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A CAMALEOA

As glórias e tragédias que produziram Erika Hilton

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Alguns poucos minutos depois das onze da manhã, a deputada Erika Hilton entrou apressada no prédio da Câmara dos Deputados, em Brasília. Seu vestido verde-claro, com um destemido decote em V, chamava a atenção. A cada cinco ou seis passos, aparecia um admirador querendo trocar uma palavra. Erika atendia ao pedido, mas não se demorava. Ela não tinha tempo para conversas. No plenário da Câmara ocorria desde as 11 horas uma sessão solene em homenagem a Marielle Franco (Psol-RJ) e ao motorista Anderson Gomes, assassinados há seis anos no Rio de Janeiro. Uma atmosfera de gravidade e tensão se espalhara pela Casa naquela terça-feira, 26 de março passado. Dois dias antes, a Polícia Federal tinha divulgado um relatório apontando o deputado Chiquinho Brazão (ex-União Brasil-RJ) como mandante do assassinato da vereadora carioca, em conluio com seu irmão, Domingos Brazão. Os dois foram presos.

Para Erika, o dia tinha uma importância a mais: era a primeira vez que ela pisava no Congresso como líder do Psol na Câmara. “Já ganhei a liderança, agora estou chegando para exercê-la”, ela disse à piauí, poucas horas antes, enquanto sua maquiadora dava os toques finais em seu rosto – agora um tanto diferente de quinze dias atrás. Antes de assumir o novo cargo, a deputada se licenciou por um mês para se submeter a uma cirurgia a fim de aliviar sua congestão nasal crônica. Aproveitou para fazer uma rinoplastia, que afinou e empinou consideravelmente seu nariz.

“Descobri ontem que a Michelle Bolsonaro me processou no STF”, comentou Erika durante a maquiagem, em seu apartamento a cerca de 1 km do Palácio da Alvorada. “É até vexatório: eu processando eles por roubo de joias, e ela me processando por um comentário sobre um cachorro. É muita falta do que fazer.” Michelle abriu o processo no Supremo Tribunal Federal (STF) depois da seguinte postagem da deputada na rede social X: “Não dá nem pra homenagear Michelle Bolsonaro por nunca ter sumido com o cachorro de outra família porque literalmente até isso ela já fez.” Erika se referia a um cãozinho branco encontrado nos fundos do Palácio do Planalto que a família Bolsonaro adotou até descobrir que tinha dono e precisava devolvê-lo.

Erika acredita que o processo movido por Michelle não foi motivado exatamente por essa postagem. Seria na verdade uma vingança porque a deputada entrou com um recurso para impedir que o Theatro Municipal de São Paulo fosse cedido pela prefeitura paulista para uma homenagem à ex-primeira-dama. A prefeitura foi impedida pela Justiça de emprestar o teatro. Mas a festa aconteceu mesmo assim, em 25 de março, depois que o vereador Rinaldi Digilio (União-SP), autor da ideia de dar o título de cidadã paulistana a Michelle, fez um empréstimo bancário de 100 mil reais e alugou o Municipal. “Eu não acompanhei o evento. Vi só a roupinha dela, o lookinho cor de desinfetante. Cafona! Que gente horrorosa!”, disse Erika, que não largava o celular enquanto se arrumava. Ela estava atenta sobretudo às mensagens do deputado Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) sobre uma reunião de líderes partidários que aconteceria no mesmo dia, à tarde, na casa de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara.

A prisão dos irmãos Brazão no domingo mobilizou o Psol, que já na segunda-feira, dia 25, pediu a cassação do mandato de Chiquinho Brazão por quebra do decoro parlamentar. Depois da homenagem a Marielle Franco, na terça-feira, Erika percorreu os gabinetes dos poucos aliados para assegurar que, naquele mesmo dia, fosse votada a manutenção da prisão do deputado (a Constituição estabelece que a prisão de um deputado deve ser referendada pela Câmara). Por volta das 16h30, veio a derrota: por causa de um pedido de vistas, Arthur Lira anunciou o adiamento da votação – que só foi realizada em 10 de abril, com 277 votos favoráveis à manutenção da prisão, 129 contrários e 28 abstenções.

Ao ouvir o anúncio de Lira, a deputada pediu a palavra e afirmou que lamentava e repudiava “o deputado que tentou dizer que houve a construção de um acordo [para adiar a votação] durante o colégio de líderes”. Essa intriga, segundo a qual o Psol teria participado do acordo, havia circulado à tarde na Câmara. Por fim, com todas as votações encerradas, Lira se retirou do plenário.

Os deputados, porém, continuaram inquietos. Éder Mauro (PL-PA) subiu à tribuna e mostrou uma foto de Domingos Brazão portando um adesivo da campanha presidencial de Dilma Rousseff. Também insinuou que Lula tem relação direta com os irmãos Brazão. Quando Mauro desceu da tribuna, o Delegado Paulo Bilynskyj (PL-SP) pegou a foto e passou a provocar os governistas. Começou uma gritaria, e Alencar Santana (PT-SP) conseguiu apanhar a foto e a rasgou. A sessão do dia 26 de março foi encerrada assim, com uma disputa por causa de um retrato antigo. Depois de assistir a tudo isso de braços cruzados, Erika voltou ao seu gabinete.

No dia seguinte, na Câmara dos Deputados, ela disse à piauí: “O jogo político em São Paulo é casa de vó. Em Brasília, é sujo, é doloroso, é solitário.” A deputada já não tinha o tom de voz entusiasmado e afirmativo do dia anterior. Estava cansada. Depois do vestido verde-claro da terça-feira, agora ela usava um terninho cinza.

Vídeo: Gustavo Amora

Em 2022, pela primeira vez na história do país, duas mulheres transgênero foram eleitas para o cargo de deputada federal, sendo que Erika Hilton, hoje com 31 anos, é também a primeira trans negra. Em São Paulo, ela foi a nona mais votada. Em Minas Gerais, Duda Salabert (PDT), de 43 anos, ficou em terceiro lugar. A eleição simultânea, em dois estados centrais, foi um acontecimento de forte significado para o Brasil, país que registra uma alta taxa de homicídio contra pessoas trans.

Tanto Erika Hilton quanto Duda Salabert estão alinhadas à esquerda desde que se embrenharam na política – inicialmente levantando a bandeira dos direitos das pessoas trans, mas depois se envolvendo em diferentes causas. Mas o trajeto de Erika tem uma peculiaridade, que ela mesma explica qual é: “Eu sou uma política pop.”

Com o termo pop, Erika não quer se referir apenas à interface de sua vida política com o mundo das redes sociais, da moda e das celebridades. Ela pretende também marcar sua diferença em relação aos políticos encastelados em Brasília, com suas linguagens e práticas antiquadas. Deseja se distinguir inclusive dos segmentos da própria esquerda com perfil doutrinário ou acadêmico. “Há uma cultura política que não cabe muito em um comportamento midiático público atual”, diz a deputada. “E eu mesma não cheguei na política passando pela academia, mas porque sou uma travesti negra, crescida na periferia, que via a realidade brutal que a política impunha às pessoas e disse a mim mesma que, para transformar essa realidade, para transformar o nosso corpo e a nossa mente, eu precisava estar lá.”

