tragédia gaúcha
José Francisco Botelho Jul 2024 14h43
26 min de leitura
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Quando eu era menino, passei dois anos sem ver uma gota de chuva. Foi durante a grande estiagem que, entre 1989 e 1990, atingiu minha cidade natal, Bagé, na região do pampa gaúcho, na fronteira com o Uruguai. Nos campos, o pasto tinha um tom amarelo doentio, e cavalos e bois tombavam mortos de sede. Nas ruas, as pessoas se enfileiravam para coletar a água dos caminhões-pipas. Tomávamos banho de caneca, ou por meio de um balde com furinhos. A piscina do clube se transformou em cisterna.
À medida que os meses passavam e a chuva não vinha, um boato começou a circular. Algumas pessoas diziam que uma maldição pairava sobre a cidade e que seríamos aniquilados por aquele azul impiedoso, onde não havia um fiapo de nuvem. Estava tão desacostumado de ver a chuva que me parecia estranha a simples ideia de que um dia a água voltasse a cair do céu.
Mas eis que, certa manhã, estava eu na escola, sentado junto à janela, quando algo começou a sacudir os batentes. No início, só pude constatar que um líquido transparente escorria pelas vidraças e pelo chão de paralelepípedos. Todas as crianças se levantaram, olhando para a rua, sem entender direito o que acontecia – e guardo até hoje a imagem do professor paralisado diante da lousa, com o giz suspenso na mão. Naquele dia, as aulas foram canceladas, o comércio fechou, as pessoas saíram a dançar pelas ruas, os foguetes espocaram.
Na minha memória, aquele milagroso evento meteorológico até hoje se reveste de características impossíveis: ainda escuto a água atingindo as janelas e as paredes, num ritmo deliberado, quase musical, com pausas dramáticas entre as bategadas. Eu não lembrava mais como era a chuva e, ao revê-la, enxerguei uma criatura mágica, feita de gotas e vento e sons inusitados, que vinha nos salvar do extermínio. Desde então, fiquei fascinado com o barulho da chuva. Mesmo na vida adulta, ao escutar as primeiras gotas sacudindo o vidro, eu sempre voltava a experimentar a alegria e o assombro daquela manhã de 1990 no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.
Até que toda essa porção da minha memória passou por uma terrível transformação entre abril e maio deste ano, quando o Rio Grande do Sul foi devastado pela fúria das águas. Agora mesmo, enquanto escrevo este parágrafo, me detenho de tempos em tempos para espiar pela janela. Pois, ao ouvir o tamborilar na vidraça, passei a experimentar outra sensação: não mais de alegria, mas de pesadelo, pontuada por imagens de ruínas lodosas, animais e pessoas nos telhados, crateras de entulho que parecem abertas por bombardeios. O anjo da salvação se transformou no anjo exterminador.
Em fins de abril, começou a chover sem parar no Rio Grande do Sul. A maioria de nós, contudo, demorou vários dias para perceber que era o início de uma catástrofe. Ingênuos, muitos pensávamos estar escolados nas intempéries: o estado tivera já dois períodos de inundações recentes, em 2023. Até mesmo Bagé, famosa pelas estiagens brutais, sofrera transtornos pelo excesso de chuva.
Em Porto Alegre, chovia desde 21 de abril. No sábado, dia 27, o aguaceiro bateu em Bagé. Ao me deitar, sonhei que estava chovendo ferro. Pedaços enormes de sucata desabavam nas ruas e se acumulavam em cordilheiras de estrondo. Ao acordar, percebi que o barulho do sonho vinha da chuva lá fora. Tomei uma melatonina para recuperar o sono e, antes de apagar, lembro que pensei: “A coisa vai ficar feia em Porto Alegre.”
Por cerca de vinte anos, fui morador do Bom Fim, bairro tão célebre na capital gaúcha que tem até um gentílico: bom-finiano. Voltei para Bagé em 2022, trazendo comigo a biblioteca que venho acumulando desde o primeiro dinheiro que ganhei, aos 18 anos. É aqui que escrevo meus livros e traduzo os dos outros. Meus pais, contudo, moram na capital – além disso, lá tenho grande quantidade de amigos, assim como nas cidades vizinhas, nas margens dos rios que desembocam no Guaíba, nos vales e nas encostas da serra.
Mesmo sabendo que a coisa decerto estava feia em Porto Alegre e redondezas, eu não imaginava que passaria dias isolado da maioria das pessoas que conheço no estado. Tampouco me ocorreu que algumas delas perderiam tudo o que tinham e outras teriam de lutar fisicamente contra a enxurrada de desgraças que alterou, talvez para sempre, a face do Rio Grande do Sul.
