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ENTRE DOIS MUNDOS

Como o Brasil tenta ganhar espaço na geopolítica e na economia mundial, equilibrando-se entre o Ocidente e o Oriente

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Natarajan Chandrasekaran, ou Chandra, como é conhecido, preside o grupo Tata, o maior conglomerado empresarial da Índia e um dos maiores do mundo, com receitas da ordem de 150 bilhões de dólares. O Tata é dono de siderúrgicas, bancos, empresas de energia e de tecnologia, além de marcas-símbolo de requinte, como Jaguar e Land Rover. Essa máquina de fazer dinheiro quer multiplicar os investimentos no Brasil, por ora ainda pequenos, nos próximos anos. Por isso, o presidente Lula recebeu Chandra, calorosamente, no final de março, em seu gabinete, no Palácio do Planalto. 

No encontro, Lula celebrou os laços entre Brasil e Índia e falou da importância de fortalecer a parceria com o integrante mais parrudo do Brics, depois da China. Ao posar para fotos com Chandra, Lula deu mais um passo na sua diplomacia presidencial, estratégia que vem exercendo desde o início do governo com o objetivo de buscar investimentos, aumentar o comércio e, principalmente, a influência na geopolítica global do Brasil.

“A Europa perdeu protagonismo em todos os campos. Tanto no comércio quanto na política internacional, enquanto o Brics ganha cada vez mais importância”, disse Lula para Chandra, durante o encontro, segundo um dos presentes. À noite, num jantar na Embaixada da Índia em Brasília – um palácio de linhas modernas e arrojadas, no Setor de Embaixadas, no Lago Sul da capital federal – coube a Chandra reforçar, diante de empresários, políticos e diplomatas brasileiros e estrangeiros, o que ouvira mais cedo de Lula. “A geopolítica está mudando. Os Estados Unidos e a China estão se assentando e a Índia está criando seu próprio caminho”, afirmou, em um breve discurso, no qual apresentou as potencialidades do seu país como parceiro comercial e político do Brasil. “Sob a liderança do primeiro-ministro Narendra Modi, a Índia está se erguendo como uma liderança regional e uma potência econômica. Já se tornou a quinta maior economia global e, nos próximos cinco anos, vai se tornar a terceira”, disse o executivo. Isso significa que seu país espera, em pouco tempo, desbancar duas das maiores economias do mundo: Japão e Alemanha, ficando atrás apenas da China e dos Estados Unidos. 

Chandra voltou-se, então, para o ponto central da conversa que tivera com Lula: o Brics. “A Índia e o Brasil são dois dos países mais importantes do Sul Global e do Brics.” O Brasil, ele disse, tem recursos naturais gigantescos, como petróleo, gás, minério de ferro, além de florestas e fontes de energia limpa. “São duas nações muito amigáveis e ambos os governos gostariam de ver mais coisas acontecendo. Tanto no fluxo comercial como na sustentabilidade, na produção de alimentos, na transição energética, na tecnologia, entre outras coisas.” São áreas em que a Europa vem perdendo importância e competitividade, enquanto os países do Brics ganham cada vez mais espaço. A ponto de o bloco começar a ser visto como um incômodo pelos países mais ricos. E, às vezes, até como uma ameaça, no futuro.

O Brics surgiu de um acrônimo pespegado por um executivo do banco americano Goldman Sachs, em 2001, para designar um grupo de países emergentes – inicialmente, Brasil, Rússia, Índia e China – cujas economias chamavam atenção pelo grande potencial de crescimento. O apelido acabou estimulando o grupo a se unir, em 2009, num bloco de mesmo nome, ao qual se juntaria também a África do Sul. 

Apesar desses países se destacarem no cenário mundial, principalmente a China, o Brics era visto até recentemente pelas economias do G–7 (grupo que reúne Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Canadá e Japão) como um bloco com mais divergências do que interesses em comum, longe de representar qualquer risco aos donos do mundo. Essa indiferença permaneceu imutável nas últimas duas décadas, em que pese a expansão acelerada da China e da Índia. 

O alerta de que algo novo poderia desafiar a hegemonia do G–7 se deu, no ano passado, com a entrada de mais quatro parceiros no bloco: Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e Etiópia. A Arábia Saudita deve selar sua participação neste mês. A Argentina foi incluída, mas o presidente Javier Milei renunciou à parceria. O bloco ficou mais heterogêneo, sobretudo do ponto de vista político, ao misturar ditaduras e democracias num mesmo balaio, mas tornou-se um colosso econômico. O Brics ampliado, ou Brics+, como está sendo chamado, representa (com a participação da Arábia Saudita) 46% da população do planeta, 38% do PIB e 23% das exportações globais, além de 43% da produção mundial de petróleo. Entre as dez maiores economias do mundo, três – China, Brasil e Índia – são do Brics.

A China, naturalmente, é o carro-chefe da agremiação. Quando o Brics foi criado em 2009, o PIB chinês, segundo a revista The Economist, representava 47% do PIB do bloco. Em 2022, já era 70%. No comércio entre Brics, a participação da China era de 55% em 2001 e pulou para 69% em 2022. Em termos globais, com um PIB de 19,9 trilhões de dólares, os chineses ficam atrás apenas dos Estados Unidos, que com um PIB de 25,3 trilhões de dólares ainda é a maior economia do globo. 

A criação do Brics, como me disse um diplomata brasileiro, “foi um exercício diplomático criativo”. Reunia países que não tinham muitos vínculos diretos, mas que, com a criação do bloco, conseguiram agilizar alguns mecanismos de troca. “Juntaram-se numa mesa líderes de cinco países que se tornaram relevantes”, afirmou. “Isso deu uma grande agilidade no trato, principalmente porque as conversas sempre fluíram bem.”

Os especialistas em geopolítica e comércio internacional apostam que o Brics não desbancará a supremacia ocidental no curto prazo. Mas é generalizada a crença de que, pela primeira vez desde sua criação em 1944, o sistema de Bretton Woods – que estabeleceu as bases da ordem liberal mundial, com seus organismos tentaculares, como FMI, Banco Mundial, além da ONU, nascida dos escombros da Segunda Guerra – está sendo colocado em xeque. Assim como a Organização Mundial do Comércio (OMC), criada em 1995. Todos esses organismos começaram a entrar em declínio, perdendo relevância e credibilidade. O caso mais dramático talvez seja o da ONU, que vem se desmoralizando aos olhos do mundo por sua incapacidade de influir na resolução de guerras, como a da Rússia e Ucrânia, ou a exemplo do que aconteceu no começo dos anos 2000, quando não conseguiu evitar que os Estados Unidos atacassem o Iraque e o Afeganistão. O atestado mais recente da tibieza da organização é o seu fracasso completo na tentativa de impedir o massacre de palestinos por Israel, em represália ao atentado do Hamas, em 7 de outubro do ano passado. 

A reação brutal de Israel, tratada como genocídio por parte da comunidade internacional, inclusive pelo secretário-­geral da ONU, Antonio Guterres, e por países-membros da organização, já matou quase 40 mil civis palestinos, feriu gravemente cerca de 80 mil e destruiu quase completamente a Faixa de Gaza. Em 20 de maio, o procurador do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, pediu que os juízes emitissem mandados de prisão para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e os três principais líderes do Hamas por crimes de guerra. A Corte Internacional de Justiça da ONU mandou que as forças israelenses saíssem de Rafah, mas Netanyahu, desafiando a instituição, bombardeou a região em 26 de maio.

