vultos do pesadelo
Roberto Simon Dez 2023 13h06
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A morte de Henry Kissinger aos 100 anos, no dia 29 de novembro, desatou uma avalanche de obituários mundo afora, reflexo de seu poder no cume da diplomacia americana, durante oito anos da Guerra Fria, e da influência de suas ideias, desde os anos 1950, sobre a ordem internacional. Mesmo morto, Kissinger continuou a suscitar reações extremadas. Panegíricos exaltaram a curiosidade intelectual do ex-professor de Harvard, que escreveu sobre tudo – do equilíbrio de poder na Europa pós-napoleônica ao impacto da inteligência artificial na política –, e de seus mais ousados lances diplomáticos, que transformaram o século XX. Kissinger foi o estadista da aproximação entre Washington e a China de Mao Tsé-tung, da política de distensão com Moscou, do fim da Guerra do Vietnã, da virada pró-Estados Unidos do Oriente Médio.
Mas o herói da realpolitik tinha outra metade, que a revista Rolling Stone decidiu pôr no título de seu obituário: “Henry Kissinger, criminoso de guerra amado pela classe dominante americana, finalmente morre.” À esquerda, sua morte foi lembrada com uma lista de apoio a golpes, guerras, massacres e outros horrores. O bombardeio secreto e indiscriminado ao Camboja, o apoio a paquistaneses que dizimavam a população civil do que é hoje Bangladesh, o aval à invasão indonésia do Timor-Leste, a decisão de protelar o fim dos combates no Vietnã a um custo astronômico de vidas, e mais. Nesse rol da vergonha, entraram também suas ações na América do Sul, sobretudo (mas não apenas) no Chile.
Hoje estão disponíveis milhares de documentos antes secretos, além de outros registros históricos e diversos bons livros, que detalham como Kissinger ajudou a semear o Cone Sul de ditaduras anticomunistas. Depois, o então secretário de Estado deu apoio ao império do terror e da tortura que brotou na região. No Chile, onde o socialista Salvador Allende foi eleito presidente em 1970, as ações de Kissinger alcançaram níveis mais extremados – incluindo o apoio, com armas e dinheiro, a uma tentativa fracassada de golpe antes da posse de Allende. Contudo, o diplomata mais poderoso do mundo de 1969 a 1976 também operou nesses dois estágios sequenciais, do golpismo ao beneplácito ao terror, diante das crises na Bolívia, Uruguai e Argentina (o Brasil, debaixo de uma ditadura desde 1964, era um capítulo à parte).
Ao mesmo tempo, a morte do centenário expôs a força de certa mitologia sobre Henry Kissinger na América Latina. Como todos os mitos, ela por vezes se desgruda dos fatos do passado, e transforma traços sinuosos da história em linhas retas da política. Por exemplo, o britânico The Guardian culpou parcialmente Kissinger pela infame Operação Condor das ditaduras sul-americanas, a multinacional do terror criada por ditaduras do Cone Sul para rastrear, prender, torturar e assassinar inimigos refugiados em países vizinhos. Antes, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, referência da esquerda do Partido Democrata, afirmara que ele havia “ajudado a liderar” a iniciativa. Não foi assim. A operação foi criada pelo Chile, Argentina e Uruguai, muito provavelmente sem o envolvimento direto dos Estados Unidos. E documentos da cia e do Departamento de Estado mostram como a diplomacia americana, sob Kissinger, atuou – ao lado do Brasil – para conter a Operação Condor, principalmente quando ficou claro que os chilenos, argentinos e uruguaios planejavam assassinatos na Europa. Kissinger tampouco foi o “arquiteto” do levante militar que se iniciou no dia 11 de setembro de 1973 e levou à queda do governo Allende, papel reservado aos próprios conspiradores chilenos – em vez de sujar as mãos no golpe, sua atuação havia sido no sentido de criar um clima de desordem que levasse os generais a dar o bote.
Visto da perspectiva brasileira, Kissinger também tem um aspecto particular. Talvez nenhum secretário de Estado da história contemporânea dos Estados Unidos tenha sido um defensor tão entusiasmado da ascensão do Brasil no mundo. “Somos os melhores amigos que o Brasil já teve [na Casa Branca]”, concluiu em 1971 o presidente Richard Nixon diante de seu assessor diplomático, numa conversa no Salão Oval. A questão, claro, era qual Brasil entusiasmava Kissinger e Nixon – o de Emílio Garrastazu Médici, no auge da ditadura. Ainda assim, dentro de sua visão de equilíbrio de poder, Kissinger entendia que a estabilidade internacional dependia de potências regionais fortes. Na América do Sul, o Brasil, por sua dimensão e história, era o candidato natural.
