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A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DE PAULO FREIRE EM ANGICOS

Há sessenta anos, 300 pessoas de um pequeno município no interior de Rio Grande do Norte foram alfabetizadas em 40 horas no primeiro experimento em grande escala do método Paulo Freire

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A memória de Luzia de Andrade está “meio desnorteada”, como ela diz, mas, mesmo tendo esquecido algumas passagens de sua vida, a senhora de 87 anos se lembra bem do que ocorreu seis décadas atrás, no aniversário de sua mãe, uma lavadeira que mantinha a casa sozinha (o marido agricultor havia abandonado a família). “Eu não tinha o que dar pra minha mãe. Fiz o esforço de aprender a escrever o nome dela e dar de presente”, conta Luzia, na casa de alvenaria e telhas de barro onde vive atualmente no Centro de Angicos, no sertão do Rio Grande do Norte.

Ao receber o presente, a mãe perguntou: “Que letras são essas? Quero saber como é o meu nome.” O papel nas mãos de Maria das Dores de Andrade era um tesouro pessoal e um documento histórico ao mesmo tempo. Em 1963, foi feita em Angicos a primeira aplicação em grande escala do método de alfabetização desenvolvido pelo educador pernambucano Paulo Freire. Em 40 horas, trezentas pessoas foram alfabetizadas, entre elas Luzia de Andrade, que tinha então 27 anos.

Foi com grande alarde que a pequena Angicos ficou sabendo do lançamento do programa de alfabetização, que se iniciaria no dia 18 de janeiro de 1963. O carro com alto-falante deixou um rastro de curiosos ao espalhar um chamado que Francisca de Brito, hoje com 79 anos, prima de Luzia, ouviu na área rural onde vivia: “Alô, alô, povo analfabeto de Angicos que quer aprender! Vai ter um programa aqui do professor Paulo Freire. Quem quiser entrar nessa escola, chega ali na casa de Genésio para fazer a matrícula. Todo mundo: velhos, moços, pobres, ricos e quem mais quiser sair do analfabetismo.” Foi assim que o chamado ficou na memória de Francisca de Brito. Logo, ela se tornaria uma “alfabetizanda”, palavra que Freire usava para designar os alunos. E, em vez de dizer “sala de aula” ou “aula de alfabetização”, os professores e alunos do método se referiam ao seu local de encontro como Círculo de Cultura.

Naquela época, viviam quase 10 mil pessoas em Angicos. A cidade tinha dois grupos escolares e quatro escolas particulares, um médico, um cinema, uma igreja e dois açudes – mas nenhum sistema de água e esgoto. Lá também não havia angicos, a árvore que dá nome à cidade. Em torno de 80% da população trabalhava na agropecuária, com o cultivo e o beneficiamento do algodão, a criação de rebanhos e a produção de linha de costura. Entre os moradores com mais de 14 anos, cerca de 70% eram analfabetos (no Brasil, 39,6% da população total de 70 milhões de habitantes era analfabeta, de acordo com o Censo de 1960).

Luzia de Andrade já tinha uma filha quando ouviu o carro com alto-falante transmitir o aviso. Decidiu fazer o curso e perguntou à mãe se ela ficaria com a menina durante as aulas, que seriam dadas a partir das sete da noite, para que os trabalhadores da roça e da cidade pudessem frequentar. Quinze turmas foram formadas para receber as 380 pessoas que se inscreveram, de artesãos a agricultores, de empregadas domésticas a pedreiros (nas matrículas constam uma parteira e uma prostituta). Tinham idades entre 6 e 72 anos.

Os Círculos de Cultura foram instalados em escolas, residências e até em uma maternidade. Alguns alunos precisavam percorrer de 10 a 18 km para chegar ao local do curso. Faziam o percurso a pé, de bicicleta ou a cavalo, com uma lamparina na mão, para atravessar a escuridão densa de Angicos, que dispunha de apenas trezentas ligações elétricas nas casas. Ex-alunos contam que, como não havia carteiras escolares suficientes, alguns levavam suas próprias cadeiras ou tamboretes – como fez Luzia. As aulas duraram 45 dias, interrompidas apenas nas noites de chuva forte.

