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TESOURO NO TERREIRO

O destino do legado de Lélia Gonzalez, a mais importante – e ignorada – intelectual negra do país
Imagem Tesouro no terreiro

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Pouco antes de o Brasil entrar em campo contra a Holanda, nas quartas de final da Copa do Mundo de 1994, Pelé apareceu na tela da tevê para comentar o jogo que seria transmitido em poucos minutos de Dallas, nos Estados Unidos. No Rio de Janeiro, assim que ouviu a voz do craque, a antropóloga Lélia Gonzalez pediu à sua sobrinha Eliane de Almeida que desligasse a tevê.

Uma década antes, Gonzalez havia escrito um artigo duro contra Pelé. Chamou o craque de “jabuticaba”: preto por fora, branco por dentro e com um caroço que não dá para engolir. Achava que Pelé era o exemplo perfeito do negro que foi vítima da lavagem cerebral do embranquecimento, adotando posições políticas conservadoras e optando por loiras de olhos claros como ideal de beleza. “Como ele conseguiu ascender, passa a achar que a negrada não é de nada, que não se esforça, que não gosta de trabalho que é irresponsável etc. […] Portanto, a negrada é inferior”, escreveu Gonzalez no texto A esperança branca, que saiu na Folha de S.Paulo, em 21 de março de 1982.

Mas naquele sábado de jogo, dia 9 de julho, não era exatamente Pelé que incomodava Gonzalez. Torcedora empolgada, ela estava aflita com a própria Seleção Brasileira e, para evitar os apertos no peito, resolveu não assistir à partida. Ela e a sobrinha preferiram sentar-se, para uma conversa solta, à mesa da cozinha do apartamento em que viviam, num prédio de quatro pavimentos na Ladeira de Santa Teresa, nº 106, na região central do Rio.

Gonzalez tinha 59 anos, media 1,68 metro de altura e estava pesando cerca de 45 kg – quinze a menos do que o recomendado para sua compleição física. A antropóloga tinha diabetes, além de um problema grave no coração, e se movimentava com dificuldade. Ela vinha concentrando forças na atividade acadêmica, como diretora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.

À noite, aliviada com a vitória que levou o Brasil à semifinal, Gonzalez vestiu um pijama azul com flores amarelas e foi dar boa-noite à sobrinha. Perguntou se estava tudo bem com as filhas dela, Ísis e Gabriela, de 4 e 7 anos, que também moravam no apartamento. “As crianças já foram dormir”, disse Eliane de Almeida. “Então vou me deitar também. Até amanhã”, despediu-se Gonzalez. E foi para seu quarto-escritório, com uma cama de casal, uma escrivaninha com máquina de escrever, iluminada por um abajur africano, e as estantes com cerca de 3 mil livros.

Na manhã do dia seguinte, 10 de julho, Almeida acordou cedo e foi preparar o café. Estranhou que Gonzalez não estivesse de pé, mas preferiu deixá-­la dormir até mais tarde. Resolveu cuidar do almoço do domingo. Enquanto preparava a macarronada com carne assada, um dos pratos prediletos da antropóloga, começou a sentir uma ardência nas costas. “Ardiam de uma forma lancinante. E uma voz me dizia: ‘Vai ver a Lélia! Vai ver a Lélia!’”, conta Almeida, hoje com 75 anos, à piauí. Ela foi até o quarto da tia e a encontrou sem vida sobre a cama. Gonzalez tinha sofrido um infarto durante a madrugada.

Uma das primeiras pessoas a saber da morte de Gonzalez foi o babalorixá Jair de Ogum. Ele era guia espiritual da antropóloga e líder do Ilê da Oxum Apará, um terreiro de candomblé e umbanda em Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio, que ela havia ajudado a fundar e do qual Almeida era vice-presidente. Jair de Ogum demorou quase duas horas para percorrer os 80 km que separam o terreiro da casa de Gonzalez. Ao chegar, cuidou de “abrir os caminhos de Lélia para seu retorno à matéria de origem”, como diz Almeida. O enterro, no Cemitério São João Batista, mobilizou muitos amigos e ativistas sociais. Os principais jornais brasileiros não deram uma linha sequer sobre a morte da antropóloga.

Sem emprego e sem renda para pagar o aluguel do apartamento no Centro do Rio, Almeida se viu obrigada a procurar um local mais barato para viver – e precisou dar um destino aos bens pessoais de Gonzalez, que não cabiam na sua nova moradia. Mais uma vez, ela recorreu a Jair de Ogum, que propôs abrigar o acervo no Ilê da Oxum Apará. Na mesma época, Almeida assinou um documento de doação do acervo para Jair de Ogum, em que afirmava que essa decisão fora tomada sem coação alguma e que os custos de transporte e armazenagem ficaram a cargo da associação religiosa. O documento teve a firma reconhecida em cartório em 2004, dez anos depois da morte de Lélia Gonzalez.

