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POBRE CIDADE RICA

A pequena Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, e a corrida pela riqueza do lítio
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A cidade mineira de Araçuaí fica longe de tudo, nas profundezas do Vale do Jequitinhonha. Ou no coração, como preferem os moradores. De lá até Belo Horizonte são cerca de 600 km. Nos tempos coloniais, houve ali e nos arredores uma corrida ao ouro, explorado até a exaustão. Hoje é um lugar como tantos outros do interior do Brasil, com seu traçado urbano desordenado, as ruas mal calçadas, a arquitetura modesta e sem graça, com alguns sinais do que se chama progresso: o hipermercado Cordeiro, a moderna farmácia Indiana, a envidraçada academia Forma Fitness.

De acordo com o Censo, a população de Araçuaí diminuiu de 2010 a 2022, caindo de 36 mil para 34,3 mil pessoas, cuja renda média não ultrapassa 1,7 salário mínimo. Os motoristas de táxi costumam dizer aos turistas que uma das atrações locais é o artesanato, com suas esculturas de mulheres em barro que atraem os turistas e admiradores da arte popular no Brasil e no exterior. Os taxistas também gostam de lembrar que a cidade bateu recentemente um recorde: atingiu a maior temperatura da história do país em 19 de novembro do ano passado, chegando a 44,8ºC, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia.

Nas esquinas de Araçuaí, porém, o principal assunto agora não é o calor – mas o lítio, um mineral considerado fundamental na transição energética, pois é usado na composição de baterias para os carros elétricos. O Serviço Geológico do Brasil estima que a região onde fica a cidade concentra 8% das reservas mundiais e 85% das reservas brasileiras do mineral. Ao todo, catorze municípios compõem o chamado “Vale do Lítio” mineiro. No nordeste do estado, além de Araçuaí – ponto de partida do mapa do tesouro –, estão Capelinha, Coronel Murta, Itaobim, Itinga, Malacacheta, Medina, Minas Novas, Pedra Azul, Virgem da Lapa, Teófilo Otoni e Turmalina. No Norte, Rubelita e Salinas.

Em maio do ano passado, o governador Romeu Zema (Novo) esteve em Nova York para divulgar o projeto Lithium Valley Brazil na Nasdaq, a Bolsa que concentra os investimentos em tecnologia. Queria chamar a atenção de mineradoras, investidores e aventureiros. Desde então, Araçuaí assiste a uma corrida ao ouro branco, como o lítio foi apelidado. Cinco grandes mineradoras saíram na frente, instalando-se entre Araçuaí, Itinga e Salinas. Duas já exploram o minério: a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) e a canadense Sigma Lithium, que tem cerca de 40% de capital brasileiro. Outras três estão em fase de implantação: a americana Atlas Lithium, a também canadense Lithium Ionic e a australiana Latin Resources. Fora essas empresas, pelo menos mais dez estão realizando estudos para a exploração.

A avalanche de novidades com a chegada do dinheiro grosso da mineração atropela todo mundo em Araçuaí. “A gente queria estar correndo na frente, mas estamos correndo atrás”, lamenta Cleuber Francisco da Silva, vice-presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços da cidade. A corrida ao ouro branco já se faz sentir em diversos setores. Na construção civil, tudo dobrou de preço, dos terrenos ao cimento. Estão sendo construídos três hotéis de alto padrão, dois postos de gasolina e vários galpões para atender às empresas terceirizadas que chegam com milhares de funcionários. “Eu sei de terras que antes valiam 40 mil reais e, com a descoberta de lítio, foram vendidas por 2 milhões de reais”, diz Cleuber da Silva.

Ele conta que a “onda do lítio veio com tudo”, na forma de efeito dominó, com uma coisa puxando o preço da outra. Os aluguéis subiram tanto que alguns proprietários de casas no Centro estão alugando as residências e se mudando para a periferia, onde constroem uma nova moradia, o que impacta mais ainda o setor da construção. Em seu consultório, o ortopedista Armando Paixão, ex-prefeito de Araçuaí pelo PT, diz que a cidade não foi preparada para as transformações. Como podem pagar mais, muitas vezes o dobro ou o triplo, os forasteiros estão empurrando a população local para os arredores e modificando completamente as relações sociais. “Temos o índice X-Tudo”, brinca o corretor Vinícius Martins, gerente da Rede Max Imóveis. “Um sanduíche que custava 15 reais saltou para 30 reais, um aluguel de 500 reais passou para 1 mil reais.”

