anais do antropoceno

FOCO NO FOGO

Os rastros dos megaincêndios na Amazônia num ano de El Niño
Imagem Foco no fogo

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Quando um trecho da Amazônia na região do Baixo Tapajós, no Oeste do Pará, pegou fogo em outubro de 2023, a ecóloga carioca Erika Berenguer temeu pela vida de uma árvore específica. Era um breu, uma árvore frutífera de copa densa com mais de 40 metros de altura que ela observava de perto desde 2010. A cientista se especializou no estudo do impacto de queimadas e outras intervenções humanas na Floresta Amazônica, e vinha monitorando o que acontecia com todas as árvores situadas em dezenas de áreas de mata selecionadas para a pesquisa.

Berenguer e seus colegas começaram a monitorar aquele trecho da floresta – uma faixa de 250 metros por 10 metros – quando havia ali onze árvores de grande porte cujos troncos tinham pelo menos 1 metro de circunferência. Até que, em 2015, veio uma das secas mais severas da história recente da Amazônia e, com ela, uma temporada de incêndios florestais com uma extensão que os cientistas nunca tinham testemunhado. O fogo matou todas as árvores de grande porte daquela área – menos o breu. “Foi a única gigante que sobreviveu ao fogo de 2015”, disse Berenguer.

Aquele foi um ano de El Niño, um fenômeno climático periódico provocado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico. Na Amazônia, o El Niño costuma provocar secas intensas que deixam a floresta mais vulnerável ao fogo e criam condições para a ocorrência dos chamados megaincêndios, que atingem uma área de 10 mil hectares, ou 10 mil campos de futebol. Só no Baixo Tapajós, os incêndios florestais atingiram cerca de 1 milhão de hectares em 2015, o equivalente a quase o dobro do Distrito Federal.

No ano passado o El Niño voltou e, com ele, vieram a seca e os megaincêndios. Ainda se recuperando do fogo de oito anos antes, a área monitorada por Berenguer queimou novamente. Dessa vez, o breu não sobreviveu. A ecóloga soube que a árvore tinha morrido quando foi inspecionar a floresta e não viu a copa. “Quando a gente enfim chegou, a árvore ainda estava de pé, mas já morta, com o fogo comendo ela por dentro”, contou.

Em dezembro de 2023, dois meses após o incêndio, Berenguer levou a reportagem da piauí até a área e mostrou o cadáver do breu, que era apenas um de muitos troncos carbonizados espalhados pelo chão da floresta. Caminhar pela área que queimara em 2015 e pegou fogo novamente foi como transitar pelos vestígios de um grande churrasco: havia por todo canto tocos de madeira queimados e esqueletos de árvores mortas. A floresta que um dia chamou a atenção pela profusão de verde agora estava marcada por tons de preto, cinza e marrom da matéria orgânica queimada. Berenguer comparou aquele trecho da Amazônia a um cemitério. “A gente está andando pelas ruínas da floresta mais biodiversa do mundo.”

O breu tinha valor sentimental para Berenguer e seus colegas, que entravam na floresta com uma escada para fazer medições da sua respiração. Agora, a árvore tinha virado estatística. A cada três meses, os cientistas vão a campo visitar cada um dos 28 trechos de floresta monitorados pelo grupo, a fim de verificar se alguma das 20 mil árvores morreu. De dois em dois anos, eles fazem um novo recenseamento de cada área. Com base no número de árvores mortas que contabilizaram nas áreas estudadas, os pesquisadores fizeram uma extrapolação para estimar o número de baixas provocadas pelos incêndios florestais durante o El Niño de 2015 e 2016 em toda a região do Baixo Tapajós. Calcularam que o fogo matou quase 3 bilhões de árvores. E isso numa área que cobre meros 1,2% de toda a Amazônia. Considerando todo o bioma, o estrago pode ter sido muito maior.

Os resultados foram publicados em 2021 nos anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, uma revista especializada conhecida pela sigla Pnas. Berenguer, que é pesquisadora das universidades britânicas de Oxford e Lancaster, encabeçava uma lista de dezoito autores que representam centros de pesquisa do Brasil, do Reino Unido e da Suécia. A maioria dos autores do trabalho integra a Rede Amazônia Sustentável, que reúne estudiosos pertencentes a dezenas de instituições que investigam os impactos do fogo e da ação humana sobre a floresta.