Ao não conseguir frear o ataque, em decorrência dos vetos dos Estados Unidos, a ONU expôs a sua inoperância na intermediação de confrontos, razão primeira de sua existência. Para estudiosos, como os americanos John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia, dois críticos da ação do Ocidente tanto no conflito da Ucrânia quanto no da Palestina, a tendência é a perda cada vez maior da influência dos Estados Unidos e da Europa nas zonas atingidas pelas guerras.

A opinião é compartilhada pelo embaixador brasileiro aposentado José Maurício Bustani, ex-diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq). “A ONU tal como está, acabou. Não tem mais razão de ser, porque está subordinada à vontade dos Estados Unidos”, me disse ele, durante uma conversa em seu apartamento, no Rio de Janeiro, com vista para o Pão de Açúcar. “E os Estados Unidos dão sempre a última palavra, mesmo que os outros 192 países estejam contra eles.”

Os erros dos Estados Unidos e seus aliados, principalmente os europeus – que podem levar à perda da supremacia do bloco – não se limitam à geopolítica. No campo comercial, os países do grupo têm abusado de estratégias desastrosas, que acabaram por enfraquecer suas economias. A começar pelas medidas protecionistas adotadas nos últimos anos, reduzindo drasticamente o comércio com seus antigos parceiros e aliados. É o caso do Brasil. Resultado: as exportações brasileiras para a China, no ano passado, foram maiores que a soma das suas exportações para a Europa e os Estados Unidos. É a primeira vez na história que isso acontece. 

A mudança de rota se acelerou a partir do governo de Donald Trump, quando os Estados Unidos deixaram de indicar juízes para a OMC julgar os contenciosos nas transações entre países – uma estratégia mantida por Joe Biden. “Como os americanos quase sempre perdiam os contenciosos, eles pararam de indicar os juízes e resolveram deixar a organização. Então, hoje não há quem apare divergências, como subsídios, barreiras e protecionismo que começaram a ser adotados pelo governo Trump para barrar a entrada de produtos chineses nos Estados Unidos”, explicou Bustani. 

Estabelecida a insegurança nas trocas comerciais com os americanos e europeus, já que a regras comerciais passaram a ser desrespeitadas, a China acelerou sua estratégia de buscar novos associados. O Brasil é um dos que entrou nesse vácuo, considerando que vivia em litígio com seus parceiros ocidentais históricos, sobretudo a França e os Estados Unidos, em razão das barreiras impostas aos produtos brasileiros. 

Marcos Caramuru, embaixador do Brasil na China entre 2016 e 2018, é um grande especialista em Ásia. Numa conversa no final de março, em um café em Ipanema, ele fez uma avaliação das mudanças que estão ocorrendo no mundo, não apenas com o crescimento da China, mas com a percepção equivocada das grandes potências de que as regras do jogo eram imutáveis e penderiam sempre a favor delas. Nos últimos séculos, lembrou Caramuru, o mundo foi dominado pelos valores ocidentais, como democracia, capitalismo liberal, liberdades individuais. “Agora estamos diante de uma realidade em que os asiáticos cresceram, se tornaram relevantes, passaram a ter relações comerciais globais e voz ativa.” Dessa forma, o mundo caminha para a multipolaridade, com mais países influindo no tabuleiro geopolítico e comercial.

Na coleção de erros cometidos pelos Estados Unidos, o destaque, segundo Caramuru, foi tratar a China como ameaça em matéria de tecnologia, de equipamento militar e por sua parceria comercial com 140 países. Em vez de procurar algum tipo de aproximação, os Estados Unidos insistiram na rivalidade, punindo o país com vários entraves às suas exportações. Para piorar, avaliou Caramuru, a política interna americana desde a chegada de Trump tem sido um desastre. “Não só aumentaram muito as dúvidas sobre a qualidade da democracia americana como também do liberalismo econômico. Os Estados Unidos passaram a conceder subsídios e a criar barreiras comerciais, contrariando seu ordenamento liberal. A falta de regramento resultou em injustas competições, como foi o caso do Brasil.” 

Ele continuou sua análise: “A verdade é que, do ponto de vista do comércio internacional, os Estados Unidos são os nossos grandes concorrentes, porque disputam com o Brasil os mercados de carne, de soja, de milho”, disse. “É certo que, do ponto de vista ideológico, o Brasil está muito mais próximo dos Estados Unidos, por serem sociedades muito parecidas, do que da Ásia. Ambos são países democráticos, com regime presidencialista, com grande presença africana e europeia, com valores ocidentais semelhantes.” No entanto, apesar da convergência, assegurou ele, do ponto de vista econômico o Brasil está se aproximando cada vez mais da Ásia. 

Na economia global, o FMI e o Banco Mundial também estão eclipsando. Criados para financiar ou socorrer economias em desenvolvimento, ou em crise, esses organismos, durante décadas, foram as principais instituições globais de concessão de crédito. Porém, as duras exigências e condições para liberar empréstimos, afora as altas taxas de juros, fizeram com que muitos países buscassem novas alternativas de financiamento, disse Caramuru. No caso dos mais pobres, como os da África, criaram-se situações em que o pagamento da dívida ficou inviável. E os chineses farejaram a oportunidade. 

O Banco de Desenvolvimento da China vem desempenhando bem o papel de organismo de crédito. Em muitos casos, tornou-se parceiro vital de países em vários projetos, aumentando seus vínculos e influência econômica e política na África, na América Latina, no Oriente Médio e na própria Ásia. “Os Estados Unidos achavam que, cerceando a China, iriam garantir o seu espaço privilegiado no mundo”, afirmou Caramuru. “Eles ainda acreditam, com razão, na grande força da sua economia, que, obviamente, não será eliminada, principalmente pelo fato de o dólar ser ainda a moeda de reserva do mundo. Também acreditam que juntarão os países democráticos ocidentais em torno deles”, disse. “Mas isso tudo é muito discutível. Ao se pensar no mundo como um todo, chega-se à conclusão de que nós, ocidentais, somos a minoria. Sempre nos comportamos como se fôssemos a maioria, mas somos a minoria.” 

A política de financiamento da China em troca de parcerias é exatamente o caminho que o banco do Brics – Novo Banco de Desenvolvimento, NDB (na sigla em inglês) – busca emular, por influência dos chineses. Dessa forma, o Brics quer reduzir a dependência do FMIe do Banco Mundial nas operações de crédito, aumentando sua influência nas regiões onde os países do bloco estão presentes. Foi o que o presidente Lula tentou fazer no ano passado, quando pediu ao banco um socorro financeiro para a depauperada Argentina, que estava prestes a quebrar. 

Depois da vitória de Milei nas eleições de novembro, o empréstimo foi dispensado. Milei recorreu ao FMI, embora a Argentina já tenha dado dois calotes no fundo. Agora, o NDB deve emprestar 5,75 bilhões de reais para o governo brasileiro socorrer o Rio Grande do Sul, afetado pelas enchentes.  

