Imagem Javier Milei e uma Argentina desconhecida

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JAVIER MILEI E UMA ARGENTINA DESCONHECIDA

Os dias finais da eleição presidencial argentina e o caos que levou à vitória do candidato da ultradireita

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De Buenos Aires

Tradução de Rubia Prates e Sérgio Molina

8 DE OUTUBRO, DOMINGO_O avião da Iberia parte de Madri com destino a Buenos Aires às 12 horas de hoje. Depois de um mês e meio viajando pela Espanha e pela Itália, preciso superar minha abstinência de escrita que se manifesta como uma tensão acumulada no corpo, agora transformado num míssil ansioso por descarregar sua semente. Em pleno voo, consulto o celular, que sempre me esqueço de pôr no modo avião, apesar dos alertas transmitidos antes da decolagem avisando que isso é indispensável para não interferir nos equipamentos de pilotagem e evitar que este gigante, com suas toneladas de aço, mantas, travesseiros, luzes de leitura, malas de mão e banheiros com água imprópria para o consumo humano, despenque do protetor de tela azul do céu e se despedace contra a Terra.

Em 22 de outubro haverá eleições presidenciais na Argentina. Os candidatos são o peronista Sergio Massa, ministro da Economia do atual governo peronista/kirchnerista, a candidata de direita – moderada – Patricia Bullrich e o candidato de direita – extrema – Javier Milei, os três com chances de ganhar (chances que aumentam e diminuem em altos e baixos que lembram os picos e vales do eletrocardiograma de um cardíaco), além de Myriam Bregman, da Frente de Esquerda, e Juan Schiaretti, um peronista moderado, que continuam no páreo, sem chances. As mensagens de WhatsApp dos meus amigos, na iminência do meu regresso, repetem a mesma coisa: não volte, isso aqui é um inferno, o dólar a 900 pesos, a 950, a 1 mil, Milei vai ganhar, Massa é mais do mesmo, Bullrich é uma incompetente.

Recentemente, num e-mail, o escritor argentino Rodrigo Fresán, que mora em Barcelona, me escreveu: “Bom regresso à Argh!entina.” Um modo apropriado de chamar um país com uma dívida pública de quase 404 bilhões de dólares e inflação de 140% ao ano, habitado por mais de 46 milhões de pessoas, mais de 40% das quais são pobres, onde a cada seis ou dez anos mergulhamos numa crise que arrasa gerações. Por que eu quero voltar a um país assim? Não consigo encontrar uma explicação. Também não encontro explicação pa­ra o fato de que governá-lo, dirigir seu destino seja, a cada quatro anos, uma ambição que tantos acariciam com enorme entusiasmo.

ONDE SE EXPÕEM ALGUNS TRAÇOS DOS PRINCIPAIS CANDIDATOS

Patricia Bullrich, candidata da aliança Juntos pela Mudança: na juventude, foi do Partido Justicialista (peronista); durante o governo de Carlos Menem foi deputada por este partido, depois ministra do Trabalho do presidente Fernando de la Rúa, da União Cívica Radical (UCR), e em seguida ministra de Segurança do governo de direita de Mauricio Macri (2015-19). Nas operações de segurança, vestia roupa de camuflagem. A indumentária de Rambo feminino foi motivo de piada, assim como seu estilo capilar, que lhe valeu um meme comparando-a com o Incrível Hulk. Também se comenta que tem problemas com álcool e se espalharam vídeos evidentemente misóginos, com a velocidade de reprodução alterada, para que ela parecesse bêbada. Seus spots de campanha mostram imagens de roubos violentos e dizem: “Se não for tudo, é nada”, insinuando que votar no candidato peronista é o fim. Sua proposta de governo se resume numa frase: “Temos que acabar com o kirchnerismo.”

Sergio Massa, candidato da União pela Pátria, um espaço do peronismo, movimento que muitos identificam como o grau zero de todos os problemas e outros como aquilo que um dia levou a Argh!entina a ser a Argentina, um horto de produção, emprego e mobilidade social (embora ninguém se lembre de como era isso). Depois da crise de 2001, durante o governo do peronista Eduardo Duhalde, foi gestor da Administração Nacional da Seguridade Social (o fundo que administra o dinheiro de pensões e aposentadorias). Em 2007, incorporou-se ao espaço político da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner e foi eleito prefeito de Tigre, um município nos arredores de Buenos Aires. Nas eleições de 2015, confrontou-se com Cristina Kirchner, disputando a Presidência por uma legenda própria, e perdeu. Em 2017, declarou: “Com o kirchnerismo, eu não vou nem até a esquina, porque essa gente vai às eleições atrás do foro privilegiado”, acusando Cristina Kirchner de se candidatar para garantir a imunidade parlamentar diante de uma eventual condenação por crimes de corrupção. Naquele ano disputou uma vaga de senador pela província de Buenos Aires, e voltou a perder.

Em 2019, ele se reconciliou com o kirchnerismo e foi eleito deputado pela Frente de Todos, então a legenda desse campo. Em julho de 2022, aprofundou a reconciliação e desde então é ministro da Economia do governo de Alberto Fernández (um homem que governa desde 2019, mas agora sem nenhum peso na política argentina), cuja vice-­presidente é Cristina Kirchner. Sob sua gestão como ministro a inflação anual chegou a 140%, o dólar blue – um dólar clandestino que dobra ou triplica a cotação do oficial, mas é o que conta – saltou de 290 para 1 mil pesos e, apesar da regra de que o candidato de um governo com problemas econômicos nunca consegue ganhar eleições, Massa parece resistir a cumpri-la. Promete baixar a inflação, estabilizar a economia e fazer com que o país comece a crescer (o que leva muitos a perguntarem: “Por que não faz tudo isso agora, enquanto é ministro da Economia?”).

Javier Milei, candidato do partido A Liberdade Avança, criado por ele em 2021. Define-se como “libertário”. Chegou pela primeira vez à tevê em julho de 2016, convidado como comentarista ao programa Animales sueltos, transmitido pela América TV. Foi o economista com mais tempo no ar entre 2017 e 2018. Sua aparição fazia aumentar a audiência em 5 ou 6 pontos. Seu penteado, um brushing que parece a peruca de uma senhorinha, e suas costeletas estilo Wolverine chamaram a atenção tanto quanto a maneira raivosa com que gritava que o Estado deve ser eliminado e que os políticos são “casta, escória, parasitas, ladrões, lixo”. Ele costuma conversar com Conan, seu cachorro morto, por intermédio de uma telepata interespécies, e o clonou em quatro cópias que batizou com o nome de economistas liberais. O pai o espancava sistematicamente e faz anos que não fala com ele (nem com a mãe, que considera cúmplice da violência).

Em 2021 disputou as eleições legislativas. Ninguém o levava a sério, mas obteve 17% dos votos na cidade de Buenos Aires e ganhou duas vagas, a dele e a de Victoria Villarruel, sua atual candidata a vice-presidente e dirigente do Centro de Estudos Legais sobre o Terrorismo e suas Vítimas (Celtyv), organização que exige que o Estado reconheça como vítimas do terrorismo os militares da ditadura (1976-83). Milei sustenta que nos anos 1970 “houve uma guerra” em que o Estado cometeu “excessos”, que “também os terroristas mataram gente e cometeram delitos de lesa-humanidade”, igualando o terrorismo de Estado às ações da guerrilha armada.

Propõe dolarizar a economia, fechar o Banco Central, privatizar a saúde e a educação, desregular o mercado de armas, permitir a venda de órgãos, realizar um plebiscito para revogar a Lei do Aborto. Sustenta que, com o passar do tempo, caberia regular o comércio de crianças. Assegura que a justiça social é uma aberração porque implica roubar o fruto do trabalho de uns para entregá-lo a outros. Afirma que o papa é a representação do Maligno na Terra por, entre outras coisas, apoiar a cobrança de impostos e ter “afinidade com comunistas assassinos”. Propõe fechar 10 dos 18 ministérios existentes e eliminar o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), o mais importante do país em sua área. Diz: “No meu mundo ideal, não existe o Estado” e “o Estado é o pedófilo na creche, com as crianças acorrentadas e besuntadas de vaselina”.

Aparece nos eventos de campanha empunhando uma motosserra, que representa a forma como ele pensa atacar o sistema: destruição total. Acusou Patricia Bullrich de ter colocado bombas em jardins de infância quando integrava os Montoneros, organização de guerrilha armada de origem peronista que atuou nos anos 1970 (ela negou ter sido montonera e o denunciou na Justiça por calúnia). Seu objetivo é “aniquilar o kirchnerismo”. O símbolo de Milei é o leão. Seus lemas são “a casta está com medo” e “viva a liberdade, caralho!”. Sua aliada incondicional é a irmã Karina, que ele chama de “chefe”. Toda vez que a menciona, ele chora. Essa hipersensibilidade deu lugar a rumores sobre o vínculo fraterno.

Dois candidatos que são material reciclado de si mesmos (uma mulher que foi peronista, depois radical, depois de direita; um peronista giratório – acomodatício – que criticou a vice-presidente do governo que ele mesmo integra) e um sujeito que recebe mensagens do seu cachorro morto vão lutar na lama para governar a Argentina. Argh.

*

Chego a Buenos Aires no domingo à noite. Chamo o elevador. Não vem. De fato, não funciona: está no térreo, uns 50 cm abaixo do nível normal. Metáfora perfeita de boas-vindas: afundado. Carrego a mala escadas acima. Cinco andares.

ONDE SE CONTA COMO
SE CHEGOU A ESTE PONTO

As Paso, eleições primárias abertas, simultâneas e obrigatórias, nas quais os partidos políticos apresentam seus pré-­candidatos à Presidência e os cidadãos escolhem qual será o candidato definitivo, foram realizadas na Argentina no dia 13 de agosto, quase dois meses antes da viagem da qual acabo de voltar. Naquele domingo, votei à uma da tarde. Havia filas longuíssimas com espera de mais de duas horas, causadas por um sistema que consistia no uso de duas cédulas de votação, uma de papel, pa­ra escolher o candidato a presidente, e uma eletrônica, para escolher o candidato a prefeito da cidade. No local onde eu votei havia apenas cinco pessoas na minha frente, mas tive que esperar quarenta minutos porque quatro delas não conseguiram entender como usar o sistema de voto eletrônico.

