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BUDISMO, BOTOX E BÉSAME MUCHO

Uma escritora brasileira na Coreia do Sul
Imagem Budismo, botox e <i>Bésame mucho</i>

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De Seul

7 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA­_Estou na Coreia do Sul! No quarto de um hotel em Seul! Comendo dois ovos cozidos! Pontos de exclamação não combinam com bom estilo, mas quando a pessoa acabou de chegar à Coreia do Sul a regra muda. Por exemplo: peguei o elevador com um robozinho levando serviço de quarto para algum hóspede. Estou a 50 km da Coreia do Norte. Todo mundo se curva ao me cumprimentar e estou me sentindo uma imperatriz. Sólidos motivos para exclamar, e mesmo os ovos cozidos merecem a surpresa na pontuação, por terem sido a única coisa comestível que reconheci numa vendinha perto do hotel.

Vim para cá a convite do Festival Internacional de Escritores de Seul, espécie de Flip local. Por uma semana, catorze autores coreanos e dez estrangeiros trocarão ideias numa pequena ilha do Rio Han, que atravessa a cidade.

Até a viagem, eu sabia o básico sobre a Coreia do Sul. Entendia algo da guerra, havia visto uns filmes e lido alguns livros. E tenho em casa um sólido indicador econômico do país: uma filha adolescente, ouvinte de K-pop e especialista em maquiagem, cosméticos e coisas fofinhas. Eu podia comprovar a expansão econômica do país pelo conteúdo das gavetas do banheiro e pela longa lista do que devo comprar para ela em Seul. Ainda assim eu queria saber mais, e me vali das treze horas de voo para fazer um curso intensivo sobre as Coreias.

No momento estou animada e exausta. A diferença de fuso em relação a Los Angeles, onde vivo, é de dezessete horas. Algo me diz que estou em Seul, que estou comendo dois ovos cozidos, e que nada é mais importante do que dormir com vários travesseiros nessa cama de hotel.

8 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA_Acordei às cinco da manhã e resolvi fazer a típica caminhada turística sem rumo. Segui pela Avenida Hangang-daero e tive a sensação de caminhar por uma São Paulo de sonho, com signos urbanos reconhecíveis, mas anúncios e placas indecifráveis. Trabalhadores aguardavam nos pontos de ônibus, vendedores estavam abrindo as lojas, restaurantes exibiam na entrada aquários com enguias e lulas.

Seul é densa em termos populacionais, moderna e rica. Há vida, movimento e eficiência. Entre os arranha-céus de vidro espelhado aparece de quando em vez uma construção milenar, o pedaço de uma antiga muralha, torres de pedra e portais com telhado arrebitado. Era mais ou menos o que eu esperava, embora o fascínio se mantenha.

Há setenta anos, nada disso existia. Seul foi completamente destruída pela guerra entre as Coreias. Nas minhas leituras no avião, aprendi que a divisão da Coreia foi decidida por oficiais militares em Washington após a Segunda Guerra Mundial. Eles temiam o avanço comunista e, de posse de um mapa da National Geographic, traçaram uma linha dividindo o país. O Sul seria capitalista, e o Norte, comunista. Em 1950, Kim Il Sung, militar do Norte apoiado por Moscou, invadiu o Sul. Foi o início da Guerra da Coreia, considerada uma das mais fúteis e desnecessárias da história moderna. Três anos depois assinaram o armistício, com o Norte permanecendo comunista e o Sul capitalista. Nada mudou, além de milhões de mortos, milhares de órfãos apenas na Coreia do Sul e a península destruída.

Nessa manhã eu caminhava por uma cidade moderna erguida sobre escombros. E me perguntava como os coreanos conseguiram fazer tanto em meio século, como lidam com o trauma da guerra e com a Coreia do Norte, onde não se sabe ao certo o que acontece, exceto que tem um governo totalitário e uma população que diminui em quantidade e na estatura, por causa da fome.

De noite fui ao jantar de abertura do festival, e depois às palestras do escritor chinês Yu Hua e da escritora coreana Jeong Ji A. No intervalo descobri que um dos autores convidados para o festival literário, Jeon Sungtae, escreve sobre as duas Coreias e o procurei para conversarmos. Por falar nisso, toda vez que eu escrever aqui “descubro”, “procuro” ou “converso”, o leitor deve imaginar que, entre mim e a pessoa a que me refiro, está uma jovem de longos cabelos pretos. É Elena, o nome ocidentalizado que adotou (o coreano é Hangyul Kim), minha tradutora e guia. Elena é uma típica jovem sul-coreana, elegante, bem-vestida e maquiada, e tão modesta quanto competente.