Um cientista brasileiro tem grande importância na história do lítio. Em 1800, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), político conhecido como o Patriarca da Independência, mas que também foi naturalista, descobriu em pesquisas na Suécia quatro novos minerais, entre eles a petalita e o espodumênio. Poucos anos depois, examinando os dois minerais, o químico sueco Johan August Arfwedson (1792-1841) identificou pela primeira vez que no espodumênio havia a presença do mais leve dos elementos sólidos: o lítio, o Li da tabela periódica.

O metal tem diversas utilidades: serve na fabricação de remédios para o transtorno bipolar, na fabricação de graxas lubrificantes, de combustível para a bomba H e na criação de um composto que ajuda a resfriar reatores nucleares. O mais recente uso, em baterias de íon-­lítio, provocou o grande boom.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o país já ocupa o quinto lugar na produção mundial de lítio, embora suas reservas ainda não estejam devidamente mapeadas. As principais reservas brasileiras conhecidas estão concentradas em Minas Gerais, onde se localizam as minas ativas e os projetos mais avançados de exploração. Também existem áreas potenciais no Nordeste, como nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. No Vale do Jequitinhonha, a quantidade de direitos minerários passou de 58 (em 2015) para 627 (em 2023). A produção nacional ganhou um impulso depois que o governo de Jair Bolsonaro flexibilizou um decreto do fim dos anos 1960 que restringia a exportação de lítio devido à possibilidade de uso nuclear.

Ainda se está longe de ter uma conta exata sobre a quantidade de lítio presente no planeta. Em 2017, o US Geological Survey apurou que as reservas mundiais chegavam a 14,4 milhões de toneladas. O Brasil entrava com 0,33% desse volume, cerca de 47 mil toneladas. Nesse mesmo ano, porém, o Serviço Geológico do Brasil fez uma reavaliação do estoque brasileiro e chegou a um número bem maior: 1,1 milhão de toneladas. Seis anos depois, em 2023, os americanos aumentaram substancialmente a avaliação, chegando 105 milhões de toneladas em todo o mundo. Ainda não foi atualizado o volume das reservas brasileiras. Como o governo não tem tradição de investir em cubagem, o Serviço Geológico do Brasil depende de prospecções feitas pelas mineradoras.

De acordo com a avaliação de 2023 do US Geological Survey, as principais reservas do mundo estão distribuídas da seguinte forma: Bolívia dispõe de 23 milhões de toneladas; Argentina, 22 milhões; Estados Unidos, 14 milhões; Chile, 11 milhões; Austrália, 8,7 milhões; China, 6,8 milhões. O Brasil, nesse levantamento, aparece com 800 mil toneladas, número aquém do cálculo feito pelo Serviço Geológico do Brasil em 2017. “O lítio não é um mineral exatamente raro, mas as reservas em larga escala que podem ser comercialmente exploradas pelo preço de mercado são, sim, raras. O Brasil é importante para o futuro do lítio, mas os governos frequentemente exageram nos benefícios potenciais”, comenta o consultor Joe Lowry, apresentador do podcast Global Lithium, considerado um dos maiores especialistas em lítio do mundo.

Quando começa a falar sobre a exploração do lítio, Rossandro Ramos, professor assistente de estratégia de inovação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), logo fica agitado. Em 2020, no começo da pandemia, em busca de um lugar tranquilo para encarar o isolamento, ele se mudou com a família para Araçuaí, onde tem parentes. Tão logo deixou o Rio e se instalou em uma confortável casa na cidade mineira, ouviu conversas sobre o lítio, que já se espalhavam. Ramos decidiu criar lá uma feira de negócios, a Lithium Business, que, neste mês, vai para a segunda edição. O objetivo é levar para Araçuaí os figurões do mercado, envolvendo também a comunidade. Foi na feira que os estudantes viram, pela primeira vez, um carro elétrico.