Quando recebeu o convite do governo do Rio Grande do Norte para organizar uma iniciativa-piloto na cidade de Angicos, Paulo Freire tinha 41 anos e viu na proposta uma oportunidade única de testar em grande escala o método de alfabetização que estava desenvolvendo. O governador Aluízio Alves, do Partido Social Democrático (PSD), escolheu Angicos para a experiência porque, além de ser sua cidade natal, era sua base eleitoral na região. O apoio tinha também outra motivação política: em Natal, seu adversário, o prefeito Djalma Maranhão, do Partido Trabalhista Nacional (PTN), estava desenvolvendo um projeto de alfabetização de adultos – e Alves não queria ficar para trás. (Ambos foram cassados pelo regime militar: Maranhão em 1964, e Alves em 1969, depois de decretado o AI-5.) O advogado Marcos José de Castro Guerra, um dos coordenadores da experiência em Angicos, conta que não apenas os políticos estavam interessados na alfabetização: os universitários também se engajavam cada vez mais na busca de soluções para reduzir o analfabetismo no Nordeste e no Brasil.

Os recursos para o projeto em Angicos vieram de um convênio do Rio Grande do Norte com o Ministério da Educação e Cultura, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), um órgão do governo americano para a cooperação com países do Terceiro Mundo (depois acusado de atuar em colaboração com a cia para derrubar governos democraticamente eleitos na América Latina). Como Freire temia intervenções no seu trabalho, exigiu autonomia pedagógica e política, o que lhe foi garantido.

Professor de história e filosofia da educação na então Universidade do Recife (mais tarde Universidade Federal de Pernambuco), Freire iniciara suas práticas de alfabetização de adultos poucos anos antes. Era responsável pela área de educação de jovens e adultos do Movimento de Cultura Popular (MCP), apoiado por Miguel Arraes, do Partido Social Trabalhista (PST), prefeito do Recife que, em 1963, se tornou governador de Pernambuco (em 1964, ele seria preso e depois exilado). No bairro recifense de Poço da Panela, Freire conseguira que três pessoas aprendessem a ler e escrever em 30 horas.

Era uma época de grande efervescência política e cultural no país, inclusive no campo, com mobilizações das Ligas Camponesas, criadas pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Também a Igreja Católica se articulou a partir de 1961 para lançar o Movimento de Educação de Base (MEB), que alfabetizava pelo rádio – o principal meio de comunicação da época. Para tanto, contou com a ajuda de movimentos estudantis como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC). Alguns dos jovens universitários que se envolveram com a experiência de Angicos faziam parte da JUC.

De janeiro a março de 1963, 21 estudantes fizeram-se professores nos Círculos de Cultura em Angicos, durante as férias escolares. “Tinha pessoal da área de direito, filosofia, odontologia, farmácia, medicina… Era um grupo bem heterogêneo, inclusive com dois secundaristas”, diz a juíza aposentada Valquíria Felix da Silva, de 82 anos. Natural de Cerro Corá, no Rio Grande do Norte, ela estudava direito em Natal, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e frequentava a JUC. “Naquela época, Angicos não tinha asfalto em canto nenhum nem calçamento”, recorda Felix da Silva, que ficava de segunda a sexta-feira no sertão e passava o fim de semana em Natal. Nas idas e vindas pelas estradas de terra à noite, ela sofreu três acidentes na Kombi que fazia o transporte dos professores. “O motorista corria muito porque tinha medo de alma.”

A cada quinze dias, Paulo Freire e sua equipe do Recife visitavam Angicos. Ficavam lá ao menos três dias. “Paulo ouvia, dava conselhos, visitava alguns Círculos de Cultura. Quando alguém contava que uma coisa não estava bem, ele dizia: ‘Justifique, diga por quê’”, conta o advogado Marcos Guerra, que hoje tem 82 anos e na época em que foi coordenador do curso estudava direito na UFRN.

