vultos da ciência
Bernardo Esteves Jul 2024 14h45
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A Serra da Muralha, no interior de Rondônia, é um morro de granito com cerca de 250 metros de altitude, no meio da Floresta Amazônica. No seu topo existe uma muralha de pedra em formato vagamente elíptico que provavelmente foi construída por algum povo indígena muito antes da chegada de portugueses e espanhóis nas Américas. Não se sabe muito bem que povo foi esse nem para que servia a muralha, cujo primeiro registro foi feito pelo arqueólogo gaúcho Eurico Theofilo Miller (1932-2018). Num relatório publicado em 1979, ele registrou que a muralha tinha 380 metros de extensão e entre 1 e 1,20 metro de altura. Fez também escavações numa pequena área e encontrou cacos de cerâmica datados em cerca de 1 290 anos e restos de carvão com 2 275 anos, mas não é possível afirmar que essa seja a idade da muralha.
Depois da investigação de Miller, a Serra da Muralha voltou a ser visitada por arqueólogos, mas nunca mais foi palco de escavações. Em março passado, o arqueólogo Eduardo Góes Neves, da Universidade de São Paulo (USP), resolveu conhecer o sítio, durante uma expedição que organizou com alunos e colaboradores. A expedição – da qual participei como repórter da piauí – incluía outros quatro arqueólogos, um geólogo, uma jornalista que cuida da comunicação do projeto de pesquisa coordenado por Neves e um mateiro contratado para abrir picadas na floresta até o topo do morro.
O grupo ficou hospedado num hotel à beira da estrada em Vista Alegre do Abunã, localidade que, embora seja um distrito de Porto Velho, está a cerca de 260 km do Centro da capital de Rondônia. A base fica um pouco mais perto, 250 km, de Rio Branco, no Acre. O grupo partiu dali, a bordo de duas caminhonetes alugadas. Neves esperava que a visita pudesse ajudar a esclarecer os mistérios que cercavam a muralha, a começar pelo material usado na construção. “Tirando algumas estruturas encontradas na Costa do Amapá, a gente não conhece nada construído com pedra na Amazônia brasileira”, disse.
Durante a viagem, Neves explicou a localização exata da serra. “Fica perto do Rio Madeira, na altura em que recebe um afluente, o Abunã”, disse o arqueólogo. “É um ponto estratégico, porque é onde o Madeira faz uma inflexão grande: ele vem correndo para o Norte e de repente vira para o Nordeste.” Depois de atravessar um atoleiro, uma das caminhonetes teve o cárter arrebentado e precisou ser abandonada à beira de uma estrada de terra castigada pela estação chuvosa em Rondônia. Seus ocupantes se aboletaram na outra caminhonete, agora com quatro passageiros na caçamba. O desafio seguinte foi conseguir autorização para atravessar uma fazenda, a fim de acessar o trecho de floresta onde fica o morro de granito. A primeira reação do funcionário da fazenda foi de desconfiança. “Vocês são de alguma ONG?”, ele quis saber. Neves, um homem sociável e extrovertido, acabou por convencê-lo depois de muita conversa. O grupo localizou o ponto em que deveriam entrar na floresta, mas já não havia mais tempo para ir até a muralha e voltar com a luz do dia. Regressaram para o hotel.
No dia seguinte, a primeira providência foi rebocar a caminhonete enguiçada. A tarefa tomou tanto tempo que outra vez a viagem até a serra foi adiada. Só no terceiro dia de expedição, depois de enfrentar duas horas de estrada de terra e duas horas e meia de caminhada pela floresta, o grupo chegou ao seu destino. Era quase uma da tarde quando alcançou o topo e a muralha de pedra, de onde se tem uma vista panorâmica da floresta interminável em volta.
Neves estava radiante como uma criança. Contemplando a paisagem, ele notou que era possível avistar o Rio Madeira, que passa a 9 km dali. Para sua surpresa, também dava para ver a Serra dos Pacaás Novos, que marca a transição entre o Planalto Central e a Amazônia, a quase 200 km dali.
Os pesquisadores anotaram as coordenadas do local em seus aparelhos de GPS e soltaram drones para fazer fotos e vídeos do sítio. Também realizaram medições da muralha e constataram que seu traçado tem a forma de um D. As pedras que a compõem – blocos de granito provenientes do próprio morro – estão encaixadas umas sobre as outras, sem qualquer argamassa a juntá-las. Num ponto mais afastado, os arqueólogos encontraram a área que foi escavada por Eurico Miller há mais de quatro décadas, com cerca de 1 m². Neves disse que a muralha guarda semelhanças com uma estrutura encontrada nas ruínas de Las Piedras, na Bolívia. “Ali também há blocos depositados uns sobre os outros, sem argamassa.” Las Piedras, tal como o sítio brasileiro, também fica perto da confluência de dois rios, o Beni e o Madre de Dios, ambos afluentes do Madeira.
O arqueólogo chamou a atenção para a altura da muralha, que mal alcançava o seu umbigo. Tão baixa que sua função não devia ser defensiva. Talvez aquele lugar fosse usado para alguma forma de comunicação. “Se você acender um fogo aqui em cima, manda uma mensagem para um cara que estiver do outro lado da serra”, especulou Neves. Ou quem sabe fosse o palco de alguma festa ou ritual. Ele lamentou que não houvesse qualquer pista visível sobre o uso daquele espaço. “Não tem nada, nem um vaso quebrado que seja.”
Eduardo Góes Neves tem 58 anos e participa de pesquisas arqueológicas na Amazônia há 38. Já escavou dezenas de sítios no Acre, Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá e Tocantins. Sempre gostou de trabalhar com equipes grandes – primeiro com seus professores, depois com colegas de geração e com as dezenas de arqueólogos que ele próprio formou. Edu, como os colegas o chamam, virou a referência de sua geração na arqueologia da Amazônia. Junto com uma legião de colaboradores, ele está ajudando a reescrever a história antiga da floresta.
Quando Neves era estudante de história na USP, no começo dos anos 1980, a imagem que se tinha da Amazônia no passado remoto era a de um ambiente inóspito e incapaz de sustentar grandes populações, devido ao solo pobre e impróprio para a agricultura. Essa ideia carregada de determinismo ambiental foi reforçada pelos estudos feitos pela cientista americana Betty Meggers, pioneira na arqueologia da Amazônia, onde ela trabalhou por décadas ao lado do marido, Clifford Evans.
De acordo com essa visão, a Amazônia era uma região periférica e despovoada da América do Sul. Nada fora inventado na floresta – as inovações vieram todas de fora. A cerâmica, por exemplo, teria vindo dos Andes, onde havia civilizações mais complexas, com sociedades estruturadas na forma de Estados, um tipo de organização que nunca foi adotado pelos indígenas das terras baixas a Leste da cordilheira.
Hoje, no entanto, a maioria dos arqueólogos enxerga uma história diferente. Neves e outros estudiosos vêm mostrando que, pelo contrário, a Amazônia foi um centro produtor e difusor de inovações tecnológicas. A começar pela cerâmica. O fragmento mais antigo desse material que se conhece nas Américas, com 8 mil anos de idade, foi encontrado na região em que hoje fica a cidade de Santarém, no Pará. É provável que tenha havido mais de um local em que a cerâmica foi desenvolvida de forma independente no continente sul-americano, todos nas terras baixas. A Amazônia foi também o local em que se domesticaram dezenas de plantas que até hoje são amplamente consumidas mundo afora, como mandioca, batata-doce, cacau, abacaxi e algumas espécies de pimenta.