N
a noite de domingo, 28 de abril, a escritora Carina Luft estava assistindo à previsão do tempo na tevê com seu marido, Daniel Pinheiro. O casal mora em Montenegro, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Situada no Vale do Rio Caí – um dos quatro principais cursos de água que alimentam o Guaíba –, Montenegro está acostumada a enchentes. A última ocorrera em 2023, quando as águas chegaram até o pátio da casa de Carina.
Naquele domingo, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) anunciava precipitações de 100 mm por dia para vários municípios gaúchos. Carina e Daniel imaginaram que, com aquela quantidade de chuva, a água poderia passar do pátio e entrar na casa. Autora de romances policiais – seu livro Fetiche foi finalista do Prêmio Açorianos em 2011 –, Carina tinha uma coleção de clássicos do gênero, incluindo Edgar Allan Poe, Agatha Christie e Patricia Highsmith. Sua posse predileta era um conjunto de romances de Jo Nesbø, autor norueguês de romances policiais. Ela esvaziou as três prateleiras mais baixas, empilhando os livros no alto da estante de madeira. Em seguida, levou sua coleção de DVDs e CDs para a pia da cozinha. Acreditando que a água subiria no máximo uns 40 cm, não achou necessário transferir tudo para o segundo andar.
Na manhã de quarta-feira, dia 1º, ao descer as escadas para passar o café, Carina viu uma lâmina de água sob a porta do lavabo. Foi dar uma olhada e teve um sobressalto: o ralo do banheiro estava borbulhando. Quando o café terminou de descer pelo filtro, a cozinha já estava começando a ficar inundada. “Daniel, desce aqui depressa, a água tá entrando muito rápido!”, ela gritou, da escada. Juntos, os dois levaram o que puderam para o andar de cima: o micro-ondas, bolachas, frios, garrafas de água, iogurtes, margarina. Àquela altura, a água já entrava por todos os lados: ralos, frestas de portas e até pelo vaso sanitário, que jorrava como um gêiser.
Refugiados no andar de cima, Carina e Daniel escutavam o borbulhar monstruoso lá embaixo. Ao meio-dia, a luz elétrica foi cortada. A água chegou ao primeiro degrau da escada e logo passou dos 40 cm previstos por Carina, aproximando-se da quarta prateleira, cheia de livros. A inundação foi tão rápida que o casal não teve tempo de mudar a biblioteca de lugar.
Na noite de quinta-feira, Carina e Daniel resolveram desligar os celulares antes de dormir. Sem energia, já não podiam recarregá-los. As baterias estavam em torno de 30%. Enquanto isso, a chuva continuava desabando, estrondosa como ferro.
Entre os dias 1º e 4 de maio, um mesmo tipo de cena se repetiu em várias bibliotecas, casas e depósitos no Rio Grande do Sul: leitores, colecionadores e editores apressaram-se em esvaziar as estantes inferiores e a empilhar livros em superfícies mais altas – imaginando que, mesmo na pior das hipóteses, a água não poderia subir até aquela altura.
Na quinta-feira, dia 2, meu amigo e conterrâneo Henrique Fagundes da Costa estava em seu consultório de veterinária em Porto Alegre, grudado na avalanche de notícias estarrecedoras que vinham de todo o estado. Como bom bajeense que é, Henrique tem o hábito de escutar rádio enquanto trabalha. Ao fim da tarde, voltou para seu apartamento – no terceiro andar de um prédio no bairro Menino Deus –, onde tem mais de 4 mil livros. Além de veterinário, Henrique é escritor: publicou três obras sobre história, cultura e folclore do Rio Grande do Sul. Toda a segunda tiragem de sua obra mais recente, Passo Real do Candiota, estava estocada na garagem do prédio onde ele mora, ao nível da rua.
Chegando em casa, Henrique levou uma mesa para a garagem e empilhou sobre ela mil exemplares de seu livro, guardados em caixas de papelão. Ao terminar o empilhamento, teve o mesmo raciocínio que Carina esboçara no dia anterior, em Montenegro: “Por pior que seja essa enchente, daqui não pode passar.” Ele também estava errado.
Na mesma quinta-feira, a Defesa Civil lançou um alerta de alagamento para a região conhecida como Quarto Distrito de Porto Alegre, que fica às margens do Guaíba. Antiga zona portuária e industrial, o distrito sofreu um esvaziamento de fábricas a partir da década de 1960. As empresas partiram, e ficaram os velhos galpões, que foram transformados em depósitos para todos os tipos de mercadorias.