Elena me apresenta a Sungtae, e ele se curva para mim. Desfruto meu momento imperatriz e retribuo a curvatura, fazendo-o comendador.

É estranho conversar com alguém por meio de uma tradutora. A conversa se torna mais lenta, mas a linguagem corporal é assimilada instantaneamente. No descompasso estão as nossas semelhanças e os limites da língua.

Perguntei a Sungtae sobre a temática de seus livros. Com sua fala pausada, de um jeito ao mesmo tempo solene e sincero, ele me contou que escreve sobre as Coreias a mando do inconsciente. Para ele, os problemas de identidade e as contradições dos sul-coreanos vêm da divisão do país. Seu sonho é ver a Coreia reunificada. “Os coreanos do Norte são nossos irmãos”, me disse.

Eu não esperava uma resposta tão generosa. Esperava uma resposta carregada pelo trauma recente da guerra. E me senti míope, alguém que pensava conhecer um país apenas porque leu alguns poucos livros.

9 DE SETEMBRO, SÁBADO_O café da manhã do hotel é uma espécie de churrascaria rodízio da culinária oriental. Há sushis, sashimis, variações de tofu, bolinhos chineses, arroz com ovo, arroz integral, arroz branco, arroz com vegetais, mingau de arroz, caldinhos mil.

Como sou cosmopolita, hoje encarei um tofu imerso em molho misterioso. Mas meu estômago é provinciano – e passei mal. Senti logo em seguida uma forte dor de cabeça e me dei conta de que estava com enxaqueca. A enxaqueca é a inflamação dos neurônios quando eles têm que preparar uma fala em inglês para uma plateia de coreanos.

Fui a uma farmácia, onde me atendeu uma senhora que não entendia inglês. Sou fluente em mímica, mas meus trejeitos de quem foi envenenada não ajudaram a avançar nas negociações. Mandei uma mensagem para Elena, que me enviou a foto de um anti-inflamatório. Mostrei para a senhora, e o rosto dela se iluminou. A senhorinha sumiu por uma porta e logo reapareceu com o remédio.

Ah, se fosse nos Estados Unidos. Lá, o farmacêutico some por uma porta e vai inventar a penicilina. E quando volta te cobra o preço da penicilina recém-inventada. Nas grandes farmácias americanas há fila para pedir o remédio, fila para pegar o remédio e entre uma e outra um tempo de espera que daria para tomar uma pílula e ficar boa.

Comparações. Fazemos o tempo to­do nas viagens, e por causa delas é bom viajar. O mundo se expande, a gente se expande, e com ele a nossa empatia e o nosso entendimento sobre o outro.

10 DE SETEMBRO, DOMINGO_Passei o dia no quarto, às escuras. Elena me ligou para saber como eu estava. Disse que um tanto melhor e a conversa se estendeu. Perguntei sobre a família dela. Elena me contou que seus avós vivenciaram a guerra, mas não gostam de falar do assunto. Ela e três irmãs foram criadas somente pela mãe, que nunca se separou oficialmente porque temia estigmatizar as filhas.

Elena me perguntou como os brasileiros lidam com situações difíceis. Eu me calei por alguns segundos. Já vivi muitos momentos assim, nos quais a minha palavra se tornará a verdade sobre o Brasil. Respondi que, em situações difíceis, recorremos ao humor. Nós rimos para nos aliviar do peso da vida e para elaborar o problema, digo a ela. Não falei nada sobre a impressão que tenho de que às vezes passamos do ponto e não levamos a sério nossa própria história, ou nós mesmos, como deveríamos.

11 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Pela manhã fui com as escritoras Bernardine Evaristo, que é inglesa, Grace Chia, nascida em Cingapura, e nossas tradutoras ver a troca de guardas do Palácio Gyeongbok, construído em 1395. É uma cerimônia pomposa, envolvendo uns cinquenta guardas uniformizados com vestes longas vermelhas, azuis ou amarelas, sapatos pretos e chapéus de abas largas em formato de cone. A cerimônia acontece na frente de um grande portão com telhado arrebitado e paredes pintadas com caracteres chineses.

Um guia local nos acompanhava. Era um senhor de vasta cabeleira preta e inglês rascante. Ele fazia questão de falar conosco sem o intermédio das tradutoras, e o esforço que punha em cada sentença era tocante.