A cerâmica paraense de 8 mil anos foi achada na Caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, nas proximidades da margem esquerda do Rio Amazonas. O sítio foi estudado pela arqueóloga americana Anna Roosevelt, coordenadora da equipe que mostrou, num artigo de 1996, que o local foi habitado há mais de 13 mil anos – a ocupação mais antiga que se conhece na Amazônia. A Caverna da Pedra Pintada e outros sítios amazônicos mostram que os antigos indígenas sul-americanos se alimentavam de diferentes plantas e bichos, e pareciam bem-adaptados à floresta – um quadro muito diferente do cenário de recursos limitados descrito por Meggers e seus seguidores.
Além disso, os arqueólogos vêm constatando nos últimos anos que mesmo as populações sem Estado das terras baixas construíam estruturas monumentais: estradas, canais, plataformas e até pirâmides. Só que, ao contrário das civilizações andinas, que construíam com pedra, os povos da Amazônia faziam sua arquitetura monumental de terra batida.
A datação feita por Miller sugere que a muralha de pedra de Rondônia tem mais de 1,2 mil anos de idade. Se estiver correta, então a obra pode ser contemporânea não só dessas estruturas monumentais e dos primeiros assentamentos construídos nas terras baixas, mas também dos primeiros Estados a se formarem nos Andes – Tiwanaku, na Bolívia, e Wari, no Peru. “Essa foi uma época de mudanças sociais profundas na América do Sul, que aconteceram tanto nos Andes quanto na Amazônia”, disse o arqueólogo.
No entanto, como o carvão e a cerâmica encontrados por Miller estavam em uma área um pouco afastada da muralha, não é possível cravar que sua idade seja a mesma da estrutura de pedra. Apenas a descoberta de algum pedaço de carvão encapsulado na muralha – e que, assim, estaria diretamente associado à sua construção – poderia trazer uma indicação mais precisa sobre a idade da estrutura. Além disso, uma escavação mais ampla poderia encontrar outros restos de cerâmica e pistas sobre a identidade do povo que construiu a muralha e qual era a sua finalidade. Mas fazer uma escavação de grande porte naquele sítio de difícil acesso é um grande desafio logístico.
A única informação sobre a Serra da Muralha disponível até agora na literatura científica vinha do relatório de Miller de 1979. Na expedição de março, Neves e seus colaboradores fizeram novas medições e capturaram imagens inéditas. Talvez seja pouco para um artigo científico, mas permitirá atualizar o registro do sítio junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). E Neves pretende usar o material para fazer barulho sobre a existência da muralha. “Isso pode chamar a atenção para a importância de proteger não só o sítio, mas toda essa área da Amazônia, que está muito ameaçada pelo desmatamento”, disse ele, enquanto dirigia a caminhonete em meio às pastagens abundantes de Rondônia.
Quando tinha 10 anos de idade, Eduardo Neves mudou-se com os pais para uma chácara em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo, mas continuou estudando na capital. Pegou gosto pela aventura com os livros de Júlio Verne e Monteiro Lobato. “Fiquei chapado quando li A história do mundo para crianças”, contou o pesquisador da USP, sobre o livro de Lobato. Ainda na infância, gostava de ouvir as histórias da arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, principal responsável pela criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, contadas por um amigo de seu pai, primo da pesquisadora. Ficava fascinado com a ideia de acampar na Caatinga e escavar sítios no pé de paredões de pedra cobertos por pinturas rupestres. Ele queria descobrir ruínas e cidades perdidas.
A Amazônia povoava o imaginário de Neves desde a infância. Ele ficava fascinado quando via na capa da revista Manchete a lista, em letras miúdas, de cidades distantes, como Altamira, Sinop e Ji-Paraná, onde a revista custava mais caro por causa dos custos de distribuição. Quando uma professora do ensino fundamental pediu uma redação sobre o que os alunos queriam ser quando crescessem, ele cravou “explorador”. Anos depois, já no ensino médio, viu uma palestra de Guidon na Aliança Francesa, em São Paulo, e percebeu que a ideia de ganhar a vida como arqueólogo era uma possibilidade concreta. Chegado o vestibular, decidiu prestar para história.
Seu encanto com a Amazônia aumentou quando ele viu na juventude filmes como Iracema – uma transa amazônica (1975), de Jorge Bodanzky, e Bye bye Brasil (1979), de Cacá Diegues. “Me identifiquei com aquele Brasil que era muito mais interessante do que o país em que eu vivia”, disse o arqueólogo. Em 1985, quando tinha 18 anos, embarcou num ônibus de São Paulo para Belém e visitou a Amazônia pela primeira vez. Gostou do calor, da comida, da música e de toda a água que havia naquele lugar. Ficou apaixonado pela Ilha de Marajó e pelas coleções do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém – os artefatos que viu ali lhe pareceram mais fascinantes do que as ferramentas de pedra lascada que estudara na USP, onde tinha começado um estágio no Instituto de Pré-História.
Foi acolhido ali pelo bioantropólogo Walter Neves, que ainda não era conhecido pelo estudo de Luzia, o esqueleto humano mais antigo do Brasil. O bioantropólogo se lembra do dia em que o jovem calouro de cabeça raspada apareceu para pedir estágio (apesar do sobrenome igual, os dois não são parentes). “Ele disse que pretendia ser arqueólogo e queria trabalhar ali nem que fosse limpando o chão do laboratório”, contou Walter. “Era um menino muito interativo.”
Em 1987, Eduardo Neves foi contratado como técnico em arqueologia do Instituto de Pré-História da USP, que depois se fundiu com outras unidades acadêmicas para dar origem ao Museu de Arqueologia e Etnologia, do qual é hoje diretor. Dois anos depois, foi promovido a pesquisador e conseguiu o afastamento da USP a fim de fazer mestrado e doutorado na Universidade de Indiana em Bloomington, nos Estados Unidos. Sua tese de doutorado, orientada pelo arqueólogo Geoffrey Conrad e pelo ecólogo Emilio Moran, investigou os antigos povos indígenas que habitaram a região do Alto Rio Negro, no noroeste do Amazonas.
Em 1992, teve um encontro que mudou sua vida quando conheceu o americano Michael Heckenberger, que também fazia doutorado sobre arqueologia sul-americana, mas na Universidade de Pittsburgh. Os dois ficaram amigos e engataram uma conversa que até hoje não terminou. Embora não tenham feito muitas pesquisas de campo juntos, Neves e Heckenberger se influenciaram mutuamente e têm onze trabalhos publicados em coautoria.
Ambos criaram o Projeto Amazônia Central, junto com um antigo professor de Heckenberger, o arqueólogo americano James Petersen. O projeto iniciado em 1995 envolveu a identificação e escavação de dezenas de sítios arqueológicos nas imediações de Manaus, em torno da confluência dos rios Negro e Solimões. O brasileiro inaugurou ali o modelo de escavações de grande escala que se tornou uma marca registrada. Suas expedições de campo costumam envolver dezenas de pessoas – a maior delas, no Projeto Amazônia Central, contou com 67 colaboradores na região de Iranduba, a 20 km de Manaus. Algumas dessas escavações funcionavam como sítios-escola onde vários estudantes tiveram sua primeira experiência de campo.