Não me lembro do que eu fiz à tarde, mas sim do que aconteceu à noite, porque foi um daqueles momentos “históricos” com muito de “histéricos”: a apuração de votos avançava, e os canais de notícias mostravam um mapa da Argentina que aos poucos ia se tingindo de roxo, a cor do partido de Milei. Um homem que revivia a ideia, já discutida e superada, de que na ditadura não houve terrorismo de Estado, mas apenas “excessos”, que queria acabar com a saúde e a educação públicas, que propunha dolarizar e acabar com a moeda nacional, que apoiava a venda de órgãos e de armas, estava em primeiro lugar na eleição? Naquele dia, Milei ganhou com 29,86% dos votos; Patricia Bullrich terminou em segundo, com 28%; e Sergio Massa, com 27,28%, conseguiu que o peronismo fizesse a pior eleição da sua história. Depois de saber os resultados definitivos, olhei para os prédios vizinhos. Como reconhecer em meio a todas aquelas pessoas quem tinha votado nele? Eu me senti cercada. Uma anomalia. Um erro do sistema.

No dia seguinte, um jornalista chamado Jonatan Viale convidou Milei para uma entrevista no seu programa do canal LN+, pertencente ao jornal La Nación, cuja linha editorial se opõe ao governo em exercício e a Milei. Num quadro aparecia o organograma do Estado com os ministérios atuais. Viale, em tom malicioso, entregou uma caneta a Milei, perguntando: “O que você risca?” Milei leu em voz alta: “Ministério do Turismo e do Esporte?” E riscou. “Ministério dos Transportes. Fora. Ministério do Trabalho. Tchau.” Obras Públicas, riscado. Ministério da Mulher, riscado. Educação, Desenvolvimento Social. Ministério da Cultura. Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Tudo riscado. Vez por outra explicava que este ou aquele ministério ficaria dentro de um megaministério misterioso chamado Capital Humano. Viale perguntou: “E o Conicet?” Milei: “Que fique nas mãos do setor privado.” Viale, rindo: “Ui, aí vai ter revolta. O Conicet nas mãos do setor privado?” Milei: “Que ganhem dinheiro com bens de melhor qualidade a preço mais baixo, como faz a gente de bem.” Viale: “E o que você vai fazer com as pessoas que vivem do Estado e que trabalham no Conicet?” Milei: “Qual a produtividade dessas pessoas? O que elas produzem?” Viale, sem muita convicção: “Desenvolvimento, pesquisa…” Milei: “Não dá para notar.” O programa acabou com Milei dizendo: “O problema não é a alta do dólar. É que o peso argentino não vale nem excre… nem excre…” Viale ajudou: “Nem excremento.”

Uma semana depois, iniciei aquela viagem com a sensação de fim da linha. De que algo terrível estava para acontecer.

9 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_De manhã saio para fazer compras. Levo uma boa quantidade de notas de 500 e de 1 mil pesos (cada uma equivale a 50 centavos ou a 1 dólar). Compro pão, presunto, queijo, água. A caixa do supermercado Dia, que é muito barato, me diz: “Cinco mil e quinhentos pesos.” Pelas mesmas quatro coisas, antes da minha viagem, eu pagaria 3 mil pesos. Levo um susto, e o que em mim é apenas susto é desespero para milhões de argentinos.

Como ocorre toda segunda-feira, à tarde dou uma oficina para jornalistas na minha casa. Nelas, nunca incentivo conversas que não tenham a ver com o tema que nos ocupa – os diversos recursos da não ficção –, mas dessa vez começamos imediatamente a falar das eleições. Muito sobre Milei, menos sobre Massa, nada sobre Bullrich. Acredito que entre eles há muitos kirchneristas, talvez algum partidário de Juntos pela Mudança, sei que há gente de esquerda e acho improvável que haja algum eleitor de Milei, mas me pergunto, caso houvesse algum, se declararia seu voto. Porque nenhuma das pessoas dos meus círculos reconhece ter votado nele. As estatísticas não batem.

10 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Recebo um e-mail da Iberia. Querem que eu avalie a qualidade da sala VIP do aeroporto de Barajas. Pontuo, de 1 a 10, o conforto, a conexão com a internet. Para a comida, dou 5 – regular –, e me pedem que explique o porquê. Explico: fritura demais, com tempero forte e apimentado, não muito saudável para ingerir antes de um voo. Sinto-me péssima. Os eleitores de Milei são muito variados, consta que são sobretudo homens jovens e heterossexuais, mas a maioria está sem emprego ou com as economias em frangalhos. Não têm água encanada em casa e dependem da saúde pública, com fila de espera cruelmente longa. Nunca estiveram na sala VIP da Iberia. Passei a vida entrevistando pessoas assim, escutando suas histórias. Milei se propõe a ser o anjo exterminador da saúde e da escola públicas, a permitir que o mercado se regule sozinho, retirando o Estado da vida dos cidadãos. Com essas ideias, conseguiu ser o candidato mais votado na Villa 31, um dos bairros mais pobres da cidade de Buenos Aires onde normalmente o peronismo arrasa. O que Milei oferece a pessoas que não têm nada e das quais promete tirar tudo? Talvez a chave esteja justamente nisso: no fato de que não têm nada e que, por isso, não há nada para ser tirado delas.

Às 10 horas, com a abertura dos mercados financeiros, começa a escalada do dólar. À uma da tarde, vou à casa de um músico para entrevistá-lo, mas antes de sair ligo a televisão e vejo que o dólar blue chegou a 1 010 pesos. Ontem estava cotado a 900. Acho. É difícil saber ao certo. O dólar se comporta como uma onda de calor: quando os termômetros batem o recorde, ninguém lembra mais qual era a temperatura do dia anterior, apenas que já estava um inferno. As vozes governistas insistem em dizer que esse dólar vale para “um mercado pequeno, pouco significativo”. Mas, quando o dólar blue aumenta, aumentam os combustíveis, a carne, a mensalidade da escola, o seguro do carro e as operações de vesícula. Portanto, quando as vozes do governo tentam acalmar afirmando que “é um mercado muito pequeno”, só fazem espalhar material muito inflamável sobre uma inflamadíssima sociedade que, além de ganhar cada vez menos e gastar cada vez mais, sente o efeito enlouquecedor que experimenta quem afirma ver pessoas mortas sem que ninguém acredite.

Essa alta do dólar, dizem, é consequência de uma frase disparada por Milei numa entrevista de rádio transmitida ontem, na qual desaconselhou a economizar em pesos: “Nunca em pesos. O peso é a moeda emitida pelo político argentino, portanto não pode valer nem excremento.” Por seu turno, Ramiro Marra, candidato a prefeito de Buenos Aires pelo Liberdade Avança, postou na rede X (ex-Twitter): “NÃO ECONOMIZE EM PESOS. Cuida do teu dinheiro, que te custou tanto ganhar.” Segundo a mídia, essas frases incentivaram a corrida ao dólar ilegal. Contemplo tudo um pouco atônita. Cinquenta e sete dias antes, durante aquela entrevista para o canal LN+, Milei, com a ajuda de Jonatan Viale, disse o mesmo – “os pesos argentinos são excremento” –, e não aconteceu nada.

Chego à casa do músico. Falamos da guerra entre Israel e Gaza. Ele diz: “Isso é o fim do mundo.” Por um momento, sinto que não está falando desse conflito, mas de outra coisa.

11 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Quando foi a última vez que eu tive alguma notícia do presidente Alberto Fernández? Dentro de alguns dias, o jornalista Jorge Lanata dirá no seu programa de rádio ter recebido a informação de que o presidente se separou de Fabiola, sua mulher. Fernández, que está na China, desmentirá o boato dizendo que são “canalhadas”, mas ninguém se sentirá comovido, nem pela fofoca nem pelo desmentido. Poderia estar casado, separado ou tendo um caso: tanto faz, como as histórias de qualquer pessoa que não nos interessa. Mas hoje o presidente é notícia porque apresentou uma denúncia contra Milei e Ramiro Marra, por “infundirem temor público”. Na denúncia, diz o seguinte: “Em consequência […] desse conjunto de manifestações públicas e maciças, e do consequente temor, o valor de dita moeda estrangeira [o dólar] subiu estrepitosamente no mercado paralelo.” Em julho de 2019, quando era candidato a presidente pelo kirchnerismo, com Macri no governo, Fernández disse numa entrevista: “Todo mundo sabe que o dólar está subvalorizado […] Manter o dólar baixo é uma artimanha de Macri para dar a sensação de uma economia estável, mas […] a inflação mensal está acima dos 2,5%.” No dia seguinte, as manchetes anunciavam: “O dólar reagiu com alta às declarações de Alberto Fernández.” Chegou a 44,93 pesos, o preço mais alto desde o dia 14 de junho anterior. Na época, ninguém processou Fernández. Sua denúncia exagerada dá razão a Milei que, diante de qualquer microfone, logo grita “A casta está com medo!”.

Comentando a alta do dólar, Bullrich diz: “As pessoas devem estar com raiva do Milei, pois o que ele fez foi regar o fogo com gasolina, para que o país exploda. E acho que nenhum argentino quer que o país exploda.” A julgar pelo voto majoritário – num sujeito que empunha uma motosserra gritando “Fora todos!” –, eu diria que milhões querem que o país exploda. Ignorar essa evidência seria como acreditar que um monte de gente é a favor da guerra, mas contra o uso da pólvora.

*

O secretário-geral do sindicato dos trabalhadores do turismo, de bares e restaurantes, Luis Barrionuevo – um homem que em 1990 declarou abertamente na tevê “Temos que parar de roubar por dois anos, pelo menos” – anuncia seu apoio a Milei. O candidato do Liberdade Avança, que despreza a “casta”, incorpora ao puríssimo coração do seu partido um homem que é o emblema da casta sindical.

12 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Hoje deveria ser feriado, mas não é. Comemora-se o dia em que Colombo chegou a esta parte do mundo. Por muito tempo, o feriado era intocável, conhecido como o Dia da Raça. Guardo lembranças das comemorações no colégio: crianças fantasiadas de indígenas lutando contra crianças fantasiadas de conquistadores, os nomes das caravelas recitados como se fossem a Santíssima Trindade: La Niña, La Pinta e La Santa María. Faz uns anos, alguém se perguntou se não era estranho festejar o dia em que se deu início a um processo de apropriação de terras, aniquilação de habitantes locais e saque de bens. Assim, a partir de 2010 passou a se chamar Dia do Respeito à Diversidade Cultural Americana.