Enfim, Kissinger foi uma figura multifacetada – mesmo que essa complexidade não o exima da culpa por ajudar a levar ao poder e a sustentar regimes assassinos no Cone Sul. Transcender a mitologia pode nos fazer entender melhor esse personagem intricado e a tragédia política da América do Sul nos anos 1970, cujos ecos ressoam até hoje.
Um bom ponto de partida para esse exercício é um retornar a um episódio revelador da visão de Kissinger sobre a América do Sul, assim como do Zeitgeist da região à época.
Assembleias Gerais da Organização dos Estados Americanos (OEA) são hoje rituais inconspícuos da burocracia diplomática, mas a de junho de 1976, realizada em Santiago do Chile, tinha um convidado especial – Kissinger – e a política latino-americana fervilhava. País anfitrião, o Chile estava numa saia justa. Desde o golpe de Augusto Pinochet, quase três anos antes, o regime chileno mergulhara em um isolamento internacional profundo, e a reunião, que atrairia autoridades de quase todos os países das Américas, poderia oferecer um respiro. No entanto, na pauta da assembleia entrou um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre as violações no Chile. Em 191 páginas, o documento esmiuçava abusos diversos contra opositores e concluía que “a prática de detenções arbitrárias, perseguições e torturas” continuava “até hoje”.
O tema dos direitos humanos não enredava o Chile apenas. Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia também tinham suas ditaduras, e a tortura como política de Estado. E três meses antes do encontro da OEA, militares argentinos haviam golpeado o governo de Isabel Perón e instaurado um regime militar em Buenos Aires. As notícias que saíam da Argentina eram sobre execuções sumárias, tortura, repressão a toda forma de dissenso – uma adaptação de um roteiro já encenado nos demais países do Cone Sul. Agora, do Pando boliviano à Terra do Fogo, passando pelo Brasil, toda a região estava debaixo de ditaduras militares anticomunistas. E Kissinger estava a caminho de Santiago.
Havia sete anos e meio que o ex-acadêmico, um judeu nascido na Bavária que falava um inglês monotônico e em staccato por causa do renitente sotaque alemão, era a pessoa mais poderosa nas relações dos Estados Unidos com o mundo, atrás apenas do presidente. Primeiro servira a Nixon como conselheiro de Segurança Nacional, acumulando o cargo de secretário de Estado a partir de 1973; depois, com a renúncia do presidente em 1974, Gerald Ford o manteve no epicentro da política externa americana – a qual passava por um momento delicado quando Kissinger embarcou para Santiago.
As investigações no Congresso americano sobre as ações clandestinas da CIA no mundo, incluindo na América Latina, avançavam e transbordavam provas sobre a intervenção do governo Nixon no Chile. O escândalo de Watergate, que derrubara o presidente e chocara a opinião pública, era uma nuvem permanente sobre o governo Ford. Em cinco meses, o novo presidente tentaria a reeleição contra Jimmy Carter, que acabara de vencer as primárias democratas com a promessa de pôr os direitos humanos no centro da política externa americana. Kissinger seria a autoridade americana de mais alto escalão a viajar ao território chileno desde o golpe de 1973 e, naquelas condições em Washington, o Departamento de Estado concluiu que não havia escapatória: contra sua vontade, o secretário seria obrigado a criticar, publicamente, a prática de tortura e demais arbítrios.
Kissinger e Nixon haviam trabalhado assiduamente para destruir a democracia no Chile, em uma intervenção que teve duas fases. A primeira, nas semanas após a vitória nas urnas de Salvador Allende, incluiu uma operação clandestina para impedir a posse do socialista que prometia uma revolução democrática. À época, a maior parte dos burocratas do Departamento de Estado e da cia ou não acreditavam que o Chile era uma ameaça estratégica aos Estados Unidos ou duvidavam que um golpe era possível. Acabaram atropelados. Sob ordens diretas de Kissinger e Nixon, em outubro de 1970, a CIA forneceu armas e dinheiro a um grupo de militares chilenos de extrema direita que planejava sequestrar o general René Schneider, comandante-chefe do Exército chileno, calculando que a desordem levaria a uma intervenção militar. O plano saiu dos trilhos, o general foi assassinado in loco e um adido militar dos Estados Unidos teve de atirar as armas usadas no mar, na esperança de que a profundidade do Oceano Pacífico engolisse as provas da conspiração. A reação à morte de Schneider consolidou o apoio a Allende, que tomou posse logo depois.
