Imagem Uma aclimatação do marxismo no Brasil

anais da dialética

UMA ACLIMATAÇÃO DO MARXISMO NO BRASIL

Os trajetos de uma geração e de um projeto de transformação do país

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Em 2004, o crítico Roberto Schwarz, autor de obras que redefiniram o entendimento da literatura e da cultura brasileira, como Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis e Cultura e política: 1964-1969, concedeu uma longa entrevista sobre o impacto do marxismo em sua obra e na sua geração. O debate foi conduzido pelos economistas José Márcio Rego e Luiz Gonzaga Belluzzo, a professora de literatura Maria Elisa Cevasco, o sociólogo Eduardo Kulgemas (1940-2006), a socióloga Roseli Martins Coelho e o professor de história Jorge Grespan. Também participou Grecia de la Sobera, estudante de filosofia. A conversa permaneceu inédita e foi revista e ampliada pelo entrevistado duas vezes – em 2019 e neste ano. O texto a seguir é a íntegra do depoimento de Schwarz, a partir das questões propostas pelos entrevistadores.

Muita gente nem lembra que foi marxista, ou pensa no marxismo como um pecado de juventude. Mas o marxismo tornou o Brasil mais inteligente, criou uma ordem do dia substanciosa e produziu uma reflexão histórica original, que não se esgotou, embora tenha perdido bastante de seu pique. A moda atual é reduzi-lo ao doutrinarismo, que de fato o acompanhou e é muito negativo. Tenho a convicção, porém, de que há um estudo importante parado no ar, à espera de alguém que articule sem sectarismo os livros-chave do nosso estruturalismo histórico, de intenção transformadora.

Essa designação meio neutra serve para evitar as querelas de capela e uma terminologia que impediram muitos marxistas de reconhecer a direção comum das obras – suponhamos – de Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Antonio Candido, para ficar em figuras simbólicas. Acrescido de uma dúzia de outros autores, muitos dos quais se detestam cordialmente, trata-se de um conjunto dotado de consistência e força elucidativa, cujo alcance ainda não foi apreciado devidamente.

Vivemos o decênio da vitória do capital e da derrota do anticapitalismo. Os países ditos socialistas, que tinham Marx como bandeira, viraram capitalistas assim que puderam, e os movimentos operários excluíram a análise marxista do seu programa, o que tampouco impediu que fossem perdendo a força. Diante de tal derrocada histórica, que sentido pode conservar o interesse pelo marxismo? Será que a derrota não tem ensinamentos e não manda mudar de assunto? Acresce que a inspiração marxista, segundo contam os colegas mais moços, é uma desvantagem considerável para quem procura emprego ou bolsa de estudo, para quem quer publicar um trabalho ou avançar na carreira. É claro que esses desastres e inconvenientes não chegam a ser argumentos teóricos, mas não deixam de ser realidades. Cabe aos amigos de Marx demonstrar com resultados novos que o seu ponto de vista não é mera teimosia.

ANTES DE 1964

Como era natural numa universidade de periferia – a USP dos anos 1950 e 1960, onde eu estudava –, as tendências internacionais davam a pauta, até que a correnteza que levou à crise de 1964 ganhasse força, abrindo espaço, por um curto momento, a uma redefinição local e mais independente dos problemas. Com a morte de Stálin em 1953 tivera início o degelo dentro do movimento comunista, cujo autoritarismo anacrônico foi ficando inviável. As consequências para a vida intelectual foram profundas e se fizeram sentir também no Brasil. A obra de Marx, que o clima de catequese e linha justa dos partidos comunistas havia sequestrado, entrava para o debate universitário, competindo com as teorias rivais e sugerindo aos estudantes um estilo crítico mais radical.

Além do próprio Marx, os autores decisivos para a desdogmatização naquele momento, quanto à teoria e no nosso pedaço, foram György Lukács e Jean-­Paul Sartre. Em 1960 foi publicada em francês uma edição pirata de História e consciência de classe, o livro renegado e lendário de Lukács. Em 1960 saiu também a Crítica da razão dialética, de Sartre, precedida da Questão de método, que era uma tentativa de casar existencialismo e marxismo, e de dar combate ao dogmatismo dos partidos comunistas na França e nos países do Leste.

São exemplos que dão ideia do vento de ressurreição teórica e disposição de mudança que soprava na época. Em 1955 foi publicada a primeira seleção importante dos escritos de Walter Benjamin, organizada por Theodor Adorno, que voltara dos Estados Unidos para a Alemanha em 1949. Com o suicídio de Benjamin em 1940, durante a fuga do nazismo, os seus escritos tinham desaparecido, postos em segurança por amigos. Também nos anos 1950, Adorno começou a desovar sua vasta produção, na qual a problemática das décadas de 1920 e 1930 – a problemática pós-revolucionária europeia – era retomada e atualizada, levando em conta a experiência da Segunda Guerra Mundial e dos anos passados na América. Pertence ao mesmo período a glória mundial de Bertolt Brecht, o dramaturgo e escritor que colocou a revolução e a reflexão materialista no âmago de sua invenção de formas.

À distância, esse renascimento do marxismo crítico, que estivera soterrado pela vitória do nazismo na Alemanha, do stalinismo na União Soviética e do anticomunismo nos Estados Unidos, tinha o que oferecer à radicalização brasileira de então. As suas peculiaridades eram especialmente sensíveis para quem trabalhava no âmbito estético.

