questões sociofinanceiras
Darlene Dalto Nov 2023 16h34
26 min de leitura
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Até o fim do ano passado, o casal Fernanda Ribeiro e Sérgio All trabalhava em uma sala alugada em um coworking que ocupa três andares da Torre Norte do Centro Empresarial Nações Unidas, no bairro Brooklin Novo, em São Paulo. O local tem capacidade de abrigar mais de mil pessoas e é um ambiente de trabalho descontraído, com uma boa cafeteria e até uma mesa de bilhar. A frequência é majoritariamente jovem, com muitos empreendedores em início de carreira buscando um lugar no vacilante capitalismo brasileiro.
Em novembro de 2022, eles trocaram o endereço do escritório. Foram para o Faria Lima Financial Center, um prédio no bairro Itaim que não economiza em ostentação de poder com sua miscelânea arquitetônica: fachada de vidro entrecortada por várias linhas verticais de concreto, a entrada em estilo neoclássico e o hall gigante que esbanja no mármore. A mudança de endereço foi proposta pelos sócios da Genial Investimentos, uma plataforma integrada de produtos e serviços financeiros com banco, corretora, gestoras e comercializadoras de investimentos, com a qual Ribeiro e All fizeram uma parceria.
Com sede em São Paulo e filiais no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Lisboa, Nova York, Chicago, Orlando e Miami, a Genial possui 170 bilhões de ativos sob custódia e é responsável por 1,5% das transações em Pix no Brasil. “Eles acharam importante a gente ter essa experiência, entender esse ecossistema”, diz Sérgio All. O ecossistema a que ele se refere é o do “Condado da Faria Lima”, apelido dado à região pelos “faria limers” – os funcionários dos vários bancos, corretoras e empresas da nova economia que trabalham nesse miolo financeiro da capital paulista e do Brasil.
Os cerca de quatrocentos funcionários da sede da Genial ocupam três dos vinte andares do Faria Lima Financial Center, distribuídos em mesas comunitárias, nas quais agora também atuam Ribeiro e All. Dali, o casal de executivos, ambos negros e criados na periferia de São Paulo, vai gerir um trabalho que nada tem de trivial. Os dois são os sócios-fundadores de uma novidade que está abrindo espaço cada vez maior no mercado financeiro do país: os serviços voltados prioritariamente para a população negra. Ribeiro e All criaram a Conta Black, uma fintech (termo formado a partir das palavras financial e technology para designar empresas que fornecem serviços financeiros de modo digital, sem agências físicas). “Os negros movimentam 1,7 trilhão de reais fora do sistema bancário. É muito dinheiro, o que prova o potencial desse mercado”, diz Ribeiro. “Mas a Faria Lima não conhece a periferia, ela tem uma visão estereotipada.”
A Conta Black nasceu em novembro de 2017, mas a ideia surgiu muito antes, no dia em que All teve um pedido de crédito negado por um banco do qual era cliente havia anos, apesar de cumprir todos os pré-requisitos para o empréstimo. No início, a Conta Black dispunha de um só produto: um cartão de crédito pré-pago, carregado em caixas eletrônicos. Hoje, oferece também o serviço completo de uma conta digital – investimentos, Pix, pagamentos de boletos, recebimentos, cartão virtual etc. A fintech se dirige especialmente às pessoas negras, mas é aberta a todos os clientes. “Em torno de 85% dos correntistas são pessoas negras e 82% são mulheres empreendedoras”, diz All. Esse mapeamento, segundo os executivos, é feito recorrendo a “ferramentas manuais e tecnológicas”. Em todo o país, a empresa – que não divulga seu faturamento – atende cerca de 40 mil contas, um número significativo, embora pequeno quando comparado à Genial, que tem 1,3 milhão de contas. A ambição da Conta Black é, em dois anos, alcançar também o seu milhão.
Fernanda de Campos Ribeiro Leôncio, de 38 anos, e Sérgio Almeida Leôncio (o nome de registro de All), onze anos mais velho, são oriundos de famílias pobres da periferia da Zona Sul paulista. Ela é formada em turismo. Ele terminou o ensino médio, mas nunca fez faculdade. Os dois se conheceram em 2006, na festa de noivado de um irmão de All, Renato, que se casou com a irmã dela, Claudia. “Cada um estava de um lado do salão, os nossos olhares se cruzaram”, lembra All. “Mas foi o Sérgio que se apaixonou primeiro”, comenta Ribeiro.