“Lá” é o Congresso brasileiro, onde Erika atua como um híbrido de militante aguerrida e diva exuberante, capaz de associar as referências do universo pop aos debates políticos, com isso conquistando uma legião de fãs-eleitores, sobretudo jovens. Foi o que aconteceu no começo de junho, quando ela convocou os fandoms (fã-clubes) de diversos cantores e bandas de K-pop (gênero musical sul-coreano popular entre adolescentes) para levantar no X a tag #CriançaNãoÉMãe. A iniciativa era parte da movimentação política contra o projeto de lei nº 1904, que equipara o aborto legal tardio ao crime de homicídio.

A convocatória da deputada despontou entre os assuntos mais comentados do X e gerou uma avalanche de visitas à enquete pública que estava sendo feita no site da Câmara a respeito do projeto de lei. Com isso, disparou o número dos que se opõem à proposta: na primeira semana de julho, eram cerca de 975 mil votos contra o projeto (88%) e apenas 125 mil a favor (12%). Erika comemorou no X, em 15 de junho: “Pra quem achou que ia destruir o direito das mulheres, meninas e pessoas que gestam […]: nós sempre estaremos aqui. Dos fandoms de divas pop aos movimentos feministas, nos agigantando pra que vocês não façam mais vítimas. E vocês continuarão minúsculos.” No levantamento publicado pelo jornal O Globo, Erika é a figura política mais popular no debate a respeito do projeto. Até o começo de junho, dos 2,3 milhões de publicações sobre o assunto no X que citavam políticos, 88% mencionavam o nome de Erika.

Antes disso, em registro mais institucional, ela já havia apresentado na Câmara, em abril, um projeto de decreto legislativo para derrubar uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que restringe os abortos legais após a 22ª semana de gestação, mesmo em casos de estupro. A resolução do CFM acabou sendo suspensa pelo STF em maio.

Na sua conta oficial no Instagram, Erika tinha, no fim de julho, 2,4 milhões de seguidores. No X, eles eram 670 mil. É um número expressivo, mas bem menor que os de Nikolas Ferreira (PL-MG), de 28 anos, o deputado federal mais votado do país em 2022. No mesmo mês, ele tinha mais de 11 milhões de seguidores no Instagram e quase 4 milhões no X. Foi Ferreira que, no ano passado, no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, subiu ao púlpito do Congresso usando uma peruca loira e disse que as “mulheres estão perdendo espaço para homens que se sentem mulheres”, numa clara agressão a pessoas transgênero. Alguns dias mais tarde, Erika enviou um pedido ao STF, para que suspendesse as redes sociais de Ferreira por disseminação de fake news sobre a população trans. O pedido foi arquivado.

No mês passado, Nikolas Ferreira e Erika Hilton travaram um duelo durante uma audiência da ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na Câmara. Quando discutia com a deputada Júlia Zanatta (PL-SC), Erika disse: “Você é ridícula, você é feia. Ultrapassada. Vai hidratar esse cabelo. Vai se cuidar, pelo amor de Deus.” Ferreira, colega de partido de Zanatta, intercedeu: “Pelo menos ela é ela.” Erika entrou com uma representação no Ministério Público Federal, pedindo uma indenização ao deputado mineiro de 5 milhões de reais por transfobia. Ferreira ironizou em sua rede social: “5 milhões? Por uma opinião inviolável de um deputado? Por falar ‘pelo menos ela é ela’? E ninguém fala dos ataques contra a Júlia? Essa turminha ama tentar ganhar um dinheiro sem trabalhar.” No final de julho, Zanatta prestou queixa à Procuradoria Regional da República da 1ª Região alegando que Erika cometeu crime de violência política de gênero.

As agressões de Ferreira, um bolsonarista barulhento, não são as únicas lançadas contra Erika. Em 11 de julho do ano passado, durante uma sessão acalorada da CPI dos Atos Golpistas do 8 de janeiro, o deputado Abilio Brunini (PL-MT) chegou ao extremo de dizer que ela estava “oferecendo serviços [sexuais]”. Erika respondeu: “Não tolerarei ser desrespeitada, interrompida ou colocada em comparações de baixo calão ou baixo nível.” Arthur Maia (União-BA), presidente da CPI, pediu que o deputado se retirasse e solicitou investigação. Três meses depois, o caso foi arquivado por 11 votos a 2 no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara. Mas, àquela altura, a fala de Erika já tinha viralizado. Segundo dados do Google Trends, a semana de 9 a 15 de julho de 2023 foi o segundo momento em que Erika mais teve projeção na ferramenta de buscas (o primeiro foi durante a campanha eleitoral de 2022). A frase “Não tolerarei” virou bordão nas redes. Passado um ano, segue firme como uma das marcas da deputada.

Ainda em 2023, erguendo a Bíblia, o Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) conseguiu aplausos de apoiadores ao dizer que, “mesmo com direito a fantasia, mesmo cortando a binga, não vai ser mulher” e que “Deus criou naturalmente homem e mulher, que é igual a filhos”. Depois, chamou Erika de “meu amigo”. A cena se passou em 19 de setembro, durante a sessão de uma comissão que discutia um projeto de lei definindo que a relação entre pessoas do mesmo sexo não pode se equiparar ao casamento. No dia seguinte, Erika entrou com uma representação no Ministério Público Federal contra o Pastor Sargento Isidório, pedindo 3 milhões de reais de indenização. Todos os pedidos de indenização ainda estão tramitando na Justiça.

Nas redes sociais, uma imagem de Erika durante o bate-boca com Isidório também gerou uma série de memes em apoio à deputada. Em um deles, ela aparece com um vestido azul-anil e pose de estrela, virando-se para o lado e agitando o cabelão, num movimento ao som da música Cozy, de Beyoncé, no trecho que diz: This a reminder (Isso é um aviso).

Erika evitou ao máximo citar o nome de qualquer um dos seus opositores durante as entrevistas com a piauí. Mas não deixou de falar sobre os efeitos que os ataques lhe causam: “Eu não quero ser amada por aquela gente. O que me adoece, em alguma medida, é a brutalidade, a crueldade com a qual a minha pauta, a minha comunidade, os meus direitos, os direitos coletivos que eu defendo são agredidos e tratados naquele ambiente.”

Agora, deputados das alas conservadora e da extrema direita têm feito o que podem para atrapalhar a realização do XXI Seminário LGBTQIA+ do Congresso Nacional, previsto para a primeira semana deste mês de agosto. Em outros anos, o seminário teve o apoio coletivo das comissões temáticas da Câmara. Desta vez, Nikolas Ferreira, que preside a Comissão de Educação, se recusou a colocar em votação o requerimento de Erika com o pedido de apoio. O requerimento também não foi aceito na Comissão de Trabalho, presidida por Lucas Ramos (PSB-PE), nem na de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, presidida por Lucas Redecker (PSDB-RS). Em outras sete comissões, os conservadores tentaram impedir a aprovação do requerimento, mas não conseguiram. “A saúde mental aqui é um esgoto, é trash”, reclama a deputada. Mas ela já enfrentou coisas piores.

Os pais de Erika Hilton se conheceram no trem que os dois pegavam em Franco da Rocha, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, para ir ao trabalho no Centro da capital. Rosemeire de Jesus Santos trabalhava como vendedora. Luciano Silva estava desempregado e vivia de bicos. A relação dos dois durou sete anos. Terminou quando Rosemeire descobriu, aos 22 anos, que estava grávida de Erika. “Ele não tinha responsabilidade, percebi que, se eu tivesse que sustentar a criança e também o pai, ia ficar bem mais difícil do que já estava para mim”, conta Santos, em sua casa na cidade paulista de Itu, onde mora desde 2012. Sem o apoio do companheiro, a gravidez foi um período de incertezas para Rosemeire Santos.