Agora, essa doação, que continua guardada no terreiro, tornou-se objeto de uma disputa judicial nada fraterna entre os herdeiros de Gonzalez e os de Jair de Ogum, que morreu em 2020, aos 75 anos, de insuficiência pulmonar, provavelmente em decorrência da Covid. O acervo de Gonzalez contém manuscritos, documentos, retratos, objetos pessoais e toda a biblioteca de uma das mais importantes intelectuais do país no século XX, reconhecida mundialmente por sua reflexão pioneira sobre o feminismo negro e o racismo.

Os familiares da antropóloga dizem que, enquanto Jair de Ogum estava vivo, eles tinham acesso livre ao acervo, o que lhes foi negado a partir de 2020, depois que a liderança do terreiro passou para Leonardo Ogum-Faislon, filho do pai de santo. Em março de 2022, os herdeiros de Gonzalez decidiram recorrer à Justiça. Eles firmaram verbalmente o compromisso de doar o acervo para ser catalogado e preservado pela Fundação Getulio Vargas, a instituição que administra centenas de arquivos de personalidades históricas, como os de Tancredo Neves e do próprio Getúlio Vargas.

“Depois que Jair morreu não tinha mais sentido ficar lá, no terreiro, mesmo na parte espiritual”, afirma o economista Rubens de Lima, de 62 anos, sobrinho da antropóloga, a quem ela chamava de filho. “Nós temos isso como missão espiritual. Não queremos ganhar dinheiro. Queremos cumprir o pedido de Lélia de sermos multiplicadores do conhecimento que ela adquiriu.” Ele conta que Faislon, sem consultar a família, montou uma exposição com o acervo de Gonzalez e organizou grupos de turismo para visitá-lo. “Ele exibiu coisas muito pessoais na exposição e nas redes sociais. Tinha até uma foto de Lélia de biquíni! Isso não se faz”, reclama Eliane de Almeida.

Faislon mostrou à piauí o documento de doação do acervo Lélia Gonzalez, assinado por Almeida. O papel, datado de 1996, está plastificado. Ele nega que tenha restringido o acesso da família de Gonzalez ao acervo e assegura que nunca ganhou dinheiro com ele. Em agosto de 2023, o juiz Francisco Emilio de Carvalho Posada, da 2ª Vara Cível de Itaguaí, recusou o pedido de uma liminar de busca e apreensão do acervo, solicitada pela família da antropóloga. O juiz não viu elementos que justificassem urgência para tanto. Determinou que a acusação e a defesa acrescentassem mais provas ao processo, que não tem data para ser julgado.

Os direitos autorais de Gonzalez, que publicou apenas dois livros em vida, mas deixou numerosos ensaios e textos, alguns inéditos, são administrados desde sua morte pelos sobrinhos Rubens de Lima e Eliane de Almeida, herdeiros legítimos da antropóloga em linha colateral, como determina a lei de sucessão, quando a pessoa não tem cônjuge vivo, filhos ou pais. À época, Almeida assinou sozinha a doação, sem a autorização formal de Lima, porque não imaginou que aquele documento protocolar iria se tornar um imbróglio jurídico. Hoje, ela se arrepende.

Quem chega ao Ilê da Oxum Apará, depois de cruzar um portão de ferro, logo tem o olhar atraído por uma estátua de 2 metros de altura, ao fundo de um gramado grande e bem cuidado: é Ogum em seu cavalo. Várias outras obras dedicadas aos orixás, os chamados assentamentos, espalham-se ao ar livre pelo terreiro, que ocupa 50 mil m² de uma antiga fazenda colonial.

Algumas obras chegam a ter 20 m², como a que homenageia Iemanjá, coberta por ladrilhos e com um barco de 1,5 metro de comprimento. No espaço dedicado a Iansã, diversas peças em metal, como lanças, espadas e representações de um raio, estão fincadas no chão de cimento. Ali chamam a atenção quatro máquinas de costura, também concretadas no piso da instalação: são uma homenagem a costureiras que produzem as roupas brancas usadas nos cultos, tidas como sagradas.

Antes da construção do terreiro em Itaguaí, o lugar era uma terra devastada por anos de plantio de café. Tudo foi recuperado para atender às obrigações religiosas do candomblé e da umbanda. Jair de Ogum reflorestou uma grande área do terreno para que o Ilê tivesse a sua mata, com árvores disponíveis para as obrigações religiosas. Também criou a própria encruzilhada para despacho de obrigações e construiu uma lagoa artificial, com plantas aquáticas e onde vivem tambaquis de grande porte que saltam ao serem alimentados com pão. Cansado de ver umbandistas sofrerem preconceito por frequentarem igrejas católicas, construiu uma capela, com imagens de santos afixadas nas paredes. “Meu pai só não abriu acesso ao mar”, brinca Leonardo Ogum-Faislon, de 39 anos.