A Amazônia é uma floresta úmida, na qual os incêndios não ocorrem de forma natural, e suas árvores não estão acostumadas com o fogo. Nesse aspecto, elas são diferentes das espécies de savanas, que foram regularmente expostas ao fogo em sua evolução e, com isso, desenvolveram estratégias que lhes permitem sobreviver às chamas, como explicou à piauí a ecóloga Joice Ferreira, cofundadora da Rede Amazônia Sustentável. Ferreira é natural do Cerrado de Tocantins e pesquisou esse bioma para seu doutorado. Em 2006, passou a estudar também a floresta depois que se estabeleceu em Belém como pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental. Ela disse que as árvores do Cerrado têm troncos de casca mais grossa, que lhes garantem isolamento térmico, e raízes longas capazes de buscar água em grandes profundidades. Como não dispõem dessas adaptações, as árvores amazônicas são mais vulneráveis aos incêndios e, por isso, o fogo deixa um rastro letal quando as atinge. No Baixo Tapajós, os incêndios mataram mais de metade das árvores com mais de 10 cm de diâmetro; já entre aquelas de menor porte, a letalidade foi ainda mais elevada.

É a ação humana que costuma desencadear as queimadas na Amazônia, que se concentram nos meses da temporada seca, de junho a novembro. Muitas têm origem no desmatamento, que na grande maioria das ocorrências é de natureza ilegal naquele bioma. Depois que derrubam as árvores e retiram a madeira de valor comercial, os desmatadores deixam o restante da matéria orgânica secar por meses até a estação seca. O fogo é ateado nessas áreas, às vezes mais de uma vez, e a maioria delas vira pasto. Nesse processo, pode acontecer de o fogo escapar para alguma área de mata adjacente, e assim têm início muitos incêndios florestais. Foi o que ocorreu no trecho do Baixo Tapajós em que ficava o breu morto.

O fogo na floresta úmida pode chegar por outros caminhos, sempre por obra humana. Pecuaristas recorrem às queimadas regularmente para manter limpas as pastagens, que na Amazônia são rapidamente tomadas pela vegetação. E as populações tradicionais lançam mão do fogo para preparar o roçado e usar a matéria orgânica queimada como fertilizante. Nos dois casos, se cuidados não forem tomados, as chamas podem escapar para trechos de floresta intacta, onde o estrago é certo. Secas intensas, como nos anos de El Niño, aumentam a chance de que isso aconteça.

A ação humana está facilitando duplamente a ocorrência do fogo, disse a geógrafa Ane Alencar, estudiosa de incêndios florestais no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). A seca excepcional de 2023 contou com o efeito do El Niño, mas o aquecimento global foi o fator preponderante. Estudo do grupo World Weather Attribution, divulgado em janeiro, apontou que a emergência climática tornou a ocorrência da seca trinta vezes mais provável. (Como a seca de 2015 não passou por estudo semelhante, não é possível afirmar o quanto o aquecimento global ajudou a agravar a devastação causada pelos efeitos do El Niño.) “Estamos criando condições diretas e indiretas para o fogo. Diretas, ao causar distúrbios na floresta ao tirar madeira. Indiretas, causando as mudanças climáticas”, completa Alencar.

A temperatura média da Bacia Amazônica já está 1,5ºC mais quente do que era no período pré-industrial, disse Berenguer. Em algumas regiões, os níveis de precipitação estão diminuindo e a temporada seca está durando mais tempo. O quadro ficará ainda pior se alguém fizer a derrubada seletiva de algumas árvores para explorar as madeiras de maior valor de um trecho de floresta. Isso vai diminuir a umidade da mata e torná-la mais vulnerável ao fogo. “A floresta começa a ficar como um queijo suíço, cheia de buracos por onde entra mais luz, mais Sol e mais vento, mudando o microclima”, explicou Berenguer. “A gente junta tudo isso e tem uma Amazônia que é diferente da Amazônia dos anos 1980 e 1990”, disse. Essa é a Amazônia do Antropoceno, era geológica marcada pelos rastros da ação humana no próprio planeta: uma floresta mais quente, mais seca e mais inflamável.

Quando um trecho da floresta úmida queima pela primeira vez, o fogo é baixo e se espalha lentamente. Se esse trecho volta a queimar, como aconteceu com a área onde estava o breu, as chamas podem atingir alturas maiores, porque a floresta estará mais inflamável. A ecóloga se preocupa com o que pode acontecer com aquela paisagem – que já apresentava aspecto deplorável – caso pegue fogo novamente daqui a dez anos. “Pois é nessa direção que estão apontando todos os modelos climáticos”, acrescentou.