O namoro de fato começou só um ano mais tarde, por iniciativa dele. Em 2011, se casaram. “Fernanda é objetiva, sabe o que quer e corre atrás, não importa o tempo que isso leve. Eu gosto disso nela”, derrama-se All. “Sérgio tem um bom coração, confia, está sempre aberto para ouvir as pessoas. Acho que nós somos complementares”, retribui Ribeiro.
O pai dele, Flodoaldo, era metalúrgico. A mãe, Cleuza, diarista. Durante anos, a família com seis filhos – da qual All é o terceiro – morou em uma casa de apenas dois cômodos em uma comunidade no Jardim Santo Eduardo, região de Capão Redondo. All estudou na Escola Estadual Paulo Eiró, em Santo Amaro, e aos 9 anos, depois das aulas, ajudou os pais e os irmãos a erguerem a casa própria, em um terreno no mesmo bairro. A casa era simples, mas do jeito que Cleuza queria: com três quartos, sala, cozinha, banheiro, quintal e área de serviço nos fundos.
A religião conduzia a vida na casa. Todos frequentavam o culto das Testemunhas de Jeová e hoje All avalia que essa experiência foi importante para desenvolver sua boa oratória. Os conselhos da mãe também foram preciosos. Ela dizia para ele estudar, entregar dez vezes mais do que os brancos, ficar perto de pessoas que poderiam apoiá-lo e vestir-se bem, “porque um corpo preto pode ser facilmente confundido”, relembra ele. “Ela era uma mulher sábia. Nunca me esqueci de nenhum desses ensinamentos.”
Aos 13 anos, All começou a vender caixas de correio de plástico que podiam ser ajustadas no portão das casas. Aos 16, conseguiu o primeiro emprego formal. Foi trabalhar no Mappin, uma rede de lojas de departamentos hoje extinta. Começou como office boy no setor de cobranças da unidade de Pinheiros. “Eu era o único office boy que trabalhava de terno e gravata, mas meu chefe não gostava. A coisa piorou quando esse chefe perguntou qual era meu objetivo na empresa e eu disse que queria chegar no lugar onde ele estava”, conta All.
O office boy achou que essa ambição fosse positiva e soasse como um elogio ao chefe, que, porém, não pensou assim – e transferiu o rapaz para o arquivo morto do Mappin, uma salinha sem janelas no subsolo do prédio. Ele ficava sozinho, o dia inteiro, em meio a um monte de caixas empoeiradas de documentos.
All decidiu fazer do limão uma limonada. Encontrar um documento no arquivo morto desarrumado demorava horas ou dias. Ele desenvolveu um método para acelerar o processo. Com o plano em mãos e sabendo que seu superior não lhe daria atenção, falou com o chefe do seu chefe, que gostou da ideia e lhe deu carta branca para colocá-la em prática. Acertaram um prazo: seis meses. Mas All terminou o trabalho em três meses. “Deu tão certo que a diretoria me promoveu, ganhei um pequeno aumento e passei a trabalhar no departamento jurídico.” Ele diz que o projeto se tornou um modelo para toda a empresa. Quando All se formou no colegial, o Mappin lhe ofereceu uma bolsa para a faculdade de direito. “Mas não aceitei. Entendi que, se eu ficasse ali, nunca mais seria dono do meu próprio nariz.”
Em paralelo ao emprego no Mappin, ele começou a trabalhar com marketing multinível ou de rede, vendendo produtos para casa e de beleza da Amway, a primeira empresa a entrar no Brasil com esse tipo de negócio. Nesse modelo, o revendedor ganha uma participação sobre as suas vendas e sobre as vendas de cada um dos vendedores que recruta, formando uma rede. No auge, All tinha aproximadamente 1 mil revendedores. “Aprendi muito sobre liderança, sobre como montar equipes.” Mas então aconteceu uma tragédia: sua mãe teve um câncer e morreu aos 40 anos. Ele caiu em depressão e largou o emprego. “Foram dois anos para tentar entender esse luto. Não pensava em faculdade, não tinha dinheiro. E precisava me tratar.”
Enquanto lidava com o luto e estava desempregado, All costumava jogar videogames às quartas-feiras na casa de um primo, o publicitário Anderson Leôncio. Um dia, teve a ideia de montar um site com dicas de jogos, coisa que não existia na época. Em 1996, nasceu a SOS Games. A empresa produziu mais de 50 mil dicas de jogos, e ele conseguiu chamar a atenção da Apple, que organizou um evento para apresentá-lo às principais revendedoras, como Fast Shop e Fnac. Por meio dos games, eles poderiam popularizar a marca entre os jovens. “Acabei vendendo joysticks, manches e mais uns vinte periféricos”, recorda All. A SOS Games durou cinco anos. “Os antigos sócios saíram, eu trouxe novos sócios, mas não deu certo.”
