cartas
Dez 2023 15h29
9 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
DEZEMBRO
Escrevo para parabenizar a toda equipe de produção da piauí_207, pela excelência da última edição do ano, que foi coroada com assuntos tão diversos e que considero de extrema relevância para seus leitores. Para mim está até difícil escolher o que mais gostei. Sem dúvida, destaco o artigo em formato de diário escrito por Leila Guerriero (Um país desconhecido), no qual ela escreve com maestria sobre o pós-eleição na Argentina e todo o absurdo que se viu por lá. De fato já sabíamos que o resultado disso não iria prestar, mas não imaginava que tanto a ascensão meteórica do indivíduo em questão quanto a lua de mel com o povo argentino não durariam uma semana. Para mim, o perigo sem precedentes que cerca a humanidade com as mudanças climáticas é tão relevante e terrível quanto o ressurgimento do fascismo, que é mundial e parece que veio pra ficar. Destaco também a trajetória do educador Paulo Freire, com a experiência educacional pioneira em Angicos, rn, na alfabetização de adultos “De repente, eu aprendi” (piauí_207, dezembro de 2023). Saber que Paulo Freire foi perseguido e preso pela ditadura militar é inacreditável. Qual a razão de tamanha crueldade? Eles não tinham nenhum interesse na alfabetização dos brasileiros porque consequentemente seriam politizados. O legado desse educador e humanista, dos mais brilhantes que já tivemos, se colocado em prática no país teria quase zerado os índices de analfabetismo.
VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
NOTA INTRIGADA DA REDAÇÃO: Se o ressurgimento do fascismo ocorre simultaneamente à emergência climática, será que os fascistas estavam congelados nas calotas polares, Valéria?
VARIEGADOS
Gostei muito da piauí_207, dezembro de 2023 – único local onde se pode ler um “Saramago num cartório”; já repassei o meu Lula da Sorte. Em especial, foi instigante ler Os frutos que calculavam, de Giovane Rodrigues e Tiago Tranjan – uma erudita aula de história da filosofia. O problema é que não expressa muito conhecimento sobre avanços e discussões recentes sobre sistemas de ia que aprendem a resolver problemas por meio de treinamento e recompensa, e memorizam conceitos em partes de redes neurais, de modo análogo a cérebros – e não por meio de regras pré-programadas, como os autores parecem assumir. Pior: eles não tocam em nenhuma das questões filosóficas atuais relevantes, como as levantadas por Olavo Amaral (As formas intermediárias), na piauí_199, abril de 2023. Em vez de discussões semânticas sobre se “máquinas podem pensar” ou se “andam pelas ruas de mãos dadas” como seres humanos, o que preocupa é saber se elas podem superar a humanidade em competência geral, ou se podemos prever seu comportamento de forma confiável, ou se podem simular estados mentais (como dor e prazer) de maneira moralmente relevante etc.
Também gostei muito de A sombra de Srebrenica, de Daniel Lisboa. Às vezes tenho receio de que, com a atenção capturada pelo “assunto do momento”, os genocídios da Bósnia e de Ruanda sejam esquecidos – mesmo tendo ocorrido há menos de trinta anos. Mas, desculpem se estou repetindo minha cartinha publicada em abril de 2022, isso parece ter ocorrido com a morte de 5 milhões de pessoas durante as guerras do Congo de 1998-2003 – que começam com a invasão do então Zaire pela Frente Patriótica de Ruanda, de Paul Kagame, para atacar grupos de extermínio hutus em campos de refugiados na fronteira. Ainda hoje, permanece um conflito opondo hutus e tútsis na região do Lago Kivu.
P.S.: Fico imaginando se vocês serão os primeiros a publicar uma tradução do texto de David Sanger sobre a morte do centenário Henry Kissinger.
RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS
RACISMO
A matéria Black is powerful e o informe publicitário O ciclo do empoderamento digital na piauí_207, dezembro de 2023, são uma nesga de luz sobre o racismo estrutural, essa forte instituição brasileira.
Além de dizimar a população nativa, implantou-se a escravização dos povos africanos. Não havendo motores, guindastes, tratores, toda a riqueza do país veio dos braços africanos. Não houve nenhuma compensação dessas pessoas na lei da abolição, mas foi pior. Gastou-se dinheiro para recrutar e trazer pessoas da Europa para substituir os negros; nem o trabalho que fazíamos desde sempre nos foi legado, sob o argumento de que éramos improdutivos e incapazes.
