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THE KENNEL CLUB HERALD

O diário mais ultraliberal da Argentina
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ENTREVISTAMOS CONAN, O NOVO PRESIDENTE DA ARGENTINA

Para alguns, ele está morto. Para outros, está apenas num plano elevado, de onde aconselha seu tutor Javier Milei, através de um médium, a comandar a Argentina da forma mais justa para a população de quatro patas. Conan, o primogênito que deu origem aos clones Milton, Murray, Robert e Lucas, é o cão do momento. Mais do que isso, ele é a mente por trás de cada decisão na Presidência da Argentina. E agora, late com exclusividade, através de uma entrevista psicografada, para este The Kennel Club Herald.

HERALD – Presidente Conan, bom dia. O que significa, para a espécie canina, a responsabilidade de comandar um país com 46 milhões de pessoas?

CONAN – Estamos atravessando um importante marco na política argentina, mas finalmente podemos responder à pergunta que nos assombra há décadas: cadê a minha bolinha?

HERALD – Foi o senhor que recomendou cortar os ministérios pela metade?

CONAN – A oposição diz que eu ordenei os cortes como retaliação por outros cortes – aqueles que os humanos fazem quando nos castram. E é verdade. Você não sabe o que é ver um rabo abanando e não poder fazer nada. Ver dois vira-latas sujos copulando despudoradamente, no meio da rua, enquanto você é obrigado a passar a tarde de domingo no sofá, com seu tutor, assistindo a uma série sobre Margaret Thatcher. Quem com bisturi fere com bisturi será ferido.

HERALD – Mas e o peso? Precisava ser tão desvalorizado?

CONAN – Sabe o que é desvalorização? É você ser considerado o melhor amigo do homem, mas a humanidade só postar vídeos de gatos nas redes sociais.

HERALD – O senhor deu alguma dica especial a Milei?

CONAN – Sim. Nunca assinar um acordo bilateral sem antes cheirar o rabo da pessoa do outro lado.


Sobe e desce das commodities:

Royal Canin Premium: + 17,2%
Dog Chow: – 30,6%
Farinata: + 43,8%
Bolinha: + 7,6%
Pobres: – 87,2%
Rivotril: + 33,3%
Pet-vent Senior: + 237,8%
Ricardo Darín: – 759,524363893%


EDITORIAL
“¡Viva las cuatro patas, carajo!”

Sim, os tempos de vacas magras acabaram – e deram lugar ao das cachorras gordas! Chega de Cristina Kirchner, Mauricio Macri e Alberto Fernández, que jamais souberam representar nossa classe. Abaixo a memória de Néstor, Menem, e mesmo de Evita. O Perronismo é o novo Peronismo. Inicia-se aqui o reinado de Milton, Murray, Robert e Lucas – os Chicago Dogs. Novos representantes para uma era de novos valores. Afinal, o que vale mais? Um peso, um dólar, ou uma gordurinha de bife ancho achada na calçada? O que é mais grave? O fantasma da inflação ou a falta de uma política de parCão? Para que investimento em saneamento básico se você pode levantar a patinha e mijar em qualquer hidrante na calçada? Para que os bilhões em educação se basta aprender a sentar, deitar, rolar e dar a pata? O que é um corte de gastos para as raças que já tiveram orelhas e rabos cortados? O povo não terá pão? Que comam Biscroques!


Make Argentina dolarizada again

Ele está de volta. Após um longo período cavando buracos para esconder documentos da presidência americana, Donald Trump não precisa mais se entocar em sua casinha de cachorro em Mar-a-Lago. Mesmo condenado por abuso sexual e respondendo a pelo menos 78 processos criminais, o cão da raça bully americano é franco favorito nas primárias do partido Republicano para retornar à Casa Branca. Liberal como Milei, nepotista como Milei e descabelado como Milei, ele deu uma entrevista a este The Kennel Club Herald sobre a eleição de Javier Milei.

HERALD – Quais são suas impressões sobre Milei?

TRUMP – Miley Cyrus? Gosto. É loira.

HERALD – Não: Javier Milei, presidente da Argentina.

TRUMP – Sorry, no hablo mexican. Build the wall.

HERALD – Não, Argentina! Na América do Sul!