Heckenberger abandonou o projeto em sua fase inicial para se dedicar às pesquisas que fazia no Alto Xingu, em parceria com os kuikuros. Em 2005, Petersen foi tragicamente assassinado, aos 51 anos, com um tiro no peito, durante um assalto a um restaurante em Iranduba, onde o grupo de arqueólogos se encontrava depois de um dia de trabalho de campo. Neves continuou à frente da iniciativa até 2010, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O Projeto Amazônia Central mostrou que essa região foi ocupada há quase 11 mil anos, pouco depois do início do Holoceno – a época geológica atual, iniciada no fim da última Era do Gelo. A presença humana mais antiga na Amazônia central foi registrada no sítio Dona Stella, situado à margem de um igarapé que deságua no Rio Negro. Um aspecto chamou a atenção de Neves: a diversidade cultural dos povos que viveram ali. Na pesquisa arqueológica, essa diversidade pode ser constatada pela grande variedade de artefatos encontrados no local e pelos muitos recursos que os povos antigos exploravam. E ela é visível até hoje na imensa quantidade de línguas faladas pelos indígenas que vivem na região. “O Edu, mais do que ninguém, foi quem colocou a ideia da economia da abundância e da hiperdiversidade na Amazônia”, disse Heckenberger à piauí.
Junto com Neves, o arqueólogo americano mudou o modo como entendemos o passado profundo da Amazônia. Os dois não só tornaram mais sofisticados os modelos teóricos sobre o passado da região, como fizeram com que os especialistas parassem de enxergar a Amazônia como uma coisa só, como disse o antropólogo Carlos Fausto, pesquisador do Museu Nacional da UFRJ e colaborador tanto de Neves quanto de Heckenberger. “O que a gente encontra no Alto Xingu não é o que encontramos na Terra Indígena Yanomami”, disse Fausto, referindo-se aos traços culturais distintos dos indígenas que habitam as duas áreas, uma em Mato Grosso e a outra em Roraima. No passado remoto, quando havia mais povos indígenas, a diversidade de formações sociopolíticas devia ser ainda maior. Fausto notou que a bacia amazônica tem o tamanho parecido com o da área contígua dos Estados Unidos, excluindo o Alasca. “Não dava certo imaginar que fosse homogênea.”
Com o fim do Projeto Amazônia Central, Neves decidiu focar suas pesquisas na região do Alto Rio Madeira, em Rondônia. Ali, as escavações feitas por Eurico Miller mostravam a ocorrência de uma ocupação humana contínua ao longo de milênios – ao contrário do que se via em outras regiões da Amazônia, onde parecia haver um hiato durante o Holoceno médio (entre 6 mil e 9 mil anos atrás). Neves decidiu então voltar a alguns dos sítios que Miller havia estudado nos anos 1970 e 1980. Um desses sítios era Monte Castelo, um sambaqui fluvial na Bacia do Rio Guaporé.
Sambaquis são grandes montes de conchas, ossos e outros materiais orgânicos acumulados por povos que viveram em vários pontos do território brasileiro. Comuns no litoral, são encontrados também ao longo de rios na Amazônia e em outros biomas. Em 2012, Neves conseguiu financiamento da National Geographic Society para tentar reencontrar o sítio de Monte Castelo a partir da descrição feita por Miller. No ano seguinte, ele e os arqueólogos Francisco Antonio Pugliese Junior e Carlos Augusto Zimpel Neto, que faziam doutorado sob sua orientação na USP, conseguiram localizar o sambaqui. O sítio continua a ser estudado até hoje.
O sambaqui de Monte Castelo é uma estrutura de 6,50 metros de altura e 120 metros de comprimento, situado numa área alagável. Visto de longe, parece um monte numa ilha coberta por árvores. De dezembro a maio, meses de cheia, o sítio só é acessível por barco. É quando os pesquisadores preferem fazer as escavações. Quando querem acessar as camadas mais profundas do sítio, que guardam os vestígios das ocupações mais antigas, eles vão a campo durante a seca, entre junho e novembro. Nessa época, os arqueólogos podem enfrentar um contratempo: os búfalos selvagens que habitam a reserva biológica onde fica Monte Castelo. Precisam, por isso, ir a campo armados de espingardas para se defender de um eventual ataque. A arqueóloga Gabriela Prestes Carneiro aprendeu a atirar antes de uma expedição a Monte Castelo. Não precisou usar a arma de fogo, mas passou aperto com os búfalos. “A gente quase morreu em Monte Castelo”, disse ela à piauí, em tom meio sério, meio de brincadeira. Gabriela Carneiro tornou-se professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, depois de fazer doutorado, orientada por Neves e pelo francês Philippe Béarez, e está de malas prontas para Paris, onde vai trabalhar a partir de outubro como pesquisadora do Museu Nacional de História Natural da França.
Por causa da dificuldade de acesso ao sítio, as expedições a Monte Castelo demandam uma operação logística complexa e cara – a última etapa de campo, que foi realizada em 2022 e durou um mês, custou 150 mil reais, de acordo com Neves (o projeto é financiado pela Fapesp). As escavações vêm sendo feitas com a participação dos tuparis, indígenas que frequentam aquela região. Gabriela Carneiro contou que Neves costuma envolver nas pesquisas de campo as populações locais interessadas pelo trabalho dos cientistas, inclusive as crianças. “Edu sempre fez ciência participativa, antes mesmo de isso existir como corrente metodológica de produção científica”, disse ela.
Em sua pesquisa de doutorado, Carneiro investigou os peixes consumidos pelos grupos que ocuparam Monte Castelo ao longo do tempo. Concluiu que, pelo tipo de espécies encontradas nas diferentes épocas em que o sítio foi ocupado, era possível recontar a história das variações climáticas da região. Neves e seus colegas, por sua vez, mostraram que, cerca de 4 mil anos atrás, os indígenas domesticaram uma variedade selvagem de arroz que se tornou um elemento importante de sua dieta. As sucessivas camadas do sítio mostram que Monte Castelo foi ocupado de forma contínua entre 6 mil e 700 anos atrás – uma raridade nos sítios arqueológicos amazônicos. Em última análise, a ocupação nunca foi interrompida. “Os povos indígenas que vivem ali até hoje acampam nesse lugar”, disse Neves.
O arqueólogo e seu grupo mostraram que o aterro sobre o qual foi erguida a estrutura de conchas foi feito há 5,2 mil anos. “É uma estrutura que a gente pode chamar de monumental”, disse o pesquisador, lembrando que a maioria dos demais exemplos de arquitetura monumental da Amazônia foi construída milênios mais tarde. Neves contou que o carbonato presente nas conchas abundantes naquele sambaqui ajuda a neutralizar o pH do solo, que costuma ser ácido nos ambientes tropicais. Isso aumenta a chance de que sejam encontrados restos humanos naquele ambiente, o que seria uma ocorrência rara em sítios a céu aberto em ambiente tropical, como o de Monte Castelo. Ali já foram encontrados oito sepultamentos humanos com idade de até 4 mil anos.