De lá para cá, o feriado oscila: quando cai numa terça, é antecipado para segunda; quando cai numa quinta, é adiado para sexta. Ninguém mais fala das caravelas, e sim da alta ocupação hoteleira nas cidades do litoral. Este 12 de outubro, além de ser transferido para amanhã, sexta, se estende até segunda, numa longa pausa para o ócio. Segundo Matías Lammens, ministro do Turismo e Esportes – ministério que deixará de existir se Milei ganhar –, será um “feriado prolongado absolutamente recorde”, com um milhão e meio de argentinos viajando pelo país.

Saio para dar uma volta e observo, como esperava, que os bares estão lotados. Há restaurantes que não têm reservas até o início de 2024. O fenômeno parece inexplicável num país em crise, mas dizem que isso acontece porque o peso não vale nada e as pessoas preferem gastar o dinheiro em experiências imediatas, em vez de guardá-lo e deixar que se desvalorize. Nunca vou entender como a maioria não se revolta contra uma minoria que pode se dar ao luxo de gastar num jantar – e com uma lembrancinha – o que aquelas pessoas não ganham numa semana de trabalho.

É divulgada a inflação de setembro: 12,7%, a cifra mensal mais alta desde fevereiro de 1991.

Às 16h30, vou a um teatro para assistir ao ensaio do músico que entrevistei. Tomo o metrô, desço em pleno Centro. Atravesso a Avenida Nove de Julho, o lugar de todos os festejos e todos os conflitos. Aí se reúnem os torcedores do Boca Juniors ou do River Plate quando há uma grande vitória a festejar. Aí se manifestam os sindicatos, os movimentos sociais. Agora tudo parece tranquilo, se é que se pode chamar “tranquilo” um cenário com dezenas de pessoas que, assim como o Dia da Raça, tiveram seu nome alterado. Agora são “pessoas em situação de rua”, como se a palavra “situação” fizesse da sua “situação” algo passageiro, um percalço na vida antes de elas retomarem sua vidinha de gerentes de banco. Atravesso a avenida pensando que muitas pessoas ao meu redor devem ter votado em Milei. Então me esforço para pensar que também deve haver eleitores dos outros candidatos, mas só os do Milei me parecem bombas ocultas esperando o momento de explodir, mesmo que entre eles haja muitos que sempre me pareceram vítimas da desigualdade e da deterioração social. Mas agora sou tomada por um único pensamento: onde estão eles? Como identificá-los? São coisas que a gente não pensa sobre pessoas desfavorecidas, e sim sobre um inimigo.

Nessa noite, ao voltar para casa, vejo que Victoria Villarruel, a candidata a vice-presidente de Milei, postou nas redes sociais: “Feliz Dia da Hispanidade! Em um dia como hoje acontecia uma das epopeias mais importantes da história da humanidade: avistavam-se as terras do continente americano, e duas culturas se uniram na bela mistura que é a América hispânica.”

13 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Hoje sim, é feriado. A cidade está deserta. Saio para caminhar. Passa uma mulher de uns 30 anos. Legging cor-de-rosa, cabelo mal tingido de loiro. A seu lado, uma menina. A mulher carrega, como se fosse um estandarte, um bolo de aniversário. Seu único enfeite é um boneco de Milei junto ao número 8 coberto de glitter dourado.

Quando eu estava na Itália, vazaram fotos de um sujeito chamado Martín Insaurralde que, na época em que foi fotografado, em 2022, era chefe de gabinete da província de Buenos Aires, que tem 7 milhões de pobres. Nas fotos aparecia ao lado de uma garota de corpo cromado, os dois a bordo de um iate de luxo na Costa de Marbella, na Espanha. Até o mês passado, quando essas imagens vieram a público, esse homem era prefeito de Lomas de Zamora e candidato a vereador pelo peronismo. Os gastos da viagem superaram os 55 mil euros. Houve escândalo, pediram sua renúncia, e ele renunciou.

Poucos dias antes de tudo isso, Martín Krause, um sujeito que, se Milei ganhar, assumirá a pasta de Educação, disse numa palestra: “Imaginem se a Gestapo fosse tocada por argentinos, não seria melhor? Teriam matado muito menos que 6 milhões de judeus, porque haveria muito suborno, ineficiência, corpo mole. Mas eram alemães. Esse foi o problema.” Entidades e partidos políticos repudiaram suas declarações. Krause pediu desculpas. Milei o apoiou na rede social X: “Os opositores que, neste país repleto de corruptos, delinquentes e assassinos, estão forçando o cancelamento de um homem irrepreensível como Martín Krause por causa de uma frase infeliz, pela qual ele já se desculpou, estão nos confundindo com um deles. Nós não descartamos gente boa por causa de um errinho.” Quando li isso, ainda na Itália, pensei que Milei já era o vencedor. Que o limite daquilo que os argentinos estão dispostos a aceitar – que alguém pudesse ter um discurso revisionista da ditadura, antissemita ou xenófobo – havia desaparecido e ninguém notou. Minha vontade de entender começa a se misturar com a ira.

Penso naquela mulher com seu bolo e seu boneco. O que ela tem em comum com esse sujeito que quer privatizar tudo, até a escola que provavelmente sua filha frequenta? Pensando bem, o que essa mulher tem em comum com Bullrich ou com Massa? Nada. Nem com nenhum dos presidentes argentinos. Há um livro de Martín Gambarotta chamado Sangría. Nele li estes versos: Dão a entender que você pode chegar/a­ ser como eles, te animam a tentar/ser como eles, te tratam/como se você fosse igual a eles/porque sabem que você nunca/será um deles.

*

Entro no Mercado Livre e busco produtos da campanha de Milei: há bonecos de Milei (empunhando a motosserra, quebrando o Banco Central a marretadas), canecas de Milei, roupa esportiva de Milei, chaveiros de Milei. Logo começo a receber e-mails disparados pelo Mercado Livre: “Você que procurou camisetas do Milei não pode perder essa aqui.” O algoritmo não tem moral. Estou quase bloqueando o remetente, quando percebo que, se eu fizer isso, não vou mais receber a confirmação dos meus próximos pedidos. E me sinto um lixo.

*

A palavra do momento é “irresponsável”. Todos os veículos, kirchneristas e antikirchneristas, concordam em chamar Milei de “irresponsável” pelas declarações que provocaram a alta do dólar. Seus eleitores são capazes de apoiar um sujeito que não vê com maus olhos a compra e venda de crianças, defende a liberação do porte de armas e quer privatizar a saúde e a educação. Será que a palavra “irresponsável” vai meter medo neles?

14 DE OUTUBRO, SÁBADO_Surpresa! Hoje Patricia Bullrich anunciou que, se ela for eleita, Horacio Rodríguez Larreta será seu chefe de gabinete. Larreta é prefeito da cidade de Buenos Aires e foi o arquirrival de Bullrich nas Paso, disputando com ela a candidatura a presidente do Juntos pela Mudança. Ele se apresentava como uma alternativa moderada à opção de direita moderada de Bullrich, ou seja, a direita de Larreta seria “moderada-­moderada”. Onde os spots de campanha de Bullrich diziam: “Se não for tudo, é nada”, Larreta dizia: “Nossa mensagem não é ‘tudo ou nada’. Eu acredito em escutar antes de falar. E essa mensagem está chegando.” Não chegou muito longe, pois ele perdeu. Ver os dois, lado a lado, agora, Bullrich falando da necessidade de trabalharem juntos, Larreta dizendo que ela “é a pessoa capacitada para promover a mudança que a sociedade argentina necessita”, é como ver Tom e Jerry nadando desesperadamente para a margem, perseguidos por um tubarão.

*

A perspectiva para a noite deste sábado não é lá muito sexy: ficar em casa e ver tevê. Hoje os convidados do programa de Mirtha Legrand – uma âncora de 96 anos que há 55 mantém o formato de conversar sobre atualidades durante uma refeição – são Bullrich, seu candidato a ministro da Economia, Carlos Melconian, e dois jornalistas, um deles Jonatan Viale. Bullrich começa dando uma informação relevante: diz que está tentando cuidar da alimentação durante a campanha, por isso extrai o recheio das empanadas com uma colherinha para não ingerir farinhas. Legrand pergunta a Melconian o que há de verdade nos áudios que vazaram poucos dias atrás, nos quais se ouve que ele fala com uma mulher, com voz sensual e imperativa, no que parece ser uma negociação: algo sexual em troca de um cargo público. A hipótese de Bullrich e Melconian é que, com a inteligência artificial, “mudam tudo que você diz, inventam tudo”, sugerindo que a voz não é de Melconian. Este percebe que a desculpa não cola e balbucia: “Suponhamos que fosse eu.” “Mas é você?”, pergunta Viale. “Não, mas suponhamos que fosse.” E ficam nisso por um bom tempo. A política é a arte de apagar o passado. Daqui a duas semanas ninguém vai se lembrar dos áudios. Um dos ataques recorrentes contra Milei tem a ver com sua proposta de dar liberdade para a população civil se armar. No debate presidencial de 8 de outubro, Bullrich disparou: “Milei quer liberar as armas […]. Eu digo para as mães e os pais que, se as armas forem liberadas […], vão massacrar crianças nas escolas.” Em 2018, quando era ministra da Segurança do governo Macri, Bullrich disse: “Quem quiser andar armado, que ande; quem não quiser andar armado, que não ande. A Argentina é um país livre.” Ninguém se lembra disso. Somos grandes editores do passado próximo.

15 DE OUTUBRO, DOMINGO_Seguimos rodeados de datas relevantes. Hoje é Dia das Mães. Meu companheiro vai almoçar com a mãe, a irmã, a sobrinha, a tia, e volta à tarde, amargurado. Diz: “Acredita que minha tia vai votar no Milei? Falou que ia votar na Bullrich, mas aí viu um vídeo em que ela parecia bêbada. E prefere votar num louco que numa bêbada.”