Essa versão foi divulgada por 350 anos por pessoas poderosas e influentes e continua até hoje, contaminando até nós que nos surpreendemos ao ver um negro numa função menos subalterna, e não chega a ser como a surpresa do João Grilo ao encontrar com Jesus negro, mas é sempre animador.
O caminho de reconquista da dignidade é longo, mas sendo fortes, suaves, solidários, inexoráveis vamos conseguir.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
PAULO FREIRE
A matéria “De repente, eu aprendi” (piauí_207, dezembro de 2023), escrita por André Gravatá, apresenta um resgate da experiência revolucionária de letramento proposta por Paulo Freire na cidade de Angicos, município do interior do Rio Grande do Norte. Em 1963, trezentas pessoas foram alfabetizadas num período de 40 horas.
Apesar de alguns acadêmicos utilizarem a palavra “método” para a experiência vivenciada em Angicos, Freire não se agradava da ideia de nomear assim sua prática de alfabetização. Cremos que isso ocorra em virtude da palavra estar carregada de tecnicismo, enquanto a abordagem dele dialoga com a fenomenologia heideggeriana. Por isso, seu cuidado excessivo com o Ser e com o emprego da linguagem.
Na matéria, é possível observarmos essa delicadeza do educador ao substituir a palavra “analfabeto” por “alfabetizando”. Analfabeto é uma palavra formada pelo prefixo de negação “an”, já alfabetizando é formada pelo sufixo “ndo”, que indica processo. Assim, deixa-se de tratar o estudante como alguém que não “possui” o alfabeto (a cultura letrada) para tratar como alguém que está se apropriando dele.
Essa formação crítica atemorizou os setores reacionários da sociedade brasileira, que silenciaram o trabalho de Paulo Freire e o condenaram a um exílio de dezesseis anos. Esses mesmos setores, ditos patrióticos, impediram que o Brasil obtivesse hoje índices de analfabetismo semelhantes aos de países referência em educação, como a Suíça.
HELIO CASTELO BRANCO RAMOS_RECIFE/PE
Sou leitora da piauí desde o número 1. Colecionei a revista por muitos anos e agora que vivo na Alemanha, sou assinante online.
Nunca escrevi nenhuma carta para vocês, apesar de me ver em vários momentos absolutamente envolvida com textos, poemas, reportagens ou cartuns. Mas decidi fazê-lo por causa de dois homens: o Paulo e o André.
Vou contar como foi: peguei o celular pra ler a piauí numa manhã cinzenta e fria em Colônia. Passei pelos títulos todos e decidi: começo com Paulo Freire (“De repente, eu aprendi”). Preciso ler algo que me traga ânimo. (Às vezes a vida complica, né? Ou a gente complica a vida.)
Tenho o hábito de ir direto pros textos, sem ler a “chamada” ou o nome do autor. Assim fiz e o texto foi me envolvendo, eu fui mergulhando nele e cheguei a me emocionar várias vezes. Ouvi uma história que eu conhecia apenas superficialmente. Sim, senti assim, que ouvia. Eu não lia, escutava.
No final havia algo um tanto inusitado, um agradecimento a três pessoas e uma delas eu conhecia. Só então li o nome do autor e me dei conta de que eu realmente tinha escutado aquela história, porque quem a tinha contado era o André, esse moço que conheço há uns dez anos, com quem já fiz parcerias poéticas no Jornal das Miudezas; de quem tenho um poema na parede do ateliê e algumas agendas com o verbo hojear – um verbo agorário, como descrevem André e Serena, na contracapa da agenda.
Então o André, poeta, escritor, educador, uma pessoa que admiro e por quem tenho carinho, estava ali, na minha revista preferida?
Escrevi pro André. Se pudesse, escrevia também pro Paulo. Chego a imaginar nós três tomando um café e proseando lá em Angicos.
Escrevo pra vocês para agradecer por terem propiciado esse encontro.
ANA TEIXEIRA_COLÔNIA, ALEMANHA
NOTA EMOTIVA DA REDAÇÃO: Essa sua carta hojeou nosso dia, Ana!
OS LIMITES DO RESSENTIMENTO
Como sempre, brilhante a matéria de Vladimir Safatle, Os limites do ressentimento (piauí_206, novembro de 2023). Porém, “só eu sei as esquinas por que passei” pra entendê-la, ou tentar. Posso afirmar, sendo otimista e não querendo ser pedante, que não deva chegar a 0,5% dos eleitores de Pindorama que conseguirão o mesmo feito; coitados, são vítimas da única política de Estado que deu certo aqui: o plano de deseducação. Então, sem querer ser niilista, pergunto ao léu: e daí? Não obstante, Vladimir, continue instigando o seleto clube.