Três meses depois do nascimento de Erika – em 9 de dezembro de 1992 –, Santos precisou voltar ao trabalho. Ela morava com a mãe, Zulmira Santos. Mas a mãe não tinha como cuidar da recém-nascida, porque trabalhava como doméstica. O jeito encontrado por Santos foi levar a bebê para o emprego. “Eu saía de manhã, com a Erika nos braços no trem lotado, trabalhava até as seis da tarde e voltava para casa com ela.” Quando Santos conseguiu uma vaga de vendedora em uma loja no bairro da Lapa, em São Paulo, as coisas melhoraram um pouco para a pequena família. “Tudo que eu trabalhava era para Erika, praticamente todo dia eu levava um brinquedo”, diz a mãe, hoje com 54 anos. Como ela não estava autorizada a levar a filha ao novo emprego na loja, Erika passou a ficar sob os cuidados da sua ex-cunhada Luciana Neres.

A essa altura, Luciano Silva já havia constituído família com outra mulher, mas não sumiu de todo da vida de Erika: até os 5 anos da menina, apareceu de tempos em tempos. “Ele pegava ela, levava lá pra casa ou pra casa da nossa mãe”, conta Luciana Neres, em sua residência em Francisco Morato, na Região Metropolitana de São Paulo. “Mas nunca foi um paizão. Não é porque é meu irmão que eu vou ficar defendendo.” Luciano Silva contribuía com uma pequena pensão, que às vezes só chegava depois de muita briga. Em 1997, quando Erika completou 5 anos, Santos também se casou de novo, com Cleiton Luís Gregório, com quem teria duas filhas: Maria Eduarda Gregório, hoje com 24 anos, e Maria Clara Gregório, com 19. São meias-irmãs de Erika.

Luciana Neres conta que, durante a infância, Erika nunca foi “uma criança repreendida”. Se ela queria o sapato de salto alto da mãe, Santos a deixava usar. Se queria brincar com a peruca, a mãe autorizava. “A gente sempre deu liberdade para ela”, afirma a tia. Por isso, Erika fala que não teve um momento de transição de gênero, pois desde sempre se sentiu como é. Ela diz à piauí que não se importa de ser chamada seja de mulher trans, seja de travesti ou transvestigênere, termo que ela mesma criou. “Não houve um momento de incongruência, de desconforto, de não identificação. Eu sempre soube, ainda que de maneira não tão clara, quem eu era”, diz a deputada. Uma de suas brincadeiras favoritas com as primas era imitar personagens das novelas da época. Erika gostava de tomar o lugar das estrelas, fazendo ora a vilã Paola Montaner de Bracho, papel de Gabriela Spanic na novela mexicana A usurpadora (1999), ora a mocinha Maria Clara Diniz, interpretada por Malu Mader em Celebridade (2003).

Na Escola Estadual Professor Bueno de Azevedo Filho, em Francisco Morato, onde cursou da sexta ao começo da oitava série do primeiro grau (hoje ensino fundamental), Erika não passava batida. Desfilava pelos corredores, imitava professoras e fazia provocações no fundo da sala de aula. Sua desenvoltura acabou conquistando a diretora Maria Cecilia Freire, hoje aposentada. Embora episódios de homofobia não fossem raros na escola, Erika “tirava todos de letra”, nas palavras de Freire. Os professores incentivavam o diálogo, e a menina fazia a festa. “Ela já era muito assertiva”, lembra a diretora. “Estava nítido que nasceu para brigar e conquistar”, afirma a professora de português Kassia Regina Ribeiro da Rosa, que também acompanhava a aluna com atenção e apoio. O “burburinho produtivo” de Erika, como diz Rosa, fazia as aulas renderem.

Em 2007, no meio do ano letivo da oitava série, Kassia Rosa foi surpreendida com a notícia de que Erika, então com 14 anos, não continuaria no colégio. Tanto a professora quanto a diretora levaram alguns anos para entender o que havia ocorrido. Uma grande mudança acontecera na vida familiar da aluna.

Criada em um lar católico, Rosimeire Santos frequentou diversas igrejas evangélicas, sem se identificar com nenhuma. “Sempre conversei com Deus e pedia orientações para encontrar um lugar onde eu pudesse servir a Ele”, diz. As orações foram atendidas quando ela visitou uma irmã em Itu e se aproximou da Congregação Cristã no Brasil (CCB). Criada no país no início do século XX por um ítalo-americano, em um ambiente proletário, a CCB é hoje uma das maiores denominações pentecostais do Brasil. Santos ficou particularmente tocada com a pregação de uma pessoa na igreja. “Eu acredito que Deus usa de quem Ele quer para falar com as pessoas”, diz ela, que conta ter sentido naquela hora “uma coisa maravilhosa, a presença de Deus”.

O formato do culto da CCB difere do de outras denominações evangélicas. As mulheres, usando obrigatoriamente saias ou vestidos e opcionalmente um véu branco, sentam-se nas filas à direita. A fila do meio está reservada aos numerosos músicos. À esquerda ficam os homens, geralmente de terno. No lugar de pastores, a CCB tem os chamados cooperadores, que coordenam o culto. A igreja não remunera as pessoas que exercem esses cargos nem pede o dízimo aos irmãos. Os seus membros participam ativamente do culto, com ampla liberdade de manifestação, como na hora de decidir que hino cantar, quando gritam um número (embora tenham nomes, os hinos são também identificados por números em um hinário com 480 músicas). Os irmãos se entusiasmam tanto em dar testemunhos voluntários durante o culto que acabam atropelando uns aos outros.

Santos converteu-se à CCB em Francisco Morato e, em poucos dias, renunciou aos apliques de cabelo, às roupas decotadas, calças apertadas, bijuterias e à maquiagem. “Eu arranquei tudo do guarda-roupa e fiz um brechó na frente da minha casa”, recorda ela. Sobraram duas saias e muito espaço no armário. Foi também nessa época que Erika se assumiu para a mãe. Santos estava no auge do seu fervor religioso e não aceitou. “Eu não entendo o que aconteceu comigo, passei anos repreendendo quem falasse um ai das brincadeiras de boneca e das maquiagens da Erika”, ela comenta, ao refletir sobre sua mudança radical de comportamento. Houve uma escalada dos conflitos, e a filha de 14 anos acabou expulsa de casa. Foi morar em Itu com outra tia, irmã de sua mãe.

Lá, foi matriculada na Escola Estadual Sylvia de Paula Leite Bauer, onde costumava se refugiar na biblioteca, porque o ambiente era menos amigável que na escola de Francisco Morato. Dois meses depois da ida da filha, a mãe decidiu também se mudar para Itu, e as duas se reconciliaram. Para assegurar a tranquilidade na casa, Erika passou a frequentar a CCB, a ponto de se tornar uma participante bastante ativa: visitava irmãos necessitados e congregava em outras cidades. “Em algum momento, eu me convenci daquela história de expurgação da minha identidade”, diz a deputada. Na igreja, ela exercitou a oratória pela primeira vez. Até hoje, sua mãe se lembra com orgulho das pregações da filha. “Ela levantava os irmãos, era adorada pelas irmãs”, diz Santos. Aos 14 anos, Erika recebeu o batismo, o que selou a paz entre mãe e filha.

