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SEM AVISO, DESABA A NOITE SOBRE A AURORA. TALVEZ O AMANHÃ SEJA AGORA

Imagem Sem aviso, desaba a noite sobre a aurora. Talvez o amanhã seja agora

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DIÁRIO DE BORDO 3

Agora,

é crescer com o crepúsculo;

com a flor fora do talo.

Crescer com os estilhaços,

agora, que traficam túmulos

sobre as asas.

Estamos todos bêbados

de esquecimento – ante

a partilha de Deus; ante

os corpos que fabricamos

para mutilar.

(Crivados de palavras pávidas,

ouço o bater de pregos

em alguma cruz vigente…)

Adeus Édens transgênicos!

Adeus piratas ungidos!

Sem aviso,

desaba a noite sobre a aurora.

Talvez o amanhã seja agora.

DIÁRIO DE BORDO 6

Já era tarde quando a noite sulfúrica

trouxe a luz. Só aí veríamos os morcegos

a venderem-se de anjos. Os morcegos

e sua sede vermelha. O que fazer com o amor

que nos confronta aos altares, às alcovas

e aos que morrem sem respostas?

Cada dia, recolho-me a esse acorde

que a aurora deixa ao coração. E escuto

o crepitar do fogo quebrando em meu caule.

Serei eu o que por ele se desnuda

ou esta cinza soterrada pelas asas?

Serei eu esse umbral na oração da espada?

Não há repouso à paixão sonegada. Nem

ao rumor de suas travessias. Servirei somente

a este tráfego inquilino entre os vocábulos

e o areal. Para que seu astro alcance o meu

deserto.

DIÁRIO DE BORDO 7

Vem dessa falta de húmus

que te agrega ao espinho

com perfumes. Nada madruga

em tua fé. Nem os galos sob

o sol; nem a solidão do inseto.

No entanto, respiro através de ti

(no sacrifício sem cura) quando

apalpo-te a nudez ancestral.

Aqui estão as barcaças

que desenhei sobre a água;

aqui estão as muralhas

rendidas aos teus pés.

Tudo porque tens no lábio

esses frutos da infância; essa

moldura de pássaros no coração.

– Canto-te onde a pedra pérola!

Há que se blindar as estações

em que o amor almoça

com as víboras.

BORDER

Acordo com a poesia a morder-me

as rimas; a soletrar-me

a língua ao rés de precipícios

e mentiras súplices.

Acordo para recolher

as sementes que não nasceram.

Eu, este broto de eclipse;

eu, esta elipse de espelhos.

Levanta-te centelha de áfricas

e sertões desamados!

Segue o canhão a rosnar

sobre a cruz. E o amanhã

com seus dentes de urânio.

Levanta-te animal das estepes,

bicho feito de errâncias!

Segue o sol caro ao sonho

e a paixão sem isenção

de impostos.

E és o fósforo

que queima sem escuridão;

o devir que piora

para melhor.

Tudo que tenho (e me arvora)

são trapos de Ulisses; as palavras

e seu galope sísmico.

Sou herdeiro de um hoje

que me outrora.


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Poeta e compositor, é autor de Mural de ventos (José Olympio), A cor da palavra (Imago) e Ópera de nãos (7Letras). Suas canções foram gravadas por Ivan Lins, Paulinho da Viola, Zizi Possi e Ney Matogrosso, entre outros.