conosco. Havíamos acabado de assistir a um vídeo feito por soldados sérvios, mostrando o fuzilamento de três muçulmanos, cujos corpos são carregados por dois outros, que em seguida também são mortos. “Tivemos algo assim na Argélia com os extremistas islâmicos”, conta Tahri, que pergunta se ouvi falar do massacre de Bentalha. Digo que não, e ele saca o celular para mostrar vídeos horrendos da matança ocorrida na aldeia argelina de Bentalha, em 1997. Estima-se que entre 200 e 400 pessoas – homens, mulheres, bebês e crianças – foram assassinadas pelo Grupo Islâmico Armado (GIA), sob a suspeita de conluio com o exército argelino.
Pergunto ao guia do memorial como é a relação da comunidade local, formada sobretudo por sérvios, com o monumento que denuncia as atrocidades sérvias. Ele faz cara de desgosto e responde que, infelizmente, não é uma relação respeitosa. Conta que é comum as pessoas passarem de carro diante do memorial buzinando e gritando impropérios. Pouco tempo atrás, ele recorda, sérvios que celebravam um casamento ali perto resolveram estender a festa até o local e fizeram a maior algazarra na entrada.
Čengić, nosso guia, tem 32 anos e estudou administração pública, mas trabalha com os turistas há quase oito anos. “Como um bósnio, eu conduzo cada visita à Srebrenica como uma questão muito pessoal”, diz ele. “Considero uma honra ter a chance de mostrar o que aconteceu e ver o interesse das pessoas.” Čengić nasceu exatamente quando a guerra começou. “Meu pai nunca falou abertamente sobre a guerra comigo. Até hoje é assim. Ele basicamente apagou suas memórias da guerra.” Ele contou que, para as crianças de sua geração, as histórias da guerra contadas pelos mais velhos pareciam extraídas de um filme. Seu pai tinha 31 anos no início do conflito e lutou pelo Exército bósnio.
Ao deixarmos o Memorial de Srebrenica, Čengić nos avisou que faríamos uma parada para o almoço. Infelizmente, de acordo com ele, não teríamos muitas opções de estabelecimentos. Teríamos que ir a um pequeno restaurante à beira de um riacho. Como participantes do genocídio ainda circulam pela região, a cidade dispõe de poucos lugares para o convívio público. “Ninguém quer sair para tomar um café e cruzar com o cara que matou a sua família”, explica Čengić.
Em Srebrenica, o belo e ensolarado dia de verão conferiu certo clima de absurdo à minha visita, tendo em vista a tragédia que ocorreu ali. Foi uma situação bem diversa da que experimentei em Murambi, em Ruanda, alguns anos antes: o tempo nublado e a névoa amarronzada típica do país africano reforçavam a gravidade do local em que milhares de tútsis foram massacrados por hutus em 1994. Curiosamente, dois dos maiores genocídios da segunda metade do século XX – dos bósnios e dos tútsis – ocorreram nos anos 1990 e são sintomas do fracasso da comunidade internacional.
Estive em Ruanda em dezembro de 2015 para fazer uma reportagem sobre o time nacional de ciclismo. O esportista Nathan Byukusenge havia se classificado para a prova de mountain bike da Olimpíada que aconteceria no ano seguinte no Rio de Janeiro, um feito e tanto para o pequeno e paupérrimo país africano cujo esporte nacional é o ciclismo. Alguns dos ciclistas do time eram sobreviventes do genocídio. Um integrante havia perdido seis irmãos, outro teve três irmãos e dois tios assassinados. O próprio Byukusenge assistiu ao assassinato de seu pai, por golpes de porrete e machete (um tipo de facão).
Entre abril e julho de 1994, extremistas da etnia hutu que estavam no poder em Ruanda decidiram-se por uma “solução final” contra a minoria tútsi. O pretexto para deslanchar o genocídio foi a queda do avião que levava os presidentes de Ruanda, Juvénal Habyarimana, e do Burundi, Cyprien Ntaryamira, ambos hutus. Eles morreram nos arredores de Kigali, a capital ruandesa, e o desastre foi atribuído, sem provas, aos tútsis.