À noite passam um programa especial de Mirtha Legrand que vai receber como convidados Massa, sua mulher, Malena Galmarini, e Moria Casán, que é casada com o pai de Malena, portanto é madrasta dela e sogra de Massa. Vedete, atriz, âncora, Casán tem um estilo escrachado e chama a si mesma de “obelisco com tetas”, referindo-se ao fato de já ser um símbolo da argentinidade, e costuma recomendar a Massa “tome banho de vaselina”, para que as críticas não grudem nele. Massa começa falando de macroeconomia: diz que 2024, governe quem governar, será um grande ano para o país porque vamos economizar 7 bilhões de dólares em energia – o Gasoduto Néstor Kirchner, inaugurado neste ano, já estará funcionando quase plenamente, distribuindo gás para toda a Argentina –, que exportaremos mais 7 bilhões em energia, que venderemos para o mundo não sei quantos milhões em produtos agrícolas. Me faz lembrar daquela história clássica: uma leiteira pensa animada em todas as coisas que vai comprar quando vender o leite que carrega na botija, e anda tão distraída fazendo cálculos que tropeça, a botija se quebra, o leite se perde e, com ele, todas as ilusões. Em dado momento, Legrand pergunta a Malena Galmarini, que não para de se abanar, se ela está com calor. Galmarini responde: “Estou, sim.” Legrand então lhe pergunta se faz calor no estúdio. Galmarini diz: “Pode ser, mas é mais a menopausa.” Olé. A convidada falando do último tabu feminino: os fogachos, a revolução hormonal, tudo aquilo que supostamente se deve dissimular sendo transmitido para milhões de pessoas no horário nobre da tevê. Até que enfim alguém disse algo autêntico nesta campanha.

16 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_Vou ao teatro para assistir ao show daquele músico que entrevistei. Estou num dos acessos laterais enquanto a sala começa a se encher. Vejo um casal de amigos escritores. Vou lá falar com eles. Ele, um homem de esquerda, diz: “Eu prefiro que ganhe o Milei, porque suas propostas não podem ser realizadas, enquanto as da Bullrich podem, sim.” Penso que as propostas de Milei também podem ser realizadas, e a um custo muito alto. Estou prestes a dizer isso, quando chega a pessoa que ocupa a poltrona em que estou sentada, e me despeço. Nessa mesma noite, em casa, relato a conversa ao meu companheiro. “É um pensamento arriscado”, comento. “Além disso, se Milei não fizer aquilo que anuncia, as pessoas que votaram nele vão querer quebrar tudo.” Ele responde: “Ninguém faz o que promete. Seria só mais um.”

17 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Hoje é o Dia da Lealdade Peronista. Comemora-se a data de 1945 em que uma multidão se concentrou na Praça de Maio para pedir a libertação de Juan Domingo Perón, detido pelo governo de facto de Edelmiro Farrell. Enquanto Massa faz seu ato de encerramento de campanha – onde assegura: “Meu governo será diferente deste”, empenhado em se safar da sombra kirchnerista –, eu dou aula num mestrado de jornalismo. No intervalo, converso com um conhecido que trabalha na administração da universidade.

– Eu quero mais é que tudo exploda – diz. – Vou votar no Milei. Até tenho medo de que ele fique meio tirano, mas vou votar nele porque é uma mudança. Só que não vão deixar ele governar.

– E se ele não conseguir governar?

– Aí convocam novas eleições. O bom do Milei é que ele sempre defendeu as mesmas coisas. Não mudou. Com o fechamento dos ministérios, eu superconcordo. O primeiro que eu fecharia é o da Mulher. E poria um tapume na frente. Não fizeram nada, só querem saber de receber salário. É pura ideologia de gênero.

– E o que você diz da venda de armas, do comércio de órgãos?

– Ele não vai fazer nada disso.

– Faz parte das suas propostas.

– Eu sei, mas ele não vai fazer isso.

Motivo curioso para votar em alguém: a certeza de que não vai cumprir o que promete.

*

Lilia Lemoine é uma cosplayer, candidata a deputada nacional pelo Liberdade Avança. Hoje ela vai falar no canal de streaming Neura sobre um projeto de lei de “renúncia à paternidade” que apresentará se for eleita: “Não é justo o homem ter que assumir um filho que não quis ter. Já que as mulheres têm o privilégio de poder matar seus filhos e renunciar a ser mães, então, por que a lei obriga os homens a sustentar uma criança? Por que a mulher disse que tomava pílula? Porque muitas mulheres, para fisgar um cara, se aproveitam.”

Uma pesquisa realizada em 2021 pelo Ministério das Mulheres, Políticas de Gênero e Diversidade Sexual revelou que, na Argentina, 7 de cada 10 mães separadas não recebe a pensão alimentícia. A lei que Lemoine pede já existe na prática, e funciona muito bem.

18 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Ao entrar no elevador do meu prédio, encontro com E., a empregada doméstica de uns vizinhos kirchneristas. Ela me pergunta se eu estava viajando, porque faz tempo que não me vê. Respondo que estive fora do país. Ela diz: “É verdade que em outros países estão melhor?” A ingenuidade brutal da sua pergunta me deixa sem ação. Só consigo responder que sim, mas não digo que é outro nível de existência, que são lugares onde a palavra crise significa outra coisa, não a desgraça para várias gerações que aqui implica. Outra pergunta: “Mas em quem a gente teria que votar?” Esse “teria” deixa a porta aberta para eu não declarar meu voto. Digo que Milei me parece uma pessoa perigosa. “Ah, e aquela senhora? Gosto dela”, comenta E. “Aquela senhora” é Patricia Bullrich, mas pessoas como E. têm muito pouco interesse por ela. Se bem que eu já não sei quem pode interessar a pessoas como E., que a duras penas chegam ao fim de mês com uma inflação de 140% ao ano, propiciada por um ministro da Economia e candidato a presidente vindo do chamado “campo nacional e popular”. Que supostamente é o “campo” ao qual E. pertence.

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No dia 7 de outubro, enquanto eu estava viajando, o programa de Mirtha Legrand recebeu como convidados Milei e sua novíssima namorada, Fátima Flórez, uma comediante de muito sucesso. Seu prato forte é a imitação da vice-presidente Cristina Kirchner, a inimiga figadal do seu parceiro. O namoro foi anunciado logo depois das Paso de 13 de agosto e dissipou os rumores sobre a ligação entre Milei e sua irmã Karina, por quem ele sente devoção, imensa devoção, devoção demais. Procuro a gravação do programa já transmitido. É espantoso: as evidências de que Milei e Flórez não são namorados, a impostação com que declaram mutuamente um amor frígido, seriam impressionantes se não provocassem vergonha alheia. Ela é atriz. Se não consegue fazer melhor, é porque o papel é difícil demais para ela.

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Hoje Milei encerra sua campanha no megaestádio Movistar Arena, a três quadras da minha casa. Às seis da tarde, há longas filas de pessoas que esperam desde as duas para pegar seus ingressos – grátis – e ver seu líder (que aparecerá no palco depois das dez da noite). Vejo, principalmente, homens jovens, mas também famílias com crianças e algumas – bem poucas – pessoas mais velhas. Alguns gritam “A casta está com medo!” Por uma rua lateral, um grupo avança levando uma bandeira da organização La Julio Argentino, gritando “Li-ber-tários!”. Julio Argentino Roca foi duas vezes presidente da Argentina (1880-86; 1898-1904), e liderou a chamada Conquista do Deserto, uma série de campanhas militares que dizimaram os povos originários dos pampas e da Patagônia.

Na entrada do estádio, um painel luminoso anuncia: “Milei 2023, A única solução.” Um homem distribui notas falsas de 100 dólares com a imagem de Milei e Villarruel substituindo Benjamin Franklin. Uma mulher pergunta: “Estão vendendo?” O homem, ofendido, responde: “É um presente.” Converso com uma garota. Tem 24 anos, vem de Hurlingham – uma longa viagem da periferia –, é designer e trabalha numa gráfica. Não conseguiu ingressos, mesmo assim vai ficar.

– Quem sabe mais tarde abrem os portões. Nunca fui atrás de nenhum político, é a primeira vez. Aqui estou vendo muita gente da minha geração. Acontece que a minha geração nunca soube o que é viver bem. Eu trabalho, minha família trabalha, e justo ontem publicaram qual é a renda mínima para não ser considerado pobre, 397 mil pesos, algo por aí. Somando todos os nossos salários, não dá essa quantia. Nos sentimos uns merdas. Se já estamos na merda, podem nos afundar ainda mais?

Não digo, mas penso: “Podem, sim. E muito.”

Volto para casa abrindo caminho entre militantes que cantam contra a casta, e crianças com a camiseta do Milei. Procuro, no canal C5N, o programa Duro de domar, onde vários debatedores – quase todos kirchneristas – discutem, entre piadas e análises, questões de atualidade. O âncora anuncia que será transmitido ao vivo o discurso de Milei no megaestádio. A câmera mostra a multidão e uma tela onde são projetadas imagens de prédios implodidos, explosões atômicas, a cara de um leão em chamas. Finalmente Milei, de jaqueta comprida e escura, aparece, animando a plateia com o grito: “É no primeiro turno, puta que o pariu.” Abraça seus correligionários, manda beijinhos para Fátima Flórez, que responde saltitando num camarote. Inicia seu discurso, que é o mesmo de sempre: a definição do liberalismo aos gritos, como se fosse um professor colérico – “O liberalismo é o respeito irrestrito do projeto de vida do próximo, baseado no princípio da não agressão e em defesa do direito à vida, à liberdade e à propriedade privada!” –; o ataque à casta; a ideia de que, “no período de 15 a 20 anos podemos ser um país como Itália, Espanha, França. Entre 20 e 25 anos, ser como a Alemanha; em 35 anos, ser como os Estados Unidos, e, em 40 anos, ser como a Irlanda!” Enquanto fala, os debatedores de Duro de domar, que o tacham de promotor do “discurso do ódio” – em contraposição ao do kirchnerismo, que seria “o discurso do amor” –, não o escutam: só o ridicularizam. “Teria feito melhor ficando em casa”, “Cala a boca, palhaço”, “Você não tem cérebro”, “Vai, se joga no precipício”.

19 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_A vida do jornalista é uma vida esquizoide. Um dia depois de ter ido até os portões do megaestádio, vou entrevistar uma pessoa no hotel Alvear, um dos mais elegantes e caros de Buenos Aires. Vou de táxi e puxo conversa com o motorista.

– Milei não é santo de minha devoção – ele diz. – Ontem acompanhei o encerramento de sua campanha, e é claro que ele tem um grau de loucura, mas no Massa eu não voto nem dopado. Para mim, votar no Massa é continuar na mão da mesma máfia de sempre. Pouco me importa que o Milei diga que vai privatizar a saúde, a educação, porque eu sei que muitas coisas são só barulho para a mídia. Ele fala, mas não vai fazer. Ele propõe coisas que nunca foram tentadas. É uma mudança. Só quero é que o Massa não ganhe. Se o Massa ganhar, para mim vai ser o dia mais triste da nossa vida. Ou da minha vida.