Um dos principais espaços do Ilê é o “salão de recepção de VIPs e celebridades”, com cerca de 200 m². Ali, em uma das paredes, estão expostas algumas peças do acervo de Gonzalez: anotações, livros, pôsteres e quadros. No mesmo local e com mais destaque estão objetos do acervo de Jair de Ogum, que colecionou centenas de itens da cultura religiosa de origem africana e imagens de santos e entidades do candomblé e da umbanda. Ele também tinha gosto por peças egípcias. “E, se alguém questionava, ele sempre lembrava que o Egito faz parte da África”, conta seu filho.

Jair de Ogum chegou a erguer um memorial em homenagem a Lélia Gonzalez nos anos 2000. O sobrado de dois pavimentos, na forma de um quadrado, com janelas pequenas e telhas de amianto, foi construído a partir de orientações dadas pelo pai de santo diretamente ao mestre de obras, sem a participação de arquitetos. Desgastada pelo tempo, a construção precisa de reformas, como mostram as rachaduras nas paredes, e por isso mesmo a maior parte do acervo da antropóloga está agora num imóvel anexo, usado como depósito de diferentes objetos.

Nesse imóvel, em duas salas contíguas, de 10 m² cada uma, está o acervo principal de Gonzalez. Na primeira sala, os livros, guardados em estantes de aço, muitos deles com dedicatórias, como os do escritor, ator e ativista Abdias Nascimento (O genocídio do negro brasileiro e Sitiado em Lagos): “À Lélia, mais do que irmã de lutas por nossos irmãos e irmãs negros”, diz ele em um dos autógrafos. Ou do compositor Candeia, que a chama de “grande irmã” na dedicatória feita no livro Escola de samba: árvore que esqueceu a raiz, que o compositor escreveu em parceria com Isnard Araújo e lançou em 1978. Também há obras em diversas línguas, fichadas por Gonzalez, como Women, race & class (Mulheres, raça e classe), da ativista Angela Davis; Les damnés de la terre (Os condenados da terra), do psiquiatra e pensador Frantz Fanon; Les Bantu (Os bantos), do historiador Théophile Obenga; e Le structuralisme en anthropologie (Estruturalismo na antropologia), do antropólogo Dan Sperber. Gonzalez era fluente em francês, tendo sido tradutora nessa língua, e se mostrava segura no domínio da língua inglesa.

Na segunda sala, estão a escrivaninha, a máquina de escrever Olivetti Linea 98 cinza e o abajur africano de Gonzalez, dispostos de maneira a reproduzir seu ambiente de trabalho. Três peças africanas simbolizando o equilíbrio, a ancestralidade e a caminhada rumo à iluminação complementam a decoração. Nessa mesma sala, em dezenas de caixas de papelão e plástico, arranjadas em um armário de aço, estão documentos, manuscritos e fotos de Gonzalez, bem como recortes, panfletos e jornais que ela armazenou.

Há papéis de grande valor histórico ali, como o escrito datilografado que traça a estratégia a ser seguida pelo Movimento Negro Unificado (MNU), do qual Gonzalez foi uma das fundadoras em 1978. O documento afirma: “A exploração do negro é formada fundamentalmente pelo tripé = Exploração Econômica, Opressão Psicológica e Violência Policial. Nosso trabalho principal é de destruição desse tripé maligno.”

No local, também estão guardados seus originais de artigos e ensaios, como Por um feminismo afro-latino-­americano, escrito em 1988 para uma publicação no Chile do instituto Isis Internacional, de apoio jurídico às mulheres, ou artigos sobre viagens ao Caribe e países africanos. Entre os escritos para jornais, encontra-se um comentário manuscrito à peça Anjo negro, de Nelson Rodrigues, sobre um negro que rejeita sua condição racial. Na crítica, Gonzalez escreve: “A arte (o teatro) se debruça e investiga os destinos humanos que falharam. Aqueles que poderiam ou deveriam ter sido de uma maneira, mas que, pela interferência do fado, resultaram de maneira às avessas. Quanto maior esta inversão, maior e mais belo o destino trágico de um personagem. Maior e mais bela a obra.”