Criado em 2015, o NDB, hoje sob comando da ex-presidente Dilma Rousseff, é o resultado mais visível dos esforços do Brics de se contrapor à hegemonia do G–7, sobretudo depois da entrada dos Emirados Árabes (e da quase certa adesão da Arábia Saudita), cujo capital financeiro ajudará a fortalecer o caixa da instituição. “O banco do Brics ainda não é grande o suficiente se comparado ao FMI”, me disse o economista Paulo Gala, da Fundação Getulio Vargas, um estudioso do bloco, durante uma conversa por telefone.

Gala acredita, no entanto, que o NDB será uma alternativa aos organismos tradicionais de crédito. “O banco do Brics é o embrião de uma estrutura financeira que poderá ter um espaço bastante relevante no mundo.” É uma instituição, ele ressaltou, que tem como associada a China, com reservas estupendas da ordem de 3 trilhões de dólares – oito vezes maiores que as reservas brasileiras, por exemplo. “É claro que a China não vai entornar suas reservas no banco, assim como os Estados Unidos também não fazem com as deles no FMI. Mas ter um sócio de tal gigantismo no bloco dá a dimensão do lastro desse novo organismo.”

Marcos Caramuru segue na mesma linha. “Não se poderia ter para sempre um banco de desenvolvimento com cinco membros, porque as captações eram feitas por eles e só se emprestava entre eles”, comentou o embaixador, referindo-­se aos parceiros originais do Brics. “A entrada dos Emirados Árabes, e, provavelmente, da Arábia Saudita, que têm peso econômico grande, é importante, porque dá mais vitalidade e credibilidade ao banco. Com os altos e baixos do mercado financeiro internacional, é necessário que existam outros países com capital e peso suficientes para dar suporte à instituição.” 

A adesão de novos parceiros ao bloco, contudo, ultrapassa o sentido econômico. Há, por trás dessa associação, uma conotação geopolítica que inquieta o Ocidente. Dos cinco novos membros, três estão no Oriente Médio – Arábia Saudita, Emirados Árabes e Irã – e, o quarto, o Egito, está na África, mas na borda da região. Dos quatro, um deles, o Irã, é inimigo histórico do Ocidente. Isso sem contar a também atritada relação da China e da Rússia – parceiros seminais do Brics – com os Estados Unidos. No caso da Rússia, em razão da guerra na Ucrânia, a situação é de hostilidade aberta.

A guerra de Israel contra a Palestina, apoiada pelos europeus do G–7 e pelos Estados Unidos, balançou ainda mais a confiança de países árabes no Ocidente. Incluídos aí dois parceiros leais aos americanos: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes. Apesar dos laços com Washington, os dois países têm, por razões religiosas e históricas, mais afinidade com os vizinhos árabes do que com Israel. E deixaram clara essa afinidade ao votarem sempre a favor do cessar-fogo nas reuniões plenárias da ONU.

O afastamento de países do Oriente Médio dos Estados Unidos, ainda que possa ser temporário, preocupa o governo de Joe Biden. Desde o começo do bombardeio à Palestina, diante da reação negativa da comunidade internacional e parte da opinião pública americana, explicitada mais recentemente nos protestos universitários pelo país, cresceu o risco eleitoral de Biden no pleito de novembro, em que enfrentará Trump. O temor é de que muitos desses jovens, embora não apoiem Trump, desistam de ir às urnas para votar em Biden, o que pode contribuir para sua derrota. Mas também preocupa a queda da influência dos Estados Unidos na região, abrindo mais espaço para a China e, agora, para o Brics+. 

Biden, segundo a imprensa americana, alertou Netanyahu de que a persistência dos ataques poderia trazer consequências negativas aos dois países. Netanyahu ignorou o apelo de cessar-fogo. E Biden, pressionado pelo forte lobby judaico nos Estados Unidos, continuou onde sempre esteve. Tal comportamento levou o economista americano Jeffrey Sachs, de ascendência judaica, a chamar os Estados Unidos de “vassalo de Israel”, durante uma entrevista para um programa jornalístico no YouTube. “Existe um único país capaz de parar essa guerra. E são os Estados Unidos que, no entanto, não impõem qualquer limite a Israel e ao governo mais de direita, mais radical da história do país”, disse ele, demonstrando indignação.

A guerra ajudou a minar a influência americana no Oriente Médio, que já vinha sendo desafiada. A começar pela entrada dos Emirados Árabes e da provável adesão da Arábia Saudita no Brics, a convite da China. Ademais, a China, tirando partido do descompasso americano na região, conseguiu, por meio de sua diplomacia, fazer a impensável reaproximação do Irã com a Arábia Saudita, há décadas rompidos. “Nunca houve uma divergência internacional dessa dimensão que não tivesse sido resolvida por um país ocidental”, me assegurou Caramuru. “Dessa forma, a China ampliou muito o seu diálogo na região.” A morte do presidente iraniano, Ebraim Raisi, num acidente de helicóptero, em maio, não deve afetar o acordo, segundo analistas.

O revide ocidental era um pacto que vinha sendo costurado pelos Estados Unidos em que a Arábia Saudita reconheceria o Estado de Israel. A aliança traria benefícios não só para os israelenses, cuja economia fragilizada receberia investimentos de poderosos fundos sauditas, como também para os Estados Unidos, que esperavam, ao normalizar as relações entre seus dois aliados históricos, recuperar a influência perdida e brecar a expansão da China no Oriente Médio. Com o ataque de 7 de outubro do Hamas, o acordo se esfacelou, embora os Estados Unidos continuem tentando a aproximação. Especula-se que um dos objetivos do Hamas tenha sido exatamente o de inviabilizar o entendimento entre sauditas e israelenses, que estava prestes a ser assinado. O Hamas temia que, se a Arábia Saudita reconhecesse Israel, outros países árabes fariam o mesmo, e os palestinos ficariam isolados na região.

Tudo isso é novidade para um mundo até então acostumado a seguir as regras ditadas pelo Ocidente, sob a liderança dos Estados Unidos. Até pouco tempo, a comunidade internacional acreditava que o sistema de Bretton Woods era inabalável. As regras capitalistas e liberais capitaneadas pelos Estados Unidos, depois de salvar a Europa na Segunda Guerra Mundial, pareciam tão bem cimentadas que, em 1989, o cientista político americano Francis Fukuyama publicou seu famoso ensaio O fim da história?.

Fukuyama visualizava um horizonte em que os “valores” do Ocidente tinham um poder inquebrantável. As democracias ocidentais haviam ganhado o jogo, o sistema capitalista triunfara e a ordem internacional, sob o comando americano, estava solidificada. Haveria uma adesão progressiva a esse sistema. Por falta de alternativa, o mundo todo concordaria que esse era o modelo ideal a ser seguido. 

A história, como se sabe, não acabou e está mostrando que o sistema de Bretton Woods não é mais tão sólido. Seja pela arrogância e indiferença dos ricos, pela insatisfação dos pobres, pelo surgimento de um forte nacionalismo, pela guinada de algumas democracias para governos autoritários e, principalmente, pelo florescer de novas potências dispostas a brigar por um lugar ao Sol no clube dos mais ricos. Entre elas, os países do Brics. 