MARXISMO E
RADICALISMO ESTÉTICO

Em matéria de arte, tratava-se da volta do radicalismo dos anos da Revolução Russa, ou mesmo dos anos da grande experimentação radical anterior à Primeira Guerra Mundial e, naturalmente, de nosso modernismo de 1922. O ressurgimento desse espírito subversivo cinquenta anos depois, em circunstâncias mudadas, marcadas pela prosperidade americana e europeia, mas também pelo terceiro-mundismo, é desses fatos que requerem explicação.

Em todo caso, contribuiu para o movimento que levou à comoção mundial de 1968. É interessante lembrar que História e consciência de classe, que é de 1923, se definia como um livro leninista precisamente porque considerava que a revolução estava na ordem do dia. Quando nos anos 1960 a desagregação da ordem burguesa e a sua superação pareceram voltar ao primeiro plano, o livro de Lukács recuperou a atualidade. Todos esses autores haviam tido contato vivo com movimentos de ponta, com vanguardas políticas ou artísticas, que agora, completada a esclerose da União Soviética, passavam a ter vibração não só anticapitalista, como também antistalinista.

Lukács foi bolchevique. Benjamin, muito afinado com a experimentação avançada (Proust, Kafka, Karl Kraus, Brecht, o surrealismo, o significado estético do desenvolvimento das forças produtivas), procurava politizá-la em toda a linha. Adorno começou como um teórico militante da Escola de Viena, cujas rupturas musicais ele interpretava como outras tantas quebras da ordem burguesa, em analogia com a visão lukacsiana da revolução.

Cada qual a seu modo, esses autores eram o que na União Soviética se chamava depreciativamente formalistas. Acreditavam na precedência da questão formal para a discussão artística. Conforme a expressão célebre de Lukács, anterior ainda à sua virada marxista, o que é social na arte é a forma, a qual estrutura o contato dos conteúdos e dos materiais com o espectador. Mas é claro que o formalismo das vanguardas não era descaso pela humanidade, como queriam os seus adversários conservadores, nem pela história, como queriam os adversários de esquerda. Era, ao contrário, a convicção de que transformações formais levavam a um mundo novo. Isso dava ao debate estético o calor parapolítico e revolucionário que hoje é difícil de imaginar. Assim, as revoluções formais não eram inaceitáveis só para o senso comum burguês e para o valor-eternismo da cultura tradicional, mas também para o humanismo de fachada dos partidos comunistas, com sua função disciplinar.

Quem levou mais longe a dialética de forma e conteúdo, de forma e material, foi Adorno, insistindo no lastro social-­histórico das formas – a forma é conteúdo histórico sedimentado – e no caráter sempre historicamente pré-formado, ou nunca informe, de conteúdos e materiais. Ao contrário do que possa parecer, a procura da forma e mesmo a revolução formal são, para Adorno, menos uma imposição discricionária do artista do que a solicitação de tendências e de contradições acumuladas em seus materiais pelo tempo. Com esses avanços da reflexão, que dão à crítica marxista o seu programa, a análise estética se torna integralmente histórica e dialética. A ideia de que as formas sejam sínteses consideráveis de experiências históricas e respostas também consideráveis a essas mesmas experiências obriga o crítico, empenhado em sua decifração, a arriscar…

É um tipo de crítica que requer abertura para o que dizem as formas, para a experiência histórica à qual elas aludem, para a história e as contradições armazenadas em seus materiais, e também para a experiência subjetiva que tornou a obra memorável e merecedora de interpretação – sem contar a capacidade correspondente de verbalizar.

Ao juntar análise formal e reflexão histórica, a crítica estabelecia um patamar à altura das exigências reais da arte, patamar que entretanto é difícil de combinar com as realidades da rotina universitária. Esquematicamente, eram noções que se opunham ao conteudismo antiestético da história literária positivista, ao conteudismo enquadrado e bem-pensante da história literária comunista e ao formalismo a-histórico de várias vertentes da crítica acadêmica.

A meu ver a superioridade do marxismo em cada um desses confrontos é palpável. Nem por isso ele se impôs – salvo onde virou doutrina de Estado e se desvirtuou –, talvez porque o vaivém entre as reflexões formais e históricas inclui sempre um pulo do gato para o qual não há receita e que não há como didatizar inteiramente. Aliás, os trabalhos que de fato cumprem esse programa não são frequentes. Seja como for, seria interessante confrontar momentos altos da crítica marxista e do New Criticism americano, também este formalista e inovador, além de academicamente mais bem-sucedido. Acho que não é parcialidade dizer que os resultados deste último – ainda quando bons – são mais modestos. Há diferença entre o formalismo sem história, ou com referência histórica limitada, e o formalismo plenamente voltado para a história e a crise da sociedade contemporânea, no sentido decisivo – também de forma – que o marxismo lhe atribui.

LUKÁCS, SARTRE,
FRANKFURTIANOS E BRECHT

Para mim, pessoalmente, os mais importantes foram Brecht e os frankfurtianos. Mas para muita gente boa foram Lukács e Sartre. Brecht, porque ele fez da luta de classes e do marxismo elementos deliberados da invenção artística, criando um vanguardismo de tipo novo, politicamente mais agudo. Os frankfurtianos, pela cumplicidade marxista com a arte moderna ou, inversamente, pela cumplicidade modernista com o marxismo, ambas muito bem explicadas, integrando a reflexão estética à reflexão contemporânea de maneira a meu ver inédita.