Há quem vota em Milei porque ele propõe “coisas que nunca foram tentadas”. Em princípio, muitas das ideias de Milei não são “coisas que nunca foram tentadas”, e sim “coisas que já foram tentadas e deram errado”, como a privatização das estatais – YPF, Aerolíneas Argentinas, as distribuidoras de energia elétrica, tudo isso foi privatizado nos anos 1990, durante o governo do peronista Carlos Menem, que Milei admira, e deram errado, tanto que muitas delas foram reestatizadas – e as importações sem controle, que nos anos 1990 acabaram com a indústria nacional etc. As coisas que não foram tentadas, como o comércio de órgãos e de crianças, não parecem ser os motivos principais que levam seus simpatizantes a votar nele (de fato, os eleitores de Milei parecem ter certeza de que ele não vai fazer isso). As coisas que não foram tentadas na Argentina, mas sim em outros países, como liberação da venda de armas, não parecem funcionar bem: nos Estados Unidos, onde qualquer um pode comprar uma metralhadora, o número de mortes violentas com armas de fogo é de 4 pessoas para cada 100 mil habitantes: dezoito vezes a taxa média de outros países desenvolvidos.

*

No X (ex-Twitter), encontro um fio com histórias da “micromilitância”. São moradores dos bairros que fazem cartazes à mão com frases como: “Nem motosserra nem tiro pelas costas: vote Massa” ou “Seus filhos não são o déficit: vamos defender o futuro, elegendo Massa” ou “Perder uma eleição na democracia é normal. O problema é perder a democracia numa eleição”. A micromilitância tem um único protagonista: Sergio Massa, o candidato mais difícil de narrar, que desce como um grande comprimido de Rivotril distribuindo temperança, fingindo que não escuta os ataques de Bullrich e Milei. Enquanto isso, Cristina Kirchner permanece em silêncio: não abre a boca. Uma calculada estratégia de apagamento para facilitar a exposição do seu candidato, que deve ficar livre de toda suspeita de ser kirchnerista. E Massa de fato não é – ele só é partidário de si mesmo –, mas não basta não ser. Ele sabe que, para ganhar, deve provar seu distanciamento com veemência. Porque só existe uma coisa mais forte que o peronismo na Argentina: o antiperonismo.

21 DE OUTUBRO, SÁBADO_Chego a Montevidéu para participar de um debate organizado no Teatro Solís, o mais prestigiado do Uruguai. De noite, quando volto ao hotel, leio o recado de uma colega da cidade de Rosário contando que todos os seus alunos de jornalismo esportivo, que têm entre 20 e 21 anos, vão votar no Milei. Dois deles disseram que Milei lhes dá medo, mas que vão votar nele mesmo assim, porque “não resta outra opção”. Lembro da frase que ouvi muitas vezes de um homem que conheci na adolescência: “Entre a espada e a parede, você sempre pode escolher a espada.” Mas é muito mais tranquilizador nos convencermos de que não temos escolha.

22 DE OUTUBRO, DOMINGO_Hoje é dia de eleição na Argentina. No aeroporto de Montevidéu, que é muito pequeno, levo 45 minutos para passar nos controles de segurança, mais meia hora na checagem dos documentos. Dizem-me que o atraso é causado pela multidão de argentinos residentes no Uruguai que voltam para votar.

Meu companheiro estava me esperando e vamos direto ao local onde eu voto. O processo é muito rápido porque só se usa a cédula de papel. Por mais que tanta gente queira “mudanças”, nos damos melhor com os métodos analógicos. No caminho para casa, dou uma olhada nos jornais. A matéria mais lida no La Nación é o horóscopo: “Saiba como será sua semana de 22 de outubro.” A realidade se impõe com brutalidade e nos agarramos ao pensamento mágico.

A votação se encerra às seis da tarde. As manchetes dos canais, que transmitem dos três “bunkers”, os lugares onde os candidatos aguardam os resultados, são um desfile de criatividade: “Expectativa e cautela no bunker do Liberdade Avança”, “Entusiasmo e tranquilidade no bunker do União pela Pátria”, “Clima de prudência no bunker de Juntos pela Mudança”.

O ato de encerramento de campanha de Milei foi a três quadras da minha casa. O bunker do União pela Pátria fica a quatro quadras. Não sei se o fato de tudo acontecer no meu bairro, Villa Crespo, quer dizer alguma coisa. Às sete vou até lá. Uma delegação do Uocra, o sindicato de trabalhadores da construção, bate bumbos com o entusiasmo de quem tem certeza de vencer. Cantam: No me importa lo que digan/lo que digan los demás/Yo te sigo a todas partes/cada día quiero más. Nesse “no me importa lo que digan los demás” reside parte do problema: aquilo que não se quis ver, aquilo que não se quer ver, o que possivelmente nunca se verá: como chegamos a esse ponto.

O fervor das falas é o eletrocardiograma de um bunker: quanto mais barulho, melhores as notícias. Agora já são ensurdecedoras, mas, por mais que eu pergunte, ninguém sabe nada. Finalmente, acontece o inesperado: Massa se impõe, com 36,7% dos votos, sobre Milei, que soma 30%. Bullrich, com 23,83%, fica fora do segundo turno. Corro de volta para casa para assistir aos discursos dos candidatos pela tevê.

Anos atrás, no festival Chile Poesía, os poetas Gonzalo Rojas e Nicanor Parra travaram uma impiedosa guerra de passos de tartaruga para ver quem chegaria por último ao estrado e monopolizaria os aplausos. Ganhou Nicanor. Na noite de hoje, os candidatos protagonizaram a mesma guerra de passos de tartaruga, para ver quem falava por último. O tempo passa, e nada acontece. Finalmente, o silêncio é quebrado por Bullrich. Ela sobe ao palco do seu bunker, rodeada da cúpula de Juntos pela Mudança – Macri incluído, de cara amarrada –, e diz: “Devemos ratificar com toda a força os valores da nossa causa. Nossos valores não estão à deriva, não se vendem nem se compram.”

O segundo a falar é Milei. Seu bunker está instalado num hotel chamado Libertador. Aparece acompanhado por sua candidata a governadora, Carolina Píparo, e sua candidata a vice, Victoria Villarruel. Diz: “Devo dar por encerrado o processo de agressões e ataques. Estou disposto a fazer tábula rasa e me preparar para a próxima rodada, com o objetivo de acabar com o kirchnerismo.” Muito significativamente, acrescenta: “Todos os que queremos uma mudança temos que trabalhar juntos.” Juntos, mudança. Um alinhavo de palavras nada inocente.

O último a falar é Massa. Ele sobe ao palco sozinho. Sem a mulher, sem o candidato a vice, Agustín Rossi, sem Axel Kicillof, o governador peronista da província de Buenos Aires, que acaba de ser reeleito. É ovacionado pela multidão em êxtase, e ele mal reprime um gesto de emoção. Entre a dissimulação da derrota de Bullrich e a megalomania de Milei, a emoção de Massa é estranhamente genuína e, claro, a primeira pergunta que me faço é quão genuíno pode ser um homem que já teve tantos disfarces. Fala serena. Não celebra os cantos contra os rivais. Não menciona Alberto Fernández nem Cristina Kirchner. É um homem que se descola da atmosfera kirchnerista como um balão de hélio: eu pairo lá no alto, em um não lugar. Diz: “Vamos convocar um governo de unidade nacional […] Quero convocar todos vocês para colocarmos um ponto final na ideia da destruição do outro. […] A grieta acabou.” Grieta é como se chama o divisor de águas entre kirchneristas e antikirchneristas, que Massa pretende suturar falando para os seus, mas também para os eleitores moderados de Juntos pela Mudança e para os dos candidatos Juan Schiaretti e Myriam Bregman.

Meu companheiro e eu ligamos para uma parente que é kirchnerista. Na videochamada, ela aparece ao lado de uma amiga festejando com champanhe. Nós também brindamos, mas não pelo mesmo motivo que elas. E as acompanhamos um pouquinho cantando a Marcha peronista.

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Hoje à noite, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente do Brasil que apoiou Milei durante a campanha, dá uma entrevista no canal LN+. Afirma: “Depois do que disseram Bullrich e Milei […] certamente eles já devem estar conversando nos bastidores para costurar uma coalizão antikirchnerista.” Não parece possível que uma mulher que foi acusada por Milei de pôr bombas em jardins de infância, e que se descabelou gritando que Milei era um perigo, participe de uma frente com ele. Mas penso naquelas palavras que Milei mencionou no final do seu discurso: “juntos”, “mudança”. O filho de Bolsonaro usa um prendedor de gravata em forma de metralhadora AK-47.

25 DE OUTUBRO, QUARTA-FEIRA_Passo a manhã fora de casa. Volto. Entro no meu apartamento, ligo a tevê e vejo Bullrich lendo um documento como se tivesse dificuldades de leitura. Na realidade, como se não soubesse ler. Rígida, travada. A seu lado está Luis Petri, seu candidato a vice-presidente. Bullrich anuncia que tiveram uma reunião com Milei e que decidiram se aliar ao Liberdade Avança: “A maioria dos argentinos escolheu a mudança. Nós representamos uma parte dessa mudança. Não podemos permanecer neutros. O dilema à nossa frente é mudança ou máfia. Quando a pátria está em perigo, tudo é permitido.” Ao terminar a leitura, é crivada de perguntas pelos jornalistas. Antes de responder, Bullrich olha para Petri, como que perguntando se ele quer dizer alguma coisa. Mas ele nunca quer dizer nada. É como estar vendo duas vítimas propiciatórias executadas em público.

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O que aconteceu: depois das eleições de domingo, Macri ligou para Milei e o convocou a ir a sua casa. Milei foi. Pouco depois, chegou Bullrich, também convocada por Macri, sem saber com quem se encontraria lá. Quando ela entrou, Macri disse: “Chegou a montonera.” Bullrich completou, brincando: “A que coloca bombas nos jardins de infância.” Milei respondeu: “Sei que fiz mal, desculpe.” E os dois se abraçaram. Nessa reunião, combinaram unir forças em torno de um objetivo comum: destruir o kirchnerismo.

