anais da caserna
Felipe Botelho Corrêa Abr 2024 19h02
35 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Você já viu, iaiá? No front, a Lurdinha cantar? […] A voz do comando é firme e segura/A turma avança/Ninguém tem paúra/Naquele corre-corre, deixa até a roupa/Pro brasileiro, alemão é sopa!
Composta em fevereiro de 1945 pelo cabo Natalino Cândido da Silva, da Força Expedicionária Brasileira (FEB), para celebrar a conquista de La Serra, uma vila na Toscana, a marchinha de Carnaval virou um dos hits entre os mais de 25 mil pracinhas brasileiros enviados à Itália na Segunda Guerra Mundial para lutar ao lado dos Aliados contra os exércitos nazista e fascista.
O cabo Silva foi um dos muitos negros que integraram a FEB. Filho de um caixeiro-viajante e uma lavadeira, nasceu em 1919, em Niterói, no Rio de Janeiro. Largou os estudos ainda no primário para trabalhar, primeiro numa plantação de abacaxi e, depois, na nascente indústria metalúrgica nacional. Entrou para o Exército aos 18 anos e, em julho de 1944, aos 25, embarcou para Nápoles, um importante porto de chegada de soldados aliados depois da reconquista de Roma, em junho de 1944.
A letra da marchinha mistura palavras em italiano com jargão militar e gírias de combate – como contou a reportagem O soldado que transformou em música uma batalha histórica para o Brasil na 2ª Guerra, de André Bernardo, publicada na BBC Brasil (em 18/3/2018). Lurdinha, por exemplo, era como os brasileiros se referiam à metralhadora alemã MG42, conhecida em inglês como Hitler’s buzzsaw, por causa do som gerado pelos 1,2 mil tiros por minuto. Dona Guiomar, namorada e futura mulher do letrista, aparece como iaiá – tratamento historicamente dado a meninas e moças negras. É ela a destinatária de notícias sobre os combates – elegias que, como o trecho citado no início sugere, ressaltavam a valentia dos pracinhas diante do poderio militar alemão, prestes a virar sopa no caldeirão brasileiro.
Silva fazia parte do grupo Expedicionários em Ritmos, formado por pracinhas da FEB durante a guerra. Na onda dos populares grupos vocais da era do rádio, com seus violões, pandeiros e ganzás, os cabos, soldados e sargentos cantavam no tom da época. Numa espécie de embolada-exaltação, se ufanavam de tudo que No Brasil tem, título da canção composta por Seraphim José de Oliveira, outro companheiro do grupo, na Itália: Tem tudo que a gente quer/Tem morena e tem lourinha/Tem ouro e tem café/Pois é/Mulata e escurinha/Tem a preta do Guiné/Tem macumba e embolada/Também tem o candomblé.
Historicamente, o Exército Brasileiro teve recrutas dos mais variados fenótipos e cores. O que a letra de Natalino Cândido da Silva não mostra é que “a voz do comando”, que ele caracteriza como firme e segura, foi quase sempre branca, pois, apesar de numerosa, a presença de negros nas Forças Armadas era limitada às baixas patentes.
Um relatório escrito por um oficial americano em abril de 1944 e endereçado ao quartel-general do Teatro de Operações do Mediterrâneo, na Itália, faz um resumo da composição racial do Exército Brasileiro, que naquele momento se preparava para ser o único país latino-americano a combater na guerra:
A diferença de classes é muito aguda, na sociedade e no Exército. Quase sem exceção, os oficiais são da classe superior ou média. Na classe baixa, praticamente não há discriminação racial. Contudo, é possível para um membro branco da classe baixa ou média tornar-se membro da classe alta, mas praticamente impossível para um negro fazer o mesmo. Não há oficiais negros acima da patente de major.
Apesar de não haver arquivos centralizados dos pracinhas da FEB, e ser pouca a informação sistematizada, é possível ter uma ideia geral de quem eram os companheiros de Silva e Oliveira. Do total de expedicionários que embarcaram, cerca de 83% eram dos estados do Sudeste e Sul do país, sendo que somente 52% eram alfabetizados. Em relação ao perfil racial, porém, os dados são mais fragmentados. Os pesquisadores que se debruçaram sobre o assunto embasaram suas análises em amostragens que não são necessariamente representativas do contingente total da FEB – como os relatórios individuais de óbito de 444 soldados mortos, que, obviamente, eram quase todos combatentes da infantaria, dando poucas pistas sobre áreas como artilharia, engenharia, saúde, entre outras.
Há também cerca de 1 150 fichas de reservista que sobreviveram ao tempo. Esses documentos contêm uma série de dados individuais dessa parcela de expedicionários, incluindo alfabetização e cor, com designações que variam entre branco, negro, pardo, moreno, pardo-escuro e amarelo, seguindo, em grande parte, o padrão do Censo de 1940. Alguns pesquisadores usaram as fotos 3×4 dos documentos para tentar definir a cor para além do que está escrito, já que as práticas de “branqueamento” eram comuns no preenchimento dos relatórios. Em todos os métodos, o percentual de brancos é maioria, seguido por pardos nos certificados de reservista ou por negros nos relatórios de sepultamento, o que não necessariamente indica que essa foi a proporção do total do contingente. Ainda assim, mesmo com a limitação da amostragem e com as barreiras impostas ao acesso de negros às forças e a cargos mais altos, fica evidente que a FEB era composta por uma variedade de “cores” que não estavam oficialmente segregadas, o que na época não era comum no contexto daquela guerra global.
Até certo ponto, a Segunda Guerra Mundial pode ser vista como um conflito que tinha o racismo como pólvora, e não somente entre as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Na campanha da Itália, por exemplo, que contou com forças de países como Estados Unidos, Polônia, Grécia e Reino Unido (além de Canadá, Austrália, Índia, Nova Zelândia e África do Sul, todos ainda sob os auspícios do Império Britânico), praticamente todos os exércitos combatentes eram racialmente segregados. Como a frase do oficial americano sugere (“Na classe baixa, praticamente não há discriminação racial”), no olhar de um estrangeiro a FEB aparecia portanto como uma espécie de exceção. Na Itália, foram os americanos que acolheram a FEB, tornando-se responsáveis por boa parte do treinamento e armamento dos soldados brasileiros, e até mesmo do fornecimento de uniformes adequados ao clima frio.