As novas gerações devem até sonhar em inglês, mas a língua não é comum entre coreanos mais velhos, estes que passaram a juventude erguendo um país, com tempo apenas para algum CCAA coreano com aulas noturnas, ou nem isso.

Perguntei a ele por que caracteres chineses decoravam um palácio coreano. A resposta foi fascinante. Meia dúzia de caracteres na frente de um portão revelava o poder da China em toda a região e a tendência das elites de se diferenciarem.

Até meados dos anos 1400 o coreano era escrito com caracteres chineses. Da união de línguas (sons em coreano representados por caracteres chineses) nasceu o hanja. Escrever e ler hanja demandava anos de memorização de cerca de 80 mil caracteres chineses. A completa alfabetização, portanto, era possível apenas à elite. Para diminuir o analfabetismo, o rei Sejong criou em 1443 o hangul, sistema de leitura e escrita que associa o coreano falado a novos caracteres. Em vez de ter que aprender milhares de símbolos chineses, os coreanos só precisariam aprender 24 caracteres. Mais gente passou a ler e a escrever coreano usando o hangul, e para se diferenciar a elite permaneceu usando o hanja. Só em meados do século XX o hangul foi considerado a língua oficial da Coreia.

Hoje existe um dia na Coreia para comemorar o hangul – 9 de outubro. E o rei Sejong pode ser visto sorrindo, numa estátua dourada e gigantesca, no meio da avenida que leva seu nome no Centro de Seul.

Embora o hangul tenha poucos caracteres, a combinação cria palavras longas. Ler o nome Gyeongbokgung (que quer dizer “palácio grandemente abençoado pelo céu”) gera tropeços na mente, assim como gamsahamnida, que significa “obrigada” (ou “nem tente que você vai errar a pronúncia”).

Do palácio fomos a um mercado de rua com quinquilharias. No pós-guerra, era só o que a Coreia do Sul produzia: leques, presilhas, essas coisinhas. “O principal produto de exportação era a peruca”, disse nosso guia. A partir de 1961, o presidente e ditador Park Chung Hee (1917-79) investiu maciçamente na economia e educação. Pediu aos coreanos que trabalhavam ou estudavam no exterior que voltassem ao país. Desenvolveu a indústria nacional e atraiu empresas estrangeiras com incentivos fiscais e mão de obra barata. De uma geração a outra, a taxa de mortalidade infantil caiu 59%, e a renda per capita iniciou sua escalada: era 158 dólares em 1960 e em 2022 atingiu 32 mil dólares. A Coreia do Sul deixou de ser o lugar de mão de obra barata, versada no trabalho repetitivo da manufatura, para se tornar produtora e exportadora de eletrônicos e, mais recentemente, cosméticos e tendências culturais, com a expansão mundial do K-pop, a estética adorável de produtos de papelaria, o jeito de se vestir e se maquiar.

Ao meio-dia nosso guia nos levou para uma ruela com botecos e biroscas lotadas. Impossível reconhecer o que as pessoas comiam. Algo é verde, algo é bege, algo se parece com carne ou muito pelo contrário. Em Seul os cardápios são indecifráveis, os ingredientes são exóticos, o modo de preparo é peculiar e mesmo as cores e cheiros são novidade. Comer sozinha requer apontar caracteres, receber uma cuia e jamais descobrir se o que serviram foram larvas de bicho-da-seda ou hongeo, um peixe que urina pela pele. Os coreanos também apreciam polvos frescos e recém-picados, servidos enquanto os tentáculos ainda se movem.

Bernardine Evaristo se declarou sem fome e saiu em busca de um cafezinho. Depois de alguma espera, eu, Grace e nossas tradutoras conseguimos quatro banquinhos de frente para uma senhora mexendo um caldeirão. Era um lugar tão pequeno quanto um boteco da Praça Onze, tão quente quanto o verão no Rio de Janeiro e com pratos que pareciam saídos do programa do chef Anthony Bourdain.

Elena pediu noodles para nós todas. Honrada pela presença estrangeira, a dona do restaurante se esmerou no preparo. Tirou os noodles da panela, colocou sobre uma tábua e bateu nos fios como se fossem uma ameaça comunista. Depois, colocou os noodles numa cuia e os serviu, com o caldo e outras “coisas”.

De tarde, fui ao Jogyesa, um templo budista cravado no meio de Seul. É um lugar magnífico, ocupando cerca de meio quarteirão. De frente para as portas abertas do templo, uma árvore com lanternas coloridas dá sombra aos turistas. Três budas dourados e gigantescos preenchem o altar, lanternas vermelhas cobrem o teto. Passarinhos entram e saem para bicar o arroz das oferendas. Há um jardim com vitórias-régias, e um anexo com um gongo gigantesco, tocado por um monge às seis da tarde. Em seguida outro monge canta por uma hora e meia no templo, e o canto se espalha em caixas de som por Seul.