A caligrafia de Gonzalez é redonda, com as letras juntando-se umas às outras, como se a caneta percorresse de maneira delicada o papel. As ideias que expressam, porém, são abrasadoras, como neste outro trecho da crítica de Anjo negro: “Toda e qualquer tentativa por parte de um negro de negar sua cor (tentar escapar a ela) é uma violência inaudita que esse ser humano comete contra si mesmo, violência que só pode ser geradora de ódio, inicialmente contra si próprio (pois, por mais inconsciente que seja, ela lhe parece como um absurdo irrealizável) e, em seguida, contra o mundo – não só ‘dos brancos’, mas sim contra o mundo em geral.”

Grande parte desse acervo foi catalogada e digitalizada por pesquisadores da obra de Gonzalez que tiveram acesso aos documentos. A empreitada mais importante foi feita pela Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh), ONG liderada pela pedagoga Maria Aparecida Schumaher que foi pioneira na recuperação da memória da antropóloga. A ONG cedeu o material digitalizado ao Instituto Memorial Lélia Gonzalez, organização social sem fins lucrativos fundada em 2023 por Almeida e Lima. Os dois dizem que tudo isso foi feito quando Jair de Ogum ainda era vivo. O acervo chegou a ser acessado também por pesquisadores, como Flavia Rios e Marcia Lima, que, a partir dali e de outras fontes, organizaram a publicação do livro Por um feminismo afro-­latino-americano, de Gonzalez, editado em 2020. Permanece inédita boa parte dos diários, das cartas e de manuscritos de Gonzalez mais relacionados a temas pessoais do que acadêmicos e políticos.

O acervo parece bem preservado, em termos gerais, no Ilê, embora careça de melhor organização e de uma indexação completa. Há cartas, cartões-postais e periódicos em pastas e envelopes plásticos, que são manipulados sem luvas – o contrário do que exige a preservação técnica rigorosa. Quando a piauí visitou o local, alguns livros da biblioteca de Gonzalez, reconhecidos por sua assinatura nas páginas iniciais, estavam longe do acervo, numa sala de convivência do Ilê, dispostos numa estante ao lado de exemplares de O código da inteligência, do psiquiatra best-seller Augusto Cury, e Nada é por acaso, da espírita Zibia Gasparetto. Nenhum desses dois livros pertencia à antropóloga (foram lançados depois da morte dela).

Na avaliação de um conhecedor do mercado de obras raras, o acervo de Gonzalez pode ter mais interesse histórico e acadêmico do que valor comercial. Esse colecionador, que pediu para não ser identificado porque não conhece o acervo a fundo, diz que o material pode interessar a muitas universidades americanas, dado o prestígio de Gonzalez nos Estados Unidos e o vínculo de sua obra com o feminismo e o ativismo negros, principalmente. A família da antropóloga diz que não cogita tirar os documentos do Brasil.

Os atuais gestores do Ilê afirmam que o acervo de Gonzalez está aberto à visitação de pesquisadores e interessados, bastando marcar horário com os administradores da associação religiosa Ilê da Oxum Apará. Mas dizem que a procura é em pequena escala.

Em outubro de 2019, a intelectual e ativista americana Angela Davis fez uma palestra em São Paulo que reverberou nas redes sociais. Ela estava lançando no país o livro A liberdade é uma luta constante e, em dado momento, abandonou as notas que lia no púlpito do auditório do Sesc Pinheiros. Disse que, nas suas visitas ao Brasil, sempre se sentia constrangida ao ser apresentada como exemplo às mulheres negras brasileiras. Explicou por quê:

Sempre me senti constrangida [awkward] porque sinto como se fosse eu quem devesse representar o feminismo negro. E por que vocês, aqui, do Brasil, precisam procurar essa inspiração nos Estados Unidos da América? Eu não compreendo. Eu acho que aprendi mais com Lélia Gonzalez do que vocês jamais aprenderão comigo. Ela estava escrevendo sobre interseccionalidade antes mesmo de o termo existir. E ela nos convocou para desenvolver novas identidades, novas identidades políticas. Eu gosto dos termos que ela usa: ameríndio e amefricano. São termos amplos que são inclusivos sem serem assimilatórios. Eu gostaria de dizer que sempre preciso dizer que me sinto muito constrangida. Porque me parece que nós, dos Estados Unidos, é que deveríamos estar aprendendo com essa tradição realmente vibrante do feminismo negro brasileiro. E, como disse antes, principalmente dado o impacto do candomblé e das maneiras que a liderança feminina tem sido cultivada e encorajada.

A historiadora Raquel Barreto estava na plateia do Sesc ouvindo Angela Davis, e alertou para a palavra usada pela ativista ao falar do Brasil, awkward, que foi traduzida como “estranha” pelo serviço de tradução simultânea daquela noite. “Mas para mim é mais do que isso. Awkward é constrangida, embaraçada”, diz Barreto. “É o sentimento que você tem quando algo envergonha por não ser justificado. É isso que ela dizia sentir quando nós, brasileiros, buscamos no exterior o que deveríamos encontrar aqui.” A fala de Davis acabou incluída no documentário AmarElo: é tudo pra ontem, do rapper Emicida, que ao ser lançado em 2020 fez as buscas pelo nome de Lélia Gonzalez aumentarem no Google.