A partir de então, o governo Nixon manteve-se determinado a minar Allende, mas modulou sua estratégia. Em vez de apoiar diretamente um golpe clássico, o foco de Washington foi criar um ambiente de desordem e polarização que levasse os generais chilenos a agir. Os Estados Unidos bancaram jornais e grupos de oposição que trabalhavam por um golpe, ajudaram a empurrar a economia chilena ladeira abaixo (juntamente com decisões desastrosas de Allende), isolaram internacionalmente o Chile. A documentação disponível não indica que os Estados Unidos planejaram ou deram apoio material à tomada do poder em setembro de 1973 – não precisavam fazê-lo.
Três anos depois, Kissinger deveria criticar, em solo chileno, os desmandos praticados pelo regime que ajudara a pôr de pé. Sua estratégia para fazê-lo foi o cinismo. Do púlpito da cúpula da OEA, citou nominalmente o Chile para recriminar “a tortura oficialmente tolerada, prisões em massa ou assassinatos”; na prática, a crítica atingia todas as ditaduras do Cone Sul, que torturavam, prendiam em massa e assassinavam. Antes, porém, Kissinger atuou para explicar, privadamente, a Pinochet e outros representantes dos regimes da região que sua fala era estritamente motivada por questões domésticas dos Estados Unidos, e não deveria ser levada a sério. “Nos Estados Unidos, como o senhor sabe, somos simpáticos ao que o senhor está tentando fazer aqui”, disse o secretário de Estado ao ditador chileno, antes do discurso na OEA, o qual, ressaltou, não era “direcionado” contra Santiago. “Desejamos ajudá-lo, não prejudicar. […] O senhor prestou um grande serviço ao Ocidente com a deposição de Allende.” Pinochet reclamou ao chanceler do Brasil, Antônio Azeredo da Silveira, da “incompreensão” dos americanos, mas entendeu que a fala pública do secretário de Estado não deveria ser levada a sério. Kissinger havia pedido a Silveira que interviesse com seus pares sul-americanos para evitar a “discórdia” diante de seu discurso, enfatizando que se tratava de uma demanda doméstica dos Estados Unidos.
Em Santiago, Kissinger também se reuniu com o almirante argentino César Guzzetti, o chanceler da ditadura recém-instaurada. A Guzzetti, ofereceu um conselho de como evitar o isolamento que o Chile vivia: “Se há coisas que devem ser feitas, vocês devem fazê-las rapidamente. Mas devem retornar a procedimentos normais o mais rápido possível.” As coisas a serem feitas, na Argentina, viraram presos políticos atirados ao mar de helicópteros e bebês sequestrados – dezenas de milhares de mortos. Dois anos depois, já fora do poder, Kissinger foi à Argentina assistir à Copa do Mundo e se encontrou com o general-presidente Jorge Rafael Videla, a quem elogiou os esforços na “luta contra o terrorismo”. A fala foi tão laudatória que o embaixador dos Estados Unidos em Buenos Aires, Raúl Hector Castro, preocupou-se que ela seria usada pelos militares argentinos para “justificar um endurecimento de sua posição sobre direitos humanos”.
Os bastidores do encontro de 1976, em Santiago, oferecem a visão sem filtros de Kissinger sobre a América do Sul. Direitos humanos importavam na medida em que isolavam ditaduras amigas na região ou ameaçavam arrancar votos em casa. Democracias e regimes civis sul-americanos eram inerentemente instáveis e vulneráveis à subversão – portanto, no contexto da Guerra Fria, indesejáveis. Washington só poderia confiar realmente em ditaduras anticomunistas comandadas por militares, as quais Kissinger viu nascer (e apoiou) no Uruguai, Bolívia, Chile e Argentina, enquanto estava no poder. Sem a sofisticação de seu assessor diplomático, Nixon explicava em encontros privados: “Os únicos amigos que temos [na América Latina] são os ditadores. E depois, talvez, talvez, talvez algum outro.”