Eu viajo muito, e levo sempre comigo a memória do meu Rio de Janeiro. E fiquei pensando em como seria lindo se o canto dos monges do Mosteiro de São Bento se espalhasse pelo Centro do Rio como o canto desses monges se espalha por Seul. O canto dos monges (budistas, beneditinos, gregorianos) transcende a religião. É emocionante e profundamente espiritual.

Essa foi minha terceira visita ao Jogyesa. Eu me comprometi a rezar ali toda vez que tivesse uma brecha.

12 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA_Ontem foi o dia da minha conversa no festival literário com a escritora coreana Kim Keum Hee, mediada pela crítica Kang Ji Hee. O tema era “Imaginação de Cuidado e Solidariedade”. Planejei falar sobre a solidariedade entre mulheres, um dos temas que atravessam a narrativa do meu romance A vida invisível de Eurídice Gusmão. Passei a manhã no quarto me preparando.

A maioria dos eventos de que participo é no estilo carioca, algo como “Bora falar daqui a pouco no palco”. E, quando eu pergunto sobre o tema da conversa, me respondem: “É sobre o seu livro, ué.” Nesse festival em Seul, as coisas são diferentes. Recebi as perguntas com um mês de antecedência. No dia da conversa cheguei duas horas antes para um ensaio. Tudo foi meticulosamente programado e realizado.

São as idiossincrasias da sociedade coreana. Os coreanos carregam a sensação de terem chegado no meio da festa do capitalismo, bem depois que a bonança e a fartura desembarcaram na Europa e nos Estados Unidos. Mas nem por isso parecem ter algum sentimento de inferioridade, talvez porque o perfeccionismo ocupe suas mentes. Trabalham bastante e de modo eficiente, e não se mostram muito gentis com eles mesmos.

Perguntei a Elena quais eram os principais problemas dos coreanos. Suicídios, ela disse. E misoginia. Ela não gosta de se dizer feminista porque na Coreia do Sul a palavra tem um tom pejorativo. E, de fato, as coreanas me pareceram tímidas sobre o assunto, talvez pela perigosa combinação de mentalidade conservadora e autêntico desenvolvimento econômico: se eles conseguiram tanto em tão pouco tempo sem prestar atenção nos direitos das mulheres, por que mudar? Essa parece ser a pergunta coletiva e subliminar que os coreanos se fazem.

Por causa dessa timidez ou desse tabu pensei que falaria para umas três sul-coreanas no festival literário. Mas o auditório estava lotado, e a conversa foi uma rica troca com Kim Keum Hee. Ela escreve principalmente sobre os jovens e para as novas gerações, e falamos sobre vidas incompletas e marginais. Depois, durante os autógrafos de nossos livros, aconteceu algo inesperado: uma fila, com cerca de trinta pessoas, para mim motivo de celebração. Ao ser traduzido, um livro é praticamente refeito em outra língua, e nesse caso com outros caracteres e outra estrutura sintática. Sai do controle do autor, depende da competência e sensibilidade do tradutor, é submetido ao crivo de outra cultura e aos acasos de mercado. É como uma garrafa com mensagem jogada ao mar e descoberta do outro lado do mundo. Ter a garrafa encontrada e a mensagem lida e entendida é um privilégio e uma alegria.

De noite voltei ao templo. Sumi detrás do altar, peguei um colchão e me sentei nele, sob o piso de tábuas. A essa altura eu já sou reconhecida pelos frequentadores diários. A maioria é de senhorinhas coreanas, todas com roupas largas, cabelos curtos e pretos, e menos rugas que eu. Cruzei as pernas, mantendo as costas eretas, fechei os olhos e me concentrei na respiração.

Antes dessa viagem eu nunca havia meditado num templo. Em casa medito num canto do quarto e de frente para a minha cama. No templo é diferente. O convite à introspecção se dá pela energia coletiva e pelos cantos budistas. Parece mais fácil, e certamente mais charmoso meditar olhando um monge em vez de um travesseiro, mas hoje eu estava agitada. Eu pensava nas senhorinhas coreanas. Todas com menos rugas que eu.