Neves gostaria de tentar extrair DNA desses fósseis no laboratório de arqueogenética do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. O material pode trazer pistas sobre um sinal genético misterioso encontrado tanto em indígenas que hoje vivem em Rondônia, não muito longe de Monte Castelo, quanto em povos nativos da Oceania e sudeste da Ásia. Esses grupos, tão distantes uns dos outros, mas unidos pelo sinal genético, são descendentes da chamada “população Y”, e a análise de seu DNA pode trazer novas pistas sobre a ocupação das Américas. “Seria muito interessante ter acesso ao material genético das populações que ocuparam Monte Castelo para ver se o padrão genômico da população Y aparece também nesses ossos antigos”, disse Neves.
O arqueólogo foi atrás de outro sítio em Rondônia que havia sido visitado por Eurico Miller, chamado de Teotônio e situado junto à cachoeira de mesmo nome no Alto Rio Madeira. O local voltou a ser estudado em 2011 e, após sucessivas escavações, também mostrou ter uma ocupação contínua e duradoura, que remonta a pelo menos 9 mil anos atrás. Os grupos que ocuparam aquele sítio consumiam recursos que ainda hoje fazem parte da economia local, como goiaba, castanhas e várias espécies de palmeiras.
Um dos achados mais notáveis feitos em Teotônio foi a descoberta de algumas das mais antigas terras pretas conhecidas na Amazônia, com cerca de 6,5 mil anos. Terras pretas são os solos férteis e escuros encontrados em centenas de sítios arqueológicos da Amazônia. Elas são resultado da ação humana, a partir do acúmulo de restos orgânicos. Não se sabe se foram feitas de forma intencional desde o início, mas é certo que passaram a ser produzidas deliberadamente após os indígenas perceberem que as terras pretas eram ideais para remediar a pobreza dos solos amazônicos, escassos em nutrientes.
As terras pretas se tornaram abundantes há cerca de 2,5 mil anos, mas Teotônio mostra que elas já eram produzidas milênios antes disso. Para a arqueóloga britânica Jennifer Watling, pesquisadora da USP especializada na análise dos vestígios botânicos encontrados nos sítios arqueológicos, “as terras pretas são o indício mais forte, visível e óbvio de que a Amazônia conseguiu, sim, suportar grandes populações”, na contramão do que se acreditou um dia. Para Watling, a abundância de fragmentos de cerâmica encontrados nas terras pretas já deveria bastar para encerrar a discussão. “Tinha que ter muita gente ali para justificar tantos potes quebrados.”
Em setembro de 2023, um grupo de trinta autores publicou na revista Science Advances um artigo que ajuda a entender a origem das terras pretas. Baseado em escavações arqueológicas, mas também em pesquisas etnológicas com os kuikuros, amparadas por entrevistas, o trabalho mostrou que os indígenas estavam criando no tempo presente, intencionalmente, terras pretas de composição química similar às encontradas em sítios arqueológicos. O achado central do trabalho veio de uma observação de campo feita por Morgan Schmidt, arqueólogo americano radicado em Florianópolis, onde faz pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina. Durante sua estadia na aldeia dos kuikuros, Schmidt notou uma mulher levando um cesto repleto de cascas de mandioca até um terreno atrás da casa, onde ela espalhou o material orgânico. Quando o pesquisador perguntou por que ela estava fazendo aquilo, a mulher respondeu: “Porque eu vou plantar aqui.”
Schmidt percebeu que estava assistindo a uma cena que ainda não tinha sido registrada na literatura científica. O episódio não só confirmava que as terras pretas em formação no quintal daquela mulher eram produzidas pela ação humana, mas também feitas deliberadamente para aumentar a fertilidade do solo. O arqueólogo confirmou o fato apurado com várias entrevistas feitas na língua dos kuikuros e depois traduzidas para o português e o inglês. “Ficou bem claro que eles sabem o que estão fazendo, e que estão fazendo de propósito”, disse Schmidt. Ele é o primeiro autor do artigo da Science Advances, coassinado por outras 29 pessoas, entre elas sete kuikuros, Eduardo Neves, Michael Heckenberger, Carlos Fausto e Jennifer Watling.
Resta entender quem eram e o que pretendiam os indígenas que fabricaram as terras pretas de Teotônio e construíram as estruturas monumentais de Monte Castelo. Ao especular sobre sua identidade, Neves ressaltou à piauí que não eram caçadores e coletores, como os primeiros grupos humanos que chegaram às Américas. “Eles já cultivavam algumas plantas e faziam até cerâmica, mas não dá para chamá-los de agricultores”, afirmou. “Deviam ter muita mobilidade, mas estavam investindo tempo e energia para construir estruturas monumentais, como é o caso dessas camadas de terra de Monte Castelo.”
As pesquisas de Neves ali e em outros sítios vêm mostrando que os povos indígenas da Amazônia não se encaixam direito nas categorias que a arqueologia havia definido para descrever suas trajetórias. As populações que viviam no Crescente Fértil e em torno do Mediterrâneo, por exemplo, passaram por transformações importantes de seu modo de vida: domesticaram animais, desenvolveram a agricultura e se tornaram sedentárias. O período em que isso aconteceu, entre 12 mil e 4 mil anos atrás, é chamado pelos especialistas de Neolítico. E muitos arqueólogos se condicionaram a enxergar essa mesma trajetória em grupos humanos de outras regiões do planeta.
Contudo, as populações antigas que foram aos poucos sendo descobertas na Amazônia não pareciam seguir esse mesmo roteiro. Ali, a transição para a agricultura talvez tenha parado na metade. As populações que ocuparam a floresta viviam de uma mistura de recursos naturais manejados e cultivados. “Mesmo a Amazônia sendo um centro da domesticação de plantas, o tipo de relação com a planta que havia ali não é o mesmo que você encontra em sociedades onde o cultivo de grãos é mais importante”, disse o antropólogo Carlos Fausto, que desenvolveu, junto com Neves, a ideia de que não houve um Neolítico na América tropical.
No plano da organização política, a particularidade dos povos amazônicos é não ter caminhado na direção de um Estado centralizador, mesmo em contextos de maior densidade demográfica, embora pareça ter havido algum tipo de hierarquia. Os povos antigos da Amazônia “vislumbraram a possibilidade do Estado, mas dela fugiram sempre que puderam”, escreveu Neves no livro Sob os tempos do equinócio, lançado em 2022 pelas editoras Ubu e EdUSP. A ideia se alinha com as conclusões a que o antropólogo francês Pierre Clastres chegou nos anos 1970 ao estudar os povos indígenas das terras baixas da América do Sul.
Os estudiosos dos povos que ocuparam a floresta no passado custaram a se libertar das amarras teóricas que os compeliam a entendê-los segundo as etapas de uma revolução neolítica seguida pela organização de um Estado. “Durante muito tempo a gente achou que houvesse alguma coisa errada com a arqueologia amazônica, e esse ruído era uma fonte de ansiedade para nós”, disse Neves. Não é que os estudiosos estivessem fazendo algo errado – os povos que viveram ali é que não se deixavam descrever por aquelas categorias. “Quando a gente olha para lugares que nunca haviam sido estudados, como é o caso da Amazônia, começa a ver que existem outras possibilidades de trajetórias históricas que não se enquadram na perspectiva canônica dos centros mais clássicos estudados pela arqueologia, como o Oriente Médio ou o Mediterrâneo.”