Barreto chama a atenção para o fato de as grandes editoras do país terem evitado por anos a obra de Gonzalez, apesar de a antropóloga ter sido, em seu tempo, a intelectual negra brasileira que mais circulou internacionalmente. “O apagamento da obra e da memória de Lélia não é um acaso. Como ela dizia, é recalque, é repressão”, comenta a historiadora, cuja dissertação de mestrado se chamou Enegrecendo o feminismo ou feminizando a raça: narrativas de libertação em Angela Davis e Lélia Gonzalez.

Em uma entrevista ao jornal El País, a pensadora e ativista Sueli Carneiro, uma das mais proeminentes intelectuais brasileiras, chamou o apagamento que ocorreu por anos da obra de Gonzalez na cultura e na universidade do país de “epistemicídio”. Em vida, Gonzalez publicou apenas dois livros: Lugar de negro (escrito em parceria com o sociólogo argentino Carlos Hasenbalg), em 1982, e Festas populares no Brasil, em 1987. “As editoras comerciais sabiam quem era Lélia. Mas diziam que ela não vendia. No exterior, porém, ela era publicada”, comenta Barreto. Fora do Brasil, textos de Gonzalez saíram em várias coletâneas e revistas acadêmicas. “Lélia permaneceu inacessível no Brasil como autora até os pan-africanistas resolverem imprimir Primavera para as rosas negras”, acrescenta a historiadora. Este livro, que reúne vários textos e palestras de Gonzalez, foi publicado em 2018 graças à iniciativa da União dos Coletivos Pan-­Africanistas (ucpa). Apenas em 2020 ela teve uma obra publicada por uma grande casa editorial brasileira: a coletânea de textos Por um feminismo afro-latino-­americano, pela Zahar, que em 2022 relançou também Lugar de negro.

Filha de um operário negro e de uma descendente de indígenas, Lélia de Almeida – seu nome de solteira – tinha 7 anos quando sua família se mudou de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, em 1942. Todos pegaram carona na ascensão social de um dos dezoito filhos, o jogador Jaime de Almeida (1920-73), convidado para atuar no Flamengo e que se tornou um ídolo da torcida rubro-negra nos anos 1940 (ele é pai de Jayme de Almeida Filho, ex-jogador e treinador campeão nacional pelo clube).

No Rio, com o apoio financeiro da família, Gonzalez se concentrou nos estudos e pôde se matricular no conceituado Colégio Pedro ii, uma escola pública. Depois, cursou, na Uerj, as faculdades de geografia e história (à época unificadas) e filosofia. Fez o doutorado de antropologia na usp, sem que tivesse concluído o mestrado em comunicação social na ufrj, interrompido porque aceitou ser professora na puc-­Rio. “Foi minha aluna”, recorda-se o sociólogo Muniz Sodré, professor emérito da Escola de Comunicação da ufrj, autor de O fascismo da cor: uma radiografia do racismo nacional. “Eu me lembro que ela deixou todos impressionados com um seminário primoroso que ministrou sobre Lévi-Strauss.”

Gonzalez dizia que, na juventude, tinha sido vítima típica da lavagem cerebral do branqueamento. “Fiz escola primária e passei por aquele processo que eu chamo de lavagem cerebral dado pelo discurso pedagógico brasileiro, porque, na medida em que eu aprofundava meus conhecimentos, eu rejeitava cada vez mais minha condição de negra”, disse. Em 1964, casou-se com Luiz Carlos Gonzalez, um colega de universidade que era de origem espanhola. A família do rapaz branco, porém, não aceitou a relação. Anos mais tarde, Gonzalez analisou essa rejeição em uma entrevista dada a uma agência de notícias nos Estados Unidos: “No Brasil, é aceitável que um homem branco tenha um caso com uma mulher negra, mas casamento é outro assunto. Quando eles descobriram que nos casamos, ficaram furiosos. Me chamaram de preta suja. Era isso que eu tinha me tornado aos olhos deles, apesar da minha educação, apesar da minha posição.” Luiz Carlos suicidou-se um ano depois do casamento, e Lélia preferiu manter o sobrenome Gonzalez para homenageá-lo. “Ele rompeu com a família, ficou do meu lado e começou a questionar a minha falta de identidade comigo mesma. Isso dói […], por isso eu tenho orgulho de trazer o nome dele”, ela afirmou.