Cerca de um ano depois da morte de Cleuza, o pai de All se casou novamente. O rapaz não se deu bem com a madrasta e em 1999 acabou expulso de casa. “Eu não sabia para onde ir. Um amigo me disse que eu poderia ficar na casa dele, que estava vazia, sem pagar aluguel.” As paredes eram apenas rebocadas, havia somente um fogão velho e um colchão de espuma jogado no chão. “Morei sozinho e digo que comi o pão que o meu pai amassou.” Ele ficou quase três anos ali e aproveitou para ler e aprender programação. Quando o casamento do pai terminou, All voltou para a casa da família.
No seu quarto, montou uma agência de comunicação chamada iBeats. Ele pensava em trabalhar com publicidade, mas sem o diploma universitário era impossível. Decidiu então investir na criação de sites, num momento em que a internet se expandia no país. O seu foco principal foi o próprio bairro em que morava. “Todas as empresas precisavam de um site, o que era caro fazer. Falei com supermercados, lojas e imobiliárias do Capão Redondo.”
All chegou a produzir mais de dez sites por mês, trabalhando até de madrugada. O negócio deu certo e os serviços expandiram. Se um cliente queria algo impresso, como um cartão ou um folheto, ele fazia. Se queria um evento ou um coquetel, ele organizava. “Fiz da iBeats uma agência full service. Ganhei dinheiro, cheguei a ter vinte funcionários e cem clientes, entre fixos e esporádicos, como a Häagen-Dazs, Daslu, Puma, Ford, TAM e Land Rover.”
Foi nessa época que adotou o sobrenome All. “Eu gostava dos filmes do James Bond… Bond, James Bond… All, Sérgio All. As pessoas não esperavam um homem preto com esse nome e me perguntavam de que parte dos Estados Unidos ou da África eu era.” Ele entregava seu trabalho, mas não dormia nem comia direito. Atribui ao estresse o vitiligo que tem nos lábios.
Em 2008, aproximou-se de um executivo do mercado financeiro que negociava dívidas públicas e passou a trabalhar com ele, em paralelo às atividades na iBeats. All contatava o secretário de finanças de uma cidade para entender a dívida municipal, levava a informação para os bancos que tinham acesso a esses créditos e depois conectava os dois lados. “Acabei me envolvendo com dívidas de estados e municípios com bancos, primeiro em São Paulo e depois em Brasília. Aproveitei a oportunidade para estudar o assunto: bancos de varejo, bancos de negócio, produtos financeiros.”
Em 2010, outra morte na família – a de seu irmão mais velho, Flavio, que trabalhava com ele e teve um infarto aos 40 anos – lançou All em um dos períodos mais difíceis da sua vida. Os negócios da iBeats começaram a degringolar. “Meu irmão era um exemplo para mim, era o meu braço direito na empresa.” Era o segundo irmão que perdia. Ele decidiu passar as contas da iBeats para outra agência. “Eu me recolhi, queria entender as minhas dores.”
“Costumo dizer que nasci na Casa das sete mulheres”, brinca Fernanda Ribeiro, lembrando da série da Rede Globo baseada no livro homônimo de Leticia Wierzchowski. A família era grande, com quatro filhas mulheres (eram cinco, uma delas morreu ainda criança), e vivia na Vila das Belezas, à beira da Estrada de Itapecerica, uma das avenidas mais longas de São Paulo. O pai, Mauricio, era funcionário público federal. Trabalhava como serralheiro da Infraero, no Aeroporto de Congonhas. A mãe, Zilma, era assistente social em um posto de saúde perto de sua casa.
As quatro meninas dormiam em beliches no mesmo quarto. Quem cuidava de Ribeiro era a madrinha Hercília, que ela chamava de Dadinha. “Eu era tão ligada a Dadinha que, quando ela faleceu, fiquei muda. Eu tinha 6 anos e só falava em casa. Só voltei a falar na escola quando cheguei na quarta série.” A menina foi a única das filhas a estudar até o ensino médio em uma escola particular, o Externato Elvira Ramos. Era a única aluna negra da sua classe. “Nunca sofri racismo porque a diretora me blindava, estava sempre atenta.”