Os pesquisadores não sabem dizer ao certo quanto tempo uma floresta tropical queimada leva para se recuperar – nem se ela voltará a ser como antes do fogo. O estudo dos trechos de floresta que pegaram fogo no El Niño de 2015 e 2016 está começando a trazer algumas respostas. Para quem visita uma dessas áreas, a primeira impressão pode ser de que a vida está reencontrando seu caminho. A área está cheia de árvores e a paleta de cores é dominada pelo verde. Mas um exame atento revelará uma paisagem homogênea e monótona.

As árvores são todas embaúbas, uma das chamadas espécies pioneiras que voltam a povoar a floresta depois do fogo. A embaúba é uma árvore de tronco fino, praticamente oca, que chega a 10 metros de altura. Berenguer disse que a floresta em recuperação não é capaz de armazenar tanto carbono quanto uma mata madura porque é dominada por embaúbas. “Trinta anos depois do fogo, a floresta ainda armazena 25% menos de carbono.”

Quando levou a piauí a um trecho de mata que pegou fogo em 2015, mas foi poupado em 2023, Berenguer chamou atenção para a falta de diversidade da floresta em recuperação: as árvores têm todas a mesma idade, a mesma altura, o mesmo diâmetro. Quem olhasse para cima conseguiria ver grandes porções do céu, o que não ocorre numa floresta sem perturbações, que pode parecer claustrofóbica para alguns. A riqueza de estímulos também era menor: na mata em recuperação há menos cores, menos cheiros, menos sons. Aquela era uma mata silenciosa, em contraste com a algazarra sonora que imperava num trecho de floresta intocada que a piauí também visitou naquele dia. Ali, sapos, aves e insetos faziam a trilha sonora de uma paisagem diversa composta por árvores de tipos e tamanhos variados.

Os incêndios podem matar vários bichos que vivem na floresta. Jabutis, tatus, pacas e tamanduás estão entre as espécies cujos cadáveres já foram encontrados nas matas consumidas pelo fogo no Baixo Tapajós. Gilson de Jesus Oliveira, morador da região e auxiliar de pesquisa de Berenguer, contou que as queimadas afugentam muitos animais porque eles não encontram alimento na mata em recuperação. “Só daqui a um ano e meio é que a gente vai começar a ver bicho de novo nas áreas que pegaram fogo.”

Enquanto caminhava pela floresta intocada, Joice Ferreira chamou a atenção para a presença de samambaias e disse que elas eram um sinal de biodiversidade. “Um dos indicadores de distúrbio numa floresta é que você deixa de ter espécies que precisam de mais umidade, como as samambaias ou os liquens”, afirmou a ecóloga. Nas florestas degradadas, que são mais secas e expostas à luz, espécies especialistas vão sendo substituídas pelas generalistas, empobrecendo a biodiversidade.

Ferreira explicou que há uma sucessão natural na floresta. Quando uma árvore morre, abre espaço para que espécies diferentes cresçam. Se agora a paisagem é dominada pelas embaúbas, dentro de algumas décadas virão outras árvores e com elas diferentes aves e insetos, até que dali a mais algumas décadas venha uma nova leva de plantas, fungos e bichos. A vida de uma floresta se conta na casa dos séculos. Num trecho de mata não perturbada, a idade média das árvores é da ordem de trezentos anos. “A recuperação da floresta não acontece na escala de vida humana”, disse Berenguer.

No dia 5 de agosto de 2019, o jornal Folha do Progresso, de Novo Progresso, no Pará, publicou que produtores e criadores da região da BR-163 haviam escolhido o dia 10 daquele mês para fazer queimadas coordenadas com a finalidade de limpar pastagens e áreas desmatadas em suas terras. Com base no depoimento de uma liderança não identificada, o texto afirmou que eles estavam amparados pelas palavras do então presidente Jair Bolsonaro. Na eleição de 2018, Bolsonaro ganhou com folga em Novo Progresso, com 73% dos votos no primeiro turno. Estava começando a primeira temporada de seca na Amazônia de seu governo, e o desmatamento vinha escalando desde a campanha eleitoral.

Os fazendeiros cumpriram o prometido, como mostrou a explosão do número de focos de incêndio nas imagens de satélite medidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) nas cidades à margem da estrada, como Novo Progresso, Altamira e São Félix do Xingu. O episódio ficou conhecido como “Dia do Fogo”, mas a alta no número de queimadas não se limitou ao dia 10.