No longo labirinto de ruas e avenidas do Quarto Distrito, estão guardados os estoques de muitas editoras gaúchas. Inclusive o da maior delas, a L&PM, no bairro Navegantes, num depósito de 2 mil m². No início de maio, ali estavam empilhados cerca de 900 mil livros. “Se a água entrar lá, vai ser o fim do mundo”, disse Ivan Pinheiro Machado, um dos proprietários da editora, ao sócio Paulo de Almeida Lima, naquela quinta-feira.
Na manhã seguinte, Lima foi ao depósito com uma equipe de ajudantes. Usando empilhadeiras, eles conseguiram alçar 50 mil volumes dispostos em caixas até as prateleiras mais altas, esvaziando as próximas do chão. As caixas de livros mais baixas ficaram a uma altura de 1,30 metro do solo. Lima saiu do depósito achando que a água ficaria bem aquém dessa altura. “Levantei os livros meio rindo da coisa toda. Afinal, o depósito fica a 2 km do Guaíba. Parecia impossível que a água chegasse com força até lá.”
No dia 3 de maio, sexta-feira, uma enxurrada esfacelou trechos da BR-290, a Rodovia Oswaldo Aranha, que liga a região pampiana a Porto Alegre. Na internet, vídeos mostravam borbotões de lama rasgando o asfalto e abrindo fendas semelhantes a pequenos cânions. Ao ver tudo isso pelo celular, em total perplexidade, levei algumas horas até entender que Bagé estava isolada de Porto Alegre – e eu já não tinha como ir à capital ajudar meus pais.
A torrente de imagens jorrava pelas telas do celular no ritmo desvairado da chuva que não parava de cair. Incapaz de largar o telefone, eu via a enchente avançar pelas ruas de Porto Alegre, minuto a minuto. Um vídeo ficou gravado na minha lembrança com mais força que todos os outros. Uma mulher aparece de pé junto ao mar de lama que jorra dos bueiros e, como se tentasse apaziguar os elementos da natureza, ela espalma as mãos para as águas e diz: “Essa tua briga não é comigo, Deus!”
Aprisionado em Bagé, tudo o que me restava era telefonar várias vezes por dia aos meus familiares e amigos. Antes das chuvas começarem, meu pai havia quebrado o fêmur, e agora estava internado em uma clínica na Zona Sul de Porto Alegre. Na mesma sexta-feira, outra clínica da mesma rede foi totalmente alagada, e os bombeiros evacuaram dezenas de pacientes, que vieram para a clínica onde meu pai se encontrava. Os quartos ficaram apinhados, e pessoas idosas e doentes dormiam em colchões no assoalho. O fornecimento de água foi cortado, e os banheiros logo ficaram entupidos. Preso à cadeira de rodas, meu pai não tinha como ir para o seu apartamento, que fica no terceiro andar de um prédio sem elevador.
Enquanto isso, minha mãe estava sozinha em seu apartamento na Avenida Independência, a duas quadras da inundação. Lá, o abastecimento também foi cortado. Ela teve de armazenar água numa banheira e assim viveu por uma semana. Insone, passava as horas da noite ouvindo o barulho dos helicópteros.
Essas coisas, no entanto, só as descobri mais tarde. Quando falávamos, meus pais, que são separados, sempre escondiam os piores detalhes e tentavam me convencer de que tudo estava mais ou menos bem. Durante um mês inteiro de agruras, não ouvi deles uma única reclamação. Enquanto isso, em Bagé, a chuva continuava caindo, com vendavais e tormentas de relâmpagos que matavam animais no campo – na zona rural, a 30 km da cidade, avistei nove vacas eletrocutadas por um mesmo raio, junto a uma cerca de arame. Mas não houve enchente na cidade.
Com os cortes intermitentes de energia em Porto Alegre, as baterias descarregavam, e eu nem sempre podia conversar com meus familiares. No domingo, 5 de maio, após muitas tentativas, consegui falar com meu pai ao telefone. Eu estava aflito, pois acabara de ver uma previsão anunciando que, depois de uma breve pausa, as chuvas voltariam a fustigar Porto Alegre. Meu pai, com dois parafusos na perna, numa clínica lotada, em meio a uma cidade em colapso, levou apenas alguns segundos para recordar uma frase de Leônidas de Esparta, nas Termópilas. “Combateremos à sombra”, ele me disse.
Quando os bueiros começaram a jorrar pelo Centro de Porto Alegre, Carina e Daniel estavam ilhados no segundo andar de sua casa na cidade de Montenegro havia mais de 48 horas. Na manhã de sexta-feira, dia 3, Carina recebeu um áudio pelo WhatsApp, encaminhado por uma pessoa da família. Na mensagem, uma voz masculina dizia que a barragem de Nova Petrópolis estava prestes a romper. Se isso acontecesse, todas as casas de Montenegro ficariam submersas. “Até hoje não sei de onde veio aquele áudio, tampouco se era bem ou mal-intencionado”, ela me disse cerca de um mês depois. “A barragem de Nova Petrópolis não estourou, mas o fato é que, além do horror verdadeiro, ainda tivemos de lidar com aquela tortura mental. Já não sabíamos no que acreditar. Todos estavam passando por um processo de loucura.”