Ribeiro cursou turismo na Universidade Nove de Julho (Uninove). Para manter-se, arrumou dois empregos de meio período cada. Acordava às quatro da manhã, saía de casa às cinco para chegar à faculdade, depois ia para o primeiro emprego, em seguida para o outro e retornava por volta de meia-noite. Até que decidiu ficar só com o trabalho na Varig, empresa aérea que foi vendida para a Gol em 2007. Dali, ela passou a vendedora de passagens na TAM. “Eu era a única mulher negra que não trabalhava na faxina.” Ela conta que se tornou umas das melhores vendedoras e sempre procurava se aproximar das pessoas influentes. “De vez em quando alguém me chamava para ajudar nos andares de cima. Eu ia. O ‘não’ eu já tinha, vamos atrás da humilhação.”
Ela passou pelos setores de atendimento, treinamento, qualidade e comunicação da TAM. Depois que se formou em turismo, chegou ao cargo de coordenadora sênior de comunicação, mas percebeu que não conseguiria mais crescer dentro da empresa. Devido ao excesso de trabalho, teve síndrome de burnout e foi internada. “Eu ainda estava no hospital e meu chefe me ligou perguntando quando eu ia voltar. Naquela hora, decidi que tinha de sair. Me preparei financeiramente e um ano mais tarde pedi demissão.” Depois de se desligar da TAM, em 2012 ela foi para os Estados Unidos para aprimorar o inglês. Esteve em Miami e Orlando. Na volta, fez uma série de cursos: de programação de computadores, matemática, direitos humanos e até gastronomia.
Em 2014, três anos depois do casamento com Ribeiro, All precisou de uma assessoria jurídica e recorreu ao advogado Márcio Valêncio, que atendia em um escritório na Alameda Santos, nos Jardins. “Eu não esperava encontrar um homem negro, e ele também não”, conta All. “Imediatamente nós dois pensamos a mesma coisa: o que aconteceu ali precisava acontecer com mais frequência. Tínhamos que reunir os afroempreendedores.” No ano seguinte, o casal se juntou ao advogado para lançar a AfroBusiness, uma ONG sem fins lucrativos para reunir empreendedores negros, trocar informações e fazer negócios.
O escritório de Valêncio se tornou a sede da AfroBusiness. “A gente começou como os americanos fazem, com reuniões e jantares”, diz All. O primeiro jantar aconteceu no Club Homs, um espaço criado por empresários sírio-libaneses na Avenida Paulista. Reuniu 150 pessoas negras, entre elas Rachel Maia, então presidente da joalheria Pandora do Brasil, Geraldo Rufino, fundador da JR Diesel, a maior empresa de reciclagem de peças de caminhões da América Latina, e Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo na época. “Eu me senti representada naquele jantar”, recorda Maia, hoje presidente da RM Consulting. “Ter uma rede que empodera, fortalece e inspira foi algo que me mobilizou.”
Quando Valêncio deixou a AfroBusiness, Ribeiro assumiu a presidência da ONG, cargo que exerce até hoje. “Fernanda fez uma revolução”, afirma All. “Ela passou a olhar para novas fontes de receita, aumentou o número de parcerias, criou novos programas de capacitação para os associados e tornou a fundação sustentável. A AfroBusiness é hoje o que é por causa dela.” Como Fernanda Ribeiro não queria depender de doações ou de editais públicos, a AfroBusiness começou a fazer consultorias e a desenvolver projetos financiados por instituições e grandes empresas. Hoje, a ONG tem sete funcionários e cerca de 9 mil associados no Brasil, sendo 72% mulheres.
Entre essas mulheres, está Débora Soares Fidelis, conhecida como chef Debinha. Ela morava na Vila Ré, na Zona Leste de São Paulo, onde vendia tortas salgadas. Como não sabia educação financeira, seu fluxo de caixa era deficiente. Além disso, estava devendo para um agiota. Um dia, a cozinheira procurou Ribeiro, levando uma torta de frango. “Era uma torta de quase 3 kg, deliciosa, com quase 1 kg de frango, que ela vendia por 30 reais”, lembra Ribeiro. “Na hora, percebi que o valor estava errado. Ela estava pagando para trabalhar.” A AfroBusiness, então, desenhou um plano de negócios, conseguiu um advogado e encontrou um parceiro para emprestar o dinheiro que Fidelis precisava – todos profissionais pretos. Também conseguiu clientes, entre eles, o grupo Accor, que passou a comprar tortas para seus hotéis Ibis. Hoje, a cozinheira mora no Bexiga, bairro próximo à Avenida Paulista, e está prestes a abrir um restaurante no Centro de São Paulo. “O cardápio terá comida caseira bem temperada, as minhas tortas e a minha feijoada, que também é muito famosa”, ela conta. Desde que começou a fazer eventos com clientes indicados pela AfroBusiness, Fidelis não parou mais: atende a grandes empresas, produtoras de audiovisual e faz bufês de camarins. Já cozinhou para artistas como Xuxa, Iza, Preta Gil e a dupla Zezé Di Camargo e Luciano. “Costumo dizer que a AfroBusiness e a Fernanda são meus anjos na Terra. Ela viu que eu sou do corre, acreditou em mim, no meu potencial”, diz.