Nas semanas seguintes, Bolsonaro espalhou vários disparates sobre os incêndios florestais na Amazônia. Disse que “a floresta não está pegando fogo como o pessoal está dizendo” e que a média das queimadas estava abaixo dos últimos anos – duas alegações que contrariavam os dados oficiais do Inpe. Chegou a sugerir que as queimadas fossem obra de ONGs e depois afirmou que alguns incêndios podiam surgir de forma espontânea.

O Inpe monitora as queimadas na Amazônia com imagens de satélite desde os anos 1980, num programa idealizado pelo engenheiro ambiental Alberto Setzer, que morreu em setembro de 2023. O sistema reúne informações coletadas em tempo real e reunidas num portal que permite orientar as ações de prevenção e combate dos incêndios florestais. “Os dados são atualizados no portal de queimadas a cada dez minutos, quando chega uma nova imagem de satélite”, disse à piauí Fabiano Morelli, pesquisador responsável pelo programa. A plataforma calcula ainda a área atingida pelas queimadas e faz uma previsão do risco de fogo para uma determinada localidade.

As imagens de satélite indicam onde estão as prováveis queimadas identificando os focos de calor com sensores que medem a energia emitida pela superfície e algoritmos que excluem possíveis falsos resultados. A quantidade de focos de incêndio é o indicador-padrão para medir a extensão das queimadas numa determinada região ou período. No caso do Dia do Fogo, os satélites identificaram um salto de mais de 300% no número de focos em Novo Progresso e altas significativas em outros municípios envolvidos na ação coordenada dos produtores rurais.

Morelli explicou que as imagens de satélite são incapazes de discriminar o tipo de fogo. “Estou olhando e dizendo que ali tem fogo, mas não estou qualificando se ele é intencional ou autorizado”, afirmou o cientista do Inpe. Por isso, esses dados eram incapazes de desfazer a confusão estimulada por Bolsonaro, deixando no ar a possibilidade de que se tratasse de um fenômeno natural sem ligação com o crime ambiental.

Para um grupo de pesquisadores preocupados com o fogo na Amazônia, a dúvida semeada por Bolsonaro sobre a origem das queimadas serviu de estímulo ao desenvolvimento de um sistema que permitisse trazer mais detalhes sobre a natureza de cada ocorrência de fogo identificada pelos satélites. “O presidente estava dizendo que as queimadas não eram por causa do desmatamento e ninguém na comunidade tinha informação sobre os tipos de fogo que estavam acontecendo. Por isso desenvolvemos esse método”, disse Douglas Morton, pesquisador da Nasa, um dos idealizadores da iniciativa.

O novo método analisa imagens de satélite e permite classificar em tempo real cada queimada identificada em quatro tipos de fogo. O pesquisador da Nasa explicou que, em vez de analisar cada imagem individualmente, o sistema compara com imagens da mesma área feitas 12 ou 24 horas antes e leva em conta a cobertura vegetal no presente e no passado. Em outras palavras, a ferramenta permite reconstituir a história de cada ocorrência. “Estamos considerando as queimadas como eventos, e não somente como focos de calor”, disse Morton.

Ao classificar esses eventos em função da natureza do fogo, o novo sistema pode orientar ações dos gestores e tornar mais eficiente o combate aos incêndios florestais. Chamada Amazon Fire Dashboard, a plataforma da Nasa foi lançada em 2020 e seus dados estão sendo compartilhados com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e com outras instituições brasileiras, que podem adotá-los no planejamento de suas ações.

Para testar a validade do método, os pesquisadores recorreram a ele para classificar a natureza dos incêndios detectados na temporada de 2019, quando houve o infame Dia do Fogo. Analisando as ocorrências entre abril e dezembro, concluíram que o tipo predominante de fogo naquela temporada foi a queima de áreas recém-desmatadas. Não eram, portanto, queimadas surgidas espontaneamente nem por iniciativa de alguma ONG ambiental.

Turbinada pelo fenômeno El Niño, mas também por um aquecimento atípico das águas do Atlântico Norte, a seca de 2023 deixou marcas por toda a Amazônia. Quase todos os municípios do Amazonas entraram em estado de emergência hídrica, e muitos deles precisaram racionar energia. Em Manaus, o nível do Rio Negro chegou a menos de 13 metros, o mais baixo desde que as medições passaram a ser feitas, há mais de um século (na cheia, o nível do rio pode chegar a quase 30 metros). Voltou a chover em algumas partes da Amazônia, mas os efeitos do El Niño de 2023 ainda devem ser sentidos ao longo do primeiro semestre de 2024, de acordo com projeções meteorológicas.