Já o interesse por Lukács é mais complicado e misturado. Depois de escrever História e consciência de classe, do qual todo o marxismo crítico é tributário – Horkheimer e Adorno em particular –, ele pagou um preço alto à linha justa do Partido Comunista, para não ser expulso, como ele mesmo explica com franqueza. O que fazer com um crítico que dá como exemplos de equívoco estético a literatura de Proust, Kafka, Joyce e Beckett, sem esquecer Flaubert e o próprio Brecht? É praticamente a literatura moderna inteira. Ainda assim, o conjunto de seus estudos sobre o romance dos séculos XVIII e XIX (até 1848, quando a seu ver começa a decadência da arte burguesa) é poderoso e está vivo, o que não deixa de espantar, pois tantos de seus pressupostos e pontos de fuga foram derrubados. Ou foram invalidados só em parte? Mas é preciso dizer, a bem da verdade, que a obra e a vida de Lukács são instrutivas também de outro ângulo mais penoso. Elas deixam entrever o submundo regressivo da política stalinista, cheio de panfletos abjetos, ameaças, retratações, desaparecimentos, homenagens rituais ao ditador etc. O que pensar disso tudo e de sua ligação com a outra metade, emancipatória e libertária? Não é que no Brasil não tivéssemos notícia do lado tenebroso da coisa, mas ele não se impunha à nossa imaginação. A União Soviética ficava longe e naquele tempo não parecia um problema crucial, o que naturalmente foi um déficit político grande do marxismo de minha geração.

A CHEGADA DO MARXISMO HETERODOXO

Quanto a Sartre, que era famoso, não há mistério. Era normal na faculdade que um livro novo dele fosse lido. Já os alemães eram de acesso difícil, não só por causa da língua. Lukács, depois da autocrítica forçada, havia proibido a reedição da Teoria do romance e de História e consciência de classe, os dois livros que haviam feito a sua reputação na década de 1920. Os trabalhos novos ele publicava na Alemanha comunista, onde por alguma razão os nossos livreiros não gostavam de fazer encomendas. Por seu lado, Benjamin e Adorno ainda não estavam na moda nos anos 1950 e 1960. São Paulo na época tinha boas livrarias alemãs, onde comprei livros deles pelo sumário interessante, sem saber quem fossem.

Antonio Candido conhecia Lukács e levou em conta a sua concepção do romance na Formação da literatura brasileira, de 1959. Até onde sei, a outra pessoa na faculdade que o conhecia era Paula Beiguelman, uma excelente professora de política, que tinha uma coletânea italiana de ensaios dele sobre o realismo, que ela emprestava com ciúme, como algo precioso. Em suma, Lukács era uma presença especial, cultivada por uns poucos socialistas insatisfeitos com o marxismo vulgar e conhecedores da história da esquerda europeia. Havia em torno dele o sentimento do que o marxismo poderia ser se não fosse a deturpação stalinista.

Noutras palavras, os autores chegavam ao sabor das livrarias e das curiosidades individuais, mas o contexto que retraduzia tudo era a efervescência brasileira do período. Brecht, por exemplo, depois de ser encenado como uma novidade estranha por uma companhia convencional, com resultado assim-assim, foi transformado numa figura indispensável ao teatro brasileiro pelo Centro Popular de Cultura (CPC), pelo Arena e pelo Oficina, que o incorporaram em espírito irreverente e agitativo, nem sempre afinado com o original, mas em sintonia com o momento histórico.

UM SEMINÁRIO DE
LEITURA DE
O CAPITAL

Embora os professores de esquerda fossem numerosos nos departamentos de filosofia e de ciências sociais, o papel do marxismo era de outsider, uma presença extra-acadêmica, tingida pela ilegalidade da militância comunista. Não havia cursos a respeito – paradoxalmente estes só se generalizaram mais tarde, durante a ditadura. Muitos de nós com certeza achavam que Marx era mais forte e crítico do que os demais clássicos da teoria social, que ele era uma figura-chave para a filosofia, que a reflexão estética devia levá-lo em conta. Mas, ainda assim, era uma presença não oficial, de conversa de saguão ou de bar, e não de sala de aula – um recado de outra realidade.

Não conheço a história da montagem dos currículos da época e não saberia dar as razões da ausência de Marx. Uma parte da explicação passa talvez pela seriedade intelectual, pela alergia que a faculdade tinha desenvolvido à improvisação. O capital é um livro que intimida, e os pressupostos culturais da teoria marxista não eram correntes, ou melhor, eram interdisciplinares em alto grau, sem falar na bibliografia pouco acessível.

Quando um grupo de jovens professores – entre eles, Fernando Henrique Cardoso e José Arthur Giannotti – se organizou para fazer o Seminário Marx e ler o livro a sério, para torná-lo produtivo acadêmica e politicamente, causou um certo rebuliço. Empurrada pela radicalização do pré-1964, a moda pegou. Os seminários e os cursos universitários correlatos se multiplicaram, e em tempo não muito longo se formou a necessária massa crítica de conhecedores do texto e de seu contexto, permitindo que Marx se tornasse uma especialidade acadêmica – mas aí o momento crítico, em que análise de classe e crise do desenvolvimentismo formavam uma dupla explosiva, já havia passado. Fernando Henrique e Giannotti escreveram que no seminário se estudava Marx como um clássico entre outros, sem propósito extra-acadêmico. Não é a minha lembrança como participante que fui desse seminário.