A AfroBusiness passou a investir no potencial empreendedor da população negra, porém havia um problema sério: boa parte dos associados não tinha conta em banco, o que impedia o desenvolvimento dos negócios. “A AfroBusiness poderia ser um catalizador, mas percebi que, quando esses empreendedores fossem abrir uma conta nos bancos tradicionais, eles teriam problemas com a porta giratória”, diz All. Ele começou, então, a pensar na criação de uma empresa que permitisse às pessoas negras ter acesso ao sistema bancário. Foi o início da Conta Black.
O começo não foi fácil. “Eu conversava com investidores, mas eles não acreditavam na ideia. Até hoje a maioria não entende que as pessoas pretas têm dinheiro”, conta All. “Nós somos mais da metade da população brasileira. Um tíquete médio de 1,5 mil reais por mês pode ser baixo, mas se você multiplicar por alguns milhões de pessoas, não é.” O investimento inicial na Conta Black, de cerca de 800 mil reais, foi feito pelo próprio casal.
All havia pensado em chamar seu banco digital de Conta A, de AfroBusiness. Mas desistiu. Depois, cogitou outros nomes: Banco Pré (“Por causa da onda dos cartões pré-pagos”), Next Club (“Achei que seria um clube de pretos, mas um amigo americano me disse que o nome não era bom”). Uma noite, ele sonhou com alguém dizendo: “Conta Black.” Acordou e anotou o nome. “Mas não consegui mais dormir, fui para o computador e pesquisei tudo sobre conta black, cartão black, black money, o dinheiro que circula entre os negros americanos, entre os judeus, entre as comunidades orientais. Registrei o nome Conta Black de várias formas. Às onze da manhã, eu tinha tudo na minha cabeça. Quando contei à Fernanda, ela adorou.”
As primeiras contas do novo empreendimento foram abertas por Ribeiro, All e suas famílias. O lançamento oficial aconteceu em 2017, em um dos jantares periódicos promovidos pela AfroBusiness, durante o qual conseguiram abrir mais duzentas contas. Seus titulares receberam cartões pretos, cor que não apenas tem a ver com a representatividade racial, mas mimetiza a dos cartões feitos para o público de alta renda no Brasil.
O negócio chamou a atenção da imprensa, o que levou a Conta Black a alcançar, em dois dias, seus primeiros mil clientes. Em pouco mais de um ano, tinha 10 mil. Em 2019, a Conta Black obteve um aporte de 4 milhões de reais de um investidor e desenvolveu o primeiro aplicativo, oferecendo uma estrutura de internet banking: pelo computador ou celular, dava para realizar pagamento, sacar, ver o saldo do cartão e recarregá-lo.
Embora a fintech tenha a população negra como público-alvo, Ribeiro não gosta que a chamem de um negócio de nicho. “Nas minhas palestras, costumo perguntar se podemos chamar de nicho 56% da população brasileira. Não estamos falando de uma minoria, mas de uma maioria que é mal atendida. Às vezes o óbvio precisa ser falado”, diz ela. “A Conta Black também não é um projeto social, como muitos pensam. É um negócio que gera receita.” De acordo com o último Censo, 56,1% da população brasileira se autodeclaram pretos (9,1%) ou pardos (47%).
Quando All se aproximou da Genial, há cerca de dois anos, os executivos da plataforma de investimentos lhe perguntaram o que ele imaginava para a Conta Black no futuro. Ele respondeu que pretendia ser o principal banco negro do Brasil. Nos Estados Unidos, existem várias instituições bancárias voltadas para a população negra, como OneUnited Bank, MoCaFi e Industrial Bank. No Brasil, embora ainda não existam muitas fintechs comandadas por pessoas negras, há outros exemplos: o Banco Afro e a AkinTec.
Fundado em Brasília em 2019 pelo empresário Diego Reis, de 33 anos, o Banco Afro é uma fintech nos moldes da Conta Black, oferecendo produtos financeiros comuns a uma conta digital, como recebimentos, pagamentos de boletos, Pix, antecipação de recebíveis e recarga de celular, além de educação financeira. Seu objetivo é estimular a bancarização das classes C, D e E. “Com o banco quero que a população negra repense sua relação com o dinheiro”, diz Reis, que afirma ter 100 mil clientes em todo o país, sendo 90% pessoas negras. “Historicamente, sempre ouvimos dizer que o dinheiro é uma coisa ruim, que traz problemas. Quero fazer com que a minha comunidade comece a pensar que o dinheiro é maravilhoso.”
