cartas
Jun 2024 10h52
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CAETANISMO
Poucas coisas são mais satisfatórias do que ler um texto que sintetiza um incômodo que você sentia, mas não conseguia expressar. Foi exatamente isso que senti ao ler o genial artigo A síndrome caetanista, de Luigi Mazza, na piauí_212, maio. Uma (meio) esquerda presa a um imaginário ultrapassado e com total incapacidade de lidar com um novo Brasil bem mais complexo do que ela gostaria de imaginar. Apesar da situação em si ser bastante desesperadora, a leitura foi um alento.
FABRÍCIO NICOLAO MATTEI_FLORIANÓPOLIS/SC
NOTA CAETANISTA DA REDAÇÃO: Tudo em volta está deserto, tudo certo. Tu-do certo como dois e dois são cinco.
O artigo de Luigi Mazza sobre a “síndrome caetanista” aponta o filme Bacurau como a grande obra do que ele chama de “caetanismo”. O autor também diz que o enredo do filme não comporta complexidade, porém faz essa crítica por meio de uma análise e comparação simplista sobre o pobre do semiárido nordestino e o brasileiro que vive nas periferias das grandes cidades.
Separar o brasileiro pobre da periferia de grandes metrópoles do sertanejo do semiárido nordestino como se fossem diferentes, como aponta Luigi, é uma total falta de entendimento da complexidade do Brasil. As periferias das grandes metrópoles brasileiras, sobretudo no Sudeste, estão cheias de migrantes nordestinos que saíram, e ainda saem, do semiárido (da roça) em busca de melhores condições de emprego e salário. As periferias estão cheias de pessoas com origem no sertão nordestino que não são necessariamente evangélicos, empreendedores ou trabalham por aplicativo. Há também pessoas formadas em universidade pública, professores, pedreiros, músicos, sindicalistas, empregadas domésticas, enfermeiras e até jornalistas. Enfim, o brasileiro do semiárido também faz parte da população brasileira que vive nas periferias. Não estão separados.
Ainda sobre Bacurau e sua comparação com o filme Parasita, é interessante observar que o protagonista do filme sul-coreano sonha em um dia ser patrão e comprar a casa em que ele e sua família trabalham, é o oprimido sonhando em se tornar opressor. Já em Bacurau isso não acontece. No filme brasileiro a luta é coletiva, não há sonho de ser igual ao opressor ou qualquer sinal de vira-latismo. Bacurau pode ter um olhar romântico, mas é político e muito complexo para ser chamado de moralista.
BISMARC PEREIRA DE SOUZA TEIXEIRA_CARAPICUÍBA/SP
SEGUNDA NOTA CAETANISTA DA REDAÇÃO: Queria querer gritar setecentas mil vezes como são lindos, como são lindos os burgueses. E os coreanos. Mas tudo é muito mais.
DERRITE
Li a reportagem sobre o secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Guilherme Derrite (O homem e seu passado, piauí_212, maio), e o que me despertou a atenção foi que parece que o repórter estava torcendo para que os policiais tivessem levado um tiro. Não sou policial, bolsonarista e nem de extrema direita. Porém gostaria de salientar que a corporação da Polícia Militar tem sua corregedoria para aplacar os abusos policiais. Do lado dos criminosos, não. Penso que existem sim, abusos de poder em certas abordagens com os bandidos, porém nunca é demais lembrar que esses policiais colocam suas vidas em risco, assim como a de seus familiares, por um salário baixíssimo. Na hora que a coisa aperta é sempre para o 190 que nós ligamos.
LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP
TORCIDAS
Rodrigo Barneschi, em seu artigo A negação do outro, publicado na piauí_212, maio, parece transferir toda a responsabilidade pela “torcida única” ao Estado, isentando as torcidas organizadas de qualquer culpa. Aqui em Minas Gerais convivemos com essa situação devido a diversos episódios de conflitos entre as organizadas Galoucura e Máfia Azul pelas ruas de Belo Horizonte, invariavelmente terminados em espancamentos e até mesmo em morte. A incapacidade do Estado em lidar com a violência pública é notória, porém não podemos fechar os olhos para o fato de que essas “torcidas” infiltradas por marginais nada têm a ver com o futebol. A culpa pela não convivência com o torcedor rival em um campo de futebol é 100% dessas organizações criminosas travestidas de torcidas organizadas, cujos dirigentes insistem em se fazer de vítimas.
