despedida
Samária Andrade Dez 2023 14h55
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Na comunidade quilombola Saco-Curtume, em São João do Piauí, a cerca de 450 km de Teresina, os moradores estavam erguendo uma área de lazer, com um bar e duas piscinas de pedra. Um dia, alguém notou que uma das paredes parecia torta. Resolveram então perguntar a Nêgo Bispo, que financiava a obra, se deviam refazer a parede. “Para quê?”, ele respondeu. “Por que tudo tem que ser linear? Isso aqui é o saber orgânico.”
Quem contou o episódio foi Joana Maria de Oliveira, filha de Nêgo Bispo, durante o velório do ativista, pensador e escritor quilombola. Naquele dia 4 de dezembro, segunda-feira, histórias como essa circulavam entre parentes, vizinhos e cerca de duzentas pessoas que haviam acorrido a Saco-Curtume para se despedir desse homem de grande influência no movimento negro e nos movimentos sociais em geral.
O velório acontecia na sala da casa da família de Nêgo Bispo, uma moradia simples, de piso de terra firme. No meio da sala, estava o caixão. Sobre o corpo negro e franzino do ativista haviam colocado o bonito chapéu que ele costumava usar, com copa na forma de cone, aba larga e um reluzente trançado de palha.
Sentada ali perto estava Edileusa de Oliveira, sua companheira, que recebia as condolências de pessoas do quilombo, de regiões vizinhas e de Teresina, que viajaram cerca de sete horas para estar ali. Havia gente de vários movimentos sociais, quilombolas, sindicalistas, professoras, artistas, políticos da região. Apenas duas coroas de flores haviam sido entregues (uma terceira, em nome do governador do Piauí, Rafael Fonteles, do PT, chegou quando a cerimônia já tinha acabado).
Na hora do almoço, os presentes foram convidados a se servirem na cozinha de meia-parede colada à sala. Em panelas grandes, havia arroz, carneiro cozido, galinha, macarrão e farinha. Cada um fazia seu prato e depois lavava a própria louça.
No meio da tarde, Maria Lúcia Oliveira, amiga de Nêgo Bispo e líder da comunidade ribeirinha Boa Esperança, em Teresina, conduziu uma espécie de ritual. Em volta do caixão, os presentes cantaram, tocaram tambor e pandeiro, e repetiram palavras relacionadas ao legado do ativista: compartilhamento, coragem, confluência, continuidade e saber orgânico, que ele contrapunha ao saber sintético. O saber orgânico é aquele que, a partir dos conhecimentos ancestrais dos povos “afro-pindorâmicos” (negros e indígenas), busca alcançar um ser integral. O saber sintético, típico das ambições dos colonizadores, é focado apenas no ter.
Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, morreu aos 63 anos, vítima de duas paradas cardiorrespiratórias, no dia 3 de dezembro. Era natural de Francinópolis, também no Piauí, e foi a primeira pessoa de sua família a ser alfabetizada e concluir o ensino fundamental. Trabalhou na lavoura, participou do movimento sindical e ligou-se ao PT. Foi diretor da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-PI). No fim dos anos 1990, desligou-se da federação, desfiliou-se do partido e disse à família: “Eu vou pro quilombo, quem quiser ir comigo, venha.” Ele considerava as cidades brutais e avessas à natureza e à vida comunitária. “Meu pai largou tudo e veio trabalhar na roça”, conta Joana Oliveira. “Ele só queria ter qualquer coisa quando todo mundo da comunidade também tivesse.”
Nêgo Bispo era capaz de atitudes que irritavam alguns, mas davam orgulho à Saco-Curtume, onde vivem cerca de setenta famílias. Certa vez, foi receber uma homenagem do governo do Piauí e, ao ser chamado ao microfone, disse: “Quando todos os meus amigos forem receber uma placa dessa, eu volto pra receber a minha.” E deixou lá a placa em sua homenagem.
Sua atuação acontecia longe dos partidos e instituições tradicionais. Preferia a Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Piauí e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, entidades que ajudou a criar. Em paralelo, ele aprofundava seus estudos sobre a vida quilombola e ia construindo sua reflexão sobre os povos colonizados e escravizados.
Adotou uma fala cada vez mais radical – no sentido de ir à raiz das questões. Dizia que era preciso ser contracolonial para resistir à expropriação e ao etnocídio. Também afirmava que havia muito que aprender com os bichos selvagens para não ser domesticado. E propunha ao humano a união com as plantas, os animais e a Terra, em um modo de confluência e não de exploração.
Suas ideias chamaram a atenção da academia. Nêgo Bispo tornou-se professor convidado do Encontro de Saberes, projeto iniciado na Universidade de Brasília (UnB), que incluiu mestres dos povos tradicionais como docentes no ensino superior. Em 2015, lançou pela Editora UnB o livro Colonização, quilombos: modos e significações.
Universidades de todo o país começaram a chamá-lo para palestras, a princípio sem pagar por elas. Mas isso mudou. Em entrevista à revista Revestrés, em 2021, ele afirmou: “Agora finquei o pé e só não cobro quando são estudantes que me chamam. Os professores não dão uma diária na minha roça e querem que eu dê uma diária na sala de aula deles! Se eu não tenho memória de escravidão física, por que vou compor uma memória de escravidão intelectual?” E começou a cobrar pelas conferências – cerca de 4 mil reais, mais passagens e hospedagem. O número de convites só aumentou.
Em 2023, ele lançou pela editora Ubu o livro A terra dá, a terra quer, em que faz uma contraposição entre o modo de vida quilombola e o da sociedade colonialista. Inquieto, trabalhava em uma nova obra a ser publicada pela Companhia das Letras, que ficou inconclusa.
Nêgo Bispo passou mal no fim da tarde de 3 de dezembro, domingo, na mesma área de lazer que construía com a comunidade. Nos dias anteriores, ele vinha tendo desmaios e sofria em função da diabetes. Foi levado ao hospital de São João do Piauí, mas não resistiu.
No velório, quando a palavra foi aberta aos presentes, Norberto Máximo, um de seus netos, declamou um poema do avô que diz: Quando nós falamos tagarelando/ E escrevemos mal ortografado/Quando nós cantamos desafinando/E dançamos descompassado/Quando nós pintamos borrando/E desenhamos enviesado/Não é porque estamos errando/É porque não fomos colonizados.
Depois, o caixão foi levado pelo caminho de terra até a roça de Nêgo Bispo e enterrado embaixo de um pé de angico, como ele havia solicitado. Esse pedido pode ser interpretado como mais uma de suas mensagens: não há fim, mas plantio. Ou, como dizia: “Começo, meio e começo.”
De volta à casa, os presentes encontraram as panelas ainda no fogo, para quem quisesse se servir – agora havia também um pirão. A vida recomeçava.