Porém, à medida que a adolescência da garota avançava, sua relação com a igreja foi arrefecendo. “Preguei, profetizei, expulsei demônios, fiz um auê que não durou muito tempo, porque de alguma maneira, por mais que eu tentasse ser verdadeira, aquilo tudo ia contra a minha natureza”, diz Erika. Os conflitos familiares também reapareceram, enquanto uma mudança grande se processava na vida da jovem.

Ao fim do primeiro ano do segundo grau (hoje ensino médio), Erika pediu transferência para a Escola Estadual Professor Pery Guarany Blackman, a fim de ficar mais próxima do seu melhor amigo em Itu, Bruno Farias, que enfrentava um quadro depressivo. Um dia, ela se enfiou novamente no guarda-roupa da mãe e foi para a escola com uma roupa feminina e um colar. Foi alvo de duro assédio dos colegas. “Durante toda a minha fase escolar, ouvi piadinha, mas eu tinha o meu lugar, o meu grupo, tinha um pertencimento. Mas, naquele momento, a escola se tornou um lugar violento”, lembra Erika. Depois daquele dia, ela nunca mais voltou à escola estadual – e interrompeu os estudos.

As brigas entre Erika e sua mãe chegaram ao clímax. Hoje, viraram borrões na memória das duas, que evitam falar no assunto. Mas a sua irmã Maria Eduarda ainda se lembra dos gritos durante as disputas. Até que Erika foi expulsa novamente de casa. Foi viver nas ruas ou onde conseguisse um teto. Tinha pouco mais de 16 anos.

Longe da família e sem recursos para sobreviver, Erika começou a se prostituir como travesti em Itu. “Eu era uma menina, fã de Amy Winehouse, que tinha acabado de se decepcionar com o novo visual de Avril Lavigne”, diz. Em vez de trabalhar nos lugares mais frequentados pelas travestis, ela fazia ponto nas ruas de grande circulação de veículos. “Foi tudo muito traumático, doloroso, mas também libertador”, avalia.

Erika decidiu voltar a Francisco Morato e foi acolhida pela tia Luciana Neres. Começou a tomar hormônios femininos. A tia se afligia com a situação da sobrinha e também com a postura de Santos. “Para onde foi todo aquele cuidado, todo aquele amor que ela tinha pela filha? Erika sempre teve tudo, foi protegida, tanto pelas tias como pela mãe. E o que é que mudou?”, se perguntava Luciana Neres. Sentindo-se confrontada, Santos parou de falar com a amiga e ex-cunhada. Hoje, as duas estão reconciliadas, mas evitam tocar nesse episódio do passado.

Em Francisco Morato, Erika passou a se prostituir num ponto de travestis da cidade. Ao ver a sobrinha sair de vestido, salto alto e maquiagem, Neres nunca perguntava o que ela ia fazer na rua, mas tinha medo de que fosse alvo de alguma violência. Um dia, uma das travestis que trabalhavam no mesmo ponto disse que a novata precisava arrumar um nome arrasador para si. A filha de Rosemeire de Jesus Santos pensou rápido: juntou o prenome de uma filha da tia Luciana Neres e o sobrenome da socialite Paris Hilton – e se rebatizou como Erika Hilton.

Cansada de Francisco Morato, ela resolveu voltar a Itu, mas não para a casa da mãe. Ainda na prostituição, conheceu um rapaz pelo qual se apaixonou. “Ele era chamado de Cowboy, e acabei indo morar com ele. Foram os piores momentos da minha vida, um relacionamento extremamente tóxico, abusivo.” Cowboy era viciado em crack. Até hoje, Erika tem flashes dos momentos traumáticos dessa relação: a casa suja onde os dois viveram, o colchão velho no chão, o namorado falando coisas desconexas. “Eu me pergunto: o que me fez aceitar e não enxergar aquela situação? O abandono? A solidão? O medo? A dor? Como eu consegui ficar ali por tanto tempo?”

Enquanto isso, Santos orava, tentando entender o que se passava. Ela conta que, um dia, teve uma revelação: “O Senhor me visitou, falou para mim que eu buscasse minha filha, porque, se eu não a amasse, quem ia amar?” Ligou, então, para Erika, e as duas conversaram pela primeira vez em seis anos. Perguntou se a filha estava precisando de algo, e a jovem decidiu encontrar a mãe no mesmo dia. Santos teve um choque ao vê-la. “Ela estava muito magra, muito sofrida, do cabelinho à roupinha”, recorda.

Erika resolveu voltar para a casa da mãe e abandonar a prostituição. Logo conseguiu um emprego com carteira assinada em uma fábrica da Elma Chips em Itu. Mas deixou o trabalho depois de 45 dias, por causa das humilhações que estava sofrendo por transfobia. Arrumou um novo emprego, numa fábrica de meias e, aos poucos, sua vida pareceu melhorar. O relacionamento com Cowboy continuou, aos trancos e barrancos, mesmo depois que ele foi preso por roubo. “Fui para a porta da cadeia durante todo um ano, me endividei para pagar advogado, foi um caos”, conta Erika. Amparada pela mãe, ela acabou conseguindo se desvencilhar daquela paixão. Mas Santos levou mais tempo para enfrentar o seu preconceito com a transexualidade da filha, que para ela se expressava em uma dúvida que martelava em sua cabeça: “Se Deus não aceita [os não heterossexuais], por que eu tenho que aceitar, mesmo sendo meu filho?” Pouco a pouco, no lugar dessa pergunta, outra começou a despontar: “Por que Deus é exclusivo para os homens que estão ali de terno e para as mulheres sem batom e sem brinco?”

À medida que foi aceitando a vida da filha, Santos reduziu sua frequência aos cultos presenciais da CCB, optando pelos que eram feitos online e por orações realizadas em particular. Seu distanciamento da igreja criou rusgas que até hoje não foram superadas. Em 14 de junho de 2022, ela enviou o seguinte e-mail à CCB: “Quando meu filho tinha 14 anos e assumiu sua identidade, eu o coloquei para fora de casa. […] Hoje minha filha é meu maior orgulho. […] Estou escrevendo como testemunho para que os irmãos se guiem por Deus e preguem amor e caridade.” Como resposta, recebeu um aviso dizendo que aquela caixa de mensagens estava em processo de desativação e que deveria escrever na aba “Fale Conosco” do site da igreja. Ela não escreveu mais.

Em 11 de agosto de 2022, ano de eleição presidencial, a CCB publicou uma circular na qual alertava seus fiéis: “Não devemos votar em candidatos ou partidos políticos cujo programa de governo seja contrário aos valores e princípios cristãos ou proponha a desconstrução das famílias no modelo instruído na palavra de Deus, isto é, o casamento entre homem e mulher.” Santos reagiu. Pediu explicações aos congregados e, um mês depois, publicou uma resposta no Facebook: “Eu não estou acreditando que a congregação está querendo decidir em quem devemos votar. […] Eu fico muito triste, porque a congregação era a única igreja que não misturava política e religião.” A CCB, de fato, tem – ou tinha – entre suas regras o apartidarismo, a defesa da separação entre igreja e Estado, e a interdição de manifestações políticas em prol de candidatos ou partidos. Em 10 de outubro, faltando vinte dias para o segundo turno entre Lula e Bolsonaro, a mãe de Erika foi mais incisiva: “vou publicar várias vezes até que as pessoas que não entendem possam entender… Eu sou de esquerda.” Santos diz que votou em Lula em 2022.