Outro conceito importado da Europa que não funciona direito na Amazônia é o de pré-história. No chamado Velho Mundo, o marco que separa a história da pré-história é o desenvolvimento da escrita. No continente americano, convencionou-se que a ruptura se deu com a chegada dos conquistadores europeus que trouxeram a escrita. O corte ignora que também nas Américas houve povos que desenvolveram a escrita – o registro mais antigo talvez seja uma tabuleta de pedra com caracteres inscritos pelos olmecas há 2,9 mil anos no sudeste do México.
Neves não vê sentido no corte entre história e pré-história. Para ele – um historiador de formação –, o que os arqueólogos fazem é história, só que com outro tipo de fonte. Em vez dos documentos escritos, entram todo tipo de vestígio material que se possa escavar num sítio arqueológico. E o que eles encontram vai muito além das ferramentas de pedra e cacos de cerâmica: hoje há técnicas para analisar vestígios microscópicos que dão pistas sobre o que os indígenas do passado comiam e como era o ambiente em que viviam.
Estabelecer o início da história nas Américas com a chegada dos europeus não é só um marco arbitrário, mas também colonialista, pois relega os povos indígenas à pré-história. “Essas populações têm história, mas ela não é feita com as fontes documentais consagradas na historiografia ortodoxa”, afirmou Neves. “Criticar a ideia de pré-história é devolver aos povos indígenas o papel de agentes históricos.”
A singularidade da história amazônica pode servir de antídoto para o complexo de vira-lata que acomete tantos brasileiros. “Em alguns lugares do Brasil existe uma perspectiva pessimista sobre sermos um país tropical”, disse Neves. E parte desse pensamento vem da ideia de que os trópicos são insalubres e incompatíveis com ideias de inovação e desenvolvimento. “Se a gente olhar para a arqueologia, verá que, na verdade, não existe nada na condição tropical que seja incompatível com a invenção ou a criatividade.”
Em 2013, um grupo numeroso de cientistas liderados pelo ecólogo holandês Hans ter Steege, da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, publicou na revista Science um levantamento revelador sobre a distribuição das árvores amazônicas. De acordo com a estimativa feita por eles, havia em toda a floresta cerca de 390 bilhões de árvores que pertenciam a aproximadamente 16 mil espécies. No entanto, pouco menos de metade dessas árvores se enquadravam em apenas 227 espécies. Ou seja, algumas das espécies eram muito mais comuns do que as outras – elas são hiperdominantes, no jargão dos cientistas.
A lista das dez espécies mais comuns é particularmente significativa: ali estão o açaí, a bacaba, o cacau e a seringueira. “Grande parte dessas 227 espécies são árvores que têm uma importância econômica e simbólica fundamental para os povos indígenas”, disse Neves, ao apresentar o resultado numa palestra remota feita para uma plateia de cientistas e ambientalistas em 2022. Para ele, a abundância de um número pequeno de árvores é prova de que elas foram manejadas pelos povos antigos da floresta. “Quando olho para esse número como arqueólogo, penso que não se pode separar a dimensão da presença humana do padrão representado por esses dados.”
A implicação é clara: a própria composição da floresta parece ter sido profundamente influenciada pela ação humana. Onde um desavisado pode enxergar um trecho de mata virgem existe, na verdade, uma Amazônia manejada, cujas árvores foram cuidadosamente selecionadas ao longo de milênios para que os povos da floresta tivessem sempre à sua volta os recursos de que precisavam. Em outras palavras, a Amazônia é em grande medida cultivada. Numa bela definição, Neves e Carlos Fausto, em artigo de 2018 publicado na revista Antiquity, escreveram: “A fronteira entre a floresta e o jardim permanece fluida.”
É fácil perder de vista os séculos de conhecimento acumulado pelos antigos indígenas e mobilizado até que a floresta ganhasse as feições atuais. A invisibilidade desse engenho deriva do velho preconceito determinista que enxerga na Amazônia um inferno verde onde o desenvolvimento e a inovação não podem florescer.
É também o complexo de vira-lata que entra em ação quando alguém faz pouco caso dos antigos indígenas da Amazônia por não terem construído pirâmides ou outras estruturas de pedra, como fizeram povos pré-colombianos dos Andes ou da América Central e do México. Quando alguém questiona Neves por que os indígenas da Amazônia não construíam pirâmides, ele costuma responder o seguinte:
– A floresta são as nossas pirâmides.
Pois, se o que faltava para provar o engenho dos antigos habitantes da Amazônia eram pirâmides, desde 2022 não falta mais. Em maio daquele ano, um grupo de arqueólogos liderados pelo alemão Heiko Prümers revelou, na revista Nature, a existência de grandes pirâmides, plataformas e montículos erguidos na Amazônia boliviana pelo povo Casarabe, que viveu por ali entre os anos 500 e 1400 da era corrente. Assim como a maioria das estruturas monumentais encontradas na Amazônia, elas foram construídas com terra, e não com pedra (como as pirâmides dos maias ou dos egípcios). A maior delas tinha 22 metros de altura, o equivalente a um prédio de sete andares.
O estudo liderado por Prümers, que é pesquisador do Instituto Arqueológico Alemão, revelou um conjunto de estruturas sem precedentes na Amazônia. O maior assentamento descrito era cercado por muralhas, conectado a uma laguna por um canal com 7 km de extensão e ligado por estradas a sítios menores, espalhados por uma área de 500 km². Os autores definiram o conjunto como “um tipo de urbanismo tropical agrário de baixa densidade” em plena Amazônia.
Na entrevista que deu à piauí na época da publicação do artigo, Prümers disse que Cotoca – o sítio onde fica a pirâmide de 22 metros – tinha tudo para ser chamado de cidade, embora não preenchesse todos os requisitos para se encaixar na definição formal. “Trata-se de um assentamento imenso, rodeado de uma estrutura defensiva, com um núcleo central onde há um centro cerimonial cívico ou administrativo”, enumerou o alemão. “É claro que é uma cidade.”
Não foi a primeira vez que os pesquisadores se depararam com arquitetura monumental e organizações sociais complexas na Amazônia. Em 2008, um grupo de estudiosos liderados por Michael Heckenberger, o amigo americano de Eduardo Neves, descreveu o que eles chamaram de um exemplo de “urbanismo pré-colombiano” no Alto Xingu. Num artigo publicado na Science – coassinado por Carlos Fausto, Morgan Schmidt, Afukaká Kuikuro e outros autores –, o grupo descreveu vilas muradas de até 50 hectares que podiam ser habitadas por pelo menos 2,5 mil pessoas e aldeias menores conectadas por estradas a centros cerimoniais com grandes praças.
Nos dois casos, a dificuldade de encontrar um termo adequado para designar aqueles assentamentos é sintomática da singularidade da ocupação da floresta pelos antigos indígenas. Seja qual for o nome que se queira dar a esses dois tipos de urbanismo, ambos configuram mais um golpe duro contra o determinismo ambiental que por muito tempo relegou a Amazônia a um lugar marginal na arqueologia do continente. “Está claro que sociedades complexas podem se desenvolver em ambientes tropicais tanto quanto em qualquer outra parte do mundo”, afirmou Prümers.
As pirâmides de terra erguidas pelo povo Casarabe demoraram a ser interpretadas como tal, porque haviam sido cobertas por vegetação, depois que o sítio de Cotoca foi abandonado pelos indígenas, misturando-se à paisagem da floresta. Sua real natureza só foi revelada depois que a topografia daquela região foi mapeada por meio do LiDAR, uma tecnologia à base de laser que está revolucionando a arqueologia nos últimos dez anos.