Naquele momento, a correnteza nas ruas já era tão forte que só barcos motorizados ou jet skis conseguiam passar por ali. Com 20% de bateria no celular, Carina resolveu telefonar para a Defesa Civil e pedir socorro – para si mesma, o marido e os seis cachorros da casa. Eram quatro bichos adultos (Neruda, Salvador Dalí, Joana d’Arc e Feio) e duas filhotas (Afrodite e Angel). Caninos e humanos agora viviam aglomerados no segundo pavimento.
Ao longo de toda a manhã, Carina ligou várias vezes para a Defesa Civil, mas o número estava sempre ocupado. “Montenegro tem um sistema de evacuação que funciona bem. Mas, dessa vez, foi muita água”, ela me disse. Da sacada, Carina e Daniel começaram a gritar e acenar para os barcos que passavam, mas o barulho dos motores, o rugido da correnteza e o interminável estrondo da chuva abafavam sua voz. “Esse foi o primeiro momento de desespero total. Não sabíamos se a barragem de Nova Petrópolis havia estourado ou não. Achei que a água chegaria ao segundo andar e que fôssemos todos morrer”, ela contou.
Com a luz cortada havia dois dias, o abastecimento de água também acabara. Os iogurtes e os presuntos trazidos da cozinha ficaram rançosos, e agora o casal só se alimentava de bolachas. Não havia mais água para enxaguar o rosto, escovar os dentes ou lavar a louça. “Entramos num processo de privação e penúria. Para o vaso sanitário do segundo andar, tínhamos de descer as escadas e catar água da enchente num balde. Os cachorros faziam cocô e xixi dentro do quarto e eu não tinha água para limpar. Pegava papel higiênico, limpava do jeito que dava, depois jogava o papel pela sacada, para a enchente levar.” Carina chorou ao me contar essa parte da história, mas em nenhum momento sua voz fraquejou.
Por volta do meio-dia daquela sexta-feira, um barco a motor parou numa esquina próxima. A bordo havia três barqueiros, sem uniforme – voluntários, portanto. Um deles avistou o casal que abanava na sacada, e, quinze minutos depois, a embarcação parou na frente da casa. Carina desceu as escadas com uma mochila erguida acima da cabeça: dentro, havia documentos, dinheiro, o laptop e as duas filhotas, Afrodite e Angel. Ao descer as escadas, ela viu que a enchente já estava no quarto degrau. Na sala, sentiu a água fria bater na altura da bexiga.
Ao sair de casa, ficou com os seios submersos. A correnteza era tão intensa que os barqueiros tiveram de amarrar a embarcação ao portão do muro. Daniel entrou e saiu de casa quatro vezes, com a enchente no peito, para buscar os cachorros adultos. Já dentro do barco, o casal ganhou um par de coletes. “Mas não temos coletes para os cachorros”, disse um dos barqueiros. E alertou: “Cuidado com os bichos, porque a correnteza está muito forte e tem vários barcos virando por aí.”
Para Carina, esse foi o segundo momento de pânico absoluto. “Meu pavor era que, depois de tudo o que passamos, a embarcação virasse e todos os cachorros morressem.” O trajeto de barco se estendeu por três quarteirões, mas, na memória dela, foi uma viagem longa e excruciante. A água enfurecida espumava e batia nas paredes e muros. Os barqueiros driblavam a correnteza, impedindo que o barco adernasse. Num cruzamento de ruas, toparam com um redemoinho. A embarcação começou a sacudir com violência e quase virou. Nisso, os três barqueiros saltaram para dentro da água e equilibraram o casco com a força dos braços. “Te acalma que vai dar tudo certo”, um deles disse a Carina.
Finalmente, o barco parou na orla da enchente. Exaustos, Carina e Daniel se sentaram na sarjeta, sorrindo entre poças de água contaminada por lixo, esgoto e agrotóxicos. Os quatro cachorros adultos estavam todos vivos, embora encharcados e tremendo. Com repentino temor, Carina abriu a mochila para ver como estavam as duas filhotas. Pela fresta do zíper, Afrodite meteu a cabeça para fora. As duas cachorrinhas estavam perfeitamente secas e calmas: haviam dormido durante todo o percalço.
Nesse meio-tempo, o barco já havia partido para fazer outros resgates. Até hoje, Carina e Daniel não sabem quem eram os três barqueiros que os salvaram.