No Baixo Tapajós, dados analisados por Morton indicam que os megaincêndios florestais de 2023 atingiram aproximadamente 300 mil hectares, uma área mais de três vezes menor do que a afetada no El Niño de 2015 e 2016. Mas ainda é cedo para fazer um balanço definitivo do estrago, já que a mortalidade de árvores depois do fogo pode se manter elevada por dois anos e meio.

O El Niño do ano passado parece ter sido menos devastador do que o de oito anos atrás. “Em 2015 passamos cerca de quatro ou cinco meses sem qualquer chuva no Baixo Tapajós, já em 2023 tivemos pelo menos uma chuva por mês”, disse José Risonei Assis da Silva, funcionário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que atua como gestor da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós. Além disso, continuou ele, a maior fiscalização das queimadas e medidas de educação ambiental ajudaram a atenuar os impactos da última temporada de fogo.

As populações tradicionais que vivem nas duas unidades de conservação do Baixo Tapajós – cerca de 22 mil pessoas – recorrem ao fogo para limpar o terreno e preparar suas roças. Nos anos muito secos, é preciso redobrar o cuidado no procedimento, para evitar que o fo­go escape para alguma área de floresta. As famílias têm que pedir autorização aos gestores para realizar o procedimento. Silva explicou que, desde 2015, quando os incêndios atingiram 14% da área da floresta nacional, o uso de fogo só é autorizado nas áreas de regeneração de capoeira, com um limite de 2 hectares por família. No ano passado, a maior parte do fogo que atingiu a Flona do Tapajós provavelmente escapou de áreas que tinham sido desmatadas do outro lado da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém e delimita um dos lados da unidade de conservação.

A Flona do Tapajós se estende por 530 mil hectares e tem uma brigada própria de combate a incêndios florestais. Silva contou que, na temporada de fogo de 2023, a brigada estava mais preparada do que em 2015 para enfrentar o fogo. “Nunca tivemos uma equipe tão grande trabalhando com incêndios na floresta nacional”, disse. Foram 27 brigadistas no ano passado. Além disso, o grupo contou com quadriciclos para o transporte e drones para mapear a extensão do fogo, recursos que não estavam disponíveis oito anos atrás.

A lógica que orienta o combate aos incêndios florestais é diferente daquela adotada para apagar um fogo urbano. Caso o fogo seja de pequena dimensão e intensidade, os brigadistas podem tentar apagá-lo usando abafadores ou a bomba d’água que carregam nas costas, como disse Marcos Jesus de Oliveira, que atuou no combate aos incêndios florestais no Baixo Tapajós. Mas essa é a exceção, e não a norma. “Quando o fogo está descontrolado, tem que fazer a linha de defesa, que é o que chamamos de aceiro”, continuou o brigadista. Os aceiros são faixas de terra livres de matéria orgânica feitas com a finalidade de isolar o fogo e impedir que ele se alastre. Por isso, os brigadistas vão a campo equipados de motosserras, facões, enxadas, sopradores e outras ferramentas para limpar o chão de folhas, galhos e troncos. Nessa temporada de fogo não faltou trabalho aos brigadistas, mas eles contaram também com uma forcinha do céu. “O melhor brigadista é a chuva”, brincou Oliveira.

O brigadista assinou um contrato temporário com o ICMBio, responsável pela gestão das unidades de conservação federais, para atuar na brigada anti-incêndios da Flona do Tapajós. Mas ele e outros colegas foram escalados também para combater o fogo na unidade de conservação que fica do outro lado do rio, a Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns, que tem 677 mil hectares e não dispõe de uma brigada própria. Ali o El Niño de 2015 fez um estrago grande, e os incêndios atingiram 28% do território. O fogo voltou a entrar na reserva no ano passado. Só que a origem principal foram as queimadas para o preparo do roçado pelas populações locais.

A piauí visitou a reserva extrativista e conversou com Jadson Azulay, líder de uma associação comunitária de moradores da localidade de Jauarituba, situada às margens do Tapajós. Azulay reconheceu que o fogo tinha escapado para a floresta por descuido de moradores que haviam preparado seu roçado sem fazer aceiros ou tomar outras medidas preventivas. “A pessoa não teve a noção de entender que naquele momento estava muito seco, há mais de um mês sem chover”, disse. “Esse fogo não era para ter existido.”

