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CENAS DE UM MAL-ESTAR

Altos e baixos do cinema no país de Bolsonaro
Imagem Cenas de um mal-estar

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Revi recentemente O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, lançado em 2012. Está entre meus filmes favoritos do cinema nacional. Dizer que fala ao nosso presente é quase ocioso. Não importa que você viva em São Paulo, Recife, Rio de Janeiro ou Belém do Pará. O mal-estar que o filme retrata está presente um pouco por toda parte, distribuído de forma difusa pelas grandes cidades do país.

A trama se passa num bairro de classe média alta da capital pernambucana, onde João (Gustavo Jahn) trabalha como corretor de imóveis. Sendo a figura mais constante no filme, ele curiosamente não é o protagonista da história. Sua vida é banal e nada de extraordinário lhe acontece. Progressista e apático, ele não se importa quando os netos da empregada, negra, se largam no sofá da sala de estar de seu apartamento para assistir tevê enquanto ela trabalha. Seus dias são consumidos entre a namorada (estudante de ciências sociais) e visitas monótonas a imóveis que pertencem a seu avô, um senhor de engenho decadente que preserva todos os cacoetes do mandonismo.

O protagonista do filme, na verdade, não é nenhum personagem específico, mas o clima contínuo de tensão, que não se acumula propriamente, mas que jamais se dissipa, renovando a cada instante a sensação de que algo vai dar errado, não sabemos o que nem com quem. A violência latente funciona como uma bomba-relógio instalada não se sabe onde, sempre prestes a explodir.

O mal-estar está partout, como já dissemos, mas se concentra na personagem de Maeve Jinkings, Bia, uma dona de casa angustiada e insone, que desenvolve técnicas para calar o cachorro da vizinha durante as madrugadas e faz uso heterodoxo dos eletrodomésticos durante o dia – a trepidação da máquina de lavar auxilia sua masturbação, o aspirador de pó a ajuda a projetar a fumaça da maconha pela janela do apartamento. Nada disso a torna disfuncional, pelo contrário, ela é zelosa e dedicada ao casal de filhos, a ponto de acompanhar as aulas particulares de chinês das crianças.

Embora seja em grande medida responsável pelo tom do filme, Bia não pertence à trama central, que se desenvolve quando um grupo de vigias noturnos oferece seus serviços para cuidar da segurança do bairro. A fim de viabilizar o negócio, o chefe dos vigias, Clodoaldo (Irandhir Santos), pede permissão ao ex-­senhor de engenho, Francisco (Waldemar José Solha), que assente, mas com uma condição: um de seus netos, primo do corretor de imóveis, costuma fazer pequenos furtos pela região, e nele ninguém deve tocar. Firma-se assim o trato entre o representante da milícia e o representante da classe dominante. Estamos instalados no coração do Brasil contemporâneo, em que medo, privatização da segurança e ilegalidade se misturam.

O desfecho da trama, no entanto, subverte esse arranjo, ou o reconfigura, iluminando todo o resto. Não vou contar o que acontece. Cito apenas o que diz Nuno Ramos, num trecho do seu diário da crise brasileira dos últimos anos, o monumental Fooquedeu: “A violência patriarcal é o verdadeiro assunto do filme, embora só compreendamos isso no (surpreendente) final.” O arcaico como que devora o moderno, mas seria um equívoco pensar que um vem antes do outro: ambos são atuais em sentido substantivo, sintomas de um presente carregado do passado que não passa. Estamos, agora sim, no coração do Brasil.

É notável que O som ao redor tenha vindo à luz quando a atual onda histórica estava se formando. Como acontece com a arte em seus melhores momentos, o filme captura no ar o Zeitgeist e antecipa, de forma cifrada, aquilo que nos tornaríamos, ou aquilo que já éramos sem saber.

Essa onda histórica já arrebentou – não na praia, mas sobre as nossas cabeças. Bacurau, do mesmo Kleber Mendonça, lançado em 2019, é o filme que dialoga com o tsunami. Não estamos mais no mundo da violência latente ou das coisas malparadas; agora estamos dentro do país conflagrado, na era da atrocidade explícita, instalados na barbárie, na rua, no meio do redemunho.