A mãe continua a usar as roupas aconselhadas pela CCB, mas evita os cultos presenciais. Numa noite chuvosa de janeiro, a piauí a acompanhou numa rara vez em que foi à igreja. Com véu na cabeça e hinário na mão, Santos não se ajoelhou e só quebrou o silêncio ao cantar um trecho do hino 457, que diz: Quem me separará/Do sublime amor de Deus?/Quem me condenará?/Pois Jesus defende os Seus. Ao final, falou com algumas irmãs que se mostravam surpresas ao vê-la no culto. Na volta para casa, deixou claro que o incômodo persiste: “O que é que tem uma travesti entrar em uma congregação qualquer e ouvir a Palavra? Por que Deus é exclusivo de quem está ali? Deus é de todo mundo”, disse. Ela se questionou por anos por que Deus permitiu que a crise com a filha tivesse se estendido por tanto tempo. “Agora eu consigo entender que foi permitido esse período de sofrimento para que ela voltasse muito forte e mudasse a vida de muita gente, de muitas mães.” A deputada disse à piauí que atualmente não segue nenhuma religião, mas que a passagem pela igreja foi importante para modelar a cadência da sua fala, que é celebrada pelos apoiadores.

Apesar de Santos ter recebido Erika de volta, os tios e as tias mais religiosos continuam afastados. Além da identidade de gênero, a política também incomoda. As eleições de 2018 e 2022 já haviam elevado a tensão entre os membros da família. Para o núcleo mais próximo de Erika, a gota d’água foi quando um dos seus tios compartilhou um vídeo de Nikolas Ferreira hostilizando uma estudante trans por ela usar o banheiro feminino, em julho de 2022. Santos e suas duas outras filhas, Maria Eduarda e Maria Clara, saíram de imediato do grupo familiar no WhatsApp. “Até hoje essas pessoas da família não aceitam e não acreditam na Erika”, diz Santos. “Acham que o que ela faz é só farra para ganhar dinheiro público. Para eles, todo político é assim. Como que eu não vou defender a Erika que eu conheço?”

Depois que retornou à casa da mãe em Itu, Erika voltou a estudar. Em 2015, aos 21 anos, como não tinha terminado o ensino médio, matriculou-se no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), dirigido aos que abandonaram a educação formal. A política despertou se interesse depois que ela passou a ler no Facebook os textos da militante transfeminista Daniela Andrade, que ajudou a criar duas plataformas na internet: a TransEmpregos – com oportunidades de trabalho para a população travesti e transgênero – e a Transerviços, com contatos de profissionais travestis e transgênero, além de serviços destinados a essas pessoas. Outra influência veio de Neon Cunha, que havia cravado um ineditismo: conquistou o direito à retificação de nome e gênero nos documentos sem a necessidade do diagnóstico de Disforia de Gênero, segundo a qual a pessoa não se reconhece no gênero atribuído ao nascer. Com essas referências, Erika despertou para o ativismo.

Em Itu, ela precisou fazer uma carteirinha de transporte de estudante. A empresa de transporte, porém, se negou a fazê-la com o seu nome social: Erika Santos Silva. Ela explicou que um decreto estadual de 2010 garante às pessoas transgênero e travestis o direito de usar o prenome que elegeram para si. Mas a empresa alegou que o decreto concerne apenas à administração pública (o que é fato). Erika então acionou o Ministério Público e, com ajuda de amigos da militância, fez uma petição no site Change.org que obteve mais de 6 mil assinaturas. A carteirinha virou questão de honra para ela. Dois meses depois, recebeu o documento.

O episódio trouxe popularidade a Erika na cidade e acabou aproximando-a de pessoas politizadas com as quais até então ela só tinha contato virtual. Naquele mesmo ano de 2015, Itu vivia uma forte agitação política porque, no ano anterior, a cidade havia sido uma das mais afetadas pela crise hídrica que atingira o estado de São Paulo, com um racionamento de água que durou dez meses. O motivo não estava claro para a população, pois faltava transparência à concessionária Águas de Itu. Os caminhões-pipa da empresa nunca chegaram às ruas de milhares de pessoas. Em outubro de 2014, nas vielas dos bairros mais altos da cidade, foram feitas barricadas de lixo e pneus, em protesto pelo descaso, e manifestantes chegaram a quebrar a fachada da Câmara Municipal.

Nesse momento, alguns jovens se organizaram para ressuscitar a unidade do Psol em Itu. Entre eles estavam a jornalista Monica Seixas, hoje deputada estadual em São Paulo, e Michelle Duarte, que depois trabalharia como secretária parlamentar de Erika até julho deste ano. “A gente estava começando a entender a luta política também como uma luta partidária”, diz Michelle Duarte, em uma pizzaria de Itu. O grupo decidiu levantar nomes para as eleições municipais do ano seguinte – e Erika foi convidada a se candidatar a vereadora em Itu. Ela topou, mas os militantes, sem muita experiência, cometeram um erro no registro e a candidatura não foi homologada.

Ainda em 2015, Erika ajudou a fundar em São Carlos, cidade universitária a cerca de duas horas e meia de Itu, uma filial do curso pré-vestibular gratuito Transformação, criado em São Paulo para pessoas trans, travestis e não binários (que continua em atividade até hoje). Além disso, aproximou-se de um coletivo feminista, no qual conheceu Erick Gregner, um veterano do curso de letras da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) que tinha transicionado havia pouco tempo. A amizade se estreitou e foi virando um namoro. Erika começou a frequentar as repúblicas estudantis e a se preparar para o vestibular. No começo de 2017, foi aprovada na segunda chamada para o curso de gerontologia da UFScar.

Em São Carlos, antes mesmo de entrar na faculdade, Erika estreitou laços com os movimentos sociais da cidade. Mas não se vinculou a nenhum: era uma militante solo. Também era convidada por professores para falar nas aulas. “De repente, eu me tornei um fenômeno, sem ser sequer aluna da universidade”, diz ela. “Participei de todas as mesas possíveis nas ciências sociais, na medicina e até na engenharia.”

Os frequentes convites provocaram ciumeira em alguns estudantes. “Era como se eles pensassem: ‘Como pode esse corpo, essa pessoa, sair das ruas, das esquinas e de repente entrar no nosso espaço, que já tem tanta produção científica e acadêmica consolidada? Como ela pode roubar o nosso lugar de prestígio, de visibilidade, de acesso e sucesso?”, avalia Erika. Ela estava familiarizada com a hostilidade alheia, mas se surpreendeu quando passou a ser alvo de “fogo amigo”. Em um dos episódios mais marcantes, uma pessoa trans e militante política se ajoelhou aos seus pés e debochou: “Coitadinha, ela é negra, pobrezinha…”

Os convites também começaram a chegar da capital paulista, como os do Serviço Social do Comércio (Sesc), para palestras sobre transgeneridade e feminismo. As conexões em São Paulo foram se ampliando: ela foi chamada para ser mestre de cerimônias do Love Fest (um festival de música que celebra a diversidade), para ser madrinha da Caminhada pela Visibilidade Trans de São Paulo e para participar de atividades na Casa 1, centro de cultura e acolhimento de jovens LGBTQIA+ expulsos pela família.