O embaixador aposentado Marcos Azambuja, que fez uma importante carreira no Itamaraty, acompanha com diligência a mutação global. Para ele, está claro que a supremacia ocidental vem esmorecendo. “Os Estados Unidos estão em crise de liderança. É nesse contexto que surge o Brics, que é o primeiro desafio à hegemonia ocidental e aos preceitos de Bretton Woods, depois do desmantelamento da União Soviética, no começo dos anos 1990 do século passado”, disse, durante um almoço, na Zona Sul carioca. “A União Soviética, contudo, não era um desafio científico, econômico ou comercial. O que ela propugnava era um sistema mais eficaz que o do Ocidente e que não funcionou.”

No caso do Brics, continua Azambuja, a situação é diferente. “O Brics não representa um desafio militar nem ideológico aos Estados Unidos. O que os países do bloco sugerem, principalmente pela força econômica da China e da Índia, é uma nova competência, uma capacidade de fazer melhor. E, sobretudo, o bloco sugere o deslocamento do poder, tendo o Oceano Pacífico e não só o Atlântico Norte, como ponto de atração.” 

A questão, avalia o embaixador, é que os Estados Unidos parecem alheios a essas mudanças: “Depois da Segunda Guerra, o único desafio dos americanos era a União Soviética.” Agora, o país enfrenta o desafio de todos os grandes impérios – a China, a Rússia e a Índia. “Os Estados Unidos não se deram conta de que sua hegemonia após a guerra era um momento mágico. Em vez de usar o poder que conquistaram nas últimas oito décadas para redesenhar o mundo um pouco à sua imagem e semelhança, mas onde os outros também tivessem espaço, eles, num ciclo de autossuficiência, quiseram ser, sozinhos, a única superpotência”, completa Azambuja.

O Brics é uma demonstração de que a estratégia não funcionaria eternamente e, pouco a pouco, o mundo começa a deixar a unipolaridade. A Rússia, como os Estados Unidos, é uma superpotência natural. “A União Soviética acabou, mas a Rússia continua sendo uma superpotência. O comunismo foi uma doutrina que não prosperou, mas a Rússia não acabou e ela agora ressurge mais forte. É um país com onze fusos horários, que é maior que os Estados Unidos, maior que a China, duas vezes maior que o Brasil.” 

Vladimir Putin, disse Azambuja, apesar de todas as críticas ao seu regime autocrático, começa a ser visto em seu país como uma espécie de Pedro, o Grande, o czar que modernizou a Rússia. Neste paralelo, Putin é o homem que devolveu a grandeza à Mãe Rússia e a fez voltar a crescer militarmente. Já a China, para Azambuja, é um caso fascinante, pois não chega a ser uma potência emergente, dado que ela volta a ser o que um dia foi: o império do centro. “A China tem uma imensa capacidade de crescimento e já tirou 700 milhões de seus habitantes da pobreza. Ela está reconstruindo a Rota da Seda, fazendo investimentos pesadíssimos, comprando e vendendo cada vez mais de todo mundo.”

O mesmo acontece com a Índia, outro império milenar e hoje bastante avançado em termos tecnológicos. Nesse cenário de grandes, o Brasil também se destaca. “Pela primeira vez o Brasil está sendo visto como uma potência. Não militar, mas agrícola, de commodities, territorial, econômica”, avaliou o embaixador. Os quatro países, por tais características, não podem ser derrotados, segundo Azambuja. Não pela competência militar, mas pelo seu tamanho: “O Brasil é inconquistável. Não porque seja capaz de ganhar uma guerra, mas porque é indigerível.”

As Casas Casadas, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, formam um belo conjunto arquitetônico do século XIX, em estilo neoclássico. Ali, em um dos casarões tombados pela prefeitura, fica a sede do Brics Policy Center, o Centro de Estudos e Pesquisas Brics, vinculado ao Instituto de Relações Internacionais, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-­Rio). Foi onde me encontrei com a diretora do centro, Marta Fernández, numa tarde de fevereiro, na mesma semana em que acontecia no Rio a reunião de chanceleres do G–20, o grupo que reúne as vinte maiores economias do mundo, das quais cinco são do Brics, inclusive o Brasil.

Fernández fez uma análise otimista da situação do Brasil na cena mundial e no Brics, embora veja com preocupação as tensões geopolíticas e econômicas na Europa e no Oriente Médio. “Eu acho que o Brasil está com muita força no momento”, disse. “Não só porque está sediando o encontro do G–20 deste ano [em novembro haverá o encontro dos presidentes dos países do bloco, também no Rio], mas porque sediará a COP-30, em Belém, e o Brics, no ano que vem. Esses eventos não podem ser vistos separadamente, porque serão discutidos temas nos quais o Brasil tem peso importante, especialmente a mudança climática e a transição energética.” E prosseguiu: “Esse é um tema sobre o qual temos credenciais. Temos uma matriz energética limpa, um compromisso com a sustentabilidade e um desejo genuíno de evoluir para a economia de baixo carbono. Se vamos chegar lá ou não, é outra questão.”

Mas a questão ambiental é, a um só tempo, trunfo e obstáculo. Assim como defende a energia limpa, Lula estimula a energia fóssil, como a produção de petróleo, inclusive na foz do Rio Amazonas – uma contradição questionada recentemente pela revista The Economist. O Brasil, nesse tema, diz que quer liderar o processo de transição enérgica, mas de forma justa. Isso significa dizer que países pobres, como os africanos, só conseguirão fazer a transição enérgica se receberem auxílio financeiro dos ricos. “Eles estão enterrados em dívidas. Fica impossível fazer esta transição sem que bancos como o do Brics e os organismos de Bretton Woods os ajudem. É isso que Lula defende”, disse Fernández.

Em outra controvérsia, Lula apareceu numa cerimônia em uma das fábricas da JBS, em abril, para comemorar a habilitação do frigorifico para exportar para a China. Lula fez um discurso entusiasmado, ao lado dos irmãos Wesley e Joesley Batista, donos do negócio, se dizendo “muito orgulhoso” da posição da JBS de maior produtora de proteína animal do mundo. Com isso, Lula se expôs à crítica, já que os irmãos Batista têm sido acusados, inclusive no exterior, de negociar gado proveniente de áreas de desmatamento e de subfaturar dados sobre sua produção de carbono.

Além da questão ambiental, outros temas que entrarão na pauta desses três eventos – o do Brics, do G–20 e da COP-30 – são pobreza e desigualdade, renegociação da dívida dos países mais pobres, reforma das instituições globais, afora, claro, a instabilidade geopolítica. “Eu acho que o Brasil tem uma capacidade muito grande de articular, de fazer esta ponte entre o Ocidente e o Oriente”, disse Fernández. “O Brasil tem essa capacidade justamente por não estar envolvido nos grandes conflitos e nem em contendas comerciais como a dos Estados Unidos e a China.” 

Nesse sentido, a diretora do Brics Policy Center dá crédito ao governo Lula que – ao contrário de Jair Bolsonaro, que se acomodou na aliança com os Estados Unidos –  vem diversificando suas relações externas e seus parceiros comerciais. Mesmo no comércio com a China, país responsável pelo destino da maior parte das exportações brasileiras, Fernández acha que o Brasil não se acomodou. “O Brasil exporta para a China produtos primários e importa produtos industrializados. Muito tem se falado, inclusive, de risco de desindustrialização, já que a China está entrando pesado na América Latina e pode, de alguma forma, retirar mercado do Brasil, que exporta manufaturados para países vizinhos e para os Estados Unidos. Mas o Brasil está reagindo, principalmente na área energética.”

