questões literárias
Matías Serra Bradford Jul 2024 15h26
4 min de leitura
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Tradução de Samuel Titan Jr.
A crueldade de quem considera a gentileza alheia como licença imediata e perfeita para destratar o outro. O patetismo de quem tem dó de si mesmo por ser (por se considerar) tão bondoso. A doçura no uso de certos tempos verbais – “terei feito” – por pessoas de idade. A petulância de quem decide com quem vai almoçar percorrendo a tela do celular, como se reembaralhasse seus contatos antes de convidar fulano ou beltrano para uma partida de pôquer em sua mansão. O imbecil profissional empenhado em que os demais o considerem como tal (por isso percebe no ato quando alguém tenta se esquivar). Alguém cujo humor parece ser seu modo de anunciar que não é corruptível (as pessoas verdadeiramente alegres têm um código moral mais estrito). Se demoram para atendê-lo, aquele aspirante a invisível sente que está bem encaminhado. Um pouco à maneira de um marujo inconsequente, ou ridículo, que em plena tempestade em alto-mar tenta ler no convés do navio, refestelado em uma espreguiçadeira de lona, avanço a duras penas no livro que Geoff Dyer dedicou a D. H. Lawrence e sobretudo a si mesmo, tantas são as digressões e desvios que sem falha convertem o autor em protagonista. Replico, como num espelho invertido, seus devaneios dilatórios. Assim me vejo no meio de um café portenho abarrotado: basta que eu saia de casa com um único livro – a fim de me concentrar de verdade, sem que me distraiam os que esperam a vez a uma braçada de distância –, para que o café monte uma peça de teatro amador, site specific, como quer a arte contemporânea.
Continuo fracassando na leitura, mas ao menos começo a intuir que, astuto, Dyer finge não ter como escrever outra biografia de Lawrence senão esta, para afinal chegar a algo melhor: escrever um livro próprio, irrepetível. A impossibilidade (pouco importa que seja pose) foi lhe presenteando um gênero que ele teve que inventar por conta própria, e lhe presenteou ainda um estilo (pouco importa que seja este estilo unânime, impessoal, de olho no efeito, destinado a fazer rir). Faz tempo que Dyer ascendeu à condição de tratadista da dispersão: seu livro Zona recompõe o filme Stalker centímetro a centímetro, ao mesmo tempo que adentra todas as veredas que se plantam em seu caminho no matagal metafísico de Tarkóvski.
Em uma mesa mais distante, a bondade de um filho sugere ao pai que este tem autorização expressa para ser mais desatento com aquele. Que espécie de exemplo dá um pai que se zanga com facilidade? (Um pai que obviamente esqueceu a palavra “contraexemplo”.) Do lado de fora, o menino estrangeiro terá mais medo dos cachorros deste outro país em que veio parar? Depois de chorar por muito tempo, uma menina fica ainda mais bonita. Pequenas intrigas passageiras: como quando uma filha de uns 10 anos pergunta à mãe em que está pensando.
Há cafés que se deixam dominar pelas vozes imperantes a dada hora, e há outros que são refratários a elas, que permanecem, por assim dizer, intocados. Este em que estou pertence ao escalão mais ruidoso dos primeiros. Uma viúva cum laude: “Sobrevivi à Guerra Civil Espanhola e à Segunda Guerra Mundial e acabei aqui numa rua qualquer de Buenos Aires, às vésperas de completar 89 anos.” Sua interlocutora, exata contemporânea, inconscientemente perfumada: “Quando fui, há quarenta anos, parecia que Paris era toda minha. Agora é de todo mundo.”
Uma terceira, em uma mesa vizinha, beira os 90 e desfruta de uma malícia que os anos não lesionaram: “Olhe só aquela velha com casaco de neve, parece um urso-polar.” Um estudante de pós-graduação em psicologia chafurda no ar espesso: “Estou no esboço da elaboração do que vai ser meu anteprojeto de tese.” E aquela mesa inteira é um diagnóstico sob forma de retrato em grupo: diante de alguém que atua mal, é mais difícil adivinhar se o que está dizendo é verdade ou não. O tema de uma conversa é sempre outro, um subtexto contido.
Em um café torna-se manifesto que ler pode bem pedir mais concentração que escrever. E por vezes sobrevém o cúmulo: o leitor chega a um ponto da leitura e segue avançando como sonâmbulo, distraído, paradoxalmente, pelo que vinha lendo. Levado por esse estrangeiro constante que foi Lawrence, por alguns segundos ele tenta pensar que, para que alguém possa nos ensinar algo de definitivo, é preciso que fale em outro idioma (ou como quem falasse em outro idioma). Já perdido, maquino e anoto: “Aquele que chora pela primeira vez em um país estrangeiro.”
Pela calçada passa um sujeito que lê caminhando: lê alguma coisa que lhe importa muito ou que não lhe importa nada. Uma leitura concentrada não garante ótimos resultados; uma leitura descontínua, também não. Talvez o segredo esteja na alternância entre uma e outra. E se, enquanto lê, o leitor pudesse manter uma distração mínima, que não prescinda da concentração, para que a forma do que se lê atue em nosso espírito e o aperfeiçoe de um jeito leve, imperceptivelmente? Como se alguém descesse por distração no piso errado, encaixasse a chave em uma porta alheia, e a chave funcionasse.