LiDAR é o acrônimo em inglês para “detecção e alcance da luz” (Light detection and ranging). Trata-se de uma ferramenta que permite mapear o relevo de uma área mesmo que ela esteja coberta por florestas ou outro tipo de vegetação. A ferramenta promove o que o antropólogo americano Christopher Fisher chamou de “desmatamento digital”: ela remove a cobertura vegetal para examinar o solo sem que seja preciso cortar uma única árvore. O sensor do LiDAR geralmente é embarcado em um avião, helicóptero ou mesmo drone, para sobrevoar a área que se quer mapear. O dispositivo envia milhares de pulsos de laser na direção do solo, e alguns deles conseguem atravessar a copa das árvores. Os pulsos são refletidos de volta para o aparelho, e o tempo gasto no trajeto permite determinar a distância exata até o solo. Com um número de pontos suficientemente grande é possível reconstituir um mapa preciso do relevo da área examinada pelo sensor.
Uma nova demonstração do potencial promissor do LiDAR para a arqueologia amazônica veio em janeiro deste ano, quando cientistas coordenados pelo arqueólogo Stéphen Rostain, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, revelaram a existência de uma grande rede de estruturas monumentais construída com terra pelos antigos moradores do Vale do Rio Upano, na Amazônia equatoriana. Os sítios em questão foram ocupados entre 2,5 mil e 1,4 mil anos atrás. As construções reveladas pelo LiDAR incluem fortificações, plataformas cerimoniais e praças, e configuram “a maior rede urbana de estruturas erigidas e escavadas conhecida na Amazônia”, como escreveram os autores na Science.
O caso do Vale do Upano dá a medida de como o LiDAR está mudando o jogo na arqueologia. Algumas daquelas estruturas eram conhecidas pelos arqueólogos, mas as imagens do LiDAR revelaram conexões entre elas e deram um novo significado a todo o conjunto. “O LiDAR nos permite entender melhor não só a dimensão dos sítios, mas também sua escala regional”, disse Neves numa entrevista concedida quando saiu o artigo de Prümers. Entusiasta de primeira hora do LiDAR, o professor da usp acredita que o impacto da ferramenta sobre a arqueologia é igual ou maior ao causado pela datação por carbono-14, desenvolvida em 1949, que finalmente permitiu aos cientistas conhecer a idade absoluta dos sítios que estudavam.
O LiDAR também deve poupar bastante tempo dos arqueólogos. Um único sobrevoo permite registrar em poucas horas um volume de dados que pesquisadores em campo precisariam de semanas ou meses para coletar. Para Neves, a nova ferramenta vai definir a agenda de pesquisa da sua disciplina no futuro. “Cada imagem dessas rende pesquisas para um monte de gente nos próximos vinte ou trinta anos”, disse ele, referindo-se aos mapas feitos com o LiDAR da arquitetura monumental encontrada na Bolívia.
A inovação será particularmente útil na arqueologia da Amazônia. O LiDAR pode revelar estruturas de terra que hoje são confundidas com a paisagem, mas também os geoglifos, como são chamadas as inscrições geométricas feitas na terra. Algumas dessas estruturas são de grande escala e ganham outro significado quando vistas do alto com a ajuda do aparelho. Centenas delas vêm sendo encontradas naquela região, muitas vezes porque a floresta que as cobria foi desmatada.
Em 2021, a National Geographic Society enviou um e-mail a Eduardo Neves, convidando-o a concorrer a uma nova modalidade de financiamento criada pela organização. Não era um chamado aberto a qualquer pessoa. Neves fora escolhido porque participara de um projeto anterior, bancado pelos americanos, em que redescobriu o sítio de Monte Castelo. Isso lhe conferiu o status de explorer – explorador – e a prerrogativa de mandar uma proposta.
A organização queria financiar iniciativas que levassem à proteção de algum sítio ameaçado de destruição. Neves submeteu um projeto que propunha enxergar a própria floresta como monumento histórico. “A arqueologia tem mostrado que a Amazônia não é só um produto da história natural, mas também da história dos povos indígenas”, disse ele à piauí. “Temos que pensar em alguma maneira de usar o conhecimento arqueológico para proteger esse patrimônio que está ameaçado como nunca esteve.”
O projeto elaborado por Neves, batizado como Amazônia Revelada, pretende usar o LiDAR para descobrir sítios arqueológicos na floresta que funcionariam como uma barreira de contenção para o desmatamento – ou um firewall (muro corta-fogo), como ele descreveu. Sua ideia era registrar os sítios identificados pelo LiDAR junto ao Iphan, de forma a proteger as terras em que se encontram, já que uma lei de 1961 e a Constituição Federal de 1988 determinam que os sítios arqueológicos sejam protegidos pelo poder público, mesmo que estejam em propriedade particular.
Neves contou que o projeto foi motivado pelo desespero que sentiu durante o governo de Jair Bolsonaro, com suas políticas hostis à ciência, às universidades, ao meio ambiente e aos povos indígenas. “A ideia é criar, através da arqueologia, mais um elemento para proteger essas áreas que sofreram uma destruição muito grande nos últimos anos”, disse. Há duas transformações antagônicas na Amazônia. De um lado, o cultivo da floresta-jardim. De outro, sua conversão para o agronegócio, que substitui grandes áreas de vegetação por pasto ou monocultura de soja.
Essas duas transformações contrastam pela escala de tempo em que aconteceram. “São 12 mil anos de construção de paisagens que têm significado histórico profundo e trinta anos de destruição”, afirmou Neves durante a Feira do Livro, em São Paulo, em 2022. (Poderia ter ido ainda mais longe e falado em meio século de devastação, para abarcar também os esforços do regime militar para promover a ocupação da Amazônia à custa da floresta.) “É uma ocupação que não gera riqueza, gera muita violência e, do ponto de vista social e ambiental, é uma catástrofe.” Ao chamar a atenção para um modelo de ocupação alternativo àquele preconizado pelo agronegócio, a arqueologia nos fornece a base para escolhermos o tipo de transformação que desejamos promover na floresta – e a quem precisamos recorrer para mantê-la de pé. “Não dá para pensar na preservação da Amazônia no futuro sem os povos tradicionais que vivem nela hoje”, disse Neves.
A National Geographic Society aprovou o projeto do brasileiro e, segundo Neves, lhe destinou 1,8 milhão de dólares (cerca de 9,2 milhões de reais). Os trabalhos da Amazônia Revelada começaram em 2022, com duração prevista de três anos, envolvendo cinquenta arqueólogos de quinze instituições.
Em outubro de 2023, ano em que tiveram início os sobrevoos previstos no Projeto Amazônia Revelada, a revista Science publicou um artigo relatando o mais amplo levantamento arqueológico feito com o LiDAR na Amazônia brasileira. Assinado por 230 pesquisadores de vinte países, o estudo foi conduzido pelo grupo de Luiz Aragão, especialista em sensoriamento remoto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O primeiro autor foi o geógrafo Vinicius Peripato, aluno de doutorado de Aragão, especializado no LiDAR, que ele aprendeu a manipular na Universidade de Massachusetts Amherst.