O seminário sobre Marx foi iniciativa de um grupo pequeno de professores: alguns assistentes de ciências sociais, filosofia, história e economia, que se encontravam quinzenalmente para estudar O capital. Teria sido um esforço intelectual sem nada muito particular, não fosse a obrigação do doutoramento, que no caso foi uma força produtiva e causou uma química nova. Salvo os filósofos, todos escolheram assuntos de tese brasileiros, que tentaram abordar do ângulo marxista recém-adquirido, em espírito dialético, criando uma situação mais cheia de desdobramentos do que supunham.

Por um lado, tratava-se de rever o país à luz de Marx, combinando história, análise de classe e análise econômica, com vantagens de conhecimento evidentes. Por outro, as categorias de Marx eram postas à prova dos padrões normais da pesquisa universitária, o que tinha consequências políticas imediatas, pois deixava malparada a infalibilidade dos dirigentes comunistas, até então donos da teoria. O progresso mais inesperado e interessante, contudo, acabou sendo outro, que se configurou nos trabalhos de Fernando Henrique Cardoso e Fernando Novais. Cada um em seu terreno, os dois constataram uma certa inadequação das categorias marxistas – quando tomadas tais e quais – à experiência histórica brasileira, que não batia com os conceitos clássicos. Nem nossa burguesia, nem nossa classe operária, nem as etapas de nossa evolução social coincidiam com o modelo marxista canônico, o que no clima de urgência transformadora da época era um problema desconcertante. Como chegaríamos a ser uma nação burguesa ou socialista decente, como as adiantadas, se diferíamos delas em tudo? O final feliz do percurso não ficava comprometido?

Num caso desses, o caminho fácil e comum seria recusar a realidade para salvar as categorias, ou vice-versa. Pois bem, os dois doutorandos tiveram o discernimento dialético de não recuar diante da inadequação, mas de retê-la como um dado crucial, reconhecendo nela um elemento de realidade do sistema capitalista mundial, cujas categorias não significam o mesmo nem funcionam de modo igual em seus diferentes lugares, no centro e na periferia, embora existindo e sendo eficazes. Assim, o seminário operou uma considerável metabolização brasileira do marxismo, que foi, em primeiro lugar, resgatado da condição de catecismo político; em segundo, separado da mera análise de texto, ainda que filosófica; em terceiro, inserido na pesquisa propriamente universitária, mais aparelhada que o jornalismo de esquerda corrente; e, por fim, problematizado e reespecificado pela experiência histórica a qual devia esclarecer – um resultado ainda pouco apreciado.

Digamos que o seminário contribuiu para o arejamento e a ressocialização do marxismo, afastando-o do universo das seitas e obrigando-o ao debate acadêmico normal, no qual era confrontado às demais teorias sociais e à pesquisa empírica. O banho de realidade fez bem ao marxismo, cuja potência crítica, por sua vez, elevava o nível da discussão. Uma vez desdogmatizada, a ênfase na luta de classes e na exploração econômica trazia às ciências sociais dimensões que elas, por razões obviamente ideológicas, costumavam esquivar.

Quando, por exemplo, Fernando Henrique assinalou a ausência da luta de classes – uma lacuna gritante – nas reflexões do nacional-desenvolvimentismo, inclusive da Cepal,[1] eram os pontos de vista do seminário que subiam ao âmbito nacional e latino-americano. A repercussão internacional dessa sua intervenção, que formaria o miolo da teoria da dependência,[2] mostra o alcance crítico do trabalho do seminário.

Mas nada é simples como parece. No começo dos anos 1970, tive a sorte de participar de uma entrevista com Celso Furtado, então no exílio, a respeito de sua evolução intelectual. Os entrevistadores, marxistas e fernando-henriquistas – entre os quais eu mesmo –, pressionavam o grande homem a conceder que em sua construção havia uma lacuna, quase uma ingenuidade. A seu ver, quem – que sujeito, qual categoria ou força social – seria capaz de arrancar às mãos dos americanos as alavancas do mando econômico, permitindo ao país a superação da condição dependente? Educadamente, queríamos forçar o ex-ministro e teórico do subdesenvolvimento a reconhecer que faltava na sua teoria e política o papel decisivo da luta de classes e da classe operária.

Depois de alguns minutos de braço de ferro infrutífero, em que Furtado afirmava que os agentes da transformação seriam os “homens de bem” (uma resposta algo decepcionante, convenhamos), nosso entrevistado mudou o tom e disse mais ou menos o seguinte: “Eu sei o que vocês querem que eu diga. Mas não vou dizer, porque não acredito. Pensei muito no assunto, e não creio que nas circunstâncias brasileiras a classe operária vá desempenhar este papel.” Em suma, ao contrário do que pensávamos, não era que Furtado não tivesse uma análise de classe e que esse era o déficit de seu pensamento. Ele, um homem de esquerda, anti-imperialista, tinha sim uma análise de classe, só que ela era pessimista, e o levava a buscar outras saídas.

O MARXISMO DA
GERAÇÃO ANTERIOR

É claro que o seminário foi um momento tardio da assimilação brasileira do marxismo. O passo inicial tinha sido dado muitos anos antes por Caio Prado Júnior, com o seu trabalho de historiador. Voltando atrás, na década de 1930 o marxismo vinha sendo uma presença ativa, mas pontual, um elemento na cultura geral das pessoas esclarecidas, como ocorreu também com o freudismo. Graças a seu beabá de choque, chamava a atenção para o primado do interesse material, para a realidade das classes sociais e da exploração econômica, que em geral eram tabus, e contribuía para a crítica à religião, ao tradicionalismo, ao conservadorismo liberal, à ordem oligárquica etc.