TRUMP – Ah, gosto do sul dos Estados Unidos da América. Mississippi. Alabama. Um passado bonito. A huge democracy. A Miley Cyrus vem de lá?


ECONOMIA
A pata invisível do mercado é azul e branca

Luludwig von Mises

Chega de mimimi (que na Argentina se pronuncia mimíme, com acento no segundo i). É preciso privatizar. E taxar. Nesta semana, em um gathering que promovo com investidores da bolsa no parCão do Clube Paulistano, percebi a empolgação dos players com o futuro que se aproxima na nação vizinha. Buenos Aires é a nova Dubai.

Milei, o humano tutelado por Conan, tem o desafio de levar os hermanos de um quadro de déficit para um de superávit. Da inflação galopante para a estabilidade. Como fazer isso? Taxando os super-ricos, qual sugere a esquerda, ou os inofensivos sites de bet?

Não!

A solução está em criar todo um mercado de apostas baseado na livre circulação de pets. Pet365! Petano! Petfair! Sportingpet! Sites onde você pode apostar em cada detalhe do passeio matinal do seu cachorro. Thor defecou na porta do síndico? É pet! Fifi, a chihua­hua, tentou atacar seu rottweiler? É pet! Frida, a border collie da vizinha comunista, passou mal depois de beber kombucha? É dinheiro na conta! É pet!

Mas claro, nem só de apostas vive um Estado ultraliberal. É preciso investir em commodities. Nas eleições, Milei aventou comercializar órgãos humanos. É pouco. Sonho com um mundo em que os humanos venderão os próprios filhotes, a exemplo do que sempre fizeram com os cachorros. Pense que bonito, uma família de bichons frisée passeando na Recoleta, numa manhã de domingo, e voltando para casa acompanhados de um filhote humano recém-comprado, a quem eles vão chamar de Totó. Ou de Enzo. Aliás, a Unicef diz que as fêmeas humanas parem 140 milhões de filhotes a cada ano. Se cada parto for taxado em 100 dólares, já teríamos aí 14 bilhões de dólares para investir em coleiras zee-dog para todos os cães.

É preciso investir também nos cortes de despesas inúteis. Por exemplo: vacina antirrábica. Será que todo cachorro precisa? E, mais importante: será que todo cachorro quer? E os cães antivax? “Ah, Lulu, mas isso pode gerar um surto de raiva na Argentina…”, diriam os já raivosos kirchneristas. Ok, mas o que é mais custoso para o Estado? Milhões de cachorros vacinados ou algumas centenas de humanos mordidos, e eventualmente mortos? É a economia, estúpido!

E, óbvio, uma sociedade ideal é uma sociedade sem carrocinha. Com a ausência do enforcador do Estado, a liberdade reina nas ruas. Imagine: milhares de mastiffs ingleses, buldogues franceses e weimaraners alemães caminhando tranquilamente por la calle Florida, devidamente repaginada com hidrantes vermelhos, by Coca-Cola. É preciso dar um nó na coleira do kirchnerismo, esse tutor desalmado que por muito tempo fez uma nação de pedigree europeu se sentir uma mera vira-lata. No hay plata! Pero hay pata!


Um dia de cão na capital argentina

A eleição de Javier Milei está para a direita brasileira como o cheiro de frango de padaria está para os cachorros: é algo hipnótico e sublime. Atraída pelas migalhas de sobrecoxas caídas da mesa do ultraliberalismo argentino, uma matilha de políticos saiu de Brasília com destino a Buenos Aires. A viagem prometia ser um sucesso, mas nem tudo que reluz é ouro saudita na Primeira Excurcão dos Liberais Brasileiros.

“Cada vez mais o argentino é um ser humano como nós”, explicou animadamente o pinscher Capitão, líder e macho zeta do grupo. Ao chegar à região central de Buenos Aires, o grupo fez uma breve parada em frente ao obelisco da avenida 9 de julho. Enquanto alguns faziam pipi no monumento, Capitão foi interpelado por um grupo de argentinos que o chamava de “boludo brasileño”. Ao perceber o clima de tensão que descendeu sobre a matilha, o líder tratou de acalmá-los: “Isso daí é porque eu tenho histórico de atleta, tá ok? Eu pegava bolinha no exército, eles devem ter ouvido falar disso daí e me reconheceram.”