A questão racial no âmbito internacional era estratégica e preocupante para os Estados Unidos, já que influenciava suas próprias políticas internas. Os americanos não tinham um argumento moral em relação às atrocidades baseadas em ideologias raciais que marcaram os regimes nazista e fascista. No começo dos anos 1940, boa parte do país vivia ainda uma escandalosa segregação racial e cotidianos linchamentos de negros em público, principalmente nos estados do Sul. Esse calcanhar de aquiles já era apontado pela imprensa negra americana[1] desde a Guerra Civil Espanhola, na qual alguns soldados negros do país lutaram em unidades de voluntários racialmente integradas.[2] Assim que Hitler ascendeu ao poder, em 1933, muitos jornalistas negros reconheceram as semelhanças entre as políticas raciais do Terceiro Reich e do governo americano – as leis racistas de Nuremberg logo foram identificadas como uma versão das leis Jim Crow do Sul dos Estados Unidos.[3] Na chamada luta das democracias contra o nazifascismo, a segregação racial americana surgia portanto como uma evidente contradição.
A entrada dos Estados Unidos na guerra, no final de 1941, deixou ainda mais saliente o disparate da retórica democrática em meio à realidade da segregação racial. Não demorou muito para que surgisse a campanha da dupla vitória (Double V), com o primeiro artigo publicado em janeiro de 1942 pelo Pittsburgh Courier.[4] Para muitos negros americanos, o objetivo da guerra era vencer o nazifascismo no exterior e o racismo interno do país. De certa maneira, a chamada dupla vitória já tinha sido conclamada em outros momentos com objetivos semelhantes. Quando o escritor e abolicionista Frederick Douglass encorajou os negros livres a se juntarem ao Exército em 1863, ele descreveu a Guerra Civil como uma “batalha dupla, contra a escravidão no Sul e contra o preconceito no Norte”. Em 1919, o escritor e sociólogo W. E. B. Du Bois encorajou os quase 350 mil soldados negros que serviram durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18) a “batalharem contra as forças do inferno em nossa própria terra”. Ele escreveu: “Nós retornamos da luta. Nós retornamos lutando. Abram caminho para a Democracia!” Os veteranos negros da Primeira Guerra Mundial carregaram à flor da pele esse sentimento ao longo das décadas de 1920 e 1930.
A cautela do governo americano em relação ao assunto era perceptível em seus esforços de diplomacia cultural. Um exemplo disso aparece em janeiro de 1942, logo após a Conferência Pan-Americana realizada no Rio de Janeiro. Naquele momento, os estúdios Disney já estavam completamente abraçados à economia de guerra e se sustentavam com a produção de inúmeras animações para treinamento militar. Logo após uma turnê por vários países latino-americanos em 1941, Walt Disney pediu a Robert Spencer Carr, diretor de pesquisa educativa do estúdio de animação, para enviar um relatório ao Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos (Ociaa, na sigla em inglês) –, a agência do governo responsável pela cooperação interamericana na década de 1940. Intitulado Ideas for more Walt Disney films for South American release (Ideias para mais filmes de Walt Disney a serem lançados na América do Sul), o relatório descrevia o potencial das coloridas animações no esforço político e militar de influência regional, estabelecendo os princípios para a empreitada. O quarto tema estratégico (num total de 49) sugeria que os filmes fizessem comparações entre os exércitos e marinhas dos países aliados nas Américas com aqueles do Eixo, num simples exercício de demografia que teria como pano de fundo “um sentimento caloroso de amizade e solidariedade inter-racial, com o objetivo de neutralizar a propaganda do Eixo sobre os preconceitos raciais do Tio Sam”.
Naquele mesmo ano, a toque de caixa (em apenas oito semanas), o estúdio Disney produziu e lançou Alô, amigos, com segmentos sobre Peru, Argentina, Chile e Brasil. A famosa cena do encontro do Pato Donald com Zé Carioca no Rio de Janeiro, tendo Aquarela do Brasil de Ary Barroso como fundo musical, é um óbvio exemplo do que Carr sugere, dentro da ampla política de boa vizinhança e do potencial das animações de transmitirem “um profundo sentimento religioso que pode ser associado a ideais políticos”. O Pato Donald era a figura mais popular do estúdio na época (tão popular que era quem mais aparecia em distintivos e até aeronaves de diversas unidades do Exército americano, depois de Walt Disney se dispor a desenhar e dar uma identidade visual aos combatentes). Apesar de usar uniforme de marinheiro desde sua criação em 1934, Donald muda de força e aparece em 1942 se alistando no Exército. É o primeiro de uma série de seis filmes produzidos naquele ano que trata do cotidiano do pato durante a guerra.
No encontro com Zé Carioca, portanto, Donald já representava a figura de um militar americano branco (na América do Norte, a plumagem de patos tem uma variada paleta de cores, mas Donald sempre foi branco). Na cena de Alô, amigos em que Zé Carioca surge aos poucos das tintas do ilustrador, o último elemento que aparece é a cor do papagaio: verde. Donald vê as cores da natureza tropical e dá um abraço no novo amigo, abraço esse que ele nunca daria em seu país (na definição racial dos Estados Unidos, Zé Carioca, morador do morro e estereótipo de um malandro do Rio de Janeiro, seria racializado como colored). Donald escuta o samba exuberante com arranjos de big band de jazz, mas não entende a letra que fala de mulato, mãe preta e rei Congo.
Não é gratuito que o filme tenha sido construído tentando apagar qualquer vestígio de preconceito racial. Naquele mesmo ano de 1939, quando Barroso abria as cortinas do passado para cantar sobre um “mulato inzoneiro”, a trilha sonora nos Estados Unidos era diametralmente diferente em relação aos negros: é o ano em que Billie Holiday gravou Strange fruit (Fruta estranha), canção seminal composta por Abel Meeropol, falando sobre árvores que em lugar de folhas verdes e doces frutos tinham folhas manchadas de sangue e corpos negros pendurados por causa de linchamentos (a revista Time elegeu Strange fruit a canção do século em 1999).