“A balança comercial brasileira teve um superávit recorde de 98 bilhões de dólares no ano passado. As exportações para a China foram de 105 bilhões de dólares. É a primeira vez na história que as vendas para um único país ultrapassam os 100 bilhões”, contabiliza Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, comandado pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin. 

Numa conversa por telefone, ela comentou sobre as relações do Brasil com os chineses. “Nosso desafio comercial é fazer com que mais empresas brasileiras se beneficiem das oportunidades associadas a uma economia que é gigante”, disse. Ela admite, contudo, que as importações chinesas pressionam alguns segmentos da economia brasileira, ao mesmo tempo que as máquinas e insumos chineses ajudam a aumentar a competividade dos produtos brasileiros. Além do mais, explicou ela, há também investimentos da China em infraestrutura e em manufaturados no Brasil que ajudam a aumentar a nossa competitividade e ampliar o nosso mercado. “Essa complexidade, essa dualidade na relação Brasil-China, veio para ficar. O nosso desafio é encontrar a melhor maneira de lidar com ela.”

O ex-governador e ex-senador pelo PT do Acre, Jorge Viana, ocupa atualmente o cargo de presidente da ApexBrasil, entidade que opera na promoção das exportações brasileiras. Encontrei-me com ele em um evento na Embaixada da Índia, onde Viana circulava com desenvoltura entre estrangeiros e brasileiros. Ele me disse que seu papel é abrir mercado com todos os países. “Embora a China seja nosso maior parceiro, nossa relação com os Estados Unidos é muito boa. As nossas vendas de produtos manufaturados para o mercado americano no ano passado foram de 30 bilhões de dólares”, afirmou. E, numa referência a setores mais à esquerda do PT que torcem o nariz para a relação do Brasil com o parceiro do Norte, provocou: “Não podemos fazer beicinho para os Estados Unidos. Eles são o segundo maior endereço das nossas exportações.” O pragmatismo de Viana é uma das razões para ele ser chamado por alguns de seus pares petistas de “tucano do PT”.

Ele acha graça na provocação. “Veja”, disse. “A China e Taiwan são inimigos, mas negócios à parte. Taiwan tem um saldo comercial com a China de 100 bilhões. É o inimigo que mais ganha dinheiro com a China. É isso que temos que ter em mente. Os negócios primeiro.” Com os Estados Unidos não existe inimizade e sim rivalidade em alguns produtos da nossa pauta, continuou. Mas a ideia é aumentar a relação com o país. Tanto que a Apex promoveu uma grande reunião na Embaixada do Brasil em Washington, com empresários brasileiros, americanos e especialistas em comércio dos dois países. “Levamos a Embraer, nossas empresas de suco de laranja, nossas empresas processadoras de proteína animal, como a Marfrig e a JBS”, contou. Segundo ele, 35% da carne consumida nos Estados Unidos e 70% do suco de laranja são oriundos de empresas brasileiras.

Viana reforça que a briga dos Estados Unidos não é com o Brasil, mas com a China. Em 2018, a China representava 23% das importações americanas. A pandemia ampliou essa dependência, já que os americanos precisavam de máscaras, respiradores, insumos fabricados pelos chineses. Para reduzir a perigosa dependência, os Estados Unidos resolveram entrar numa guerra mais intensa com o país asiático, substituindo as importações chinesas, que caíram, depois disso, para 10% do total importado. “O que estou querendo dizer é que nós perdemos a oportunidade de entrar pesado no mercado americano quando ele estava fazendo essa substituição de importações. Não fizemos isso porque não tínhamos estratégia. O volume de nosso comércio exterior é quase ainda o mesmo de dez anos atrás. Já o México aumentou significativamente as exportações para os Estados Unidos”, disse Viana. 

Alguns especialistas em comércio exterior, contudo, não dão crédito ao México nessa expansão, pois, segundo eles, boa parte das empresas que surgiram no país pa­ra suprir o mercado americano é chinesa. Ainda assim, Viana se entusiasma. “Nós temos que ter estratégias para negociar com os Estados Unidos, a maior economia do mundo. É importante frisar que a maioria de nossas vendas para lá são de produtos manufaturados, e não de commodities. Precisamos aumentar este espaço.”

O petista responsabiliza o governo Bolsonaro por parte significativa da perda de espaço do Brasil no mercado internacional. “Eu uso a expressão ‘negócios à parte’ porque não dá para fazer como Bolsonaro, que xingava os chineses, fazia piada com a família de Emmanuel Macron, atacava a Argentina e a Venezuela.” A consequência, disse ele, é que as exportações de produtos manufaturados do Brasil para a Argentina caíram 40% nos últimos cinco anos. O comércio com a Venezuela, outro alvo de ataques do ex-­presidente, era de 7 bilhões, com 5 bilhões de dólares de saldo positivo para o Brasil. Encolheu para 400 milhões. 

Na tentativa de desideologizar os negócios brasileiros, a Apex também tomou a providência de levar seu escritório em Israel de volta para Tel Aviv. O escritório fora deslocado para Jerusalém no governo passado apenas como gesto ideológico e para agradar o presidente Donald Trump. “O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está se pegando nesse conflito com a Palestina para tentar se sustentar no governo. Mas ele vai passar. Nós sempre tivemos ótimas relações com Israel. É um país importante e queremos continuar negociando com eles.”

Embora o Brics seja um grande mercado para o Brasil, Viana assegura que a meta do governo Lula é diversificar o destino das exportações brasileiras. O problema, disse ele, é que o fim da OMC mudou a geografia comercial do mundo para pior. O risco de guerras comerciais aumentou. É nessa hora, ele avaliou, que a diplomacia se torna fundamental. Principalmente a diplomacia presidencial. “Quem vende avião da Embraer é o presidente, assim como quem vende Airbus francês é Macron”, disse. “É o peso do presidente da República nas vendas do país que ajudam o comércio nos momentos em que os organismos internacionais estão enfraquecidos. O Lula está correndo o mundo não só para uma aproximação geopolítica, que tinha sido arruinada por Bolsonaro. Mas econômica e comercial. Seja com a África, a Ásia, a Europa e, agora, colocando foco nos nossos vizinhos, principalmente o Chile, a Colômbia e o Uruguai, enquanto aguardamos baixar a temperatura com a Argentina.”

Dias depois, numa conversa por telefone, Viana voltou a falar da estratégia da diplomacia presidencial de Lula. “O encontro dele com o Macron foi uma festa. Mesmo Macron resistindo ao acordo Mercosul-União Europeia, quase saiu casamento ali”, brincou, referindo-se à visita do francês ao Brasil em março. “Além disso, Lula tem recebido chefes de países europeus, como o chanceler alemão Olaf Scholz e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, defensores do acordo entre os dois blocos.” 

“Do ponto de vista da exportação, nós temos um mundo inteiro a crescer. Nós somos ainda o 23° exportador do mundo. Nossa participação na economia global é de 2%, ou seja, nada.” E, novamente, culpou Bolsonaro por parte do desastre. “A gente perdeu protagonismo não só nas exportações, mas na política mundial, no debate da mudança climática, na transição energética. Justamente as áreas onde o Brasil é líder. É isso que Lula está tentando retomar”, assegurou.