Essas mulheres passaram a infância na guerra ou no pós-guerra. Eu passei a infância vendo o Sítio do picapau amarelo. Tem algo aí que não bate. O medo da Cuca não pode ter feito tamanho estrago em mim. Será que foi o Sol? Cervejinhas? Insônia? Acho que foram as minhas tataravós. Nenhuma teve o bom senso de nascer no Oriente. Uma falta de consideração. Passaram adiante os genes dos pés de galinha. Dos vincos na testa. Quando eu me concentro na leitura tenho a expressão de quem vai encher o livro de porrada. E aquelas senhorinhas, com feições de domingo no parque. Será que se tratam? Talvez. Os coreanos fazem botox como quem toma aspirina. Os homens todos parecem primos do Elon Musk. Aliás, Musk parece ter um pé no Oriente. Ou um cirurgião plástico no Oriente.

Botox e budismo, melhor tratamento não há. Já faz tempo, li uma entrevista com um monge budista e me impressionei com a foto. O cara tinha uns 100 anos e o rosto liso e iluminado como o de um menino contente com os presentes do Papai Noel.

E lá estava eu em posição meditativa, num templo no coração de Seul. Pensando na Cuca, no Elon Musk e no Papai Noel.

O monge, com sua voz de tenor, cantou por uma hora e meia. Fiz coro com as outras pessoas no templo. Fui para lá e para cá, entre o muito mundano (inveja das senhorinhas) e o sublime (lugares sem-travesseiro e sem-monge). No fim da cerimônia batemos palmas. E o monge se foi do mesmo modo que chegou, misteriosamente, com passos seguros, atravessando o jardim das vitórias-régias.

Quando eu calçava os sapatos na saída do templo, alguém me cutucou. Era uma das minhas “colegas” budistas. Sorrindo, ela tirou do pulso uma pulseira de contas cor-de-rosa e me entregou. Peguei a pulseira, e comecei a chorar.

Eu sei lidar com o pior ou com a indiferença, mas não com um ato de amor inesperado da parte de uma estranha. Aquela senhora encontrou meu calcanhar desprotegido e me atacou com uma pulseirinha rosa. Chegou ao que em mim é maleável e possível de ser marcado. Fiquei olhando para ela com minha cara de louca triste, agradecendo pela pulseira e pelo choro bom.

13 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_Assisti ontem à conversa com a escritora Djaïli Amadou Amal, de Camarões. Seu romance As impacientes ganhou em 2020 o Prêmio Goncourt dos Estudantes, em que o júri é formado por cerca de 2 mil alunos do ensino médio na França. Estou de olho nela desde o primeiro dia, quando segurei a porta do elevador do hotel para essa mulher deslumbrante. Na sua apresentação, Djaïli vestia um longo impactante, com um estampado tribal de cores vivas. Nos dias seguintes, ela se superou em turbantes, colares e saiões.

Tentamos travar algumas conversas, durante as quais deixamos nossas tradutoras exaustas e conseguimos parecer estúpidas uma à outra. Eu arranhava um francês dos tempos do mestrado. Djaïli não fala inglês. Era uma conversa quadrangular, na qual ela me contou que se casou duas vezes. A primeira foi com um homem muito mais velho e escolhido por sua família. Tiveram três filhos. Depois, casou-se de novo e teve mais dois filhos. Cinco filhos! A etiqueta promocional na capa do seu livro deveria ser “Vencedora do Prêmio Goncourt dos Estudantes e mãe de cinco filhos”. Ou talvez não, porque é bem chato condicionar as mulheres à maternidade. Ou talvez seja inevitável. Ou talvez seja só um comentário inocente e genuíno.

Djaïli é dessas mulheres pequeninas que se agigantam no palco. Por uma hora ela despejou sua indignação inteligente contra a opressão patriarcal. Três das escritoras convidadas neste ano têm livros sobre mulheres fortes e dissonantes: além de Djaïli, Bernardine Evaristo (com Garota, mulher, outras, que venceu o Booker Prize em 2019) e eu (com A vida invisível de Eurídice Gusmão). Imensa carga de feminismo para um país ainda tímido no assunto e que esteve ocupado demais se reerguendo para assimilar as ondas de reivindicações das mulheres a partir dos anos 1960.