Peripato contou à piauí que os dados usados no estudo foram coletados entre 2008 e 2018 com outra finalidade: estimar quanta matéria orgânica há em certos trechos da floresta. “O dado do LiDAR é muito rico, o pessoal usa para fazer prospecção arqueológica, análise de degradação, estimativa de biomassa”, enumerou o geógrafo. “A cada vez que você espreme, tira uma informação nova.”
O estudo vasculhou os dados que cobriam uma superfície de 5 315 km², o equivalente a menos de 0,1% da área total da bacia amazônica. O grupo identificou nessa área 24 sítios arqueológicos que estavam escondidos sob a floresta. Entre geoglifos e estruturas monumentais fabricadas com terra, o achado mais impressionante foi uma vila fortificada no Alto Xingu, ligada a outros sítios por uma rede de estradas. Com base no que encontraram, os cientistas fizeram uma extrapolação para estimar a quantidade de sítios arqueológicos desconhecidos que poderia haver em toda a bacia amazônica: concluíram que seriam pelo menos 10 mil e podiam passar de 23 mil.
Antes de serem publicados, os artigos científicos são enviados para a avaliação crítica de outros cientistas, no processo conhecido como revisão por pares. O artigo do grupo do Inpe foi enviado a Eduardo Neves, que não só é um nome de referência da arqueologia amazônica, como estava envolvido em um projeto que também usa o LiDAR.
Embora soubesse da pesquisa do Inpe, Neves ficou surpreso ao ler o artigo, pois, afinal, Peripato, Aragão e suas centenas de colaboradores estavam chegando à frente dele para anunciar a descoberta de sítios arqueológicos monumentais revelados pelo LiDAR. Naquele momento, o Projeto Amazônia Revelada ainda não tinha resultados para divulgar. “Putz, os caras vão publicar antes”, pensou Neves quando recebeu o e-mail da Science pedindo que ele avaliasse o artigo. Isso não impediu que se animasse com o resultado dos colegas: a visibilidade daqueles resultados lhe pareceu mais importante do que ganhar os louros pela descoberta. “Já fui competitivo, mas não tenho mais paciência para essas brigas acadêmicas”, disse Neves.
Ele escreveu um parecer para a Science recomendando a publicação do artigo. Tinha a prerrogativa de ficar anônimo, mas preferiu assinar a avaliação. Entre suas considerações, notou que apenas alguns tipos de sítio arqueológico são identificados pelo LiDAR. Grandes áreas de terra preta da Amazônia, como Teotônio, passam despercebidas pelos sensores. Por isso, é provável que o número de sítios arqueológicos ainda por descobrir na Amazônia seja maior do que a estimativa feita no estudo de Peripato, Aragão e equipe.
O Projeto Amazônia Revelada prevê sobrevoar quatro zonas diferentes espalhadas pelo bioma, cobrindo um total de 1,6 mil km². É uma área bem menor do que a coberta no estudo coordenado pelo Inpe – mas foi definida em função de seu potencial arqueológico, a partir de conversas com cientistas e representantes dos moradores e povos indígenas. “Algumas áreas a gente sabe que são tiro certo”, disse Neves. Foi o caso do Vale do Rio Guaporé ou da Ilha de Marajó. “Mas outras são totalmente desconhecidas, como é o caso da Terra do Meio”, completou, lembrando que se trata de uma região no Sul do Pará que sofre grande pressão de grileiros, madeireiros e garimpeiros. O projeto vai sobrevoar ainda a área habitada pelo chamado “índio do buraco”, um indígena isolado que era o último de seu grupo e morreu em 2022. Neves disse que, depois de sua morte, havia uma indefinição em torno do status das terras que ele ocupava, em Rondônia. “Se identificarmos algum sítio arqueológico, podemos ajudar a manter essa terra protegida”, afirmou.
O cronograma para prospecção com o LiDAR atrasou por causa da temporada de queimadas intensificada pelo fenômeno El Niño em 2023. A fuligem lançada no ar pelos incêndios florestais compromete a captação de dados, e por isso muitos voos foram cancelados. Mas Neves se animou com os resultados dos primeiros sobrevoos, feitos no ano passado. “Uma área que já foi sobrevoada é a que pega o Leste do Acre, o Sul do Amazonas e o Oeste de Rondônia”, disse o arqueólogo. “Nós identificamos sítios arqueológicos em regiões cobertas por florestas e várias redes de caminhos e estradas.”
Um dos objetivos da viagem no início deste ano era visitar in loco algumas estruturas que apareceram nos mapas feitos com o LiDAR. Os arqueólogos foram até uma estrada apontada pela ferramenta e viram que, afinal, ela tinha sido aberta por madeireiros, como mostram imagens de satélite. “Mas pode ser que tenha sido construída por cima de uma antiga estrada indígena”, ponderou o arqueólogo. Neves está curioso para saber o resultado do sobrevoo com o LiDAR na região que compreende a Serra da Muralha, que seria realizado no mês de junho. “A gente quer mapear o entorno dessa área para ver se encontra estradas e geoglifos associados à muralha na parte de baixo da floresta”, afirmou.
Uma área que Neves pretendia estudar era o Alto Xingu, onde o trabalho feito pela equipe de Michael Heckenberger descreveu uma rede de estruturas monumentais. As conversas preliminares com os kuikuros que vivem nas áreas levaram a um impasse: como os indígenas não queriam que as informações coletadas pelo LiDAR se tornassem públicas, Neves abriu mão de sobrevoar aquela área. Heckenberger observou que parte daquele território é sagrada para os indígenas e que, por isso, eles foram ouvidos antes do estudo. “É complicado coletar dados do patrimônio cultural de um povo sem consultá-lo.” Ele disse também que Neves está inovando ao consultar os indígenas antes de sobrevoar suas terras. “O Amazônia Revelada dará o modelo para outros projetos com o LiDAR no futuro”, afirmou o arqueólogo americano.
Em outubro, Neves vai organizar uma reunião em Manaus para apresentar os resultados preliminares do Projeto Amazônia Revelada. Pretende reunir cientistas, ambientalistas, parceiros, moradores locais e representantes dos povos da floresta – não só os indígenas, mas também caboclos e ribeirinhos. Ele busca meios para manter o projeto de pé depois que acabar o financiamento da National Geographic Society. Está se articulando para pleitear os recursos do Fundo Amazônia, que é alimentado por doadores internacionais e banca iniciativas de conservação da floresta.
Heckenberger contou que, no fim dos anos 1990, ele estava dentro de um táxi em Belém na companhia de Neves e das arqueólogas Edithe Pereira e Vera Guapindaia, ambas do Museu Paraense Emílio Goeldi. Em dado momento, Neves brincou que, caso o carro se acidentasse, aquele seria um golpe duro para a arqueologia amazônica. O americano comentou que o quadro hoje é bem diferente – “Agora tem centenas de pessoas” – e que Neves foi um dos grandes responsáveis por essa explosão. “Ele treinou metade do quadro atual de arqueólogos amazônicos”, disse, exagerando um pouco.
Em seu currículo acadêmico, Neves lista 29 dissertações de mestrado e 21 teses de doutorado orientadas por ele desde 2002, além de outras 8 orientações em andamento. A grande quantidade de alunos treinada por ele é a realização de que mais se orgulha. Seus “filhos acadêmicos” se formaram num período de expansão do ensino superior no Brasil, quando foram abertos novos cursos e universidades, e hoje estão espalhados pelos departamentos de arqueologia da Amazônia e de outras regiões, formando seus próprios alunos.
