humor
Passarinho do Twitter, em depoimento a Afonso Cappellaro e Roberto Kaz Abr 2024 18h51
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Desapega, é o que eles dizem. Desapega que passa. Vai curtir um fim de semana em Ibiza, Mônaco, Liechtenstein. Vai pra Costa Rica fazer birdwatching. Desapega, esquece isso, curte o sabático.
Eu tento, mas não dá. O que me frustra é saber como todo o processo aconteceu.
Primeiro foi o fato de me chutar pra rua compulsoriamente. Não teve aviso prévio, foi de um dia pro outro. Acordei cedo, comi minha tigelinha de alpiste, saí da gaiola, fui trabalhar. Dia normal. Chegando na empresa, dei o mesmo bom-dia para as mesmas pessoas de sempre. Mas aí meu crachá não passava. O reconhecimento facial não funcionava. Nem o meu piado o sensor da catraca reconhecia mais.
“Mete o pé. Agora é X, irmão”, ele disse, quando me viu. Eu esbocei um sorriso acanhado, achando que era piadinha, molecagem de bilionário – ele sempre fica meio alterado quando exagera na noite. Mas não: olhei pro lado, e já tinha um caminhão levando embora uma estátua minha, que ficava na fachada da empresa, enquanto um guindaste colocava uma gigantesca letra X no lugar. “X?!”, eu pensei, indignado. X de Xuxa? De XVideos? Que nome era esse?
Sim, eu tinha claro, na cabeça, que não era possível esperar nada daquele sujeito. A negociação, quando ele comprou a empresa, foi absurdamente conturbada. Primeiro ele falou que pagava, depois mudou de ideia, acusou a gente de má-fé, não apresentou prova de nada, e avisou que não pagava mais. Aí já viu, né? As ações caíram, e eu fui pra Justiça pra lutar pelos meus direitos e exigir uma indenização de 1 bilhão de dólares pela quebra do contrato.
Aí ele mudou de ideia rapidinho e voltou a falar que pagava. No fim das contas depositou os 44 bilhões de dólares que eu pedi – bem mais do que os 23 bilhões que o Zuckerberg pagou pelo Instagram e WhatsApp juntos! Eu achei que era o fim dessa história. Ele levaria adiante o meu legado de chorume virtual, enquanto eu passaria o resto da vida fazendo voo migratório e me hospedando em árvores cinco estrelas. Patagônia, Madagascar, Maldivas, o topo das montanhas do Nepal, eu podia ir pra onde quisesse. O céu não era o limite.
Porque eu vou ser sincero aqui: eu tinha uma admiração pelo cara. Ele pode me odiar por ter largado 44 bilhões de dólares na minha asa, mas sei que ele me admirava também. Coisa de identificação. Ele gostava do Trump, e eu deixei o Trump convocar o pessoal pra invadir o Capitólio. Ele gostava do Bolsonaro, e eu deixava o Bolsonaro falar que a urna eletrônica tinha sido fraudada (ou perguntar o que era golden shower; essa ainda me impressiona). A gente se divertia lendo aqueles textos do Bannon, do Allan dos Santos, do Tucker Carlson, do falecido Olavo (nunca entendi direito essa caveirinha, deve ser uma homenagem que os humanos fazem, então também faço).
A verdade é que eu fui protagonista de muita coisa bonita nesses últimos anos. Quer dizer, vamos ser humildes aqui: eu amplifiquei a voz de muito protagonista (pessoal dos direitos humanos gosta desse conceito de amplificar, eu sei porque eles também tão lá na rede). Aquele general brasileiro, por exemplo, o Villas Bôas. Um que comandava o Exército quando o STF ia julgar um habeas corpus para libertar o Lula, seis anos atrás. Foi em mim que ele confiou pra ameaçar o país com um golpe: “Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” Bonito, né?
Quer ver outro? O Trump, quando ele escreveu STOP THE COUNT!, durante a apuração das eleições. Não foi na Fox News que ele confiou pra atacar a democracia americana, não. Foi no passarinho aqui. E olha, pra quem me acusa de só dar moral pra extremista, quero lembrar que eu ajudei a derrubar muito ditador na Primavera Árabe (pena que naquela época a gente ainda não tava listado na Bolsa de Nova York).
