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Victor Moriyama piauí_208 25 Dez 2023
5 min de leitura
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É começo da noite quando chego ao bairro Bom Parto, em Maceió. Nas ruas vazias, com suas casas em ruínas, deparo apenas com gatos e calangos. Enquanto fotografo os locais em escombros, tenho a forte sensação de que algo me acompanha e me vigia. Peço proteção aos meus guias.
O Bom Parto é um dos bairros condenados na capital alagoana por causa das escavações da Braskem. Os outros são Flexal, Bebedouro, Mutange e Pinheiro. Bairros de classe média baixa, exceto o último, que abrigava famílias de maior renda. Nessas áreas, que correspondem a 20% de Maceió, quase 60 mil pessoas tiveram que desocupar suas casas.
As 35 minas de sal-gema da Braskem foram escavadas com cerca de 1 km de profundidade no período que vai da década de 1970 até 2019, quando os trabalhos foram interrompidos, depois dos primeiros afundamentos. Desde 2018, a catástrofe em Maceió vinha ocorrendo em câmera lenta, com o afundamento progressivo do solo. Nos últimos dias, o processo acelerou, chegando a 5 cm por hora em 30 de novembro. Um dia antes, a Prefeitura decretara estado de emergência na cidade, após o solo ceder quase 2 metros. No início da tarde de 10 de dezembro, a mina 18, sob o bairro Mutange, começou a desmoronar. A cidade permanece em estado de alerta.
Quando me aproximo da estreita Rua Dez, vejo algumas pessoas que ainda vivem no local. A ruela é uma espécie de fronteira. De um lado, ficam as casas que não foram incluídas em um mapeamento das áreas de risco feito em 2018. Do outro lado, fica a área em perigo, com suas casas abandonadas e em escombros, cobertas pelo mato. Ou seja, os que ficaram vivem agora à beira do precipício.
“Eu fico pensando: será que vou morrer hoje? Não durmo por causa do medo que tenho desse teto cair em cima de mim ou de o chão se abrir numa cratera”, diz Quitéria Nunes dos Santos, moradora da Rua Dez. “A gente fica perdida sem informação. Uma hora dizem que vão nos evacuar à meia-noite, outra hora dizem que pode abrir um buraco do tamanho do Maracanã.”
“A gente só mora aqui porque não tem meios de se mudar pra um lugar melhor”, afirma Gilson Valentin de Souza, enquanto mostra as rachaduras estruturais na sua casa. José Carlos da Silva, dono de um pequeno comércio no bairro, diz que precisa rebocar toda semana um canto da casa para ela não vir abaixo. Na casa de Antônio Alexandre de Souza, a prioridade também é o reboco. “O pouco dinheiro que entra usamos para rebocar as rachaduras.” Os moradores contam que o número de fendas nas paredes aumentou nos últimos meses.
A noite avança e eu me despeço dos moradores com o coração apertado. Como é possível viver com a expectativa de que uma cratera abruptamente se abra sob seus pés?
Passo a passo: rachadura em uma casa provocada pelo progressivo afundamento do solo no bairro Bom Parto
Ruínas em Bom Parto: nesse bairro e também em Flexal, Bebedouro, Mutange e Pinheiro quase 60 mil pessoas tiveram que desocupar suas casas, que agora estão em escombros
Casa de Pablo Henrique Barbosa: catador de materiais para reciclagem, ele abandonou o local onde vivia em Bom Parto e foi morar com um parente
Elisabethe Silva Alves dos Santos na casa de seu pai e vizinho: ele dorme na sala porque os demais cômodos estão cheios de rachaduras, que aumentaram nos últimos meses
Fronteira: Ronaldo Mariano permaneceu em Bom Parto porque o lado da rua onde fica sua casa não foi incluído na área de risco, embora se situe logo em frente da área evacuada, onde hoje não há mais nenhum morador
Em uma rua de Bom Parto: além dos riscos de desabamento, a população enfrenta a ameaça de enchentes, por estar localizada perto da Lagoa Mundaú
Casa de Antônio Alexandre de Souza: o aposentado assiste impotente a sua residência tombar na direção da Lagoa Mundaú
Maria do Carmo Batista: ela conta que acorda várias vezes à noite, preocupada com a possibilidade de sua casa desabar
Palafita: casa abandonada à beira da Lagoa Mundaú, cartão-postal de Maceió que hoje se tornou um dos cenários da tragédia
Passo a passo: rachadura em uma casa provocada pelo progressivo afundamento do solo no bairro Bom Parto
Ruínas em Bom Parto: nesse bairro e também em Flexal, Bebedouro, Mutange e Pinheiro quase 60 mil pessoas tiveram que desocupar suas casas, que agora estão em escombros
Casa de Pablo Henrique Barbosa: catador de materiais para reciclagem, ele abandonou o local onde vivia em Bom Parto e foi morar com um parente
Elisabethe Silva Alves dos Santos na casa de seu pai e vizinho: ele dorme na sala porque os demais cômodos estão cheios de rachaduras, que aumentaram nos últimos meses
Fronteira: Ronaldo Mariano permaneceu em Bom Parto porque o lado da rua onde fica sua casa não foi incluído na área de risco, embora se situe logo em frente da área evacuada, onde hoje não há mais nenhum morador
Em uma rua de Bom Parto: além dos riscos de desabamento, a população enfrenta a ameaça de enchentes, por estar localizada perto da Lagoa Mundaú
Casa de Antônio Alexandre de Souza: o aposentado assiste impotente a sua residência tombar na direção da Lagoa Mundaú
Maria do Carmo Batista: ela conta que acorda várias vezes à noite, preocupada com a possibilidade de sua casa desabar
Palafita: casa abandonada à beira da Lagoa Mundaú, cartão-postal de Maceió que hoje se tornou um dos cenários da tragédia