O entusiasmo de Ramos parece não ter freio. Atropelando as palavras, ele anda rápido pela sala de sua casa e volta com duas rochas na mão. Uma delas é a rocha de espodumênio bruto, um grande cristal, sombreado com manchas esverdeadas, que são justamente os vestígios do lítio. Em sua composição mineral, o espodumênio bruto contém uma quantidade de lítio da ordem de 1,5%.

A outra rocha que Ramos me apresenta é menor, de cor leitosa e mais uniforme: é uma amostra de lítio concentrado, beneficiada em uma mineradora de Araçuaí a partir do espodumênio bruto. A concentração de lítio, neste caso, salta para cerca de 5%. O minério bruto custa hoje cerca de 20 dólares a tonelada. Já o espodumênio concentrado, como o produzido em Araçuaí, sai por cerca de 1,3 mil dólares a tonelada. A enorme diferença de preço decorre de alguns fatores, entre eles o custo do beneficiamento e a facilidade para exportar o concentrado, já que a pedra fica menor e mais le­ve do que a pedra bruta.

Em fins de 2022, os preços eram bem diferentes. A tonelada do bruto estava em 80 dólares, enquanto a do espodumênio concentrado girava em torno de 8 mil dólares. A imensa oscilação de preços, explica Ramos, deve-se à volatilidade de um mercado muito novo, sujeito ao surgimento de novas tecnologias e à descoberta de matéria-prima. A variação do preço, aliás, preocupa os investidores, de acordo com o professor.

A primeira bateria para carros elétricos, por exemplo, não continha lítio. Juntava níquel, manganês e cobalto. Porém, como o maior produtor de cobalto do mundo é o Congo, país com graves problemas de violação de direitos humanos, houve um empenho para criar uma nova tecnologia para a bateria, que resultou numa combinação de lítio, fosfato e ferro. “Mas isso pode mudar amanhã, e o lítio perder o valor de novo”, diz Ramos. Cerca de 60% do lítio processado atualmente no mundo é destinado à China. No último trimestre de 2023, a BYD, fabricante chinesa de carros elétricos, ultrapassou a Tesla, do bilionário sul-africano Elon Musk.

Na opinião de Ramos, não existe mineração sustentável, já que minério “só dá uma vez, não tem duas colheitas”. Mas seria possível a mineração responsável. “Eu costumo dizer que defender mineração não é fácil. Minas Gerais tem as mãos sujas de sangue por causa da mineração. Mas só vamos fazer a transição energética com mineração, isso é um fato”, ressalta. “Até hoje tivemos em Minas a mineração subtrativa, que sempre entrou de costas para o território. Eu defendo a mineração aditiva, que envolva o território.”

A empresa pioneira na exploração do mineral em Araçuaí foi a CBL, de capital privado, que iniciou em 1990 a extração de espodumênio nos arredores da Fazenda Velha, a 20 km do Centro da cidade. Vindos de São Paulo, os empresários Agnaldo Pires Couto e Salustiano Costa Lima da Silva compraram a Mina da Cachoeira, que pertencia a um garimpeiro local, e iniciaram a prospecção no ano de 1985. À época, falava-se muito em energia nuclear, e o lítio pode ser usado no resfriamento de reatores. Pires Couto recorda que existia uma espécie de duopólio mundial dividido entre uma empresa americana e outra australiana. “Não conseguimos comprar tecnologia para processar o lítio no Brasil. Recebemos até ameaça para desistirmos. Era a luta de Davi contra Golias”, diz. “Mas, como tínhamos investido 2 milhões de dólares, fomos em frente.”

A empresa investiu em pesquisa e acabou por desenvolver tecnologia própria para processar o espodumênio e obter dois derivados fundamentais: hidróxido e carbonato de lítio. Atualmente, a CBL é a única mineradora fora da China a realizar esse beneficiamento. Embora as suas minas fiquem em Araçuaí, a indústria química da empresa está instalada em Divisa Alegre, a cerca de 190 km. O motivo: obter isenções fiscais, porque na época de criação da indústria Divisa Alegre já estava entre os municípios incluídos na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) – e Araçuaí ainda não, o que aconteceu posteriormente.