De tarde fui ao Memorial da Guerra da Coreia. É um prédio afastado dos outros, no meio de um descampado emoldurado por bandeiras de países amigos. Entra-se nele por uma rampa, e no mero caminhar o visitante já se impregna do clima de reverência, tem a sensação de estar se aproximando de uma parte dolorida da história do país. Há no memorial um comprido salão de pé-direito muito alto, com uma linha do tempo dividida em três partes. Essa linha do tempo ficará em mim para sempre. A parte superior enumera as guerras do Oriente; a inferior, as do Ocidente. A linha central mostra as guerras vividas pela Coreia. “A história da humanidade é a história das guerras”, diz o texto de apresentação. É fato. A história da humanidade é a história das guerras, que é a história da ganância, das ideologias, do medo, da ignorância emocional, dos rancores e mágoas gerando mais rancores e mágoas, do patriarcado e da testosterona fora de controle.

De noite fui com os outros escritores ao jantar de despedida do festival. Pequenos pratos parecidos com esculturas foram surgindo na minha frente. Do meu lado, o escritor Jeon Sungtae se entretinha com seus noodles. Durante a conversa no jantar, tentei aprender mais sobre a identidade da Coreia, das Coreias. Mas, entre saladas, goles de vinho e discursos, o que mais me chamou a atenção foi o desejo de muitos de ver o país reunificado.

14 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA_Vamos ao que interessa: compras. Há do lado do hotel um shopping de estranha configuração. As lojas não têm paredes separando um estabelecimento de outro, tornando difícil perceber quando saímos de uma para entrar na outra. É um fluxo contínuo de mercadorias, um labirinto de marcas e promoções. Entrei para comprar uma escova de dentes e me vi tentada a pagar por uma blusa no caixa de uma sapataria. Eis que adentro, sem me dar conta, em um supermercado, e ali minha ignorância se estende por corredores de víveres extravagantes, como cenouras com várias pontas e cardumes de peixinhos congelados em sacos plásticos, consumidos, imagino, fritos e como aperitivo.

Em Seul há ruas comerciais para pedestres, como a Insadong-gil, com lojas abertas sete dias por semana. É muito agradável caminhar ali até tarde da noite e alimentar os olhos com mercadorias expostas por coreanos exaustos. Trabalha-se sem parar, e vem daí o desenvolvimento do país.

A moda coreana segue a linha “sou magra e usarei roupa larga para me assemelhar a um raio de luz envolto em linho”. O estilo é minimalista, elegante e fluido. Exatamente como eu me vestiria se conseguisse abrir mão das faunas e floras latinas. Mas o melhor é que as roupas atendem a pessoas de estatura normal: 1,55 metro, o comprimento do mulherão que aqui escreve.

Os coreanos têm um apurado senso de estética. Dá vontade de comprar tudo que se vê nas lojas. Os raros turistas avessos ao consumismo são contra-atacados pelas lojas de caligrafia. Aí, poucos resistem. Como não se apaixonar pela textura de papéis especiais, pela vasta oferta de tintas especializadas, pelos milhares de pincéis com pontas delicadas, alguns do tamanho do mindinho, outros com mais de um metro?

A caligrafia é uma arte oriental, que exige muitos anos de aprendizado. O objetivo da pincelada não é a perfeição, mas acrescentar seu toque pessoal ao que foi aprendido com o mestre. É uma atividade meditativa, que reflete como devemos viver: no momento da pincelada e imersos no presente, em vez de cegar os sentidos em constantes projeções para o futuro ou rememorações do passado.

(Preciso falar aqui também de uma experiência inesquecível: fazer xixi na privada japonesa do meu quarto de hotel. A privada japonesa tem um bidê embutido. Depois do uso, aperta-se um botão e lá vem um esguicho de água quentinha. Outro botão oferece um secador. Se os orientais forem de fato dominar o mundo, eu espero que comecem pelos banheiros.)

15 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA_Dia livre. Decidi experimentar uma das mais tradicionais práticas coreanas, a aplicação de botox. Os coreanos são tão obcecados com a aparência que inventaram um botox local, mais barato e acessível a toda uma parte da população, e também a escritoras no meio da carreira.

O zelo estético é reflexo de uma cultura patriarcal, perfeccionista, competitiva e afluente. Profissionais investem na aparência para avançar na carreira. Mulheres se cuidam para atrair bons partidos e, como aprendi com Elena, elas geralmente só trabalham até o nascimento dos filhos. Magreza é fundamental, e o clareamento de pele é feito por muitos.

Essa busca pela beleza esconde no fundo o trauma da limpeza étnica promovida nos anos de pós-guerra pelo presidente Syngman Rhee (1875-1965). Bebês birraciais, filhos de soldados americanos e mulheres coreanas, foram enviados ao exterior para adoção – o que levou o New York Times a definir a Coreia do Sul, em um artigo recente, como “o maior exportador de bebês do mundo”. É uma das feridas com a qual os coreanos ainda estão aprendendo a lidar.