O líder comunitário contou que o fogo invadiu uma área de restauração florestal que vinha sendo monitorada pela equipe da ecóloga Ima Vieira, do Museu Paraense Emílio Goeldi. O fogo matou pés de açaí, cupuaçu, andiroba e outras espécies que tinham sido plantadas na área de reflorestamento. “Foi um prejuízo muito grande”, afirmou. Azulay espera que o episódio desperte nos moradores a consciência de que as secas serão cada vez mais intensas e que eles precisam sempre fazer aceiros e trabalhar coletivamente, monitorando as queimadas uns dos outros. “Serve de exemplo para não repetirmos o mesmo erro no próximo ano.”

A gestora da Resex Tapajós-Arapiuns é a bióloga Jôine Evangelista do Vale, uma funcionária de carreira do ICMBio de 28 anos que assumiu o posto em agosto passado, dois meses antes do início da temporada de incêndios florestais. A bióloga tomou uma medida inédita e proibiu o uso do fogo na reserva. Ela disse que a medida foi tomada em conjunto por uma equipe técnica, a associação concessionária do território e o conselho que representa os povos indígenas que vivem ali. “Chegamos a um consenso pela proibição do uso do fogo temporariamente, enquanto não se controlassem os incêndios e não houvesse condições climáticas favoráveis”, disse Vale, no escritório do ICMBio em Santarém. A proibição passou a valer uma semana depois da chegada do fogo e só foi suspensa dois meses mais tarde, quando voltou a chover.

Para Joice Ferreira, proibir que as populações mais vulneráveis da Amazônia usem o fogo é problemático porque pode comprometer a única forma que elas têm de cultivar seus alimentos. “A queima da floresta para preparo da roça é fundamental para a segurança alimentar dessas populações”, disse. Para a ecóloga, permitir que eles continuem adotando essa prática é uma questão de justiça climática. “Não podemos negar a eles esse direito, mas ao mesmo tempo temos que ajudá-los a adaptar seu sistema de cultura alimentar à nova realidade que estamos vivendo.”

A saída para o impasse envolve ações em várias frentes, que incluem o treinamento dessas populações para o uso seguro do fogo, a busca por alternativas para substituir seu uso no preparo do roçado ou gerar renda para as comunidades. As pesquisadoras sugerem a instituição de um programa inspirado no seguro-defeso, que remunera os pescadores tradicionais que não podem pescar durante o período de reprodução de peixes e crustáceos. No caso do fogo, o governo pagaria uma bolsa para compensar as populações tradicionais impedidas de fazer suas roças nos anos de seca extrema.

Se no ano passado a proibição das queimadas foi decidida de forma emergencial, a ideia de Jôine Evangelista é que a reserva extrativista passe a ter um calendário com janelas específicas para o uso do fogo no intuito de lidar com as secas extremas que devem passar a ser mais frequentes. Para isso, um calendário do fogo será elaborado em diálogo com os moradores. A ideia é instituir “uma cultura de uso do fogo com muita consciência e regramento”, disse ela. Questionada sobre a segurança alimentar dos moradores impedidos de usar o fogo, a gestora alegou que no ano passado o ICMBio se mobilizou para distribuir entre os moradores da reserva cestas básicas obtidas com recursos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Em abril de 2023, Joice Ferreira e outros pesquisadores vinculados à Rede Amazônia Sustentável foram a Brasília. Queriam entregar em mãos a técnicos do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) um documento elaborado por eles com o objetivo de chamar a atenção do governo para a prevenção e o combate à degradação florestal provocada pelo fogo, pela exploração madeireira ou por outras ações humanas.

Naquele momento já estava claro que 2023 seria um ano de El Niño e que, com ele, viria mais uma temporada severa de seca e megaincêndios florestais. “O governo também sabia que tinha muita floresta derrubada que ainda não tinha sido queimada, ou seja, havia muita fonte de ignição para o fogo”, disse a ecóloga Erika Berenguer. “Não tem desculpa para não ter tido prevenção.”

A elaboração do documento que os pesquisadores levaram aos gestores partiu da percepção de que os esforços do governo estavam muito centrados no combate ao desmatamento, deixando em segundo plano a luta contra a degradação florestal, que demanda estratégias específicas. Os autores enumeraram seis políticas públicas que o governo poderia adotar para fazer frente ao fogo e outros agentes da degradação. Recomendaram, por exemplo, a criação de um fundo emergencial para financiar ações de prevenção e combate a incêndios nos anos de seca extrema. A ideia era que as recomendações fossem consideradas na elaboração do plano de combate ao desmatamento na Amazônia, que o governo submetera naquele mês à apreciação da sociedade.