A história da CBL ilustra boa parte de um debate travado em torno do lítio: a dúvida se o modelo que trará desenvolvimento local deve ou não ter a mão do Estado. De certa forma, a polarização política do país reflete-se na discussão. Em 2018, o governo de Minas Gerais, então comandado por Fernando Pimentel (PT), propôs que a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) comprasse 33% da CBL por 78 milhões de reais. Realizado o negócio, a Codemig se associou a uma empresa inglesa de baterias para carros elétricos e drones, a Oxis Energy, a fim de criar uma fábrica de baterias à base de enxofre e lítio em Juiz de Fora. Com aporte inicial de cerca de 50 milhões de reais, a fábrica aproveitaria a capacidade ociosa das instalações da Mercedes-Benz na cidade.

No arranjo do governo Pimentel, Minas Gerais seria o garantidor de matéria-prima para que outras empresas ligadas ao setor do lítio viessem se instalar no estado. “Era uma ideia, inclusive, do período militar: 1/3 de capital estatal, 1/3 de capital privado nacional e, eventualmente, 1/3 de capital estrangeiro. O capital estatal garantia a perpetuidade e a soberania. Nós pegamos esse pensamento e aplicamos no modelo do lítio”, diz Marco Antônio Castello Branco, então presidente da Codemig.

Com a eleição de Romeu Zema, no mesmo ano de 2018, a ordem mudou. Logo que assumiu, o governador baixou um pacote de privatizações. Tudo o que podia ser vendido sem a aprovação da Assembleia Legislativa foi para o prego. Com isso, as ações da CBL que estavam nas mãos da Codemig acabaram recompradas por Pires Couto e Lima da Silva, os sócios originais da CBL.

Pimentel considera que foi uma “lástima” para Minas Gerais. “Sempre tive a visão de que as terras-raras, dos minerais estratégicos, são o futuro da humanidade, e certamente o futuro de Minas Gerais”, diz o ex-governador, hoje diretor-presidente da estatal Empresa Gestora de Ativos (Emgea). “O lítio é um mineral fundamental. Fizemos apostas. O objetivo do Zema é só vender patrimônio. Ele é um empresário que quer vender tudo. O problema de Minas Gerais é que somos um estado com um processo de industrialização inconcluso. Vamos perder de novo a oportunidade. O capital privado não corre esse tipo de risco, quem assume esse tipo de risco é o Estado.”

Em uma sala do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), em Belo Horizonte, Zema defende seu programa radical de privatizações. “Sou um governador que acredita no potencial, na iniciativa das pessoas”, diz ele, gabando-se das “vendas volumosas” que seu governo fez. “Se não tivéssemos vendido as ações da Light, já teríamos levado prejuízo de 2 bilhões de reais. Vendemos por 1 bilhão e meio e hoje não valem 100 mil.”

O atual governador refuta as especulações de que o governo teria vendido as ações da CBL por um terço do valor: “Eu te falo e provo que o processo foi o mais isento e transparente do mundo.” O estado de Minas deixou a sociedade com a CBL, mas continua sócio da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM),[1] que explora nióbio – metal usado na produção de supercondutores – em Araxá, a terra natal de Zema. Diante da aparente contradição, o governador alega que, no caso do nióbio, a Codemig é dona da mina, que arrenda para a CBMM. No caso do lítio, a estatal era apenas uma acionista minoritária da CBL.

Pimentel diz que foi justamente o modelo de Araxá que inspirou o investimento de seu governo em Araçuaí – e que acabou abortado por Zema. Em fins dos anos 1940, procurando fosfato para a produção de adubos, o governo de Milton Campos, por meio do Instituto de Tecnologia Industrial, encontrou nióbio em Araxá e comprou as jazidas. Em 1952, no governo de Juscelino Kubitschek, o estado de Minas Gerais conquistou o direito de lavra, emitido pelo governo federal. A partir daí, pegou o direito de lavra e transformou em capital de uma empresa pública chamada Fertilizantes de Minas Gerais (Fertisa), que, depois, daria origem à Codemig. “O estado puxou o nióbio. Não houve pressão sobre a CBMM para lucrar. Só começou a gerar lucro em 2006”, observa Castello Branco, o ex-­presidente da Codemig.