No filme de Walt Disney, a representação de um “sentimento caloroso de amizade e solidariedade inter-racial” é clara: não importa se são patos ou papagaios, ambos são aves. O encontro mistura curiosidade, surpresa, amizade e diversão. Nos princípios estratégicos elaborados por Carr, os filmes dos estúdios Disney tinham o potencial simbólico de dar “um buquê para cada país latino-americano, mostrando e contando o que cada um está contribuindo para a vitória”. No caso do Brasil, tal contribuição parecia ser em relação à tensa questão racial daquele período.
É difícil pensar que tenha sido coincidência a FEB ter sido enviada para a guerra no mesmo mês e para o mesmo local que os cerca de 15 mil soldados negros da 92a Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos, conhecida como Buffalo Soldiers. A origem dessa divisão remonta à Guerra Civil do país, quando cerca de 186 mil soldados negros fizeram parte do Exército lutando em unidades racialmente segregadas. A Divisão Búfalo era uma dessas unidades (o apelido foi dado por combatentes indígenas em referência aos cabelos escuros e encaracolados dos soldados que, quando montados em cavalos, lembravam a pelagem de um búfalo).
Após a Guerra Civil, em 1866, os Buffalo Soldiers foram oficialmente reconhecidos pelo Congresso americano e se tornaram o primeiro regimento totalmente negro no Exército regular dos Estados Unidos em tempos de paz, encarregados de proteger os assentamentos na fronteira ocidental. A unidade combatente foi reativada em outros conflitos décadas depois, como na Primeira Guerra Mundial e na Guerra da Coreia (1950-53). Na Segunda Guerra Mundial, várias outras unidades de soldados negros embarcaram, somando mais de 1 milhão de militares afrodescendentes. Mas a Divisão Búfalo foi a única que participou de combates na Europa. Junto com a FEB, tinha a missão de ajudar a expulsar o exército de Hitler da Itália.
Embora soldados negros americanos tivessem combatido em praticamente todas as guerras travadas dentro ou fora do país até aquele momento, o período entre as duas guerras mundiais tinha modificado essa dinâmica. A partir da década de 1920, no auge das teorias eugenistas no mundo, diversas estruturas foram implementadas para impedir que negros se alistassem no Exército. Em 1925, a Escola de Guerra do Exército, uma das principais escolas de formação de oficiais dos Estados Unidos, publicou um relatório intitulado The use of negro man power in war (O uso da mão de obra negra na guerra), resumindo avaliações de oficiais brancos sobre o desempenho das tropas negras em conflitos, principalmente na Primeira Guerra Mundial. As avaliações foram feitas usando critérios como craniometria e outras teorias pseudocientíficas da antropologia física do começo do século XX para argumentar que os negros careciam de inteligência, coragem e caráter moral para prosperar como líderes militares ou soldados. Na visão racista do relatório, o soldado negro era mentalmente inferior ao branco; profundamente supersticioso; naturalmente subserviente; alegre e dócil por natureza; sem coragem ou resistência; além de amoroso e medroso. Segundo o mesmo relatório, ao soldado negro faltava também uma bússola moral para diferenciar o certo do errado.
Essas não eram as crenças isoladas de um indivíduo ou grupo preconceituoso, mas a posição oficial do Exército dos Estados Unidos. A ideia principal do relatório era justificar o direcionamento dos negros para unidades de serviço e suprimento em vez de batalhões de combate, retirando as armas de unidades como a Divisão Búfalo. O relatório era uma espécie de justificativa para o crescente embranquecimento do Exército: a sua porcentagem de afrodescendentes caiu dramaticamente no período entre as duas grandes guerras mundiais: de cerca de 10% em 1917 para menos de 2% em 1937. Enquanto 1 em cada 10 cidadãos americanos era negro, no Exército essa proporção se reduzia a 1 em cada 50 soldados. Expressão de uma geração de oficiais brancos formados em meio às tensões geradas pelas leis Jim Crow, o relatório de 1925 formou boa parte dos oficiais que estavam em posições de comando nos anos 1940.
O comandante da 92ª Divisão, major-general Edward Almond, era natural da Virgínia, estado do Sul com estrito regime de segregação, e um veterano da Primeira Guerra Mundial. Tinha, portanto, preconceitos arraigados e moldados por sua origem e pelo relatório de 1925, que balizou sua formação como oficial. Ele acreditava firmemente que a integração racial enfraqueceria o Exército. “Não há dúvida em minha mente sobre as diferenças inerentes entre as raças”, disse Almond. Ele se opôs à integração militar até sua morte em 1979 e nunca acreditou que negros pudessem ser bons soldados. Os líderes do Exército regularmente escolhiam comandantes brancos do Sul dos Estados Unidos para liderar unidades negras porque, segundo um pensamento comum na época, eles sabiam como controlar essas tropas.
Desde que tinha sido reativada em 1942, a 92ª Divisão do Exército americano tinha se tornado uma espécie de teste racial. Cada movimento da divisão era acompanhado de perto por autoridades militares e pela imprensa, e seu desempenho em combate era celebrado e criticado de acordo com a posição política de quem o fazia. Quando sofreram derrotas, como a devastadora ofensiva alemã na última semana de 1944, muitos argumentaram que a unidade não era adequada para o combate. Oficiais brancos culpavam as tropas negras pelo fracasso da divisão em capturar e manter pontos-chave do inimigo. Essas preocupações rapidamente encontraram espaço na imprensa americana, com artigos sugerindo que os esforços das tropas negras em combate tinham produzido mais decepção do que qualquer outra coisa. Em situações semelhantes com unidades de brancos, os pesos e as medidas eram diferentes. As derrotas passavam a ser “derrocadas gloriosas”, como descreveu o título de um artigo publicado no Saturday Evening Post para elogiar a coragem de uma divisão de infantaria de novatos brancos.