Durante o primeiro mandato de Lula, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, lançou o plano que levou a uma diminuição de 83,5% do desmatamento da Amazônia num intervalo de oito anos, entre 2004 e 2012. De volta ao Planalto em 2023, o presidente chamou mais uma vez Marina para comandar o mma. A estrutura do ministério passou a contar com uma secretaria extraordinária para o controle do desmatamento, confiada ao advogado socioambiental André Lima.

Numa entrevista à piauí, em dezembro de 2023, Lima disse que a versão final do plano de combate ao desmatamento atendeu a algumas das reivindicações feitas pela Rede Amazônia Sustentável. A definição dos municípios prioritários para as ações do plano, por exemplo, passou a levar em conta não só os indicadores de desmatamento, mas também os de degradação florestal, como recomendavam os pesquisadores. “A degradação entrou como um critério de definição de prioridade tanto para a fiscalização quanto para o investimento em ações de regularização fundiária”, afirmou Lima.

Questionado sobre como o governo agiu preventivamente para evitar os incêndios florestais num ano de El Niño, o secretário tirou da manga os bons resultados no combate ao desmatamento. A derrubada da Amazônia caiu 22% entre 2022 e 2023, revertendo a tendência de alta observada durante o governo Bolsonaro, quando o desmatamento aumentou quase 60%. Lima lembrou que muitos incêndios florestais surgem do escape do fogo usado para queimar áreas recém-desmatadas. “Se a gente reduz significativamente o desmatamento, estamos reduzindo significativamente o potencial de mais incêndios florestais.”

Para Lima, se o desmatamento continuasse alto, a temporada de queimadas num ano de El Niño teria sido catastrófica. “2023 foi um ano muito difícil porque tivemos que reconstruir a nave enquanto navegávamos”, disse Lima, referindo-se ao desmonte das estruturas federais de fiscalização ambiental durante o governo anterior. “Mas temos que estar preparados para ter um ano pior do que o outro daqui para a frente.”

Na estrutura do governo federal, parte das ações de combate aos incêndios florestais é de incumbência do Ibama. O diretor de proteção ambiental do órgão, o biólogo Jair Schmitt, disse que no ano passado o Ibama contratou 2101 brigadistas. “Isso é 17% mais do que foi em 2022, um ano que teve mais focos de calor do que em 2023.” Schmitt acrescentou que isso só foi viável porque a equipe de transição do governo conseguiu negociar um aumento do orçamento previsto para o combate a incêndios florestais no ano passado.

A versão final do plano de combate ao desmatamento – que o governo entregou depois da consulta pública – incorporou algumas sugestões feitas por Joice Ferreira e seus colegas, mas ela disse que ainda está insatisfeita. “O plano melhorou, mas onde está o orçamento específico para anos de seca extrema como esse?”, questionou. “Isso tem que ser preparado desde cedo.”

Já Erika Berenguer avalia que o governo segue muito preso às fórmulas que permitiram combater o desmatamento no começo do século. “Que bom que essas estratégias deram certo no passado, mas a Amazônia mudou, o clima mudou, e no futuro vai ser ainda mais diferente”, disse. A ecóloga acredita que o país precisa de políticas públicas adequadas a essa nova realidade. “Não podemos pensar em soluções para a Amazônia da mesma forma como a gente pensava há vinte anos.”

Brigadas bem preparadas para conter o fogo são imprescindíveis e têm que continuar existindo, mas ainda operam na lógica do combate, e não da prevenção dos incêndios florestais, pontuou Ferreira. Se uma brigada precisa entrar em ação, é porque a floresta pegou fogo. Nos casos em que o incêndio poderia ser evitado, isso é uma falha dos gestores, que no Brasil estão acostumados a agir a reboque do fogo e raramente se antecipam a ele. “Não temos uma estrutura institucional para fazer a prevenção”, disse Ferreira.

Uma medida que caminha nessa direção é uma plataforma em fase de testes nas duas unidades de conservação do Baixo Tapajós. Desenvolvida pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a plataforma calcula o risco de incêndios de uma região a partir de uma série de parâmetros, como temperatura, umidade ou o número de dias sem chuva. O diferencial do sistema é que a previsão é feita para uma janela de três meses, enquanto a ferramenta do Inpe opera num horizonte de dias. Ao ampliar essa janela, a plataforma oferece aos gestores mais tempo. “Com isso a gente pode entender melhor quais são as áreas prioritárias e fazer o planejamento das estratégias de prevenção”, disse a bióloga Liana Anderson, uma das criadoras da plataforma. Anderson contou que a ferramenta está em atividade há pouco mais de um ano e já está sendo adotada de forma piloto em estados como Mato Grosso do Sul.