A AkinTec foi fundada em São Paulo, também em 2019, pelo empresário negro Leandro Rodrigues Dias, de 35 anos. De início, era uma corretora exclusiva de criptomoedas. Hoje é uma gestora que administra carteiras de investidores interessados em financiar pequenas famílias de comunidades quilombolas e indígenas da região amazônica que cultivam produtos como amendoim, castanha-do-pará, mel e açaí – nenhum deles incluído entre as commodities listadas na Bolsa de Valores. “Tenho um negócio com foco em inovação financeira e impacto social”, afirma Dias. O prefixo “akin” vem de uma palavra do idioma iorubá e significa “guerreiro”. Numa primeira rodada de investimento, a gestora captou 100 mil dólares. Agora busca um valor maior – 500 mil dólares. No momento, a AkinTec tem seis investidores, sendo dois deles negros, e o faturamento da gestora é de 7 milhões de reais por ano, segundo Dias.
O presidente da Genial Investimentos, Rodolfo Riechert, entende a parceria com a Conta Black como uma via de mão dupla. “Nós temos o conhecimento do mercado financeiro, acreditamos na segmentação da base dos clientes, enquanto a Conta Black tem grande penetração e comunicação com a população negra.” Ele diz que também pesou na parceria das duas empresas o propósito da Conta Black de investir na educação financeira de pessoas que vivem na periferia.
O professor Eduardo Dotta, que dá aulas de direito do mercado financeiro no Instituto de Ensino e Pesquisa Insper, avalia que a parceria é ainda mais interessante para a Genial. “Isso porque a Conta Black tem um range muito amplo à sua disposição e, se ela conseguir atingir essa base de investidores, vai levá-la para a Genial. Hoje em dia, as casas de investimento estão na briga por CPFs. Elas querem mais clientes, não importa de onde venham.” Para Dotta, a Conta Black tende a ser “mais inclusiva e mais humana na sua análise” porque está focada na população que estatisticamente tem mais dificuldade em acessar serviços financeiros. “E os riscos da Conta Black são os mesmos de outras fintechs. Ela precisa conseguir captar clientes e ter uma margem de remuneração que permita uma sustentabilidade financeira. Mas, para mim, a tendência é de crescimento.”
All avalia que as fintechs foram essenciais para reduzir sensivelmente a desbancarização no Brasil. “Em 2016, eram 55 milhões de brasileiros sem conta em banco, hoje esse número diminuiu para pouco mais de 30 milhões. Ainda é muito dinheiro voando”, diz. Dados do Banco Central indicam que, desde a pandemia, 22,7 milhões de pessoas passaram a fazer parte do sistema financeiro nacional.
O professor Eduardo Diniz, da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vagas (FGV), prefere falar em inclusão ao sistema bancário, em vez de desbancarização. “No início dos anos 2000, apenas um terço da população adulta economicamente ativa estava incluída no sistema financeiro. Esse número cresceu a partir de iniciativas do governo, como a transferência de renda do programa Bolsa Família, através da Caixa Econômica Federal, e com o surgimento dos correspondentes bancários, como as agências lotéricas e os correios”, explica ele. “Hoje cerca de 90% da população brasileira tem acesso a algum tipo de serviço financeiro, e 100% das cidades no país possuem algum canal de prestação de serviço financeiro formal.”
Para Diniz, a pobreza não é a única causa da exclusão do sistema financeiro. É preciso levar em conta também que os bancos tradicionais raramente implantam agências nas periferias das cidades, que serviriam inclusive aos comerciantes dessas regiões. “Os bancos estão sempre concentrados nas áreas mais ricas e não estão interessados nesse tipo de cliente porque, em tese, eles representam um risco muito alto”, afirma Diniz. “O resultado é uma população com um enorme déficit de cidadania e, pior, exposta a agiotas, a transações sem qualquer tipo de regulação.”
Ribeiro avalia que os bancos tradicionais erram na análise de crédito. “Eles perdem dinheiro porque utilizam como principal veículo para a liberação de crédito o SPC ou a Serasa, que olha para trás e vai gerando um histórico financeiro ruim da pessoa, não importa se ela deve 1 mil ou 10 mil”, diz. “Esses bancos não consideram que a população preta muitas vezes tem um cartão de crédito para a família inteira e que a pessoa pode ter ficado com o nome sujo porque emprestou o cartão para alguém. Eu chamo esse tipo de análise de crédito de racismo algorítmico, que é quando a tecnologia reproduz o que acontece na realidade.”