Em São Paulo, Erika entrou no radar de Gabriel Lindenbach, integrante da Bancada Ativista, um movimento pluripartidário voltado para o lançamento de candidaturas que ampliassem a diversidade no Legislativo paulistano. A bancada havia decidido em 2017 formar um mandato coletivo para concorrer no ano seguinte a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Lindenbach chamou Erika para uma reunião com a então vereadora Sâmia Bomfim (Psol-SP), com quem ele trabalhava na equipe de relações públicas. Mas as conversas não deram resultado.

Pouco tempo depois, Erika foi convidada a participar da primeira audiência pública LGBT na Câmara Municipal de São Paulo, organizada com o apoio do então vereador Eduardo Suplicy (PT). “Naquele dia, Suplicy virou para ela e falou: ‘Eu tenho sessenta anos de carreira e essa é a melhor fala política que eu já vi na minha vida’”, conta Lindenbach, no gabinete do Psol na Câmara dos Deputados – hoje ele é coordenador político e de comunicação de Erika. “A princípio eu não queria vida pública, não queria política partidária”, diz a deputada. “Eu queria militância, ativismo, movimento estudantil, movimento social. Essa era a minha vocação.” Mas Lindenbach insistiu, e por fim Erika aceitou participar do mandato coletivo porque achou importante que houvesse “vozes travestis e transgênero dentro da política institucional”.

A candidatura coletiva do Psol para a vaga na Alesp foi composta em 2018 com nove nomes – um número inédito em São Paulo. A titular da chapa foi a jornalista Monica Seixas, na época assessora de imprensa de Sâmia Bomfim. Os outros nomes foram a ciclista e ativista Anne Rammi, a pedagoga indígena Chirley Pankará, a ambientalista Claudia Visoni, a professora feminista Paula Aparecida, a sanitarista Raquel Marques, e os militantes Fernando Ferrari e Jesus dos Santos. Segundo o TSE, a campanha arrecadou 87 mil reais. Em outubro de 2018, a chapa, com seus nove integrantes, foi eleita com 149 844 votos.

Desde o começo, foi difícil conciliar a rotina e as vozes dos nove deputados do mandato coletivo. Os conflitos brotaram rapidamente, sobretudo com Raquel Marques. O principal ponto de discordância das duas era sobre a hormonização de crianças trans. Erika defendia que devia começar o mais cedo possível. Marques defendia que não. Não demorou para que Marques se sentisse à vontade para dizer, nos bastidores da Alesp, “que homens de saia estão ocupando lugares de mulheres”, relembra Seixas, em seu gabinete. Marques não respondeu às tentativas de contato da piauí.

A atenção despertada por Erika na mídia também incomodava os colegas. “Tinha um clima de ciúmes de quanto a Erika falava, de quantas fotos ela tirava”, conta Seixas, que hoje coordena mais um mandato coletivo. Erika diz que a ideia de um mandato coletivo não passou de “uma farsa, uma falácia, uma mentira em prol do protagonismo individual das pessoas que estavam lá”.

Na eleição de 2020, cansada da rotina de hostilidades, ela decidiu se candidatar individualmente, sempre pelo Psol, a vereadora de São Paulo. Arrecadou 97,6 mil reais para a campanha. Membros do partido que colaboraram contam que, frequentemente, as agendas não davam certo, faltava gente para fazer panfletagem, Erika se atrasava para os eventos. A desorganização preocupava, mas, ainda assim, a campanha funcionou.

Erika foi o sexto nome mais votado em São Paulo, com 50 508 votos. Ela estava com 27 anos e se tornou a primeira mulher trans a ser eleita vereadora em mandato individual em São Paulo. Na mesma eleição, também pela primeira vez, um homem trans chegou à Câmara paulistana: Thammy Miranda, o filho da cantora Gretchen, pelo PL, legenda de direita, que ainda não era o partido de Bolsonaro (hoje Miranda é vereador pelo PSD). Em mandatos coletivos do Psol, foram eleitas ainda a transgênero Samara Sosthenes e a intersexual Carolina Iara, ambas negras.

A chegada de Erika à Câmara Municipal de São Paulo em 2021 foi tão conturbada quanto sua passagem pela Alesp. O país estava imerso na onda de conservadorismo alimentada pela extrema direita e pela eleição de Bolsonaro, o que ampliou as ofensas transfóbicas e racistas – incluindo ameaças de morte – contra a vereadora recém-eleita.

Logo no início do mandato, ela protocolou uma ação contra pelo menos cinquenta pessoas por ataques de diferentes tipos. A equipe de Erika precisou instituir uma rotina de vigilância de postagens de ódio contra ela. O clima ficou ainda mais tenso quando um homem que se identificou como “garçom reaça”, usando máscara estampada com uma cruz e a frase “Deus é amor”, invadiu seu gabinete em 26 de janeiro de 2021, aos gritos. Ele queria falar pessoalmente com a Erika, mas, barrado pela equipe do gabinete, acabou deixando uma carta na qual pedia desculpas por tê-la ofendido nas redes sociais.

No mesmo dia e nos seguintes, as ameaças atingiram as outras vereadoras LGBTQIA+. Carolina Iara denunciou que um homem estacionara o carro na frente da sua casa e disparara dois tiros. Uma testemunha informou a Samara Sosthenes que um homem armado em uma moto havia parado na frente da casa dela e atirara para o alto.

Erika passou a andar acompanhada de um segurança particular e mais tarde conseguiu apoio da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. Na Câmara, articulou a primeira CPI da Violência contra Pessoas Trans e Travestis do país, instalada em 24 de setembro de 2021, com ela na presidência da comissão e Eduardo Suplicy na vice-presidência. Aprovado por unanimidade, o relatório final, com 298 páginas, fez 189 recomendações de medidas nas áreas de segurança pública, saúde, educação e empregabilidade, comprometidas com a inclusão e o combate à violência contra pessoas trans.

O sucesso da CPI fez com que Erika entendesse a extensão do seu novo poder e que, sem abandonar a defesa de bandeiras identitárias, estava na hora de buscar pontos de diálogo com as demais forças políticas. Pouco a pouco, ela foi colocando de lado os neologismos “transvestigênere”, “putativista” e “afrotransfeminista”, que compunham seu vocabulário militante. A então vereadora percebeu que as parcelas mais vulneráveis da população em geral sofrem, na prática, de problemas semelhantes aos vividos por transexuais, como a fome e a situação de rua. “Eu nunca quis ficar castrada, em um nicho. Quero e preciso falar sobre todas as coisas, porque quero e preciso ter um projeto de país”, diz Erika à piauí. “E o Brasil é plural, diverso, atravessado por vivências e experiências múltiplas, que eu não trago todas no meu corpo. Compartilho, porém, das que eu trago, para me conectar com as outras e, juntos, podermos pensar, fundar e construir esses lugares.”

Erika começou a defender projetos relacionados ao controle da pandemia, à revogação de aumento salarial do prefeito, à complementação do programa de renda mínima paulistana e ao estímulo de obras para a geração de empregos. Sua nova pauta política trouxe frutos: em 9 de maio de 2022, tornou-se líder da bancada do Psol na Câmara paulistana. Ao cabo de dois anos de mandato, havia proposto 161 projetos de lei. Destes, 138 ainda estão em tramitação, 5 foram vetados e 18 foram aprovados. Entre os últimos, um projeto de lei que facilita o acesso ao auxílio-aluguel e ao abrigo emergencial para mulheres em situação de violência e a criação do Fundo Municipal de Combate à Fome. O fundo, que destinou 1 milhão de reais em emendas parlamentares para o combate à fome na capital paulista, virou o cartão de visitas de Erika, que já havia colocado Brasília no seu horizonte.