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Na entrevista coletiva que segue à leitura do comunicado, Bullrich afirma: “Ontem à noite tive uma conversa [com Milei] e nos perdoamos mutuamente. Está em jogo algo mais importante.” Enquanto fala, releio o que ela disse três dias atrás, no seu discurso no bunker: “Nossos valores não estão à deriva, não se vendem nem se compram.” Então vai ver que os alugou.

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Minutos depois do comunicado de Bullrich, a bomba: políticos de Juntos pela Mudança dizem que se sentem traídos, que ninguém os consultou sobre a adesão a Milei. Dois membros dessa aliança ligados à União Cívica Radical (UCR) – Gerardo Morales, governador da província de Jujuy e presidente do partido, e Martín Lousteau, candidato a prefeito de Buenos Aires pela coalizão Juntos pela Mudança, que perdeu nas Paso para seu adversário, Jorge Macri, primo de Mauricio Macri – dão uma entrevista coletiva. Nela, leem um comunicado definindo a postura da UCR, o partido ao qual pertenceu Raúl Alfonsín, o primeiro presidente destes últimos quarenta anos de democracia, que Milei considera “o pior da história” (ele chegou a pregar um retrato de Alfonsín num boneco que usava como saco de pancadas do boxe). Os dois vão optar pela neutralidade. O comunicado é quase amável comparado com o que dizem a seguir, na entrevista: que Bullrich, com sua decisão, acaba de dissolver a aliança Juntos pela Mudança, que sentiram vergonha ao escutá-la, que “Macri está feliz, é isso que ele queria desde o início: foder com a vida de Juntos pela Mudança, foder com a Patricia e acabar nos braços do Milei”.

Parece uma canção do duo Pimpinela: Me engañaste, me mentiste […]/me pediste que espere por ti, hoy te quedas con ella.

26 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Volto a Montevidéu para dar aulas numa fundação. Ao chegar ao hotel, olho as notícias. Milei postou nas suas redes um meme em que aparece um leão (que o representa), abraçando um pato (que representa Bullrich, apelidada de Pato), os dois enrolados na bandeira argentina. Recebo uma mensagem do meu companheiro: “Barrionuevo saltou fora.” De fato, o sindicalista Luis Barrionuevo resolveu retirar seu apoio a Milei. Sua explicação é espantosa: “Não posso nem vou acompanhar essa surpreendente aliança entre o partido de Milei, Mauricio Macri e Patricia Bullrich […]. Patricia Bullrich não só mancha a essência da proposta inicial, mas desvirtua e contraria frontalmente os pilares que me levaram a respaldar Milei. Não vou compartilhar um mesmo esforço político com alguém que é a encarnação do castigo ao povo trabalhador.” E Milei por acaso não representa “um castigo para o povo trabalhador”?

Tudo é outra coisa, nada é o que parece. Na série The boys, a corporação internacional Vought controla o crime por meio de um grupo de super-heróis chamado Os Sete que é liderado por um loiro tétrico, Homelander. Embora Os Sete representem publicamente personagens heroicos, solidários e preocupados com a cidadania, eles são, nas sombras, ególatras, corruptos e tenebrosos. É Homelander na cabeça.

27 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Escândalo. Milei foi entrevistado no canal América24 por um âncora, Esteban Trebucq, que nunca escondeu seu apoio ao candidato. Há comentários negativos a respeito da forma como Milei perdeu o controle ao escutar um barulho no estúdio: “Se um ruído de fundo o deixa assim, imagine como ele pode reagir a uma manifestação de rua.” Mas o impressionante é o momento em que ele se refere ao meme do leão abraçando o pato: “Quando Bullrich anunciou o apoio, eu postei um meme. Tem mais de 250 mil likes. Só na minha conta do Instagram, a postagem tem 1 milhão de likes. O que eu quero dizer é…” Faz uma pausa e continua num fraseio nervoso e satisfeito, com gestos que lembram o personagem desequilibrado de Brad Pitt no filme Os doze macacos: “Assim como tem um babaca ou três babacas opinando num computador, sabe de uma coisa? Enquanto essa turma fica olhando a mocinha na internet, eu estou embaixo dos lençóis dela.” Fico esperando as hordas do cancelamento virem para cima dele. Mas não acontece nada.

28 DE OUTUBRO, SÁBADO_Um dia esplêndido. O céu parece um palácio vazio. Meu plano é dar aula de manhã, correr uma hora à beira do rio, escrever. Enquanto tomo o café da manhã, leio que Macri disse, numa entrevista à rádio Mitre: “Para minha surpresa, a Antonia me falou assim: ‘Papai, não tem jeito: você precisa apoiar o Milei.’ Se a Antonia disse isso, para mim é palavra sagrada.” Antonia tem 11 anos. Clico no site de notícias elDiarioAR e procuro a coluna do poeta Fabián Casas. Encontro esta frase: “Milei é um meme perigoso que se encarnou numa pessoa.”

29 DE OUTUBRO, DOMINGO_Hoje, como ontem, as ruas de Montevidéu estão desertas. Os uruguaios migram para Buenos Aires nos fins de semana. Se um jantar modesto num restaurante de qualidade média no Uruguai custa 40 dólares, na Argentina, pode-se jantar por 20 dólares num restaurante de primeira. É assim com tudo: roupas, hotéis, táxis.

Os fandons – grupos de fãs do mundo digital – estão se posicionando. Os otakus, fãs de anime, dizem “Não a Milei” na rede social X: “A dolarização da economia provocaria a atualização dos preços a um valor muitíssimo mais alto que agora, o que tornaria praticamente impossível o consumo de mangás.” A comunidade gamer é contra Massa, recorrendo aos mesmos argumentos: “O aumento de impostos provocaria a atualização dos preços a um valor muitíssimo mais alto que agora, o que tornaria praticamente impossível o consumo de jogos […] no governo Massa.” As swifties argentinas – fãs da cantora Taylor Swift – anunciam: “O candidato Milei e seu partido A Liberdade Avança representam um perigo para a democracia e os direitos humanos de todos os argentinos, mas principalmente para as mulheres e a diversidade. Como swifties […] não podemos votar nele. Milei é igual a Trump.” Dão argumentos mais dignos que o preço do mangá ou dos videogames, mas os comentários dizem que, se Milei ganhar, com a economia dolarizada os ingressos dos shows ficarão mais baratos; ou que, se Milei ganhar, como não serão cobrados impostos, os ingressos também ficarão mais baratos.

Recentemente, um escritor e psicanalista me disse: “Já não há cidadãos. Só restam clientes.”

30 DE OUTUBRO, SEGUNDA-FEIRA_Faz vários dias que falta gasolina na Argentina. Formam-se filas de vários quarteirões para abastecer e muitos postos de gasolina estão fechando por falta de fornecimento. Massa anuncia que, se as empresas não distribuírem o combustível, vai proibi-las de exportar a partir de amanhã. Bullrich aparece no LN+, entrevistada por Viale e Viviana Canosa, uma jornalista que elogiava Milei, mas depois brigou com Milei e começou a elogiar Bullrich, e que agora se contenta com a derrota de Massa. Falam da falta de gasolina.

– O que está acontecendo é só um prenúncio da tragédia argentina, que vai explodir no dia 19 de novembro – diz Bullrich. – Está explodindo antes. Tomara mesmo que exploda antes, porque na realidade, as pessoas…

Viale balbucia, em socorro: “Mas se explodir antes…” Outro jornalista diz: “Se explodir antes, todos seremos prejudicados.” Bullrich desperta da ousadia que tomou conta dela e tenta recuar:

– Não. Sabe o que é? Não é “tomara que exploda”. É que já explodiu. Então, eles só querem ganhar as eleições para depois criar uma situação que vai levar o país a ter 80%, 85% de pobres.

Canosa comenta:

– Como é possível que esse cara [Massa] seja o mais votado? […] Se essas pessoas vivem neste país, não entendo por que votam nele. Mas a campanha do medo funcionou.

Se a campanha de Massa é a do medo, do que seria a de Milei?

31 DE OUTUBRO, TERÇA-FEIRA_Volto bem cedo de Montevidéu. No táxi até minha casa, leio os jornais.

As manchetes anunciam que o governo importou combustível, que logo chegará em navios salvadores. O analista político Carlos Pagni, que é lido atentamente tanto por pessoas de esquerda como por peronistas e antiperonistas, publica um artigo no La Nación no qual diz que Massa “esqueceu” que a empresa estatal, YPF, precisava de dólares para comprar combustíveis e que, por falta de fundos, suspendeu a operação de duas refinarias: “E aí [se apresenta] mais uma vez o estilo Massa. Conseguiu comprar combustível de um par de navios […], calculou que esse combustível poderia estar à disposição na noite de terça-feira e, depois de fazer todo esse cálculo, disse: ‘Estou obrigando as petroleiras a entregarem o petróleo até terça-feira, pois, do contrário, não vou deixar que exportem petróleo.’ […] Massa, que nos deixou sem gasolina, aparece como o mocinho que nos traz a gasolina de volta. É maravilhoso. Temos que aplaudir essa habilidade, habilidade que a oposição não tem.”

À tarde, um passe de mágica: o combustível aparece.

1° DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_Depois das declarações da agora deputada eleita Lilia Lemoine sobre a lei de renúncia à paternidade e do descontrole de Milei no programa de Esteban Trebucq, ninguém do Liberdade Avança pode falar com a imprensa. Só há dois porta-vozes. Diana Mondino, atual deputada e possível ministra de Relações Exteriores, e Guillermo Francos, eventual ministro do Interior. Hoje, Mondino disse no LN+ e na rádio La Red: “O mercado de órgãos é fantástico. Todo mundo acha que […] será cortado em pedacinhos e que será tirado um rim. Não senhor. Mercado é o nome técnico.” Independente de qualquer opinião, a proposta da venda de órgãos é paradoxal: Milei propõe uma sociedade do livre mercado, na qual cada um poderá economizar e investir como quiser. Hipercapitalista. Rica. Abundante. Por que, numa sociedade assim, alguém teria tanta necessidade de dinheiro, a ponto de vender pedaços do próprio corpo?

Nessa noite no canal TN, Massa, opositor do kirchnerismo, diz que, se ganhar, começará a implementar suas propostas a partir do dia seguinte à eleição: “O novo desenho do Estado, a unificação de algumas empresas públicas, o reordenamento do sistema tributário […]. Essa mesma vocação de diálogo é a que em 10 de dezembro vai permitir à Argentina ter um governo de unidade nacional com integrantes de diversas forças políticas, econômicas e sociais.” Segue em modo “Ommm”, e imagino que não deve ser nada fácil para ele.