O Brasil, embora seja um importante parceiro do Brics, tem uma estratégia pragmática. Não vai se indispor com ninguém em razão de conflitos de integrantes do bloco com nações do Ocidente, ou vice-versa. “Nem o Brics aposta todas as suas fichas no Brics. Por que o Brasil faria isso?”, me disse um diplomata brasileiro. No fundo, não se trata apenas de pragmatismo. Os integrantes do Brics, ainda que o bloco esteja crescendo como uma importante frente comercial, não pensam e não agem de forma coesa, como os países do G–7, que seguem lealmente as decisões dos Estados Unidos.

“O Brics tem uma peculiaridade que chama atenção”, disse o embaixador Marcos Azambuja. “Eu nunca vi uma organização internacional que não tenha sido criada em torno de um país hegemônico. No caso do Brics, para começar, três deles, a Rússia, a China e a Índia, são potências nucleares. E, dos cinco fundadores, ninguém quer se subordinar a ninguém. É uma tribo que só tem caciques. São líderes sem liderados. Em razão disso, é difícil imaginar, por enquanto, que sejam uma ameaça a curto prazo à supremacia americana, mas é claro que têm potencial para tal.”

Não é só essa independência entre seus pares que torna o Brics um bloco distinto. Os países do bloco têm problemas entre eles. A China e a Índia, por exemplo, têm arengas territoriais, que pioraram com a ascensão do primeiro-ministro Narendra Modi, um direitista e inflexível nacionalista. A Rússia e a China têm rivalidades, por ora suavizadas com a aproximação entre os dois provocada pela Guerra da Ucrânia. A Índia, por sua vez, tem um relacionamento tumultuado com os muçulmanos e, agora, terá que conviver com o Irã, os Emirados Árabes e, provavelmente, com a Arábia Saudita. 

Estranhamentos à parte, o bloco ganhou peso no cenário internacional. “Antes do Brics nós éramos chamados apenas para o cafezinho”, disse um diplomata brasileiro. “Quer dizer, os países do G–7 decidiam, e os outros chegavam ao final da reunião apenas para acatarem as decisões. O Brics se tornou relevante porque tem países relevantes. Queremos tomar parte nas decisões.” A situação do G–7 é completamente diferente. Ali, os Estados Unidos mandam, e Europa e Japão, obedecem, avaliou Azambuja. Os parceiros do bloco ficaram reféns dos americanos, principalmente por causa da segurança bélica. Os Estados Unidos são os maiores financiadores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que dá apoio militar aos associados. 

Uma grande demonstração dessa sujeição aconteceu na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, sob a justificativa de que Saddam Hussein tinha um arsenal de armas químicas. O embaixador José Maurício Bustani, então no seu segundo mandato no comando da agência de proibição de armas químicas da ONU, havia conseguido, antes disso, carta branca do Iraque e da Líbia para inspeções in loco. Se não tinham nada, nada tinham a temer. “Já havíamos recebido informações de alguns serviços secretos de que eles realmente não tinham esse tipo de arma”, relembrou Bustani, na conversa em sua casa. Pois bem: como a verdade não interessava aos Estados Unidos, os americanos começaram a pressionar pela saída de Bustani – e invadiram o Iraque, onde 315 mil pessoas foram mortas e nunca se encontrou nenhuma arma química.

Embora conhecessem as sombras dos bastidores, membros do G–7 mantiveram-­se coesos e obedientes à liderança americana. Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, em um aviso às potências ocidentais de que não permitiria que a Ucrânia (dona da Crimeia) se juntasse à Otan, como queriam os Estados Unidos, os russos foram expulsos do então G–8 que, passou a se chamar G–7. Além disso, por decisão do grupo e, novamente, contrariando a ONU, foram impostas pesadas sanções unilaterais ao país.

As escaramuças da Rússia com a Otan haviam começado em 2007, na Conferência de Munique. Lá, Putin já reclamara da expansão da Otan em direção às suas fronteiras. E fez um discurso no qual chamava a atenção para o fato de que, com o esfacelamento da União Soviética, a ordem global mudara e o mundo ficara sob domínio dos Estados Unidos. “Há apenas um centro de autoridade. Um centro de força, um centro de tomada de decisões. É um mundo em que há um mestre, um soberano”, disse. Segundo ele, “este mestre e seus aliados se sentiram capacitados para usar a força contra seus adversários e não arcar com as consequências”. 

Putin não se referia apenas às guerras do Iraque e do Afeganistão, mas também aos bombardeios da Otan na Sérvia, aliada da Rússia, em 1999. O ataque foi condenado pela ONU por ser considerado uma interferência indevida nas questões internas da Sérvia, que enfrentava o movimento separatista da região de Kosovo. “Hoje estamos testemunhando o uso exacerbado de força militar nas relações internacionais, que está mergulhando o mundo num abismo de conflitos permanentes”, discursou Putin. Como se já anunciasse sua intenção de reagir, alertou: “E, claro, isso é extremamente perigoso. Isso resulta do fato de que ninguém se sente seguro. Quero enfatizar isto: ninguém se sente seguro.”

 Os Estados Unidos haviam aproveitado o fim da União Soviética em 1991 para expandir seu poderio no Leste Europeu. Naquela altura, o Pacto de Varsóvia, a organização militar dos países do Leste, já havia se dissolvido. Um a um, os antigos satélites da União Soviética – República Tcheca, Hungria, Polônia, Bulgária e Romênia, seguidos depois pelos países bálticos – foram se associando à Otan, sem que uma enfraquecida Rússia conseguisse reagir. 

No entanto, sob o comando de Putin, um ex-agente da KGB com visão nacionalista e autocrática, a situação mudou. Em abril de 2008, na reunião de cúpula da Otan, em Bucareste, na Romênia, conforme relato de John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, Putin, que participava do encontro como convidado, se enfureceu ao saber das pretensões da organização de continuar avançando para o Leste. Nessa reunião, ficou clara a intenção dos Estados Unidos de permitir a adesão da Geórgia e da Ucrânia à Otan, o que significaria a instalação de bases militares da aliança nas portas da Rússia. No relato feito por Mearsheimer à revista New Yorker, Putin afirmou que acabaria com a Ucrânia e a Geórgia antes que elas se juntassem à organização. 

À época, a Rússia começava a sair da crise em que afundara depois da dissolução da União Soviética, mas ainda mantinha relações amigáveis com o Ocidente. Portanto, como diz Mearsheimer, não representava perigo para a Europa, embora tivesse sido humilhada pelo Ocidente por não ser aceita na Otan. No encontro de Bucareste, a Alemanha e a França, comandadas então por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, além da Itália, da Bélgica e da Holanda, votaram contra a expansão da Otan, mas, de novo, aquiesceram diante dos Estados Unidos, que mantiveram a decisão de ganhar os dois países. Quatro meses depois, a Rússia invadiu a Geórgia.

Em setembro de 2014, em nova reunião de cúpula da Otan, no País de Gales, foi a vez do então presidente Barack Obama defender a inclusão da Ucrânia na organização. A proposta se deu após a Rússia ter anexado a península da Crimeia, em março daquele ano, em represália à derrubada do presidente ucraniano, seu aliado. Na versão de Putin, o golpe tinha sido orquestrado pelo Ocidente. Em 2021, já no governo de Joe Biden, os Estados Unidos voltaram a bater na tecla da entrada da Ucrânia na Otan. Putin e Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano, tinham costurado um acordo, intermediado pela Turquia, segundo o qual, para evitar um confronto com a Rússia, a Ucrânia se manteria neutra. Zelensky, porém, acabou sendo convencido pelos americanos de que a Otan protegeria o seu país em caso de guerra e concordou em se associar à aliança militar. 