As ferramentas computacionais ajudam a guiar as políticas, mas nem sempre é preciso recorrer à tecnologia para tomar as medidas certas. “Não precisa rodar modelo nenhum para sabermos que, na estação seca deste ano, as chances de grandes incêndios são enormes”, disse Anderson. Isso porque, em 2023, no período em que essas florestas deveriam ter recebido a recarga de água para manter sua umidade, elas atravessaram uma seca com temperaturas extremas. “Quando vier a estação seca, essa floresta já vai estar mais suscetível à entrada do fogo.” As eleições municipais no fim do ano, nas quais políticos da Amazônia ligados às forças que promovem o desmatamento vão tentar se eleger, também são um fator de risco para o aumento dos incêndios florestais na avaliação da bióloga.

Joice Ferreira enxerga o fogo como sintoma de uma doença crônica, que nasce da forma equivocada como a Amazônia é ocupada. É possível e necessário adotar medidas para evitar as queimadas, mas a médio ou longo prazo o problema só será resolvido se for repensada estruturalmente a forma como se utilizam aquelas terras. Em outras palavras, é preciso trabalhar para tornar as paisagens menos suscetíveis ao fogo. Seja como for, a solução para um futuro sem incêndios florestais passa pelo reconhecimento de que o fogo não é a raiz do problema.

Ao ouvir a colega falando de sintoma, Erika Berenguer comparou nossa relação com as queimadas na Amazônia com a situação de quem faz psicanálise e só consegue lidar com um trauma depois de nomeá-lo ao cabo de sucessivas sessões de terapia. Para ela, é hora de reconhecer e dar nome a esse trauma para que enfim possamos atacá-lo de frente. “Cresci ouvindo falar do desmatamento na história do meu país, mas o fogo não tem o mesmo protagonismo”, disse a ecóloga. “Só vamos poder começar a tratar esses sintomas depois que falarmos em incêndios florestais nessa terapia coletiva chamada Brasil.”

Um passo importante em tal direção seria dar mais visibilidade aos estragos causados pelo fogo na Amazônia. O governo divulga desde 1988 a taxa anual de desmatamento do bioma, calculada a partir de imagens de satélite pelo Inpe. Berenguer defende que o instituto faça o mesmo com os números da área afetada por incêndios florestais a cada ano, como forma de pautar a discussão. (Fabiano Morelli, o pesquisador do Inpe que cuida do programa de monitoramento de queimadas, discorda dessa avaliação. Em seu ponto de vista, os dados sobre a extensão de queimadas já são bastante noticiados pela imprensa, e não faz sentido promover uma consolidação anual dos dados que são atualizados a cada dez minutos no portal do instituto.)

De todo modo, Berenguer acredita que a solução só virá quando o fogo na Amazônia virar assunto de conversa de bar. Tomada por um sentimento de angústia a cada vez que entra na floresta devastada, ela gostaria de dividi-lo com aqueles que podem fazer algo pela Amazônia. “Meu sonho seria trazer o alto escalão do Ministério do Meio Ambiente para passar calor e perrengue numa mata recém-queimada.”

Às vezes, a revolta vem acompanhada de um sentimento de impotência ou mesmo de culpa. Berenguer contou que, quando os megaincêndios florestais invadiram áreas de floresta no ano passado, ela teve o ímpeto de pedir desculpas às árvores mortas, porque havia testemunhado a devastação causada pelo fogo durante o El Niño de 2015 e se comprometido a lutar para que a tragédia não se repetisse, sem sucesso.

Os momentos de exasperação diante do estrago causado pelo fogo se alternam com lampejos de esperança que reconectam Berenguer com o entusiasmo que a fez escolher a pesquisa de campo. Esses momentos foram mais frequentes em dezembro, quando as chuvas estavam recomeçando e a fumaça espessa que dominou a paisagem do Baixo Tapajós por meses já tinha se dissipado. Enquanto conduzia uma caminhonete na direção de Santarém num começo de noite, Berenguer se espantou com a beleza do céu. “Que bom é finalmente poder voltar a ver estrelas.”


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)