Para avaliar de perto o desempenho da Divisão Búfalo, o secretário de Guerra Henry Lewis Stimson enviou o advogado negro Truman Gibson, seu assessor civil que representava os militares negros no Exército, para a Itália. Depois de conversar com mais de mil oficiais e soldados, ele apresentou suas conclusões numa coletiva de imprensa em março de 1945. Em sua avaliação, reconheceu que o desempenho da divisão estava aquém das expectativas e que alguns soldados entraram em pânico e recuaram. Mas também destacou como o Exército tinha minado a tropa negra desde o treinamento em Fort Huachuca: “Você não pode treinar um homem para ser um soldado combatente por oito horas por dia e depois discriminá-lo por sua raça quando ele deixa o acampamento à noite”, disse ele. “Não há dúvida em minha mente sobre a coragem de oficiais ou soldados negros e qualquer generalização com base na raça é totalmente infundada.”
Ainda que a FEB fosse percebida como menos discriminatória, havia paralelismos claros entre essa postura do Exército americano e algumas práticas do Exército Brasileiro que filtravam o acesso de negros às altas patentes.
Durante o período do Império, quando não existia o serviço militar obrigatório, as fileiras militares brasileiras eram predominantemente preenchidas por recrutas das classes baixas, com grande representação de negros. Ainda que sejam exemplos muito minoritários, houve até mesmo unidades formadas exclusivamente por negros. Na época da Independência, havia os regimentos denominados Henriques (em referência a Henrique Dias, que liderou uma tropa de negros livres contra os holandeses em Pernambuco). Com a criação da Guarda Nacional em 1831, contudo, o governo aboliu a milícia de homens negros. Na Bahia e em Pernambuco também surgiram unidades negras para combater na Guerra do Paraguai (1864-70), quando mais de mil homens se organizaram em companhias denominadas de zuavos, couraçadas ou sapadores.
No final do século XIX, que trouxe a abolição da escravatura e a República, o Exército Brasileiro já era composto por um enorme contingente de todas as cores, que preenchiam as fileiras como soldados, cabos e sargentos. Não era incomum encontrar oficiais negros com patentes de alferes, tenente e capitão. A participação significativa de negros na Guerra do Paraguai, inclusive de ex-escravizados, tinha sido um caminho para a ascensão ao baixo oficialato, ainda que não haja registros de generais negros naquela época.
Com a implementação do serviço militar obrigatório em 1916, porém, o cenário mudou. O fator compulsório, ainda que por sorteio, tinha o objetivo de constituir uma reserva. Indiretamente, a consequência foi uma espécie de embranquecimento da tropa, com táticas de influência política interferindo nos processos de dispensa de recrutas vindos de diversas camadas da sociedade brasileira.
Com o começo da ditadura do Estado Novo sob a liderança de Getúlio Vargas em 1937, o ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, impôs várias mudanças estruturais na organização do Exército, centralizando no seu próprio ministério a direção-geral da força militar, com o Estado-Maior passando a ser apenas um órgão de consulta. A reestruturação foi extensa e também modificou os processos de admissão às escolas militares, responsáveis por formar os futuros oficiais. Essas escolas de formação de oficiais do Exército, que se espalharam pelos exércitos nacionais na segunda metade do século XIX, já atuavam como um dos principais filtros de seleção no meio militar. No caso brasileiro, as escolas tornaram o letramento um grande diferenciador, o que determinou também uma estruturação racial, ainda que indiretamente.
No Estado Novo, contudo, essa diferenciação racial passou a ser explícita. Em 1938, Dutra decretou que a partir daquele ano não seriam admitidos no concurso candidatos que, a juízo do comandante da escola militar, não satisfizessem as condições de “bons antecedentes e predicados pessoais”. Tais predicados ficam mais claros na Nota Secreta de 22 de janeiro de 1941, que o general envia ao comandante da Escola Militar do Realengo. Nela, o ministro da Guerra determina que na seleção preliminar dos concorrentes fossem rigorosamente observadas as seguintes condições para qualquer candidato: ser brasileiro nato e filho legítimo de brasileiros também natos; pertencer a família organizada e de bom conceito; ser física e mentalmente sadio; não ser – nem seus pais – judeu, maometano ou ateu confesso; não ser de cor. Não cabia recurso dos candidatos quanto aos pareceres desfavoráveis do comandante da escola, que eram arquivados de maneira confidencial. Alguns desses pareceres desfavoráveis foram encontrados décadas depois e mostram claramente o porquê de o Exército não ter, fora uma ou outra exceção, oficiais negros na época. Em um deles, lia-se: “É de cor. De pigmentação não muito escura, tem, entretanto, todos os traços característicos dos pretos. É um tipo que se aproxima do vulgarmente conhecido por sarará.” Ainda que os pracinhas se misturassem – dando a impressão de um sincretismo fluido a olhos estrangeiros –, as barreiras para o ingresso e ascensão na carreira militar estavam presentes.
Quando os soldados da Divisão Búfalo desembarcaram em Nápoles em julho de 1944, no mesmo mês que os primeiros expedicionários brasileiros chegaram, estavam aliviados por terem deixado as opressões a que eram submetidos cotidianamente enquanto treinavam em Fort Huachuca (em Tucson, no Arizona), próximo à fronteira com o México. Antes da chegada da divisão, havia muitos soldados negros em posições de apoio na Itália (carregando munição, combustível ou comida), mas soldados negros combatentes não eram algo comum, e isso gerava certo respeito.
Os nazistas tinham fortificado as imponentes montanhas dos Apeninos com artilharia, casamatas, ninhos de metralhadoras e bunkers, mas depois que os Aliados capturaram Roma, em junho de 1944, Hitler ordenou que suas tropas recuassem para o Norte da Itália e defendessem a todo custo a Linha Gótica, considerada a nova fronteira Sul do nazismo. O objetivo dos Aliados naquele momento era, portanto, romper essa linha, uma barreira defensiva de mais de 320 km de extensão, que se estendia do Mar da Ligúria ao Mar Adriático.