A vida da então professora começou a mudar depois da morte do primeiro marido e dos desafios colocados pelo segundo casamento, no fim dos anos 1960, com Vicente Marota, que ela definiu como um “mulato que precisava fugir de si próprio”. O casamento durou cinco anos.  “A gente se separou e minha cabeça dançou, afinal eu fui casada com um cara branco, de origem espanhola, que dava todo apoio à questão racial, e, quando eu caso com um cara de origem negra, ele não tem essa solidariedade, ele disfarçava esse lado. Eu fui parar no psicanalista”, disse ela em entrevista ao Pasquim, em 1989.

Aos 35 anos, depois de dois casamentos, Gonzalez se dedicou a duas áreas que se tornariam referência em seu trabalho: a psicanálise e o candomblé. “A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha etc., mas tornar-se negra é uma conquista”, disse mais tarde.

Esse processo a levou ao ativismo. Ela participou da fundação do PT, pelo qual concorreu em 1982 a deputada federal pelo Rio de Janeiro. Obteve 14 909 votos. Ficou na primeira suplência, e nunca chegou a exercer o mandato. Sua atuação no partido era tida como arrogante, diz o sobrinho Rubens de Lima. Em 1983, em um artigo intitulado Racismo por omissão, publicado na Folha de S.Paulo, Gonzalez criticou a ausência da temática racial no eixo programático do PT. A crítica lhe trouxe mais problemas do que apoio. “As chamadas correntes progressistas, elas minimizam da forma mais incrível nossas reivindicações”, ela dissera em 1979, numa entrevista publicada no livro Patrulhas ideológicas, de Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Pereira.

Feminista negra e fundadora do MNU e do Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras –, Gonzalez se tornou conhecida por provocar tensões importantes dentro dos movimentos dos quais fazia parte, tratando de assuntos como a invisibilização das mulheres negras e indígenas nos discursos feministas e do machismo branco reproduzido pelos homens negros.

Gonzalez representou o movimento negro carioca, ao lado de Abdias Nascimento, no lançamento do MNU, realizado nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, em julho de 1978. Meses depois, assumiu o cargo de diretora executiva na primeira eleição da assembleia nacional do movimento. Ali trabalhou na formação política de ativistas, por meio de palestras, cursos, reuniões e produção de textos, que eram divulgados sobretudo no Nêgo – Jornal do Movimento Negro Unificado.

Por influência de Nascimento e de Darcy Ribeiro, antropólogo e escritor, Gonzalez deixou o PT e se filiou ao PDT. Foi candidata a deputada estadual pelo partido em 1986, mas também não conseguiu se eleger. Obteve 8 286 votos, pouco mais da metade dos que recebera no pleito anterior, quando disputara um mandato nacional. Não se abateu. “Vamos à luta, negadinha”, repetia, mesmo na derrota, usando seu vocativo predileto.

A linguagem engajada foi outra frente aberta por Gonzalez. Conceitos como “amefricanidade” (experiências sociopolíticas comuns aos povos africanos e indígenas) e “pretuguês” (referência à língua portuguesa tal como falada pelos pretos brasileiros) têm sido objeto de estudo de pesquisadores, intelectuais e movimentos sociais. Ela mostrou como a língua amplifica formas de discriminação racial e exclusão social. Lançou a hipótese de que a substituição do “r” pelo “l” na pronúncia, em palavras como “framengo”, podia ter como razão a ausência da letra “l” em certos idiomas africanos do tronco linguístico banto. Na mesma linha, quando alguém converte “você” em “cê”, ou “está” em “tá”, está falando pretuguês.

Alex Ratts e Flavia Rios, que escreveram a biografia Lélia Gonzalez (Selo Negro Edições), registram que ela usava de modo corriqueiro palavras que hoje seriam consideradas politicamente incorretas, como crioulo, criouléu e crioulada: “Além de certa intenção de chamar a atenção do leitor ou da plateia, pode-se dizer que com esses e outros termos – como neguinho, negada, negadinha –, ela pretendia deslocar o sentido das palavras.” O próprio conceito de interseccionalidade – termo cunhado em 1989 pela jurista americana Kimberlé Crenshaw para definir como as diferentes formas de opressão social se sobrepõem umas às outras – já fazia parte, tempos antes, das reflexões de Gonzalez, como lembrou Angela Davis em sua palestra no Sesc.

Além dos conceitos inovadores, ela recorreu às roupas para exaltar a negritude, como os vestidos coloridos, feitos de tecidos africanos, comprados nas muitas viagens ao continente. Também usava turbantes, pulseiras, colares e anéis com motivos da cultura negra. Em 1987, um acidente de carro lhe causou uma cicatriz na testa, que ela passou a esconder com um lenço – o que acabou se tornando uma marca pessoal. Adotou ainda o cabelo no estilo black power, criando com todos esses elementos um estilo exuberante que deixaria forte influência nas gerações seguintes do movimento negro.