Dado o sucesso da vereança, a campanha de 2022 para o cargo de deputada federal foi menos tensa e conseguiu o apoio de nomes famosos, como os atores Bruno Gagliasso e Marco Pigossi, os músicos Pabllo Vittar, Lulu Santos e Chico César e até o influenciador e promoter David Brazil. A equipe montada com integrantes de Itu, de São Carlos e outras cidades do interior de São Paulo, ampliou a capilaridade da campanha pelo estado. Resultado: Erika teve 256 903 votos e foi a nona pessoa mais votada. Em primeiro lugar, ficou outro candidato do Psol: Guilherme Boulos, com 1 milhão de votos.

Até então, Erika Hilton tinha uma trajetória peculiar no Psol. Ela agia com independência em relação às correntes políticas internas do partido, como o movimento Revolução Solidária, do qual Boulos é líder, ou o Movimento Esquerda Socialista, que está na origem do partido. Em 11 de junho de 2024, porém, consolidando sua ligação com Boulos que remonta à eleição de 2022, Erika se juntou oficialmente ao Revolução Solidária.

Seus principais aliados no Psol são o Pastor Henrique Vieira – com quem ela está escrevendo o livro O que te faz lutar? (título provisório) –, a Professora Luciene Cavalcante – cujo foco é a educação pública – e o próprio Boulos, agora candidato à Prefeitura de São Paulo. “A gente desenvolveu uma sororidade que evoluiu para uma amizade, que é de parceria para fazer projeto, para chegar de bonde nas audiências mais difíceis, para se fortalecer”, conta Luciene Cavalcante.

Há alguns pontos fortes que a aproximam de Boulos, como o uso intensivo das redes sociais e o apoio a Lula – que não tem unanimidade no Psol. Ativa na campanha de Boulos à Prefeitura de São Paulo, ela avalia que a disputa não será fácil. “Mas há condições reais de vitória”, diz. “O projeto Boulos representa uma afronta à extrema direita. Colocar o Psol na prefeitura de São Paulo é extremamente importante para dar uma intimidada na extrema direita. Essa é uma campanha do nosso partido e pelo Brasil porque tem relação direta com os enfrentamentos que faremos em 2026.”

Erika acha que o Psol tem mantido uma relação honesta e franca com o governo Lula, de cuja base faz parte. “Mas somos uma base independente, com os nossos próprios valores e princípios, e disso não abrimos mão”, afirma. “Entendemos, porém, a necessidade de estar ao lado do governo e fortalecê-lo nas agendas que são importantes e prioritárias para o país. Somos ambos partidos do campo progressista, de esquerda, que defendem e acreditam na democracia, e nossa unidade visa enfrentar o ódio, o fascismo, o bolsonarismo.”

A deputada considera Lula um “presidente forte”, que tem conseguido avançar nas pautas essenciais, apesar de ter encontrado “um país destruído e um Congresso nefasto que coloca a faca no pescoço do governo o tempo todo”. Para ela, um dos principais desafios de Lula é enfrentar a polarização. “Ele precisa conseguir diminuir essa rivalidade que se construiu no bolsonarismo”, diz. Outro desafio é lidar com as “pautas ditas de costume, mas que são pautas de direitos humanos”.

Com Duda Salabert, o primeiro contato ocorreu em 2018, quando Erika compareceu ao lançamento da campanha da política mineira ao Senado. As duas deputadas trans nunca se tornaram amigas, mas mantêm uma boa relação, que Erika define como “tranquila, respeitosa e cordial”. Elas dividem a autoria de dois projetos de lei. Um institui o Dia Nacional da Visibilidade Trans e outro instaura a Política Nacional dos Deslocados Ambientais e Climáticos. Além disso, assinam juntas cinco propostas de emenda à Constituição.

“Acho que seria bem bacana se a gente colaborasse mais”, diz Erika. “Porém, dentro do que é possível hoje, com as limitações impostas pela correria da vida e da política, tanto mais que somos de estados diferentes, até que colaboramos muito.” Salabert pensa que, sendo ambas as primeiras trans no Congresso, é preciso que se fortaleçam inclusive para abrir caminho a outras candidaturas do mesmo tipo e lutar pelos direitos humanos no Brasil. “Nossos mandatos não são focados na minha pessoa, na pessoa da Erika”, afirma Salabert. “Eles representam algo muito maior: são uma resposta da sociedade, dos eleitores, em favor dos direitos humanos, contra o preconceito e no sentido de uma transformação profunda na política e na própria sociedade.”

Salabert acredita que o número altamente expressivo de votos recebidos por ela e por Erika nas últimas eleições demonstra que a sociedade é muito menos afetada pela transfobia que o meio político. “Eu sempre tive o diagnóstico de que o Congresso é uma máquina de moer utopias, sonhos, e também um lugar de adoecimento psicológico, sobretudo de pessoas que representam grupos historicamente excluídos da política”, afirma Salabert.

Ela dá um exemplo de como o preconceito atua no campo político. Pré-candidata do PDT à Prefeitura de Belo Horizonte, Salabert tem aparecido nas pesquisas ora em terceiro, ora em quarto lugar na preferência do eleitor, mas não rompeu o isolamento. “Estamos fazendo uma campanha completamente solitária”, conta. “Se fosse alguém cisgênero e com as mesmas chances eleitorais que eu, vários partidos estariam apoiando numa capital importante como Belo Horizonte. Mas por eu ser uma pessoa trans, não tem nenhum. Grande parte da sociedade não vê problema em ter uma pessoa trans na prefeitura, mas o meio político, por causa do preconceito, vê.”

Vídeo: Gustavo Amora

Nos momentos de folga da política, Erika se aproximou da moda, que a fascina desde a época em que, ainda criança, desfilava no quintal de sua casa em Francisco Morato. Em 2022, durante o baile da revista Vogue no Rio de Janeiro, a agente de modelos Liliana Gomes se entusiasmou ao ver a travesti de 1,75 metro de altura, 92 cm de busto, 69 cm de cintura, 92 cm de quadril, 69 kg de peso, trajando um corset e um quimono assinados por Alexandre Herchcovitch e um acessório de cabeça feito por Walério Araújo.

Gomes se aproximou e disse: “Como você é bonita. Não quer ser modelo?” E deu a ela o cartão de sua agência, Joy Model Management. A deputada acabou perdendo o cartão, mas a pergunta da agente continuou na sua mente. Erika só retomou o contato com a Joy Model depois que a documentarista Chica Andrade, sua amiga, lhe apresentou o agente de modelos Fernando Herbert. Não demorou para que os dois estreitassem os laços, e Erika passasse a transitar pelas coxias da moda e pelos ateliês de estilistas como Paula Raia e Isa Isaac Silva.

O cabelo que alternava entre black power e tranças deu lugar de vez às laces – um tipo mais sutil e refinado de peruca. De início, as usou mais escuras e onduladas, mas no fim de 2022 optou pelas mais claras e lisas. No Instagram, junto a suas fotos, Erika passou a citar os nomes da equipe de beleza, styling e cabelo, além de dar créditos às marcas das roupas e acessórios, como Burberry, Gucci e Emporio Armani – que ela às vezes usa também no Congresso. No dia a dia de Brasília, Erika em geral dá prioridade para looks de alfaiataria e cores mais sóbrias. Quando está em São Paulo se entrega a um estilo mais casual ou dramático.