Ainda que tenha sido filmado antes da eleição de Bolsonaro, Bacurau é impensável sem Bolsonaro, da mesma forma como Terra em transe, de 1967, é a resposta de Glauber Rocha aos impasses da esquerda e do país depois do golpe de 1964. Estive entre os que se inflamaram dentro do cinema com a vingança sanguinolenta dos progressistas, derrotados nas urnas, mas vitoriosos na tela. A catarse se desfez. Hoje, me identifico mais com o que disse Marcelo Coelho, ainda em 2019, no texto Bacurau, ou bolsonarismo às avessas: “Alimentando ilusões, o filme é mais sintoma de desespero do que de lucidez política.”

Chegamos, enfim, ao Grande sertão, a adaptação ambiciosa de Guel Arraes ao clássico de Guimarães Rosa recém-lançada nos cinemas. Ao comentar o filme, quase todo mundo destaca o achado da transposição do sertão original, localizado no passado, para a favela, inscrita no presente. Sim, mas não se trata apenas disso.

O Grande sertão de Guel Arraes não é um filme realista. Não estamos diante de mais uma favela, como a Cidade de Deus ou a Rocinha. Desencarnada, evocando um pouco os cenários de Daniela Thomas, como se dela só restasse o esqueleto, ou uma ideia fantasmagórica, a favela arquetípica deste Grande sertão é uma alegoria sombria do país: o sertão é a favela e a favela é o Brasil. Um Brasil localizado num tempo indefinido – talvez no presente, talvez num futuro próximo –, ou, antes, suspenso no tempo.

Há quem veja nesse país congelado, imerso numa espécie de batalha derradeira entre o bem e o mal, traços da estética de Mad Max, a saga distópica ambientada no deserto australiano. Pode ser, mas barateia o filme. Faz mais sentido, embora seja menos evidente, aproximá-lo de Bacurau.

A Diadorim de Luisa Arraes só reafirma seu imenso talento. Mas quase podemos vê-la atuando no filme de Kleber Mendonça, empilhando cadáveres na ponta da faca, como parceira de Lunga, o justiceiro vivido por Silvero Pereira. Não é o caso de forçar a mão nas analogias, mas este Grande sertão também seria impossível sem Bolsonaro. Apoteótico num caso e trágico no outro, ambos os filmes são alegorias da catástrofe brasileira.

São também dois filmes essencialmente masculinos, na sua ambição totalizante de decifrar o país, nada menos, ou de travar a grande guerra e encenar a batalha definitiva. A despeito de suas muitas qualidades, são as complexidades do país real que parecem lhes escapar entre os dedos.

Como diz Nuno Ramos em Fooquedeu, “o Brasil profundo saiu dos cafundós, da geologia severa da seca sertaneja, euclidiana, ou dos rios amazônicos, e se instaurou em alguma coisa economicamente rica, estranhamente religiosa, violenta e cara de pau, inoculada em alguma cidade do interior do Paraná, de São Paulo ou do Rio Grande do Sul”. Eu acrescentaria a isso a cultura do agro, que há muito deixou de ser apenas um ramo próspero da economia com sua expressão musical, o sertanejo, para se tornar um estilo de vida consumido no país inteiro, cada vez mais.

Não conheço nenhum filme digno de nota que tenha se ocupado desse mundão que está engolindo nosso mundinho. E não vale citar 2 filhos de Francisco.

Mas o mal-estar atual, pós-Bolsonaro, ou contemporâneo dele – não nos livraremos disso tão cedo –, aparece bem caracterizado em dois filmes recentes da diretora Carolina Markowicz – Carvão (2022) e Pedágio (2023), ambos protagonizados brilhantemente por Maeve Jinkings. Cada um a seu modo, os dois se ocupam dessa coisa “estranhamente religiosa, violenta e cara de pau, inoculada em alguma cidade do interior” de que fala Nuno. Pode-se dizer que são dois filhos de O som ao redor, herdeiros da melhor vertente crítica do cinema brasileiro. Não anunciam o juízo final nem prometem redimir nossa história, mas ajudam, exatamente por isso, a refletir sobre o presente indigesto. Não é pouco num momento de recesso civilizacional, quando estamos lutando para que as praias não sejam privatizadas e mulheres estupradas não sejam enviadas para a cadeia.


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