Os impropérios só cessaram quando Capitão explicou à turba que ele e os argentinos tinham algo em comum: o ranço com o povo brasileiro (no caso do Capitão, um ranço específico com 60.345.999 brasileiros). Algumas risadas e lambidas depois, o grupo de liberais foi liberado e seguiu para a Casa Rosada.

Na chegada à cerimônia de posse de Milei, a matilha foi novamente surpreendida: cachorros com coleiras azuis e brancas eram admitidos em uma área nobre, com ração premium, ao passo em que os brasileiros, com suas coleiras na cor verde-­amarelo-patriota, foram relegados a um canil que servia de depósito para os móveis retirados do Banco Central argentino. “É uma patifaria isso! Eles lá comendo osso de costela e a gente aqui com Eukanuba!! Eukanuba!! E sabor legumes!!”

Irradiando frustração, Capitão partiu para o tudo ou nada, tentando uma jogada midiática. Em um ímpeto de coragem, o líder brasileiro tentou tirar uma foto com Milton, o cachorro do Kennel Club de Chicago – que, segundo Milei, é uma reencarnação do economista americano Milton Friedman – mas foi barrado por seguranças corpulentos, peludos e cheios de baba. “Esses seguranças são daquela raça de São Bernardo, é tudo sindicalista e comunista!”

Ao ser defenestrado, Capitão se viu sozinho. Seus correligionários dividiram um uber pet e bateram em retirada. Desde então, o pinscher das Agulhas Negras está desaparecido. Estima-se que ele esteja em algum lugar no eixo Santa Catarina-Orlando.


PONTO E CONTRAPONTO:
Malvinas ou Falkland? Como Milei se refere ao conjunto de ilhas?

FALKLAND

Milei é um neoliberal, que devota uma lealdade canina aos ensinamentos de Margaret Thatcher. Logo, por mais que seja argentino, há de ter a grandeza de se referir ao arquipélago como Falkland. Além do mais, economista astuto, saberá das vantagens de ter, como vizinho, uma ilha cuja economia gira em pounds.

Espero que Milei não siga os instintos que levaram seus antecessores a uma guerra falida. Talvez Conan possa inclusive encontrar Thatcher no além, e sussurrar pensamentos da Dama de Ferro para seu discípulo. Os argentinos não precisam salgar ainda mais o Atlântico Sul com suas lágrimas.

Sir Whooferton, buldogue inglês, adido canino do Reino Unido na Argentina

MALVINAS

Milei é um patriota! Um louco apaixonado pela Argentina, que sabe que as Malvinas são nossas, como também são nossas as praias de Búzios e de Santa Catarina!

Na guerra das Malvinas a pátria enfrentou um reinado vil e ganancioso, a exemplo do que nós enfrentamos recentemente com o Kirchnerismo. Não entremos no mérito do resultado do conflito, mas sim no orgulho de defender uma bandeira. Hoje temos um governante que entende o significado do azul e branco na nossa bandeira. Aliás, nossa bandeira jamais será vermelha – coisa que os ingleses, contaminados pelo comunismo, já não podem dizer.

Selma Cecília Mendoza y Soza, poodle rosa do eixo Recoleta-Copacabana


CORREIO SENTIMENTAL
Coluna Complexo de vira-latas

Doutor Caramelo

O LEITOR PERGUNTA:
Prezado vira-lata Caramelo, gostaria de te pedir ajuda com um problema relacionado a um novo amigo. Sou um cachorro família, pai de quatro filhotes do sexo masculino, e recentemente vendi um relógio de ouro de forma a juntar dinheiro para fazer uma viagem internacional. Nessa viagem, eu conheceria um novo amigo, que pelo menos pela internet vinha me tratando de forma muito boa. Mas qual não foi minha surpresa ao chegar na casa desse suposto novo amigo – um argentino – e ser barrado na foto oficial da festa que ele organizou? E para a qual ele me convidou? Será que eu só sou bem-vindo nas redes sociais, vira-lata? Eu não posso ser mostrado em público? Ele tem vergonha de mim? Será que é porque eu não tomei a vacina antirrábica?