Na encalorada Araçuaí, anda quente o debate sobre como reinventar a roda, rompendo com a predatória tradição extrativista que marca a história de Minas Gerais. Nesse estado que leva a mineração no nome, são muitos os exemplos das cidades fantasmas, que foram do apogeu ao abandono, com o esgotamento das suas riquezas minerais, sobretudo no ciclo do ouro. A pouco mais de 300 km de Araçuaí, ainda no Vale do Jequitinhonha, encontra-se o exemplo mais bem-­acabado da sanha predatória: Diamantina, outrora rica e cosmopolita, hoje sobrevive do que resta de pedras preciosas e do turismo doméstico.

Mais distante, já fora do Vale do Jequitinhonha, acha-se Itabira, pioneira na exploração de minério de ferro, berço da Vale (antiga Vale do Rio Doce), cidade que convive com a incerteza, por causa do iminente fim das suas reservas, previsto para os próximos cinquenta anos. Carlos Drummond de Andrade, o mais ilustre itabirano, já previa o melancólico final no poema O maior trem do mundo (1984) em que fala do trem que ia e vinha carregando o minério:

leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra
para o Canadá
leva minha terra
para o Japão.
[…]
e um dia, eu sei, não voltará,
pois nem terra nem coração existem mais.

Em Araçuaí, ninguém parece ter mais a ilusão do garimpeiro, tão marcante na cultura mineira, de que a prosperidade virá da pedra. O desafio é encontrar um modelo de mineração que proporcione desenvolvimento local, construindo um futuro que independa do minério.

Entre as discussões, a Prefeitura de Araçuaí está menos preocupada com a participação do Estado na mineração e mais atenta à candente polêmica da tributação. “O Estado deve atuar naquilo que lhe é demandado pela Constituição: educação, saúde e segurança”, diz o prefeito Tadeu Barbosa de Oliveira (PSD), mais conhecido como Tadeu do Posto, em seu gabinete num prédio histórico no Centro antigo da cidade.

Candidato dos empresários locais que se uniram para derrotar o PT em 2020 – os petistas ocuparam a prefeitura entre 1993 e 2008 e entre 2012 e 2020 –, Tadeu do Posto se colocou como missão romper com a inércia atribuída às gestões anteriores. “O Brasil precisa decidir o que deseja com a tributação desse minério. Como taxar isso? Estamos taxando alto os produtos industrializados e taxando muito baixo as commodities. Exportamos minério de graça, essa é a verdade”, diz ele.

O ex-prefeito Armando Paixão faz questão de lembrar que foi por causa do envolvimento do governo de Fernando Pimentel com a CBL que houve o repasse de 3 milhões de reais para o campus local do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). Com o recurso, construiu-se, segundo a coordenadora Luna Cantuária, dois laboratórios de ponta e oito salas para abrigar o curso para formação de técnicos em mineração. “A primeira turma se formou em fevereiro, quase todos os alunos estão empregados”, orgulha-se Cantuária.

Na visão de Waldir Salvador, ex-prefeito de Itabirito pelo PSDB e consultor da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (Amig), o Estado brasileiro tem tratado de maneira negligente a atividade minerária, responsável por 4% do PIB do país. Ele diz que a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem), praticamente o único tributo a incidir sobre a exportação de minério, é a mais baixa do mundo. Como se não bastasse, as mineradoras autodeclaram a produção. “Isso é a maior prova da autorregulamentação mineral”, critica Salvador. “As empresas funcionam do jeito que acham que têm que funcionar.” A Amig congrega 55 municípios, de oito estados.