A alfabetização em Angicos acontecia em meio a debates dos professores com os alunos sobre direitos, democracia e reforma agrária, entre outros temas que mobilizavam a discussão política e social na época. Parte do método de Freire consistia em substituir a aula expositiva pelo diálogo, com o professor provocando os estudantes a contarem o que pensavam sobre assuntos do seu cotidiano. O objetivo era aprofundar a consciência crítica, uma novidade em relação aos processos de alfabetização praticados até aquele momento. “O que importa então na educação é propiciar a este homem uma via crítica de saber, através de que ele transforme um saber puramente opinativo e existencial num saber reflexivo, e isto ele faz rapidamente”, disse Freire sobre seu método, no discurso de encerramento da experiência em Angicos.

Guerra chegou a montar um Círculo de Cultura na cadeia municipal, a pedido dos presos. “O delegado disse para nós: ‘Se quiserem, vocês vêm dar aula aqui’”, relembra o advogado. “E então os presos negociaram: ‘Sendo assim, minha mulher, que é analfabeta, vem também. Minha filha, que é analfabeta, vem também.’ No começo, tinha até um policial ou dois nas aulas, mas não deve ter sido fácil pra eles. Discutir aqueles conteúdos todos de liberdade naquele clima lá, na relação que policiais e presos tinham… Os soldados não ficaram até o fim.”

As aulas de Luzia de Andrade aconteciam numa casa na zona rural, iluminada por lampiões a querosene. O que primeiro chamou a atenção da jovem foi a lousa na parede. Vizinhos curiosos espiavam as aulas da janela. “A gente era pobre que não podia nem ir numa festa. Era preto, não podia entrar em festa de branco, em festa de rico. Depois que teve essa escola aqui, os professores ensinaram que todo mundo era igual. Ninguém era desigual. Só porque era da cor morena, da cor preta, isso não era defeito”, diz Andrade. “A maior parte do povo que entendeu isso ensinou ao resto do povo.”

Nem todo mundo foi autorizado a frequentar as aulas. Francisca de Brito, a prima de Luzia de Andrade, precisou esconder dos pais as suas idas ao Círculo de Cultura. Quando o carro com o chamado das 40 horas atravessou a vida dela, seu irmão mais novo, Damião de Brito, não titubeou: “Vamos?” A mãe emperrou o plano: “Vocês não vão pra canto nenhum, vão ficar em casa.” Os filhos assentiram, já tramando as escapadas. Para frequentar as aulas, inventaram que iam à casa da avó. Mas a mãe desconfiou e resolveu questionar a avó, que disse: “Nunca mais eles tiveram aqui, não.” Francisca e Damião confessaram: “A gente tava na escola, na casa da Sinhá Nana.” A mãe insistiu que não queria os filhos lá, mas o pai trouxe o alívio. “Ele disse: ‘Que é que tem, mulher? Já que a gente não sabe de nada mesmo, deixa os meninos aprender alguma coisa’”, conta Francisca. “Eu não sabia de nada, mas, de repente, eu aprendi.”

Durante as aulas, um projetor de slides a querosene (ou elétrico) lançava na parede as palavras e desenhos que representavam o dia a dia do povo de Angicos. Antes do início do curso, os jovens alfabetizadores entrevistaram angicanos para definir uma lista de palavras comuns, aquelas que estavam na boca do povo. “Tijolo”, “almofada”, “belota” (enfeite na rede de dormir), “xiquexique” (cacto típico do sertão), “chibanca” (picareta para revolver a terra) e outras, num total de dezessete, compuseram a lista das “palavras geradoras”, estopim para os diálogos e estudos de fonemas simples e complexos.

No início, os alunos não sabiam como usar o lápis nem o caderno entregues pelo projeto. Chamavam as linhas nas folhas de “trilhos” e desenhavam letras tão grandes que a palavra quase não cabia em uma página. Iam até a lousa para escrever palavras, voltavam ao caderno e anotavam vocábulos ditados pelos monitores. Faziam leituras coletivas e individuais das palavras. Entre conversas sobre a Constituição, o valor do trabalho e o conceito de cultura, falavam sobre o plural e as letras maiúsculas e minúsculas. Aos poucos, foram formando frases.