GILSON MARINHO LUZ_ITAOCARA/RJ
NO REINO DA ARAPONGAGEM
Mais um texto primoroso desse competente e corajoso jornalista investigativo, Allan de Abreu, que não tem medo de cavucar temas delicados, como no artigo Os espiões estão aí (piauí_207, dezembro de 2023). Já na piauí_182, novembro de 2021, sob o título O aparelho, ele fizera uma incursão pelos meandros da Polícia Federal, demonstrando como esse importante órgão do Estado brasileiro foi aparelhado para atender aos caprichos do governante de plantão, um nome que merece ser esquecido pelos inúmeros atentados cometidos contra a democracia.
A espionagem, tema que atrai os apreciadores de romances e relatos da espécie, assim como filmes, pode ser cativante, no entanto, quando interfere no nosso dia a dia, bisbilhotando as atividades dos cidadãos e quebrando sigilos com fins políticos para manutenção do poder, torna-se um inimigo a ser combatido, e o Allan percorreu muito bem pelas entranhas da nossa espionagem cabocla, ao denunciar seus agentes, marcando mais um golaço para a piauí.
Outra matéria, Uma aclimatação do marxismo no Brasil (piauí_207, dezembro de 2023), apresenta um resumo do debate com o brilhante intelectual Roberto Schwarz, que traça a trajetória dos estudos marxistas no país, relembrando figuras notáveis de nossa história recente e seu papel transformador e revolucionário.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA INVESTIGATIVA DA REDAÇÃO: Cuidado com quem você elogia, Dirceu. Já pensou que o Allan pode estar investigando todas as cartas que você envia, desde a primeira, a da piauí_57, de junho de 2011? Aquela em que você falou de Lênin, Muro de Berlim, Cristo e Companhia das Letras? Quem avisa amigo é…
CARTAS
Como de costume, a primeira ação que faço com a revista em mãos, me direciono para a seção de cartas a fim de degustar o mais puro mel do sarcasmo nas respostas da revista para com as cartas enviadas pelos leitores. Pois bem, nesta última edição, para meu espanto e incredulidade, houve apenas uma interação com o leitor. Passado o baque inicial, me veio a tentativa de procurar explicações para tal feito. Estariam vocês com algum tipo de bloqueio criativo? Com preguiça de responder? Ou mesmo estariam em um mês com poucas cartas merecedoras de réplica? Exijo uma resposta convincente para esse desrespeito com esse leitor que vos fala. Espero que não se repita em outras edições tal descalabro.
DIOGO PEIXOTO DA SILVA_ARAGUARI/MG
NOTA REVOLTADA DA REDAÇÃO: O editor de cartas não pode mais tirar férias, Diogo? Curtir uma preguiça? Inventar uma desculpa para não trabalhar? Alegar que as respostas foram comidas pelo cachorro? Aliás, você já parou para pensar na solidão do editor de cartas? O funcionário que a tudo responde, mas que nunca tem uma resposta respondida? Quem fiscaliza o fiscal? Quem responde ao respondedor?
MUITO BOM PRA FICAR SÓ PRA MIM
Gostaria de participar desta coluna, tão intelectual e de phyno humor (qualidades que me escapam), pelo carinho que tenho pela piauí e pelo impulso de compartilhar uma receita tão boa de goró: a do drink President’Lula (que já se chamou “Lula Livre”, mas agora pede um título mais celebrativo, sem prejuízo dos ares de homenagem à seção Diário do Geraldo), por mim criado num momento político-emotivo.
Segue a receita:
– Duas partes de leite de coco (eu uso o Copra, mas pode ser feito em casa – aquele grosso, de culinária, não serve);
– Duas partes de água de coco;
– Uma parte de rum Carta Branca;
– Uma parte de Licor 43;
– Uma parte de leite condensado;
– Gelo picado;
– Uma fatia de melancia em forma de estrela pra enfeitar a beira do copo.
Do leitor Oberdan, servidor público, gorozista, santista, meio comuna.
OBERDAN M. ELIAS_SANTOS/SP
NORA ETÍLICA DA REDAÇÃO: E onde entra o Arthur Lira nessa mistura, Oberdan? E o Juscelino Filho? E o Fufuca? E o Zanin? E o Paulo Gonet? E aquela pitada especial de petróleo da Foz do Amazonas? Não faria sentido incluir também esses ingredientes no drink President’Lula?