Naquela mesma sexta-feira, na cidade de Canoas, a cerca de 50 km de Montenegro, minha amiga Irka Barrios também se tornava refugiada climática.
Irka e eu nos conhecemos graças ao nosso interesse comum por aquilo que costumeiramente se chama de literatura fantástica (eu prefiro “literatura especulativa”, mas isso é assunto para outra conversa). Contista e autora de um romance de terror (Lauren, publicado em 2019), Irka também é aficionada por literatura latino-americana. Sua coleção tem Cortázar, García Márquez, Vargas Llosa, Borges, Bolaño. Todos bem guardados em sua casa na Avenida Guilherme Schell, no bairro Rio Branco, a cerca de 1 km do Rio Gravataí.
Ao acordar na manhã de sexta-feira, por volta das 7 horas, Irka viu que seu celular estava cheio de mensagens: um amigo a alertava sobre uma ordem para evacuar o bairro. Na hora, ela acessou o Instagram da Prefeitura de Canoas. Num vídeo postado durante a madrugada (e mais tarde apagado), o prefeito garantia que os diques protegeriam a cidade. Assim como acontecera em Montenegro no dia anterior, a população de Canoas amanheceu sem saber no que acreditar. “Ninguém tinha certeza de nada e todo mundo passou o dia numa confusão”, contou Irka. Apesar da dúvida, junto com seu companheiro, Helio, ela resolveu levar o que desse para o segundo andar. Subiram as escadas com livros, vinhos e DVDs. “Achei que a água pudesse talvez chegar à altura da canela. Não mais que isso”, disse ela.
Às quatro da tarde, já era impossível partir a pé ou de carro. Irka e Helio foram para a calçada, esperando que algum veículo da Defesa Civil aparecesse, mas logo receberam, pelo celular, a informação de que as caminhonetes de resgate não conseguiam passar pelas águas. Nisso, um caminhão velho e vermelho parou junto à calçada. Quem o dirigia era Gustavo, vizinho de Irka, que tinha decidido procurar uma loja de construção para comprar espuma e sacos de areia. Como outros moradores de Canoas, Gustavo planejava barricar as portas da sua casa. “Posso levar vocês se quiserem sair”, ofereceu. Irka pegou a carona. Mas Helio, ainda achando que as águas parariam de subir, ficou para trás.
O caminhão vermelho atravessou quatro quadras, levantando ondas escuras e torvelinhos de espuma. No reboque, ela avistava à distância animais sobre os telhados, sem saber se eram gatos ou cachorros. Chegando a uma parte seca da cidade, tentou telefonar para Helio, mas ele não atendeu: estava com o celular desligado, para economizar bateria.
Apesar do nervosismo, Irka conseguiu dormir algumas horas na casa da irmã, no bairro Fátima, numa parte mais alta de Canoas. No meio da madrugada, contudo, avistou luzes de lanternas na rua: os moradores estavam saindo, pois a enchente também chegava ali. Às seis da manhã, às pressas, Irka novamente teve de fugir das águas. Com ela, foram a irmã e dois sobrinhos – um de 15 anos, outro de 9. A enxurrada batia nos joelhos. De chinelos, Irka e a irmã temiam pisar em cacos de vidro ou cair num bueiro. O menino mais velho, que estava de tênis, carregava o mais novo nas costas. E assim caminharam por cerca de meia hora. “A gente tentava andar bem pelo meio da rua, onde o terreno é mais alto. Ao nosso redor, era um desespero total. Muita gente caminhava na inundação, fugindo de casa, segurando os pertences sobre a cabeça. Barcos resgatavam idosos, ratos e baratas boiavam na água furiosa.”
Passando pela Rua Cairú, Irka avistou um grupo de pessoas aglomeradas contra as grades dos fundos de um condomínio. “Aonde vocês vão? Aonde vocês vão?”, perguntaram. “A gente vai para o litoral”, respondeu Irka. “A gente também quer ir”, disseram várias pessoas no grupo encurralado, mas elas não conseguiram passar pelas grades. E a água seguia subindo lá dentro.
Irka, a irmã e os sobrinhos conseguiram alcançar uma estação de trem, fora da área alagada, onde finalmente foi possível falar com Helio. Ele fora resgatado naquela manhã e levado para outra estação. Algumas horas depois, o casal se reencontrou, e pôde partir para Osório, no litoral gaúcho, onde os pais de Helio têm uma casa. “Mas ainda trago na cabeça a imagem daquelas pessoas presas no pátio do condomínio”, me disse Irka. “Não sei o que houve com eles. Espero que tenham se salvado.”