Ela também diz que a Serasa leva em consideração nove fatores para gerar o que é chamado de escore do cidadão. “Um desses fatores é o CEP, o lugar onde a pessoa mora. Se ela mora na Faria Lima naturalmente tem uma pontuação diferente da pessoa que mora no Capão Redondo. Mas não existem empreendedores na periferia? Existem. Nossa proposta, com a Conta Black, é subverter essa lógica. Eu vejo o copo meio cheio. Vem vindo aí uma nova geração de negros em ascensão.”
Riechert, da Genial, não acha que exista preconceito em relação às pessoas negras no mercado financeiro. Mas reconhece que elas são muito poucas. Ele credita esse fato à baixa qualidade do ensino no país. “Para mim não se trata de racismo. Não é a cor da pele, é a condição social. Recebemos currículos, mas nem sempre eles são competitivos”, diz. “Estamos indo atrás de pessoas negras, de mulheres, porém não existe mágica. O que falta é um projeto de país, de inclusão dessa população com renda familiar de 500 reais por mês.” O tíquete médio dos clientes da Genial é de cerca de 50 mil reais.
Em 2022, All passou três meses nos Estados Unidos apresentando a Conta Black para eventuais investidores. Esteve em Miami, Atlanta, Washington e Nova York. Na mesma época, a Conta Black foi matéria na Forbes americana. Em setembro deste ano, ele voltou aos Estados Unidos acompanhado de Ribeiro. Os dois integraram a delegação brasileira que participou do evento SDG in Brazil (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil), ligado ao Pacto Global, cujo objetivo é debater temas ligados à Agenda 2030, uma iniciativa da ONU para promover mais equidade, inclusão e sustentabilidade entre as empresas, instituições e ONGs. Pela primeira vez, a delegação do Brasil foi formada por executivos negros, representando empresas que apoiam projetos da ONG. A Conta Black é o primeiro banco de varejo a se associar ao Movimento Raça é Prioridade, iniciativa do Pacto Global Brasil, e Ribeiro discursou no evento na ONU. “Foi uma das maiores emoções da minha vida.”
Neste ano, ela foi apontada pela revista Forbes como uma das dez mulheres de sucesso do país, ao lado de Ludmilla, Eliana, entre outras. Também apresentou a Conta Black em uma das mesas do Febraban Tech, evento dedicado à tecnologia e inovação para empresas do setor financeiro. Do palco, olhou para uma plateia lotada de homens brancos, entre os quais havia apenas meia dúzia de mulheres, se tanto. Ao encerrar sua fala, propôs à plateia fazer o teste do pescoço. Ninguém ali sabia do que se tratava. Ela explicou: “Sempre que você chegar em um lugar, qualquer lugar, um restaurante, uma empresa, um hospital, olhe para todos os lados, procure saber quantas pessoas negras existem ali e veja se estão servindo ou sendo servidas.” Na hora, ela percebeu o desconforto que tomou conta da plateia.
Ribeiro e All não têm filhos e moram em um prédio no Morumbi, um bairro de classe alta na Zona Sul de São Paulo, com Blackinho, um pug preto. Eles são os únicos moradores negros do condomínio, onde nunca enfrentaram uma situação de racismo. Um episódio, porém, ficou na memória de Ribeiro. “Minha família tinha ido visitar a gente. Quando eles foram embora, eu acompanhei todo mundo à portaria. No térreo, no momento que o elevador abriu a porta, um adolescente disse, muito surpreso: ‘Meu Deus, quanta gente marrom!’ Os brancos vivem em bolhas, não têm contato com pessoas que não sejam parecidas com eles.”
Ribeiro diz que, por ser preta, teria que estudar e trabalhar muito mais. “Nos processos de captação de investimento, precisamos provar a nossa capacidade muitas vezes. Um projeto como o nosso, se fosse liderado por homens brancos, conseguiria 2 milhões de reais facilmente. Tenho certeza.” Apesar disso, só depois de adulta ela sentiu falta de mais informação sobre o racismo no Brasil. “Eu vivi entre dois universos. Tenho uma rede de amizades da infância formada por pessoas brancas da escola, depois entrei para o mercado corporativo, para a faculdade, e fui normalizando o fato de ser sempre a única preta na sala”, diz. “Nunca embranqueci, mas demorei a compreender a importância do letramento racial.”