O Twitter tinha essa coisa elegante: com um post de 280 letras (no começo eram 140!) você já fazia um estrago. Nem precisava de minuta de golpe. Mas aí esse sujeito foi lá e aumentou o limite de caracteres pra qualquer um que queira pagar. Depois fez a mesma coisa com o selinho de verificação: pagou, levou. Aí não dá. Antigamente tinha uma ordem: você sabia a importância de quem tava falando. Agora gente como o padre Fábio de Melo tem selo verificado enquanto homens públicos, como o Padre Kelmon, não. Um caos.
Nesses últimos meses eu andava de bico calado por obrigação contratual – e admito que eu estava gostando, aproveitando pra viajar. Um dia eu assistia à competição de curió no Brasil, aí no outro já ia pro Catar ver disputa de gavião, de lá tocava pro Canadá pra observar pato migrando, aí voltava pro Brasil pra ver ararinha-azul no sertão (que cor, amigos, a penugem da ave brasileira, que cor!).
Eu até tentei tapar os olhos, mas a cada dia chegava um pombo-correio com um recadinho novo de como as coisas andavam por lá. A mediação de conteúdo, por exemplo. Se já era difícil antes, imagina depois que o cara demitiu 80% do pessoal. Ficou tudo mais violento. Agora só dá vídeo de ave atropelada, ave tomando tiro de chumbinho, ave com asa quebrada e ave batendo a cara em janela de vidro. Deve ser por isso que o valor da empresa chegou a cair pela metade desde que ele assumiu o negócio.
O algoritmo também deu uma piorada. Outro dia apareceu pra mim o perfil de um tal PATO_TERRAPLANISTA_213231. Humano tudo bem, mas pato? O cara migra de um polo ao outro e depois vem meter papo de que a Terra é plana? O que vem depois? Gaivota defensora de plataforma de petróleo? Pinguim falando que não tem derretimento das calotas? (Aliás, queria fazer um agradecimento especial, pelo espaço fornecido aqui, ao pinguim que dirige esta revista.)
Agora, pra piorar, o cara inventou de fazer política. Recebeu a visita do Milei (aquele que parece uma cacatua), atacou o Alexandre de Moraes (o que só se veste de preto que nem graúna) e se articulou com um deputado do Partido Republicano para soltar um monte de documento contra o Judiciário do Brasil no Congresso dos Estados Unidos. Aí foi um pega pra capar. De um lado ele sendo fichado em investigação do STF, do outro o pessoal de verde e amarelo chamando ele de patriota (só lembrando que o cara é sul-africano, mora nos Estados Unidos e gosta mesmo é de Marte). Acho que no fim das contas, ele conseguiu o que queria: enterrou o Projeto de Lei das Fake News, que visava regulamentar as redes sociais no Brasil, atiçou a claque extremista (“Faz o Elon”, o pessoal anda dizendo), e justificou, de alguma forma, os 44 bilhões de dólares. O gasto nunca foi em comunicação. Foi em lobby político mesmo.
O Twitter não era um mar de rosas, eu sei. Mas existe uma diferença entre atacar a democracia com míssil Tomahawk e lançar uma bomba nuclear (sim, só um deles rende Oscar, mas eu estava falando de maneira mais metafórica mesmo). Este texto, portanto, é o mínimo que posso fazer para defender o meu legado – e as ações da empresa que eu ainda tenho. Mas como toda ave empreendedora, aproveito para lançar meu novo projeto, que está decolando.
Andei conversando recentemente com o colega Garibaldo. Aquele da televisão, um grandalhão, amarelo, que fazia o Vila Sésamo. Nos encontramos em um camarote do show do Paul McCartney no exato momento em que ele tocava Blackbird, mágico! Pintou uma sinergia, surgiu um business plan. Estamos lançando a joint venture Mascotter, uma agência só de mascote aposentado, verificados de verdade. Pensa na quantidade de bichos carismáticos que a humanidade usou e depois largou no ostracismo: Topo Gigio, Ursão da Coca-Cola, Salsichinha da Cofap, Txutxucão, Dengue e Praga (nota mental: o Dengue precisa de um rebranding urgente), Flipper, Rin Tin Tin, Lassie e aquele outro que também latia grosso, e hoje em dia ninguém sabe onde foi parar, o General Heleno.
Pensei até em anunciar no X, mas lembrei que não tenho mais selo verificado. Passarinho que come tuíte sabe o cu que tem.