No Brasil, cada minério paga uma taxa diferente de Cfem. No caso do minério de ferro, é 3,5% sobre a receita bruta. No caso do lítio, 2%. Em razão da Lei Kandir, de 1996, a exportação de produtos primários segue isenta do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço (ICMS). “Nós só consumimos 20% daquilo que produzimos. Mais de 80% do minério de ferro vai para fora”, diz Salvador. “O problema é que a Cfem já nasceu torta, é um pagamento espontâneo, é um royalty, não um imposto. A gente esperava uma estrutura de fiscalização, mas aconteceu o contrário. A Agência Nacional de Mineração, que substituiu o antigo Departamento Nacional de Produção Mineral, diminuiu. Ganhou status de agência reguladora sem ganhar funcionários para fiscalizar.”

Daniel Pollack, da Agência Nacional de Mineração (ANM), confirma: são quatro fiscais para 35 mil licenças minerárias (ou títulos minerários) no país. Para pagar os royalties, a mineradora entra no site da agência e faz a autodeclaração. “Tentamos sempre incentivar que as empresas paguem de maneira correta. Mas, logicamente, existe um grau de sonegação. A ANM não faz o cálculo”, diz Pollack. A Associação Nacional das Associações de Fiscais de Tributos Estaduais (Febrafite) já fez o cálculo: para cada real arrecadado, outro real é sonegado. No momento, inclusive, a Amig, representando 28 municípios, está movendo uma ação de 2,4 bilhões de reais contra a Vale. Já ganhou em primeira e segunda instâncias, mas a empresa recorreu. De acordo com Salvador, a dinâmica é justamente esta: as empresas sonegam, os prefeitos denunciam e pelejam na Justiça por décadas. “Não foi só a Febrafite que calculou. O Tribunal de Contas da União também já emitiu relatório demonstrando que, para cada 1 real arrecadado, 1 real é sonegado. Essa é a cultura que vigora no Brasil.”

Salvador acredita que com o lítio não será diferente. “Somos o país que menos onera a mineração no mundo. Nossa Cfem é a mais baixa do planeta”, repete ele, como um mantra. “A Austrália é o nosso maior concorrente. Traduzindo para uma Cfem australiana, digamos assim, a taxa lá estaria entre 5% e 7,5%.” No Brasil, divide-se o valor arrecadado entre vários atores da cadeia: 60% para o município produtor, 15% para o estado, 15% para os municípios impactados, e 10% ficam para a União.

Recentemente o economista Ricardo Machado Ruiz, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizou uma pesquisa e mostrou que a reforma tributária recém-aprovada tem minúsculo impacto no setor de mineração. “Eu diria que uma mineradora paga, sim, imposto de renda, além de outros tributos. Não é só a Cfem. Mas o imposto que ela paga é muito menor do que o que eu pago quando vou à padaria e compro um pão de queijo.” Para o professor, seria preciso iniciar com urgência o debate sobre a Cfem do lítio. “Não podemos tratar o lítio como há trinta anos, quando se estabeleceu a porcentagem de 2%. Sempre existiu uma ideia de que a mineração poderia criar um desenvolvimento sistêmico para os municípios. Mas isso nunca se concretizou. Se você olhar historicamente, ocorre até o contrário. Nós temos, em Minas, as cidades fantasmas. O maior terror de Itabira hoje é o esgotamento da mina.”

Todos os dias, por volta do meio-dia, a terra treme no povoado de Poço Dantas. “A gente sente nos pés”, diz Ana Cláudia Gomes de Souza, presidente da associação de produtores rurais do pequeno vilarejo, com cerca de trezentos moradores vivendo à beira do Rio Piauí, entre os municípios de Araçuaí e Itinga. Da varanda de sua casa, Gomes de Souza enxerga a Grota do Cirilo, a mina explorada pela Sigma Lithium, que, no primeiro ano de operação, entre julho de 2023 e abril de 2024, exportou 175 mil toneladas de espodumênio concentrado, tornando-se a quarta maior mineradora de lítio do mundo em volume de produção.