Neves é alguém que se conecta com facilidade com seus interlocutores, de onde quer que eles venham, e não se incomoda que outras pessoas brilhem ao seu lado. “O Edu tem a capacidade de integrar gente e estabelecer redes internacionais, e tem a generosidade de abrir portas para outras pessoas”, disse o antropólogo Carlos Fausto. “Ele foi o primeiro que não quis a arqueologia amazônica só para si”, afirmou a ex-aluna Gabriela Carneiro. Ela disse que, por causa do brilho com que Neves narra suas histórias, uma colega lhe deu o apelido de Eduflix, como se o arqueólogo fosse uma plataforma de streaming. “É um homem que precisa ser conhecido não só pela arqueologia que faz, mas também pelas histórias que conta”, disse Carneiro.
No primeiro dia em que tentaram chegar à Serra da Muralha em março, enquanto aguardavam a autorização do proprietário da fazenda para atravessar as suas terras, Neves e seus colegas mataram o tempo conversando com os funcionários da fazenda, que lhes ofereceram café e almoço. O arqueólogo contou detalhes sobre suas pesquisas e sobre o que ele e seus amigos pretendiam com aquela excursão. Um dos funcionários, ao se dar conta que estava diante de um estudioso de civilizações antigas da floresta, quis saber: “E aquela cidade antiga que teve na Amazônia?” Neves respondeu com outra pergunta: “Ratanabá?” Sim, era essa a cidade.
Ratanabá está no centro de uma ficção que se espalhou pelas redes sociais no começo desta década. Segundo a narrativa fantasiosa, sem qualquer lastro arqueológico, é uma cidade perdida de 450 milhões de anos na Amazônia. A origem do boato está ligada ao empresário Urandir Fernandes de Oliveira, um terraplanista envolvido com a disseminação de desinformação. O delírio ganhou uma visibilidade que as pesquisas arqueológicas não costumam ter e, mesmo à revelia dos pesquisadores sérios, virou tema recorrente do repertório deles.
Neves reagiu com empatia à pergunta do funcionário, explicando a ele que Ratanabá nunca existiu. Não poderia haver uma cidade tão antiga na Amazônia, já que, 450 milhões de anos atrás, a própria floresta ainda não havia aparecido. O arqueólogo contou que ele e seus colegas estavam em busca de uma muralha que tinha sido construída há 1,2 mil anos. “Imagina a diferença entre 1,2 mil reais e 450 milhões de reais”, propôs ao funcionário, acrescentando que a presença humana conhecida na Amazônia é bem mais recente, de pelo menos 12 mil anos.
Embora ande sem paciência para as brigas acadêmicas, Neves está com pique de sobra para combater a desinformação. As motivações para a disseminação da história de Ratanabá não estão muito claras, mas o arqueólogo lembrou que a notícia falsa viralizou quando o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips desapareceram em 2022. “A história já estava circulando antes disso, mas essa máquina de desinformação que a gente viu operando usou a história de Ratanabá para fazer uma bomba semiótica e desviar a atenção do desaparecimento de Bruno e Dom”, afirmou.
Estarrecido com o negacionismo da ciência e das vacinas que grassou durante a pandemia, Neves acha que é hora de vir a público falar sobre Ratanabá. “Não dá mais para levar só na brincadeira”, disse. Mas ele acha que talvez não esteja usando as armas apropriadas. “Quem vai ler uma crítica de Ratanabá não é o público que acredita nessa história. São mundos que não se comunicam.” Ele sabe que os “ratanabanos” vão tratar de preencher os espaços que os acadêmicos não ocuparem. Chegaram até a se antecipar aos cientistas no uso do LiDAR para mapear regiões da Amazônia – contratando a mesma empresa que o Projeto Amazônia Revelada chamou para fazer os sobrevoos. A operação foi promovida e custeada pela Dakila Pesquisas – o instituto com que Urandir Oliveira busca dar ares pretensamente científicos aos disparates que espalha. As páginas da Dakila que alimentam a notícia falsa alegam que o LiDAR revelou as quadras de Ratanabá. Naturalmente, não apresentam uma única imagem da suposta descoberta.
Enquanto descia o morro de granito depois de visitar o topo da Serra da Muralha, Neves se lembrou da redação que fez no ensino fundamental, dizendo que desejava ser um explorador. E se deu conta de que, afinal, tinha seguido boa parte do roteiro: hoje é, inclusive, um explorer da National Geographic Society. “Estou fazendo o que queria fazer quando tinha 9 anos de idade”, disse ele, enquanto voltava na caminhonete para Rio Branco. “Isso é um puta presente, eu tive sorte.”
O que atrai Neves na arqueologia é a mistura de trabalho intelectual e braçal. “Além de tudo, tem essa dimensão de estar com as pessoas e conhecer os lugares.” Neves acredita que sua disciplina está ficando ainda mais interessante à medida que inclui os valores e saberes dos povos indígenas, envolvendo seus representantes nas pesquisas. “Nunca foi tão legal fazer arqueologia”, afirmou. É nas viagens de campo que ele se sente mais à vontade. “A experiência é visceral, e você tem que topar esse jogo de certa maneira”, diz o arqueólogo, que mora em uma casa na Vila Madalena, em São Paulo, com a segunda mulher, a diretora de cinema e tevê Dainara Toffoli, com quem tem um filho de 17 anos (do primeiro casamento, com uma antropóloga alemã, tem dois filhos de 28 e 26 anos, que nasceram e moram na Alemanha).
A expedição à Serra da Muralha tinha tido seus percalços, com caminhonete enguiçada, chuvas torrenciais e uma odisseia para acessar um sítio de cair o queixo, mas Neves já tinha vivido temporadas mais viscerais. Como a viagem que fez ao Amazonas em novembro de 2000, quando foi picado por uma serpente venenosa – possivelmente uma jararaca – e por pouco não morreu. Salvo pelo arqueólogo Carlos Augusto da Silva, um amigo próximo, ficou doze dias no hospital por causa de uma infecção e, depois disso, passou meses andando de muleta. O episódio o levou a abandonar o cigarro e mudar de perspectiva em relação à vida. Também deixou nele um medo de cobra que ele não tinha antes.
Muitos colegas vão se cansando do trabalho de campo à medida que envelhecem. Já Neves, às vésperas de completar 60 anos, continua animado. Desde que assumiu a direção do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, em 2022, tem tido poucas oportunidades de pegar a estrada, mas tenta ir a campo ao menos uma vez por ano. Ele conta que se sentiu com uma energia nova ao desembarcar pela primeira vez na rodoviária de Belém em 1985, depois de dois dias de estrada. “Até hoje me sinto assim quando vou a campo.”
Na estrada até a Serra da Muralha, o guincho que rebocava a caminhonete quebrada no primeiro dia acabou atolando. Era a temporada de chuvas no sudoeste da Amazônia, e a estrada estava em condições deploráveis. Dois caminhões, um deles carregado com toras grossas de madeira, também estavam atolados. Enquanto parte do grupo esperava dentro da outra caminhonete, desfrutando do ar-condicionado, Neves circulava agitadamente pela estrada enlameada, arquitetando um plano de resgate para o guincho. Quando finalmente voltou para a caminhonete, estampou um sorriso para os colegas e disse: “Mais um dia no escritório.”