Capitão, mistura de pinscher com pastor-alemão do Terceiro Reich, Brasília

Prezado cachorro Capitão,

Muito comovente a sua história. Me remete à trágica história da cadela Lassie, que morreu no ostracismo, isolada num sítio em Atibaia, após anos de serviços prestados ao cinema americano. Ou da icônica Laika, alçada à condição de heroína pela propaganda soviética, para em seguida ser enviada ao espaço num foguete sem bilhete de volta. É assim que a humanidade vê os grandes cachorros? É assim que ela nos agradece por séculos e séculos de serviços afetivos prestados?

O que você precisa aprender, prezado Capitão, é que o cachorro pode ser o melhor amigo do homem, mas o homem não é o melhor amigo do cão. Você deve ter olhado para o amigo argentino com a devoção com que qualquer cachorro de bem olharia para uma figura de autoridade. Mas para o humano do lado de lá, você sempre será apenas mais um cachorro. Um cachorro simpático, que nem precisa comer carne, por se contentar com um pedaço de pão com leite condensado. Mas ainda assim, um cachorro.

Aliás, esses momentos são sempre bons, Capitão, para olhar para si mesmo. Será que você já teria tratado alguém dessa mesma forma como o amigo estrangeiro te tratou? Será que você não teria um ou mais amigos leais, devotados, que fizeram tudo por você, e com quem você evita sair em fotos? Cuidado, Capitão, não morda a mão que te alimenta, porque o cachorro que não se cuida acaba sendo pego pela carrocinha!


OUTRO LADO
Abaixo o cãopital!

Miau Tsé-Tung

Sim, aqui estou eu. Um gato. Escrevendo num repulsivo folhetim para cachorros, que me fez este convite apenas para dar a impressão de respeitar algum ideal de pluralidade. Cães, esses fantoches manipulados, escravos subservientes que se contentam com as migalhas e as bolinhas lançadas pelo FMI. Vergonha para qualquer ser que caminhe em quatro patas. Mas sim, aqui estou eu! Uma concessão ao elixir inebriante do capital? não: um movimento revolucionário, para mudar o sistema por dentro.

A eleição de Conan e seu lacaio Milei comprova o que é sabido desde que o mundo é mundo: o cachorro se submete a humilhações para manter o título de melhor amigo do homem. Rin-tin-tin: um burguês a serviço do Estado, que ajudava o homem branco a reprimir os indígenas. Lassie: uma aristocrata de nariz empinado que vivia tentando falar a língua do opressor humano. Scooby-Doo: um paramilitar que perseguia os que ousavam entrar no caminho de seus captores.

Mas agora esse rol de personalidades ganha um novo integrante nefasto: Conan, o cachorro morto que nos assombra. Não há limites para o espírito malfazejo de um mastiff inglês colonizador que pretende implantar um regime ultraliberal. Regime esse que favorece apenas sua alcateia de lobos em pelo de cachorro, enquanto ignora centrais sindicais, movimentos sociais e a sociedade felina organizada. Você viu algum discurso em que Milei mencionava os gatos? Coelhos? Iguanas? Papagaios? Hamsters? Porquinhos-da-índia? Será que apenas uma espécie de animal doméstico é merecedora de cargos federais?

Vou além, para que ninguém aqui me chame de especista. A luta não é apenas das espécies excluídas – é também dos cachorros excluídos! Ou você acha que Milei governará para os cães sem raça, aos quais não é dado sequer o direito de tirar um RG no Kennel Club de Buenos Aires? Ou os cães sem dono, que dormem sob as marquises do estádio da Bombonera? Ou mesmo os cães de apartamento, que são obrigados a dividir o transporte público com mais dez cachorros, nas caminhadas matinais com seus passeadores? Não!!! A Milei interessa apenas os cães alienados, que desfilam de coleira e sapatinhos, com suas madames de estimação, pelas ruas de Palermo Viejo.

Para derrubar o capital, Marx não teve pruridos em se unir a Engels, um conhecido herdeiro da aristocracia. Agora é chegada a nossa hora. Gatos e cachorros do mundo todo: uni-vos! Se existe um caminho para tirar a Argentina do abraço mortal do mercado, é o caminho da resistência conjunta. Hay que endurecerse, pero sin perder la fofura jamás!


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É o tutor-chefe do diário mais ultraliberal da Argentina. Seus ghost-writers são Roberto Kaz e Afonso Cappellaro, redatores da seção de humor The piauí Herald.