Para os moradores de Poço Dantas, porém, o sucesso da Sigma tem representado pouco, de acordo com Gomes de Souza: a doação de caixas d’água de mil litros para toda a comunidade, a reforma de uma quadra poliesportiva e o conserto da escola. “Não transformou nada aqui, apenas o nosso modo de vida. Mexeu com as expectativas das pessoas. Ninguém passou a ganhar mais, mas só o sonho já fez subir o custo de vida”, diz Gomes de Souza. Ela conta que muitas lideranças foram embora dali, o que enfraqueceu mais ainda a comunidade. Os encontros com representantes da mineradora, que acontecem quinzenalmente no pátio da igreja, no começo ficavam lotados. Aos poucos, foram se esvaziando. “As pessoas desanimaram. Todo dia vem a névoa de poeira, com aquele cheiro horrível. O que eu sinto é descaso.”

O cenário muda, e mudam as conversas, quando se vai adentrando os humildes povoados que, da noite para o dia, viram brotar na vizinhança gigantescos projetos minerários. Se no Centro de Araçuaí sente-se a esperança, aqui é mais comum encontrar a revolta. Moradora da Fazenda Velha, Maria Sttefani Ferreira Jardim, tesoureira da associação local de moradores, dedica-se à batalha por melhorias para a pequena comunidade, de pouco mais de cinquenta casas, entre duas mineradoras. De um lado, a CBL. Do outro, mais distante, mas não inaudível, a Sigma. “Quando explodem as dinamites, balança tudo. A terra treme tanto que os escorpiões saem das tocas”, diz ela. “Eu não aceito humilhação e vou para cima, mas meu medo maior é tirarem a gente daqui. Meu pai criou dez filhos em cima desta terra.”

Ferreira Jardim afirma que boa parte das casas em Fazenda Velha apresenta rachaduras. O pó de minério entra nas narinas, provocando doenças respiratórias, segundo ela. (Nem a prefeitura nem o hospital da cidade, no entanto, confirmam o aumento de males respiratórios na região.) A promessa da CBL de cobrir as pilhas de rejeito com lonas ainda não foi cumprida. Em quase três décadas de operação, a primeira obra de porte bancada pela empresa, de acordo com Ferreira Jardim, é o prédio do posto de saúde. Até bem pouco tempo, a maioria dos funcionários da empresa vinha de fora. Depois de “muita briga”, ela diz, começaram a ser contratadas pessoas da comunidade. “Uns dez. O bananal dá mais emprego.”

Para o presidente da CBL, Vinícius Alvarenga, as reclamações não fazem sentido. A empresa, segundo ele, possui os principais certificados internacionais de responsabilidade social, ambiental e de governança – como o Bureau Veritas Quality International (BVQi) – e, desde que entrou em operação, procura contribuir socialmente. Ele diz que pelo menos metade dos moradores de Fazenda Velha têm vínculos com a CBL. Boa parte é formada por funcionários aposentados, já que a legislação brasileira prevê a aposentadoria com quinze anos de serviço para quem trabalha em mina subterrânea, como é o caso da Mina da Cachoeira.

Alvarenga também diz que a CBL vem fazendo doações para o Hospital São Vicente de Paulo, em Araçuaí. “Agora mesmo doamos 1,5 milhão para reformar uma ala.” Para ele, o que está faltando são investimentos dos governos estadual e federal. “Como se pode falar em desenvolvimento com estradas como aquelas?”, afirma, referindo-se à precária ligação entre Araçuaí a Itinga, por onde trafegam os pesados caminhões que carregam o minério. Ademais, faltaria investimento em formação de mão de obra. “Nós oferecemos bolsas de estudos para todo funcionário com mais de dois anos de casa que quiser se aprimorar. Não tem gente para operar equipamentos cada vez mais sofisticados.”

A paulista Ana Cabral-Gardner, presidente da Sigma, diz que a empresa faz medições diárias do barulho e da poeira. “Se você respirar o ar do mercado municipal de Araçuaí e o ar da mina, a qualidade na cidade é pior. Isso é número. Como fazemos isto? Com tecnologia.” Ela afirma que tem buscado maneiras de promover o desenvolvimento local. Na pandemia, em parceria com o empresariado da cidade, a Sigma começou a distribuir 11 mil cestas básicas por mês – e não parou mais. Em seguida, a mineradora associou-se à ONG Dona de Mim, para lançar um programa de microcrédito para as mulheres, com 10 mil linhas de financiamento.