A confiança de Zelensky no apoio da Otan era tanta que no dia 24 de fevereiro de 2022, assim que caíram as primeiras bombas russas sobre Kiev, ele gravou uma mensagem de 66 segundos no celular dirigindo-se aos seus concidadãos e colocou-a nas redes sociais. Conforme conta o jornalista Simon Shuster em seu livro O showman: os bastidores da guerra que abalou o mundo e forjou a liderança de Volodymyr Zelensky, o dirigente ucraniano garantiu na sua fala que “os aliados estrangeiros da Ucrânia” já estavam preparando “uma reação em nível internacional”.

A primeira “reação” dos aliados foi decretar sanções unilaterais contra a Rússia, a despeito da discordância dos países da ONU, entre eles os do Brics. Entendiam que, antes disso, deveriam tentar ações diplomáticas para interromper o conflito. Mas a decisão dos Estados Unidos de fazer uma guerra por procuração com a Rússia já estava tomada. Passados dois anos, uma vitória da Ucrânia é cada vez mais remota. Em abril, os Estados Unidos aprovaram uma ajuda para o país de mais de 60 bilhões de dólares. A Ucrânia, no entanto, enfrenta uma crise sem precedentes, com milhares de mortos. Só no primeiro ano da guerra, o PIB caiu 29%.

Em entrevista ao canal do YouTube do americano Andrew Napolitano, ex-juiz e hoje analista político, o ex-inspetor de armamentos da Comissão Especial da ONU William Scott Ritter Jr. afirmou que a Ucrânia está encurralada. Boa parte dos seus soldados foi morta ou ferida, sua Força Aérea aniquilada, e muitos políticos deixaram o país levando parte dos recursos previamente enviados pela Otan para dar suporte ao Exército. Afora isso, a Rússia anunciou que pretende mandar mais 100 mil soldados para combater no país vizinho. 

Na geopolítica, avaliou Mearsheimer, no mesmo canal do YouTube, a situação é ainda mais complicada para o G–7, cujos membros europeus vivem um dilema, pois precisam sustentar um conflito que só irá enfraquecer ainda mais suas economias. Pior: se a Ucrânia perder a guerra, disse Mearsheimer, como é provável que aconteça, a Otan e seu principal parceiro, os Estados Unidos, ficarão desmoralizados e a Rússia sairá fortalecida. “Os Estados Unidos se meteram em duas guerras frias piores do que a que viveram no final da Segunda Guerra, até o desmonte da União Soviética. Agora, têm a Rússia como inimiga militar, de um lado, e a China como adversária comercial, de outro.” Em 16 de maio passado, a China e a Rússia, num claro recado aos Estados Unidos, fecharam um acordo de cooperação comercial e militar. No encontro entre os líderes dos dois países, em Pequim, Xi Jinping recebeu Putin com tapete vermelho, para mostrar reverência.

Os países do G–7 acabaram se atolando na confusão com a Rússia para não comprar briga com os Estados Unidos. Quando Trump estava na Casa Branca, eles já haviam sofrido pressão americana, que decidira entrar na guerra comercial com a China. Trump ameaçou retirar o apoio financeiro dos Estados Unidos à Otan, deixando que cada um dos associados se virasse em busca de recursos para manter seu arsenal bélico. Também fez outra ameaça aos seus pares, caso substituíssem a compra de produtos americanos pelos chineses. O Japão, por exemplo, segundo me relatou um diplomata, foi avisado de que os Estados Unidos suspenderiam as importações de carro do país caso eles não reduzissem as relações comerciais com os chineses. “Os aliados aceitaram a chantagem”, me disse o diplomata, que preferiu não se identificar por não ser voz oficial no Itamaraty. “Hoje a Otan pesa muito mais do que a União Europeia, que acabou virando um apêndice da organização.” 

A última demonstração de submissão do G–7 aos Estados Unidos se deu com a decisão do bloco de apoiar Israel no ataque à Palestina. Todas as tentativas de cessar-fogo foram barradas pelos Estados Unidos (a não ser uma pausa durante o Ramadã, ignorada por Israel), com apoio da Inglaterra e da França, que são membros do Conselho de Segurança da ONU. A Inglaterra, ao lado da Alemanha, também continua enviando armamentos para Israel por ordem dos Estados Unidos. Os americanos só ficaram sozinhos na recente decisão da ONU de apoiar a criação do Estado palestino (Reino Unido e Suíça se abstiveram). Mas como os Estados Unidos têm poder de veto, a proposta ainda não foi aprovada. Mais uma razão para o afastamento do Oriente do Ocidente. 

“Eu acho que existe o temor por parte do G–7 de que o Brics seja uma liga antiocidental”, avaliou um diplomata brasileiro que preferiu não se identificar. “Mas eu não vejo as coisas assim. Tenho a impressão de que foi o Ocidente que se tornou anti-Brics. Primeiro, anti-China, depois anti-Rússia, e, mais recentemente, anti-Irã, em razão do ataque do país aos israelenses, em represália ao bombardeio de Israel ao consulado iraniano em Damasco, na Síria, que matou vários oficiais iranianos.” O bombardeio de unidades diplomáticas é considerado, pelas leis internacionais, um ataque territorial, portanto, com direito à autodefesa. 

Com a ação, especula-se que Netanyahu queria arrastar os Estados Unidos e a Otan para uma guerra com o Irã. Dessa vez, porém, os americanos, preocupados com a possível escalada do conflito no Oriente Médio, frearam o aliado e se limitaram a impor novas sanções ao país. O fato, me disse o embaixador Eduardo Saboia, secretário de Ásia e Pacífico do Itamaraty, em uma conversa em seu gabinete em Brasília, é que o mundo parece não acompanhar, como no passado, as decisões dos líderes globais. “Eu pensei que depois de os Estados Unidos estabelecerem novas sanções à Rússia, por causa da invasão da Ucrânia, muitos países fariam o mesmo. Mas isso não aconteceu”, afirmou. “A Rússia direcionou suas vendas para a Ásia, para a Índia e para o Oriente Médio. A mesma coisa com o Irã.” 

A Rússia, na verdade, já estava preparada para enfrentar as sanções porque havia passado por isso na anexação da Crimeia. Desta vez, na avaliação de Saboia, o país não se abalou. Pelo contrário. A economia russa se expandiu. De acordo com o FMI, deverá crescer 3,2% este ano, enquanto a dos países europeus do G–7 vai encolher. A Europa sofre as consequências da guerra, como o aumento dos preços dos produtos importados da Rússia, especialmente gás e petróleo. Na perspectiva do FMI, a Alemanha entrou em recessão no ano passado. O segundo pior desempenho é o do Reino Unido, cuja economia deverá crescer pífio 0,5% em 2024.