Desde os 6 anos, Francisca de Brito trabalhava na roça, junto com seus oito irmãos. Bem cedo a palavra “chibanca” se tornou familiar. “Eu apanhava feijão, eu apanhava algodão, ia pro roçado com a chibanca. E, quando minha mãe ia pro rio lavar roupa, eu ia também. Aquela roupa miúda, tudo eu dava conta”, diz. Ela nunca se casou e sempre dividiu o dinheiro do seu trabalho com os pais. “Eu fazia faxina e cozinhava nas casas.” Depois das 40 horas, continuou os estudos e chegou até a oitava série. Guarda na memória um livro que comprou com o dinheiro das roupas que lavava: Infância brasileira, de Ariosto Espinheira – uma obra didática dos anos 1950 voltada aos alunos do curso primário, equivalente hoje ao período que vai do primeiro ao quarto ano do ensino fundamental.

Com o adoecimento da mãe e a cegueira do pai, dos quais ela cuidou até os últimos dias, não pôde prosseguir os estudos. Mas isso não quer dizer que não satisfez o sonho de ser professora. “Não tive uma sala de aula dentro de um colégio, mas tive dentro da minha casa”, conta, com orgulho. Seu primo não sabia ler e não se interessava por nada, então o levaram até a casa dela. Lá o menino aprendeu. E outros vieram. Quem tinha dinheiro pagava pelas aulas, mas quem não podia pagar também encontrava o portão aberto. “Até depois que eu fiquei velha, dia desses, uma mulher chegou aqui dizendo: ‘A senhora ainda ensina?’”

Dos 380 inscritos, 300 chegaram ao fim do programa com um conhecimento básico de leitura e escrita, o suficiente para uma mudança significativa em suas vidas – a começar pelo fato de que não precisavam mais assinar documentos “com o dedo”.

Depois das 40 horas, disseminou-se na cidade a expectativa de que o projeto continuasse e que os alunos pudessem avançar nos estudos. “Como eles estavam alfabetizados e motivados para aprender, nós íamos examinar as condições para conceber uma segunda etapa, de modo a não interromper o processo de aprendizado. Mas era algo a ser criado, a gente ainda não tinha planejado”, diz Valquíria Felix da Silva, a juíza aposentada, ao recordar a experiência como professora em Angicos.

A campanha de alfabetização não se restringiu ao povo daquele sertão. Ainda em 1963, chegou a outros municípios do Rio Grande do Norte, como Mossoró, Caicó e Macau, além do bairro das Quintas, em Natal. Em dezembro daquele ano, a campanha já contava com 4 mil adultos alfabetizados.

O sucesso da empreitada em Angicos levou o presidente João Goulart à cerimônia de encerramento das 40 horas, realizada no Grupo Escolar José Rufino (hoje Escola Estadual José Rufino), em 2 de abril de 1963, com um grande número de autoridades. Estavam presentes os governadores Aluízio Alves (do Rio Grande do Norte), Miguel Arraes (de Pernambuco), Virgílio Távora (do Ceará) e Seixas Dória (de Sergipe), além do superintendente da Sudene, Celso Furtado, e do comandante do 4º Exército no Recife, o marechal Humberto Castello Branco, que viria a ser o primeiro presidente da ditadura militar.

Uma sobrinha de Luzia de Andrade de 6 anos, Maria Eneide de Araújo Melo, chamou a atenção de Goulart na festividade. Ela e sua irmã de 11 anos haviam frequentado as aulas com os pais para não ficarem sozinhas em casa. Na ocasião, o presidente manifestou interesse em saber quem era a “menina que sabe ler”. Melo se aproximou de Goulart, levada pela professora, que pediu que a aluna lesse um texto. “Depois, o presidente tirou a caneta do paletó e me emprestou pra eu escrever”, ela conta. “Quando eu estava escrevendo, ele disse: ‘Tá bom, tá bom, já estou vendo que você sabe.’ Eu disse: ‘Deixa eu fazer o ponto final pra completar essa frase.’ E ele falou: ‘Aprendeu com pontos e vírgulas, né?’”

João Goulart perguntou que presente Melo gostaria de ganhar. A resposta estava na ponta da língua: “Quero uma bolsa pra levar meus livros pra outra escola.” O presidente deixou dinheiro para o pai dela, Severino de Araújo, comprar a desejada bolsa. A menina escolheu na cor cinza. “A minha bolsa é boa porque o presidente me deu”, dizia para as amigas.