Nos jardins do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre, existe um conjunto escultural que muitas pessoas visitam todos os dias, embora nem todas conheçam seu significado. É um chafariz cercado por quatro estátuas: duas ninfas e dois netunos. Instalado na Praça da Matriz por volta de 1866, o conjunto em mármore de Carrara é o mais antigo monumento público da cidade.
Quem se aproxima das estátuas, vê as inscrições nas bases, em grafia antiga: Jacuhy, Cahy, Gravatahy e Sinos. Conhecido pelo nome de Guaíba e afluentes, o chafariz representa a bacia hidrográfica que envolve Porto Alegre. No centro do conjunto, havia uma quinta figura, hoje desaparecida. Era um menino de barrete frígio, figuração do próprio Guaíba – esse enigmático corpo d’água, que alguns definem como rio, outros como lago.
Elemento central na identidade da capital gaúcha, o Guaíba, inclassificável acidente geográfico, às vezes é visto como uma espécie de espada líquida, bela e terrível, eternamente pendente sobre a cabeça da cidade. Mas há outra maneira, talvez mais correta, de encarar a situação: até hoje, a capital gaúcha não descobriu uma forma de conviver pacificamente com o menino do barrete frígio.
A primeira enchente registrada na cidade foi em 1824, segundo uma ata da Câmara Municipal. Em 1850, as chuvas interromperam várias linhas do recém-criado serviço de bondes e derrubaram a ponte de madeira do bairro Azenha. Em seu lugar, foi erguida uma ponte de pedra – que por sua vez acabou arrastada pelas águas em 1873. E as enchentes continuaram, pelo menos uma a cada década.
Na sexta-feira, dia 3 de maio de 2024, o nível do lago-rio chegou a 4,77 metros – ultrapassando aquela que até então fora a maior de todas as enchentes, a de 1941. Presença poderosa no imaginário porto-alegrense, a catástrofe da década de 1940 sobrevive em memórias familiares e numa série de fotografias em preto e branco, resultado da primeira grande cobertura jornalística do Rio Grande do Sul. Nessas imagens de aura mítica, vemos barcos a remo entre os prédios do Centro Histórico. Durante o aterrador maio de 2024, aos botes e caiaques se reuniram os jet skis acelerados em frente a prédios históricos, como o Mercado Público e o Paço dos Açorianos.
“Em ambas as enchentes, as razões foram as mesmas: uma chuva muito forte na região metropolitana, acompanhada pela cheia dos rios que abastecem o Guaíba. Para piorar, veio o vento Sul, impedindo que as águas saíssem pelo Canal de Itapuã e as empurrando de volta à cidade”, disse o escritor e pesquisador Rafael Guimaraens, um dos proprietários da Editora Libretos e autor de A enchente de 41 – grande livro de referência sobre o tema, publicado em 2009. “Devido à enchente de 1941, foi construído na década de 1970 o sistema de contenção, que, por falta de manejo e manutenção, falhou miseravelmente em 2024.”
Rafael – que é neto do poeta simbolista Eduardo Guimaraens – aponta outra coincidência entre as duas calamidades: em 1941, a chuva também começou em 21 de abril. Em seu livro, ele escreveu: “Salvo raríssimas exceções, elas [as enchentes] se sucedem em setembro e outubro, meses de grande precipitação. Por isso, receberam o nome de ‘enchentes de São Miguel’, o arcanjo guerreiro que enfrentou Lúcifer e os anjos rebeldes em defesa da autoridade de Deus, cujo dia de devoção é 29 de setembro.” As duas piores inundações da cidade foram as exceções macabras a essa regra.
No depósito da Libretos, na Rua Voluntários da Pátria, encontravam-se 500 exemplares de A enchente de 41, que estava em sua quinta reimpressão (foi feita uma sexta há pouco, devido ao interesse pelo tema). Na segunda-feira, dia 6, Rafael recebeu notícias de que o estoque estava submerso. “Quando uma das comportas se rompeu, a água veio com tanta força que chegou a formar ondas. Um dos guardas do depósito disse que parecia um mar sob um furacão”, ele contou. O rio-lago, transformado em mar, invadiu as portas do galpão. A enchente de 2024 levou os 500 exemplares de A enchente de 41.
Na esquina da Avenida A. J. Renner, o depósito da L&PM ficou alagado por um mês inteiro – e, embora o Quarto Distrito estivesse debaixo d’água, Ivan Machado e Paulo Lima, os donos da editora, iam diariamente ao galpão. “Chegávamos lá em um barco de pesca, que pertence aos donos da Brondane’s, uma gráfica que trabalha conosco”, recordou Machado. O porto improvisado ficava no estacionamento do Supermercado Bourbon da Assis Brasil – ali estacionavam os barcos da Marinha e dos voluntários, inclusive os jet skis do surfista Pedro Scooby, que veio do Rio de Janeiro para ajudar nos resgates.