A FEB e a 92ª Divisão combateram juntas, com suas subunidades substituindo-se mutuamente em vários momentos. Quando os brasileiros inicialmente encontraram o Exército segregado dos Estados Unidos, reagiram com curiosidade e espanto à mera ideia de que tal prática existisse. Para a maioria, era a primeira experiência fora do Brasil, e as relações raciais dos americanos pareciam um conceito alienígena. Uns expressaram o choque pela profunda separação que viam, outros reagiram assinalando que aquilo, sim, era racismo real. Outros apontaram que os negros americanos gostavam dos brasileiros por não verem neles o preconceito racial. Alguns brasileiros eram tão desinformados que acharam um absurdo os Estados Unidos não terem alguma lei que proibisse aquela separação, ignorando que eram justamente leis que estruturavam a segregação. Os oito tomos da História oral do Exército na Segunda Guerra Mundial – publicados em 2001 pela editora brasileira Biblioteca do Exército, com transcrições de 182 entrevistas de veteranos da FEB – contém um rico apanhado dessas impressões sobre a Divisão Búfalo. Eis aqui uma pequena seleção:
General de brigada Rubens Resstel:
Os nossos negros eram tratados iguais a todos, tínhamos, dentre eles, oficiais e sargentos corajosos. Já a divisão americana, só de negros, era desmotivada e todas as vezes que essa divisão ficava cobrindo nosso flanco, nos inquietávamos, porque, a qualquer manifestação dos alemães, eles largavam tudo, pois não queriam se sacrificar por uma nação e um povo que os desprezavam.
Major Elza Cansanção Medeiros:
Nós insistimos em enviar enfermeiras de cor, o que nos criou um imenso problema. Das três mulatas que foram, duas nos deram muito trabalho, pois os americanos não admitiam nem mesmo mulatas. Isso nos criou situações dificílimas. Os americanos não as aceitavam de jeito algum e essa foi uma briga muito séria. […] Enfrentamos o americano em 1944 e levamos a nossa gente, inclusive enfermeiras mulatas, para participar da guerra. Então, não adianta insistir com essa história, porque não existiu nenhum preconceito no Brasil. Há uma integração das três raças, graças a Deus. A pura raça brasileira é uma mestiçagem.
Soldado voluntário Oswaldo Gudolle Aranha:
A 98a [de fato a 92ª] Divisão era bem equipada, os soldados bem uniformizados. Eram homens enormes, como jogadores de basquete. Eu estive com eles quando voltamos dos Apeninos para Roma. Meu caminhão quebrou o eixo e fui a uma seção da 98a [92ª], não sei se de Infantaria ou de Artilharia, para trocar de caminhão. […] Do soldado ao sargento, todos eram negros, de segundo-tenente em diante, eram brancos. Naquela época, era muito forte o racismo nos Estados Unidos. Nossos homens negros não entendiam isso. Eles viam os negros americanos como homens duros, sofridos. Eu até brinquei com o Adão, um soldado enorme, simpático, um carioca engraçado. Disse-lhe, uma vez, para ir conversar com seus irmãos americanos, pois eles estavam acampados próximos de nós. O Adão disse que não era negro, era de origem africana, que não tinha ressentimento algum, que os americanos apresentavam ressentimento em tudo, no gesto, no rosto.
Nessas zonas de contato, brasileiros e americanos encenaram um jogo de espelhos, definindo a si mesmos pela imagem do outro. O espanto dos brasileiros só foi possível porque a realidade que testemunharam na Itália não condizia com as formas de racialização que lhes eram familiares. A crítica ao modelo americano vinha quase sempre acompanhada de uma visão ingênua do Brasil como um modelo sem discriminação.
O espanto foi mútuo. Os soldados negros americanos ficaram surpresos ao encontrar as tropas brasileiras integradas e demonstraram interesse especial na questão racial entre as patentes. Há várias histórias contadas por brasileiros sobre americanos curiosos por saber como funcionavam as hierarquias entre os integrantes da FEB, já que essas muitas vezes cruzavam a chamada “linha de cor” que dividia os americanos. O segundo-sargento João Ferreira de Albuquerque, que era branco, conta que, quando estavam sendo substituídos pela Divisão Búfalo em Lizzano, um capitão americano achou estranho que um colega de Albuquerque – também sargento, mas negro –, desse ordens a outro soldado branco. Albuquerque respondeu que não era problema porque no Brasil não havia preconceito. “Ele [o americano] falou que estava espantado, porque na sua divisão, de major para cima, só podia ser branco. Ficaram admirados de nos ver brincando sem preconceito ou linha de cor”, contou Albuquerque.
Apesar de não haver extensas referências aos brasileiros nos testemunhos dos veteranos negros americanos sobre a guerra, é possível encontrar algumas. Aos 19 anos, James Harden Daugherty, nascido no estado de Maryland, mas na época trabalhando para o governo no birô de impressão do Tesouro, foi alistado na Divisão Búfalo. Em seu livro de memórias, The Buffalo saga (2009), ele relembra o encontro com os pracinhas nas montanhas do Norte da Itália:
Os brasileiros apresentaram uma imagem que nos deixou desapontados [com nós mesmos]. As tropas não eram segregadas por causa de sua cor como nós éramos. As unidades eram mistas. Brancos, negros, amarelos ou vermelhos, todos lutavam e viviam juntos. Os oficiais eram homens de todas as tonalidades. A imagem que essas tropas apresentavam deixou muitas mentes pensativas. Perguntei a um soldado brasileiro se havia alguma segregação no Exército. Ele disse: “Não, não há.” Ele me disse que eles nem sequer pensavam em segregação e ficou surpreso que tal coisa existisse no Exército dos Estados Unidos.
Em 1943, um ano depois de entrar para a universidade, Ivan James Houston também foi chamado para servir entre os búfalos. No fim da guerra, ele voltou e concluiu o curso, e mais tarde se tornou uma figura de grande influência nas comunidades negras americanas. Em seu livro Black warriors: the Buffalo soldiers of World War II (Guerreiros negros: os soldados búfalo da Segunda Guerra Mundial), de 2009, ele fala sobre o encontro com os brasileiros como uma espécie de epifania:
Descobrimos que os jovens robustos que passaram correndo pelo nosso acampamento descalços e vestidos com shorts roxos eram membros da Força Expedicionária Brasileira. Imediatamente percebemos que os brasileiros, que falavam português, estavam integrados, negros e brancos juntos. Isso foi uma revelação.