Desde pequena, Melo pendeu para a área da educação. A garota brincava de ser a professora que a ensinara a ler. “Minha mamãe dizia: ‘Como é que você pode ser a dona Valquíria?’ Ah, mas vou ser ela, e eu repetia como ela falava. Aí minha mãe dizia: ‘Você tem que estudar muito.’” Quando o pai de Melo faltava à aula, a professora ia à casa da família para reforçar como era indispensável a presença nos encontros: “Vamos pra aula, seu Severino, que não pode perder nenhum dia.” E Severino voltava. Se faltasse de novo, por causa da lida na roça, a filha e a mãe compartilhavam com ele os aprendizados do dia. Melo também recorda que os alunos do método Paulo Freire, entre eles sua mãe, escreveram cartas para o presidente e nunca obtiveram resposta. “Minha mãe dizia na carta: ‘Agora eu não sou massa, sou povo. E o povo tem direito a ter escola boa.’”

Na mesma sala de aula que os pais de Melo frequentavam com as filhas, estava a tia dela, Francisca de França Germano, então com 12 anos. Ela já havia estudado um tempo em uma escola pública na região, mas ficou intrigada quando num Círculo de Cultura ouviu a palavra “povo” e a explicação do que era. “Eu estudava em um colégio, aprendia de tudo no mundo, mas não sabia o que era ‘povo’”, recorda Germano, hoje com 72 anos.

Enquanto desfia lembranças de sua passagem por Natal, onde fez um curso de atendente de enfermagem e trabalhou na maternidade, ela é observada por Pedro Gustavo Pires, seu neto de 14 anos. Ele dá uma risada quando a avó diz que gosta de ler ao meio-dia, depois do almoço. O jovem comenta que ela escolhe essa hora de propósito, porque é quando bate aquele sono gostoso. Pires conta que um dia parou na frente de sua casa um ônibus com cerca de trinta professores de outra cidade. Tinham vindo ouvir Germano falar sobre a experiência de alfabetização em Angicos. “Ocuparam a calçada, a sala e a cozinha”, descreve Pires. A avó diz: “Essa casa é muito visitada pelo povo de Paulo Freire.”

O jovem não costuma contar que é neto de uma ex-aluna do projeto das 40 horas para não ser incomodado com as perguntas de alguns colegas. “Eles pedem pra vir em casa, mas não trouxe ninguém ainda não.” Pires conhece bem as histórias da avó. “Falam mal do Paulo Freire, mas ele conseguiu alfabetizar muita gente em pouco tempo. Na época era difícil. Alfabetizou minha avó, que conseguiu ler, escrever, votar… Ela gosta de votar.”

O sucesso da experiência em Angicos não foi saudado por todo mundo. Naquele tempo, a Constituição proibia o voto de analfabetos (eles só puderam ir às urnas no Brasil em 1985, nas primeiras eleições depois da ditadura). Com o programa das 40 horas, a cidade ampliou de uma hora para outra o número de eleitores – e nem todos celebraram esse aumento repentino que tinha o potencial de influenciar nos rumos da política. Além disso, um mês depois de encerradas as 40 horas, aconteceu algo inédito no município: trabalhadores de uma obra em uma escola pública fizeram greve, exigindo seus direitos, como férias e carteira assinada.

Pouco depois de Angicos, Paulo Freire foi convidado por João Goulart para liderar o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), instituído por decreto em janeiro de 1964 e com uma meta audaciosa: alfabetizar 5 milhões de pessoas. Esse projeto foi uma das muitas iniciativas para reduzir a injustiça social no Brasil que provocaram uma forte reação conservadora no país na época. Um rumor se espalhou em Angicos: que Paulo Freire era comunista e que os alunos deveriam queimar os cadernos para não serem presos. Francisca de Brito não se intimidou: “Nem um tico de medo eu fiquei. Não fiquei porque eu tava contente, porque eu já sabia ler, escrever. Dentro dessas 40 horas eu aprendi a escrever o meu nome, o nome de papai, de mamãe e dos meus irmãos, que todo mundo se admirou: ‘Vixe, como ela aprendeu ligeiro.’”