Vários dos maiores escritores do período – Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Graciliano, Drummond, Rubem Braga – lhe devem parte dos seus insights materialistas. A outra vertente, correndo em faixa isolada, era o sectarismo do Partido Comunista, com seus esquemas elaborados pela Terceira Inter­nacional,[3] sem contato com o debate e a realidade locais. Entre parêntesis, e a despeito da inadequação clamorosa, é certo que eles, os esquemas, afirmavam a dimensão mundial da luta de classes, o que não deixava de contribuir para um sentimento atualizado do presente, especialmente num país tão longe de tudo. Seja como for, nos dois casos era uma presença intelectual pouco elaborada, uma transposição mais ou menos crua de pontos de vista genéricos, distante da força de revelação da boa análise marxista. Esse é o ambiente em que Evolução política do Brasil (1933) e Formação do Brasil contemporâneo (1942) representaram um salto. Especialmente o segundo tinha muitos atributos do marxismo de primeira classe.

A sua ideia mestra era original, esclarecedora e solidamente materialista. À explicação do Brasil pela mestiçagem (Gilberto Freyre) ou pelo transplante cultural (Sérgio Buarque de Holanda), contrapunha uma terceira, pela lógica econômica e histórico-mundial da colonização a que nos devemos. As três explicações não se excluem, antes se completam, mas competem, e a questão do primado em última instância está colocada. Em suma, Caio Prado reconhecia nas feições inaceitáveis do país a herança direta de um movimento mundial, cuja finalidade não era constituir uma sociedade, mas alimentar de produtos tropicais e minérios o comércio europeu. Comandada pelos interesses da expansão comercial europeia, que lhe dava o “sentido”, a colonização havia produzido um organismo social-econômico “completo e distinto”, “definido por relações específicas”, “algo novo”, porém deploravelmente pobre em finalidades sociais internas. Da perspectiva ulterior, de formação de uma nacionalidade moderna, este resultado era o ponto de partida real, mais deficitário que positivo, que caberia à nação independente transformar e superar.

Apresentada assim, sem mais, a dialética entre nação e colônia fica talvez trivial. Os méritos dessa construção intelectual, entretanto, são numerosos. Vou enumerando um pouco ao acaso, com propósito de diferençar e de indicar pontos fortes:

* A história é mais de transformação estrutural, demorada no tempo, que de fatos sucessivos.

* A peculiaridade sociológica da colônia e do país, em especial a escravidão e o trabalho semiforçado, não é uma feição isolada, ou um resíduo arcaico, nem muito menos um malfeito dos portugueses, mas um resultado consistente da história moderna, que por sua vez é vista criticamente (a escravidão sendo uma calamitosa rebarbarização).

* Atrás dos fatos, trata-se de notar e articular totalidades históricas – tais como a expansão comercial europeia, o resultado social-econômico de três séculos de colonização, a nação independente cuja incumbência é a superação desses mesmos resultados –, as quais imprimem o seu “sentido” aos dados isolados.

* A ênfase na produção econômica e no comércio europeu de produtos coloniais dá relevância estrutural às questões de classe, quer dizer, de mão de obra, redimensionando as noções naturalistas de raça e meio.

Nos anos 1950 e 1960, dominados pelo desenvolvimentismo, a obra marxista de Caio Prado fazia figura mais concreta que as de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, cujo acento antropológico e cultural parecia ultrapassado pelo ângulo nacional-econômico. A escrita no-nonsense de Caio Prado parecia inclusive mais moderna que o brilho literário dos outros dois, ligado à prosa modernista. Nos dias de hoje, quando a capacidade do país de dispor de si (ou de iludir-se a respeito) perdeu muito do seu ímpeto, os temas da mestiçagem e do éthos brasileiro, mais genéricos do que a circunscrição local da luta de classes, retomaram o primeiro plano. É como se na órbita da nova ordem global (ou das perspectivas de investimento das multinacionais) a flexibilidade de nosso preconceito racial ou de nosso conceito de lei se provassem mais reais que a hipótese da transformação nacional…

TRAVESSURAS E
ACUIDADE CRÍTICA

Nos anos de radicalização que foram dar no golpe de 1964, a melhor parte de minha geração de críticos flertou com o marxismo, que durante algum tempo pareceu a cara da realidade. Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Mário Chamie, José Guilherme Merquior, Silviano Santiago, Affonso Romano de Sant’Anna, Luiz Costa Lima, Alfredo Bosi, para lembrar os mais destacados, sem falar em Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho, cujo casamento com Marx foi de vida inteira.

Alguns desembarcaram no dia seguinte ao golpe, outros deram um tempo, outros continuaram. No começo dos anos 1990, Bosi publicou um livro de peso sobre a cultura brasileira, combinando inspirações católicas e marxistas. Merquior era ambivalente: ele gostava da análise estética à maneira frankfurtiana, para a qual era dotado, mas não da caracterização crítica ou negativa do mundo contemporâneo, que não convinha à sua política. Daí a verdadeira travessura teórica que perpetrou, ao publicar um livro abrangente sobre Benjamin, Adorno e Herbert Marcuse, em plena ditadura militar e sendo ele próprio diplomata de carreira: era um trabalho pioneiro no Brasil, com a particularidade – que embaralha tudo – de situar os frankfurtianos no campo do conservadorismo e da reação, por oposição a Martin Heidegger. Por seu lado, a idolatria concretista do progresso técnico era um eco muito unilateral do papel revolucionário que o marxismo atribui ao desenvolvimento das forças produtivas. E assim por diante.