No livro Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, o jornalista americano Philip Gourevitch desmonta a ideia de que Ruanda sempre foi uma nação dividida etnicamente e mostra como, antes da dominação belga, o país gozava de uma formidável coesão multirracial. Os belgas, que ocuparam Ruanda entre 1916 e 1962, fomentaram a diferença entre as etnias. Os tútsis, de pele mais clara, eram tratados como superiores aos hutus. Conquistaram posições privilegiadas na administração pública e na sociedade em geral. Com isso, ganharam o ódio dos hutus, que representavam cerca de 85% da população ruandesa. Com a independência do país, esses sentimentos hostis permaneceram e foram cultivados por extremistas – até culminarem no genocídio. Em torno de 800 mil tútsis foram assassinados em aproximadamente cem dias, por hutus munidos de facões e outras armas rudimentares.
O papel europeu no massacre, entretanto, não se limita à colonização belga. Nos anos 1990, a França foi forte aliada do governo hutu, tendo treinado e armado os que seriam responsáveis pelo massacre. Depois de muita pressão do governo ruandês, o governo francês criou uma comissão para analisar o que ocorreu. Em 2021, o presidente Emmanuel Macron, em visita a Ruanda, reconheceu que a França teve responsabilidade no genocídio.
“Em Ruanda, você jamais pergunta para alguém se ele é hutu ou tútsi”, me disse a guia Usher Komugisha, filha de uma família tútsi que se refugiou em Uganda, onde ela nasceu. Mas é difícil, ao menos para um estrangeiro, distinguir um hutu ou um tútsi apenas por seus traços exteriores. Como é também complicado saber na Bósnia, numa primeira visada, se você está diante de um bósnio, um sérvio ou um croata (a não ser que ele se distinga por algum traje). Komugisha nos contou a história de um homem que trabalhava em um cartório e viu um cliente fugir em disparada quando chegou a sua vez de ser atendido. O funcionário do cartório foi atrás do homem. Descobriu que ele fugira porque, ao se aproximar do funcionário, se deu conta de que havia participado da matança da família dele.
Ruanda também ganhou um tribunal da ONU para julgar os responsáveis por crimes de guerra. O Tribunal Penal Internacional para Ruanda (ICTR, na sigla em inglês) já condenou ao menos 62 pessoas. Mas o próprio país criou sua maneira de julgar os genocidas. Os tribunais gacaca eram formados por membros de comunidades locais, muitos dos quais sem qualquer formação em direito. O formato foi bastante criticado, mas o governo ruandês sempre alegou que, dada a magnitude do genocídio, seria impossível julgar tanta gente recorrendo a métodos tradicionais. Os gacaca foram encerrados em 2012. Na época, o então ministro da Justiça do país, Tharcisse Karugarama, afirmou à Deutsche Welle, a estatal de tevê e rádio da Alemanha, que esses tribunais julgaram em torno de 1,9 milhões de casos, absolveram 30% dos réus e sentenciaram menos de 10% à prisão perpétua. Os demais condenados teriam recebido penas de 5 a 25 anos de cadeia. Para a ONU, o número total de presos nos anos que se seguiram ao genocídio é de cerca de 120 mil pessoas. Porém, dado o gigantismo e as peculiaridades dos tribunais gacacas, é difícil precisar os números.
Esses prisioneiros são tratados de forma diferente pelo sistema penitenciário ruandês, ao menos no que diz respeito a um detalhe: vestem uniformes de cor distinta dos demais criminosos – rosa ou laranja. Quando nos dirigíamos ao memorial de Murambi, eu e a equipe que me acompanhava avistamos prisioneiros com esses uniformes capinando a beira de uma estrada. Imediatamente o fotógrafo Flávio Florido se preparou para registrar a cena, mas Komugisha avisou que, se tirasse uma só foto daqueles prisioneiros, a viagem acabaria ali. Ao contrário dos nossos guias muçulmanos na Bósnia, que faziam questão de apontar todo e qualquer vestígio de extremismo étnico, nossa guia ruandesa considerou aquilo um acinte. Mesmo ela sendo tútsi.