JÚLIO SOBREIRO_BELO HORIZONTE/MG
INÉDITOS
Por paradoxal que pareça, a piauí_212, maio, foi uma edição que valsou com o ineditismo. Eu tinha quase certeza de que Ziraldo estaria na Despedida, mas seus desenhos, inéditos, realço, foram resgatados ao longo das páginas em bonita e suave homenagem.
Felipe Botelho Corrêa me levou a buscar inéditos de Lima Barreto e, agora com A cobra e o búfalo, me instiga a fuçar na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional para tirar a limpo a origem da expressão “a cobra vai fumar” e suas variantes. Duas décadas antes da FEB, nos anos 1920, já aparecia a alcunha “cobra fumando” atrelada à malandragem e a jogadores de futebol, e mais curiosa ainda foi a gravura publicada no jornal O Globo de 22/02/1945 representando a cobra fumando e atirando, desenhada por Walt Disney, retratado na matéria quando da criação do Zé Carioca. A submissão ao Império vem de longa data e por várias vias, portanto.
Também Julio Maria, em “Obrigado, meu amor”, revela que, à parte do misticismo, inéditos de Rita Lee e Roberto de Carvalho habitam gavetas e fitas magnéticas que precisam vir a público, sedentos que estamos da boa música.
Por fim, quanto à ciência, tive minha inexistente alma lavada com o artigo A ciência recalcula sua rota, de Clarice Cudischevitch e Kleber Neves. Estamos nesse dilema do publish or perish, mais para perish even published, ou ainda, subvertendo a língua de Shakespeare: publishit! Muita pesquisa científica de qualidade permanece inédita por causa desses obstáculos. Faltou apenas uma consideração no texto: a existência das chamadas revistas predatórias, que convidam para publicar algum resumo ou trabalho em congresso científico sem a necessidade de avaliação pelos pares (já foi avaliado, eles alegam), bastando pagar. Os órgãos de fomento, como a Fapesp, o CNPQ e a Capes, fazem enormes listas com esses veículos, mas está cada vez mais difícil escapar da armadilha e da tentação.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
TERCEIRA NOTA CAETANISTA DA REDAÇÃO: Esse papo (com tanta referência) já tá qualquer coisa. Você já tá pra lá de Marrakesh…
EXÉRCITO
Ótimo o artigo de Felipe Corrêa (A cobra e o búfalo, piauí_212, maio), que mostrou uma das piores formas de racismo depois da Guerra do Paraguai. Que tal uma pesquisa e reportagem sobre a presença do Exército no Haiti?
Parabéns, continuem.
CAETANO LAGRASTA_SÃO PAULO/SP
NOTA NÃO CAETANISTA DA REDAÇÃO: Seu desejo é uma ordem. Basta ler a matéria Terra desolada, na piauí_155, agosto de 2019, do repórter Fabio Victor.
NOME X SOBRENOME
Pessoal, aqui vai uma opinião para estudo.
Sei que no manual das redações se indica o sobrenome para referenciar as personagens de uma matéria. Mas não seria essa uma regra incongruente com a cultura do Brasil?
Salvo exceções, tratamos as pessoas pelo nome.
Na excelente matéria Triste Bahia, piauí_212, maio, vemos essa menção a “Santos” [referindo-se a Silvana dos Santos, uma mãe que teve o filho assassinado pela polícia em Salvador]. Isso nunca ocorreria na língua falada, usaríamos Silvana, certamente. O tratamento por Santos torna a leitura menos fluida. Em vários casos, temos que retornar a leitura para lembrar de quem se está falando. Parece-me que essa regra seria importada dos Estados Unidos e da Europa, onde o sobrenome costuma se impor ao nome.