O candomblé foi para Gonzalez uma forma de se organizar psíquica e pessoalmente. Embora não fosse iniciada na religião, tinha fé em Oxum e Ogum, seus orixás de cabeça. Era filha de santo de Jair de Ogum, na época o mais famoso dos babalorixás do Rio de Janeiro, e frequentava com certa assiduidade o terreiro Ilê da Oxum Apará, que havia ajudado a fundar.

Os dois se conheceram no início da década de 1970, em Olaria, bairro na Zona Norte do Rio onde ele morava e ela dava aulas em um colégio público de ensino fundamental. Tornaram-amigos e parceiros de fé. Nem as diferenças ideológicas afastaram um do outro.

Jair de Ogum era conservador, simpático ao regime militar e aos seus partidos de sustentação. Com a redemocratização, tentou ser deputado estadual em 1990 pelo PRN, o mesmo partido do presidente Fernando Collor, mas fracassou, conseguindo menos de 4 mil votos. Em 1996, escolheu o Partido da Frente Liberal (PFL) para tentar se eleger vereador, mas recebeu apenas 4 797 votos.

Dois objetos expostos numa parede do Ilê da Oxum Apará mostram bem a diferença entre Jair de Ogum e Lélia Gonzalez. Um cartaz que ela guardava exibe um punho cerrado, sobre fundo vermelho, com os dizeres: “Partido socialista. Democratizar, socializar, desenvolver.” Poucos metros adiante, há uma foto de Jair de Ogum abraçado a Pelé, o personagem-jabuticaba criticado por Gonzalez.

Jair de Ogum fundou o Ilê da Oxum Apará em 1972, numa casa em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio. Onze anos mais tarde, comprou o terreno de uma antiga fazenda de café e transferiu o terreiro para lá. Durante quase meio século, foi a cara das religiões de matriz africana na mídia brasileira. Participou por doze anos do Programa Haroldo de Andrade, a maior audiência da Rádio Globo nos anos 1980. Escreveu colunas para jornais e revistas, e teve quadros semanais em programas do SBT. Chegou a interpretar a si mesmo na série televisiva O bem-amado, de Dias Gomes, exibida entre 1980 e 1984, na Globo. Entre 1981 e 1984, fez previsões para o ano vindouro no último programa de dezembro do Fantástico.

O pai de santo começou trabalhando na linha do candomblé, de origem africana, mas, com o passar dos anos, passou a se dedicar também à umbanda, de origem brasileira. Nas chamadas sessões de cura, permanecia incorporado durante mais de doze horas por uma entidade chamada Ogum Iara e atendia pessoas que descreviam seus diversos problemas e aspirações. Seguindo uma tradição do terreiro, as sessões com Ogum Iara eram detalhadamente registradas em atas, que agora fazem parte do acervo de Jair de Ogum.

Gonzalez participava com frequência das sessões com Ogum Iara. “Eles tinham conversas de alto nível, filosóficas mesmo. Às vezes debatiam horóscopo também”, conta Eliane de Almeida, a sobrinha da antropóloga. “Lélia fazia a hermenêutica de Ogum Iara. Nas primeiras sessões, ele falava mais tupi-guarani do que português. Lélia o traduzia de alguma forma”, diz Faislon. Para ele, o acervo de Gonzalez é “parte integrante e complementar do acervo do próprio Jair de Ogum”.

Além de esculturas africanas e imagens religiosas, o pai de santo reuniu centenas de fotografias, presentes e objetos pessoais relacionados às celebridades, atores e atrizes com os quais teve contato. Curiosamente, uma parte do acervo é dedicada à atriz Sandra Bréa (1952-2000), estrela da Globo que teve, de acordo com Faislon, um relacionamento amoroso com seu pai. A atriz foi a primeira personalidade feminina do país a assumir publicamente a condição de soropositiva, em 1993.

Depois que Sandra Bréa morreu, de câncer, Jair de Ogum soube que o filho único dela, Alexandre Bréa Brito, estava se desfazendo de vestidos, acessórios e fotos da mãe – e ofereceu-se para ser o guardião do acervo. O filho então doou os pertences que restavam e, em 2001, desapareceu. Foi dado como morto em 2019, e o inventário da herança da atriz, pelo qual ele era responsável, ainda tramita na Justiça. A combinação dos acervos de Gonzalez, Jair de Ogum e Sandra Bréa no Ilê da Oxum Apará faz do terreiro um refúgio inusitado de parte da memória da cultura brasileira.

