Imagem Anotações para um poema que talvez eu nunca escreva

poesia

ANOTAÇÕES PARA UM POEMA QUE TALVEZ EU NUNCA ESCREVA

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A crise era na Grécia.
Nos indignaríamos pela Grécia.

Nos inspiraríamos
na insubmissão da Grécia.

Reinventaríamos a filosofia
e a tragédia

baseados na crise da Grécia.
Seríamos expulsos da Europa

junto com a Grécia.
Nosso mito de refundação seria

a situação atual da Grécia.
Havia uma crise na Grécia

e a Grécia nunca nos parecera
tão longe

e tão perto
daqui. Etc.

REVIDE

Quem me dera, bem agora,
nesta campoalegraica madrugada brasileira,

um poema que se concluísse
com uns versos

assim, de puro bem-querer
à Vida: Alaíde
Costa é o país mais remoto
e, ao mesmo tempo,

o mais dentro da gente, um
devir-total beleza, aquela certeza

nenhuma sobre nada
e, por um nanossegundo-luz, dúvida alguma

acerca de absolutamente
tudo, qualquer coisa que se mova

alheia ao feroz troar do mundo,
o chão que cede sob os pés

e o ar que falta, súbito, a um passo de feliz,
a mais refinada, imprevista e (por

isso) curativa ideia
de revide.

ORIKI DE INDIVÍDUO PARA CAETANO

Bruxa que é bruxa não diz o que é.
Nem xamã que é xamã. Poeta que

é poeta. Aquele ou aquela a quem
foi dado o condão de trocar de pele

no breu da noite pode até falar que
morre de medo de cobra, mas não

que sabe virar cobra se preciso. Diga-
se o mesmo em relação a quem sabe

onçar de quando em quando. Outrar-
se. A gente aqui no Brasil, da década

de 60 em diante, quis aprender a fazer
poesia porque entendeu que não dava

para ser ele – o que brinca de ser tudo
e todo mundo para ser ele mesmo –

nosso mais indecifrável enigma, nossa
melhor tradução para a estranha, mas

necessária noção de vida (se a vivemos
de fato – assim, e só assim) como uma

tão improvável quanto possível delícia.

TORNEI DE LUANDA UM KOTA

À mesa
com o kota Abreu Paxe
o kota Van
Dom João Maimona
também um kota
e ainda o kota João Tala
sempre à mesa
sempre à mesa
sempre à mesa

Luanda é uma mesa farta
fraterna
um infindo rol de primícias
e o verbo é chuva que sobe
até perto das estrelas
e descai no vão da mente
e tudo é presença inteira
nunca não pela metade

e a vida na gente fala
muito mais quando se cala
e o verbo nunca se esfalfa
e a tarde engolfa nomes
tempos lugares fatos
Luanda é uma mesa farta
fraterna        a noite ainda tarda

e eu que lá cheguei quase um velho
quase que só um velho

por ter encontrado
meus manos
meus bons camaradas
todos
com tempo de vida
e presença inteira
e sabedoria bastantes
para serem chamados
kotas

tornei para casa
inteiro
sempre não pela metade
e sou agora               estou sendo

(enquanto a morte não mata
a minha vida
tamborim                             enquanto a terra
não come                    o corpo que sou
tamborim)

e já me deixo
chamar
pela voz-noite do orvalho
de kota Ricardo Aleixo


Os poemas acima fazem parte do livro Tornei de Luanda um kota, a ser lançado no fim deste mês pelas editoras Impressões de Minas e Lira.


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Poeta, artista e pesquisador, publicou, entre outros livros, Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite (Todavia)