Seja como for, os desdobramentos especificamente marxistas na maioria destes trabalhos não foram longe e não lhes determinam o valor. Aliás, é preciso reconhecer que a presença grande e influente do marxismo no Brasil, na universidade e fora dela, propiciada pela crise de 1964, produziu uma avalanche de artigos e teses, mas não deixou muitos resultados convincentes.

A verdade, incômoda para os sectários, é que a simpatia socialista e marxista, e mesmo a coragem cívica, não garantem a acuidade crítica. Se garantissem, seria tudo mais simples e o mundo se dividiria entre os bons e os maus. A dificuldade já se fizera notar muito antes de 1964. É interessante observar a esse respeito a banalidade do trabalho literário de Astrojildo Pereira e Nelson Werneck Sodré, comunistas devotados e valentes, mas sempre aquém da percepção crítica de seus contemporâneos mais avançados.

ANTONIO CANDIDO

Quanto às ideias, o marxismo deixa de ser episódico no país quando transforma o campo das discussões, seja pela crítica das anteriores, seja pelos resultados novos. Ou, mais concretamente, ele só toma pé de fato quando especifica e problematiza a feição local do antagonismo de classe, e a inscreve no movimento geral do mundo contemporâneo, especialmente do capital – o que representa um avanço objetivo. Desse ângulo foi Caio Prado quem o tornou parte indescartável da cultura nacional. Quanto à crítica literária, esse trabalho foi obra de Antonio Candido.

Talvez para fugir ao doutrinarismo, ou para não se colocar como bandeira, Candido gosta de fazer piada sobre a relatividade de seu marxismo, que nos momentos de repressão política subiria a 90%, mas nos momentos calmos baixaria a 50%, permanecendo constante o socialismo. O fato é que os seus trabalhos de ponta são materialistas, históricos e dialéticos, sem recurso à fraseologia marxista. Isso vale em especial para Dialética da malandragem (1970) e De cortiço a cortiço (1974), e, de outro mo­do, para Formação da literatura brasileira (1959). Com eles, embora pouco reconhecido como tal, um tipo discreto de marxismo tomou a dianteira em nossa crítica. Como o avanço não vinha ligado à vanguarda artística do momento, à vanguarda política ou à voga internacional, que são os amplificadores potentes, o seu reconhecimento se deu entre os interessados na qualidade dos argumentos e da interpretação crítica. A ativação de seus acertos ainda está em curso.

Imagino que Antonio Candido não considerasse a Formação um livro marxista nem antimarxista, mas escrito na presença do marxismo vulgar e do formalismo a-histórico, e também da historiografia positivista, aos quais contrapôs uma resposta superadora, plasmada pela experiência do país.

Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750-1880 (o título completo é importante) não é uma história literária convencional. A qualidade da scholarship e das leituras críticas logo se impôs. Mas a novidade da concepção, que se traduz num recorte histórico imprevisto, e na dualidade meditada dos juízos de valor, ora estéticos, ora em função do processo formativo brasileiro, deixou desarmados a todos, admiradores e adversários. A formação progressiva, ainda que rápida e logo deliberada de um sistema literário nacional, dotado de encadeamento próprio, por oposição ao colonial, voltado para a metrópole – pois é disso que se trata –, tem analogia com o papel descolonizador que coube, noutro plano, à formação de um mercado interno. Por esse lado, o livro é parente das obras de Caio Prado e de Celso Furtado, este último um contemporâneo exato. Como eles, Candido rastreou e problematizou um processo real, uma totalidade até então despercebida, com referência à qual os dados isolados adquirem sentido.

A novidade, dizendo de modo geral, estava na visão precisa e analítica da formação da nacionalidade e do que seja uma literatura nacional – coisas que julgávamos conhecer –, tomadas como formas específicas de organização material do espírito, com requisitos de acumulação, abrangência e encadeamento interno, bem como de relacionamento externo, e não como pontos de honra. O adjetivo “nacional” mudava de acepção, separava-se de sua vibração ufanista e designava um modo peculiar e novo de organizar a cultura e polarizar a imaginação, com vantagens e estreitezas próprias. Tanto a “formação” como a “literatura brasileira” do título estão em sentido mais refletido e menos identitário que o corrente. Não se trata de repertoriar as nossas obras e glórias a partir do descobrimento do país ou do passado imemorial, mas de expor um processo estruturado, delimitado no tempo (os “momentos decisivos” do subtítulo), com feições, tarefas, dificuldades e ilusões particulares, estéticas e extraestéticas, em condições históricas também particulares. O próprio assunto – os mesmos “momentos decisivos” da formação – liga-se à descontinuidade intrínseca e cataclísmica das culturas de origem colonial, e não faria tanto sentido nas literaturas europeias que nos servem de modelo, mais orgânicas e contínuas. Aliás, o prefácio do livro abre com uma frase que recusa as esquematizações universalistas: “Cada literatura requer tratamento peculiar, em virtude dos seus problemas específicos ou da relação que mantém com outras.”