A participação das tropas brasileiras racialmente integradas também chamou a atenção da imprensa negra americana, que usou fotos das tropas brasileiras em suas páginas como munição para a longa campanha pela dessegregação das Forças Armadas. As fotos vinham acompanhadas por títulos como Negros e brancos lutam juntos pelo Brasil. Por que não pelos Estados Unidos? ou O Brasil mostra como a democracia deve funcionar.[5] Essa imagem do Brasil como uma “democracia racial” teve bastante presença na imprensa negra americana ao longo das décadas de 1930 e 1940, com caracterizações lisonjeiras em veículos importantes sempre enfatizando a comparação entre os dois países. Títulos como Brasil negro: a ausência da linha de cor na república sul-americana[6] e No Brasil quase não há preconceito racial[7] eram comuns e ajudavam a dar uma imagem popular sobre a questão.
Alguns poucos meios, contudo, já começavam a desconstruir essas visões do paraíso, mostrando que, apesar de diferente, o racismo estava presente em vários âmbitos da sociedade brasileira. O número inaugural da revista Ebony, em novembro de 1945, saiu com um artigo que professava “A verdade sobre o Brasil”, argumentando que, se por um lado o país estava numa posição ímpar no mundo em termos de discriminação racial, por outro não era coincidência que a maioria dos negros estivesse nas classes mais pobres. Essa posição crítica era ainda mais contundente entre certos acadêmicos, que se anteciparam a algumas das conclusões que surgiram de estudos financiados pela Unesco no Brasil ao longo da década de 1950. Em 1942, por exemplo, W. E. B. Du Bois já apontava numa palestra proferida no Vassar College, em Nova York, que a ausência tanto de uma rígida classificação racial quanto de tensas relações raciais tinha gerado uma linha de classe econômica, na interseção entre cor e pobreza, mantendo uma imensa classe de trabalhadores negros brasileiros numa condição de exclusão.
Em 2016, fui à Itália para refazer os passos da FEB, numa excursão organizada pelo Instituto de Estudos Brasileiros do King’s College de Londres – universidade na qual leciono. A visita foi guiada por Mario Pereira, filho de Miguel Pereira, único pracinha a ter permanecido na Itália, encarregado pelo governo brasileiro de cuidar do cemitério das vítimas brasileiras da guerra, localizado em Pistoia, na região da Toscana. Soldado gaúcho natural de Passo Fundo, Pereira, o pai, se casou com seu “amor de guerra”, Giuliana Menichini, uma italiana de Pistoia. Após a morte do pai, Mario se tornou o guardião do cemitério, cargo que ocupou até 2021 na Embaixada do Brasil em Roma, quando foi demitido por ter expressado a contradição da visita do então presidente Jair Bolsonaro a um monumento dedicado à luta pela democracia.
Para mim, a viagem tinha também a ver com uma questão familiar. Tenho uma insaciável curiosidade sobre o passado e respeito por meus ancestrais. De alguns sei alguma coisa por meio de arquivos. De outros, por serem negros, tenho mais sorte de conhecê-los por meio da história oral da família. Insatisfeito, debruço-me sobre textos e arquivos para tentar ter uma ideia das épocas de suas vidas. Ao conversar com Mario, me lembrei da história de meus bisavós. Foi também um casamento ítalo-brasileiro, mas com uma diferença importante na miscigenação: ele era negro e baiano de Feira de Santana; ela, branca e filha de imigrantes italianos pobres vindos da Calábria, no Sul da Itália. Membro do corpo da Marinha Mercante, meu bisavô passava meses no mar e, quando voltava, fazia filhos – foram nove, ao todo. Entre suas histórias, há aquelas relacionadas à guerra, como quando viu navios brasileiros sendo bombardeados por submarinos (provavelmente alemães) e afundando. Nesse sentido, minha viagem à Itália era também uma forma de saber um pouco mais sobre o mundo que meus ancestrais experimentaram.
Na Toscana, além de visitar o cemitério dos pracinhas e o monumento que os homenageia, todo o grupo subiu o Monte Castello com Mario, entramos na rede de casamatas que os alemães construíram nas pedras da comuna Borgo a Mozzano e, no caminho, conversamos com colecionadores, admiradores e pessoas que conviveram com os soldados brasileiros durante a guerra.
No alto de uma colina em Castelnuovo di Vergato, numa casa simples, feita de pedras, com portas e janelas pintadas de verde, Iolanda Marata (que morreu sete anos depois, em 2023) nos contou um pouco sobre sua infância e seu contato com os pracinhas. “Os soldados brasileiros ficaram na nossa casa durante uns seis meses, porque nós estávamos exatamente na linha de frente. Os alemães chegaram primeiro, mas tiveram que bater em retirada com o avanço dos brasileiros.” Com um sorriso no rosto, ela lembrou: “Eu muitas vezes comia com os brasileiros porque eles faziam um prato, uma mistura, que eles chamavam de mingau.” A mistura brasileira, incluindo a racial, também tinha ficado na memória dos italianos locais. Em várias conversas, eles enfatizaram a diferença entre brasileiros e americanos nas relações raciais e como aquilo tinha influenciado a imagem que formaram sobre os brasiliani.
Nos pequenos museus da região, vimos um pouco da parafernália militar que sobreviveu: armamentos, itens médicos, mapas, uniformes e até mesmo inúmeros distintivos de guerra, usados nas mangas dos uniformes como identificação. Curiosamente, a imagem de identificação que os pracinhas carregavam no uniforme logo que chegaram à Itália era bastante simples: um escudo com fundo verde e a palavra Brasil em letras brancas. A figura da cobra fumando, que se tornou o símbolo oficial dos expedicionários, só surgiu em outubro de 1944, portanto depois do embarque. A origem do emblema é dúbia. Entre as muitas teorias que existem, a mais citada se refere ao ceticismo do Brasil sobre conseguir enviar soldados ao conflito mundial. Reza a lenda que alguém teria dito (não se sabe quem, exatamente) que era mais fácil uma cobra fumar do que o país ir à guerra. Contudo, a expressão só se tornou conhecida quando os pracinhas já estavam em combate na Itália, o que contradiz a explicação.