No trabalho, ela nunca foi destratada por causa de sua cor, mas uma vez se sentiu “desconfortável”. Antes da pandemia, foi a um evento do setor financeiro vestindo jeans, camiseta, tênis e um casaco amarelo. “Nesse dia, notei que todo mundo me olhava. As pessoas se vestem da mesma forma, com ternos escuros e tubinhos. Eles me olhavam como se perguntassem: ‘Quem é essa mulher?’”, recorda. “Mas tirei de letra, me apresentei: ‘Muito prazer, sou Fernanda, da Conta Black, tenho um negócio financeiro igual a você.’”
Quando percebe algum tipo de discriminação, Ribeiro recorre ao “constrangimento pedagógico” de que fala o empreendedor social Preto Zezé, um dos fundadores da Central Única das Favelas (Cufa). “Quando eu e Sérgio vamos a restaurantes, o pessoal do estacionamento costuma entregar a chave do carro na mão dele, como se fosse um manobrista. Eu interfiro: ‘Não, não, não.’ Mando um constrangimento pedagógico mesmo.” Uma ocasião, quando conseguiram uma das suas primeiras captações na Conta Black, ela e All foram comemorar em um restaurante sofisticado com dois amigos. “Os garçons brancos só se dirigiam aos nossos amigos brancos. Eu avisei: ‘Se vocês não falarem nada, eu vou falar.’ Ninguém ali tinha percebido nada. Aconteceu de novo, eu chamei o gerente e expliquei: ‘Está acontecendo isso, é uma crítica construtiva, você precisa treinar melhor os seus funcionários porque quem vai pagar a conta é ele’”, disse Ribeiro, apontando para o marido. “Acho importante esse tipo de atitude.”
All é adepto da diplomacia, lembra sempre dos conselhos de sua mãe. Ainda na época da agência iBeats, ele fechou negócio com um cliente que, achando que estava lhe fazendo um elogio, disse que era um preto com pinta de branco. All preferiu se calar. “Eu sou político. Minha mãe falava que tudo tem hora e momento certo. Quando me encontrei novamente com o cliente, expliquei que aquela frase era racista. Nunca mais ele repetiu o que disse”, lembra. “Não sou o cara que chama a atenção em público, mas sempre enfrento o algoz de frente. Viver nesse sistema racista é uma arte.”
As mudanças na Conta Black não foram apenas de endereço. Desde maio passado, Ribeiro deixou o cargo de CCO (chief communications officer) da fintech e assumiu a cadeira de CEO (chief executive officer), até então ocupada pelo marido, agora co-CEO. Com isso, ela se tornou a primeira mulher negra presidente de uma empresa do mercado financeiro. Riechert acredita que Ribeiro seja a única executiva do sexo feminino a ocupar a função de CEO no mercado financeiro atualmente no Brasil. “O setor realmente tem poucas mulheres, e a Fernanda é um exemplo. É competente, centrada e sabe bem o que quer”, diz ele.
Com a agenda de trabalho cada vez mais pesada, novas responsabilidades, viagens nacionais e internacionais para reuniões, eventos e palestras, o casal não dispõe de muito tempo de sobra. Ribeiro costuma acordar antes das seis da manhã e medita enquanto o Sol nasce. Quem segue sua página no Instagram volta e meia se depara com as lindas fotos do amanhecer que ela posta. A executiva também conseguiu voltar à academia, que frequenta na hora do almoço acompanhada do personal trainer. Ela prefere não gastar com bolsas, roupas, sapatos e acessórios de grife. Seu luxo são as viagens e o plano para a aposentadoria, daqui a sete anos. É uma aposentadoria precoce, mas ela sonha em ser dona de seu tempo assim que completar 45 anos.
All ainda não se dedica aos exercícios, mas essa é uma meta para ele. Por enquanto, apenas participa dos jogos de futebol com amigos e membros da família, aos sábados. Ele é o goleiro do time – e garante que é um bom goleiro. Também tem planos para o futuro próximo. Quer tirar um ano sabático quando chegar aos 50. “Mas acho que vou ter que adiar, porque falta apenas um ano para isso. Talvez eu empurre para os 55 anos. O banco está em um bom momento. Com a Fernanda na direção, agora tenho mais tempo para criar novos produtos.”
Se esse sabático de fato acontecer, seja aos 50 ou aos 55 anos, ele já sabe o que fará. Quer viajar de moto pelo Brasil, visitar comunidades para entender como é que as pessoas se viram sem um banco digital e, o que é pior, sem dinheiro. “Quem sabe até faço um documentário.”
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_207 com o título “Black is powerful”.