2 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_O estilo Rivotril é um hit. Milei acaba de postar um vídeo nas suas redes. Aparece lendo um texto como se o tivessem desligado da tomada, monótono, impassível: “Comigo a educação pública vai continuar, mas não com Baradel no meio, roubando dias de aula dos seus filhos.” Roberto Baradel preside o sindicato dos professores da província de Buenos Aires, que realizou várias greves por questões salariais, com a consequente suspensão das aulas. Milei: “A saúde pública também vai continuar, mas sem vacinação VIP”, diz, referindo-se aos amigos do ministro da Saúde que furaram a fila prioritária durante a vacinação contra Covid. “Seguem os planos até que se transformem em postos de trabalho, sem [Juan] Grabois no meio, roubando”, diz, referindo-se aos planos de auxílio social que o governo destina às pessoas sem renda, e acusando Grabois, um dirigente social peronista, de ficar com uma porcentagem na intermediação. “Sem inflação, você vai poder pagar o trem e o ônibus sem a ajuda de ninguém”, diz, referindo-se ao preço do transporte público, que agora é subsidiado e que ele prometeu privatizar, promessa que Massa aproveitou para espalhar a ideia de que, se Milei ganhar, a passagem de trem custará 1 mil pesos (1 dólar: impossível para pessoas com um salário mínimo). No trecho final do vídeo, encara a câmera e diz, como se acabasse de lembrar que deve ler o lema que o trouxe até aqui, “Viva a liberdade, caralho”, no mesmo tom em que alguém poderia dizer “me passa o sal”. Para reforçar a mensagem, o dirigente juvenil do Liberdade Avança, Iñaki Gutiérrez, publica no X: “Calma. Aposentadorias, sim. Saúde pública, sim. Planos sociais, sim. Educação pública, sim. Então, o que muda? Que os políticos vão pagar pelo ajuste.”

Milei sustentava que “o melhor sistema de saúde possível é um sistema de saúde privado”; que a educação não é um direito “porque alguém tem que pagá-lo, não é grátis”, e que os trens deviam deixar de ser públicos. Sua plataforma propõe “uma reforma previdenciária para cortar os gastos do Estado em aposentadorias e pensões […] incentivando um sistema privado de capitalização.” Há um verso de James Tate: O Palácio da Memória/não tem memória. Tudo dá na mesma.

3 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Só se fala do que aconteceu ontem, quinta-feira, na Praia de Copacabana. Centenas de torcedores do Boca foram ao Rio para assistir à final da Libertadores que o time disputará com o Fluminense. Foram agredidos por torcedores cariocas, a polícia reprimiu com gás lacrimogêneo. Os canais regurgitam imagens do corre-corre, entre fumaça e bandeiras. Eu as olho porque quero ver o mar, que agora sinto tão longe.

4 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Procuro, feito uma viciada atrás da sua dose de droga, notícias sobre as eleições em meio a um oceano de novidades sobre a Libertadores. Consigo pescar, num canal de televisão, um ato de Milei no município de Tres de Febrero, na periferia de Buenos Aires. Aparece gritando que, para ele, é importante estar lá porque 3 de fevereiro é a data da Batalha de San Lorenzo, o pontapé inicial da epopeia de José de San Martín, o começo da Independência da América. A multidão celebra com fervor. Milei grita que 3 de fevereiro é também a data da Batalha de Monte Caseros, na qual o general Justo José de Urquiza, em 1852, derrotou “o tirano Juan Manuel de Rosas”, que estava à frente do Exército da “então Confederação Argentina”. A multidão celebra com mais fervor. Será que as pessoas se lembram mesmo desses meandros da história argentina do século XIX? Milei continua: “Vocês não devem saber, mas eu passei minha infância em Tres de Febrero e meu padrinho também morava aqui, do lado do quartel militar.” Todos o ovacionam, muitos erguem motosserras de plástico, mas pelo jeito o ato não dá muita audiência, porque o canal volta a transmitir do estúdio, onde uma grafologista analisa a assinatura do Maradona e diz que, através da grafologia, “é possível detectar o câncer até três anos antes que os exames médicos”.

No final da tarde, leio que, numa entrevista para o LN+ – sim, lá de novo –, Diana Mondino – sim, ela de novo – comparou o casamento homoafetivo a ter piolhos: “Como liberal, estou de acordo com o projeto de vida de cada um. É uma coisa muito mais ampla que o casamento homoafetivo. Deixe eu exagerar: se você resolve não tomar banho e viver cheio de piolhos, é uma escolha sua, ninguém tem nada com isso. Mas depois não venha reclamar se alguém não gosta de você por estar cheio de piolhos.” A fala de Mondino me lembra a de um militante kirchnerista com quem conversei recentemente. Ele dizia que, se estivesse no poder, “acabava com a oligarquia argentina num dia, decapitando e jogando as cabeças na rua, para tocar terror”, e que Cristina Kirchner tinha sido “muito boazinha: saiu fazendo leis que ninguém pedia e que depois não reconheceram. Por exemplo, deixar os viados se casarem. A maioria dos viados é antiperonista. Por que jogar pra eles? Depois não defenderam a Cristina”.

Imagino que Mondino não representa o pensamento de todos os eleitores de Milei, assim como imagino que esse militante não representa o pensamento de todos os eleitores kirchneristas. Ou melhor: prefiro imaginar.

5 DE NOVEMBRO, DOMINGO_Os números nas pesquisas sobem e descem. Massa na frente. Milei na frente.

Milei já não fala na dolarização, que seus novos aliados consideram inviável.

Massa garante que Cristina Kirchner não vai ter um cargo no seu governo.

Macri, das sombras, parece dirigir os destinos de Milei, assim como Cristina Kirchner, em reflexo invertido, permanece nas sombras para que Massa avance sem kirchnerismo à vista.

À tarde, num festival pelos direitos humanos em comemoração aos quarenta anos de democracia, dou uma entrevista para uma rádio. Perguntam se eu acho que, caso Milei não ganhe, se abre uma oportunidade para refletir como se chegou a essa situação. Respondo que duvido. Que o poder funciona como uma rede social: uma bolha onde as pessoas passeiam convencidas de que têm razão, bajuladas por quem pensa igual, insultando quem pensa diferente.

8 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_Converso com uma mulher que migrou para Buenos Aires aos 12 anos, vinda da província de Salta, no Norte argentino. Teve um companheiro, duas filhas, o companheiro morreu. Trabalhando como faxineira, conseguiu mandar as filhas à escola (pública). Quando chegou a hora de mandá-las para a universidade (pública), pensou: “E agora, como é que eu vou fazer?” Alugou uma Kombi e passou a transportar estudantes, de casa para a escola, e da escola para casa. Assim conseguiu manter as duas nos cursos: advocacia e arquitetura. Está desiludida. A desilusão é com o fato de Massa ter chegado tão longe: “Teve fraude contra o Milei. Era para ele ganhar no primeiro turno. Não entendo como tem gente que pode votar no Massa.” Quando lhe pergunto por que não se deve votar no Massa, ela responde: “Porque é peronista.” Quando lhe peço mais alguma razão, devolve: “Você acha pouco?” Converso com um estudante do segundo ano de direito. Estuda na Universidade de Buenos Aires, pública. Tem 20 anos. Votou no Milei. Vai votar no Milei. Diz: “Quero que tudo exploda.” Não vota no Massa nem morto: “Nunca votaria num peronista.” Quando lhe pergunto por quê, responde: “Porque o peronismo é o câncer deste país. Se acabarmos com o peronismo, acabam todos os problemas.”

*

O pai de Mauricio Macri, Franco Macri, um poderoso empresário do setor automobilístico e da construção, o chamava de “inútil”.

O pai de Javier Milei, Norberto, o espancava sem dó.

Dois traumatizados pelo pai se unem para se vingar do pai que, nesse caso, seria o peronismo. A psicologia de botequim é uma arte argentina. Às vezes a pratico.

*

À noite, o canal de televisão TN organiza um debate entre vice-presidentes: Agustín Rossi, do União pela Pátria, e Victoria Villarruel, do Liberdade Avança. A uma pergunta direta do candidato peronista – “Você concorda com a libertação dos genocidas?”, referindo-se aos militares da ditadura condenados por delitos de lesa-humanidade –, Villarruel deu a seguinte resposta, que poderia ser lida como uma evasiva, mas não é: “O que eu considero importante é reconhecermos que aqui houve vítimas do terrorismo que não gozam de direitos humanos, e muitas dessas pessoas também estão detidas. Amelong, por exemplo, é uma pessoa que teve o pai assassinado pelos montoneros, ainda na democracia, na cidade de Rosário, cidade que você conhece muito bem.” O ex-tenente Juan Daniel Amelong integrou grupos de tarefas do Exército que atuaram na cidade de Rosário e tem três condenações à prisão perpétua por sequestro, tortura, subtração de menores, homicídio e desaparecimento forçado.

9 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_Hoje é o primeiro dos três shows que Taylor Swift vai fazer em Buenos Aires. Os ingressos se esgotaram em um dia, assim que foram postos à venda, cinco meses atrás. E há cinco meses há swifties acampados em volta do estádio do River, local das apresentações. Todo dia, jornalistas entrevistam o público que espera para entrar, em sua maioria mulheres jovens, que, depois de falar do seu amor por Swift, dizem: “Nós, swifties, não votamos no Milei. Não vote no Milei.”

No final da tarde tenho uma reunião com uma mulher de 65 anos, escrivã. Vai votar em Milei. Diz: “Eu gosto mesmo é da Villarruel, acho que é uma pessoa centrada.”

11 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Vou renovar meu passaporte num posto no Aeroparque Jorge Newbery, onde é possível fazer o trâmite com a máxima rapidez: em troca de 75 mil pesos (70 dólares), o documento é emitido em duas horas. O meu vence em março, mas viajo muito, e os países exigem um passaporte com mais de seis meses de validade. Por trás desse motivo há um cálculo no qual procuro não pensar: quero ter o passaporte em dia antes das eleições. Por quê? Resposta tenebrosa: por via das dúvidas.