Em 14 de junho de 2023, Erika foi incluída no casting da Joy ID, departamento da agência responsável por gerenciamento de carreiras. A deputada fala com deslumbramento do fato de ter sido escolhida “pela dona da agência que descobriu a Gisele Bündchen” (é uma imprecisão: a primeira agência de Gisele foi a Elite Models, onde Liliana Gomes trabalhou). Mas logo volta à política. “Se eu chegasse na moda como uma menininha que sonha em ser modelo, talvez eu nem tivesse sido modelo. Eu chego na moda como uma personalidade importante, com relevância social, que representa a moda em um lugar onde a moda nunca pisou”, diz. “Isso me dá um status de quem é uma portadora de bandeira numa guerra.”

Liliana Gomes conta que, na administração da carreira de Erika, pretende fazer pontes com ONGs, parceria com a ONU e inseri-la em debates internacionais. A agência acha que Erika tem potencial como modelo de comportamento. “Ela está no processo de evolução da imagem”, diz Gomes, na sede da Joy, no Jardim Paulista. Quanto à moda propriamente dita, a atuação de Erika vai se circunscrever a editoriais fotográficos que também tratam do mandato dela e à participação eventual em semanas de moda. Para Erika, tudo se encaixa: “A moda é política, tudo é política”, diz. Em novembro do ano passado, ela desfilou para a grife Apartamento 03, do estilista Luiz Claudio Silva, durante a São Paulo Fashion Week. Apresentou-se vestindo um casaco volumoso em vibrante azul-escuro, a maquiagem da mesma cor marcada nos olhos, e a lace lisa e loira à solta.

Essa atividade fashion de um membro do Congresso brasileiro é inusual, mas não proibida, desde que não seja feita no horário de trabalho e não haja conflito de interesses. Apesar disso, a aproximação de Erika com a moda é vista com desconfiança pelos seus colegas de partido. Deputados e assessores ouvidos pela piauí com a condição de não terem seus nomes publicados dizem que essa dedicação reduziu sua participação na vida parlamentar.

De fato, os dados da Câmara dos Deputados mostram que até o fim de julho, Erika só compareceu à metade das sessões de comissões com as quais se comprometeu: foram 71 presenças, 42 ausências não justificadas e 29 ausências justificadas. A ausência de Erika também foi notada no plenário, onde ela registrou presença 114 dias e faltou 48 vezes. Além disso, membros mais à esquerda do Congresso se perguntam até que ponto não há uma contradição entre levantar bandeiras sociais na política e exaltar marcas de luxo nas redes sociais.

Erika diz que recebe poucas críticas diretas sobre sua ligação com a moda, mas que sente a resistência dos colegas, o que não é o suficiente para fazê-la mudar de ideia. “Eu sou uma política que gosta de estar em agendas fora da Câmara e está construindo política para além de reunião na casa do Lira, de reunião da bancada ou de coordenação do grupo de trabalho”, justifica. “Eu estou lá também, mas acho que, se for preciso não estar lá em determinada data para estar em um lugar onde vou me conectar muito mais com a base e com as pessoas de verdade, eu prefiro faltar.”

Apesar das faltas e reclamações, sua produção parlamentar em Brasília não deixa a desejar: até agora ela lançou 57 projetos legislativos e 7 propostas de emenda à constituição. Em seu gabinete, trabalham 21 pessoas, sob a chefia de Flavio Siqueira Junior, advogado que acompanha Erika desde sua saída do mandato coletivo. Nas redes sociais, ela e Gabriel Lindenbach passaram a “reagir ao que está quente, de acionar a Justiça e publicar”, nas palavras de Lindenbach. Deu certo. A mistura de fotos de moda, referências a divas pop, atividades políticas e participações em eventos têm atraído novos seguidores.

“A política é o lugar onde eu precisei estar, onde é importante eu estar, para onde eu fui chamada, convocada. E, como boa soldada que sou, estou na luta e seguirei nela enquanto as pessoas quiserem”, diz Erika. Mas ela não considera que a política seja seu único objetivo de vida. “Não é tudo para mim. Se amanhã eu não me reeleger, meu amor, eu me reinvento. Eu sou uma camaleoa”, afirma. “Vou viver de outra coisa, que provavelmente vai me dar muito mais dinheiro do que a política e com menos desgaste, muito mais glamour e mais tempo livre.”

Erika costuma passar quatro dias por semana em Brasília – de segunda a quinta-feira. Para ela, o clima da capital federal é de solidão. Ainda na quinta-feira, retorna a São Paulo. “Ela chega exausta e tenta evitar falar comigo sobre política. Quero entender mais daquele mundo, mas tento não alimentar a energia pesada”, conta Daniel Zezza, namorado de Erika Hilton.

Eles se conheceram em agosto de 2022, nos bastidores de uma sessão de fotos para a estilista Paula Raia. Ambos estavam vivendo relacionamentos longos, mas Zezza, que trabalha como fotógrafo, chamou a atenção de Erika. “Eu chegava perto, e ela parava de falar, de fazer o que estava fazendo. Eu achava que ela me odiava”, conta ele, rindo. Só depois, ficou sabendo que tinha deixado Erika bem balançada. Passaram-se meses entre aquele primeiro encontro e o início do namoro. Nesse meio-tempo, Zezza terminou a relação de sete anos com a namorada, uma mulher cis. E Erika encerrou seu relacionamento de seis anos com o ator Gabriel Lodi, transgênero que ela conheceu na Caminhada pela Visibilidade Trans de São Paulo e que continua seu amigo até hoje.

Para Zezza, muita coisa mudou desde que os dois começaram a namorar. Ele decidiu mergulhar de vez na transição de gênero. Já tinha experimentado sair de casa com roupas masculinas, mas sofreu uma agressão. Sem apoio da companheira anterior para fazer a transição e nenhum amigo trans, Zezza recuou. Agora, está em processo de hormonização, já fez a mastectomia e está empolgado com o relacionamento transcentrado. “A gente tem uma segurança, é um carinho diferente. O que eu sinto pela Erika hoje é totalmente novo”, ele conta.

O fotógrafo também precisou se adaptar à agenda da namorada. As duas carreiras de Erika impedem viagens de fim de semana e longos períodos de intimidade. Ele tenta participar ao máximo dos compromissos de Erika em São Paulo. Como um fã, Zezza diz que torce para que ela realize seus sonhos. “Os sonhos da Erika são um monte de pequenas coisas que ela vai construindo até se tornarem bem grandes. Mas ela não se abre muito sobre eles. É muito fechada.”

Desde o nascimento de Christofer, o filho de sua irmã Maria Eduarda, Erika passou também a ir com mais frequência a Itu. Ela e Zezza são padrinhos da criança, que tem 7 meses. A aproximação da família tornou-se um dos focos da atual rotina de autocuidado da deputada, que inclui ainda seguir à risca a dieta vegetariana e manter a terapia em dia. No centro de tudo, está o relacionamento com Zezza, no qual Erika busca encontrar – como ela diz – “um ponto de paz”.

Vídeo: Gustavo Amora

Versão anterior deste texto informava erroneamente que Gabriel Lindenbach foi criador do movimento pluripartidário Bancada Ativista e era chefe de gabinete da então vereadora Sâmia Bomfim (Psol-SP). 


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É estagiária de jornalismo na piauí