Caio Prado, sublinhando as implicações críticas de sua ideia sobre “o sentido da colonização” – o seu passo à frente –, observa que ela contraria os cacoetes mentais presos à cronologia e à vizinhança próxima: a colonização não decorre do descobrimento que a precede, como parece ao senso comum, com suas atribuições causais impensadas, mas da expansão do comércio europeu, que a explica e de que ela é um capítulo por assim dizer interno, apesar da distância aparentemente imensa. Para falar em jargão, a causalidade não é linear, mas estrutural. Algo parecido vale para a Formação, cujas grandes linhas refletem ganhos efetivos da compreensão, refutando ilusões caras ao nacionalismo, ao romantismo e ao marxismo vulgar. Para uma exposição de suas posições, em que o materialismo histórico não é um rótulo, mas uma atitude sóbria e esclarecedora, vale a pena ler a introdução à Iniciação à literatura brasileira, do próprio Candido, um pequeno livro que ainda não recebeu a atenção devida.

Há determinações materiais na Formação, mas não constam do repertório estabelecido do marxismo. O livro de fato historia o surgimento de uma continuidade literária nacional – o que é diferente de local –, em contraste com a ordem antiga, da colônia, além de historiar uma incorporação peculiar de blocos da literatura universal. O pivô materialista proposto pelo livro gravita em torno da Independência. Encarada sem mitos, como um processo longo e diversificado, esta começa muito antes do Sete de Setembro e se completa muito depois.

É claro que ela, por sua vez, tem condicionamentos econômicos e sociais. O seu impacto nas letras, entretanto, ao menos em primeira instância, não passa pelos esquemas marxistas familiares. No caso, a condicionante eficaz é a situação formativa ela própria, correlata do inevitável atraso da colônia em crise, depois ex-colônia e nação recente, que vai ditando tarefas e critérios aos escritores e críticos. Cabia aos homens europeizados e mais ou menos educados – uma categoria social, mas não uma classe – dotar o país novo dos equipamentos que lhe faltavam, que iam de instituições necessárias, como escolas superiores e museus, a filosofias atualizadas e gêneros literários na moda, o que constitui uma forma sui generis e muito real de engajamento patriótico e progressista: criar um país à altura. Embora sejam alheios ao léxico marxista, são agentes sociais, objetivos históricos e tipos de engajamento perfeitamente reais, cujo nexo material com a etapa da formação nacional salta aos olhos.

FORMAÇÕES DESIGUAIS
E COMBINADAS

Noutro plano, a ideia de formação permitiu analisar como surpreendentemente uno, apesar das discrepâncias radicais, o período cultural e literário que vai da crise do sistema colonial à constituição da nação, de 1750 a 1880. Trata-se de uma descoberta histórica, com consequências para a compreensão do Brasil e, com os ajustes devidos, da generalidade das descolonizações. Otília e Paulo Arantes procuraram ampliar a sua pertinência para a interpretação cultural do país, indicando movimentos análogos nos campos da arquitetura, da pintura, da filosofia e do teatro, sugerindo um vasto ritmo nacional de formações desiguais e combinadas. O interesse comparativo dessa concepção, no âmbito de uma visão geral da descolonização, é um capítulo ainda por abrir.

No essencial, o processo longo da Independência governa, a distância, o arcadismo e o romantismo, imprimindo-lhes certa unidade, a despeito do antagonismo estético e político. Esse recorte do objeto, que buscava apreender um desenvolvimento real, desdizia as esquematizações nacionalistas e tinha desdobramentos inesperados e anti-ideológicos.

O arcadismo e seus pastores, que do ângulo do patriotismo romântico eram a própria alienação imposta pela metrópole, passavam a desempenhar outro papel. Sob o signo das Luzes, a sociabilidade das academias não só formava um tecido intelectual na colônia, como tinha afinidades com a Razão e com aspirações de autogoverno, contribuindo para o que seria o sentimento da Independência. A própria convenção rústica, a negação à primeira vista das particularidades do lugar e da história, trocava de funcionamento. Num dos capítulos mais brilhantes do livro, sobre a poesia de Cláudio Manuel da Costa, Antonio Candido mostra como, sob a universalidade do padrão bucólico, emerge o amor bairrista da paisagem local. Num funcionamento peculiar e notável, a figura estilizada do pastor permite dramatizar a “dupla fidelidade” do intelectual brasileiro, em quem o momento histórico superpõe o apego à precariedade local, que é sua, e o cultivo da tradição ilustre e longínqua do Ocidente, que também é sua.

No conjunto, são achados críticos e históricos novos, cuja marca distintiva, sempre presente, mas nunca alardeada, é justamente o materialismo. Como indica a parte introdutória do livro, o que estava em debate ao tempo de sua feitura era a relação, ou a separação, entre o valor artístico e as condições materiais – sociais, psicológicas, biográficas – de sua produção. Dando nome aos bois, de um lado estava o positivismo-naturalismo dos condicionamentos externos, de que era próximo o marxismo vulgar; do outro, o New Criticism, com o seu acento na análise interna, na eficácia e na independência da forma.

A discussão permitiu a Candido rever as suas posições iniciais, diretamente ligadas ao debate social, e buscar um novo ponto de equilíbrio: a indicação de condições externas não pode substituir a análise formal, que entretanto não a deve excluir. Entre parêntesis, a conclusão mostra que àquela altura o seu materialismo não era um ponto de doutrina abstrato, mas uma posição alcançada, fincada na atualidade, pois havia incorporado diferenças cruciais, seja com o complexo positivista-naturalista-marxista da tradição nacional e internacional, seja com o formalismo anglo-saxônico, que apartava a qualidade formal e a craftsmanship das condições históricas de sua realização. A ênfase nova estava na análise formal, mas o espírito do conjunto era histórico, e no ponto de fuga estava a superação do impasse. Nos ensaios posteriores – a etapa de ponta e mais complexa de seu trabalho crítico –, Antonio Candido buscaria metódica e inventivamente a historicização da análise formal.