No cenário das guerras comerciais deflagradas pelos Estados Unidos e a União Europeia, o arcabouço das trocas mundiais está sendo desmontado. Os Estados Unidos criam legislações em benefício próprio, avalia Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e hoje consultor de geopolítica e negócios. “Com o desbaratamento da OMC, acabou o liberalismo, agora o comércio virou um jogo de poder. É a lei da selva, do mais forte”, disse ele. Além disso, a decisão dos Estados Unidos de congelar as reservas russas no país por causa da guerra colocou em xeque a confiabilidade do dólar como moeda de reserva mundial e pautou a discussão no Brics para a criação de uma moeda alternativa. “É uma revisão de todo o esquema que servia aos interesses das economias capitalistas”, avaliou Barbosa. Ainda assim, ele acha que o Brasil não deveria opinar nas questões geopolíticas, como nas guerras da Rússia e de Israel. 

Referia-se às declarações de Lula. De um lado, o presidente disse que a diplomacia deveria ajudar a parar o conflito entre Rússia e Ucrânia, o que irritou Zelensky. De outro, disse que Israel estava cometendo genocídio contra os palestinos, o que irritou o governo israelense. “O Brasil está espremido entre o Oriente e o Ocidente. Deveria ficar calado, como faz a Índia. Seria mais proveitoso para nossa economia e para nossa diplomacia, que tem por princípio não interferir em assuntos alheios.”

O embaixador Eduardo Saboia vê a atuação do Brasil de outra maneira. “O Brasil é um país que transita bem na diplomacia. Dentro do Brics, é o país que conversa com todo mundo, tem uma tradição de multipolaridade. O Brasil tem cara de que pode oferecer alguma solução para o mundo. Talvez, por ter um bom diálogo com todos, o Brasil seja, no Brics, o país com mais condições de fazer a costura entre Ocidente e Oriente.”

Por enquanto, a costura está difícil. O bloco é questionado por países ocidentais, inclusive por analistas brasileiros, pela inclusão de autocracias. A preocupação é de que o Brasil estaria se afastando dos valores ocidentais para se juntar a economias de países não democráticos. Perguntei a Marcos Caramuru se isso poderia se tornar um problema para o Brasil na relação com os parceiros europeus e com os Estados Unidos. “Enquanto o mundo asiático não tinha expressão própria, ser democrático parecia ser um brilho extraordinário. Mas isso mudou. O mundo é diverso”, avaliou Caramuru. “Tem democracias, autocracias, monarquias absolutistas. Esse mundo está crescendo e entrando no jogo dos negócios. E muitos deles não querem viver a realidade do Ocidente, do liberalismo comercial, da democracia. Os países têm visões diferentes, e essas não são, necessariamente, visões éticas negativas, porque a história deles é assim.” 

O embaixador Bustani concorda. Acha que as grandes potências estão tentando ideologizar a questão para enfraquecer e desmoralizar o Brics. Afinal, os Estados Unidos têm, entre seus parceiros, a Arábia Saudita, uma monarquia absolutista. Javier Vadell, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais, toca em outro ponto. “Embora se digam democráticos, os países do G–7 não respeitam regras, ferem as leis internacionais de política e comércio, desrespeitam a ONU. Com isso, os países em desenvolvimento estão confiando mais no Brics, por ter regras mais estáveis, do que no Ocidente.” 

Na reunião do Brics, em Joanesburgo, no ano passado, a China tentou usar seu poderio econômico para impor algumas condições ao bloco. A maior delas foi a entrada de novos países, o que não era visto com bons olhos pelo governo brasileiro, que achava necessário dar mais tempo para avaliar as posições dos futuros parceiros. Mas, como se trata de uma tribo só de caciques, como provocou o embaixador Azambuja, algumas concessões tiveram que ser feitas, principalmente para que a Índia e o Brasil aceitassem o aumento no número de sócios. 

China e Rússia, por exemplo, acabaram concordando que o Brics defenda uma mudança no Conselho de Segurança da ONU, hoje composto por quinze países, de modo que o Brasil conquiste um pleito que defende há décadas: ter um assento permanente no grupo com direito a voto. É uma forma de democratizar e de influir nas decisões. Também negociaram que haja uma pressão sobre os atuais membros permanentes na questão dos vetos. Hoje, um país, sozinho, pode brecar uma decisão. A ideia brasileira é de que o veto passe a exigir votos de outros membros. China e Rússia, que têm direito a veto, não gostaram muito da proposta que lhes tira poder. E não se sabe se vão mesmo exercer a pressão prometida.

O embaixador Celso Amorim é assessor internacional de Lula e um dos negociadores na formação inicial do Brics, em 2009, como chanceler brasileiro. Numa tarde de março, encontrei-me com ele em seu gabinete, no terceiro andar do Palácio do Planalto. Em uma mesa no centro da sala, havia um bolo, servido no lanche, que ele devorava com visível prazer. Perguntei como analisava a posição do Brasil no tabuleiro da geopolítica, dadas as desavenças de três parceiros do Brics – a China, a Rússia e o Irã – com os Estados Unidos. 

“Nós continuamos sendo muito amigos dos Estados Unidos. Mas eu espero que eles respeitem a nossa independência, como, queiramos ou não, temos que respeitar a deles. Espero que eles entendam que amigos nem sempre concordam com tudo. O mundo está ficando um pouco mais equilibrado entre Ocidente e Oriente. O Brics é um fator de equilíbrio. Principalmente dentro do G–20, dado que agora são mais economias relevantes decidindo, e não apenas o G–7. Isso reduz a injustiça”, disse.

O Brasil, acredita Amorim, tem papel importante por causa de sua reconhecida experiência em diplomacia. “Nós criticamos a invasão da Ucrânia, mas continuamos conversando com a Rússia. Nós não queremos e não vamos romper relações com a Rússia, como o G–7 fez. É um absurdo achar que vai se tirar a Rússia do mapa. É o país com mais fronteiras do mundo.” 

“Outro dia”, ele continuou, “eu estava conversando com uma embaixadora da Europa Oriental e ela se espantou quando eu disse, de brincadeira, que o mundo estava precisando de um novo Henry Kissinger [ex-secretário de Estado americano], embora saibamos quantas políticas desastrosas ele adotou, principalmente na América Latina. Mas é verdade. Está faltando um pouco de pragmatismo nas relações globais.” E citou o ganense Kofi Annan, ex-secretário geral da ONU. “Ele dizia que não se faz paz com os amigos. Se faz paz com os adversários. É essa paz que precisamos buscar.”

Perguntei, então, sobre a situação do Brasil com Israel, hoje um adversário, dado que Netanyahu declarou Lula persona non grata no país, depois das críticas do presidente brasileiro pelos ataques aos palestinos. “Bom”, disse, com serenidade na voz. “O Brasil sempre teve boas relações com Israel e continuará tendo. Lula esteve lá duas vezes. Eu mesmo tive conversas duríssimas com o ex-primeiro-ministro Ariel Sharon que acabaram em trocas de fotografias de filhos e netos. Isso é humanidade, entende? Mas, com esse governo que está lá agora, o relacionamento ficou impossível.”

Antes de voltar para o gabinete de Lula, Amorim disse que, mesmo estando no Brics, o Brasil continua mantendo boas relações com todos os países. “O Brasil tem essa pluralidade. De dialogar com todos. E isso tem que ser visto como uma coisa positiva. Se você quiser participar de uma cruzada, capitalista ou anticapitalista, ou Ocidente versus Oriente, vai dar errado. Temos que apostar no diálogo. É isso que estamos buscando.”


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)