O Memorial do Genocídio de Kigali é o maior e mais importante de Ruanda. Fica no meio da capital ruandesa e seu cemitério guarda os restos mortais de 250 mil vítimas. Em suas salas estão textos e fotos, algumas com cenas de violência extrema, que explicam como a tragédia se deu. Apesar de ser chocante tudo o que vimos em Kigali, algo ainda pior nos esperava no Centro de Memória do Genocídio de Murambi, onde são exibidos os restos mortais de inúmeras vítimas do massacre na região. Ali, em apenas um dia – 21 de abril de 1994 –, foram mortas cerca de 50 mil pessoas. Naquele dia, tútsis que viviam em Murambi se refugiaram no complexo de prédios de uma escola técnica em construção e foram exterminados pelos hutus. No que restou desse conjunto de edifícios, instalou-se o memorial.
O dia estava ainda mais escuro quando chegamos. Havia no local apenas um zelador, que logo nos avisou que não poderíamos fotografar os corpos. Quando estávamos partindo, ele se aproximou e fez uma dessas perguntas que nunca esperamos ouvir na vida: “Vocês querem ver os corpos?” Nós o seguimos até outro edifício, uma construção baixa com diversos quartos um ao lado do outro. Ele então parou diante de uma das portas, sacou o molho de chaves e a destrancou com a naturalidade de um funcionário de hotel apresentando o quarto ao hóspede.
Lá dentro estava uma série de cadáveres cuidadosamente dispostos sobre estrados de madeira. A técnica de preservação conferiu aos corpos um tom esbranquiçado, como se fossem bonecos de gesso. O horror que sentimos se ampliou ao notarmos que cada corpo estava em uma posição totalmente diferente, transmitindo a sensação de terem sido congelados no exato instante do assassinato, um pouco como os corpos em Pompeia petrificados pelas lavas do Vesúvio. Em Murambi, o sofrimento está expresso nos torsos retorcidos, no que restou das expressões em seus rostos, nos braços e pernas paralisados num gesto de impotência diante do derradeiro golpe de machete. Em meio aos cadáveres de adultos, jaziam pequeninas e fantasmagóricas silhuetas: eram corpos de crianças.
Como se portar em um lugar como aquele, o que dizer? Toda reação – desde o que você diz até sua expressão corporal – se torna ali algo extremamente idiota ou insensível. Em Murambi, entramos no território do horror indizível.
Depois de vermos os corpos, caminhamos pelo restante do complexo onde ocorreu o massacre. Em outro prédio, sem que eu soubesse que aquilo também fazia parte da exposição, encontrei pilhas de trapos sujos e ensanguentados. Era o que restou das roupas dos que foram mortos.
Fomos para Ruhengeri, cidade ao Norte do país, onde encontramos uma movimentação diferente nas ruas. Ocorria em Ruanda um plebiscito para saber se Paul Kagame, que estava no poder desde 2000, poderia concorrer a um terceiro mandato. Os ruandeses decidiram que sim, Kagame se candidatou novamente, venceu e segue no poder até hoje. Quando comentei com a guia que um terceiro mandato era incomum em outros países, ela me olhou bem fundo nos olhos e disse: “Se Kagame deixar de ser presidente, eu saio do país no mesmo instante.”
Kagame, hoje com 66 anos, é da etnia tútsi e mantém, com mão forte, a coesão em Ruanda depois do genocídio. Ele foi o líder da Frente Patriótica Ruandesa, guerrilha baseada em Uganda que invadiu Ruanda, derrotou os extremistas hutus e pôs fim à matança. Depois de ocupar a vice-presidência do país e o Ministério da Defesa, elegeu-se presidente em 2000. Desde então, como já mencionado, segue firme na presidência, apesar das críticas da comunidade internacional. Em 2017, venceu a eleição com mais de 98% dos votos e é acusado de fazer um governo centralizador e autoritário, com pouco ou nenhum espaço para opiniões diversas. As próximas eleições presidenciais e legislativas no país ocorrem no ano que vem. Há algo que chama a atenção das entidades internacionais no Congresso de Ruanda: 61% dos deputados são mulheres, um dos índices mais altos do mundo.
Ao mesmo tempo em que atua para preservar a lembrança do genocídio (são 28 memoriais espalhados pelo país), o governo de Kagame tenta suprimir de vez as diferenças étnicas, promovendo a ideia de um só povo. As carteiras de identidade deixaram de registrar se a pessoa é hutu ou tútsi, como antigamente. E a simples menção a essas etnias, hoje, faz soar o alarme. “O governo tem gente por aí ouvindo o que as pessoas estão dizendo”, me disse a guia.