No futebol se constata bem essa situação. Aqui, em geral, tratamos os jogadores pelo prenome ou apelido. Quando vão jogar na Europa, mantém-se a forma de tratamento.
Claro que algumas pessoas são mais conhecidas pelo sobrenome: Maluf, Niemeyer etc.
Então fica a sugestão de se abandonar essa regra em prol da fluidez da leitura e da coerência com a língua falada. E nada agrega, além de um quê de pedantismo.
RONALDO LOMONACO JÚNIOR_SÃO PAULO/SP
QUARTA NOTA CAETANISTA DA REDAÇÃO: Maria Bethânia Viana Teles Veloso, please send me a letter. I wish to know things are getting better, Teles, Teles, Teles, Teles Veloso.
PERFIL E ASSÉDIO
Sou assinante da piauí há bastante tempo e, de quando em quando, escrevo para vocês elogiando, normalmente, algumas matérias. Evito escrever mensalmente para não encher o saco das pessoas e do famoso “editor da seção de cartas”. Mas vamos lá.
Na piauí_211, abril, não tem como deixar de elogiar a matéria da Ana Clara Costa sobre o todo-poderoso Ali Kamel, que acaba de deixar seu cargo na Rede Globo (O cardeal Três). Os perfis elaborados pelos repórteres da piauí são, em sua enorme maioria, excelentes, trazendo fatos que nos levam a descobrir facetas até então ocultas dos perfilados.
O perfil de Ali Kamel ficou muito interessante e chega a ser didático, até. Ana Clara teve muita argúcia e sensibilidade para atingir “pontos nevrálgicos” do personagem. Tudo dentro de padrões de elegância e clareza, mostrando como ela domina a arte de tirar de seu perfilado informações, curiosidades, manias e otras cositas más, que nos levam a ler com grande interesse os dados ali expostos.
Também não poderia deixar passar em branco a matéria de Allan de Abreu (“Tudo aqui é padrão”), que enfoca uma das maiores baixezas que existem no país, graças a omissão, mútuos interesses e espírito corporativo, que possibilitam que a imprensa, ao colocar diante dos leitores fatos nada republicanos de pessoas detentoras de poder, seja atacada e submetida a chantagem judicial, com o intuito de ameaçar e desestimular possíveis “aborrecimentos” aos poderosos.
Allan de Abreu sempre nos surpreende com matérias de alto teor investigativo, nos proporcionado uma visão representativa dos males tupiniquins, como influências nefastas, jogos de interesse, defesa de atos ilícitos etc.
Espero que compreendam, mas, pelas razões acima expostas, sou obrigado a ficar escrevendo para a piauí.
ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA
QUINTA RESPOSTA CAETANISTA (E NARCISISTA) DA REDAÇÃO: Toda essa gente se engana, ou então finge que não vê que o editor de cartas nasceu pra ser o superbacana.
CUIDADO PALIATIVO
Em relação à matéria Por um último e sereno suspiro, piauí_211, abril, da repórter Angélica Santa Cruz, nós, da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), gostaríamos de informar que concordamos com a crítica feita pela dra. Ana Claudia Arantes sobre as situações em que profissionais utilizam sedação sem uma comunicação clara com o paciente. No entanto, achamos importante esclarecer que a sedação paliativa é um procedimento médico necessário quando o sofrimento em situações de fim de vida não pode ser controlado através de todo tratamento otimizado, ou seja, diante de um sintoma refratário. É uma prática amplamente descrita na literatura nacional e internacional e com adequação muito clara do ponto de vista ético e legal. E não acelera o processo de morrer, conforme comprovado por vários trabalhos científicos. A ANCP, portanto, esclarece que, se usada sem comunicação adequada ou até mesmo para acelerar a morte, a prática é condenável e antiética e não deve ser denominada “sedação paliativa”.
RODRIGO KAPPEL CASTILHO, PRESIDENTE DA ANCP_SÃO PAULO/SP