Cabral-Gardner diz que a situação na região é tão precária que realizar a capacitação profissional das pessoas não seria suficiente para atender a demanda das comunidades. A empresa optou por investir também naquilo que as pessoas já sabiam fazer. “Chamamos de capacitação cultural. Se a mulher sabe fazer bolo, financiamos a batedeira.” Ela contou que a Sigma investe ainda em projetos de irrigação para desenvolver a agricultura familiar. “Quando começamos a operar, fizemos uma campanha nacional de volta ao lar. Hoje 85% dos funcionários da companhia são do Vale do Jequitinhonha.”

A presidente da Sigma conversou com a piauí por telefone, de Nova York, onde estava em meados de maio para participar do evento que marcou um ano do lançamento do Lithium Valley Brazil nos Estados Unidos, aquele que teve a presença do governador Zema. Cabral-Gardner avalia que só agora o Brasil está fazendo o dever de casa, vendendo o país lá fora como um bom lugar para se investir. “O presidente Lula tem este chip de vender o país. O Vale do Lítio virou Brazil Battery Material”, ela comenta, lamentando que, com a tragédia do Rio Grande do Sul, vários ministros convidados para o evento não puderam comparecer.

A Sigma chegou a Araçuaí há doze anos e investiu desde então 3,8 bilhões de reais em pesquisa e tecnologia. “Temos conseguido entregar lítio em escala considerável no mercado internacional, e com impecabilidade ambiental que impressiona o mundo”, diz Cabral-Gardner. “O lítio não é raro: é abundante. Difícil é a execução de um processo limpo, num lugar benigno. Somos a primeira companhia a ter essa vantagem competitiva, pois o lítio que conseguimos industrializar e processar não gera emissões de carbono, nem resíduos ou subprodutos químicos nocivos, não tem barragem de rejeito, não utiliza água potável, nem fonte de energia não renovável.” Ela diz também que a Sigma desenvolveu uma tecnologia inédita para separar o lítio da rocha-mãe (onde o metal está incrustado) por meio de centrifugação. Em alguns países, como a Austrália, ainda é usado o processo de flotação, que recorre a materiais químicos. “Por que a Austrália faz flotação? Porque é seguro e mais barato, embora seja muito danoso do ponto de vista ambiental”, diz.

Para alcançar o vilarejo de Neves, num vale pedregoso no município de Araçuaí, o caminho é árduo – e a vista deslumbrante. Depois de subir por uma estradinha esburacada, atinge-se a planície da Chapada do Lagoão. Dali de cima, o Vale do Jequitinhonha se alonga num mar de montanhas. A dona de casa Silvana Coelho, de 56 anos, está animada com a chegada da Atlas Lithium, a mineradora que, de acordo com Zema, vai investir 1 bilhão de reais em sua operação no local, prevista para começar no ano que vem. “Criei meus sete filhos na foice e na enxada. Os filhos tiveram que ir todos para longe buscar trabalho”, diz ela. “Muitas mulheres aqui da comunidade estão cozinhando para os funcionários. Eu entrego trinta marmitas por dia. Por enquanto, não tenho do que reclamar.”

Numa casa de paredes verdes na rua da igreja, o aposentado Laurito Pereira, de 63 anos, e a mulher, Maria das Dores, de 54 anos, guardam a lembrança dos tempos em que ele precisava ir ao interior de São Paulo para trabalhar no corte de cana, porque não havia emprego em Neves. “Às vezes, demorava mais de ano para voltar”, diz Maria das Dores. “O lado bom hoje é que os jovens estão voltando para cá, pois agora tem trabalho de motorista, de segurança, de serviços gerais”, completa seu marido. O casal sabe que, em breve, a terra começará a ser detonada com dinamites, os caminhões carregados de minério passarão a cruzar a pacata Neves, a poeira de minério entrará pelas narinas. Mas, enquanto isso não acontece, diz Pereira, “a esperança basta”.


[1] A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) é controlada pela família do fundador da piauí.


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Jornalista, é autora de Samuel Wainer: o homem que estava lá (Companhia das letras)