Outra explicação para a origem da expressão é um episódio ocorrido em um bar da cidade de Nova Iguaçu, região metropolitana do Rio de Janeiro, em fins de 1943. O dono do estabelecimento teria feito uma brincadeira com um cliente negro que acabara de ganhar uma aposta no jogo do bicho, acertando na cobra. Depois de pagar uma rodada de cerveja para alguns companheiros como celebração, o ganhador pediu ao dono do bar um charuto. Os presentes, então, começaram a fazer piadas sobre a situação. Enquanto o ganhador soltava nuvens de fumaça, o dono do bar brincou com a súbita prosperidade do cliente e disse em voz alta: “Olhem só como a cobra está fumando!” O premiado, contudo, não gostou da galhofa e provocou um grande rebuliço no local. Quando o Carnaval chegou, em fevereiro de 1944, a piada estampou o estandarte de um efêmero bloco com a imagem de uma cobra fumando um cachimbo. Um jornal acabou estampando uma foto de um homem negro, proferindo a frase – e meses depois ela se tornou um grito de guerra da FEB na Itália.
No imaginário brasileiro e mundial, a FEB é uma entidade de pouca expressão na história da Segunda Guerra Mundial. Quando o jornalista William Waack conversou com vários ex-combatentes alemães no começo da década de 1980 sobre a FEB, muitos ficavam surpresos ao saber, durante a entrevista, que tinham lutado contra brasileiros. No entanto, o encontro dos exércitos do Brasil e dos Estados Unidos são desses eventos únicos que cristalizam momentos históricos e ajudam a demarcar mudanças substanciais, como é o caso da questão racial.
A expressão “democracia racial” já era usada na imprensa americana desde ao menos o começo do século XX para reivindicar direitos civis. Ou seja, democracia racial era o oposto da aristocracia ou autocracia racial das bizarras leis Jim Crow de segregação. A novidade que surge daquela zona de encontro global é a transposição de uma reivindicação dos negros americanos para o contexto brasileiro, por meio do contato com a FEB, que aparecia como uma síntese racial do Brasil numa arena internacional.
Na medida em que o Brasil foi se inserindo no debate mundial sobre o racismo, a expressão “democracia racial” desligou-se de sua conotação associada ao contexto americano e passou a funcionar como uma espécie de soft power brasileiro que poderia agir como bússola no pós-guerra. Consta que o médico e etnólogo Arthur Ramos (1903-49) usou a expressão pela primeira vez em 1941, quando se encontrava fora do país, durante um seminário internacional sobre o lugar do Brasil no mundo. Com a ditadura de Vargas, Ramos tinha pouco a dizer sobre liberdades democráticas no país e optou por complexificar o próprio conceito de democracia. “Tomei parte na discussão, declarando que não sabíamos [no Brasil] o que era realmente um ambiente democrático, porque ao falarmos de democracia temos que separar vários conceitos, como, por exemplo, democracia política, democracia social, democracia racial, democracia religiosa etc.”
A democracia racial era um debate importante nos Estados Unidos, principalmente na questão do acesso à moradia, já que juridicamente brancos e não brancos deveriam ser tratados como separados, mas iguais (separate but equal). Os que pediam por democracia racial estavam focados não necessariamente em acabar com a segregação jurídica, mas em fazer valer o acesso igualitário às instituições de uma democracia, da habitação ao trabalho, da educação às Forças Armadas.
A imagem da FEB como um caldeirão de raças sem linha de cor contribuiu para reforçar, durante o período de guerra, uma ideia mais ampliada de democracia racial, que serviria para contrapor o segregacionismo racial imposto por leis em vários países. É certo que do pós-Segunda Guerra ao fim do século XX, o principal êxito na luta global contra o racismo foi a crescente pressão contra segregacionismos raciais respaldados por leis nacionais. Nessa linha, o fim do apartheid na África do Sul teria representado a extinção desse paradigma racial, pelo menos no sentido jurídico.
Contudo, o Brasil esteve longe de ser um protagonista nesse processo global. Não demorou muito tempo para que a ideia do país da democracia racial viesse abaixo. A decretação da Lei Afonso Arinos em 1951 (que passou a criminalizar práticas racistas) e os vários estudos sobre racismo no Brasil financiados pela Unesco ao longo da mesma década foram tentativas de confrontar o que o sociólogo Florestan Fernandes definiu em 1964 como “mito da democracia racial”. A lei surgiu em resposta ao estardalhaço causado por um episódio envolvendo Katherine Dunham, dançarina americana das mais importantes de sua época que teve sua estadia negada num hotel em São Paulo por ser negra. Deputado e influente no meio diplomático brasileiro, Afonso Arinos viu no ocorrido a oportunidade de enfatizar a posição do Brasil perante os Estados Unidos. Gilberto Freyre, também deputado, foi à tribuna apoiar aquela legislação, de rompante. A lei – que desde a aprovação até a sua reformulação em 1988 só condenou sete pessoas –, ajudou, mesmo que indiretamente, a sustentar o negacionismo que envolve a discussão racial no Brasil.
Ainda assim, mesmo com todas as críticas e desconstruções a que foi submetida a ideia de democracia racial no Brasil, essa imagem acabou por se cristalizar na identidade nacional. A ideologia continuou a operar como “senso comum”, e provavelmente ainda opera de maneira geral. Isso ocorre porque o principal componente dessa narrativa, a miscigenação, de fato reflete aspectos importantes da realidade vivida no país, pelo menos dentro de uma parcela da sociedade: as identidades raciais são variadas e heterogêneas, em vez de polarizadas, e a fluidez das relações sociais permite a convivência racial, evitando a segregação explícita. A ênfase nesses aspectos ajudou a minimizar o impacto do racismo no país.
O que as melhores pesquisas desde a década de 1950 até o presente mostram é que o Brasil pode ser ambas as coisas ao mesmo tempo: a sociedade pode ser sociável e excludente; miscigenada e racista. Ela pode ter um amplo espectro de tonalidades e, ao mesmo tempo, funcionar num contraste de claros e escuros, entre aqueles que são racializados e aqueles que não sofrem racismo.
