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poesia

OS SEUS GRITOS POR MÃE, MAMÃE

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 em memória de Tyre Nichols

a distância
da minha casa
até a sua
era de oito mil quilômetros.

agora, é nada.

os seus gritos por             MÃE                MAMÃE
chegam até aqui,
sem relutar,
arrombam a porta
sobem as escadas
avançam até o quarto.
sem relutar,
me sacodem
estapeiam,

enquanto eu velo
o sono intranquilo
daquele que pari:

pois, a noite,
a noite não é
um lugar seguro
para os meninos negros.

o dia, tampouco.

minha mãe fiou
o meu filho
com o fio invisível
que sai
do seu umbigo.

quando você fecha ou
abre os olhos
é a minha imagem
presa nas suas retinas

e entre este
um ou outro ato seu
cabem inúmeras coisas:

em todas essas coisas
eu procuro apenas
aquela mulher
aquela mulher que eu era

e que só encontro
presa nas suas retinas.

sua boca precipita o dia,
ainda não sabe das palavras
o que expressa em gestos:

suas mãos também me buscam.

não há silêncio,
é tudo grito.

eu sei da vida quando experimento
a sua fome,
e sei da morte quando me transformo
no seu alimento.

dentro de uma jaula
qualquer, a onça
lambe, alimenta
seus filhotes.

do lado de fora,
outro mundo, outros
animais que se sujeitam a ela e/ou
a quem se sujeita
e também sombra
& água fresca.

do lado de dentro,
tudo é deserto:
a onça tem mais sede
do que a água que lhe é ofertada.

do lado de dentro,
outros seus e a
solidão, tudo se faz
um espetáculo

para o lado de fora.

dentro de uma jaula
qualquer, aconteça
o que acontecer,
a onça jamais se esquecerá
da sua natureza selvagem.

queria aprender a
segurar o tempo.

ao contrário, corto suas unhas
mais vezes durante a semana
do que sabia ser necessário.

ao contrário, seus cabelos
crescem e se transformam
num emaranhado de
caracóis, que pendem,
parecem com os meus,
eu sequer aparo as pontas.

ao contrário, as suas calças
já estão curtas de novo,
não acompanham as estações
nem qualquer outra medida.

queria aprender a
segurar o tempo,
mas o seu corpo
se rebela,
já não aceita
o limite do meu colo,
ultrapassa.

queria aprender a
segurar o tempo.

ao contrário, ele
atravessa entre
os meus dedos,
cai no chão
inúmeras vezes
nunca se quebra.


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É poeta e tradutora, doutora em psicologia do desenvolvimento humano pela USP. Publicou, entre outros, triz (2016), um corpo negro (2018) e até aqui (2021). É fundadora de nossa editora.