Não foi o que ocorreu com Francisca de França Germano. Com a falação sobre o comunismo, sua mãe mandou que ela queimasse logo os cadernos. “Eu acredito que Paulo Freire, um homem daquele, não ia fazer coisa errada”, diz. Mas a mãe pensava diferente. “Ela me disse: ‘Você é criança, não sabe de nada não.’” A menina foi até o quintal e colocou fogo em toda a papelada do curso. Foi com uma labareda e não com borracha que se apagou parte da sua história.

Os boatos e ameaças eram sinais do que viria a seguir: o golpe militar e a ditadura, que interrompeu o PNA, prendeu Freire por 72 dias, acusando-o de trabalhar contra os interesses da nação, e impôs seu exílio, que durou dezesseis anos. O educador só retornou a Angicos três décadas depois, em 1993, para receber o título de cidadão honorário. Nessa ocasião, visitou a casa de Francisca de Brito e perguntou como era a vida da ex-aluna. “Eu disse que as coisas não estavam muito boas, mas pelo menos eu sabia ler e sabia o que tenho direito e o que não tenho.”

Um presságio do que estava por vir com a ditadura militar aconteceu numa troca de palavras na saída da cerimônia de encerramento do curso em Angicos, em abril de 1963. O marechal Castello Branco comentou com Francisco Calazans Fernandes, secretário de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, sobre a experiência com o método Paulo Freire: “Meu jovem, você está engordando cascavéis nesses sertões.” Ao que o secretário replicou: “Depende do calcanhar que elas mordam!” Em um jantar que reuniu as autoridades naquele mesmo dia, Castello Branco também questionou Freire, como o educador revelou mais tarde em uma entrevista ao Museu da Pessoa. “Você defende uma pedagogia sem hierarquia”, advertiu o militar. Freire respondeu: “Não, o senhor está equivocado, eu defendo valores, e os valores estabelecem hierarquias. Só acho é que a hierarquia que está aí montada e estabelecendo princípios, pra nós, está precisando mudar, está montada em bases injustas.”

Com o golpe, a história dos ex-alunos do método Paulo Freire em Angicos ficou tão escondida quanto um livro proibido. O perigo era real. Mas Severino, pai de Melo, teimou, querendo a continuação do projeto. Chegou a ir a Natal para falar com a professora Felix da Silva, que lhe disse: “Seu Severino, não se fala mais nisso.” Ela confirma o temor daqueles dias: “Eu tinha medo também que os alunos de Angicos pudessem ser perseguidos.” A professora e futura juíza não escondeu ter sido alfabetizadora, mas enterrou os materiais do curso – como fotos, avaliações, páginas com anotações, lista de palavras geradoras – no quintal da casa dos pais.

O coordenador Marcos Guerra chegou a ser preso, acusado de participar de “atividade subversiva”. Felix da Silva se lembra de quando foi visitá-lo na cadeia. “A primeira coisa que ele disse foi: ‘Não venham mais aqui. Eu soube que todos estão sendo vigiados. Se despeçam, não se reúnam mais, não se visitem, se afastem.’” E foi o que ela e os colegas fizeram. “Ninguém se comunicou mais.”

Guerra foi preso junto com dois colegas da época de Angicos, no dia 2 de abril de 1964, na cidade pernambucana de Caruaru. No mesmo dia, o escritório deles foi invadido pelo Exército, que buscava provas para incriminá-los. “Depois que fomos presos, o inquiridor queria arrancar muita coisa da gente para poder preparar bem a prisão do Paulo Freire, que só foi detido em setembro.” Guerra ficou preso quase dois anos e em seguida exilou-se.

Ele avalia que, se o projeto tivesse continuado, a quantidade de analfabetos hoje no Brasil seria equivalente à de países como a Suíça, onde representa apenas 0,4% da população. Aqui, 5,6% dos brasileiros com 15 anos ou mais (9,6 milhões de pessoas) ainda não sabem ler nem escrever, de acordo com o Censo de 2022. Entre as pessoas pretas ou pardas com 15 anos ou mais, 7,4% são analfabetas – mais que o dobro das pessoas brancas (3,4%). Do total de analfabetos, 55,3% vivem na Região Nordeste.

