poesia
Ricardo Aleixo Jul 2024 16h04
3 min de leitura
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A crise era na Grécia.
Nos indignaríamos pela Grécia.
Nos inspiraríamos
na insubmissão da Grécia.
Reinventaríamos a filosofia
e a tragédia
baseados na crise da Grécia.
Seríamos expulsos da Europa
junto com a Grécia.
Nosso mito de refundação seria
a situação atual da Grécia.
Havia uma crise na Grécia
e a Grécia nunca nos parecera
tão longe
e tão perto
daqui. Etc.
REVIDE
Quem me dera, bem agora,
nesta campoalegraica madrugada brasileira,
um poema que se concluísse
com uns versos
assim, de puro bem-querer
à Vida: Alaíde
Costa é o país mais remoto
e, ao mesmo tempo,
o mais dentro da gente, um
devir-total beleza, aquela certeza
nenhuma sobre nada
e, por um nanossegundo-luz, dúvida alguma
acerca de absolutamente
tudo, qualquer coisa que se mova
alheia ao feroz troar do mundo,
o chão que cede sob os pés
e o ar que falta, súbito, a um passo de feliz,
a mais refinada, imprevista e (por
isso) curativa ideia
de revide.
ORIKI DE INDIVÍDUO PARA CAETANO
Bruxa que é bruxa não diz o que é.
Nem xamã que é xamã. Poeta que
é poeta. Aquele ou aquela a quem
foi dado o condão de trocar de pele
no breu da noite pode até falar que
morre de medo de cobra, mas não
que sabe virar cobra se preciso. Diga-
se o mesmo em relação a quem sabe
onçar de quando em quando. Outrar-
se. A gente aqui no Brasil, da década
de 60 em diante, quis aprender a fazer
poesia porque entendeu que não dava
para ser ele – o que brinca de ser tudo
e todo mundo para ser ele mesmo –
nosso mais indecifrável enigma, nossa
melhor tradução para a estranha, mas
necessária noção de vida (se a vivemos
de fato – assim, e só assim) como uma
tão improvável quanto possível delícia.
TORNEI DE LUANDA UM KOTA
À mesa
com o kota Abreu Paxe
o kota Van
Dom João Maimona
também um kota
e ainda o kota João Tala
sempre à mesa
sempre à mesa
sempre à mesa
Luanda é uma mesa farta
fraterna
um infindo rol de primícias
e o verbo é chuva que sobe
até perto das estrelas
e descai no vão da mente
e tudo é presença inteira
nunca não pela metade
e a vida na gente fala
muito mais quando se cala
e o verbo nunca se esfalfa
e a tarde engolfa nomes
tempos lugares fatos
Luanda é uma mesa farta
fraterna a noite ainda tarda
e eu que lá cheguei quase um velho
quase que só um velho
por ter encontrado
meus manos
meus bons camaradas
todos
com tempo de vida
e presença inteira
e sabedoria bastantes
para serem chamados
kotas
tornei para casa
inteiro
sempre não pela metade
e sou agora estou sendo
(enquanto a morte não mata
a minha vida
tamborim enquanto a terra
não come o corpo que sou
tamborim)
e já me deixo
chamar
pela voz-noite do orvalho
de kota Ricardo Aleixo
Os poemas acima fazem parte do livro Tornei de Luanda um kota, a ser lançado no fim deste mês pelas editoras Impressões de Minas e Lira.