O discurso negacionista – que costuma igualar a miscigenação da sociedade a uma impossibilidade de se falar sobre racismo no país – esteve de mãos dadas com um conjunto muito repressivo de medidas racistas justamente nos dois momentos menos democráticos da história moderna do Brasil. A ascensão do Estado Novo tornou ilegal a Frente Negra Brasileira, criada em 1931 e considerada a mais importante entidade do movimento negro brasileiro na primeira metade do século XX. Já no período da ditadura militar (1964-85), a lei e o Estado foram amplamente usados para criminalizar a discussão pública sobre o racismo, com perseguições políticas contra grupos que tentavam avançar o tema. A retirada da categoria raça do Censo de 1970 talvez seja dos exemplos mais simbólicos dessa tentativa de apagamento.
A Segunda Guerra Mundial foi um catalisador global de mudanças políticas e sociais, mas cada contexto operou essas mudanças à sua maneira. Os Estados Unidos enviaram mais de 16 milhões de soldados para os conflitos na Europa e no Pacífico, e a corrida armamentista gerou uma economia de guerra sem precedentes. Foi nesse pano de fundo que a campanha pelos direitos civis ganhou força, iniciando a abolição dos sistemas legais de segregação que culminariam, na década de 1960, com a Lei dos Direitos Civis (1964), a Lei dos Direitos de Voto (1965) e a Lei de Habitação Justa (1968). Naquele momento, o sistema político segregacionista foi confrontado pelos imperativos de eficiência econômica numa economia de guerra e, com os crescentes protestos sociais, acabou tendo que ser modificado. Em quase todos os âmbitos, nos setores de defesa os negros americanos tiveram que, primeiro, lutar para poderem participar, ainda que de forma segregada: alistamento, indústria bélica, escolas militares, divisões de combate e oficialato são alguns dos setores que não aceitavam ou rejeitavam negros antes da Segunda Guerra. Ao fim do conflito mundial, esses impedimentos já não se sustentavam.
O marco legal mais importante no imediato pós-guerra foi a Ordem Executiva 9981, assinada pelo presidente Harry Truman em 1948, comprometendo o governo a dessegregar as Forças Armadas. Foi a primeira vez que qualquer parte do governo federal oficialmente impôs a dessegregação, ao menos no papel. Ir para a guerra com Forças Armadas segregadas era, de um ponto de vista econômico-militar, de uma incrível ineficiência. Tudo precisava ser duplicado: da infraestrutura de apoio até o transporte de sangue para os feridos, já que a Cruz Vermelha separava sangues de brancos e negros, que não podiam ser misturados. Os negros americanos ainda enfrentaram racismo nas Forças Armadas dessegregadas, mas gerações de soldados e oficiais negros depois da Segunda Guerra encontraram no Exército uma instituição muito diferente, forçada a se adaptar, ainda que com vários boicotes locais, ao novo regime jurídico, oferecendo à comunidade negra americana mais espaço para educação, treinamento, progresso profissional e estabilidade financeira.
Um dos negros que entrou para o Exército depois da dessegregação foi Colin Powell, que chegou ao posto de general e depois atuou na alta política (foi secretário de Estado de 2001 a 2005, durante o primeiro mandato de George W. Bush, e o início do segundo). Quando perguntado em 2014 sobre o significado da Divisão Búfalo e a história dos negros no Exército americano, Powell voltou à imagem da “democracia racial” (no sentido americano) para pintar uma espécie de evolução do Exército de seu país:
Eu sabia que em 1958, como homem negro, eu estava entrando numa instituição que tinha acabado de ser dessegregada. Eu sabia que o fim da segregação não tinha surgido do nada. […] Aquela parte na nossa história nacional não é algo de que tenhamos orgulho, que eles [os soldados negros] tivessem que servir sob tais circunstâncias. Mas eles assim o fizeram para que nós agora possamos estar numa nova fase da nossa história nacional. […] O sacrifício deles nos levou a este ponto […] em que as Forças Armadas na sociedade americana são, talvez, a mais integrada, a mais aberta, a mais imparcial instituição de toda a sociedade americana. Talvez um dia a sociedade americana reflita esses valores das instituições militares hoje.
Em dezembro de 2023, por ocasião da cerimônia em que assumiu o comando da 6a Região Militar (Bahia e Sergipe), o general André Luiz Aguiar Ribeiro teve uma reação bastante diferente. Ao ser abordado pela Folha de S.Paulo para uma entrevista, recusou inicialmente o convite, mas numa ocasião posterior pediu para receber as perguntas por escrito. Quando foi indagado sobre o significado de sua promoção e a questão da falta de diversidade racial nas altas patentes do Exército, silenciou. Ribeiro é hoje o único negro entre os generais três estrelas da ativa e, caso avance, será o primeiro em toda a história a chegar à mais alta patente da força.
[1] Os Estados Unidos têm uma forte tradição de jornais feitos para grupos específicos da sociedade, incluindo a população negra. A publicação mais antiga da chamada “imprensa negra” é o Freedom’s Journal, publicado em 1827.
[2] Organizado pela Internacional Comunista, o Batalhão Lincoln foi formado por voluntários brancos e negros dos Estados Unidos que serviram na Guerra Civil Espanhola como soldados, técnicos, médicos e aviadores lutando com os republicanos contra as forças lideradas pelo general Francisco Franco.
[3] As leis Jim Crow foram um conjunto de medidas legais adotadas por estados e cidades do Sul dos Estados Unidos, com o objetivo de segregar os negros, depois da Guerra Civil (1861-65) e da abolição da escravidão no país. Entre outras coisas, as leis impuseram até 1965 a segregação em escolas, transportes públicos, restaurantes, banheiros e nas Forças Armadas.
[4] James G. Thompson. “Should I Sacrifice to live ‘Half American’?”, Pittsburgh Courier, 31/01/1942.
[5] Publicados nos jornais The Afro-American e New York Amsterdam News, respectivamente, ambos em 17 de junho de 1944.
[6] Artigo de Harold Preece publicado no Negro Digest, em 1º de setembro de 1943.
[7] Artigo comentando palestra do acadêmico E. Franklin Frazier, publicado no New York Amsterdam News, em 17 de março de 1945.