Em conversas com os ex-alunos do método Paulo Freire em Angicos, fica nítido como a memória é um tecido frágil e o apagamento imposto pelo golpe de Estado foi violento. Há quem tenha continuado os estudos e se lembre até dos livros que leu, quem apenas guardou daquelas aulas a lembrança de como se escreve o nome, quem pouco se lembra da forma do nome e mesmo do que ocorreu. Mas todos eles insistem em manifestar sua confiança na educação.

A população de Angicos não aumentou muito de 1963 para cá. Vivem hoje na cidade cerca de 11,5 mil pessoas – 2 mil a mais que há sessenta anos. Mas o ambiente educacional mudou bastante: o município conta atualmente com um campus da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), que tem faculdades dedicadas à engenharia, ciência e tecnologia, computação e, claro, pedagogia. É nesse campus que está sendo criado o Memorial Paulo Freire, um local que vai abrigar exposições, cursos e palestras sobre a história do educador, de seu método e a experiência em Angicos.

Não será a única homenagem feita pela cidade a um homem que mudou a vida de tanta gente ali. Outras já existem, como se Angicos e Freire tivessem se tornado um conjunto indissociável, por força da história. No km 180 da BR-304, que vem de Natal, pouco antes da entrada de Angicos há uma escultura de ferro de 12 metros de altura, feita por Guaraci Gabriel, que exibe o rosto do educador no alto e, logo abaixo, a expressão “40 horas”, com um relógio no lugar do zero. Na entrada de Angicos, um portal estampa uma frase dita por Freire quando ele retornou à cidade em 1993: “Em nenhum lugar do mundo onde estive, fiquei mais tocado do que aqui e agora.” No Centro da cidade, a antiga estação férrea se tornou a Casa de Cultura Popular Professor Paulo Freire. E a sala onde estiveram Freire e João Goulart para a cerimônia de encerramento vai entrar em reformas para se tornar o Centro Paulo Freire. “Em Angicos até o vendedor de picolé sabe de Paulo Freire”, comenta Felix da Silva, que mora em Natal, mas retornou várias vezes àquele sertão. Segundo Pedro Gustavo Pires, o neto de Francisca de França Germano, esse conhecimento é um tanto superficial. “A maioria dos meus colegas de escola conhece o nome Paulo Freire, mas não sabe quem ele foi”, diz o jovem.

A cidade também se prepara para servir de locação ao filme de ficção Angicos, em que o diretor Felipe Hirsch vai contar a experiência das 40 horas com Wagner Moura no papel de Freire. “Me interessei muito pelo processo de Angicos, porque acho que representa não só uma revolução na vida do Paulo Freire, mas também uma grande revolução no país. Ele chegou a dizer em entrevistas que, se quisesse apenas formar eleitores, teria só ensinado as pessoas a assinarem o próprio nome. Ele não queria formar eleitores, e sim formar cidadãos”, diz Hirsch, que escreveu o roteiro em parceria com a dramaturga Juuar e a colaboração do escritor baiano Itamar Vieira Junior, autor de Torto arado.

Como outros ex-alunos, Maria Eneide de Araújo Melo, que em 1963 ganhou de João Goulart uma bolsa para seus cadernos, também reencontrou Freire três décadas depois. Nos anos seguintes à experiência das 40 horas, ela trabalhou como professora e alfabetizadora de crianças, inspirada pelo método freiriano. Melo recorda que, no encontro com o educador em 1993, ele se aproximou e tocou seu ombro, dizendo: “Ô Eneida (ele me chamava de Eneida), se agora o presidente lhe oferecesse um prêmio, o que você iria querer?” Ela não pensou duas vezes: “Ia pedir pro presidente um salário digno pra todos os professores.”[1]

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_207 com o título “”De repente, eu aprendi””.


[1] O autor agradece a Serena Labate, Paulo Roberto Padilha e Marileide Matias.


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É jornalista e poeta, autor dos livros O aniversário da terra (7Letras) e O jogo de ler o mundo (SM)