Ele próprio definiu o seu livro como “uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”. Paulo Arantes numa live chamou atenção para o interesse dessa formulação. Trata-se de uma caracterização de classe peculiar, ligada ao processo real, extremamente esclarecedora, embora aquém (ou além) da conceituação histórico-sociológica – que o autor, sociólogo de formação, preferiu não dar. Quem seriam esses brasileiros? A sua esfera, que é policlassista, vai além das classes dominantes ou dirigentes. Abarca também os patriotas mais ou menos instruídos e europeizantes que aspiram à criação de uma literatura nacional, tão gloriosa quanto as demais, camada esta que pode incluir gente muito modesta. Os iletrados e os escravizados, como era forçoso, estavam excluídos.

UM NOVO “SENTIMENTO
DO MUNDO”

À primeira vista, não há semelhanças entre os trabalhos de Antonio Candido e do seminário de Marx. Mas pensando melhor, há paralelos de fundo – preocupações comuns ligadas à situação intelectual do subdesenvolvimento, que na faculdade nos envolvia a todos, das humanidades às ciências exatas. Como sair da precariedade, do atraso, da irrelevância em que estávamos atolados? Era um pano de fundo difuso, que conferia urgência e alguma cumplicidade progressista ao conjunto da vida universitária, passando por cima de divisões partidárias. A resposta que certo marxismo da faculdade deu a este quadro estabeleceu um novo patamar.

Cada qual a seu modo e em seu campo, o seminário e Antonio Candido tentaram caminhos aparentados. Articularam âmbitos que não se costumavam aproximar, ou que se estudavam em separado. A peculiaridade social da ex-colônia, em especial o travejamento de classe, era ligada à inserção moderna do país na ordem internacional burguesa e capitalista, com a qual passava a formar um todo. O conjunto servia de substrato à análise estrutural inovadora. De maneira talvez inédita e contraintuitiva, os aspectos problemáticos da herança colonial, aqueles em que o Brasil discrepava do padrão hegemônico da nação burguesa, não eram vistos como resquício (ou não só). Trabalho escravo, trabalho semiforçado e relações de clientela agora formavam o complexo que sustentava e possibilitava a integração de nossa classe dominante à atualidade do mundo, de que fazia parte plena e subalterna, atualidade que era colocada em perspectiva por sua vez.

Ao contrário do que pareceria, já não se tratava de atraso versus adiantamento, passado versus presente, mas de coexistência funcional, em que nossas relações pré-burguesas de opressão e exploração tinham (e têm) papel substancioso. Este passo, que retomava a ideia de Caio Prado Júnior, fazia grande diferença. Pouco antes, Celso Furtado havia teorizado o subdesenvolvimento nessa mesma linha, como uma realidade que não tende a se dissolver, muito menos a se superar, mas a se reproduzir. Na fórmula feliz de Gunder Frank, que fez escola, tratava-se do desenvolvimento do subdesenvolvimento, da reposição do atraso em circunstâncias avançadas.

As consequências políticas, culturais e teóricas – sem esquecer as estéticas – dessa ordem de ideias são profundas. O obsoleto pode ter futuro pela frente. Repisando, as nossas relações de opressão e exploração de classe, que pareciam nos excluir do mundo moderno, eram justamente nosso vínculo ao progresso tal como ele é, e não como os países adiantados afirmam que ele seja. A inversão é contra-hegemônica e nada menos que sensacional. Em lugar de moradores de um remoto quintal do mundo, somos parte ativa, inconsciente ou revoltada, de sua reprodução em sentido forte. Trata-se de um novo “sentimento do mundo” – na fórmula de Drummond –, ainda por digerir.


[1] A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe foi criada em 1948 pela ONU para estimular a reflexão sobre as economias do continente e o planejamento dos países no pós-Segunda Guerra Mundial. O brasileiro Celso Furtado (1920-2004) foi um dos integrantes da Cepal, logo nos primeiros anos de atividade da comissão. (Todas as notas são da Redação da piauí.)

[2] A teoria da dependência postula que existe uma relação de subordinação das economias “periféricas” (países, em geral ex-colônias, da América Latina, África e da Ásia de então) em relação às economias “centrais” (da Europa, em geral países colonizadores, dos Estados Unidos e do Japão). Para essa teoria, o estado de subordinação dos países “periféricos” é justamente o que impede a sua plena modernização capitalista, mas é preciso examinar a configuração social interna de cada nação, com seus antagonismos e alianças de classe, para ter clareza sobre a condição de dependência. Tal corrente se opõe à teoria do desenvolvimento, que defende que os países “periféricos” avançarão do ponto de vista capitalista desde que comecem a desenvolver seu sistema produtivo, com a industrialização, por exemplo.

[3] A Terceira Internacional foi uma organização criada em 1919 que alinhou a teoria e a prática dos partidos comunistas (e alguns socialistas) de diferentes países ao programa estabelecido pelos bolcheviques – que dois anos antes haviam tomado o poder na Rússia – para levar adiante a revolução proletária em todo o mundo. Em congressos realizados ao longo dos anos, as diretrizes estabelecidas em 1919 foram sofrendo alterações, as principais delas a partir da ascensão de Stálin, em 1922. A Terceira Internacional foi dissolvida em 1943.


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É crítico literário. Publicou, entre outros livros, Martinha versus Lucrécia (Companhia das Letras).