Ruanda e Bósnia seguiram caminhos opostos na missão de lidar com o passado.
Ruanda precisou de um autocrata para manter as animosidades sob controle e tentar fazer a população esquecer as diferenças étnicas. A Bósnia, por seu lado, estabeleceu ao fim da guerra um dos mais complicados sistemas eleitorais do mundo, por não conseguir superar essas diferenças. A começar pelo fato de que o país elege três presidentes, cargo que só pode ser pleiteado por candidatos que se declarem bósnios, croatas ou sérvios. Um presidente é eleito pelos moradores da República Sérvia (e escolhem um sérvio) e dois presidentes são eleitos pela Federação da Bósnia-Herzegovina (e escolhem um bósnio muçulmano e um croata). Juntas, a república e a federação compõem o país a que se chama Bósnia-Herzegovina. Os três presidentes têm mandatos de quatro anos e governam de maneira alternada a Bósnia-Herzegovina como um todo, num rodízio que a cada oito meses coloca um deles na chefia do Estado.
“Se com um presidente já é difícil fazer as coisas funcionarem, imagine com três”, disse o guia Adnan Čengić – e essa foi, de longe, a reclamação que mais ouvi na Bósnia. Outro guia que tivemos na viagem, Bakir Bečirbašić, comentou que a única coisa boa aprovada por esse sistema triádico de presidentes foi a padronização das placas dos carros. Sem a identificação das cidades onde estão registrados, os veículos podem circular em regiões de etnias diferentes sem correr o risco de serem vandalizados. Čengić nos contou que, no fim de junho, um adolescente muçulmano foi severamente agredido na cidade de Bratunac. Seus agressores sérvios teriam dito a ele: “Você quer que a gente te mate como matamos seu povo em Srebrenica?”
Por mais que rechacem o sistema de governo do país, os bósnios têm pouca margem de manobra para mudá-lo. Afinal, são regras estabelecidas pelo Acordo de Dayton e tentar alterá-las seria equivalente a contestar o compromisso de paz. Algo que faz do quebra-cabeça político também um paradoxo: se cada grupo étnico vota em seu próprio representante, o que o impede de eleger um radical?
Milorad Dodik, o presidente eleito pelos sérvios, é um nacionalista com um pé no extremismo. Em abril, ele ameaçou declarar a independência da República Sérvia. Em junho, políticos dessa região autônoma aprovaram uma lei que suspende a validade das decisões da corte constitucional da Bósnia em seu território. Em julho, Dodik assinou uma lei que autoriza a República Sérvia a desrespeitar decisões do enviado internacional à Bósnia – que, conforme o Acordo de Dayton, tem o poder de ser o intérprete final da Constituição do país.
É curioso que os arroubos extremistas de Dodik não recebam tanta atenção no exterior. Mesmo Kosovo, país a alguns quilômetros da Bósnia e que tem problemas parecidos (com maioria de albaneses e minoria sérvia), aparece mais no noticiário internacional. É como se o mundo visse a situação na Bósnia como resolvida, o que uma viagem ao país desmente com alguma facilidade. “Se podemos ter outra guerra na Bósnia? Se você me perguntasse isso na semana passada, eu diria que não. Hoje, já não tenho certeza”, me disse Čengić, referindo-se à crescente animosidade promovida pelo governo dos sérvios da Bósnia-Herzegovina.
O nosso guia na cidade de Sarajevo, Mak Muranović, também tem suas ponderações sobre o presente e o futuro da Bósnia. E elas não são exatamente otimistas. “Eu morei em Belgrado, capital da Sérvia, por sete meses, e jamais me senti em perigo”, contou o guia. “Mas, se você encontrar um sérvio aqui da República Sérvia, ele provavelmente será radical e nacionalista.” Para Muranović, o extremismo na Bósnia-Herzegovina está diretamente relacionado com questões socioeconômicas e qualidade de vida. “Sérvios, croatas e bósnios que moram em países como a Áustria convivem bem entre si, como se ainda estivessem na Iugoslávia. Já aqui na Bósnia, você fica sentado em casa pensando sobre quem é o culpado por sua vida miserável.”
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_207 com o título “A sombra de Srebrenica”.