Na clínica dermatológica a atendente não falava inglês, mas dizer botox em tal ambiente é como dizer Coca-Cola em qualquer parte do mundo. Recorri ao tradutor do Google para perguntar o preço, e pelo aplicativo a atendente respondeu: “Isso fica na Rua 40.” Perguntei por horários, e a resposta foi: “Entardecer talvez rápido.”

Fui a outra clínica e consegui trocar algumas palavras básicas. Obtive o preço e um horário, e me sentei em uma poltrona, aguardando a minha vez. Eis que entrou pela porta uma estatística: quatro americanas, com roupas, sapatos e bolsas estampados com gigantescos logotipos da Fendi, Chanel, Armani e Gucci, brincos, pulseiras e balangandãs, rostos refeitos no bisturi. O turismo estético é comum na Coreia do Sul. Em 2019, meio milhão de pessoas foram ao país para fazer procedimentos. Além do preço acessível, há profissionais competentes e tratamentos avançados. Pacotes turísticos incluem visitas a palácios e a mudança do queixo. E ali estavam quatro representantes do meio milhão, uma delas colando o corpo no balcão e se dirigindo à atendente no clássico estilo americano, disparando em voz alta um HellomynameisSharonwearrivedforour­appoingmentpleaseletthedoctorknowthat­weareherethankyou.

Há dois tipos de pessoas que fazem tratamentos estéticos. As primeiras têm o desejo de que cada procedimento seja notado e se torne tão óbvio quanto a marca Fendi na frente da bolsa. O segundo grupo inclui as pessoas que mudam para continuarem iguais. Elas só querem parecer um pouco mais jovens, descansadas e bem resolvidas, sem que os tratamentos sejam notados. Esse último grupo é o das hipócritas. Eu pertenço a ele.

Na poltrona da clínica, meus olhos percorriam um livro no iPhone, enquanto minha consciência dizia: “Você vai pagar para levar umas agulhadas no rosto do outro lado do mundo, em acordo selado por mímica.”

Eu precisava de sinais. Meu ego distorcia os fatos, garantindo-me que de agulha as americanas entendiam, e que por isso eu estava no lugar certo. Mas elas entendiam demais.

A atendente me chamou para a consulta. Entrei na sala, e um médico com inglês precário me atendeu. “Please, please, não muda meu rosto”, pedi.

“Você acha as coreanas artificiais?”, ele me perguntou.

Entreguei o cartão de crédito. Passei os olhos no consultório. Na estante, fotos de família e os tradicionais livros de capa dura típicos das estantes de médicos. Só que esses livros eram bem coloridos. Estudei os títulos. Era a coleção de clássicos infantis da livraria americana Barnes & Noble. Eu iria me submeter a um procedimento estético com um médico que fundamentava a vaidade intelectual da sua classe exibindo lombadas de Peter Pan e Alice no país das maravilhas.

16 DE SETEMBRO, SÁBADO_E não é que o médico era bom? Com aquele homem e por aquele preço eu bem faria botox como se fosse depilação. Igual às americanas, levarei para casa como suvenir a ausência do cenho por alguns meses.

Hoje foi meu penúltimo dia e aproveitei para caminhar por Seul. O melhor da experiência de viajante é não pertencer. É não ter hora, panela no fogo, uma identidade que nos condicione ao lugar. É sentar em um banco e ver o mundo do acostamento. E dar uns trocados para um violinista de rua, com ele dizendo que tocará uma música “brasiliana” – e dispara Bésame mucho. Depois de amanhã voltarei para minha vida de engrenagens. Hoje decidi ser ninguém por aí.

Fiz o check-out no hotel. Vou passar a última noite na parte antiga da cidade. Aluguei um quarto em um hanok, a tradicional casa coreana de telhados arrebitados, portas de correr e um jardim interno. O local é decorado de modo a constranger ocidentais, provando que nosso mobiliário é uma parafernália supérflua. Num hanok o colchão fica sobre o piso, aquecido durante o inverno. Há uma mesa baixinha encostada na parede, que é arrumada na hora das refeições. Não há cadeiras. Ao entrar num hanok (sem sapatos, sempre), nos damos conta de que precisamos de pouco. Sentimos o prazer tranquilo de um espaço simples, e desejamos que nossas casas e mentes sejam iguais.

