despedida

NOSSO OÁSIS INDEFESO

O astronauta que fotografou o nascer da Terra
Imagem Nosso oásis indefeso

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Foi na véspera do Natal de 1968 que ela surgiu sem avisar, serena e elegante, na escuridão sideral. Brotara de supetão no campo de visão do astronauta William Anders e parecia um imenso oásis azulado em meio ao infinito. Foi tudo muito rápido, atabalhoado até. No interior de um dos módulos da Apollo 8 – primeira missão espacial a orbitar a Lua –, ouviram-se três cliques de uma versão modificada da câmera sueca Hasselblad 500 EL. Coisa de poucos segundos. O suficiente para Anders ingressar no panteão da fotografia do século XX com uma única imagem, e ela – a Terra – ser apresentada à humanidade em retrato transcendental. A foto recebeu o bonito nome de Earthrise (ou Nascer da Terra).

Anders morreu no último dia 7 de junho, aos 90 anos, quando o monomotor T-34 Mentor que pilotava mergulhou no mar das Ilhas San Juan, no estado de Washington, onde ele morava. Graças à longevidade do astronauta, a vida permitiu que desfrutasse plenamente do tardio reconhecimento pelo presente que nos deixou. Os primeiros relatos da missão Apollo 8 produzidos pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, praticamente o escantearam da história oficial. Mais: a boa integração que reinou entre o trio de astronautas em órbita não resistiu às fraquezas individuais que compõem a condição humana quando os três retornaram à Terra.

O veterano Frank Borman, comandante da missão, tinha uma frieza de ofício que não raro era confundida com aspereza. Ele fora acometido de insônia e indisposição logo no início da viagem, com vômitos e diarreia difíceis de administrar dentro da nave. Jim Lovell Jr., chamado de última hora para pilotar o módulo de comando, era mais brincalhão. Já Anders, na função de piloto do módulo lunar, pendia para o reflexivo. Uma espécie de “caixa-­preta” registrava esporadicamente as conversas dos tripulantes.

Por mero acaso, no instante em que os astronautas se depararam com a Terra, o gravador de voz estava ligado. Eis o registro das primeiras palavras pronunciadas por dois deles, segundo a transcrição divulgada pela Nasa em 1987:

Borman: “Meu Deus! Olhem para aquela imagem ali na frente! É a Terra nascendo! Nossa, como é lindo!”

Anders: “Ei, não fotografe isso, não está programado.”

O diálogo transcrito confirmava o empolgante relato que Borman fizera em 1969 para a revista Life, a mais influente do mundo à época (8 milhões de exemplares semanais). Na versão do comandante, Anders estava tão focado em sua tarefa central – esquadrinhar a superfície lunar de todos os ângulos e maneiras possíveis – que, quando o chefe quis captar a imagem da Terra surgindo no horizonte, ele objetou. “Pouco depois, consegui convencê-lo a me passar a câmera e fotografei o momento”, disse Borman na entrevista, adulterando os fatos. No seu livro de memórias, o comandante repetiu essa ficção e cristalizou a falsa autoria de Earthrise. Anders e Lovell Jr. não o desmentiram.

Coube a um incansável pesquisador americano, Andrew Chaikin, colocar os pingos nos is. Ele revisou pilhas de documentos da Nasa ao longo de anos, entrevistou dezenas de envolvidos e comparou os timbres de voz de cada astronauta em centenas de horas de gravações originais. Sua conclusão, hoje fartamente sacramentada, contraria a transcrição de 1987: por falha humana ou pressão de Borman, que morreu em novembro de 2023, a agência espacial atribuiu ao comandante as frases ditas por Anders (“Meu Deus! Olhem para aquela imagem ali na frente! É a Terra nascendo! Nossa, como é lindo!”), e vice-versa. As gravações também mostraram que, pouco antes do “momento Earthrise”, Borman quis tirar uma “foto de turista” de uma cratera lunar sem importância científica e levou bronca de Anders.

Até mesmo os três distintos cliques vindos da Hasselblad foram esclarecidos. Ao ver a Terra despontando no horizonte, Anders agarrou-se à câmera e flutuou de janela em janela para conseguir o melhor ângulo. O primeiro disparo foi em preto e branco. Na sequência, ele gritou para que Lovell Jr. lhe passasse um filme colorido e fez os disparos seguintes com uma teleobjetiva Zeiss Sonnar, de 250 mm.

“Estávamos de ponta-cabeça e de costas para o espaço havia horas. Não enxergávamos nem o Sol nem a Terra, até que ela veio rolando para perto. Ver algo assim tão delicado, parecendo um ornamento de árvore de Natal, foi totalmente inesperado”, recordaria Anders mais tarde.

O êxito puramente tecnológico dessa missão lunar de altíssimo risco – Anders estimara haver uma chance em três de a tripulação não retornar com vida do espaço – permitiu aos Estados Unidos um raro respiro de alívio no final daquele 1968 trevoso. O ano presenciara dois assassinatos de impacto máximo (os do ativista negro Martin Luther King e do senador Robert Kennedy), protestos em massa e uma guerra cada vez mais sangrenta e invencível do outro lado do planeta, no longínquo Vietnã.

Pois foi justamente em meio à turbulência de 1968 que a Nasa decidiu cumprir o compromisso assumido pelo presidente John F. Kennedy em 1961: pousar um americano na Lua antes do final da década, devolvê-lo à Terra em segurança e assumir a dianteira da corrida espacial contra a União Soviética. Deu certo. O papel desbravador da Apollo 8 permitiu que, meses depois, em julho de 1969, a bandeira dos Estados Unidos transportada pela Apollo 11 fosse fincada no solo lunar.

Para o resto da humanidade, sobrou o mais valioso: a descoberta da beleza frágil do nosso planeta. Ele brilha no espaço, leve, livre e solto, mas é indefeso. Nas palavras do escritor Robert Kurson, “além dos que nele habitam, nada mais é capaz de protegê-lo. É tudo o que temos, e somos tudo o que a Terra tem”.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Jornalista, trabalhou nos principais veículos da imprensa brasileira e participou da criação da revista Veja e da piauí, na qual foi editora. Ganhou o Prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia. É colunista de O Globo e publicou O instante certo