Enquanto espero a emissão, vou com meu companheiro tomar algo na Costanera, em frente ao Aeroparque. Entre o barulho dos aviões e o cheiro de combustível, escuto a mensagem de um amigo. Ontem, ele jantou com a família e se arrepende de ter puxado o assunto das eleições, pela tensão que criou. Um dos familiares vai votar em branco, porque Milei lhe dá medo, mas não suporta a ideia de votar no Massa; as duas filhas desse parente e seus namorados vão votar no Milei. Ele sentiu o que eu já pressinto: que a relação entre as pessoas não será mais a mesma. E resta saber como alguns vão assimilar o fato de que seres queridos que consideram bons acreditem que Milei é uma alternativa.

12 DE NOVEMBRO, DOMINGO_Daqui a uma semana será a eleição definitiva. E esse adjetivo, “definitiva”, soa, mais do que nunca, definitivo. O dia 19 de novembro se aproxima a um ritmo vertiginoso, mas só consigo pensar na segunda-feira, 20, o dia seguinte. Ganhe quem ganhar, a Argentina será um lugar diferente. E já é: milhões de cidadãos concordam em ressuscitar discussões encerradas – que nos anos 1970 houve “uma guerra” na qual se cometeram “excessos”, mas não houve “terrorismo de Estado” –, concordam que a saúde e a educação não são direitos “porque alguém tem que pagar por elas”. Concordam em dinamitar consensos em torno do aborto legal, dos direitos das mulheres e das minorias. Tudo isso, se estava latente, já despertou, e quem governa deverá – deveria – levá-lo em conta.

Nesta noite, às 21 horas, haverá um debate entre os dois candidatos. Será televisionado e se espera que tenha mais audiência que um jogo de futebol, como aconteceu nos dois anteriores ao primeiro turno. O que é inexplicável. Se o argumento de Milei de que todos os políticos mentem pegou tanto e ele é, agora, um político, por que milhões de pessoas teriam interesse em assistir a um debate entre dois mentirosos?

13 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_A audiência foi mesmo altíssima: 48,5 pontos, somando as medições dos canais abertos e da tevê a cabo. No primeiro segmento, Massa interpelou seu adversário – que nas últimas semanas moderou suas propostas, insinuando que vai privatizar, mas só um pouquinho; que vai dolarizar, mas mais para a frente; que vai liberar a venda de armas, mas em outro contexto – com perguntas em série: “Javier, sim ou não, você vai eliminar os subsídios? Sim ou não, vai dolarizar a economia? Sim ou não, vai acabar com o Banco Central? Sim ou não, vai cobrar pelo ensino público universitário?” E assim por diante. Massa, que não foi interpelado por Milei sobre o fato de ser ministro da Economia num país com, agora, 142,7% de inflação interanual – cifra divulgada hoje –, conseguiu que o candidato do Liberdade Avança reconhecesse que vai mesmo dolarizar; que vai mesmo acabar com o Banco Central; que considera Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica durante a Guerra das Malvinas entre Argentina e Inglaterra, “uma grande líder”. Massa ainda o acusou de ter estagiado no Banco Central décadas atrás e perguntou, sibilinamente, “por que não renovaram teu estágio? Conta para as pessoas”, abrindo uma cunha de dúvida que insinua que o ódio de Milei contra o BC se baseia no desejo de vingança por aquele passo em falso. Milei patinava: “Você não vai me condicionar a responder sim ou não, e vê se para de mentir.” Veículos governistas elogiam Massa como um político equilibrado e sólido. Veículos da oposição sustentam que Massa se mostrou um político prepotente e soberbo. Veículos governistas sublinham que Milei parecia hesitante e nervoso. Veículos da oposição comemoram o fato de Milei ter conseguido “não surtar” (seria algo assim como uma “vitória psiquiátrica”).

Seja como for, o veredicto é unânime: a supremacia foi de Massa. Mas o debate não visava convencer os convictos, e sim ganhar os votos dos indecisos. Alguns opinam que Milei foi desmascarado na sua ignorância, e que isso não atrairá mais eleitores. Outros, que a firmeza de Massa, na realidade, foi desrespeito, e que isso não atrairá mais eleitores. Muitos acreditam que são essas características – a ignorância como prova de frescor, a firmeza como prova de capacidade – as que atrairão, para um ou para outro, aqueles que ainda não se decidiram. Eu imagino um monte de gente se perguntando, no balcão de uma sorveteria, “limão ou baunilha?” Um sorvete, um presidente: a mesma banalidade.

Depois do debate, Milei se queixou: afirmou que, toda vez que ele falava, os partidários de Massa presentes no recinto tossiam de propósito para desconcentrá-lo, o que deu lugar a uma série de piadas e a uma nova profissão: tossidor.

Enquanto isso, no canal por assinatura TN, Victoria Villarruel, a candidata a vice-presidente de Milei, voltou a se pronunciar: disse que, se chegar ao governo, reabrirá o debate a respeito da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez, vigente desde 2020, porque há “mulheres que estão abortando crianças no final da gestação”, e que o prédio da ex-Escola de Mecânica da Marinha (Esma), onde durante a ditadura funcionou um campo de detenção clandestino no qual 5 mil pessoas foram torturadas e assassinadas e onde hoje funciona o Espaço para a Memória – que reúne diversas instituições dedicadas aos direitos humanos –, tem “17 hectares que poderiam ser usufruídos por todo o povo”. Não esclareceu como seriam “usufruídos”.

14 DE NOVEMBRO, TERÇA-FEIRA_Bastou-­lhe uma postagem e cinco horas para reunir uma multidão numa esquina. “Hoje nos vemos na Callao com a Santa Fe”, postou Villarruel às 11h41 nas suas redes sociais. Bastou uma postagem e cinco horas. Às 17 horas, milhares de pessoas estavam lá para uma caminhada espontânea na qual se viam cartazes com o lema “República ou Castro-chavismo” e gente pedindo para ela autografar o livro que escreveu com Carlos Manfroni, intitulado Los otros muertos: las víctimas civiles del terrorismo guerrillero de los 70. Segundo El Diario AR, uma senhora chamada María Esther declarou na marcha: “Ela é divina. Pura classe.” Se Milei ganhar, já tem sucessora.

16 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_O de sempre, mas acelerado: notícias falsas sobre os candidatos; entrevistas agressivas ou condescendentes de Milei e de Massa, conforme o entrevistador; redes ejetando pus como esgotos. Comentaristas que nunca se importaram com as Ilhas Malvinas atacando Milei por dizer que admirava Thatcher. Comentaristas que nunca se importaram com as pessoas pobres dizendo que com Massa a pobreza chegará a 80%. Kickboxing, mas na merda. Tudo à vista, como nunca antes. Um vulcão que permaneceu adormecido durante anos e agora ejacula sua lava. Guloso, glutão.

17 DE NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA_Hoje os candidatos encerraram sua campanha. Milei, na província de Córdoba. Massa, em Buenos Aires, no prestigiado colégio público Carlos Pellegrini.

Volto para casa de metrô, depois de uma entrevista, e no vagão dois jovens discutem aos gritos. Um deles defende Milei, o outro, Massa. Começam a se empurrar e a se esmurrar, as pessoas se afastam, duas delas os obrigam a descer na estação seguinte. É um país desconhecido, aterrador: ganhe quem ganhar, será difícil conter essa ferocidade.

O que se segue agora? A agonia da espera. Lá vamos nós.

18 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Ontem Milei foi com a namorada, Fátima Flórez, ao Teatro Colón, de Buenos Aires, assistir à ópera Madame Butterfly. Durante o intervalo, alguns começaram a ovacioná-lo e outros a cantar: Milei, basura, vos sos la dictadura (Milei, seu lixo, você é a ditadura). Um violinista, no palco, tocou alguns compassos da Marcha peronista. Já não sei quem somos, quem fomos. Quem seremos. É como se o dia de amanhã fosse um erro do tempo.

19 DE NOVEMBRO, DOMINGO_Acordo cedo. Vou votar. Volto para casa. Olho as notícias. Saio para correr. Volto. Coloco o pão que amassei no forno. Faço tudo de forma automática. Estou anestesiada por um distanciamento defensivo que não me ajuda a olhar melhor.

*

Às 18 horas, é encerrada a votação. Pouco depois começa a se perceber uma tendência. A tevê transmite dos bunkers dos candidatos, mas não preciso de televisão para saber que no União pela Pátria, a quatro quadras da minha casa, impera o silêncio. No de Milei começam a surgir rostos sorridentes, festejos tímidos.

Escuto a frase pela primeira vez às 20h20. Fala Sergio Massa, que faz seu discurso no bunker bem antes da divulgação dos primeiros dados oficiais. Agradece sua equipe, os 11 milhões de pessoas que votaram nele. E então diz: “Acabo de ligar para Javier Milei para lhe dar os parabéns, pois é o presidente que a maioria dos argentinos escolheu para governar o país.” Sinto o sangue gelar, literalmente.

Um minuto depois de saber do resultado, recebo mensagens de amigos da Espanha, do Chile, do México, da Colômbia. Dizem algo que poderia ser resumido assim: “Querida, que desastre. Aqui tem casa, trabalho, o que você precisar.” São mensagens de carinho que aumentam meu horror.

*

Às 21h54, a irmã de Milei, Karina, sobe ao palco do bunker do seu partido, no hotel Libertador, e diz: “Quero lhes apresentar o presidente eleito: Javier Milei!” Milei aparece, a multidão grita: “Liberdade, liberdade!” Milei lê. Agradece “o presidente Macri e a senhora Patricia Bullrich que desinteressadamente nos apoiaram de corpo inteiro para conseguirmos o que a Argentina necessita”. E continua: “Hoje começa a reconstrução da Argentina. Hoje acaba o modelo do Estado onipresente. O modelo da decadência chegou ao fim. Sabemos que muita gente vai resistir. Vai um recado a todos eles: dentro da lei, tudo; fora da lei, nada.”

Mas qual será a lei?

20 DE NOVEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Acordo com uma sombria sensação de irrealidade. Leio as manchetes dos jornais para confirmar que o dia de ontem de fato aconteceu. Aí está a frase: “Milei, presidente eleito.” Aí estão os números: impôs-se com 55,69% sobre Massa, que obteve 44,30%. Mais de 11 pontos de diferença, um abismo de quase 3 milhões de votos.

Começa o Dia Seguinte. Vai durar quatro anos. Talvez mais. Espera-nos um país desconhecido. Muitos estaremos, por muito tempo, caminhando entre estranhos.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_207 com o título “Um país desconhecido”.


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É jornalista argentina. Publicou, entre outros livros, A chamada (Todavia), Uma história simples (Bertrand), Los suicidas del fin del mundo (Tusquets) e Plano americano (Anagrama)