Faislon diz que foi escolhido pelo próprio Ogum Iara para ser o sucessor do pai. “Ogum Iara me deu essa responsabilidade de ser o representante legítimo desse território. Quando a coisa flui é porque os caminhos estão abertos”, diz. Embora presidente do terreiro, ele não incorpora nenhuma entidade. Careca, de barba e pele clara, Faislon parece mais um professor universitário que um ogã, o dirigente de um terreiro. É capaz de atordoar o interlocutor com um discurso complexo, citando termos como “uterocentricidade” ou “falocentricidade”. Os serviços no Ilê costumam reunir centenas de pessoas por vez. Além de práticas espirituais, oferece assistência social, por meio de doação de cestas básicas e serviços de saúde à comunidade, como o projeto Vivências Afro-ecológicas: da Pequena África ao Ilê da Oxum Apará. “É um programa para realizar uma educação antirracista e que valorize a proteção do ambiente”, ele explica.

Militante ativa e articulada do movimento negro, Silvana Santana de Almeida, a mulher de Faislon, intervém na conversa quando se comenta a intenção da família de Gonzalez de doar o acervo da antropóloga para a FGV. “Esse é um tipo de prática racista. Lá os afroperiféricos não têm vez”, diz ela. “A FGV é dirigida por um corpo branco. Alguém da periferia entra na FGV? Pode entrar na FGV sem calça comprida e de pé descalço? Aqui pode. Nossas memórias nunca entraram na pauta política das grandes instituições, nem nunca tiveram visibilidade lá.”

Santana de Almeida é formada em pedagogia e faz mestrado em história, com foco em estudos de patrimônio, memória e identidade. É uma mulher elegante, de sorriso largo e longos cabelos trançados. Está no segundo casamento. Foi criada em uma família evangélica, que a obrigou a se casar cedo. Quase se tornou pastora. Foi a universidade que abriu para ela outros caminhos e lhe permitiu ter contato com a obra de Lélia Gonzalez. “Meu processo de ruptura com a religião evangélica não foi por causa do candomblé, mas por conhecer a história dessa mulher. Vi a história dela como um espelho: são histórias de mulheres negras que se repetem”, diz. “Tenho uma sensação de pertencimento quando me faço como guardiã desse memorial. Sei o que ele representa para mim e para mulheres negras como eu e Lélia.”

Eliane de Almeida é uma mulher magra, de cabelo cor de fogo, sobrancelha discreta e óculos retangulares. Sempre traz guias penduradas no pescoço e usa turbantes que combinam com a imagem de uma artesã, como ela se autodefine. Costuma gesticular muito quando fala, em um tom de voz envolvente, que remete às contadoras de histórias. Depois da morte da tia, dedicou-se à pintura de inspiração africana e umbandista, criando figuras em alto-relevo sob um fundo de cores fortes. Seus temas principais são as entidades religiosas afro-brasileiras, a família e a tia, que na infância ela idealizava como uma “fada negra”. Agora, prepara um novo conjunto de quadros, inspirado nas benzedeiras das favelas cariocas.

Em 9 de março passado, sábado, ela inaugurou sua primeira exposição de pintura, que foi dedicada à memória da tia. Durante o vernissage, na Sal-Laje, sede do grupo cultural Caxambu do Salgueiro, na Tijuca, ocorreu um debate sobre a contribuição de Gonzalez para os movimentos feminista e antirracista. Depois, foram entoados cantos de umbanda e servida uma feijoada, cozida em fogão de lenha, como nos velhos quilombos.

Para os familiares de Gonzalez, a exposição significou o momento de abertura da série de comemorações que planejam fazer em homenagem aos 90 anos de nascimento da antropóloga, que serão celebrados em 1º de fevereiro de 2025. Até lá, está prevista a publicação de um livro infantil protagonizado por Lelinha, uma garota feminista e antirracista. Haverá ainda a estreia de um documentário de Vanessa de Araújo Souza (que dirigiu o filme Carolina Maria de Jesus, de 2018). O livro Festas populares no Brasil, de Gonzalez, publicado em 1987 com apoio da Coca-Cola, será relançado em junho pela Boitempo Editorial.

A comemoração dos 90 anos será capitaneada pelo Instituto Memorial Lélia Gonzalez, a organização social criada por Eliane de Almeida e Rubens de Lima. A historiadora Melina de Lima, sobrinha-neta de Gonzalez e filha de Rubens, conta que o instituto era um desejo da tia-avó, que pediu que suas ideias fossem difundidas. “O legado que a gente quer é este: Lélia Gonzalez na boca do povo”, diz ela.


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Jornalista, é autor de Tancredo Neves: O Príncipe Civil (Objetiva)