despedida
Thales de Menezes Abr 2024 19h54
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Só quem já comemorou a perda fenomenal de 2 ou 3 kg diante de outros guerreiros em busca de um corpo mais saudável compreenderá o que representa o fechamento do Vigilantes do Peso no Brasil. Durante as reuniões semanais promovidas pela instituição, os que conseguiam emagrecer tinham vontade de erguer os braços e gritar efusivamente, como um jogador de futebol na hora do gol. Mas logo aprendíamos a nos controlar e apenas sorrir, felizes da vida, para respeitar aqueles que fracassaram nos sete dias anteriores e apareceram com alguns gramas a mais.
Vigilantes do Peso é o nome em português da multinacional americana que vende um método pioneiro de controle alimentar. Criado em 1963 pela dona de casa nova-iorquina Jean Nidetch, o programa desembarcou por aqui em 1974. À época, nos Estados Unidos, a companhia ainda se chamava Weight Watchers International. Em 2018, virou somente WW International. Hoje a empresa está em sete países, mas já atuou em catorze. A saída do Brasil se deu no início de março.
Fui adepto do método em duas ocasiões, ambas na primeira década dos anos 2000, quando pesava uns 130 kg – muito, até para quem mede 1,86 metro. Lembro-me dos encontros em São Paulo com os parceiros de luta contra a balança. Depois de controlar a ingestão de cada garfada por uma semana, nos reuníamos para avaliar os resultados, sob a orientação de um supervisor. Era ali que a mágica acontecia. Constatar, de sete em sete dias, as derrotas e vitórias dos mesmos amigos batalhadores criava um elo forte entre nós, uma cumplicidade que nos estimulava a prosseguir. Sempre que alguém da turma exibia um perfil mais delgado, os outros pensavam: “Se ele pode, eu também posso, não?”
Pagávamos uma mensalidade tanto para frequentar as reuniões quanto para acessar informações nutricionais, receitas equilibradas e tabelas que atribuíam pontos às comidas com base no teor calórico de cada uma. Desde 2019, o Vigilantes também proporcionava acompanhamento telefônico ou virtual aos que não desejavam participar dos encontros presenciais. Na teoria, o programa – que abdica de princípios espirituais como os doze passos dos Alcoólicos Anônimos – deve ser adotado ao longo de toda a vida.
Tive relativo sucesso. Nunca persisti por mais de três meses, ainda que achasse as reuniões acolhedoras, e perdi cerca de 8 kg em cada tentativa. A verdade é que me faltavam disciplina e comprometimento. Só uma cirurgia bariátrica, em 2015, resolveu a questão ao eliminar 54 kg extras.
Muitos participantes se comportavam do mesmo jeito e largavam o programa depois de algumas semanas ou meses. Uns simplesmente desistiam. Outros acreditavam que seguiriam a dieta sozinhos. Em qualquer um dos casos, a evasão significava perda de faturamento para a WW International, que até oferecia planos com preços camaradas. No Brasil, havia opções de 19,90 reais por mês.
Pelo menos nos encontros que frequentei, as mulheres imperavam. Elas constituíam 90% dos participantes. Algumas explicações possíveis para a hegemonia feminina, todas derivadas do machismo: mulheres cuidam mais da saúde, se preocupam mais com a aparência e cozinham mais que os homens. Boa parte das reuniões girava em torno de receitas que se adequavam melhor à tabela de pontos das comidas. Também havia sugestões de como fazer compras sem cair na tentação de adquirir alimentos inapropriados. Os poucos homens presentes não entravam muito nessas discussões. Passavam pela avaliação de peso e iam embora, com folhetos de dicas.
É justo acrescentar que algumas frequentadoras resistiam à presença masculina por um motivo curioso. Nas reuniões, podia-se comprovar a crença de que os homens emagrecem mais facilmente que as mulheres. Questões fisiológicas explicam o fenômeno. Nos encontros que testemunhei, certas associadas mandavam a solidariedade às favas e ficavam indignadas quando um marmanjo “secava a jato”: “O quê?! Você só fez uma semana de regime e já perdeu 4 kg?! Fala sério!”
O fim das operações nacionais do Vigilantes é reflexo dos problemas que a matriz enfrenta há uns cinco anos, sem demonstrar força para mudar a situação. A derrocada parece ter dois vilões: a pandemia de Covid e Oprah Winfrey.
O distanciamento social imposto pela crise sanitária causou um estrago tremendo nas reuniões dos grupos americanos. Antes mesmo de o coronavírus despontar, a possibilidade de acompanhamento a distância estava modificando o perfil dos associados. Vários já não queriam saber de se encontrar presencialmente com ninguém. Num primeiro momento, a opção por reuniões virtuais aumentou a procura pelo método, mas em pouco tempo a adesão dos novos sócios se revelou ainda mais frágil. Veio então a pandemia, e os encontros fora das telas cessaram. Quando o coronavírus finalmente deu trégua, as reuniões presenciais não conseguiram manter o número habitual de participantes. Fenômeno idêntico ocorreu no Brasil.
Não bastasse, o surgimento de novas drogas para emagrecer ou controlar a diabetes revolucionou o mercado da boa forma e injetou muita esperança de sucesso rápido em quem necessita perder peso. A WW International sempre repudiou o recurso farmacêutico. Aí entrou em cena “o efeito Oprah Winfrey”.
A apresentadora e atriz – que trava uma persistente batalha contra o excesso de calorias – é inegavelmente a maior influenciadora dos Estados Unidos. Nenhuma outra celebridade televisiva soube se adaptar tão bem ao mundo digital. Sua enorme capacidade de convencimento alavancou demais o programa da WW, sobretudo a partir de 2015, quando Oprah se tornou embaixadora da empresa. Com seu rosto famoso, motivou uma porção de gente a apostar na contagem de pontos. A artista frequentava as reuniões semanais e chegou a mostrar imagens delas na tevê. Assim que ganhou uma cadeira no conselho da multinacional, comprou um caminhão de ações.
Em dezembro de 2023, porém, Oprah Winfrey contou que estava tomando medicamentos para redução de peso com ótimos resultados. A imprensa americana interpretou o episódio como uma facada nas costas da WW. Tão logo a declaração veio à tona, as ações da companhia despencaram 70%. Os seguidores do método diminuíram significativamente nos Estados Unidos e em outros países, o que levou a empresa a amargar um rápido emagrecimento dos lucros.
Em fevereiro, Oprah deixou a WW e doou 1,13 milhão de ações da companhia para a agência mantenedora do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana. No início de 2024, o lote totalizava 6,35 milhões de dólares. Agora, vale menos de 2 milhões. A apresentadora disse para o comando da multinacional que não anunciará o nome dos tais remédios antes de completar um ano fora da casa. Ela não confirma, mas todo mundo aposta que está usando o injetável Ozempic.
A WW International nunca primou pela transparência e raramente divulga números sobre o próprio desempenho. No Brasil, se limitou a comunicar o fim das operações com uma nota lacônica, publicada em seu site. Os grupos não podem mais utilizar o nome e a metodologia do Vigilantes. À piauí, dois condutores dessas redes de apoio, no Rio de Janeiro e em São Paulo, que pediram para não se identificar, afirmaram que pretendem manter as reuniões. Irão recorrer a uma “versão genérica” do programa.