O trajeto entre o supermercado e o depósito era cheio de riscos. Às vezes o barco roçava objetos submersos, e em certa ocasião quase foi atingido por um jet ski, que passou a cerca de 80 km/h num cruzamento. Também havia o risco de se perderem no labirinto da cidade submersa. “É inacreditável, mas eu não saberia chegar lá sem a ajuda de barqueiros experientes. A paisagem tinha se transformado completamente e nós perdemos a orientação”, contou Ivan, que, ao longo de nossa conversa, também descreveu o silêncio da Porto Alegre inundada: “Num dia normal, aquelas ruas rugem com o clamor de carros, ônibus, vozes, passos, buzinas. Mas quando pegávamos aquele barco e nos afastávamos do shopping, entrávamos num mundo sem gente, onde só se ouvia, de tempos em tempos, o motor de um barco rasgando as águas lá adiante.” A sede da editora, na Rua Comendador Coruja, no bairro Floresta, também ficou alagada – Ivan chegou a ver um peixe grande boiando em frente ao prédio.
Apesar das visitas diárias, a força das águas impediu que Ivan e Paulo abrissem os portões durante todo o mês de maio. Nas paredes externas, a enchente chegou a atingir 2 metros. Se lá dentro a marca fosse a mesma, a perda seria desastrosa, porque os livros mais baixos se encontravam a uma altura de 1,30 metro.
Foi só no início de junho, quando a água baixou à altura da canela, que os editores puderam entrar no galpão. Pelas marcas, perceberam que a água havia chegado a 1,25 metro. Naquele momento, havia baixado para 1,10 metro. A prateleira com o estoque estava separada da inundação por apenas 20 cm, o tamanho de uma régua escolar.
A maior parte dos livros havia escapado da destruição. “O que nos salvou também foram os exaustores instalados no teto do depósito, que funcionam sem eletricidade, com o sopro do vento, e dissiparam a umidade”, contou Lima. Ainda assim, foram destruídos cerca de 2 mil livros que se encontravam numa bancada mais baixa. Somando as perdas no depósito, a destruição da sede da editora e a queda de faturamento em todo o mês de maio, Lima calcula que o prejuízo da L&PM com as enchentes alcance os 2 milhões de reais.
Instalações da Avec, Hipotética, Artes e Ofícios, Jambô, TAG e outras editoras também foram atingidas. A Avec Editora, cujo depósito fica na Rua Voluntários da Pátria, perdeu entre 12 e 15 mil exemplares, na maioria quadrinhos e livros infantis. “Consegui chegar lá de barco vinte dias depois. Nas vizinhanças do depósito, a marca da água chegou a 3 metros do chão”, recordou Artur Vecchi, dono da editora. “Lá dentro, a lama impregnou tudo. É um lodo cheio de bactérias, que destrói as coisas por dentro e por fora.”
A Editora Hipotética, especializada em quadrinhos e obras relacionadas à música, perdeu metade de seu estoque de 3 mil livros. Os volumes que se salvaram – entre os quais, apropriadamente, Sobreviventes da fronteira, de Fred Rubim – foram levados para o apartamento do editor Fabiano Denardin, onde passaram cerca de uma semana na frente de um aquecedor. Fabiano e sua sócia, Iriz Medeiros, pretendem recolocá-los no mercado e até criaram um adesivo para os renitentes exemplares que diz: “Livro sobrevivente da grande enchente de 2024.” O desenho da estampa mostra um barquinho de papel navegando um mar de lama, com a Usina do Gasômetro ao fundo.
A calamidade também devastou mais de cinquenta gráficas, dezenas de livrarias e outros tipos de acervo – como a Biblioteca Comunitária Dilan Camargo, em Canoas. Voltada aos alunos da rede pública, a coleção de 5 mil obras, principalmente livros infantis e da literatura francesa, foi totalmente destruída. “A água bateu no teto. Os balcões e as prateleiras se desmancharam, os livros incharam, caíram, viraram lama, nada se salvou”, lamentou Jairo Luiz de Souza, o criador da biblioteca, que a mantinha com seus próprios recursos e a ajuda dos amigos. “A única coisa que se salvou foi a placa, com o nome do escritor e educador Dilan Camargo. Vai seguir lá, porque vou construir a biblioteca de novo. E o que mais eu poderia fazer?”