Enquanto eu aguardava o táxi no hotel, folheei um dos panfletos disponíveis no lobby que ofereciam tours à fronteira e me dei conta de que estava segurando um dos mais fascinantes documentos sobre a essência do capitalismo. Para entender o porquê, seguem dois dedinhos de informação.

A fronteira da Coreia do Sul com a do Norte se estende por 250 km. Não é somente um muro. Entre a borda de um país e a do outro, existe a Zona Desmilitarizada da Coreia (em inglês, DMZ), uma área de 4 km de largura, vigiada por norte-coreanos de um lado e por sul-coreanos e americanos de outro. O local, monitorado por guardas dia e noite, não tem casas, mas abriga alguns prédios para reuniões de líderes dos dois países e encontros de famílias divididas pela guerra. Como provocação, o governo norte-­coreano fez durante décadas demonstrações militares nessa zona e construiu quatro túneis para iniciar um ataque a Seul, o maior deles com 3,5 km de extensão e capaz de acomodar até 30 mil pessoas.

A DMZ não é exatamente um parque de diversões. Mas os sul-coreanos entenderam a essência do capitalismo: havendo procura, qualquer lugar pode se transformar num parque de diversões. Empresas turísticas despejam diariamente dezenas de turistas na área. Eles compram camisetas e chaveiros com a logo DMZ. Fazem selfies tendo ao fundo a vista rural da Coreia do Norte. E se entretêm em experiências, como as descritas no folheto. “Explore os túneis secretos! Veja de longe um típico vilarejo norte-coreano! Converse com um desertor do Norte!”

Seja lá quem for o deus do capitalismo (eu visualizo o Tio Patinhas), ele é genial.

17 DE SETEMBRO, DOMINGO_O dia amanheceu nublado, com calçadas vazias e poucos carros na rua, o que reforçou meu sentimento de melancolia por deixar um lugar antes que o lugar tenha me deixado. Adoraria ficar mais alguns dias, se não tivesse uma vida em andamento do outro lado do mundo. Os meus fios de marionete me prendem à Califórnia, e nem tenho do que reclamar, são fios feitos principalmente de amor. Mas, quando a gente viaja, como parece injusto que a vida seja uma só.

O trajeto até o aeroporto durou uma hora. Encostei a cabeça no assento do táxi e me despedi de Seul. Adeus, palácios de telhado arrebitado, imponentes à sua maneira no meio de arranha-céus. Adeus, turistas e coreanos vestidos com o hanbok, a roupa tradicional do país, passeando pelas ruas da cidade antiga e pelos jardins dos palácios. Adeus, doutor bom do botox e leitor de Pinóquio. Adeus, lojas de caligrafia. Adeus, colegas escritores, autores dos livros que lerei em inglês e dos que jamais poderei ler. Adeus, Elena, minha doce e competente tradutora. Adeus, equipe que tocou o festival à perfeição. Adeus, violinista desafinando Bésame mucho numa rua da Seul antiga. Adeus, monges e senhorinhas budistas (tanto tempo passamos juntas, sem sapatos sobre o colchão). Adeus, noite boa de sono no quarto simples do hanok. Adeus, lanternas, incensos, jardins. Adeus, inesquecível privada japonesa, impactante a ponto de me fazer revelar agora, na piauí, como limpei as partes por uma semana.

Pela janela do carro, a cidade moderna e maciça, construída no breve instante de algumas décadas, continuava a me impressionar. Pensei na guerra, nas centenas de milhares de órfãos, nas famílias divididas e de novo me perguntei como os coreanos lidam com esse trauma. Eu me lembrei, então, do depoimento de um homem no Memorial da Guerra. Em 1950, quando tinha 18 anos, Wang Sik conseguiu embarcar no último navio americano que fazia a evacuação de coreanos do Norte rumo ao Sul antes do início da guerra. Com capacidade para cerca de sessenta pessoas, o SS Meredith Victory levou 14 mil refugiados. Nos dois dias do trajeto, cinco mulheres deram à luz. Os bebês foram lavados com a água usada para esfriar a casa das máquinas. Sobre a viagem, Wang Sik disse:

O porto estava apinhado, era impossível se locomover. Muitas famílias conseguiram colocar as crianças nos barcos, mas os adultos ficaram para trás. Tive a sorte de embarcar. Havia rumores de que estávamos naufragando. Mas todo mundo só queria seguir e só depois se preocupar com o barco afundando.


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É autora de três romances, o mais recente, Chuva de papel (Companhia das Letras). Seus livros foram publicados em mais de vinte países. É colunista do jornal O Globo e escreve quinzenalmente no opiniaes.substack.com