Nesse quadro, o Brasil ocupava um lugar singular. A chegada ao poder de Kissinger e Nixon coincidiu com o início do governo Médici e o boom econômico do “milagre brasileiro”. O presidente da linha dura foi recebido em Washington, no fim de 1971, como um aliado estratégico. “Gostaria que ele estivesse governando o continente todo”, afirmou Nixon a um assessor, depois do encontro com Médici. O presidente americano, Kissinger e os visitantes brasileiros conversaram sobre a situação no Chile (dois anos antes do golpe, Médici disse que o Brasil apoiava planos para derrubar Allende e previu que um golpe era questão de tempo), mas também na Bolívia, Uruguai e outros cantos. No jantar de gala em homenagem ao chefe de Estado brasileiro, Nixon ergueu sua taça de vinho branco e brindou: “Para onde for o Brasil, irá a América Latina.” Havia algo de profético naquelas palavras. Nos anos seguintes, o Cone Sul inteiro seguiria o modelo brasileiro e estaria debaixo de ditaduras militares, fincadas no campo do “Ocidente”.
Kissinger viu a transição de poder em Brasília dar lugar ao general Ernesto Geisel e seu plano de “abertura lenta, gradual e segura”. Cinco meses antes de ir a Santiago para o encontro da OEA, o secretário de Estado havia se reunido no Palácio do Planalto com Geisel e, depois, com o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil da Presidência, cuja personalidade lhe parecia a de “um professor de matemática do colegial”. Golbery explicou detalhes do plano de descompressão do regime, que incluiria a redução de medidas ditatoriais e da repressão, ao que Kissinger lhe garantiu: “Vocês não terão pressão dos Estados Unidos [para conduzir a abertura].” O secretário de Estado, porém, morderia a língua – não por vontade própria, mas porque Carter derrotaria Ford ainda naquele ano e, sob o novo governo, Washington colocaria o tema dos direitos humanos no topo da agenda com o Brasil, ao lado do programa nuclear brasileiro.
A história de Kissinger com o Brasil, ao longo de seus oito anos na Casa Branca, também expõe duas arestas que não permitem encaixá-lo na mitologia criada sobre ele. A primeira tem a ver com o superdimensionamento do poder de Washington sobre a ditadura brasileira e outros atores sul-americanos. Sobretudo à esquerda, criou-se a narrativa de que o Brasil teria atuado contra Allende no Chile, mas também contra esquerdistas na Bolívia e no Uruguai, a mando do governo Nixon, ou que todas as ações das ditaduras na região, como a Operação Condor, eram na prática controladas por Washington – a caricatura da marionete dos generais “gorilas” sul-americanos manipulados pelo Tio Sam. No entanto, a ampla evidência documental mostra que a ditadura brasileira atuou por motivação própria, de acordo com o que considerava seus interesses nacionais. O mesmo é verdade sobre as iniciativas de suas congêneres na região. Sobre as intervenções brasileiras em países vizinhos, não há evidência de que houve uma operação conjunta entre americanos e brasileiros contra Allende ou outros líderes esquerdistas. Os dois países compartilhavam objetivos estratégicos e colaboravam pontualmente, mas não de modo organizado, muito menos hierárquico.
A segunda aresta foi explorada por Matias Spektor no livro Kissinger e o Brasil. Ao longo de décadas, parte da historiografia brasileira sobre as relações do país com os Estados Unidos partia do entendimento de que Washington continuamente trabalhou para restringir a projeção regional e internacional do Brasil. Kissinger e o governo Nixon, que apostavam na ascensão do Brasil como um poder estabilizador na América do Sul durante a Guerra Fria, furam essa hipótese. A discussão, assim, passa a ser feita em outros termos: a oposição americana ao aumento regional e global da influência brasileira não é inexorável, mas dependente dos arranjos de poder em Washington e em Brasília.
Kissinger expõe, ainda, o profundo desequilíbrio da relação entre os Estados Unidos e a América do Sul. À exceção do Chile no momento da eleição de Allende, a região não figurava entre suas prioridades. Seu foco foi a política entre grandes potências, sobretudo União Soviética e China, e suas manifestações no Oriente Médio e Ásia, além dos esforços de guerra e paz no Vietnã. Mas Kissinger transformou a América do Sul nos anos 1970. Seu apoio a golpes e sua política do cinismo ainda permeiam o imaginário de sul-americanos em relação aos Estados Unidos. Entre verdades e exageros, o mito de Kissinger viverá muito mais que o homem centenário que morreu em novembro.