Evacuado num caminhão do Exército, com a mulher e a filha de 3 anos, meu conterrâneo Henrique Fagundes da Costa só voltou para casa no dia 22 de maio. Sua biblioteca estava a salvo em seu apartamento no terceiro andar, mas quase toda a tiragem de Passo Real do Candiota guardada na garagem do prédio se perdeu. A água passou do tampo da mesa, e cerca de seiscentos livros viraram uma pasta de papel derretido. Henrique mal teve tempo de computar a perda, pois, no dia seguinte, foi obrigado a deixar o local novamente.
Na metade de junho, Irka e Helio continuavam refugiados no litoral. Iam de carro a Canoas quase todos os dias para tentar limpar a lama e o mofo que varreu suas vidas. “Os livros que ficaram no térreo viraram uma gosma, até os de capa dura. Tivemos de tirá-los com uma pá de construção”, contou Irka. “Perdemos muita coisa e não sabemos se vamos continuar aqui. Estamos pensando em ir embora do Rio Grande do Sul.” Para mim, esse foi o momento mais triste da conversa: fiquei me perguntando quantos amigos estariam pensando a mesma coisa naquele momento.
Quando Carina e Daniel voltaram para casa na segunda-feira, dia 6 de maio, viram que a enchente deixara sua marca no sexto degrau da escada. Intumescida pela inundação, a madeira das estantes havia desabado, e cerca de setecentos livros jaziam misturados à lama fétida. Alguns exemplares haviam flutuado pelas janelas e foram parar na rua. O clube dos sobreviventes, de Tailor Diniz, estava no canil dos cachorros, e havia um Dostoiévski sob os arbustos do jardim. Além disso, perderam tudo o que estava sobre a pia da cozinha. Os CDs e DVDs saíram boiando e se espalharam pela casa. “Numa catástrofe dessas, a gente sempre pensa nos objetos maiores: na televisão, na máquina de lavar roupa. Mas, quando voltamos para casa, são as miudezas que nos dilaceram. A gente quer cozinhar, e não tem panela. A gente quer fazer uma lista, e não tem lápis. A casa perde todas as suas funções, como um corpo adoecido. Mas a maior dor é a perda da biblioteca. Não é como uma tevê, que a gente compra de novo. Construí minha coleção ao longo de vinte anos. Havia anotações, autógrafos de amigos, e cada página estava carregada de ideias, lembranças, pedaços da minha vida. Tudo se foi.”
No dia 8 de junho, Irka me mandou um vídeo gravado na véspera, em alguma rua de Canoas. Ao vê-lo pela primeira vez, só consegui enxergar uma espécie de amálgama incompreensível. Pausando o vídeo, pude distinguir pedaços de plástico, garrafas de água sanitária, restos de portas e janelas, farrapos, sofás, galhos, sapatos, chapéus. Então pensei nos versos de Ovídio sobre o caos primordial, em Metamorfoses: “Massa bruta e informe, que não passava de um peso inerte, conjunto confuso das sementes das coisas” (tradução de David Gomes).
No meio do caos, reconheci uma frase familiar, pichada numa tábua: “Não tá morto quem peleia.” Citada em músicas, discursos e conversas cotidianas, essa redondilha é um dos provérbios mais conhecidos no Rio Grande do Sul. Geralmente, recorremos a ele para instigar valentia ou esperança em momentos de dureza e angústia.
Quero – queremos – acreditar que segue vivo quem peleja, e vice-versa. Mas a lama de 2024 custará muito tempo para ser lavada, nos sentidos metafórico e literal. Enquanto Carina e Irka tentam limpar os objetos que sobreviveram à enxurrada – e é preciso lavá-los diversas vezes, pois as diabólicas manchas de lama reaparecem misteriosamente –, o luto da perda coletiva também atinge quem não sofreu danos materiais.
Alguns dias atrás, conversei com meu amigo, o escritor Gustavo Czekster, sobre a impressão de entropia niilista que nos invadiu ao ver o sofrimento diário de tantos conhecidos. “O que mais me impressionou na história da Carina e da Irka é que os livros se misturaram uns aos outros. E pensei que todos os livros um dia vão virar essa mesma pasta, sem diferenciação, sem individualidade”, disse ele ao telefone. “Mais cedo ou mais tarde, em algum ponto no tempo, o caos vai engolir nossas bibliotecas, Chico. A minha e a tua também.”
Hoje, dia 15 de junho, recomeçou a chover no Rio Grande do Sul. Em partes de Canoas e Porto Alegre, ainda há entulho acumulado, e alguns moradores fazem esculturas de lixo nas esquinas, como forma de protesto. Amanhã, vou pegar um ônibus para Porto Alegre e encontrar meus pais, o Gustavo, o Henrique, talvez a Irka, se ela não estiver de volta ao litoral. Não sei quantos milímetros vai chover, mas sei que seguiremos combatendo à sombra. E o que mais poderíamos fazer?